CdA #71 – Capitão Fantástico

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No último episódio do podcast Cronologia do Acaso do ano, Emerson Teixeira e Tiago Messias se reúnem para uma conversa sobre consumismo, paternidade, influência e liberdade, através da obra “Capitão Fantástico”, dirigido por Matt Ross.

Devemos agradecer a todos por nos acompanharem nesse ano e desejamos boas festas, com muita paz e sorrisos. Nos vemos em breve!

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Procura Insaciável, 1971

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★★★★

O filme começa com canções maravilhosas, principalmente um acústico da música “Love” (Nina Hart) que, interpretada pela própria cantora, chama a atenção tanto pela extravagância e extensão vocal de Nina, quanto pela sua letra que é o perfeito resumo da obra “Taking Off” – o primeiro filme do diretor Miloš Forman nos Estados Unidos:

Acredito, acredito, eu acredito no amor
E caminhando, caminhando pelas ruas
as pessoas que eu encontro
parecem não saber que existe uma palavra
chamada amor

Depois dessa abordagem direta que sintetiza o jovem hippie da década de 70, o espectador simplesmente aceita a sua condição de apreciar uma jornada através da procura incansável e interminável da juventude. O filme intercala a apresentação musical, com rosto de jovens, todas diferentes, mas com a mesma conexão emocional, em rumo à liberdade e desprendimento emocional. Em seguida, a cena corta e vemos um adulto passando por uma sessão de hipnose, ou seja, perdido, fraco.

A força do jovem é, inocentemente, acreditar no amor, isso é o que perdemos e, infelizmente, acaba influenciando a nossa sensação de fracasso ao longo da vida. Seria justo abandonar sempre, guiar-se sempre pelas emoções e caminhar por entre uma estrada escura, tendo como escudo um violão e um cigarro.

“Procura Insaciável” é o verdadeiro relato do homem que se encontra desesperado por ter perdido as esperanças, por ter desacreditado da sua rebeldia transformadora. A história, muito simples, acompanha alguns pais que perderam os filhos para a vida, pois eles fugiram – a maioria tentando buscar um futuro na música – e, nesse processo de procura, estabelecem uma relação saudável um com o outro, refazendo uma união que se perdeu com o tempo, culminando na necessidade de entendimento dos sentimentos dos seus filhos perdidos ( encontrados ), mesmo que para isso tenham que fumar maconha.

A obra é referência até hoje no que diz respeito à filmes que contemplam a vida hippie, usando o tema como guia para algo maior, transitando por entre o conservadorismo, falta de atenção dos pais para com seus filhos, enfim, é surpreende que um tema tão importante e sério como esse seja tratado de forma tão engraçada. O diretor Miloš Forman trouxe muito humor negro, ironia e exagero da New Wave Tcheca, dialogando com a situação dos jovens norte-americanos e propondo uma discussão inteligente.

Sem dúvida a cena mais polêmica, impactante e engraçada é quando o psicólogo de uma “associação dos pais que perderam os seus filhos” propõe para todos que experimentem maconha para entenderem os seus filhos. É a intenção de simbiose, no mesmo tempo que demonstra a ingenuidade e desespero dos adultos que, desavisados, perderam o respeito dos filhos por serem direcionados e convencionais.

Com pequenas participações especiais, como a Kathy Bates, ainda bem nova, cantando e Tina Turner em um concerto, “Procura Insaciável” certamente figura na lista dos melhores filmes hippies, mesmo que se perca em alguns momentos, retoma na direção da crítica social e, nesse aspecto, é extremamente bem-sucedido.

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Capitão Fantástico, 2016

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★★★★★

É raro quando um filme consegue ser poderoso em todos os pequenos detalhes do seu desenvolvimento. Partindo de um núcleo familiar, “Capitão Fantástico” trabalha com a filosofia de modo a criar camadas no que diz respeito à crítica ao consumismo, padrão de vida imposto pela sociedade e relação dos pais para com seus filhos.

O diretor Matt Ross, que assina também o roteiro, parece ter uma ligação profunda com a história, transparecendo carinho com a sua criação e, como consequência, encanta em todos os aspectos. O estilo de vida hippie é visto, por diversas pessoas, como uma forma de protesto ou até mesmo coragem, de fato existe uma ligação direta com o desprendimento.

No filme, acompanhamos a história de uma família. Seis crianças – todas com nomes diferentes, criados por seus pais, de forma a serem únicos nesse mundo – são criados pelo seu pai Ben ( Viggo Mortensen ) em uma floresta. Eles aprendem a caçar, tocam música em volta da fogueira e, se não bastasse, são orientados a ler os mais diversos livros, desde clássicos até teóricos, montando assim uma estrutura organizada e livre, onde a família atinge um patamar elevadíssimo de cumplicidade e vínculo com a terra.

O filme começa com Bodevan ( George MacKay ), o irmão mais velho, caçando um veado. Depois de conseguir tal feito, aparecem os demais personagens que, por sua vez, esperam pelo movimento do pai que destaca que o seu filho acabara de evoluir: menino para homem. Ben mantêm uma relação extremamente dedicada e sensível com os seus filhos, apesar de, no início, soar estranho eles morarem na floresta, aos poucos essa decisão vai sendo desmistificada, até culminar na total identificação com a angústia do pai, que se vê perdido entre as suas próprias crenças e a exposição dos filhos ao perigo.

Ainda sobre a relação de todos, é curioso notar que o pai se preocupa em sempre dizer a verdade para os seus filhos, qualquer pergunta que eles façam. Se mostrando flexível e passional constantemente, sem amarras. É um estilo de vida que, infelizmente, quando associado com a realidade, percebemos que beira o utópico, quando deveria ser o natural. Na família do filme, todos os filhos são preparados para enfrentar a verdade e, por consequência da enorme informação, são proibidos de dar opiniões banais como “interessante“, “legal” etc – em dado momento uma das filhas é pressionada a explicar o porquê do choque ao ler o livro “Lolita”.

É de uma profundidade essa questão, pois é evidente que as pessoas não conseguem atingir um grau de opinião que se desprenda do resumo das coisas, seja um livro ou a sinopse de um filme. A opinião não é basear-se em outrem, mesmo que seja o autor, é utilizar a sua criação como ponto de partida para uma discussão. Contrariar uma escolha não é apenas falar, mas apresentar argumentos. E isso é dito quando, após um dos filhos, comovido pela morte da sua mãe, se revolta com o pai pelo fato de eles não comemorarem o natal como todos.

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Hoje, mais do que nunca, as famílias se isolam. Ninguém se olha, todos no seu canto, fazendo as suas coisas, por isso é emocionante a forma que essa questão é desenvolvida no longa; logo no início, quando ainda estamos acompanhando a rotina da família, percebemos que todos estão olhando para o mesmo ponto, sorrindo pelo mesmo motivo, algo que deveria ser frequente, mas é tão difícil alcançar hoje que é tão irreal quanto um conto de fadas.

A filosofia está presente, ideias de grandes pensadores – há a citação de Platão, por exemplo – mas tudo de forma sutil, os dilemas e consequências desse estilo de vida acontecem de forma equilibrada, sem nunca cair no exagero. Como a relação deles é movido pelo toque, organização e olhar, por diversas vezes existem diálogos que são construídos através de reflexos, principalmente do pai olhando o retrovisor e vendo os seus filhos nos bancos do ônibus – inclusive as crianças sentam no banco conforme as suas responsabilidades, seja intelectual ou sobrevivência.

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Uma cena que destaco é quando eles vão para a cidade e, as crianças, ao perceberem que a maioria das pessoas são obesas, ficam surpresas, comparando-os com hipopótamos, de novo, uma crítica ao consumismo. Mas o maior contraste parece, mesmo, acontecer quando eles ficam na casa de uma outra família – tento aqui me conter para não dar nenhum spoiler – pois há um choque de realidade, enquanto uma família proíbe que Ben fale a verdade e dê vinhos aos filhos, como se fosse algo monstruoso, eles mesmos deixam seus filhos horas e mais horas no tablet com jogos violentos e vídeo games. Qual é a maneira mais correta de educar os filhos? A mentira e apoio à alienação, ou o desprendimento e toque? Mesmo que seja possível educar da segunda forma, a sociedade só aceita a primeira como normal, rastejando-se bem atrás da ignorância.

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Há críticas à religião, todas elas muito simples, partindo de uma ideia básica de manipulação e é por isso, principalmente, que “Capitão Fantástico” é maravilhoso, pois consegue alinhar uma série de questionamentos com a necessidade de se violar. Os personagens são fortes e diferentes, com traços particulares que fascinam, guiados por uma presença paterna poderosa e humilde, dono de um conhecimento grandioso, mas que sempre está disposto a ouvir os seus filhos, Viggo Mortensen realiza, aqui, o seu melhor trabalho. É o personagem que conecta todos os outros, estabelecendo uma relação direta, chegando a provocar sensações ocultas nos filhos, como raiva e fascínio.

Apresentando uma realidade que poderia, facilmente, ser transcrita como a fiel representação de uma sensação de insatisfação. “Capitão Fantástico” têm como mérito essa manipulação, a critica contra o sistema e a ousadia em destacar, com muita sofisticação, algo que está errado, é uma mensagem direta ao sistema, faz refletir sobre a nossa condição e comodismo perante as diversas facilidades da vida moderna que, aos poucos, vão nos matando.

Existe tantas vírgulas entre o monótono do passar dos minutos, existe tanta vida que desperdiçamos por não olhar para o lado, existe um mundo a ser percorrido e experiências a serem sentidas. No entanto, como prisioneiros de uma condição inerte na avidez, nós tornamo-nos, em doses homeopáticas, sementes de uma árvore tóxica. Direcionados à uma existência medíocre e mesquinha, petrificando o intelecto com uma mídia medíocre, assim os homens de cima nos mandam viver;  “Capitão Fantástico” reduz a evolução do homem em arrogância, perversão à sinceridade e prega que somos, senão apenas tentamos, capitães de um navio infinito de possibilidades, amor e compreensão, transformando-nos em entidades que, constantemente, vão sendo fragmentadas e, em última estância, se transformam em esperança. 

#pazamoreempatia

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