Colecionismo, fotografia e sensualidade

Preto, Branco e Cinza ( Black White + Gray: A Portrait of Sam Wagstaff and Robert Mapplethorpe, Estados Unidos/Alemanha, 2007 ) Direção: James Crump

★★★★

Esse documentário fala sobre a vida do colecionador, curador de exposições e artista Sam Wagstaff, principalmente sobre o seu fascínio por fotografias desconhecidas que, por coincidência, refletiam traços da sua personalidade excêntrica e como esse vício/objetivo impactou a vida do seu namorado e fotógrafo Robert Mapplethorpe.

O núcleo do filme acontece entre as décadas de 70 e 80, que apesar de serem opostas, ambas são extremas e refletem bem a personalidade de Sam Wagstaff e Robert Mapplethorpe e como ambos representavam o complemento perfeito para uma face repleta de lacunas tanto emocionais quanto físicas. Sam Wagstaff cresceu em meio a aristocracia, dotado de uma beleza exótica, desde novo era acompanhante da mãe e exalava segurança e domínio. Robert Mapplethorpe, por sua vez, se apresentava ao mundo como um rebelde sem causa, em um primeiro momento é curioso como o documentário trabalha essa relação que funciona como uma catarse para alcançar a autonomia do próprio corpo e sexualidade.

Sam começa, através do seu parceiro e aceitação da sua opção sexual, a descobrir um outro lado da sua persona; corajoso, subversivo, explorador, expositivo, enfim, ele passa a dialogar com uma nova versão de si mesmo, que será ainda mais desenvolvida com a união das suas paixões como artes, colecionismo e fotografia.

Usando a cidade de Nova Iorque como pano de fundo para a autonomia e liberdade de expressão, o documentário – brilhantemente dirigido pelo James Crump, que consegue transitar pelos depoimentos, fotografias maravilhosas e temas com uma fluidez inacreditável – se divide em vários ao transmitir o poder de uma relação que se estrutura, basicamente, em uma simbiose profunda e como esse encontro pode desencadear o surgimento de novos intelectuais e revolucionários, mas também aborda o sentimento de êxtase que a coleção provoca e o poder reflexivo que a fotografia possui, principalmente quando um sujeito está disposto a tentar descobrir um pouco de si em cada imagem que analisa.

É um filme fascinante para amantes de fotografia, pois exalta constantemente essa arte como forma de evolução e diálogo com a sociedade, mas também é uma ode ao colecionador que, com muito carinho e dedicação, reúne diversos objetos que o identificam de alguma maneira. De brinde temos uma grande história de amor e amizade – a cantora punk Patti Smith era muito amiga do casal principal – que serve como mensagem simples e impactante sobre a busca do indivíduo em completar seus medos e ausências com o amor, mesmo que a sociedade o repreenda. As fotografias de Robert Mapplethorpe exalam essa ideia de libertação, revolução sexual e “voz aos homossexuais”, com decisões cruciais na utilização das sombras para criar os contrastes, é um trabalho imprescindível para adoradores de fotografias e apoiadores do movimento LGBT.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Laurence Anyways, 2012

Laurence_Anyways

★★★

Essa crítica faz parte de uma maratona que eu estou fazendo do diretor Xavier Dolan. Até algum tempo, não tinha assistido nenhum dos seus filme e, para me redimir desse erro, estou fazendo sessões em ordem cronológica afim de descobrir a mente e coração desse jovem diretor. Caso queira se aventurar comigo, leia também as críticas sobre “Eu Matei Minha Mãe” e “Amores Imaginários“.

“Laurence Anyways” é o terceiro filme do Xavier Dolan, o espaço de tempo entre o segundo e o terceiro foi maior, dois anos, e a primeira coisa que é possível perceber é a necessidade do diretor em contar uma história diferente, com muito mais profundidade no que diz respeito a sexualidade. Entretanto, se por um lado o jovem foi deixado um pouco de lado nesse terceiro filme, do outro ainda estão presentes certos “vícios” do diretor, como a câmera lenta, uso de boas músicas, filmagem acompanhando o personagem pelas ruas e, principalmente, o uso de cores. 

Na história acompanhamos uma década da vida de Laurence – interpretado maravilhosamente por Melvil Poupaud – que, depois do seu aniversário de 30 anos, resolve revelar para os amigos, namorada e família que deseja se tornar uma mulher, pois se sente como tal. A partir disso será desenvolvido, através de cenas bem singelas e ritmo lento, todo o processo de aceitação e coragem para enfrentar as mudanças, no mesmo tempo que o filme trabalha o lado emocional da namorada do protagonista, Fred – interpretada pela excelente Suzanne Clément – que não consegue aceitar a situação facilmente.

O casal é apresentado com o ritmo acelerado, conhecemos pouco, no início, além da paixão descontrolada entre eles e a postura livre e despreocupada. O que é bem interessante e funciona para o entendimento da história, visto que no segundo e terceiro ato a história se arrasta demais, sendo um reflexo da própria maturidade.

Assim como ressaltei nas críticas anteriores sobre os filmes do Xavier Dolan, os objetos da casa são muito importantes para a compreensão simbólica da psicologia dos personagens, no entanto me aprofundar aqui seria me repetir, pois apesar de ter admirado essas mensagens subliminares em “Eu Matei Minha Mãe“, em “Laurence Anyways” se transforma em algo pouco inovador. Esse é um ponto fraco do terceiro trabalho de Dolan, o diretor, muito provável que seja pela idade, teima em repetir truques desnecessários.

No entanto, algo que volta a fazer muito bem é o uso das cores, se em “Amores Imaginários” o azul era uma cor crucial, nesse terceiro o vermelho assume tal importância, talvez maior. Desde as primeiras cenas o casal cita o vermelho e é possível perceber que a cor soa como uma entidade mística que envolve os dois. Percebam – aliás, é difícil não perceber – que durante boa parte do filme o cabelo da Fred – namorada do protagonista – é vermelho, ela só muda a cor quando vai se distanciando do seu amor ou de quem foi um dia.

A câmera subjetiva, utilizada com frequência desde o início, dá um tom interessante a trama, nos posicionando nas angústias do protagonista, admirando um mundo repleto de julgamentos. Não à toa o diretor faz questão, muitas vezes, de filmar os personagens em segundo plano, sempre escondidos atrás de uma parede, de forma que eles sejam “engolidos” pelo cenário. É visualmente estranho essa decisão – principalmente por conta do uso com frequência – mas remete diretamente aos sentimentos das personagens.

Se existe toda a capacidade e incapacidade do diretor, o outro lado e, talvez, o que mais me encanta no Xavier Dolan é sua capacidade de escrever roteiros tão sutis e, no mesmo tempo, impactantes. É de grande importância que exista um hino ou representante dos filmes LGBT, e o mais incrível é que Dolan ultrapassa essa barreira e desconstrói tudo para falar sempre de amor. Nem mesmo o ritmo fraco do filme tira a profundidade das suas personagens: Laurence é a representação do homem moderno, mergulhado em indecisões, ele passa a enxergar a vida de outra forma, sendo representado pela troca de identidade. No mesmo tempo que a sexualidade é importante, não é a maior importância, pois o diretor pretende analisar o homem sensível, independente de qualquer outra coisa. Um ponto importante do personagem é que ele, mesmo com a decisão de se assumir mulher, é hétero, o que gera ainda mais confusão na namorada e família, e que representa fielmente a ignorância da população em questões como gênero, identidade de gênero e orientação sexual.

A namorada, por sua vez, é a sem dúvida a personagem mais interessante, pois os impactos de toda a mudança do filme cai sobre ela, a ousadia e coragem de Laurence o isenta de melancolia, enquanto Fred, sua namorada, não está preparada para tal atitude. A menina agitada e rebelde dá lugar a uma perdida, Suzanne Clément cria uma personagem maravilhosa através de olhares, expressões corporais e protagoniza uma das cenas mais lindas que eu já vi no cinema: quando surta com a gerente de uma cafeteria, de modo a se proteger e proteger o namorado do preconceito que os atinge constantemente.

O filme é, sem dúvida, uma preciosidade para ser sentida com muita entrega, é uma verdadeira ferramenta de evolução pois aborda um tema pesadíssimo de forma sutil, quase imperceptível. A borboleta, que culturalmente representa a transformação, nunca aparece em momentos importunos, pois vivemos sempre atrás de uma outra vida e outras oportunidades. E, no final do filme, quando o cabelo de Fred já não é mais vermelho e fica claro que a moça se desprendeu do passado, ela pede licença para Laurence e entra em um banheiro com paredes vermelhas, como se fosse prisioneira de algo que viveu, prisioneira de um sentimento. Quem não é, afinal?

  • Isso é uma revolta?
  • Não, uma revolução.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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