A Cortina Carmesim, 1953

A Cortina Carmesim ( Le rideau cramoisi, França, 1953 ) Direção: Alexandre Astruc

Um oficial (Jean-Claude Pascal) passa alguns dias na casa de uma família burguesa e se apaixona pela filha do casal (Anouk Aimée). É preciso começar as observações com a própria família que, abrigada em uma mansão luxuosa, não falam, não se olham e não demonstram nenhum tipo de sentimento, mesmo assim a atração do oficial pela jovem Albertine é cercada de dilemas, provocando medo e desejo no protagonista, que também assume a narração – inclusive ela se aproxima bastante do livro “Lolita”, escrito por Vladimir Nabokov, lançado dois anos depois, pois demonstra com perfeição o homem sendo destruído pelo conflito entre o desejo e a ética.

 Os demais personagens não falam durante os quarenta e quatro minutos do filme, são imagens representando a situação que o oficial se encontra, portanto a narração é importante pois funciona como um diário, encontrando o caminho da compreensão do personagem da forma mais rápida e envolta de muita poesia. A paixão acontece abruptamente e morre na mesma velocidade, deixando uma sensação amarga seja no protagonista ou em quem assiste – prova disso é que o diretor, na segunda metade, passa a filmar os seus protagonistas com um espaço reduzido dentro da mansão.

Mesmo com a pouca duração, é possível perceber um brilhante uso dos objetos como forma de auxiliar o roteiro, um exemplo é quando Albertine fica diante de um espelho, como se a sua imagem se desprendesse da condição de opressão; algo que será mais trabalhado com a posição da personagem na mesa de jantar que, consecutivamente, causa dúvidas no narrador sobre suas reais intenções quando, na verdade, são bem óbvias: o movimento indica uma tentativa de liberdade.

O final, apesar de ser desenvolvido rapidamente, indo ao desencontro da forma que vinha sendo exibida até então, deixa uma mensagem clara sobre o quanto o homem é cabível de esquecer um sentimento em prol da sua própria vaidade e reputação. Enfim, é uma boa história, contada com uma fotografia oportuna e direção segura, traz ainda, de brinde, uma participação da lindíssima e talentosa Anouk Aimée.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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O Que Está Por Vir, 2016

O Que Está Por Vir ( L’avenir, França, 2016 ) Direção: Mia Hansen-Løve

★★★

2016 certamente foi um ano precioso na carreira da excelente Isabelle Huppert – pessoalmente considero a melhor atriz ainda em atividade no cinema mundial – pois, pegando como exemplo dois dos seus filmes lançados no Brasil, além de um deles, “Elle”, ter uma interpretação considerada forte o suficiente para ser indicada ao Oscar – e, se a premiação for justa, sairá vencedora – tanto no já citado filme do Paul Verhoeven quanto em “O Que Está Por Vir” ela têm a oportunidade de trabalhar com personagens femininas de imagem e postura fortes, lidando com os sentimentos mais profundos com muita classe, ocultando a fraqueza com as expressões fortes e equilibradas.

Dirigido pela Mia Hansen-Løve de forma intimista, suavizando os movimentos de câmera e dando importância gigantesca ao cenário e como as personagens ocuparão o espaço, todos os elementos básicos parecem favorecer a sua protagonista, é como se a diretora percebesse o potencial reflexivo da sua trajetória e, da forma mais simplista possível, construísse um monumento ao seu redor como iniciativa de contemplação do cotidiano abalado por uma decisão egoísta que, em nenhum momento, é julgada. Essa sincronia entre a direção e o roteiro acontece pois Mia Hansen-Løve assina ambos; outro motivo claro é que a história é uma homenagem a sua mãe, uma professora de filosofia.

O filme acompanha a professora de filosofia Nathalie (Huppert) que possui como obrigação, enquanto educadora, permitir que seus alunos pensem por si, motivando reflexões sobre questões profundas, acontecimentos atuais e política sem a necessidade de uma implementação de ideias prontas – algo que fica evidente nas primeiras cenas, onde a professora se recusa a realizar um debate em sala onde os alunos, consecutivamente, esperavam ouvir a sua posição política. Sua vida, aparentemente, dialoga com a completude, inclusive financeiramente, mas a sua mãe cobra atenção por conta da avançada idade e a relação com o marido, que dura vinte e cinco anos – pode estar em processo de transformação por conta de uma possível traição.

O título e a tradução sugerem a posterioridade. O longa é inteligente ao oferecer, em seu prólogo, mensagens rápidas e profundas sobre o “depois”. Como as ondas do mar, Nathalie se depara com o percurso de entender-se só, aceitando a sua condição de caminhante em meio à diferentes princípios – ela possui um passado ativo politicamente e, no auge da idade, se sente conservadora.

Se não bastasse, a obra representa um dilema presente na vida de muitas mulheres que, influenciadas pelas ideias abomináveis da sociedade e da mídia, se veem invalidadas ao chegar na terceira idade, como se a “idade avançada” representasse somente a espera da morte, um ponto final nesse grande texto chamado vida. A morte certamente está por vir, mas nem por isso escraviza uma existência.

O movimento das ondas vão e vêm, mas durante esse movimento infinito existem diversas situações, diversos momentos a serem investigados com entrega e ousadia. A protagonista, após a separação, passa a se estudar, reinventando-se para, na posterioridade, descobrir-se sobre outra perspectiva – algo que será transmitido em planos que a diretora dá uma importância grande, no quadro, para a paisagem, como se o meio estivesse ofuscando o brilho da protagonista.

É de se notar a sensibilidade na singela construção narrativa como no final que a protagonista é filmada entre as paredes do seu quarto, da mesma forma que o marido no começo, provocando a sensação de que toda relação é positiva pois transforma, independente do tempo que se mantenha. O Que Está Por Vir é simples na composição, mas profundo na abordagem, pois não há maneiras de ignorar o quão especial é a jornada de evolução: com a mãe, um aluno e o ex-marido Nathalie interage com o passado; com os filhos e a nova gata, Pandora, ela sente o presente e assim vai se preparando para o próximo dia, onde o natal é comemorado sem um integrante importante da família, mas nem por isso perde a sua luz.

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A arte e o amor contra a ambição de um dia melhor

Divinas ( Divines, França, 2016 ) Direção: Houda Benyamina

★★★★★

A palavra “divina” é muito comum, mas dificilmente encontramos, em meio à rotina, uma boa forma de aplicá-la em nossa vida. O motivo é simples: divino, em síntese, é aquilo que está acima da compreensão humana, é a aceitação do sobrenatural e reflexão sobre os limites da nossa intelectualidade.

A ironia se encontra justamente na grandiosidade do seu significado e banalização no seu uso, visto que o maior elo do ser com qualquer plano superior e místico é, sem dúvidas, o seu próprio processo de evolução. Nesse ponto podemos sempre citar os jovens que, no auge dos seus primeiros contatos com o desprendimento, se veem diante à uma floresta interminável e escura chamada “crescer”.

“Dividas”, primeiro longa-metragem da diretora Houda Benyamina, busca na palavra uma metáfora maravilhosa com o desabrochar. É o exemplo perfeito de uma obra que discute não só a ânsia de uma jovem perante um mundo de facilidades, como também a sua reação diante as infinitas vírgulas que a vida coloca em nossos caminhos – no caso do filme, a mais evidente é a arte, pois a protagonista se apaixona por um dançarino que a faz repensar sua vida no crime.

A história começa e fica visível a narrativa realista, o uso inteligente da câmera que, através dos seus movimentos, transmite um estilo que beira o documental, tornando a realidade uma essência para o desenvolvimento. Se não bastasse, elementos técnicos como a baixa profundidade de campo em momentos cruciais, isola a protagonista do mundo que vive, o que será trabalhado ao longo por conta da ambição da garota em crescer financeiramente e se diferenciar, nem que para isso precise roubar ou vender drogas.

A personagem principal, Dounia – interpretada brilhantemente pela promissora Oulaya Amamra que também fez o curta-metagem “Belle Gueule” – é dotada de carisma, força e espontaneidade, junto com a sua amiga Maimouna ( Déborah Lukumuena ) batalha inconscientemente para fugir do seu lugar, para criar um futuro diferente da decadente mãe e, por fim, para ter sucesso.

O gueto que ela mora apresenta dois ideais completamente distintos, – algo que será ainda mais trabalhado no segundo e terceiro ato – as crianças crescem entre a religião e o crime, a vida terrestre, aquela que deveria ser divina, é desmanchada e transformada em maldição, pois o sucesso só abraça os ricos.

O contraste de mundos é refletido nas músicas que tocam ao longo, transitando entre o clássico e o hip hop, a maneira abrupta que são cortadas sugere a intromissão, como se a própria arte entrasse na casa da sua outra versão sem bater na porta. Mas essa dicotomia fica evidente com um terceiro personagem: Djigui.

Djigui é dançarino, expressa constantemente os seus sentimentos e os vivência intensamente, ele luta para conseguir um papel em um espetáculo e têm, como talismã,  Dounia, que passa a assisti-lo e contemplar a beleza dos seus movimentos. A protagonista se vê encantada com o desprendimento mais visceral que existe, a arte, e começa a questionar as suas próprias decisões, o filme passa a investigar a pergunta “o que acontece quando o amor se torna o objetivo ao invés da ambição do crescimento?”.

O amor e a arte remete, muitas vezes, a estagnação, como um “agora” que não tem pressa, um momento bom que não quer ser esquecido e assim por diante. Dounia não vive o seu presente, pelo contrário, suas ambições, estão estritamente ligados ao dinheiro, estão relacionados com o futuro – uma cena que ilustra isso é quando ela simula estar dirigindo uma Ferrari – então a obra assume uma importância gigantesca em trabalhar a arte e o amor como uma maturidade concentrada no hoje, que afasta a protagonista por conta do medo desse sentimento.

Com diálogos incríveis, “Dividas” apresenta a diferença, tanto de expectativas quanto de escolhas e suas consequências, por isso as danças são filmadas em plongée – de cima para baixo – demonstrando que Dounia se sente superior aquela expressão artística, algo que será contestado no final, onde a própria garota está jogada no tapete, ensanguentada. Aliás, os cortes rápidos no final são bem próximos à cultura de rua, ainda é inteligente em entrecortar a dança de forma que pareça se tratar de uma coreografia de hip hop – a utilização do som nesse momento assume uma importância gigantesca.

Divino é a possibilidade de enfrentar obstáculos e entregar-se as pequenas chances que temos, algo que Dounia aprende nesse processo de pegar atalhos fáceis para se alcançar o fim. Vítima de sua condição e personalidade, Houda Benyamina coloca muita esperança em sua obra para, depois, fragmentar suas personagens, como um alerta, como um documentário que investiga fatos; a menina que tanto sonhou com futuro, aprende que o hoje é o melhor dia para ser vivido.

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( Curta ) Belle Gueule, 2015

Verão de Sarah

★★★★

Sarah é uma jovem de 16 anos que trabalha vendendo rosquinhas na praia. Tendo o seu pai como parceiro, a menina visivelmente realiza o seu trabalho com pouco entusiasmo, ainda assim com um bom grau de responsabilidade.

Em uma noite, no parque, encontra um garoto chamado Baptiste. Um parisiense, aparentemente abastado. Mesmo que os dois estejam vivendo, e enfrentando, mundos completamente diferentes, surge um sentimento. No entanto, a proposta principal do curta é, a partir desse encontro, desenvolver o sentimento de vergonha que Sarah sente pelo seu trabalho.

Dirigido pela Emma Benestan com bastante consciência, o curta é impecável quanto a fotografia e demais elementos técnicos. Em vinte e cinco minutos desenvolve a narrativa com uma maturidade grande e, melhor, sem erros.

A história, felizmente, ultrapassa o clichê do romance repleto de diferenças e aborda uma questão extremamente presente no mundo do jovem: a autoaceitação. Além de desmistificar, sempre de forma respeitosa, a linha tênue que separa o jovem do adulto. Sarah, mesmo se esforçando para trabalhar, se vê inebriada com a oportunidade de ser livre – representado pela figura do Baptiste.

Como contraponto, temos o seu pai, uma figura simples e que, através dele, o espectador consegue transitar entre a empatia com os sentimentos confusos da personagem e o realismo de um adulto, enxergando aquela impulsão adolescente como uma mera fase.

O curta faz com que nos perguntemos o que é, de fato, a humilhação e, ainda por cima, fecha com uma cena – entre filha e pai – que representa nitidamente a compreensão em ambas as partes. “Belle Gueule” ou “O Verão de Sarah” consegue ter qualidade, mesmo em meio à diversas atuações medianas.

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Espírito de Lobo, 2016

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“Espírito de Lobo” é o novo filme do diretor Jean-Jacques Annaud que, na maioria dos seus trabalhos, se dedicou a investigar a história da humanidade; obras como “O Nome da Rosa” e A “Guerra do Fogo” ultrapassaram a sua importância no audiovisual e atingiram diretamente a educação.

Em seu mais recente filme ele acompanha o jovem Chen Zhen, em plena década de 60, na China, que é enviado para viver com os nômades do interior da Mongólia. Em prol aos estudos e, ao mesmo tempo, terá a oportunidade de ensinar as crianças do local. Com a experiência ele têm a possibilidade de refletir sobre as diversas condições de vida e, principalmente, as similaridades que o homem possui com os lobos, uma metáfora para a sobrevivência, estratégia e força.

O filme é uma perfeita mistura das obras da Byambasuren Davaa, principalmente o “Caverna do Cachorro Amarelo” e, também, o filme da Islândia “Cavalos e Homens“. Isso porque nos mostra a vida dos nômades, algo que a diretora mongol faz com extrema competência nos seus documentários, inclusive com uma sensibilidade bem parecida; e se assemelha com “Cavalos e Homens” na sua contemplação do animal como forma de estabelecer uma conexão com o homem. Há ainda uma dedicação em discutir, nas entrelinhas, a natureza como uma força projetada no respeito para com todos os seres vivos.

Como a narrativa se apoia na naturalidade, há diversos intervalos de silêncio para a reflexão. O longa parece querer propor ao espectador, constantemente, uma viagem ousada. Adentrando uma forma de vida completamente diferente, onde o cultivo e o contato com a terra representam uma obrigação e o avanço intelectual é a aceitação dessa condição.

O protagonista chega ao interior com a oportunidade de ensinar, mas o faz em poucos momentos. Rapidamente a sua arrogância de menino estudado da cidade grande dá lugar a um tímido aprendiz, olhando o seu redor com muito fascínio por sentir vida em cada grama e sentir amor em cada lobo, mesmo que o animal represente a força, sobrevivência e morte, Chen Zhen os enxerga como seres superiores, deuses da inteligência, e existe um quê de milagre nessa percepção.

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De todos os animais, o lobo é um dos raros que representam coisas bem distintas, todas com a mesma força e repleta de significados. Em uma primeira camada, ele representa, em diversas culturas, o bem, por estar diretamente ligado com a força, agilidade e inteligência. Por outro lado, é sabido que há muito tempo o lobo tem sido atribuído ou mencionado como um ser envolvido com o mal. O interessante é que o que transforma ele nessa rede de diversas possibilidades é justamente as suas virtudes, ora, é difícil confiar nos estrategistas.

Essa ideia de poder, unido com inúmeras outras características do lobo – como por exemplo o fato dos casais permanecerem juntos a sua vida inteira, ou seja, estruturação da família – nos faz compreendermos o porquê da grandiosidade do filme, resgatar todos esses conceitos e estabelecer uma conexão entre todos os personagens e dilemas, com isso, criar uma ponte com quem assiste, é realmente algo maravilhoso. Com um visual hipnotizante, ressaltando sempre as cores e a grandiosidade da paisagem – que envolve os personagens, culminando em uma cena que o protagonista adentra uma pequena caverna para pegar um filhote de lobo que se escondia dentro – é fácil creditar “Espírito de Lobo” como um ensaio sobre a fé, da forma mais pura que existe, contemplando o real, compreendendo que a caça e, consecutivamente, a morte, fazem parte da vida.

É citado ao longo Gengis Khan, que estudou estratégia com os lobos. E tem muita relevância essa observação, pois o filme fala de movimentos. Os jovens embarcam para uma jornada no interior, os lobos se locomovem para sobreviver, os nômades transitam para criar, enfim, existe uma sincronia a ser registrada, de forma tão carinhosa e orgânica, como o vento.

Esse desenvolvimento aprazível nos lembra da virtude em estar diante a vida, lembrando que sobreviver e viver são coisas bem diferentes mas, assim como os lobos, a dicotomia pode entrar em comunhão, mesmo que por um breve instante.

Resgata ainda cenas de verdadeiras batalhas, homem enfrentando os animais, a natureza e o seu próprio medo. Assistir filmes como “Espírito de Lobos” é entregar-se à um ritual, onde só apreciam aqueles que se doam por completo. Não à toa o diretor abusa dos closes nos lobos, como uma forma de nos aproximar do perigo, ou até mesmo estabelecer uma conexão com os deuses. Lembrando que em diversas culturas indígenas, os lobos também sempre foram a representação da magia na terra.

Shaofeng Feng dá ao seu personagem, Chen Zhen, uma doçura estonteante, a cada olhar demonstra uma humildade, reduzindo-se a um servo da vida, atônito diante a grandiosidade da natureza.

O filme têm como maior mérito essa intenção de transformar o simples e visual em poesia, exaltando aquilo que não se olha, de uma forma que não se sente. Brincando com o improvável e desmistificando a ingenuidade. Somos seres primatas primando pela singularidade, caminhando em direção a morte, mas, nem por isso, esquecendo de fazer uma épica jornada a caminho de uma explicação.

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À Sombra de Uma Mulher, 2016

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★★★★★

Esse filme me chamou a atenção por inúmeros motivos, dentre eles, a simplicidade e realismo, maravilhosas características do diretor Philippe Garrel. Mas nada me tocou tanto do que os dois personagens centrais, o casal Manon ( Clotilde Courau ) e Pierre ( Stanislas Merhar ).

Contudo, após terminar de assistir esse filme, me peguei pensando que, talvez, o motivo do meu fascínio por esses singelos personagens, se encontre no fato de que eles são documentaristas. Grande parcela da minha identificação partiu dessa conexão de ambos, criadores e sobreviventes, tão pouco e tanta arte. Enfim, é algo mostrado de forma extremamente natural e que me conquistou desde o primeiro momento.

Com poucos minutos de duração, o diretor percorre uma história de incertezas que, aparentemente, não pretende chegar a lugar nenhum; ledo engano, há alguns artistas que pronunciam mil palavras em um silêncio. Existe muitas coisas a serem ditas sobre o final de uma relação e Philippe Garrel sabe disso.

Com a narração de Louis Garrel, filho do diretor, somos conduzidos a admirar a beleza da verdade, a incoerência da traição e questionar as relações do homem. Manon e Pierre fazem pequenos documentários, sobrevivem do pouco, criam, mas não estão completos. Estranho é imaginar algo assim, parece ser perfeito encontrar um outro alguém que abrace os mesmos projetos que você. Mas, repetindo, Maron e Pierre fazem documentários, isso quer dizer que são devotos da verdade. Eles existem e se adaptam ao meio, no mesmo tempo que, nas suas intimidades, sofrem com a ausência um do outro, sempre em silêncio e nunca registram isso, nunca desabafam, diferentemente do documentário que produzem.

Uma cena linda é quando Maron e Pierre assistem a um filme e dão as mãos, como se existisse uma série de conexão entre eles: as mãos, ele e ela, eles e o filme, o filme e as mãos. É tudo muito sútil, a fotografia preto e branco, as músicas delicadas, a linguagem cotidiana, enfim, tudo muito bem pensado e que nos leva para uma viagem deliciosa e impactante.

Por diversas vezes Pierre parece se camuflar, a mais explicita cena é quando ele está sentado em uma escada e se confunde com o cenário, parece não ser ninguém ou apenas mais um, a forma como essa questão é trabalhada é interessante.

Para desestabilizar o casal, entra em cena a Elisabeth – interpretada pela Lena Paugam – e ela começa uma relação com Pierre, se torna a sua amante. Importante é que ela sempre fica na sombra dos dois e se consome justamente por essa posição.

“você está me vampirizando”

“À Sombra de Uma Mulher” é uma preciosidade, analisa o relacionamento e as suas diversas questões com uma maturidade impressionante. Seriam as traições uma fuga do óbvio ou um medo da sensação de completude?

É curioso notar que, no momento que Pierre e Manon estão passando por problemas, ambos não filmam, como se deixassem de criar para serem criados. E, assim, somos todos nós, protagonistas das nossas pequenas histórias indecifráveis.

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Laurence Anyways, 2012

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★★★

Essa crítica faz parte de uma maratona que eu estou fazendo do diretor Xavier Dolan. Até algum tempo, não tinha assistido nenhum dos seus filme e, para me redimir desse erro, estou fazendo sessões em ordem cronológica afim de descobrir a mente e coração desse jovem diretor. Caso queira se aventurar comigo, leia também as críticas sobre “Eu Matei Minha Mãe” e “Amores Imaginários“.

“Laurence Anyways” é o terceiro filme do Xavier Dolan, o espaço de tempo entre o segundo e o terceiro foi maior, dois anos, e a primeira coisa que é possível perceber é a necessidade do diretor em contar uma história diferente, com muito mais profundidade no que diz respeito a sexualidade. Entretanto, se por um lado o jovem foi deixado um pouco de lado nesse terceiro filme, do outro ainda estão presentes certos “vícios” do diretor, como a câmera lenta, uso de boas músicas, filmagem acompanhando o personagem pelas ruas e, principalmente, o uso de cores. 

Na história acompanhamos uma década da vida de Laurence – interpretado maravilhosamente por Melvil Poupaud – que, depois do seu aniversário de 30 anos, resolve revelar para os amigos, namorada e família que deseja se tornar uma mulher, pois se sente como tal. A partir disso será desenvolvido, através de cenas bem singelas e ritmo lento, todo o processo de aceitação e coragem para enfrentar as mudanças, no mesmo tempo que o filme trabalha o lado emocional da namorada do protagonista, Fred – interpretada pela excelente Suzanne Clément – que não consegue aceitar a situação facilmente.

O casal é apresentado com o ritmo acelerado, conhecemos pouco, no início, além da paixão descontrolada entre eles e a postura livre e despreocupada. O que é bem interessante e funciona para o entendimento da história, visto que no segundo e terceiro ato a história se arrasta demais, sendo um reflexo da própria maturidade.

Assim como ressaltei nas críticas anteriores sobre os filmes do Xavier Dolan, os objetos da casa são muito importantes para a compreensão simbólica da psicologia dos personagens, no entanto me aprofundar aqui seria me repetir, pois apesar de ter admirado essas mensagens subliminares em “Eu Matei Minha Mãe“, em “Laurence Anyways” se transforma em algo pouco inovador. Esse é um ponto fraco do terceiro trabalho de Dolan, o diretor, muito provável que seja pela idade, teima em repetir truques desnecessários.

No entanto, algo que volta a fazer muito bem é o uso das cores, se em “Amores Imaginários” o azul era uma cor crucial, nesse terceiro o vermelho assume tal importância, talvez maior. Desde as primeiras cenas o casal cita o vermelho e é possível perceber que a cor soa como uma entidade mística que envolve os dois. Percebam – aliás, é difícil não perceber – que durante boa parte do filme o cabelo da Fred – namorada do protagonista – é vermelho, ela só muda a cor quando vai se distanciando do seu amor ou de quem foi um dia.

A câmera subjetiva, utilizada com frequência desde o início, dá um tom interessante a trama, nos posicionando nas angústias do protagonista, admirando um mundo repleto de julgamentos. Não à toa o diretor faz questão, muitas vezes, de filmar os personagens em segundo plano, sempre escondidos atrás de uma parede, de forma que eles sejam “engolidos” pelo cenário. É visualmente estranho essa decisão – principalmente por conta do uso com frequência – mas remete diretamente aos sentimentos das personagens.

Se existe toda a capacidade e incapacidade do diretor, o outro lado e, talvez, o que mais me encanta no Xavier Dolan é sua capacidade de escrever roteiros tão sutis e, no mesmo tempo, impactantes. É de grande importância que exista um hino ou representante dos filmes LGBT, e o mais incrível é que Dolan ultrapassa essa barreira e desconstrói tudo para falar sempre de amor. Nem mesmo o ritmo fraco do filme tira a profundidade das suas personagens: Laurence é a representação do homem moderno, mergulhado em indecisões, ele passa a enxergar a vida de outra forma, sendo representado pela troca de identidade. No mesmo tempo que a sexualidade é importante, não é a maior importância, pois o diretor pretende analisar o homem sensível, independente de qualquer outra coisa. Um ponto importante do personagem é que ele, mesmo com a decisão de se assumir mulher, é hétero, o que gera ainda mais confusão na namorada e família, e que representa fielmente a ignorância da população em questões como gênero, identidade de gênero e orientação sexual.

A namorada, por sua vez, é a sem dúvida a personagem mais interessante, pois os impactos de toda a mudança do filme cai sobre ela, a ousadia e coragem de Laurence o isenta de melancolia, enquanto Fred, sua namorada, não está preparada para tal atitude. A menina agitada e rebelde dá lugar a uma perdida, Suzanne Clément cria uma personagem maravilhosa através de olhares, expressões corporais e protagoniza uma das cenas mais lindas que eu já vi no cinema: quando surta com a gerente de uma cafeteria, de modo a se proteger e proteger o namorado do preconceito que os atinge constantemente.

O filme é, sem dúvida, uma preciosidade para ser sentida com muita entrega, é uma verdadeira ferramenta de evolução pois aborda um tema pesadíssimo de forma sutil, quase imperceptível. A borboleta, que culturalmente representa a transformação, nunca aparece em momentos importunos, pois vivemos sempre atrás de uma outra vida e outras oportunidades. E, no final do filme, quando o cabelo de Fred já não é mais vermelho e fica claro que a moça se desprendeu do passado, ela pede licença para Laurence e entra em um banheiro com paredes vermelhas, como se fosse prisioneira de algo que viveu, prisioneira de um sentimento. Quem não é, afinal?

  • Isso é uma revolta?
  • Não, uma revolução.

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O Segredo de Eleonor, 2009

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★★★★

As animações francesas possuem, na sua maioria, um visual maravilhoso, geralmente contrastando a delicadeza e infantilidade com temas profundos e, em algumas oportunidades, densos.

O charme que já é característico do país também se torna muito presente nas animações, conquistando público de todas as idades, seja através da naturalidade que se desenvolve o roteiro, as belíssimas canções ou os personagens marcantes.

“O Segredo de Eleonor”, dirigido por Dominique Monfery, que trabalhou também no curta “Destino”é mais uma prova de que a França é um dos países com maior talento para encantar o mundo com seus longas animados, junto, é claro, do Japão, no entanto os dois se diferenciam muito. 

O filme conta a história de um garotinho Nathaniel que, desde o início é mostrado como o irmão mais novo que é obrigado a ouvir as provocações da irmã, a maioria das provocações fazem referência ao seu tamanho mas, uma em especial, o machuca muito: não saber ler.

Nathaniel, apesar de ser incrivelmente criativo, ainda não consegue ler, está passando por dificuldades na escola. No entanto, a sua aproximação com a leitura é muito íntima, visto que anos antes sua tia, Eleonor, lia muitos contos de fadas para ele. Nas férias, a família retorna a casa de campo e o menino revive algumas lembranças boas da sua tia que, infelizmente, faleceu momentos antes. Ela, porém, guarda alguns segredos, o maior deles é sobre livros.

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A primeira coisa que chama muito atenção é o uso das músicas, a cena inicial traz uma bem obscura, logo em seguida os personagens vão aparecendo e a cada minuto vai se tornando mais suave. Representando a confusão vivida pelo protagonista em um mundo onde a sua liberdade criativa não é o suficiente.

A leitura e a palavra estão muito presentes nesse filme, assim como a irrelevância dessas duas quando não há a imaginação e interpretação. Seria a leitura apenas uma decodificação de símbolos ou uma oportunidade real de criar sobre uma criação? Fica nítido, desde o início, que Nathaniel interpreta mais o mundo e as palavras do que sua irmã, a relevância desse conteúdo quase investigativo é enorme, podendo ser facilmente trabalhado em escolas, por exemplo, auxiliando a desmitificação da imposição da leitura no nosso dia a dia.

A leitura serve para nos fazer felizes, sem obrigações. E é exatamente esse tema central do filme, pois o garoto se torna uma espécie de guardião dos personagens dos contos de fada que sua tia lia para ele, a trama se desenvolve de forma muito parecida com “Toy Story 2”, o que se torna uma grande homenagem, pois as intenções são outras e tão grandiosas quanto.

Curioso notar que a personagem que mais encanta o menino – e que será a sua parceira na aventura – é Alice. Demonstrando mais uma vez a grandiosidade dessa personagem clássica, remete-nos ao seu desdém durante a leitura de um livro sem imagens, ainda por cima quem lia era sua irmã. Outro elo claro entre os dois é a capacidade quase compulsiva de sonhar e de se desprender.

“O Segredo de Eleonor” é excelente, tem doses de humor mas em nenhum momento anula a profundidade proposta desde o início. Se torna uma viagem mágica através do autodescobrimento e maturidade, tudo de forma bem orgânica e despretensiosa.

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Amores Imaginários, 2010

Les Amours Imaginaires

★★★

Xavier Dolan, em seu segundo trabalho, esquece temporariamente a questão familiar e se preocupa em dissecar o interesse romântico e como se dá esse processo, principalmente na cabeça de um jovem – o que, de fato, não está atrelado exclusivamente a idade – e se estende para uma tentativa de mensurar a intensidade da entrega ou até mesmo esperança que temos em um outro alguém.

A vida é repleta de encontros, o homem, por consequência, é envolto de desejos, então é questão de segundos o processo de se apaixonar, no mesmo tempo que é fácil se enganar sobre tal sentimento, bem como a decepção é bem comum. Uma dúvida sempre permanece presente: será esse sentimento recíproco?

Onde se encontra o limite em enxergar no outro uma possibilidade de romance e estar completamente cego? O fato é que nunca chegaremos a uma resposta para isso, no entanto existe a certeza de que nossos primeiros contatos com essa questão se dá na adolescência e, como já mostrado no seu trabalho anterior, Dolan se revela especialista em desenvolver trabalhos completamente identificáveis. O fato de ser jovem, sem dúvida, faz com que essa necessidade de desabafo seja muito mais intenso; ele é um jovem, falando sobre jovens e para jovens.

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Era de se esperar que depois do estrondoso sucesso de “Eu Matei Minha Mãe”, o diretor adquirisse uma maturidade maior e isso acontece, seu segundo filme se trata de uma obra diferente, porém, traz consigo algumas coisas que prejudicam o resultado.

Partindo de uma premissa por si só envolvente, o longa nos mostra um jovem chamado Francis ( Dolan ) e sua amiga inseparável Marie ( Monia Chokri ) que conhecem Nicolas ( Niels Schneider ), um jovem bonito e espontâneo, e ambos se apaixonam por ele.

Continuando com suas manias já características de câmeras lentas e acompanhamento dos personagens de costas, o diretor tenta desenvolver esse arco de forma excepcional e diferenciada, porém esse esforço se torna frágil por diversas vezes dentre tantos exageros.  Por exemplo, em seu primeiro filme, o já citado “Eu Matei Minha Mãe”, o uso da câmera lenta é sutil e muito apropriada as circunstâncias, já no segundo chega um momento que se torna simplesmente cansativo. Outro ponto e, sem dúvida, o mais prejudicial: no primeiro existem inserções de confissões, onde o próprio protagonista desenvolvia um monólogo interessantíssimo, aqui no seu segundo filme Dolan parece querer ampliar isso e traz outras pessoas devaneando sobre relacionamentos, o problema é que acontecem em momentos chaves, onde o ápice dos acontecimentos ainda estão sendo calculados pelo espectador quando, subitamente, Dolan corta abruptamente esse processo com as inserções. Ou seja, ele sabota a sua própria obra.

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Tirando esses fatores que acabam ofuscando a qualidade do filme, Xavier Dolan ainda continua fazendo jus ao seu incrível trabalho com detalhes. Nessa obra temos uma preocupação quase frenética com o figurino, os dois amigos que estão interessados em um objeto – pessoa – em comum, vivem uma confusão de sentimentos e por esse motivo precisam de deslocar do senso comum. O figurino assume uma importância gigantesca em destacar cada momento e o estado psicológico dos personagens. A utilização do azul e vermelho é evidente, porém, Marie é a única que se mantém constantemente próxima ao vermelho, os demais personagens ficam mesclando azul e vermelho, de modo a contemplar com mais afinco não só o interesse romântico como a barreira existente entre os dois em relação a opção sexual, afinal, durante toda a projeção o espetador – e personagens – nunca sabe ao certo qual é a opção sexual do Nicolas que parece tentar seduzir tanto Marie quanto Francis.

Marie é sem dúvida uma personagem pouco carismática, usa constantemente o vermelho – saltos altos, batom, blusa, saia etc – porém o significado forte que essa cor exala como paixão e sensualidade fica muito mais no campo da pretensão do que realidade. Existe uma barreira na moça que a impede de tomar uma iniciativa maior, talvez seja a própria maturidade. Por outro lado, Francis se doa completamente ao seus sentimentos, contrastando também com sua vestimenta, afinal, ele usa bastante o azul.

É válido ressaltar ainda uma cena em que Francis se masturba cheirando uma camisa do Nicolas, essa camisa é vermelha, como se fosse uma masturbação em prol a uma personalidade que se perderá em meio a um desespero em estar só.

No primeiro filme do diretor, a casa da mãe era um exemplo perfeito de como o cenário é importante para contar uma história. Em “Amores Imaginários” ele abusa das cenas exteriores, fazendo da rua o seu aconchego. Citações ou imagens de Audrey Hepburn e James Dean – símbolos do desprendimento – também se tornam extremamente relevante em ambos filmes.

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O cover da música Bang Bang que aparece bastante, principalmente nas cenas em que Francis e Marie estão se produzindo afim de alcançar a sua presa, é bem interessante. A música exala uma atmosfera brega e grandiosa e a letra ainda apresenta coisas importantes:

Bang bang,
Ele atirou em mim Bang bang,
eu caí no chão
Bang bang, aquele som terrível
Bang bang, meu querido me atingiu

Todo triângulo amoroso é, de certa forma, uma brincadeira, uma violação das regras e dos padrões impostos pelas sociedades. Essa música demonstra que, muito mais do que uma brincadeira, se trata de uma guerra, onde a produção, brincadeiras e os momentos particulares os aproximaram de seu alvo, no mesmo tempo que só haverá espaço para dois. Esse é o tiro da conquista e tanto Francis quanto Marie foram atingidos pela bala da paixão.

Quer forma mais intensa, infantil, crua de traduzir um triângulo amoroso sendo desenvolvido por um menino de vinte anos?

Ainda há oportunidades para cenas onde o trecho “Ele atirou em mim Bang bang,
eu caí no chão” seja desenvolvido literalmente, em uma cena onde Francis e Nicolas estão brincando na floresta.

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“Amores Imaginários” é um filme esteticamente perfeito, fotografia delicada e ângulos cuidadosos, características do Xavier Dolan. Ele realiza mais um bom trabalho, apesar das fragilidades se comparado ao seu primeiro trabalho. No entanto, se trata de uma exímia investigação sobre a busca do seu humano pela sua maravilha, traduzida aqui como o Nicolas. Não a toa, logo no início do filme, temos uma referência clara a “Alice no País das Maravilhas”, quando Francis está tentando pegar um coelho, esse animal o levará ao país das maravilhas, onde as emoções assumem o coração, deixando o individuo completamente cego em relação a falta de reciprocidade do amor platônico.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Amélie – Refúgio em um Mundo Inventado

“Quando o dedo aponta o céu, o idiota olha para o dedo”…

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Tarde chuvosa. Casal de jovens inebriados pela possibilidade da fuga. Depositando um no outro toda a confiança que lhes é cabível. Não conhecem os sentimentos, não conhecem o desejo, tampouco enxergam em seus próprios reflexos a ousadia da liberdade. Eles fazem amor pela primeira vez.

E do amor, todos nós surgimos. Diferentes orgasmos, diferentes momentos e iniciativas. Mas sempre começa com o olhar, parte para o encontro e permanece na entrega. Existem pessoas que já conhecemos e transmitem os mesmos sentimentos mas são, tão somente, distantes pelo tempo. Nós viemos de um mesmo começo e vamos nos libertando/desprendendo para o outro fim.

Quantas outras possibilidades existem, senão, imaginar? Quanta omissão quando se deveria apenas amar. “Amar-se” seria uma benção, mas o “amar-te” toma conta de nós. Quantos (re)encontros acontecem e quantas despedidas são necessárias. Quantas responsabilidades e quantas delas deveriam ser prioridades? Quantas vezes fizemos sorrir e quantas vezes nos deixaram chorar. Só quem amou conhece a dor que é sonhar.

Sonhar é ou deveria ser obrigação da existência. Desviamo-nos desse caminho para enfrentar uma realidade sem graça. Onde a busca se tornou vã, acomodando os não-sonhadores e transformando o “mesmo” em preciosidade ilusória.

Uma mosca capaz de bater as asas 14.670 vezes por minuto pousa em uma rua, no mesmo tempo que um senhor apaga o endereço do amigo que acaba de falecer. O endereço, que pode ser traduzido como o seu abrigo no mundo, já não é mais necessário. Portanto, devo perguntar-lhe: Porque o homem sente necessidade de se fixar? Fixar em um local, emprego, em um ou vários corações?

No mesmo instante que Eugéne Colére apaga a existência do amigo – mas consegue apagar do seu coração tão facilmente? – um super espermatozoide de Raphael Poulain conhece o óvulo da senhora Poulain. A existência é um ciclo, dá oportunidade para infinitos heróis fazerem a diferença em um mar transbordando de igualdade. Vem ao mundo uma menina chamada Amélie Poulain.

 Jean-Pierre Jeunet colecionou memórias desde 1974 para realizar “Le Fabuleux Destin D’Amélie Poulain” e nos créditos iniciais já deixa claro que a protagonista seria uma das maiores figuras da história do cinema mundial, quiça, da arte. Uma menina, com ar de inocência e segurança intimidadora, realiza inúmeras atividades que exploram e mostram com exaustão toda a sua criatividade. A paleta de cores, sempre vibrantes e com tendências ao verde e vermelho, dá um tom onírico a apresentação da personagem, que por sua vez é inundada pela vida. A vida que é necessária sonhar pois Amélie é uma criança que não recebe carinho.

“Amélie tem seis anos, como todas as meninas gostaria que o seu pai a abraçasse às vezes, mas eles só tem contato físico durante o exame clínico mensal. A menina, radiante por essa intimidade excepcional não pode impedir o coração de acelerar. O pai, assim, crê que ela é vítima de uma anomalia cardíaca…”. 

Que exame cardíaco é esse? Quão figurativo se torna os batimentos do coração da menina com a aproximação de seu pai? Por sua anomalia, oriunda da indiferença do pai em relação a solidão de sua filha, Amélie é obrigada a estudar em casa, ausentar-se do mundo e desconhecer o processo de crescimento. Nesse meio caótico, ela consegue percorrer o passar do tempo, mantem intacto sua ousadia e continua sonhando, mesmo que o crescimento transforme essa pequena-grande atitude em algo abominável.

Com uma câmera fotográfica Amélie brinca de criar. Transforma as nuvens, os momentos, até que alguém lhe diz que essa pequena atitude tem grande impacto na realidade e, por consequência, provoca desastres. A menina, inocentemente, credita a si mesmo a responsabilidade de todos os males do mundo, como se tudo e todos existissem em prol a ela. Engraçado como vamos adquirindo, com o tempo, a sabedoria de que nossa presença nem sempre é crucial para o andamento das coisas. Somos mais um, nem por isso comum.

Amélie cresce e foge. Ela se ausenta da necessidade do comodismo e busca nos pequenos detalhes uma resposta. Ela olha com um binóculo pela janela o homem de vidro, um senhor com problemas nos ossos/coração que, por motivos pessoais/medo, se proíbe de sentir a vida e se limita/imita a desenhar os seus sentimentos. Um deles, por sinal, se trata de menina, diferente de todas as outras, que segura um copo de água na mão. Ela está presente, rodeada de pessoas, mas parece saltar da tela, como se gritasse por ajuda, implorando por atenção. Ela representa um lado trágico da felicidade, o outro lado de todas as coisas, o sonho dentro do caos e a esperança em plena guerra. Ela representa Amélie.

Homem de vidro: Ela prefere imaginar uma relação com alguém ausente do que criar laços com aqueles que estão presentes.
Amelie: Pelo contrário. Talvez faça de tudo para arrumar a vida dos outros.
Homem de vidro: E ela? E as suas desordens? Quem vai pôr em ordem?

O homem de vidro, sábio e ignorante na mesma proporção, busca compreender sua criação no mesmo tempo que, assim como o pai de Amélie, não dá atenção aos detalhes. Ele não percebe que Amélie segura um copo de água no exato momento que ele tenta entender a “menina diferente do quadro que segura um copo”, ele nem ao menos percebe que se trata do diretor do filme. Como uma metalinguagem, podemos traduzir o filme “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain” como uma obra prima, um quadro que o homem de vidro guarda em sua parede. O vidro do homem é o diretor Jeunet e todos artistas que criam seus personagens e doam pedaços deles mesmos para suas criações.

O homem de vidro é, ao mesmo tempo, o sábio e o aprendiz, afinal, ele é a Amélie sem a iniciativa de fazer aquilo que quer. Amélie não é apenas uma única mulher, ela é um conceito. Existe em muitos de nós.

Além de todos os personagens do filme terem um destaque e importância gigantesca para a compreensão da obra, muitos deles representam um espaço ou ausência da protagonista. Amélie pensa tanto nos outros que esquece dela mesma, portanto, temos uma personagem secundária que é hipocondríaca. Ela pensa e prevê uma série de infecções, mas se entrega facilmente ao “vírus do amor”. Seria isso um erro? O erro encontra-se justamente na previsão, pois tudo é tão incoerente que se torna impossível aferir.

Sempre estamos fazendo os mesmos movimentos, seguindo os mesmos passos e acordando nos mesmos horários. O tempo se dá permissão de ser depressa e, quando percebemos, nem ao menos nos damos conta do porquê. Como Dominique Bretodeau: ele teve uma vida, brincou, se divertiu e sorriu. Escondeu todo um momento em uma caixa e somente ela restou do passado. No passado, aqui imagino, se sentiu invencível, inconfundível, exclusivo e imortal, contraste com o que se tornou. Amélie revive em um desconhecido o prazer de se conhecer novamente. Ela transforma o mundo e faz os cegos enxergarem exatamente o que vê, mesmo que a própria luz de realidade queime os seus olhos diante a sua fraqueza.

A força e fraqueza de Amélie parte exatamente da mesma coisa, assim como o ser nasce do amor. Amélie é diferente de todos os outros e tão igual ao processo de amar. Se torna enigmática, abstrusa, irrefutável e tão… incerta. Não há certezas no amor.

Cabe a você e eu questionar: Amélie opera a favor do outro ou dela mesma? Não seria a sua ingerência um pouco gananciosa? Amélie é uma caixa vazia, preenchendo-se com as experiências que enfrenta, um mundo surreal que traduz exatamente a sua personalidade.

Amélie Poulain é a moça com o como de água nas mãos, em meio a crise se destaca como uma agente da modificação. Contornando as dificuldades e a realidade com muita cor, muito vermelho, muita arte. Teima, mesmo que como um processo de contradição, demonstrar sua força através do registro. Transformando o inimaginável em amigo íntimo, aliás, tudo se torna tão íntimo.

Como os melhores e maiores impressionistas, Jean-Pierre Jeunet descreve minha vida e de muitos, faz-me sentir feliz somente pela oportunidade de sentir o vento. Me sinto distante de tudo e tão próximo, tão rico e pobre, relembro todas as coisas que vivi e que poderia ter vivido. A loucura é um bom dia para se experimentar. Um dia, dentre vários, que se perderão, como um grão de areia que se sente invisível e pouco valorizado por ser só mais um.

Nesse momento penso em tudo, no porquê escrevo, no porquê vim, estou e para onde vou. Não consigo parar de imaginar o amor e o quanto por ele já sofri, sem nem ao menos entendê-lo. O amor não se sente feliz em ter o seu nome pronunciado em vão. O amor deve ser uma criança triste olhando pela janela de casa a rua que, tomada pela água da chuva que cai, proíbe todas as outras crianças de brincarem na rua.

O amor esta em meu coração, esperando pelo inesperado de dizer coisas sérias brincando, dormir no abraço mais gostoso e seguro do mundo e dizer tudo aquilo que preciso. Pena que o mundo não é mais um bom lugar para os sonhadores. Contudo, eu não sou feito completamente de vidro e aguento os baques da vida.

No mesmo tempo que um ser caminha só pela rua e pensa em por um fim nos seus problemas, uma menina nasce do outro lado do mundo. O seu primeiro choro soa como sinfonia nos ouvidos do seu pai que, sendo desprezado pela sua família, jura a si mesmo que será o maior pai de todos.

Na mesma noite, um menino intrinsecamente romântico tenta fingir não ter sentimentos. Mal sabe ele que no próximo dia encontrará uma menina que lhe amará tanto, ao ponto de se esquecer dela mesma.

E, na madrugada, enquanto todos dormem, Emerson Teixeira escreve ao som de “Comptine d’Un Autre Été” tudo o que precisava sobre “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”. Minutos antes ele caminhou até a janela e sentiu uma leve brisa em seu rosto, enquanto observava com atenção o silêncio e ficou feliz por estarem todos bem. 

“Estranho o destino dessa jovem mulher, privada dela mesma, porém, tão sensível ao charme das coisas simples da vida…”

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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