Fotografia como arma contra o totalitarismo

e023595b3f032c73f7f352781b1e336387cfb600

A Cidade dos FotógrafosLa Ciudad de los Fotografos, Chile,2008) Direção: Sebastián Moreno

Esse documentário Chileno reforça o poder da fotografia como registro da verdade e, mais do que isso, captura de sentimentos, arma de protesto e rebeldia, ferramenta que dá poder e voz ao povo, que imortaliza o tempo e funciona como um documento histórico.

Em 80 minutos acompanhamos relatos de destemidos fotógrafos e fotojornalistas que documentaram as greves e protestos durante a ditadura militar de Augusto Pinochet no Chile. Esses homens e mulheres impulsionaram a revolução através do registro, incentivaram a subversidade com a utilização de câmeras e captaram um período obscuro em grupo, exigindo concentração e coragem.

Documentários sobre fotografia me conquistam facilmente, ainda mais quando possui alguma relevância social ou filosófica, como é esse o caso. Surpreendente desde o primeiro momento, o documentário dirigido pelo Sebastián Moreno é justo em utilizar o período histórico como contexto para os verdadeiros protagonistas. Os fotógrafos são presença constante nos relatos e é impressionante a distribuição de pontos de vistas, além de ser uma experiência maravilhosa aprender história com imagens e com aqueles que as produziram.

Há ainda espaços para brilhantes ideias sobre a união como elemento crucial para a revolução, coragem e rebeldia, esses fotógrafos representaram muito para o povo que, alimentados pelo registro, moviam-se em direção à sua liberdade. A fotografia, em geral, se tornou a segurança dos civis pela certeza de que seriam lembrados através das imagens, que seus movimentos e as consequências seriam imortalizadas e que suas lutas seriam sentidas eternamente como um ato heroico.

Em dado momento os fotógrafos afirmam que o governo começou a se sentir ameaçado por eles, muitos intrusos tentaram entrar no grupo, mas os fotógrafos descobriam o disfarce pelo manuseio da câmera. Como consequência, as revistas foram obrigadas pela censura a retirarem todas fotos de suas páginas, como se fosse possível banir do mundo o seu reflexo. O totalitarismo atinge diversas camadas sociais, mas não consegue compreender e oprimir a arte, portanto, a própria opressão transforma a arte em arma.

O documentário possui uma força impressionante, sendo extremamente necessário tanto para quem quer estudar a história do Chile, quanto para fotógrafos. É a arte como entidade do caos, movida pela coragem de homens e revolução de um povo.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

More Posts - Website

Follow Me:
TwitterFacebookGoogle PlusFlickrYouTube

Colecionismo, fotografia e sensualidade

Preto, Branco e Cinza ( Black White + Gray: A Portrait of Sam Wagstaff and Robert Mapplethorpe, Estados Unidos/Alemanha, 2007 ) Direção: James Crump

★★★★

Esse documentário fala sobre a vida do colecionador, curador de exposições e artista Sam Wagstaff, principalmente sobre o seu fascínio por fotografias desconhecidas que, por coincidência, refletiam traços da sua personalidade excêntrica e como esse vício/objetivo impactou a vida do seu namorado e fotógrafo Robert Mapplethorpe.

O núcleo do filme acontece entre as décadas de 70 e 80, que apesar de serem opostas, ambas são extremas e refletem bem a personalidade de Sam Wagstaff e Robert Mapplethorpe e como ambos representavam o complemento perfeito para uma face repleta de lacunas tanto emocionais quanto físicas. Sam Wagstaff cresceu em meio a aristocracia, dotado de uma beleza exótica, desde novo era acompanhante da mãe e exalava segurança e domínio. Robert Mapplethorpe, por sua vez, se apresentava ao mundo como um rebelde sem causa, em um primeiro momento é curioso como o documentário trabalha essa relação que funciona como uma catarse para alcançar a autonomia do próprio corpo e sexualidade.

Sam começa, através do seu parceiro e aceitação da sua opção sexual, a descobrir um outro lado da sua persona; corajoso, subversivo, explorador, expositivo, enfim, ele passa a dialogar com uma nova versão de si mesmo, que será ainda mais desenvolvida com a união das suas paixões como artes, colecionismo e fotografia.

Usando a cidade de Nova Iorque como pano de fundo para a autonomia e liberdade de expressão, o documentário – brilhantemente dirigido pelo James Crump, que consegue transitar pelos depoimentos, fotografias maravilhosas e temas com uma fluidez inacreditável – se divide em vários ao transmitir o poder de uma relação que se estrutura, basicamente, em uma simbiose profunda e como esse encontro pode desencadear o surgimento de novos intelectuais e revolucionários, mas também aborda o sentimento de êxtase que a coleção provoca e o poder reflexivo que a fotografia possui, principalmente quando um sujeito está disposto a tentar descobrir um pouco de si em cada imagem que analisa.

É um filme fascinante para amantes de fotografia, pois exalta constantemente essa arte como forma de evolução e diálogo com a sociedade, mas também é uma ode ao colecionador que, com muito carinho e dedicação, reúne diversos objetos que o identificam de alguma maneira. De brinde temos uma grande história de amor e amizade – a cantora punk Patti Smith era muito amiga do casal principal – que serve como mensagem simples e impactante sobre a busca do indivíduo em completar seus medos e ausências com o amor, mesmo que a sociedade o repreenda. As fotografias de Robert Mapplethorpe exalam essa ideia de libertação, revolução sexual e “voz aos homossexuais”, com decisões cruciais na utilização das sombras para criar os contrastes, é um trabalho imprescindível para adoradores de fotografias e apoiadores do movimento LGBT.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

More Posts - Website

Follow Me:
TwitterFacebookGoogle PlusFlickrYouTube

#02 – [ Três Quadros ] – The Eyes of My Mother ( 2016 )

Depois de um bom tempo, retorno com a coluna especial [Três Quadros] onde, basicamente, escolho três fotografias de um filme e tento entender qual a relevância desses quadros para o contexto do filme, sempre priorizando uma abordagem filosófica.

A coluna têm como intenção ressaltar o quanto uma imagem pode representar infinitas ideias e significados para um filme.

A obra escolhida dessa vez é o terror “The Eyes of My Mother”, de 2016, dirigido por Nicolas Pesce e cujo diretor de fotografia é o Zach Kuperstein. O longa é repleto de significados, principalmente na intenção de dialogar com a crueldade e apatia, teve a sua estréia em Sundance nesse ano e é, sem dúvida, um dos maiores representantes do bom terror de 2016.

Vamos então as escolhas:

1)

Essa primeira imagem é para usar como exemplo do excelente trabalho com a luz que existe no filme. Nesse momento, a luz cria a silhueta da filha e do seu pai, em uma imensidão de escuridão, reforçando inclusive a ideia de que eles são sombras, imagens borradas do que seria uma família feliz, sã e unida.

2)

Como o filme é dividido em três capítulos, nada mais justo que escolher fotografias que destaquem bem o que cada ato representa para o desenvolvimento da história. A segunda foto escolhida traz um momento de perseguição e o mais interessante nela é que por acompanharmos o movimento das personagens através da janela, é como se ela representasse a barreira entre o espectador e a vida da família, ou até mesmo a família e o mundo exterior.

Outro detalhe interessante, adentrando no espaço dos símbolos, é que a divisão da janela forma uma cruz invertida e os retângulos superiores dividem o “abusado” do “abusador” – se é que podemos classificar alguém nessa obra.

A cruz invertida traz consigo diversos significados. De imediato, é possível remeter ao satanismo que têm como estrutura de pensamento o avesso ou negação dos dogmas cristãos. Portanto, dado o contexto do filme, é de se notar que existe a pretensão de ressaltar a subversidade da vida da protagonista, bem como a sua crueldade.

3) 

Esse plano aberto acontece no último capítulo intitulado “família”. Ironicamente, a imagem demonstra a solidão e pequenice da protagonista, tornando-a invisível diante aos olhos da sociedade mas, nem por isso, menos perigosa. O perigo encontra-se justamente no seu desprendimento.

As árvores como destaque representam a natureza que, claramente, consome a protagonista. A natureza traz consigo a sensação de normalidade, enquanto a estrada, na parte inferior, simboliza o caminho que será palco de mais uma crueldade e abuso.

Enfim, esses foram os três quadros escolhidos. Em suma, o filme é maravilhoso sob a perspectiva fotográfica, preocupando-se com composições pouco comuns, de forma a demonstrar o psicológico de suas personagens.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

More Posts - Website

Follow Me:
TwitterFacebookGoogle PlusFlickrYouTube

#01 – [ Três Quadros ] – Os Inocentes ( 1961 )

menina na carruagem

Hoje estréia aqui no [Cronologia do Acaso] uma nova coluna, que será chamada de [Três Quadros]. Basicamente eu vou pegar um filme e escolher três cenas/fotografias e explicar o porquê elas chamaram a minha atenção e o motivo da relevância para a história do filme.

O primeiro filme que selecionei é o clássico de 1961, “Os Inocentes”. Dirigido pelo Jack Clayton e adaptado do livro “The Turn of the Screw”. Eu já escrevi sobre esse filme, você pode ler clicando aqui, é interessante a leitura pois contextualizará melhor as fotografias.

Escolhi “Os Inocentes” pois, ao meu ver, se trata de uma das melhores fotografias na história do cinema. Ela consegue transmitir com perfeição todos os dramas das crianças e a tensão da protagonista, no caso a governanta.

A direção de fotografia do filme foi assinado pelo Freddie Francis, conhecido também por trabalhar ao lado de David Lynch em filmes como “O Homem Elefante”, “Duna” e “História Real”.

Vamos então as escolhas:

1)

divisão entre protagonista e empregada novamente

Essa foto foi escolhida para representar diversas outras ao longo do filme que destacam a separação entre a governanta e a empregada. As duas representam posturas diferentes e dialogam com a mansão de forma distinta. As grades no centro e do lado direito transmite a ideia de que a protagonista é prisioneira da mansão e dos seus desejos.

Por outro lado, a empregada está posicionada de forma bem sugestiva, sua cabeça está em encontro com um quadro que, suponho, seja da família. Algo que sentimos sobre a personagem: sua imparcialidade por conta do compromisso em cuidar da casa e das crianças.

divisão entre protagonista e empregada novamente - Explicação

2)

Tres elementos principais - crianças, cuidadora e empregada

Além da representação do oposto por parte da governanta e empregada através de grades ou objetos em cena que as separara, por algum motivo, as crianças também assumem uma importância e representatividade. A fotografia acima acontece logo após a segunda aparição de um fantasma e estabelece a ordem e características desses três elementos.

As crianças estão em primeiro plano, de costas, olhando o “embate” ou a contradição. A governanta está no meio e, pelo fato de suas vestes serem escuras, ela acaba se misturando com as sombras – vai perdendo a sua identidade e assumindo outra função -, no mesmo tempo que a empregada, lá em baixo, está envolta de muita luz, como se representasse o equilíbrio da casa. Equilíbrio esse que também guarda segredos, repare na sombra atrás dela.

Tres elementos principais - crianças, cuidadora e empregada - explicação

3)

Reflexo da empregada no rosto da protagonista-vert

Sim, são duas imagens mas a primeira imagem é a qual escolhi. No entanto é curioso a segunda, que é a sua sequência. Esse momento é quando a governanta sente, do lado de fora da janela, a presença de um homem, esse homem inclusive já está morto. Ela sai da casa e olha pela janela, para dentro, da mesma forma que a aparição fantasmagórica fez. Se não bastasse a ironia, ainda vemos o reflexo da empregada se aproximando, como se existisse uma rápida simbiose entre as duas.

Logo depois elas se separam e, novamente, temos a impressão de que ambas estão distantes por causa das grades da porta.

Reflexo da empregada no rosto da protagonista-vert 2

Essas foram as três fotografias escolhidas. Esse filme é muito interessante sob a perspectiva fotográfica pois, sem dúvida, a fotografia só existe para complementar, não para clamar por atenção, são sutis e muito bem aceita pelo diretor que, com toda a sua capacidade, cria uma obra perfeitamente sincronizada.

Se vocês tiverem sugestões de filmes, por favor, deixe nos comentários, será uma honra analisar e aprender com vocês!

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

More Posts - Website

Follow Me:
TwitterFacebookGoogle PlusFlickrYouTube

Como e por onde começar a estudar cinema?

Como começar a estudar cinema

– Você estudou cinema na Universidade?
– Não, eu não estudei na Universidade. Eles que me estudaram

( Filme “Memórias”, dirigido por Woody Allen )

É sempre a mesma coisa, com o fascínio adquirido pela sétima arte, basta pouco tempo para adentrarmos nesse mundo e procurar o máximo de informações possíveis. Antes de explicar o porquê dessa postagem, seria interessante esclarecer a minha história com o cinema e como vejo e sinto o “estudo sobre cinema” nesse mundo virtual onde todos são especialistas em todas as coisas.

Posso dizer que sou amante do cinema desde cedo. Lembro-me de ter uma infância muito boa, era quieto e criava muitos mundos diferentes com o auxílio do audiovisual. Tinha poucos brinquedos, mas os poucos eram verdadeiras preciosidades e era só pegá-los que eu começava a simular os filmes que eu tinha visto no mesmo dia. Os filmes que eu mais recriei eram os principais do meu ídolo na época: Bruce Lee.

Ainda, com uns cinco anos, eu lembrava de filmes famosos do Van Damme e Sylvester Stallone e fazia uma verdadeira mistura. Então eu imagino, no auge da minha obsessão por cinema, que esses foram os primeiros indícios que eu seria filho do audiovisual, aquilo pertencia a minha alma, eu criava sobre criações.

Muitas coisas aconteceram na minha vida, que fortaleceram o lado da experiência e me distanciaram um pouco do cinema. Só quando tinha treze anos, morando em dois cômodos, que fui aprender a me posicionar diante da vida e compreendi a verdade sobre o meu vazio existencial. Assistindo “Magnólia”, do Paul Thomas Anderson, eu percebi que nunca foi por acaso, a arte é o meu propósito na terra, sentir e doar-me na mesma proporção.

E, assim, dos treze anos aos dezoito eu tinha como meta assistir dez filmes por semana, no mínimo, o que daria uns quinhentos por ano. Mas eu fazia questão de diversificar bastante, foi nesse tempo que conheci basicamente tudo que se tornaria os exemplos perfeitos do real poder do cinema para mim, obras iranianas, suecas, chinesas, sul coreanas, francesas, enfim. Enquanto me perdia na vida, com todos os vícios que ela proporciona, do outro lado me apegava à arte e sentia que aos poucos era salvo.

O que quero dizer contando a minha história, é que eu fui encontrado pelo cinema. Nunca me foi imposto nada, eu simplesmente o amei mais do que tudo e depositei nele todas as minhas expectativas. Com isso, quero criar uma conexão com você, leitor, pois tenho certeza que se ama cinema, com certeza se identificou de alguma forma com o que descrevi acima. Agora tenha certeza que esse artigo é para você, vamos lá:

O que é estudar cinema?

Chaplin

Quando comecei a escrever sobre cinema, ainda no Blogspot, eu o fazia de forma completamente despretensiosa. De forma extremamente subjetiva, eu ia desabafando sobre o que eu sentia e, por muitas vezes, nem escrevia sobre o filme em questão, só sobre sentimentos.

Essa postura foi um professor para mim, pois pude compreender melhor que há uma carência por esse estilo, pois até hoje encontro gente que lê os meus textos desde aquele tempo, ou seja, criou algum tipo de identificação, pois era tudo muito visceral. No mesmo tempo, que surgia em mim a necessidade de entender cinema de forma mais teórica, até porque um ano depois eu conseguiria um emprego onde desenvolvi projetos educacionais que se misturavam com o cinema e fotografia, algo como um “cineclube educacional”.

Então, a partir da minha concepção do estudo de cinema, disponibilizarei a seguir algo como um guia, uma série de indicações para aqueles que, como eu, querem estudar cinema por conta própria, até porque sabemos que o estudo acadêmico é uma realidade distante para muitos.

Primeira Parte: Arte

Tarantino Caricatura

Se nós pegarmos a história da crítica cinematográfica, o mais interessante é justamente quando ela se mistura com a própria arte. A crítica isolada de qualquer sensibilidade é entediante, pois ela acaba desperdiçando uma oportunidade bem significativa de adentrar em um mundo de insanidades, onde o texto se transforma na própria arte.

Veja o trecho a seguir:

Ontem a noite estive no Reino das Sombras”. Se vocês pudessem imaginar a estranheza desse mundo! Um mundo sem cores, sem som. Tudo aqui – a terra, a água, e o ar, as árvores, as pessoas -, tudo é feito de um cinza monótono. Raios de sol cinzento num céu cinzento, olhos cinzentos num rosto cinzento, folhas de árvores que são cinzentos como a cinza. Não a vida, mas a sombra da vida. Não o movimento da vida, mas uma espécie de espectro mudo. Tenho de procurar me explicar aqui antes que o leitor creia que fiquei louco ou demasiado condescendente com o simbolismo. Eu estava no Café de Aumont e vi o Cinematógrafo Lumière, as fotografias animadas. Esse espetáculo cria uma impressão tão complexa que duvido que se possa descrever todas as suas nuanças. Todavia, vou tentar transmitir o essencial. Quando as luzes se apagaram na sala em que nos mostram a invenção dos irmãos Lumière, uma grande imagem cinzenta – sombra de uma gravura ruim – aparece de repente na tela; é Une rue de Paris.

Essa é considerada a primeira crítica cinematográfica da história, perceba uma diferença crucial no que diz respeito a subjetividade, o autor Maximo Gorky faz questão de descrever a sua experiência diante ao audiovisual, essa experiência por si só o coloca como um homem navegando em um oceano de emoções, essa própria experiência pode ser traduzida como arte e se sustenta sozinha. O papel da crítica é envolver, seja para o conhecimento ou sensibilidade. Agora, quem define quem é o bom crítico é o público.

Pegamos como outro exemplo a revista Cahiers du Cinéma, quem escrevia sobre cinema eram jovens como Éric Rohmer,Jacques Rivette, Jean-Luc Godard, Claude Chabrol e François Truffaut, que, sob a autoridade do maravilhoso André Bazin, revolucionaram o “pensar cinema”, inclusive todos eles virariam grandes diretores, entrando para a história e representando verdadeiras mudanças na linguagem cinematográfica.

A primeira parte dos nossos estudos é, portanto, uma extensão dessa ideia. Que é preciso ser a arte, respirar a arte e conhece-la para, posteriormente, compreender o cinema; Então indico à todos que querem começar, que volte um pouco, com calma, e pesquise sobre a história da arte.

Leia tudo o que puder, frequente cursos, converse com especialistas, enfim, construa o seu conhecimento sobre a arte e essa necessidade do homem em entregar-se ao registro. Na Arte na pré-história, por exemplo, você poderá fazer um diálogo prazeroso entre a história do desenvolvimento humano e as técnicas que ele utilizava para fazer as pinturas rupestres, mais do que isso, você irá perceber que a arte se misturava com o misticismo o que, curiosamente, sempre discuto nas críticas sobre os filmes que analiso.

Ainda na história da arte, no seu desenvolvimento, é questão de tempo compreender que as diversas culturas e crenças redefiniram o modo de pensar arte. Ainda há os problemas sociais e transformações políticas. Por isso a arte no Egito antigo, arte na idade média, arte bizantina, arte grega, arte gótica, arte renascentista e arte surrealista são de extrema importância para compreender o ser humano.

Livros que eu recomendo:

  • A História da Arte ( 1993 ) – Ernst Gombrich 
  • Tudo Sobre a Arte – Stephen Farthing
  • Arte moderna: do iluminismo aos movimentos contemporâneos – Carlo Argan
  • Isso é Arte? – Will Gomperty

Obs: Os que estão em negrito, são os que eu considero os mais importantes ou aqueles que julgo serem interessantes para começar os estudos.

Segunda parte – Teatro

Marlon Brando

Não existe um bom diretor que não compreenda o trabalho de um ator. A arte da performance dá um tom elegante ao conhecimento cinematográfico pois esse mergulho na criação, através do corpo, pequenos gestos e expressões, é a forma mais incrível de criar a partir do mais simples possível. Todos nós somos cabíveis da encenação, essa arte é intrínseca no ser, a própria mentira é uma fábrica de brincadeiras e o ator utiliza essa maldição em benefício da arte.

Dê atenção a um teórico do teatro chamado Antonin Artaud. Ele foi um sujeito subversivo que divulgou conceitos interessantes onde misturava o teatro com o caos e, ao meu ver, essa é a ideia que sintetiza a atuação.

“A tragédia em cena já não me basta. Quero transportá-la para minha vida. Eu represento totalmente a minha vida. Onde as pessoas procuram criar obras de arte, eu pretendo mostrar o meu espírito. Não concebo uma obra de arte dissociada da vida.” – Antonin Artaud

Livros que eu recomendo:

  • O Teatro e seu Duplo – Antonin Artaud
  • História mundial do teatro – Margot Berthold
  • A Preparação do Ator – Constantin Stanislavski
  • A Construção da Personagem – Constantin Stanislavski
  • Um Ator Invisível – Yoshi Oida
  • A Arte do ator – Jean Jacques Roubine

Terceira parte – Fotografia

Kubrick

Antes de começar os livros especificamente sobre cinema, seria interessante embarcar na história da fotografia e conceitos básicos dessa arte moderna do registro. Mas diferentemente dos anteriores, ainda que eu ache bem interessante a prática do teatro – eu mesmo escrevi duas peças e atuei em uma, como parte dos estudos – no estudo da fotografia o mais importante é não ficar preso somente nas leituras. Pegue a câmera que você tem e saia fotografando freneticamente tudo ao seu redor, depois sente e veja vídeos, procure em sites, assista filmes sobre fotografia, enfim, eu recomendaria também um curso de fotografia, mesmo que seja online, só para você conseguir uma direção em algumas regras básicas.

Mas hoje em dia está muito fácil a informação e existem sites que proporcionam a hospedagem de fotos, portanto, analise com cuidado as composições dos melhores fotógrafos e não se limite a eles, procure em todas fotos os pontos positivos e negativos e, após tudo isso, as suas fotografias ganharão uma nova forma, pois o seu olhar estará treinado.

Recomendação de livros:

  • Tudo Sobre Fotografia – Juliet Hacking e David Campany
  • A Mente do Fotógrafo – Michael Freeman

Filmes relacionados com fotografia:

  • Nascidos em Bordéis – Zana Briski, Ross Kauffman
  • Documentário: The Genius of Photography – David Byrne 

Fotógrafos conceituados que eu recomendo para pesquisas:

  • Henri Cartier-Bresson
  • Sebastião Salgado

Sites e Canais no youtube para aprender mais sobre fotografia:

Quarta parte: Cinema

Steven Spielberg

Chegamos, finalmente, nos estudos específicos sobre cinema. Aqui será diferente pois tem uma infinidade de assuntos e técnicas, existem diversos detalhes que compõe a linguagem cinematográfica e, ainda mais, cada autor introduz temas, às vezes o mesmo, de forma diferente, portanto é preciso ler o máximo possível e, claro, colocar em prática os ensinamentos assistindo os filmes indicados ou simplesmente analisando friamente e relacionando com a pesquisa.

Livros que recomendo sobre teoria de cinema:

  • O Que é Cinema – Jean-Claude Bernadet
  • O Discurso Cinematografico – Ismail Xavier
  • Teorias do Cinema – Andrew Tudor
  • O Cinema ( Ensaios ) – André Bazin
  • O Significante Imaginário – Christian Metz
  • O sentido do filme – Sergei Eisenstein
  • O poder do cinema – Eduardo Geada
  • Num Piscar de Olhos – Walter Murch
  • Meu Último Suspiro – Luis Bunuel
  • Estética do Filme – Jacques Aumont
  • Espelho Partido – Silvio Da-Rin
  • Compreender o cinema – Antonio Costa
  • Como Ver um Filme – Ana Maria Bahiana
  • Como Assistir um Filme – Nildo Viana
  • Como a Geração Sexo-Drogas-e-Rock’n’Roll Salvou Hollywood – Peter Biskind
  • As Teorias dos Cineastas – Jacques Aumont
  • As Principais Teorias do Cinema – J. Dudley Andrew
  • A Linguagem Secreta do Cinema – Jean-Claude Carriere
  • A Hipótese Cinema – Alain Bergala
  • A forma do filme – Sergei Eisenstein
  • A Experiencia do Cinema – Ismail Xavier
  • Fazendo Filmes – Fazendo Filmes
  • A Linguagem Cinematográfica – Marcel Martin

Roteiro:

  • Syd Field – Manual do Roteiro
  • Roteiro de Cinema e Televisao – Flavio de Campos

Cinema digital:

  • Cinema Digital – Luiz Gonzaga Assis de Luca

Som:

  • O Som e o Sentido – Jose Miguel Wisnik

 

Produção:

  • O Cinema e a Produção – Chris Rodrigues
  •  Nos Bastidores da Pixar – Bill Capodagli

 

Montagem:

Cinema e montagem – Eduardo Leone

História do cinema:

História do Cinema Mundial – Fernando Mascarello

O cinema no século – Paulo Emilio Sales Gomes

Fotografia:

Antropologia e Imagem – Andrea Barbosa

50 anos luz, câmera e ação – Edgar Moura

Cinema Nacional:

O Cinema Brasileiro Moderno – Ismail Xavier

Historiografia clássica do cinema brasileiro – Jean-Claude Bernardet

Nada disso funcionaria sem o principal: assistir muitos filmes. Estudar cinema é uma jornada sem fim, é preciso dedicar-se as pesquisas e não ficar parado apenas em um país ou uma forma de se pensar cinema.

Há muitos sites de cinema no Brasil, mas poucos que realmente é possível aprender alguma coisa. É muito fácil ficar estagnado apenas em filmes de super-heróis e se auto-intitular como especialista, é preciso sempre ir além e tratar o assunto com muita seriedade pois, sem dúvida alguma, o audiovisual é instrumento para a evolução individual.

É óbvio que é possível atingir um conhecimento extremamente elevado apenas assistindo filmes, mas esse artigo é direcionado aqueles que desejam embasamento para esse vício/amor.

Para finalizar, escolhi alguns países e selecionei três diretores de cada um. Usei critérios diversos, principalmente ligado com o meu gosto pessoal. Porém tentei sempre mesclar uns nomes recentes com os mais antigos. Sugiro que você procure a filmografia desses diretores e, após concluir os seus estudos, me diga se não enriqueceu o seu olhar cinematográfico aqui nos comentários, por e-mail, enfim.

Brasil:

  • Walter Hugo Khouri
  • Mario Peixoto
  • Eduardo Coutinho

Irã:

  • Abbas Kiarostami
  • Majid Majidi
  • Mohsen Makhmalbaf

Japão:

  • Akira Kurosawa
  • Nagisa Ōshima
  • Shunji Iwai

Coréia do Sul:

  • Kim Ki-duk
  • Park Chan-wook
  • Joon-Ho Bong

China:

  • Zhang Yimou
  • Kar Wai Wong
  • Lou Ye

Polônia:

  • Dorota Kedzierzawska
  • Jerzy Kawalerowicz
  • Krzysztof Kieślowski

Estados Unidos:

  • Paul Thomas Anderson
  • Woody Allen
  • John Cassavetes

Suécia:

  • Ingmar Bergman
  • Lukas Moodysson
  • Victor Sjöström

Itália:

  • Vittorio De Sica
  • Dario Argento
  • Lucio Fulci

Grécia:

  • Yorgos Lanthimos
  • Theo Angelopoulos
  • Michael Cacoyannis

Espanha:

  • Pedro Almodóvar
  • Luis Buñuel
  • Fernando Arrabal

França:

  • François Truffaut
  • Éric Rohmer
  • Gaspar Noé

Bônus: Podcasts e blogs para quem quer aprender mais sobre cinema:

Podcasts:

Blogs de cinema:

E, claro, recomendo fortemente o podcast e site [Cronologia do Acaso], voltado exclusivamente para o cinema alternativo!

É isso, aproveitem esse artigo e ajude com a sua opinião nos comentários. Sugere um livro? Diretor? Mande-nos e, juntos, ajudaremos muitas pessoas que querem estudar cinema por conta própria!

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

More Posts - Website

Follow Me:
TwitterFacebookGoogle PlusFlickrYouTube

Garota Sombria Caminha Pela Noite, 2014

A.Girl.Walks.Home.Alone.at.Night.2014.720p.WEB-DL.750MB.MkvCage.mkv_snapshot_00.53.14_[2015.10.18_17.09.41]

★★★★

Anunciado como “O primeiro Western de vampiros iraniano” esse filme, no mínimo, diferente da diretora Ana Lily Amirpour só ressalta o quanto a figura do vampiro vem sendo transformada ao longo do tempo. A modernização dessa criatura histórica difere bastante do clássico “Drácula”, utilizando-se dos principais conceitos e traduzindo, através de uma metáfora, conflitos da nossa própria época.

Em mais um representante dessa liberdade criativa, a diretora parece transcrever fervorosamente a mediocridade da existência na figura do monstro, no mesmo tempo que, evidentemente, ele é poderoso e faz desse poder sua única fuga. Além disso, ela consegue complementar essa questão utilizando, também, um humano que se destaca em meio a um redor destroçado.

Acompanhamos, inicialmente, uma cidade iraniana chamada “Bad City” – mais risível que isso impossível, aliás, a comicidade exagerada está presente constantemente – que é repleta de violência, sexo, drogas, enfim, monstruosidades. Abriga também, como podemos interpretar, a representação de tudo isso: uma vampira.

Interpretada com toda graciosidade – mas entendo que essa afirmação pode soar estranho – pela Sheila Vand, somos apresentados a vampira em um momento particular, pré-caça, onde ela está dançando. Esse ser vaga pelas ruas perseguindo pessoas para, enfim, beber seus sangues e, com isso, sugar para si todos os seus males.

A cidade é iraniana, mas o filme foi filmado na Califórnia. Isso dá uma liberdade sem tamanho, inclusive bem diferente da que existe no Irã. Talvez um retrato das consequências do “ser livre”. Parte daí o melhor elemento técnico de Garota Sombria Caminha Pela Noite: a fotografia.

Todos personagens estão enclausurados, isso é demonstrado esteticamente, uma fotografia que, assim como sua protagonista, “suga” toda a felicidade, no mesmo tempo que enquanto arte é impossível não se impressionar, em absolutamente toda cena há algo que chame atenção.

1 A.Girl.Walks.Home.Alone.at.Night.2014.720p.WEB-DL.750MB.MkvCage.mkv_snapshot_00.27.10_[2015.10.18_17.08.33]

Há um romance entre a vampira e Arash – inclusive esse último tem um pai viciado em heroína, ou seja, sua vida é repleta de solidão e desesperança – os dois começam a se entender subitamente, ressaltando que a vampira é a representação de um sentimento. Ironicamente, as duas primeiras cenas de “encontros” dos personagens são sublimes: a primeira eles se olham através de uma grade, caracterizando, de imediato, a distância existente com o natural. E a segunda é um momento em que Arash está vestido de Drácula.

 Ressalto o relacionamento que é criado, para, principalmente, estruturar o pensamento e exprimir o quão surrealista algumas cenas se tornam. O mundo está doente, não há esperanças e os personagens todos, por sua vez, parecem ter saído de um hospital psiquiátrico. No meio de uma paisagem absurda, visto que a fotografia transforma pequenas ações em verdadeiros milagres – e, não, não estou sendo exagerado apesar de o ser boa parte do tempo – e, diante a essa desconexão, existe uma mulher que caminha pelas ruas a noite. A noite pode ser a representação, nesse caso, das barbáries, então temos um ser que funciona como um reflexo. Suas presas são, antes de mais nada, pessoas sem objetivo, sem necessidade e sem futuro. Em alguns momentos ela só os observa, outros aguarda até o último momento para saciar a sua sede… ou chega ao extremo de intimidar um pequeno garoto, obrigando-o a prometer que será um “bom menino”. Algo parecido acontece em “Clube da Luta”, onde Tyler Durden ameaça e, com o medo, pretende transformar uma vida.

A.Girl.Walks.Home.Alone.at.Night.2014.720p.WEB-DL.750MB.MkvCage.mkv_snapshot_00.34.04_[2015.10.18_17.08.52] A.Girl.Walks.Home.Alone.at.Night.2014.720p.WEB-DL.750MB.MkvCage.mkv_snapshot_00.34.52_[2015.10.18_17.09.06]

Infelizmente o ponto negativo do filme se encontra justamente no ritmo. Misturado com a superficialidade, intencional, dos personagens, bem como algumas ausências de explicações, se torna um pouco cansativo acompanhar. No mesmo tempo que a alma alternativa transforma A Girl Walks Home Alone at Night em um bom representante para um novo cult.

Usando o humor sempre com inteligência e transformando a vampira em uma figura intimidadora, muito por conta do visual, afinal, não é todo dia que vemos um vampiro de burca o que, para nós, que desconhecemos essa realidade, já causa uma estranheza. O filme é uma experiência interessante que merece ser usado e revisitado, um verdadeiro colírios para os olhos, mas não se engane, “Garota Sombria Caminha Pela Noite” apesar de ser meio hipster é extremamente complicado e não agradará a todos.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

More Posts - Website

Follow Me:
TwitterFacebookGoogle PlusFlickrYouTube