A Ghost Story (David Lowery, 2017)

A Ghost Story (Idem, EUA, 2017) Direção: David Lowery

A Ghost Story (2017) não é um filme de terror – pelo menos no sentido literal – pois recusa constantemente a ideia de que o sobrenatural se desprende da realidade da qual conhecemos, é como se o fim proporcionasse uma experiência transcendental do experimento de si, da trajetória. O fantasma, associado evidentemente ao campo sensorial, é trabalhado aqui de forma curiosa: o diretor e roteirista David Lowery opta por mostrá-lo de forma infantilizada e clássica, as formas humanas são escondidas em um lençol com dois buraquinhos, os quais funcionam como ferramentas para captar a vida, mas que cuja escuridão não reflete a condição do florescimento do dia-a-dia.

A história é sobre um casal M (Rooney Mara) e C (Casey Affleck) que enfrentam a rotina entre a incomunicabilidade e o afeto, porém tudo muda quando C falece em um acidente de carro. O espectador é convidado para uma jornada com o seu fantasma, o qual observa atentamente a condição da sua esposa, bem como se mantém enraizado com o lar.

É de se notar, ainda sobre a figura do fantasma, os detalhes referentes aos olhos que, desgastados pelo tempo, vão alongando de modo que estejam coerentes com o tamanho da tristeza do protagonista; as sujeiras do lençol também são importantes para essa reflexão. Contudo, por se tratar de uma presença quase imóvel e que não tem diálogos, senão, por gestos, os sutis movimentos de câmeras e a fotografia falam pelo personagem e, mais do que isso, demonstram com perfeição sua psicologia desestruturada pela existência massante.

A razão de aspecto reduzida é uma decisão importante e diferente, assim como o conceito geral da obra, desde o início parece se tratar do passado dos personagens, e isso definitivamente faz todo sentido, pois passado, presente e futuro aqui simplesmente não importa. O cinema como reflexo da vida resgata a condição maravilhosa de se ater ao meio e não à finitude das histórias. O formato de tela traz uma sensação parecida com aquela provocada por uma fotografia antiga, ainda que seja possível relacioná-la, também, com a visão reduzida dos personagens que circulam pelo ambiente e tencionam fugir, de alguma maneira.

A partir disso, a fotografia é fantástica ao demonstrar, junto com a trilha, todas as dores, solidões e silêncios que o casal sente, mesmo que separados pelo término. As grades da janela aprisionando o fantasma, bem como sua presença desconfortavelmente estática ao fundo enquanto, em primeiro plano, M come uma torta com um misto de raiva, descontrole e desamparo – e essa posição se repete diversas vezes, o símbolo visual é forte ao exibir M constantemente nos cantos da tela, ao passo que o fantasma permaneça simetricamente no meio quando só.

A transição de tempo nessa cena, por exemplo, é feita com um símbolo em comum (música) através de duas perspectivas diferentes e sendo ressaltadas através da fotografia. O passado em cores quentes e o presente azulado, frio.

O diretor David Lowery é um nome interessante para acompanharmos nos próximos anos, jovem e que visivelmente possui muito talento e imaginação, consegue transitar com facilidade pelo alternativo e o popular, dirigiu o “Meu Amigo, o Dragão” (2016) no mesmo tempo que fez “Amor Fora da Lei” (2013), duas propostas completamente diferentes e ambos muito bons. É difícil encontrar um artista que em tão pouco tempo consegue assimilar esse dinamismo criativo e, mais do que isso, deixar sua marca autoral independente da grandeza do produto. No segundo exemplo, inclusive, foi o começo da sua parceria com o Casey Affleck e Rooney Mara.

Casey Affleck marca presença no primeiro ato de “A Ghost Story” (2017) e faz algo parecido com o seu personagem em “Manchester by the Sea” (2016), embora seja similar, o conceito do personagem também resgata uma tristeza mórbida, pois é sugerido o seu estado conformista durante os primeiros minutos, o deslocamento é uma tortura para ele. Já Rooney Mara demonstra mais uma vez o seu enorme talento ao se ater às nuances de uma personagem distanciada forçadamente do afeto. Contudo, as performances acolhedoras do começo são deixadas de lado em uma decisão corajosa no momento que o fantasma assume o protagonismo, a partir de então a narrativa passa a ter uma postura pouco convencional onde os inúmeros personagens, situações e ambientes possuem uma força deslumbrante sobre o fantasma que observa o tempo e os diálogos como forma de preencher sua curta existência afim de encontrar um meio de partir.

Há ainda uma participação do músico Will Oldham em uma pequena mas impactante cena, cujo conteúdo sintetiza a obra, demonstrando com isso o pessimismo de uma vida, feitos e criação esquecida pelo tempo. A ideia que é construída é dolorosamente visceral, o indivíduo se apagando aos poucos até se tornar um veículo, aquilo que passou significa pouco para o mundo, embora seja tudo para ele. Talvez a consciência desse fato – teoricamente simples mas inacreditavelmente complicado de ser aplicado na prática – represente toda a busca dos homens que, desde o princípio, busca o seu reflexo ao reproduzir a sua rotina artisticamente. Por que tencionamos construir um lar e uma cumplicidade com um outro alguém, sendo que cada um possui o seu tempo-espaço-necessidade individual?

“A Ghost Story” (2017) é feliz na criação de perguntas elementares, sem ter a mínima pretensão de respondê-las. Assim como o fantasma, contextualiza o espectador em uma belíssima oportunidade de refletir sobre a obra primordial, aquela que investiga os porquês das decisões, preocupações e patrimônios que nos deixam cada dia mais desumanizados. Apesar de delicado, o único momento agridoce da obra é justamente no ponto que momentos da vida do protagonista passam pelos seus olhos, onde as memórias alcançam o seu auge. Todos nós teimamos viver lindas ilusões para, no fim, desenterrarmos o nosso bilhete engolido pelo lar/conforto.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Os Esquecidos, 1950

Os Esquecidos (Los Olvidados, México, 1950) Direção: Luis Buñuel

Luis Buñuel é o artista que representa perfeitamente o impulso imaginativo, do tipo que rejeita o formato padrão e constrói o seu universo peculiar em base à realidade mas, quando lhe é proposto o registro dela, o faz de forma surrealista. Existem infinitas verdades no surrealismo, porém elas são trabalhadas de forma subliminar, inerente à experiência social e filosófica do artista.

Luis Buñuel é um filósofo com uma capacidade de absorção da realidade inimaginável, como comprovação temos a sua própria trajetória, que evidencia a sua insatisfação com o cômodo. Tendo estudado diversas áreas – incluindo a religiosa – antes de adentrar os saberes das letras e filosofia, essa mistura de conhecimentos funcionou ao diretor como uma oportunidade única de trabalhar brincando com os mais diversos elementos místicos. Sem contar as viagens do diretor pelo mundo afim de encontrar um refúgio criativo, o qual permitiu que ele olhasse o objeto e dilemas sociais com uma certa distância.

A sua fixação no México simboliza exatamente essas transições enquanto estudante dos métodos artísticos, apesar de relacionado com outras artes, por sorte Buñuel resolveu ser cineasta e, se tinha apresentado, anos antes, ao mundo o surreal “Um Cão Andaluz” (1928) – que quebrou qualquer barreira narrativa imaginável, através da exploração do visual – o início do seu trabalho no novo país é pautado na realidade.

“Los Olvidados” (1950) é mais um exemplo do talento incomparável do diretor em desmoronar as dores do mundo, dobrar e fazer um barquinho. Os problemas sociais, questões de ética e opressões são desenvolvidos com um lirismo visceral tão denso que parecem cacos de vidros.

O filme acompanha um grupo de crianças e adolescentes nos subúrbios da Cidade do México. Eles passam os dias vandalizando, inclusive cometendo pequenos roubos. O líder dessa “gangue” é Jaibo (Roberto Cobo) que em um dia, junto com pequeno Pedro (Alfonso Mejía) espanca um menino até a morte. A partir desse momento a obra investiga as consequências emocionais do fato para a vida do Pedro, um menino que, dentre todos, parece ter mais envolvimento familiar e alguma esperança, porém as suas atitudes e companhias o impedem de evoluir. Por outro lado, Jaibo é um inconsequente, suas atitudes ultrapassam a linha natural e atingem a perversidade, no entanto há infinitas possibilidades de relacionar suas palavras e ações às fragilidades na estrutura da sua família, no passado – ele cita o seu pai em um momento e, a ilustração mais evidente dessa analogia, ele se apaixona pela mãe do Pedro.

A obra é incrível visualmente, o preto e branco se faz presente e, mesmo sendo bonito, ressalta as sujeiras das ruas. No entanto, essas sensações são reforçadas com a coragem em expor as perversidades das suas personagens, como em momentos onde as crianças agridem deficientes físicos. As atitudes monstruosas são tamanhas, que a experiência do espectador se torna pesada e ao longo dos oitenta e cinco minutos a sensação de sufocamento é constante. Algo está errado no poder, para as crianças terem chegado ao ponto de ultrapassar qualquer senso de cidadania. Vemos a miséria, a fome, devastação social, mas o que mais assusta é a barbaridade dos seres em formação.

A mensagem é crua e direta, a briga por interesses e despreocupação da política com a situação do seu povo, cria monstros. O título “Os Esquecidos” sugere essa ideia, principalmente quando relacionado com o contexto histórico e o próprio desenvolvimento da obra. É válido ressaltar que o filme começa com avisos sobre os fatos serem reais e distantes de qualquer otimismo, não poderia ser mais oportuno. Já na primeira cena Jaibo caminha pelas calçadas da cidade, rodeado de crianças ao seu redor, pois todos estão curiosos para saber como foi a sua experiência na prisão. Ele se engrandece e detalha momentos da estadia, inclusive coloca a sua liberdade como uma opção. Essa postura demonstra não só um ser que viola as autoridades, como também a visão de Jaibo sobre as ruas, afinal, elas também são prisões, ele só escolheu outra opção. Ainda sobre a cena, as crianças pequenas, frenéticas, em volta de Jaibo, escutam atentas as suas palavras, é como se ele fosse um Messias do caos – inclusive há cenas que ressaltam essa mensagem, trazem Jaibo sob uma iluminação diferente dos demais, como na própria imagem que ilustra esta crítica.

Buñuel faz um relato perturbador sobre os desdobramentos sociais envolta da miséria. As consequências da indiferença sendo retratada da forma mais fiel e visceral possível. Simplesmente um filme obrigatório em todas aulas de sociologia e filosofia. Há ainda uma impressionante cena de um sonho perverso, onde é acrescentado ruídos sonoros incômodos que representam brilhantemente toda a experiência de se assistir Os Esquecidos.

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Capitão Fantástico, 2016

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★★★★★

É raro quando um filme consegue ser poderoso em todos os pequenos detalhes do seu desenvolvimento. Partindo de um núcleo familiar, “Capitão Fantástico” trabalha com a filosofia de modo a criar camadas no que diz respeito à crítica ao consumismo, padrão de vida imposto pela sociedade e relação dos pais para com seus filhos.

O diretor Matt Ross, que assina também o roteiro, parece ter uma ligação profunda com a história, transparecendo carinho com a sua criação e, como consequência, encanta em todos os aspectos. O estilo de vida hippie é visto, por diversas pessoas, como uma forma de protesto ou até mesmo coragem, de fato existe uma ligação direta com o desprendimento.

No filme, acompanhamos a história de uma família. Seis crianças – todas com nomes diferentes, criados por seus pais, de forma a serem únicos nesse mundo – são criados pelo seu pai Ben ( Viggo Mortensen ) em uma floresta. Eles aprendem a caçar, tocam música em volta da fogueira e, se não bastasse, são orientados a ler os mais diversos livros, desde clássicos até teóricos, montando assim uma estrutura organizada e livre, onde a família atinge um patamar elevadíssimo de cumplicidade e vínculo com a terra.

O filme começa com Bodevan ( George MacKay ), o irmão mais velho, caçando um veado. Depois de conseguir tal feito, aparecem os demais personagens que, por sua vez, esperam pelo movimento do pai que destaca que o seu filho acabara de evoluir: menino para homem. Ben mantêm uma relação extremamente dedicada e sensível com os seus filhos, apesar de, no início, soar estranho eles morarem na floresta, aos poucos essa decisão vai sendo desmistificada, até culminar na total identificação com a angústia do pai, que se vê perdido entre as suas próprias crenças e a exposição dos filhos ao perigo.

Ainda sobre a relação de todos, é curioso notar que o pai se preocupa em sempre dizer a verdade para os seus filhos, qualquer pergunta que eles façam. Se mostrando flexível e passional constantemente, sem amarras. É um estilo de vida que, infelizmente, quando associado com a realidade, percebemos que beira o utópico, quando deveria ser o natural. Na família do filme, todos os filhos são preparados para enfrentar a verdade e, por consequência da enorme informação, são proibidos de dar opiniões banais como “interessante“, “legal” etc – em dado momento uma das filhas é pressionada a explicar o porquê do choque ao ler o livro “Lolita”.

É de uma profundidade essa questão, pois é evidente que as pessoas não conseguem atingir um grau de opinião que se desprenda do resumo das coisas, seja um livro ou a sinopse de um filme. A opinião não é basear-se em outrem, mesmo que seja o autor, é utilizar a sua criação como ponto de partida para uma discussão. Contrariar uma escolha não é apenas falar, mas apresentar argumentos. E isso é dito quando, após um dos filhos, comovido pela morte da sua mãe, se revolta com o pai pelo fato de eles não comemorarem o natal como todos.

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Hoje, mais do que nunca, as famílias se isolam. Ninguém se olha, todos no seu canto, fazendo as suas coisas, por isso é emocionante a forma que essa questão é desenvolvida no longa; logo no início, quando ainda estamos acompanhando a rotina da família, percebemos que todos estão olhando para o mesmo ponto, sorrindo pelo mesmo motivo, algo que deveria ser frequente, mas é tão difícil alcançar hoje que é tão irreal quanto um conto de fadas.

A filosofia está presente, ideias de grandes pensadores – há a citação de Platão, por exemplo – mas tudo de forma sutil, os dilemas e consequências desse estilo de vida acontecem de forma equilibrada, sem nunca cair no exagero. Como a relação deles é movido pelo toque, organização e olhar, por diversas vezes existem diálogos que são construídos através de reflexos, principalmente do pai olhando o retrovisor e vendo os seus filhos nos bancos do ônibus – inclusive as crianças sentam no banco conforme as suas responsabilidades, seja intelectual ou sobrevivência.

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Uma cena que destaco é quando eles vão para a cidade e, as crianças, ao perceberem que a maioria das pessoas são obesas, ficam surpresas, comparando-os com hipopótamos, de novo, uma crítica ao consumismo. Mas o maior contraste parece, mesmo, acontecer quando eles ficam na casa de uma outra família – tento aqui me conter para não dar nenhum spoiler – pois há um choque de realidade, enquanto uma família proíbe que Ben fale a verdade e dê vinhos aos filhos, como se fosse algo monstruoso, eles mesmos deixam seus filhos horas e mais horas no tablet com jogos violentos e vídeo games. Qual é a maneira mais correta de educar os filhos? A mentira e apoio à alienação, ou o desprendimento e toque? Mesmo que seja possível educar da segunda forma, a sociedade só aceita a primeira como normal, rastejando-se bem atrás da ignorância.

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Há críticas à religião, todas elas muito simples, partindo de uma ideia básica de manipulação e é por isso, principalmente, que “Capitão Fantástico” é maravilhoso, pois consegue alinhar uma série de questionamentos com a necessidade de se violar. Os personagens são fortes e diferentes, com traços particulares que fascinam, guiados por uma presença paterna poderosa e humilde, dono de um conhecimento grandioso, mas que sempre está disposto a ouvir os seus filhos, Viggo Mortensen realiza, aqui, o seu melhor trabalho. É o personagem que conecta todos os outros, estabelecendo uma relação direta, chegando a provocar sensações ocultas nos filhos, como raiva e fascínio.

Apresentando uma realidade que poderia, facilmente, ser transcrita como a fiel representação de uma sensação de insatisfação. “Capitão Fantástico” têm como mérito essa manipulação, a critica contra o sistema e a ousadia em destacar, com muita sofisticação, algo que está errado, é uma mensagem direta ao sistema, faz refletir sobre a nossa condição e comodismo perante as diversas facilidades da vida moderna que, aos poucos, vão nos matando.

Existe tantas vírgulas entre o monótono do passar dos minutos, existe tanta vida que desperdiçamos por não olhar para o lado, existe um mundo a ser percorrido e experiências a serem sentidas. No entanto, como prisioneiros de uma condição inerte na avidez, nós tornamo-nos, em doses homeopáticas, sementes de uma árvore tóxica. Direcionados à uma existência medíocre e mesquinha, petrificando o intelecto com uma mídia medíocre, assim os homens de cima nos mandam viver;  “Capitão Fantástico” reduz a evolução do homem em arrogância, perversão à sinceridade e prega que somos, senão apenas tentamos, capitães de um navio infinito de possibilidades, amor e compreensão, transformando-nos em entidades que, constantemente, vão sendo fragmentadas e, em última estância, se transformam em esperança. 

#pazamoreempatia

emersontlima

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Homem Irracional, 2015

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★★★

Woody Allen é um querido diretor. Aprendi muita coisa com seus filmes, me identifiquei muito com sua personalidade extrema e conheci muito o cinema clássico, bem como jazz entre outras inúmeras referências.

Aqui mesmo no Cronologia do Acaso, escrevi uma “carta para o Woody” e um especial, analisando com bastante detalhe o seu filme clássico “Manhattan“. Bem, Woody Allen continua fazendo um filme por ano, essa média é realmente muito incrível, principalmente para alguém com oitenta anos e que mantém, dentro do possível, a média de qualidade. No entanto, essa postura traz consigo muitas críticas, isso porque visivelmente não há tanto tratamento no roteiro e alguns outros detalhes técnicos, como a própria utilização da música. Mas vamos com calma.

Eu sou adorador do Woody Allen, como disse. Acho divertido a forma como os seus filmes são recepcionados pelo público, muitos não gostam, outros surgem sempre com o mesmo argumento “os filmes ruins dele são melhores do que muita coisa que sai no cinema atualmente”.  Bem, não acho que frases como essa justificam a grandiosidade do seu trabalho, pelo contrário, ele certamente não está nem um pouco interessado em fazer algo comum.

“Homem Irracional” faz jus aos filmes anteriores do diretor que falam sobre a banalidade da morte, o diretor se sai bem quando trabalha, levemente, com o suspense. A história é de um professor de filosofia Abe Lucas – interpretado por ninguém menos que Joaquin Phoenix – que chega para lecionar em uma universidade mesmo em meio à uma crise existencial. Ele começa uma relação de amizade com uma aluna ( Emma Stone ) que, diante a sua infelicidade, fica encantada pelo professor charmoso. Algo perigoso faz Abe reencontrar a felicidade e a ânsia de viver novamente.

É evidente que todo filme o Woody Allen influência os seus atores e eles começam a agir como o próprio diretor, refletindo suas manias no desenvolvimento dos papeis. Phoenix, apesar de encaixar muito bem no protagonista típico de Allen – escritor ou professor que não consegue escrever livros ou artigo – destoa bastante da sua leveza. Cria um personagem extremamente denso e sombrio, que está emocionalmente quebrado e isso fica claro na sua composição, o olhar perdido, confunde por vezes com a crueldade. É interessante como o professor Abe, mesmo estando fora de forma, ainda apresenta um charme fora do normal.

Se por um lado temos o melhor ator da atualidade – vide “O Mestre”, “Ela” e “Vício Inerente” do outro Emma Stone desempenha maravilhosamente o seu papel, com uma naturalidade típica da atriz. Não a toa é o seu segundo trabalho com o diretor, consecutivo. E sabemos como o Woody Allen é seletivo com suas escolhas.

A falta de conexão do protagonista com a escrita pode ser traduzido como o seu encontro com a verdade: nesse caso, ele reflete constantemente que a filosofia não pode ser resumida apenas em livro, é preciso sentir na prática. Algo como uma desculpa, ou uma forma de controlar sua tristeza, afinal, está praticando filosofia ao ser existencialista; Sendo um livro, um artigo científico.

“eu não posso escrever porque eu não posso respirar”

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A complexidade do protagonista é o ponto forte do filme, ainda mais com a relação que se estabelece de fascínio pela tristeza, no mesmo tempo que há uma intromissão masoquista por parte da aluna.

Depois que Abe encontra um sentido para a sua vida, que está diretamente ligado ao fato de se distanciar do intelecto – o título do filme demonstra um desejo – há alguns artifícios interessantes para ressaltar a sua mudança de comportamento. A principal e mais clara delas é a iluminação. O personagem fica, em diversos momentos, envolta de luzes, como se se sentisse brilhante, um artista, como se as luzes estivessem seguindo os seus passos.

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Enfim, “Homem Irracional” é interessante no seu desenvolvimento, mas deixa bastante a desejar na sua conclusão. Transformando bons minutos de atuações impecáveis e profundidade filosófica em algo irrelevante.

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Boda Branca, 1989

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★★★★

Quem conhece o diretor Jean-Claude Brisseau está familiarizado com a sua abordagem ímpar, onde leva ao limite a sexualidade humana, aliando sempre suas belezas físicas e o próprio desejo com a filosofia, mesmo que esse elemento esteja desnítido em meio a tanta proibição.

“Noce Blanche”, além de evocar essa sensação que permeia todo o seu trabalho, o faz de forma singular, pois mesmo sem grandes ousadia técnicas, constrói personagens complexos de forma mansa, equilibrando com perfeição a polêmica, imediatismo e, com isso, tenta investigar o amor.

A história não foge muito do comum, um professor de filosofia encontra em uma de suas alunas uma possível fuga do convencional, no entanto a menina é cheia de problemas, se prostituiu, tem uma família complicada e, aparentemente, não cultiva nenhum interesse por saberes tidos como “essenciais para a formação de um cidadão”. Essa teia de confusão que embrulha a personagem faz com que o professor se apaixone por esse ser em pleno declínio.

O imediatismo, citado acima, parece como artifício da narrativa, desde os momentos iniciais tudo acontece de forma direta, sem rodeios, como se jogasse ao espectador a responsabilidade do que virá a acontecer. Mathilde, dona de uma maturidade absurda, é uma entidade que precisa ser encontrada. François, seu professor de filosofia, pega o seu histórico como se quisesse descobrir qual vida vivera até aquele momento e, subitamente, lhe diz: “estou intrigado com você“. A menina responde: “significa que eu existo”.

Partimos do pressuposto que o fato de existir uma aula de filosofia que liga essa relação, um tanto quanto perversa, é de suma importância para o entendimento da metáfora ao longo com o próprio conhecimento. Ora, um professor que se aproxima dos cinquenta anos passou sua vida desvendando o meio para, enfim, dividir com seres em formação, no mesmo tempo que se desmonta para aprender os prazeres com uma ninfeta.

Nesse aspecto, a atuação da Vanessa Paradis, em seu primeiro papel aos 17 anos de idade, compõe com perfeição essa complexidade, existe uma linha tênue entre a ignorância e a inteligência, Paradis transita por entre a atitude de uma mulher que sabe conquistar um homem e uma doce menina que admira profundamente o seu mestre. Não a toa ela foi indicada a vários prêmios, conquistando alguns, inclusive.

Mathilde é uma pessoa solitária, não precisa da escola para se fazer pois as ruas sussurrou em seus ouvidos tudo o que precisava. Como a própria se define, ela é “filha de uma revolução fracassada”. Diante uma persona tão fascinante e dona de uma beleza diferente, não é de se estranhar que isso aumente a atração do professor, não por uma mulher ou menina, mas pelo ser humano despido de conceitos que, até então, ele julgava necessário, aos poucos ele vai se libertando de uma visão pragmática.

Há uma espécie de pacto entre os dois, que surge de forma orgânica, aos poucos vão se tornando um. Uma cena que ilustra perfeitamente isso é quando o professor pede para que a menina assuma sua posição, bem em frente a sala, e fale sobre como o inconsciente era entendido por grandes pensadores, no momento que ela diz:

[…] Algumas pessoas são prisioneiras do seu destino, sempre marcadas por seus dramas. Para os psicanalistas, eles são prisioneiros do seu inconsciente[…]

Além de estarem se tornando a mesma pessoa, tudo o que foi vivido até ali vai, aos poucos, se tornando algo morto. Como se a prisão fosse dando espaço a liberdade. A prisão, no caso, está presente também na vida do  François, sempre na mesma sala, lidando com o normal mas que, de repente, se depara com algo incalculável, um conhecimento que não se encontra em livros.

É de se estranhar que um filme que preza pelo simples consiga impactar tanto, inclusive o seu começo sugere uma leveza, delicadeza e sensibilidade e, acompanhando os avanços da trama, vamos percorrendo um caminho intenso. Onde o senso de realismo vai colidir com a vontade selvagem de se entregar ao desejo.

“O oceano,  François, o oceano existe”

emersontlima

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