Pieles (2017)

Peles (Pieles, Espanha, 2017) Direção: Eduardo Casanova

Como em qualquer arte, o cinema respira insanidade. O realismo é maravilhoso e boa parte das obras independentes se apoiam na visceralidade do cotidiano. Mas há de se imaginar que a normalidade assusta, tanto quanto o terror ou suspense, a falta do abstrato limita o potencial criativo. É por esse motivo que devemos aplaudir quando ideias diferentes são apresentadas no cinema porque, diferentemente de outras artes, o audiovisual envolve muitos realizadores, todos trabalhando em suas camadas para se atingir um mesmo resultado. A insanidade precisa se fragmentar em diversos pedaços de modo que atinja a arte como um todo, caso contrário, mesmo uma mensagem poderosa alcançará à mediocridade. Ainda sobre isso, é preciso ter coragem para apresentar obras como Pieles (2017) pois como se sabe o artista produz um filme e ele é apresentado em uma experiência coletiva e, por diversas vezes em casos como esse, a sensibilidade é a única coisa que separa aqueles que entenderam ou não determinado recado do realizador.

Pieles (2017), portanto, é feito para chocar. Mas o choque é somente a primeira camada – a qual certamente o diretor sabe que a maioria irá atingir – para uma imensidão de temas relevantes que englobam a conduta obsessiva do ser humano em busca da perfeição física e como esse corpo dialoga com outros, existe uma nudez que teimamos em esconder, o corpo casto é, hoje mais do que nunca, motivo de vergonha em um mundo imediatista e expositivo.

Se esconder o corpo se tornou uma atividade corriqueira em tempos onde a artificialidade “mostra os dentes”, ganha ainda mais forças com a facilidade de manipulação que o registro audiovisual provoca no indivíduo, desde estrelas de cinema até famosos do Instagram, todos são protagonistas de uma vida que chama as atenções e, por elas, se tornam reféns. Emagrecer é a solução e o passar do anos simboliza um inimigo mortal. Enquanto isso, a boa parte da população que se mantém invisível – e se diz confortável com essa condição – é obrigado à viver em um mundo de consumo onde o padrão são os manequins das lojas. Tudo é preciosamente imposto e deliciosamente oportunista e nós? bem, somos escravos e, por esse motivo, ainda não nos habituamos com a ideia de que somos e são todos imperfeitos.

Eduardo Casanova é um jovem de vinte e seis anos que parece compreender isso e ter a audácia de falar há tempos sobre a questão, desde o curta “Eat my Shit“, o qual serviu como inspiração para esse longa. Pieles (2017) resgata a atmosfera surreal e maluca de Jodorowsky com o charme e narrativa direta do Almodóvar, ainda há uma inteligência por parte do diretor em conduzir uma grande história em pouco tempo e que ainda acompanha momentos da vida de diversos personagens. O resultado de tudo isso é que o espectador ama ou odeia essa obra, mas é inevitavelmente incrível quando a percepção sobre o grotesco vai se modificando em base à qualidade argumentativa e toda a bizarrice se transforma em poesia.

As cores rosa e roxo se dividem no protagonismo das cenas, e ainda ilustram perfeitamente algumas lacunas emocionais, é possível compreender exatamente os conflitos que unem todas personagens e os detalhes que as separam, dores exclusivas são ressaltadas com a leve diferenciação das cores e iluminação. A sintonia aqui tem resquícios depressivos, os personagens são “deformados” pois assim se enxergam e esse sentimento encontra o seu agravante com os julgamentos alheios. Mas cabe ressaltar que não existe surrealidade em uma mulher que, ao invés da boca, tem um ânus no rosto, isso porque tem muita gente por aí que dedica sua vida, seja pessoal ou profissional, para falar e comer merda – perdoem-me minha impolidez, mas a obra exige o um manifesto direto; não existe monstruosidade em um menino que quer cortar as suas pernas, afinal, muitos possuem saúde e não se contentam, submetendo-se à infinitas cirurgias afim de encontrar a sua completude, como se a existência se resumisse somente no exterior.

Quanto mais as coisas se aceleram e a tecnologia encontra o seu estágio máximo, mais a humanidade se amputa. Parece que o homem em sociedade nunca está confortável, nunca se aceita como é: normal e repleto de erros. O maior erro é rejeitar a possibilidade de felicidade para vestir uma fantasia de ursinho, de modo que a fofura artificial da roupa sintetize tudo aquilo que nós poderíamos ser, mas não somos por falta de carinho com nós mesmos.

Se não bastasse, o sistema existencial cobra desses indivíduos perdidos que se achem nos espaços vazios de um outro alguém. Criam-se relações que trazem consigo uma gama de interesses movidos pela fragilidade. Se o padrão manipula nossa sagrada imagem refletida no espelho, quem dirá uma vida em dois, em três, em sucessivos infinitos.

Às vezes nos sentimos esgotados em um mundo de aparências. Sorte que todos, direta ou indiretamente, estão com os olhos tampados diante à uma imensidão de nuncas. No entanto, é triste afirmar que nem todos conseguem ultrapassar essa limitação com olhos de diamante. Resta para os outros roubar essa singularidade e evacuar no banheiro.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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CdA #68 – Cinema maldito, polêmico e extremo

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Nesse episódio Emerson Teixeira e Thiago Lepre conversam sobre a arte no seu estágio mais impactante, quando a representação se torna transgressora, subversiva e explícita. Tentamos entender o quanto o cinema extremo é importante para a reflexão e, mais ainda, fizemos uma lista de dez filmes, nessa primeira parte, para ilustrar as nossas opiniões sobre o cinema maldito.

  • Audition, 1999
  • Vase de Noces,1974
  • Holocausto Canibal, 1980
  • Saló ou os 120 dias de sodoma, 1975
  • Imperador Ketchup, 1971
  • Irreversível, 2002
  • Jogos Mortais, 2004
  • Violência Gratuita, 1997
  • Centopeia Humana, 2009
  • Begotten, 1991
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CdA #45 – A Gangue ( Plemya )

A Gangue ( cronologia do Acaso )

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Está no ar o episódio 45 do podcast [Cronologia do Acaso]! Dessa vez viajamos até a Ucrânia e falamos sobre a obra-prima “A Gangue”, um filme inteiramente em linguagem de sinais. Extremista, contém cenas de nudez, violência, mas, acima de tudo, é uma grande reflexão sobre o jovem e sua distância com a normalidade.

Emerson Teixeira e Sandro Macena analisam todos os detalhes, ainda conversam sobre o aborto e a importância do silêncio na vida/cinema. Embarque conosco, comente e seja feliz!

Crítica do Emerson Teixeira sobre o filme: http://cronologiadoacaso.com.br/2015/06/20/a-gangue-2015/

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Flowers, 2015

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★★★★★

Sempre surge, em uma discussão sobre o terror, a questão do gênero estar em plena decadência. É evidente que mudanças são feitas por conta do contexto, esse gênero tão querido se transforma conforme as situações que a sociedade passa.

No mesmo tempo, surgem inovações, como o found footage que se mostrou uma boa oportunidade para produzir com pouco e render bastante, uma verdadeira porta de entrada para realizadores independentes criarem o seu, as vezes, bom conteúdo.

Ou seja, há diversas experimentações e, por consequência, no mesmo tempo que existem coisas boas, há muitos oportunistas. O que é normal em qualquer área da criatividade humana. Esse ano de 2015 está sendo muito interessante para os, como eu, amantes do terror. Tivemos “It Fallows” que brinca com os clichês de forma inteligente e, principalmente, o suspense de forma eficiente. “Goodnight Mommy” é um drama com resquícios de horror psicológico – talvez o subgênero mais complicado que existe, pois é preciso ter consciência do objetivo e saber conduzir a trama para esse fim, com artifícios técnicos. Outro que, na minha opinião, se destacou bastante foi o “The Atticus Institute” pois pega um elemento conhecido dos filmes atuais, o exorcismo, e subverte a regra, tranca a protagonista, usa o homem como peão para tentar controlar o mal.

Acrescentando mais um para a lista, “Flowers” é uma perfeita viagem surrealista através da destruição e a própria morte. Antes de, fatalmente, revelar um pouco da sinopse, indico ao leitor que não se atenha simplesmente as informações/sinopses como indicadores se devem ou não assistir essa pequena obra prima pois é muito pouco, nem de longe demonstrará a profundidade que é acompanhar a experimentação dirigida pelo estreante Phil Stevens.

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A história toda se passa em uma espécie de mansão, cujos porões escondem prisioneiras que, na sua maioria, foram abusadas. Acompanharemos seis mulheres, se arrastando como vermes a caminho de uma fuga, mas para chegar lá são expostas a destroços humanos, sangue, medo e a própria morte.

Destacarei dois aspectos importantes para contextualizar os elogios que virão a seguir, sim, pois o filme é perfeito dentro da sua proposta. Primeiro: Não temos um diálogo sequer, uma hora e vinte minutos de desespero, com sons estranhos, distorcidos, as vezes abafados, como se as mulheres estivessem no inferno. Segundo: Se trata de um filme extremo, com muito sangue, podridão, violência e sujeira – inclusive o tom sépia ajuda na construção desses elementos, principalmente na “sujeira”.

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Logo no começo percebemos que o filme acompanha uma prisioneira, aos que não leram nada antes de assistir, como eu, esperam ansiosos por gritos e pedidos de socorro e, extraordinariamente, isso não acontece. O fato de não haver uma frase sequer, subverte o clichê clássico da moça indefesa que grita por ajuda, inclusive existem seis mulheres que, mesmo em meio ao desespero, se mantém, estranhamente, calmas, como se os seus corpos estivessem em um lugar e a mente em outra, ou como se a tortura fosse tão grande que, aos poucos, elas foram se distanciando da própria persona, se transformando em um zumbi.

A edição de som se aproveita para assumir o posto de protagonista, pois se as personagens, cuja existência fora deixado no passado, não falam, existe no som uma tradução do que elas estão vendo. Gemidos, moscas, gritos, barulhos, incomoda muito os mais conservadores pois, como disse anteriormente, talvez seja uma fiel demonstração, no audiovisual, do que é o inferno para aqueles que acreditam. Aliás, o inferno, como sentido em Flowers, é a casa de um monstro e esse monstro é mesmo um ser humano.

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Há ainda uma provocação, uma distorção de lógica, em muitos momentos é possível encontrar um crânio de porco no chão ou em cima de algo, imediatamente ouvimos um porco, bem abafado, como se fosse uma lembrança ou, simplesmente, uma analogia o quão vivo aquele porco se encontra. O surrealismo que está presente constantemente, impulsiona ainda mais o sentimento de repulsa e curiosidade, nada é explicado, o que faz desse filme uma obra extremamente particular, muitos não conseguirão passar dos vinte minutos iniciais.

Quem assistiu o também fascinante e terrível “Subconscious Cruelty”, de 2000, percebe imediatamente que este serviu como inspiração para que “Flowers” tivesse a oportunidade de ser tão ousado e, no mesmo tempo, profundo no seu drama. Assim como sua inspiração, a mensagem em “Flowers” está protegido por camadas de carne e o diretor, sabiamente, entrega uma faca a cada espectador e lhe promete respostas se tiver coragem de dissecar, rasgar e torturar a vítima.

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Sabe quando você leva um susto muito grande e fica sem a voz? Então, “Flowers” se passa nesses três segundos sem reação, onde o medo é tão insano que perdemos o controle do nosso corpo. Onde a dor dá lugar a busca interminável por sobrevivência. Existe beleza na violência quando explorada no audiovisual, pois mesmo que alguns tentem provar a gratuidade do extremo, os artistas que pensam os objetivos atrás da cortina geralmente tentam encontrar respostas, muitos se perdem em meio a própria verdade de que, infelizmente, o homem é abominável.

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CdA #013 – Miss Violence

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Depois de uma pausa gigantesca, voltamos com mais um episódio do podcast do blog Cronologia do Acaso, dessa vez falando sobre “Miss Violence”, filme grego de 2013. Eu, Emerson Teixeira, me junto novamente com o Sandro Macena para tentar colocar a cabeça no lugar e dissecar essa obra extremamente cruel. Além de analisar o cinema grego e sua nova safra de filmes, que ficou conhecida como “a estranha onda de filmes gregos”, cria das crises do país.

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CdA #011 – Vidas sem Destino, 1997

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No décimo segundo episódio do podcast [Cinema sem Causa] Emerson Teixeira analisa o filme “Gummo” de 1997. Filme que beira a surrealidade, dirigido pelo ousado Harmony Korine que depois de fazer o roteiro de “Kids”, com 19 anos, despontou e mostrou todo o seu talento no seu primeiro trabalho como diretor.

Uma obra que transborda verdade, crueldade e sujeira. Monstruoso é pensar que o ser humano caminha por entre destroços e, ainda assim, sobrevive.

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