Brimstone, 2017

Brimstone (Idem, EUA, 2017) Direção: Martin Koolhoven e Martinus Wouter Koolhoven

Basta assistir poucos minutos desse filme para perceber uma preocupação quase exagerada em trabalhar com o soturno. Não que isso seja ruim, pelo contrário, a manifestação do caos está presente em cada momento, as injustiças e dores provocadas, principalmente, para crença extrema.

Liz (Dakota Fanning) é uma mulher que tenta fugir do seu passado mas se vê confrontada com a chegada de um reverendo diabólico na cidade. Existe entre eles um passado horroroso, motivando uma perseguição cruel, que em consequência afetará a família da protagonista e a sua honra.

Na primeira cena vemos um homem atirando na água. A sutileza da cena esconde um significado profundo, pois as balas perdem a força e velocidade pelo bloqueio do rio. Algo que será, posteriormente, referenciado com a proteção extrema da mãe em relação à integridade da filha. A perseguição, movida por uma insanidade intensa e instinto de vingança, desperta o ódio rapidamente, transformando o vilão – interpretado magistralmente pelo Guy Pearce – em uma figura transgressora, fria e inquebrável. É de se notar, inclusive, que o vilão é apresentado em um plongée e aos poucos vai virando contra-plongée, ressaltando justamente o seu poder.

Ainda sobre planos, em momentos pontuais é utilizado o plongée como uma forma de simular uma possível observação divina, isso é válido pois o inimigo é um homem cuja força e maior perigo se encontra justamente nas suas convicções de que é um veículo para os desejos de deus. Dado o contexto, a ignorância é o perfeito elemento para criar monstros que se alimentam das limitações alheias.

A violência está impregnada e é trabalhada de forma exaustiva pelos diretores Martin Koolhoven Martinus e Wouter Koolhoven, o que acaba cansando em dado momento, mas sua importância em relação aos maus tratamentos às mulheres, obsessão e extremismo religioso torna a obra extremamente significativa.

“Mulheres mais velhas cheiram diferentes. Jovens são inocentes”

O mal, aqui, se alimenta da inocência, a construção familiar é baseada no patriarcalismo e o trabalho constante clama por alívio. Talvez a maior fraqueza do homem esteja atrelado justamente a sua inerência à prática de rituais. Se por um lado o filme é inteligente em trabalhar esses temas de modo a provocar o desconforto, existe uma lacuna grande em relação à atuação da protagonista. Dakota Fanning simplesmente não está à altura do seu parceiro de cena, tamanha inexpressividade incomoda, pois o contraste com a situação é imenso. Por outro lado, Guy Pearce prova mais uma vez o seu talento singular, deleitando-se nas possibilidades maquiavélicas do seu papel e dando ênfase ao seu comportamento e ações polêmicas.

Em última análise, “Brimstone” é uma obra profundamente melancólica – não à toa utiliza a fotografia azulada para reforçar essa ideia -, que acompanha a jornada de uma personagem e revela em doses homeopáticas, e fora de ordem cronológica, a sua vida amaldiçoada. No entanto, a força da sua existência se encontra na coragem demonstrada ao proteger o seu futuro, lutando contra um passado que teima em se repetir e se desprendendo a cada passo, alcançando a liberdade ao se isolar sob a proteção das águas que a dividem da ira dos homens.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

More Posts - Website

Follow Me:
TwitterFacebookGoogle PlusFlickrYouTube

Tara Maldita, 1956

Tara Maldita (The Bad Seed, EUA, 1956) Direção: Mervyn LeRoy

“Tara Maldita” era uma história conhecida e aclamada do teatro quando migrou para o cinema. Isso é interessante, levando em conta que se trata de uma obra clássica de terror que, em nenhum momento deixa se levar por sustos ao invés de questionamentos e conflitos psicológicos. Certamente o sucesso prévio do roteiro no teatro gerou atenções, complicando ainda mais a vida do diretor e atores que, mesmo conhecendo a essência da obra, ainda se viam diante de um novo formato e público.

Felizmente a adaptação liderada pelo Mervyn LeRoy faz jus a grandiosidade filosófica da história que, por sua vez, traz uma garotinha de nove anos chamada Rhoda (Patty McCormack) que comete assassinatos, mente, elabora planos diabólicos, tudo isso sem levantar suspeitas, afinal, se trata de uma criança e, como tal, inocente aos olhos da sociedade. Em uma estrutura teatral, o conflito começa quando sua mãe Christine Penmark (Nancy Kelly) suspeita da própria filha, após a menina não demonstrar sentimento algum com o falecimento de um colega próximo da sua sala de aula.

O inimigo de todo o arco dramático é improvável, o conflito e questionamento sobre os limites da psicopatia, principalmente relacionado à idade, se tornam o triunfo de uma obra que é definitivamente muito maior do que “mais um filme de terror”. A força narrativa se encontra na naturalidade do desenvolvimento que, se baseando fortemente no desespero de sua protagonista – a mãe, cujas decisões são suspendidas diante a agonia provocada pela dicotomia entre o certo e a proteção materna – acontece de maneira despreocupada, como se o espectador fosse obrigado a, também, desacreditar que a angelical Rhoda tenha forças para agir de maneira tão monstruosa.

Ledo engano, o roteiro é inteligente em brincar com a relação entre a dúvida, moral e realidade quando os indícios se tornam claros, à medida que as ações da menina vão se tornando mais extremos. O texto é sustentado por uma direção maravilhosa, com ótimas decisões de enquadramentos – utilizações de espelhos são comuns e deveras importante – e atuações sensacionais. Destaque para a Eileen Heckart que aparece em cenas curtas como a mãe do falecido Claude, amigo da escola de Rhoda. A força da sua performance dá um brilhantismo para as consequências dos atos do pequeno anjo malvado, é quando as emoções das vítimas nos faz relembrar que por trás da imagem inocente existe um ser diabólico que, apesar do tamanho, tem o poder de causar sérios traumas nas vidas que estão ao redor. Eileen Heckart, inclusive, chegou a ser indicada ao Oscar.

A profundidade do tema é tão grande que essa clássica obra inspirou diversos filmes que, posteriormente, também se utilizariam de crianças como os vilões. Mas não é só pela novidade que é lembrado, mas também a boa utilização dos espaços da casa, isso é importante pois praticamente toda a história se desenvolve nela, com certeza alguns movimentos vêm das apresentações teatrais, visto que a mise en scène é sublime e existe uma sincronia que dá leveza e flexibilidade visual.

É sem dúvida um grande clássico do cinema e que, de brinde, nos apresentou a talentosa Patty McCormack, com um trabalho primoroso, pois sua personagem exige uma consciência madura escondida atrás de uma artificialidade infantil, o que na prática resulta em expressões e diálogos repletos de camadas. Simplesmente inesquecível.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

More Posts - Website

Follow Me:
TwitterFacebookGoogle PlusFlickrYouTube

Fragmentado, 2017

Fragmentado (Split, EUA, 2017) Direção: M. Night Shyamalan

M. Night Shyamalan parece caminhar de forma diferente dos demais seres humanos, no que diz respeito aos trabalhos. Quando novo, realizou obras maravilhosas e, após a experiência, parece que se desencontrou  da sua melhor versão. Diferentemente do comum, a maturidade não fez bem ao diretor que soa constantemente forçar o tecnicismo, esquecendo drasticamente o lado audacioso de se entregar à arte sem medo de errar e, principalmente, sem querer ser aceito pela maioria. O processo criativo não visa, em um primeiro momento, o lucro e, se o faz, está completamente errado. A construção do roteiro demanda atenção unicamente à ideia, não a aplicação do conteúdo às grandes massas.

A história é sobre um rapaz chamado Kevin (James McAvoy) que possui vinte e três personalidades diferentes e que interagem entre si, servindo como um escudo para a sua consciência que, tendo presenciado situações complicadas quando criança, bloqueou a realidade através da multiplicação de facetas. Uma dessas personalidades, aparentemente a líder delas, sequestra três jovens. Elas precisam estudar o seu raptor de modo que suas ações entrem em comunhão com as suas fragilidades, o que não será nada fácil.

Anya Taylor-Joy interpreta uma das garotas, Casey. A personagem, quando analisada separadamente, é bem interessante. Dotada de uma inteligência e equilíbrio, infelizmente elementos que nunca estão lado a lado em personagens de filmes de terror, principalmente femininas, utiliza a sua postura como proteção diante à situação complicada que se encontra. Em um primeiro momento, chama a atenção e aproxima o espectador da identificação, algo muito importante para filmes que se utilizam do sequestro para causar o desespero.

Mas o principal objetivo do filme parece mesmo discutir psicologia. Utilizando a mente do Kevin como uma forma extrema de extrair a novidade e relacioná-la com o terror clichê. Nesse ponto, estamos falando de um filme medíocre, que simplesmente entrega uma série de dilemas de forma infantil e não se preocupa em sustentar isso de forma coerente, tampouco dá valor à uma personagem que poderia acrescentar nessa abordagem: a psicóloga. No primeiro diálogo dela com uma das personalidades de Kevin, ela se mostra totalmente preparada em relação à situação do seu paciente, chegando inclusive a mencionar o fato de que “conhecia as vinte três personalidades”reparando em nuances e sustentando uma postura intelectual. Em trinta minutos isso é derrubado pelo próprio roteiro, até chegar a uma conclusão infame, que não só ofusca o trabalho dos profissionais da mente como também nos faz perder qualquer senso de seriedade ao enfrentar a tortura chamada “Fragmentado”. É visível os momentos em que o roteiro perde forças, prejudicando inclusive as excelentes performances dos seus atores principais, principalmente o James McAvoy que compõe algumas das principais personalidades de forma eletrizante, chegando a assumir uma que, por motivos pessoais, quer se passar por outra, a transição é perfeitamente ilustrada através de expressões sutis e bom trabalho vocal. Esse ator é um talento, a sua entrega é tão absurda que, curiosamente, ultrapassa os limites do seu próprio texto.

Começamos com uma apresentação frágil, passamos por poucos bons momentos onde o sentimento de ansiedade se sobressai e as abordagens psicológicas soam como maravilhas para quem gosta do tema, de repente, no entanto, isso é descartado e o óbvio assume o comando. A psicóloga especialista e concentrada dá lugar a uma senhorinha insegura, desesperada e, pior, despreparada; os flashbacks, que prometem agregarem à história um valor dramático, demoram a se resolver e o espectador fica esperançoso por uma explicação e, quando a tem, é tão lamentável que seria melhor ser completamente ignorado; e, por fim, transições da consciência, ilustradas por uma performance arrebatadora, passam a ser físicas e uma obra que pretendia demonstrar as obscuridades da psicologia humana se rende ao clichê do monstrinho perseguindo uma mulher desprotegida que, aos poucos, vai perdendo pedaços da roupa. É isso, volte a ser jovem da próxima vez M. Night Shyamalan!

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

More Posts - Website

Follow Me:
TwitterFacebookGoogle PlusFlickrYouTube

Meu Nome é Ray, 2015

Meu Nome é Ray (About Ray, EUA, 2015) Direção: Gaby Dellal

Apesar de algumas boas intenções do cinema em falar sobre a transexualidade – sempre apoiarei a discussão e, consecutivamente, a existência de inúmeros filmes que apresentem o tema, diretamente ou não – é de ser levado em conta que, em alguns casos, a discussão pertinente é deixada de lado para uma sequência de interesses.

A transexualidade é um tema delicado, a sociedade ainda tem sérias dificuldades em entender a diferença entre gênero e opção sexual, e enquanto pessoas que nem estão inseridas na vivência do dilema discutem e apontam o dedo para julgar os indivíduos, crianças do mundo inteiro se olham no espelho e não conseguem assimilar a imagem com a mente, com os sentimentos. Por conta disso, há de mencionado a importância da arte como elemento de difusão, auxiliando crianças e jovens de todos os lugares a, quem sabe, se identificarem, ajudando-os a encontrar o melhor caminho para uma longa jornada.

“Meu Nome é Ray” conta a história de Ray, um garoto transexual, que precisa viver entre a ansiosidade para o começo dos tratamentos com hormônios e os dramas da sua família, seja para compreendê-lo da melhor forma, ou demônios do passado. Dado a sinopse, é preciso salientar, a partir de então, que o principal problema do filme é justamente possuir um protagonista transexual, enfrentando dilemas emocionais enormes, mas nunca dar atenção dedicada a essa problematização. Enfatizando a família constantemente. O curioso é que a família é pessimamente desenvolvida, nem mesmo a vovó Dolly – vivida pela excelente Susan Sarandon – cuja personalidade poderia ser bem aproveitada, visto que sua atitude parte da espontaneidade e, nos momentos mais tensos, o seu bom humor se destacada, recebe atenção aqui. É uma mescla de conflitos, escritos de uma forma incoerente, tentando desesperadamente se tornarem melhores através dos talentos da já citada Sarandon, da Naomi Watts – que faz a mãe de Ray – e a Elle Fanning, que vem provando ser mais talentosa que a irmã, Dakota Fanning, há anos.

Mesmo que Elle Fanning prove a sua força dramática mais uma vez, há sérios problemas no que diz respeito a estruturação dramática que envolve o seu personagem. A começar pelos vídeos que Ray grava com o seu celular e edita no computador, como um registro da sua metamorfose, a ideia é interessante, apesar de não ser nada inédita, mas o que frusta realmente é que sua função na trama é descartada no segundo ato, se não bastasse isso, a qualidade visual e de edição dos seus vídeos se trata de algo profissional, o que tira drasticamente a visceralidade da proposta. Como pode um vídeo caseiro e despretensioso feito com um Iphone, de repente, se parecer com uma mega produção profissional, inclusive com ângulos precisos e impossível para um garoto fazer sozinho?

Com uma premissa poderosa, mas execução falha, o que percebemos é que se trata de uma sequência de cenas padronizadas que ganham forças esporádicas, se tratando de uma obra que apela para o seu conteúdo e é, por ele, traído. E empurra a responsabilidade de provocar a empatia para as suas atrizes. Uma decisão pouco corajosa da Gaby Dellal que, apesar das boas intenções, se deixa levar pelo caminho fácil do processo criativo.

Obs: Algo que sempre mencionarei é: dado a importância do tema e a indiferença de muitos, principalmente por se tratar de um problema de minorias, que bom seria se todo papel de transexual fosse vivido por um transexual, assim sentiríamos precisamente os seus conflitos, bem como abriria um espaço seja na grande industria ou veículo independente para os transgêneros. Por isso, recomendo fortemente o maravilhoso e recente “Tangerina”, dirigido pelo Sean Baker.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

More Posts - Website

Follow Me:
TwitterFacebookGoogle PlusFlickrYouTube

Os Brutos Também Amam, 1953

Os Brutos Também Amam (Shane, EUA, 1953) Direção: George Stevens

O faroeste, no auge da sua produção, exerceu grande influência na sociedade americana, principalmente pelo fato de resgatar a imagem heroica e destemida de um homem adulto que, vivendo em meio a um ambiente inóspito, – principalmente pelos perigos iminentes de uma cidade sem lei, tendo como boa parte dos habitantes homens rudes, que provam os seus valores através da força bruta – ainda conseguia sobreviver e ultrapassava as injustiça através de uma boa pontaria.

Crianças que cresceram assistindo aos mais diversos faroestes, se familiarizaram desde cedo com os conflitos básicos que permeavam os famosos bang bang. As donas de casa em perigo; prostitutas; conflitos com os índios; xerifes; bares como lugares perfeitos para fazer amizades ou lutar até morrer etc. Esses elementos caracterizaram o sub-gênero, mas enfatizam, primordialmente, que todo faroeste é, de fato, um drama. A partir da essência do desprendimento, coragem, força, batalha, entre outros, são desenvolvidos diversos temas que, por consequência, dialogam com os gêneros ação e romance. A palavra “faroeste”, enquanto pensado cinematograficamente, funciona mais como uma representação do contexto, estimulando a expectativa e nos remetendo diretamente a esses signos comuns.

É válido ressaltar essa reflexão, pois o filme em questão quebra a figura filosófica do herói dos faroestes. “Os Brutos Também Amam” (1953) trabalha um protagonista que foge do seu passado, não há nenhuma necessidade em explorar as situações que o levaram até tal ponto. O filme dá pequenos indícios do seu talento com a pistola, das suas habilidades em lutas, mas o retorno nunca acontece em sua totalidade. A angústia espiritual de uma trajetória repleta de mortes é uma maldição solitária do protagonista. Portanto, sobra espaços para o espectador preencher com os seus próprios conhecimentos, olhando o forasteiro da mesma forma que o garotinho Joey Starrett (Brandon De Wilde).

Shane surge cavalgando em um ambiente vazio – como era de se esperar – e o primeiro que o avista é o pequeno Joey. Algo que refletira no final do filme, onde o menino é o único que olha os feitos do herói perdido e, em seguida, é obrigado a vê-lo partir rumo ao Norte.

Humildes rancheiros passam a abrigar esse homem sem lar. Confiando unicamente na sua verdade. Há indícios de que o herói não se encaixa na família, apesar de ser bem aceito por eles. Em algumas cenas a fotografia nos mostra o protagonista em cômodos diferentes ou na parte externa da casa, olhando os movimentos rotineiros da família. Algo está dessincronizado, um ser humano vagueia pelo deserto, depositando toda a sua esperança em um esquecimento do seu registro.  Esse homem se transforma quando passa a enxergar na família uma oportunidade perdida e é, pelo amor, forçado a enfrentar a dura realidade: não há maneiras de lutar contra o seu próprio instinto.

A origem do herói é o verdadeiro vilão da história. A possibilidade de criar raízes é jogado fora com o passar dos minutos e o espectador percebe isso. É o drama psicológico de alguém que, apesar de ser querido, sabe que sua presença causará danos e afetará diretamente a doce realidade daqueles que se privam da luta para proteger seus filhos.

“Todos estaríamos em melhor condição se não houvesse arma alguma nesse vale, inclusive a sua”

Diversas camadas compõe esse universo que transborda realidade e sensibilidade. O foco não está nos feitos, muito menos na figura heroica que Shane representa para o menino Joey. A real preocupação se encontra em transmitir o sofrimento de um homem que vive as custas de transparecer força. O cinema mundial, principalmente americano, vive as custas da exposição do inquebrável, aqui nós temos a pureza, um alerta de que não existe perfeição sem dúvidas; não existe coragem sem medo; não existe robustez sem lágrimas.

Como último aviso, Shane pede para Joey avisar a sua mãe de que “não há mais armas no vale”. E com o protagonista se recusando a olhar para traz, somos obrigados a aplaudir um faroeste que critica subliminarmente os signos comuns que geralmente são associados ao sub-gênero. Nessa obra-prima, nunca existirá pacificidade enquanto o homem portar uma arma de fogo.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

More Posts - Website

Follow Me:
TwitterFacebookGoogle PlusFlickrYouTube

Moonlight, 2017

Moonlight: Sob a Luz do Luar ( Moonlight, EUA, 2017 ) Direção: Barry Jenkins

Quando o cinema consegue explorar personagens que são “errados” ou mantêm uma relação íntima com o erro, é realmente impressionante. Esse erro pode ser motivado por uma busca interior, talvez como um preenchimento das ambições mas, aqui, é pelas circunstâncias, o que certamente acrescenta ainda mais no impacto por conta de uma vida simples, afetada por diversos fatores como o descobrimento da homossexualidade, falta de carinho e vício em crack. Uma vida prejudicada pelo meio e pelos adultos, nasce com uma maldição, como se estivesse, desde criança, predestinado a sentir o castigo da mãe e buscar ser forte em uma condição que sussurra constantemente em seus ouvidos que irá cair; uma vida heroica por aguentar um soco do amigo/amante no rosto, cair e levantar, encarando o perigo e sendo, por ele, acompanhado em uma trajetória desequilibrada.

Ritmada por um azul melancólico que emerge lamentações e uma trilha que suaviza a calamidade, acompanhamos Black em três fases da sua vida que, por consequência, refletem bem os três atos do filme. O garoto, jovem e adulto enfrentam as adversidades da vida e das suas escolhas, sempre acompanhado da tentativa voraz de fugir da criminalidade e do preconceito sobre a sua opção sexual – que jamais é trabalhada com afinco, pois o mundo assim exige.

Existe poesia no desenvolvimento lento dos personagens, principalmente do protagonista. Cada segundo é a prova de que a maior capacidade do jovem diretor Barry Jenkins é conduzir os movimentos sem fazer nenhum tipo de julgamento, seja qual for a ação dos seus heróis. Isso dá a possibilidade de trabalhar com total respeito temas como condição precária de vida, usos de drogas, homofobia etc. Outra possibilidade real e bem exercida aqui é a sugestão – diversos olhares e silêncios respondem todas as perguntas do espectador, não se faz necessário um grande depoimento ou desabafo, até porque, se acontecesse algo assim, contrariaria a própria personalidade calada do protagonista.

O personagem principal é dividido em três partes e os nomes fazem referência ao momento: Little, Chiron e Black. Os nomes determinam o estágio e aquilo que irá enfrentar, o mesmo personagem se fragmenta ao ponto de se transformar totalmente fisicamente – claro, três atores o interpretam mas, de forma maravilhosa, todos se expressam da mesma maneira, fazem uso de algumas características fortes como as mãos mexendo nos cabelos e o olhar sempre permanece tímido e sensível, mesmo que o terceiro ator (Trevante Rhodes) seja grande e forte fisicamente, externamente, sua alma continua igual à primeira fase da vida, o mesmo garotinho assustado, sendo auxiliado e respeitado por um desconhecido e, quando questionado, demonstra ter dificuldade com os sentimentos, soando monossílabo.

Complexo na ideia e simples na execução, a forma orgânica que acompanhamos essa jornada é especial, existe uma sincronia entre a fotografia e a mensagem, assim como a sensação de conforto e medo ao assistir os movimentos de um herói como diversos que existem por ai. A diferença crucial é a sua verdade, transmitida por atuações espetaculares que traçam com perfeição o caminho árduo de uma existência sem amparos, sendo obrigado a sobreviver e manter-se forte, mesmo em meio à desordem.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

More Posts - Website

Follow Me:
TwitterFacebookGoogle PlusFlickrYouTube

Juventude, 2015

youth2-xlarge

★★★★★

Paolo Sorrentino é, impressionantemente, um jovem de 45 anos. Utilizo essa expressão pois sua capacidade de estudar o tempo e a velhice é sublime e envolta de muita sensibilidade/maturidade. No seu mais recente trabalho, “Youth“, o diretor brinca com uma linguagem desprendida, repleta de referências e informações – imediatamente lembrei-me do “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain“, pois ao assistir o filme francês o sorriso no canto da boca também permanece constantemente – e mistura alguns elementos melancólicos que podem ser vistos em dois trabalhos específicos da diretora polonesa chamada Dorota Kedzierzawska: “Koniec Swiata” (1988) e “Pora umierac” (2007). Ambos exemplos refletem sobre a passagem do tempo, perda e aceitação.

O cinema é uma ponte para catarse. Existem poucos filmes hoje em dia que se destacam por serem tão carinhosos. Essa ponte nos leva para vários lugares, várias idades e encontros, mas muitas vezes nos proíbe de imaginar o futuro. O cinema popular cria exaustivamente um mundo futurístico, com pessoas imortais ou dotadas de muitas facilidades. Mas seria mesmo o fim a insipidez da existência? Talvez a monotonia se forma e ganha forças através da nossa indiferença com o idoso e com os ganhos que o tempo nos dá.

Focalizamos o arrependimento e esquecemos que o fim não representa, necessariamente, o encerramento do espetáculo. O fim não é, nunca foi e nunca acontecerá de forma súbita. O fim é um processo, uma estrada, e cabe ao ser, de forma individual, escolher entre isolar-se ou doar-se.

Juventude” conta a história de um maestro aposentado chamado Fred – interpretado maravilhosamente bem por Michael Caine – e o seu amigo cineasta Mick ( Harvey Keitel ), eles estão passando as férias em um hotel luxuoso enquanto refletem sobre o passado, futuro, amores, enfim, a vida. Mick tem o desejo de realizar um último filme, que teima em classificá-lo como o seu testamento.

Mick, explicando a sua ideia para a realização do novo filme – vale ressaltar que ele teve uma carreira brilhante no passado, porém com o tempo a qualidade dos seus filmes foi diminuindo – diz que se chamará “O Último Dia da Vida”. O que escrevi sobre o “fim” acima, é a representação dessa obra que ele sonha realizar. Além de que esse filme é uma metalinguagem, pois se trata do próprio “Juventude” que, por sua vez, é repleto de referências – como comprovação, na última cena do filme, temos Mick fazendo um enquadramento para o próprio espectador, sugerindo também uma inversão de papeis, ora, por segundos o espectador se torna o “capturado” e, assim, parte do testamento.

As referências não param por ai – e seria impossível dissertar sobre todas – vejam por exemplo o personagem do querido Paul Dano, Jimmy Tree. Ele é um ator frustado pois mesmo fazendo diversos filmes alternativos só é lembrado por um filme popular de robôs. Paul Dano, por outro lado, se destaca também por filmes alternativos, apesar de serem conhecidos sempre exigem do ator uma mudança, mesmo que sutil.

A relação entre os dois amigos é tão natural e delicada, que é incrivelmente fácil adentrar naquele universo. Vivenciamos aquela paisagem maravilhosa, a trilha sempre oportuna, a fotografia que demonstra com perfeição a psicologia dos personagens, entregues aquela vida equilibrada, com poucas aventuras ou responsabilidades. A aventura, de fato, são os diálogos. Sempre pontuais, interessantes e, por vezes, engraçados.

A filha de Fred, Lena – interpretada pela lindíssima e talentosa Rachel Weisz – está presente no filme como um contraponto a tranquilidade já citada. Ela está em meio a uma separação e possui diversos ressentimentos em relação ao pai. E é através da sua visão que vamos conhecendo as falhas do maestro, afinal, pouco sabemos sobre sua história.

Tanto o cinema, como a música – que aqui representam a arte como um todo – aproximam e distanciam Fred e Mick do mundo. Lena diz em certo momento que o seu pai trabalhava constantemente e as palavras que mais dizia para ela era “silêncio Lena“. Não é contraditório um musico almejar silêncio? Seria o verdadeiro artista o maestro que se distancia de todos para trabalhar ou o homem simples que aprecia ouvir a família, o outro?

A resposta para essas perguntas, no filme, assumem a forma de uma jovem massagista ( Luna Mijovic ). Em dado momento ela afirma que “é possível entender tudo com o toque“. Ou seja, algo que o protagonista nunca teve com sua filha, porém, “Juventude” é uma obra prima e transforma o testamento em redenção, por isso, Fred acaricia de leve o rosto de Lena a noite, ela acordada sente, mas finge estar dormindo. Mas, no fim, “os pais sabem quando os filhos estão fingindo dormir”.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

More Posts - Website

Follow Me:
TwitterFacebookGoogle PlusFlickrYouTube

Garota Sombria Caminha Pela Noite, 2014

A.Girl.Walks.Home.Alone.at.Night.2014.720p.WEB-DL.750MB.MkvCage.mkv_snapshot_00.53.14_[2015.10.18_17.09.41]

★★★★

Anunciado como “O primeiro Western de vampiros iraniano” esse filme, no mínimo, diferente da diretora Ana Lily Amirpour só ressalta o quanto a figura do vampiro vem sendo transformada ao longo do tempo. A modernização dessa criatura histórica difere bastante do clássico “Drácula”, utilizando-se dos principais conceitos e traduzindo, através de uma metáfora, conflitos da nossa própria época.

Em mais um representante dessa liberdade criativa, a diretora parece transcrever fervorosamente a mediocridade da existência na figura do monstro, no mesmo tempo que, evidentemente, ele é poderoso e faz desse poder sua única fuga. Além disso, ela consegue complementar essa questão utilizando, também, um humano que se destaca em meio a um redor destroçado.

Acompanhamos, inicialmente, uma cidade iraniana chamada “Bad City” – mais risível que isso impossível, aliás, a comicidade exagerada está presente constantemente – que é repleta de violência, sexo, drogas, enfim, monstruosidades. Abriga também, como podemos interpretar, a representação de tudo isso: uma vampira.

Interpretada com toda graciosidade – mas entendo que essa afirmação pode soar estranho – pela Sheila Vand, somos apresentados a vampira em um momento particular, pré-caça, onde ela está dançando. Esse ser vaga pelas ruas perseguindo pessoas para, enfim, beber seus sangues e, com isso, sugar para si todos os seus males.

A cidade é iraniana, mas o filme foi filmado na Califórnia. Isso dá uma liberdade sem tamanho, inclusive bem diferente da que existe no Irã. Talvez um retrato das consequências do “ser livre”. Parte daí o melhor elemento técnico de Garota Sombria Caminha Pela Noite: a fotografia.

Todos personagens estão enclausurados, isso é demonstrado esteticamente, uma fotografia que, assim como sua protagonista, “suga” toda a felicidade, no mesmo tempo que enquanto arte é impossível não se impressionar, em absolutamente toda cena há algo que chame atenção.

1 A.Girl.Walks.Home.Alone.at.Night.2014.720p.WEB-DL.750MB.MkvCage.mkv_snapshot_00.27.10_[2015.10.18_17.08.33]

Há um romance entre a vampira e Arash – inclusive esse último tem um pai viciado em heroína, ou seja, sua vida é repleta de solidão e desesperança – os dois começam a se entender subitamente, ressaltando que a vampira é a representação de um sentimento. Ironicamente, as duas primeiras cenas de “encontros” dos personagens são sublimes: a primeira eles se olham através de uma grade, caracterizando, de imediato, a distância existente com o natural. E a segunda é um momento em que Arash está vestido de Drácula.

 Ressalto o relacionamento que é criado, para, principalmente, estruturar o pensamento e exprimir o quão surrealista algumas cenas se tornam. O mundo está doente, não há esperanças e os personagens todos, por sua vez, parecem ter saído de um hospital psiquiátrico. No meio de uma paisagem absurda, visto que a fotografia transforma pequenas ações em verdadeiros milagres – e, não, não estou sendo exagerado apesar de o ser boa parte do tempo – e, diante a essa desconexão, existe uma mulher que caminha pelas ruas a noite. A noite pode ser a representação, nesse caso, das barbáries, então temos um ser que funciona como um reflexo. Suas presas são, antes de mais nada, pessoas sem objetivo, sem necessidade e sem futuro. Em alguns momentos ela só os observa, outros aguarda até o último momento para saciar a sua sede… ou chega ao extremo de intimidar um pequeno garoto, obrigando-o a prometer que será um “bom menino”. Algo parecido acontece em “Clube da Luta”, onde Tyler Durden ameaça e, com o medo, pretende transformar uma vida.

A.Girl.Walks.Home.Alone.at.Night.2014.720p.WEB-DL.750MB.MkvCage.mkv_snapshot_00.34.04_[2015.10.18_17.08.52] A.Girl.Walks.Home.Alone.at.Night.2014.720p.WEB-DL.750MB.MkvCage.mkv_snapshot_00.34.52_[2015.10.18_17.09.06]

Infelizmente o ponto negativo do filme se encontra justamente no ritmo. Misturado com a superficialidade, intencional, dos personagens, bem como algumas ausências de explicações, se torna um pouco cansativo acompanhar. No mesmo tempo que a alma alternativa transforma A Girl Walks Home Alone at Night em um bom representante para um novo cult.

Usando o humor sempre com inteligência e transformando a vampira em uma figura intimidadora, muito por conta do visual, afinal, não é todo dia que vemos um vampiro de burca o que, para nós, que desconhecemos essa realidade, já causa uma estranheza. O filme é uma experiência interessante que merece ser usado e revisitado, um verdadeiro colírios para os olhos, mas não se engane, “Garota Sombria Caminha Pela Noite” apesar de ser meio hipster é extremamente complicado e não agradará a todos.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

More Posts - Website

Follow Me:
TwitterFacebookGoogle PlusFlickrYouTube