Brimstone, 2017

Brimstone (Idem, EUA, 2017) Direção: Martin Koolhoven e Martinus Wouter Koolhoven

Basta assistir poucos minutos desse filme para perceber uma preocupação quase exagerada em trabalhar com o soturno. Não que isso seja ruim, pelo contrário, a manifestação do caos está presente em cada momento, as injustiças e dores provocadas, principalmente, para crença extrema.

Liz (Dakota Fanning) é uma mulher que tenta fugir do seu passado mas se vê confrontada com a chegada de um reverendo diabólico na cidade. Existe entre eles um passado horroroso, motivando uma perseguição cruel, que em consequência afetará a família da protagonista e a sua honra.

Na primeira cena vemos um homem atirando na água. A sutileza da cena esconde um significado profundo, pois as balas perdem a força e velocidade pelo bloqueio do rio. Algo que será, posteriormente, referenciado com a proteção extrema da mãe em relação à integridade da filha. A perseguição, movida por uma insanidade intensa e instinto de vingança, desperta o ódio rapidamente, transformando o vilão – interpretado magistralmente pelo Guy Pearce – em uma figura transgressora, fria e inquebrável. É de se notar, inclusive, que o vilão é apresentado em um plongée e aos poucos vai virando contra-plongée, ressaltando justamente o seu poder.

Ainda sobre planos, em momentos pontuais é utilizado o plongée como uma forma de simular uma possível observação divina, isso é válido pois o inimigo é um homem cuja força e maior perigo se encontra justamente nas suas convicções de que é um veículo para os desejos de deus. Dado o contexto, a ignorância é o perfeito elemento para criar monstros que se alimentam das limitações alheias.

A violência está impregnada e é trabalhada de forma exaustiva pelos diretores Martin Koolhoven Martinus e Wouter Koolhoven, o que acaba cansando em dado momento, mas sua importância em relação aos maus tratamentos às mulheres, obsessão e extremismo religioso torna a obra extremamente significativa.

“Mulheres mais velhas cheiram diferentes. Jovens são inocentes”

O mal, aqui, se alimenta da inocência, a construção familiar é baseada no patriarcalismo e o trabalho constante clama por alívio. Talvez a maior fraqueza do homem esteja atrelado justamente a sua inerência à prática de rituais. Se por um lado o filme é inteligente em trabalhar esses temas de modo a provocar o desconforto, existe uma lacuna grande em relação à atuação da protagonista. Dakota Fanning simplesmente não está à altura do seu parceiro de cena, tamanha inexpressividade incomoda, pois o contraste com a situação é imenso. Por outro lado, Guy Pearce prova mais uma vez o seu talento singular, deleitando-se nas possibilidades maquiavélicas do seu papel e dando ênfase ao seu comportamento e ações polêmicas.

Em última análise, “Brimstone” é uma obra profundamente melancólica – não à toa utiliza a fotografia azulada para reforçar essa ideia -, que acompanha a jornada de uma personagem e revela em doses homeopáticas, e fora de ordem cronológica, a sua vida amaldiçoada. No entanto, a força da sua existência se encontra na coragem demonstrada ao proteger o seu futuro, lutando contra um passado que teima em se repetir e se desprendendo a cada passo, alcançando a liberdade ao se isolar sob a proteção das águas que a dividem da ira dos homens.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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La La Land, 2016

La La Land ( Idem, EUA, 2016 ) Direção: Damien Chazelle

★★

Em 2011 foi lançado nos cinemas o sucesso “O Artista“, dirigido pelo Michel Hazanavicius, o filme foi a aposta certa ao Oscar do ano seguinte por conta de uma exaltação sobre a sua proposta de homenagear os anos maravilhosos do cinema mudo. O entusiasmo parecia se encontrar em cada canto, críticas maravilhosas faziam alusão ao filme como sendo uma ousadia narrativa, super bem interpretado e dirigido, algo que entraria para a história. O resultado é que estamos em 2017 e, justamente, poucas pessoas mencionam “O Artista“, senão, pelo fato de ter conquistado o Oscar de 2012.

“La La Land”, apesar de possuir algumas características especiais, especialmente na direção de arte e fotografia, parece caminhar na mesma direção da obra citada acima, se fortalecendo como uma homenagem pura, levando-nos a embarcar na história agridoce do casal Sebastian (Ryan Gosling) e Mia (Emma Stone). Ambos possuem o sonho de viver da arte mas precisam acostumar-se a recorrer um ao outro para manter as forças até a realização desse objetivo.

O filme se apresenta destacando a força da cidade de Los Angeles para a trama, bem como as cores vibrantes para ressaltar a magia que envolverá o casal. O fato é que ambos se veem mergulhados na obstinação e o impulso e amor à arte que possuem é colocado em prova a partir do momento que presenciam a indiferença por parte das pessoas. As cores azul, vermelho, amarelo e roxo estão muito presentes; os dois primeiros como contraste entre tristeza e energia, paixão; o visual contextualiza o psicológico das personagens além de transportá-los para um universo onírico, que dá total liberdade ao diretor Damien Chazelle trabalhar ângulos e movimentos de câmeras, inclusive nas cenas de coreografias.

A aproximação dos personagens acontece de forma orgânica, mas o desenvolvimento é frágil pois vai de desencontro com a apresentação. Como musical “La La Land” é mediano; como filme de romance é lamentável. As coreografias e canções são esquecíveis – há apenas uma canção maravilhosa e que, infelizmente, é repetida na trama diversas vezes para pontuar o encontro ou despedida – e o romance é estruturado em uma série de clichês.

A diversão é garantida, principalmente pela harmonia entre a Emma Stone e Ryan Gosling. Os dois constroem personagens adoráveis, conversam entre si com uma naturalidade imprescindível o que, por consequência, cria uma atmosfera graciosamente hipnotizante. Mas ainda é uma experiência razoável, as referências são bem interessantes mas, sozinhas, não sustentam a fragilidade do roteiro; o sentimento que fica é que seria bem melhor revisitar as obras referenciadas.

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American Honey, 2016

Docinho da América ( American Honey, Estados Unidos, 2016 ) Direção: Andrea Arnold

★★★★

Star – cujo nome é bem sugestivo – é uma garota que, após um convite, se sente tentada a sair viajando pelos Estados Unidos com um grupo de jovens em uma van, todos eles vendem revistas de casa em casa e, nas horas vagas, fazem sexo, bagunçam e usam drogas.

Esse é o típico filme que provoca o espectador desde o início, não se baseia em um formato comum, possui uma narrativa contemplativa e a longa duração é mais uma prova que a diretora Andrea Arnold não está afim de criar algo padronizado. Nem todos os minutos são bem utilizados, chega um momento que fica repetitivo, mas ainda assim é uma experiência singular acompanhar esse grupo de jovens, tão diferentes entre si mas que, dentro das suas esquisitices, se complementam ou se satisfazem.

Filmes como esse provam que a partir de um road movie é possível extrair uma extrema naturalidade, fazendo a sétima arte parecer simples e muito próxima. A cada olhar empolgado pelos vidros da van, um sorriso no rosto do espectador e indiferença ao mesmo tempo, abraçamos o entusiasmo e felicidade do grupo, no entanto algumas atitudes são tão subversivas e imaturas que somos obrigados a questionar. Mas essa com certeza era a intenção, provocar o senso de voyeurismo e fazer estar dentro do grupo e distante, em um vai e vem interminável, tentando encontrar a melhor forma de adaptação – assim como a protagonista que nunca parece se envolver totalmente com todos pois, como já era de se esperar, ela mora ao lado das estrelas, sua percepção é diferente dos demais.

A estreante Sasha Lane desempenha uma função primordial no desenvolvimento de sua personagem, atingindo expressões que beiram a doçura, indiferença e paixão; do outro lado temos o Shia LaBeouf que, desde que começou a levar sua carreira a sério, se entrega a todos os seus personagens, vivenciando cada diálogo como se fosse o último.

A diferença do grupo se torna pequena perto do que todos possuem em comum: a ânsia por serem enxergues, por isso cada diálogo soa como uma tentativa desesperada de ser essência para alguma piada ou observação. É provável que aja muitos preconceitos por jovens assim, afim de curtir a vida sem freios, mas não seria o próprio jovem um desequilíbrio ambulante? – essa questão pode ser exemplificada em uma cena que Jake ( Shia LaBeouf ) e Star entram na primeira casa para vender revistas e a filha da moça que os atendera, menor de idade, dança e tenta conquistar Jake. A vida padronizada americana se desestrutura nesse momento, pois a moça manda os jovens saírem da sua casa e recebe em troca a frase “acho que o demônio tomou conta da sua filha“, ou seja, a perversão está escondida nas artificialidades de cada família.

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Colecionismo, fotografia e sensualidade

Preto, Branco e Cinza ( Black White + Gray: A Portrait of Sam Wagstaff and Robert Mapplethorpe, Estados Unidos/Alemanha, 2007 ) Direção: James Crump

★★★★

Esse documentário fala sobre a vida do colecionador, curador de exposições e artista Sam Wagstaff, principalmente sobre o seu fascínio por fotografias desconhecidas que, por coincidência, refletiam traços da sua personalidade excêntrica e como esse vício/objetivo impactou a vida do seu namorado e fotógrafo Robert Mapplethorpe.

O núcleo do filme acontece entre as décadas de 70 e 80, que apesar de serem opostas, ambas são extremas e refletem bem a personalidade de Sam Wagstaff e Robert Mapplethorpe e como ambos representavam o complemento perfeito para uma face repleta de lacunas tanto emocionais quanto físicas. Sam Wagstaff cresceu em meio a aristocracia, dotado de uma beleza exótica, desde novo era acompanhante da mãe e exalava segurança e domínio. Robert Mapplethorpe, por sua vez, se apresentava ao mundo como um rebelde sem causa, em um primeiro momento é curioso como o documentário trabalha essa relação que funciona como uma catarse para alcançar a autonomia do próprio corpo e sexualidade.

Sam começa, através do seu parceiro e aceitação da sua opção sexual, a descobrir um outro lado da sua persona; corajoso, subversivo, explorador, expositivo, enfim, ele passa a dialogar com uma nova versão de si mesmo, que será ainda mais desenvolvida com a união das suas paixões como artes, colecionismo e fotografia.

Usando a cidade de Nova Iorque como pano de fundo para a autonomia e liberdade de expressão, o documentário – brilhantemente dirigido pelo James Crump, que consegue transitar pelos depoimentos, fotografias maravilhosas e temas com uma fluidez inacreditável – se divide em vários ao transmitir o poder de uma relação que se estrutura, basicamente, em uma simbiose profunda e como esse encontro pode desencadear o surgimento de novos intelectuais e revolucionários, mas também aborda o sentimento de êxtase que a coleção provoca e o poder reflexivo que a fotografia possui, principalmente quando um sujeito está disposto a tentar descobrir um pouco de si em cada imagem que analisa.

É um filme fascinante para amantes de fotografia, pois exalta constantemente essa arte como forma de evolução e diálogo com a sociedade, mas também é uma ode ao colecionador que, com muito carinho e dedicação, reúne diversos objetos que o identificam de alguma maneira. De brinde temos uma grande história de amor e amizade – a cantora punk Patti Smith era muito amiga do casal principal – que serve como mensagem simples e impactante sobre a busca do indivíduo em completar seus medos e ausências com o amor, mesmo que a sociedade o repreenda. As fotografias de Robert Mapplethorpe exalam essa ideia de libertação, revolução sexual e “voz aos homossexuais”, com decisões cruciais na utilização das sombras para criar os contrastes, é um trabalho imprescindível para adoradores de fotografias e apoiadores do movimento LGBT.

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A jovem se descobre mulher enquanto caminha

Jolene ( Jolene, Estados Unidos, 2008 ) Direção: Dan Ireland

★★★

Quando uma obra se dedica a percorrer caminhos incertos através dos olhos de uma mulher, é de se esperar coisas diferentes. Em “Jolene” o diretor Dan Ireland explora essa necessidade se pautando na força da sua atriz principal – ainda em ascensão – de modo a provocar quem assiste com a jornada de uma menina, que aos poucos vai se transformando em mulher conforme as suas relações, lugares e prazeres.

A história gira em torno de Jolene que, assim como a famosa música de Dolly Parton, é dotada de uma beleza singular e exala uma magia nos homens, de forma a enfeitiça-los com tamanha doçura. O filme percorre dez anos na vida dessa jovem – dos dezesseis anos até vinte e seis – que começa com um casamento por interesses e como atalho para liberdade, passa pela entrega ao sexo até chegar no ápice da experiência: ser mãe.

Essa jornada é contada de forma flexível, apoiando-se na brilhante atuação da Jessica Chastain que, aqui, demonstrou para o mundo o seu talento e foi chamada posteriormente por Terrence Malick para fazer “A Árvore da Vida”. Jolene caminha por entre diversos momentos, completamente diferentes entre si mas que se complementam, cada relação que ela se envolve transforma o longa e a sua protagonista, como se fosse montado como pequenos curtas-metragens, e todos têm como essência uma feminista que não tem medo de usar a sua beleza, sexo e persuasão como ferramentas para se livrar de situações incomodas, mas que, ainda assim, exala uma inocência hipnotizante.

A semelhança com “Thelma e Louise” é grande, a questão da liberdade feminina está em cada quadro dos dois primeiros atos, mas o fato de ser uma personagem solitária preenche outros lados e diferencia bastante, como se o processo de evolução fosse em base ao silêncio e contemplação; por estar só, Jolene se vê vítima dos acontecimentos e se transforma em heroína a cada vez que tenta se recuperar.

O primeiro casamento da protagonista é uma síntese das outras relações que viriam na posterioridade. Ela é movida, subliminarmente, por uma sensação de urgência em rumo à liberdade – no entanto se vê presa na casa dos tios do seu marido – e se depara com um parceiro limitado intelectualmente e infantil; rapidamente a moça é forçada a “pular degraus” quando um homem mais velho a viola, se tratando de uma mulher que vive intensamente, sobrevive à catástrofes e se restabelece através de instintos.

Uma cena, logo no início, que simplifica questões feministas do longa é um momento que o primeiro marido de Jolene a presenteia com uma camisola enorme, como forma de estabelecer um padrão e controle a jovem – ele ainda vislumbra sua mulher com a camisola e, mesmo percebendo a desconfortabilidade dela, ainda afirma o quão sexy está, demonstrando ser apático aos gostos e reações de uma mulher.

A mensagem principal é belíssima, repleto de momentos interessantes como um striptease ao som de Nina Simone, um momento que coloca em evidência as virtudes performáticas da protagonista que mesmo podada pela vida ainda demonstra diversas aptidões artísticas.

O terceiro ato se torna repetitivo e a jornada acaba sendo prejudicada, mas nada que tire a importância desse filme, que é um verdadeiro tesouro dentro desse tema que, infelizmente, é pouco abordado no cinema. É uma pena que essa obra tenha percorrido um caminho tão estreito quanto sua personagem principal nas poucas exibições em festivais, pois a importância temática e performance maravilhosa da Jessica Chastain merecem todas as atenções.

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A virgem caminha ao encontro do caos

Demônio de Neon ( The Neon Demon, Estados Unidos, 2016 ) Direção: Nicolas Winding Refn

★★★★

Nicolas Winding Refn representa muitas coisas para o cinema independente, principalmente quando relacionado com o cinema pouco explicativo e mais contemplativo e penetrante. Considero um erro fatal analisar o seu trabalho apenas com as realizações “pós-Drive”, isso porque existe diversos filmes anteriores que o colocam como um dos grandes nomes do cinema autoral, ao lado de Gaspar Noé e Harmony Korine – citando dois exemplo que, de uma forma ou de outra, se enquadram na ambição do NWR.

“Bronson”, de 2009, é um dos filmes magníficos, sendo lembrado até hoje por seu humor negro e, também, por ter lançado o ator Tom Hardy ao estrelato; a trilogia “Pusher” é a demonstração exata do seu ritmo desenfreado e abusivo; “Valhalla Rising” percorre o silêncio e provoca com tamanha contemplação. Enfim, o seu trabalho definitivamente se baseia em grandes nomes do passado como Dario Argento e David Lynch e, com o passar do tempo, atingiu uma tentativa desesperada de equiparar-se com o já citado Gaspar Noé no que diz respeito a postura flexível, violência e polêmica extrema afim de causar o choque, não à toa ambos diretores são amigos e devem passar as tardes de domingo se masturbando enquanto assistem “Love” ( 2015 ) – não é coincidência que o ator Karl Glusman, que trabalhou no último de Noé, esteja em “The Neon Demon”.

Depois de “Drive” a narrativa de NWR se tornou diferente, ousada e, porque não, pouco aceita. “Only God Forgives” ( 2013 ) foi muito criticado em sua estréia por conta de uma suposta pretensão. Nesse ano o diretor retorna com a mesma personalidade, compondo com atenção uma película repleta de brilho, transformando sua protagonista em uma musa de um universo proibido, sendo guiada pela estética à caminho do inferno.

A história de “The Neon Demon” é básica: Jesse, uma garota de 16 anos e interpretada pela graciosa Elle Fanning, chega em Los Angeles e adentra o universo da moda. Conhecendo algumas pessoas importantes do meio, como a maquiadora Ruby ( Jena Malone ), o fotógrafo Jack ( Desmond Harrington ) e as modelos Sarah e Gigi ( Abbey Lee e Bella Heathcote, respectivamente ), a jovem se vê em meio a falsidade, inveja e busca desesperada por sucesso.

A trama simples transforma-se em hipnotizante através de um visual excelente que preenche todas as lacunas possíveis do roteiro, mesmo que não o isente de uma certa infantilidade e preguiça. A direção de arte e fotografia é minuciosamente pensada, criando símbolos visuais e distrações, como uma forma de chamar a atenção, atraindo o interesse e, consecutivamente, chocando com as evoluções sutis das personagens.

As cores permanecem vibrantes o tempo todo, pendendo para o azul e vermelho, como a perfeita dicotomia existente na protagonista que começa angelical e vai se desfazendo, conforme confronta o infernal mundo estético. O diretor é daltônico, só enxerga contrastes, o que é curioso quando relacionamos com a sua obra e percebemos que a cor é a alma das transições, sustentando o ritmo lento e se tornando a personificação do próprio tema.

A onipresença e relevância da Elle Fanning, seja como figura, atuação e beleza, é tão extrema, que é impossível não utilizar a sua imagem e nome como uma metalinguagem à questão do mundo da exploração midiática. O diretor parece gozar de seu talento e visual, ao filmá-la de todos os ângulos possível, com diversos figurinos e maquiagens, como se fosse uma boneca, cujo criador modifica seu corpo conforme a sua necessidade artística. Esse é um ponto, inclusive, que pode soar como abuso de imagem, uma pretensão exacerbada e egocentrismo por parte do diretor, mas mesmo concordando em partes com esse pensamento, ainda é possível sentir a energia artística nessa manipulação. Elle Fanning interpreta de maneira detalhista, despertando a atenção de forma natural, com uma delicadeza incrível, inocência e, no entanto, os seus desdobramentos narcisistas são feitos de forma sutil – como o piscar dos olhos: ela começa piscando bastante, como um contraste para com as outras modelos, sempre com os olhares estáticos, aos poucos Jesse começa a ser igual, como se a sua própria imagem a violasse.

 A imagem é sempre ressaltada, fotograficamente o filme emprega constantemente o brilho à protagonista, destacando as maiores virtudes físicas da atriz principal, cuja aparência não é a mais linda em comparação com as outras atrizes, mas a naturalidade das suas expressões a transformam como a única capaz de provocar a empatia. A composição da personagem é importante para aceitação do reflexo como ideia de falsidade. Em diversos momentos o espelho é trabalhado como ferramenta primordial ao registrar a protagonista, o sentido de mundo paralelo e cópia é exaustivamente trabalhado, como uma forma de reforçar a própria ideia do cinema que, em suma, se utiliza de diversas vidas, modificam-nas para um mesmo fim e aguarda as respostas do público diante uma verdade manchada de sangue.

No início do filme há um ensaio fotográfico, Jesse está deitada em um sofá, com os braços para baixo e repletos de sangue. O painel que será o fundo da fotografia não é a realidade pois, logo atrás, há cores vibrantes, vermelhas, há sangue, amor e luxúria; principalmente, há mais espaço. A fotografia revela uma parte da verdade, direciona às lentes para uma só posição e credita aquele quadro como realidade absoluta e imutável. Essa é a fotografia que se baseia na exploração do físico, que cria o desejo, seja no consumo ou a inveja de uma estética perfeita. Evidentemente existem fotógrafos de moda que produzem arte, mas é sabido que a maioria nesse ramo está interessado na venda e, para isso, se utiliza de uma série de artifícios afim de iludir, alienando diversas jovens ao redor do mundo que ao se olharem no espelho não encontram uma pessoa que, ao entrar em uma sala repleta de pessoas, “são vistas e contempladas como a luz do sol”.

O perigo da moda é que, nesse ambiente, não existe nada que não venha da beleza. Assim como a maquiadora, o diretor se utiliza dessa mensagem – não inédita no cinema – para criar máscaras onde suas atrizes personificam o vazio existencial da imagem como produto, e essa mensagem pode ser contextualizada em qualquer arte que, por interesses maiores, se desvia do caminho natural e se torna produto.

“[…] eu não sou boa em dançar, cantar ou escrever, mas sou bonita, consigo ganhar dinheiro sendo bonita[…]”.

Existe redundância em cada atriz, como se os seus movimentos fossem de prisioneiras, mantendo-se fiel às palavras. Logo no início a maquiadora Ruby questiona Jesse se ela prefere sexo ou comida, como uma alusão ao batom que uma das modelos passava em um banheiro de uma balada. A protagonista não responde nesse momento mas, no final do filme, ela recusa o sexo com a maquiadora e é comida, ou seja, a resposta vêm após um espaço de tempo e movimento de conhecimento sobre o processo de exibir-se.

A redundância também está impregnada na artificialidade das outras modelos que se veem perfeitas por conta das plásticas, estas soam como almas vagando sem deus algum, visto que sua figura fora moldada por diversas pessoas e todas atribuem os seus gostos e necessidades: cirurgiões plásticos, maquiadora, fotógrafo, todos esses têm em comum o poder de modificar uma imagem, uma vida e um objetivo.

O problema se encontra justamente em reforçar essa redundância a cada segundo, fazendo parecer que existe a insegurança sobre a capacidade intelectual do espectador em encontrar as respostas sem o desespero em revelar as mesmas coisas cinco vezes – não acharia exagero creditar o número do quarto da protagonista como mais um exemplo dos significados sobre a redundância ao seu redor, visto que o número 212 ao contrário é a mesma coisa.

Mesmo com os deslizes – todos direcionados ao roteiro que justifica sua preguiça por conta da metalinguagem com o universo que aborda – a nova obra de Nicolas Winding Refn casa perfeitamente com a nova postura extremamente visual e exibicionista do diretor. O final é baseado definitivamente no choque e fica aquém de outros nomes com propostas parecidas como o próprio Gaspar Noé que consegue provocar de forma muito mais orgânica. No entanto, a alegoria referente aos olhos é bem oportuna, apesar de simplista, serve como uma síntese do que estava sendo criado até então. Em resumo, o filme consegue ser agradável aos olhos e hipnotiza os atentos e dispostos, concentrando todas as energias em criações de mensagens subliminares, mas o mais interessante é que todos giram em torno de uma só personagem que, brilhantemente interpretada, provoca a sensibilidade através da sua ternura e ingenuidade; é a perfeita jornada de uma virgem à caminho do suicídio, sua morte acontece enquanto ela se masturba com o caos e imagina uma vida feliz onde a naturalidade é tudo o que se pede; pobre menina, mal sabe ela que nesse mundo só sobrevive os que invejam e devoram.

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Olhos de mamãe ensinam a crueldade e apatia

The Eyes of My Mother ( The Eyes of My Mother, Estados Unidos, 2016 ) Direção: Nicolas Pesce

★★★★★

É impressionante a sensação mágica que acontece – principalmente para os amantes do cinema obscuro – quando uma obra audiovisual consegue adentrar o espaço do incômodo, mas do que isso, estabelece toda a sua estrutura na invasão de privacidade e mostra, através de uma ótica quase imperceptível, os erros, segredos e psicológico doentio que existe em diversas famílias ao redor do mundo.

Ora, seria terrível terminar um filme como “The Eyes of My Mother” acreditando que os eventos registrados, por mais agressivos e insanos que possam parecer, dialogam com diversos casos reais de abuso psicológico por parte dos pais, abusos físicos e atitudes monstruosas relacionadas diretamente com a vingança.

Em dado momento, um homem que acabara de invadir uma casa e matar um ser humano, confessa para uma menina que o fez pois o assassinato provoca uma sensação brilhante. Ironicamente o filme começa com uma mãe explicando detalhes referentes aos olhos de uma vaca para sua filha, a cabeça do animal permanece sobre uma mesa enquanto há o diálogo trivial – mas não sem propósito – e tal abuso de poder não significa absolutamente nada para ambas.

Dirigido pelo estreante Nicolas Pesce com uma segurança exemplar, “The Eyes of My Mother” acompanha a história de uma família que mora em uma fazenda no interior de Portugal e suas reações nada previsíveis e sãs, após o assassinato da mãe/esposa.

A fotografia é brilhante, usa o preto e branco como uma forma de demonstração da alma dos personagens que, propositalmente, são desenvolvidos de forma flexível; é evidente a despreocupação em analisar toda a história dos personagens, essa é uma decisão que possibilita ao espectador preencher as lacunas com possíveis explicações para psicológicos tão corrompidos. Assim como os eventos partem de uma naturalidade que, por conta do contexto, se tornam horrorosos, o roteiro transmite a sensação de perdidão, como se estivéssemos sendo cúmplices do erro ou até mesmo as próximas vítimas, simplesmente por sabermos a verdade.

Por se tratar de um filme de curta duração – 76 minutos – o longa é inteligente em utilizar alguns artifícios técnicos para transmitir a ideia de forma direta, otimizando o tempo e direcionando o olhar para os pontos que realmente demonstram evoluções na narrativa: no primeiro ato a câmera na mão define que os eventos terríveis que acontecem desencadearão uma sequência de atitudes absurdas relacionadas à vingança; no segundo e terceiro ato a fotografia ressalta o isolamento da protagonista Francisca – interpretada maravilhosamente bem pela Kika Magalhaes – como, por exemplo, no momento que existe um plano aberto que preocupa-se nitidamente em reforçar a grandiosidade de uma floresta, em comparação com a personagem que, consumida pelo local, é invisível aos olhos da sociedade.

Kika Magalhaes dá a sua personagem uma carga emocional grande, mesmo que saia por vezes da atmosfera criada pela obra por conta de alguns exageros, volta sempre com muita elegância e se adapta rapidamente por conta da intensidade do seu olhar, sempre fixo e distante, mesmo nos possíveis momentos de afeto.

Ainda sobre a fotografia – que poderia ser dissecada por horas – é válido ressaltar os diversos trabalhos com a luz que, por diversas vezes, criam silhuetas, reforçando a ideia de que os personagens são sombras da normalidade, ocultando segredos e se mantendo à margem da sociedade. Outros momentos a janela é utilizada, em primeiro plano, como uma forma de barreira para com o mundo exterior – não coincidentemente suas divisões formam uma cruz invertida, símbolo que remete, dentre tantas coisas, à maldade.

O longa percorre a crueldade e incomoda com diversas cenas que, por serem tratadas de forma crua, outras vezes com cortes abruptos, instigam à imaginação e, principalmente, provocam o choque com tamanha realidade. Em uma cena, Francisca ainda criança após um ato de violência extrema que impedirá o assassino de sua mãe de falar, retorna aos braços do seu alienado pai e fala: “ele não vai mais falar… Te amo papai”, enquanto ouve como resposta o silêncio. Ou seja, o seu pai também não fala, como se todas as terríveis atitudes mostradas ao longo, remetessem não só as vítimas como aos abusadores, a família sofre da maldição da solidão, sem ternura, sem propósito, os olhos da mamãe ensinam apenas a crueldade e apatia.

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Dope, 2015

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★★★★★

Dope” é um bom representante de filmes que prendem a atenção desde o seu início.  Com uma narração envolvente, personagens inteligentes e vestidos de forma bem colorida, o diretor Rick Famuyiwa provoca nos espectadores a preocupação com os protagonistas: pois coloca um trio de amigos geeks vivendo em uma cidade repleta de violência e desesperança, no caso é citado The Bottoms, porém esse lugar representa muito mais. Os amigos são extremamente exigentes e corajosos em mostrar constantemente as suas diferenças, visto que são bons alunos, tiram boas notas na escola e querem ir para a universidade, no mesmo tempo que criam, inconscientemente, uma discrepância entre a realidade e as poucas expectativas que todos tem acerca de quem é negro e vive em The Bottoms.

A cidade representa, então, a discrepância. Existem inúmeros casos de preconceitos na própria família que, movidos por um pensamento arcaico, acreditam que o filho de pobre e negro não pode buscar uma vida melhor, buscar estudos etc. A própria sociedade impulsiona esse pensamento quando faz da oportunidade uma área vip.
Contudo, existem muitas histórias mundo afora de heróis que conseguiram se destacar em meio a uma falta de expectativa e apoio, deram tudo de si, e, mesmo caminhando ao lado das drogas, nunca se deixou levar, sempre com foco e equilíbrio.

É fácil perceber que alguns jogam a vida no modo fácil, outros precisam se atrever, superar obstáculos, muitas vezes maior do que nós passaremos um dia. A realidade social, o contexto familiar, as experiências, nada disso proíbe o batalhador de vencer na vida. Usar esses argumentos como motivo para a derrota é, muitas vezes, tentar disfarçar a própria fraqueza.

O interessante é que “Dope“, como escrevi acima, é provocador. Ele transmite toda essa reflexão sobre realidade social de forma sublime, não precisando cair na exposição, muito menos na seriedade. Essa é a sua maior força e, pessoalmente, acredito que fez toda a diferença para se tornar um dos destaques de grandes festivais como Cannes e Sundance.

A narrativa dá um valor gigantesco ao humor, trabalhando temas como o preconceito racial de forma leve e despretensiosa, porém, nunca perdendo a elegância. Hollywood precisa todo ano fazer algum filme que fale sobre os negros, é quase uma obrigação. Quem dera se todo ano aparecesse uma obra respeitosa assim, pois me parece que algumas coisas tentam ser grandiosas mas fracassam, sendo distantes da realidade e morrendo afogado na sua própria pretensão.

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O figurino dos três amigos além de ter uma importância para a compreensão do desprendimento existente entre eles com o meio, ressalta também a ousadia do próprio filme; Em abusar de uma montagem que parece estar sempre em sincronia com o hip hop. 

Em dado momento, há uma inclinação a acreditar que os objetivos serão deixados de lado para seguir um caminho fácil. Algo como “Breaking Bad” que, em uma perfeita mescla de humor e densidade, desenvolve personagens que falham muito e constantemente se envolvem em situações comicamente desastrosas.

Porém, depois de uma correria – sim, o filme tem um ritmo ótimo – somos surpreendidos com um fechamento do ciclo muito fiel ao personagem que aprendemos a admirar: ​Malcolm. Interpretado com uma mescla de inocência e responsabilidade pelo – anotem esse nome – Shameik Moore, que, por sinal, não é difícil creditá-lo como um bom nome para o futuro.

O final é quase um soco no estômago, Malcolm quase sussurra/grita/desabafa, subliminarmente, algo assim: “Tá vendo? Você achou que eu tava perdido, que não ia conseguir?”. Então percebemos, com um sorriso enorme, que todas situações catastróficas eram apenas reflexos dos obstáculos que temos na vida, que a droga significava a estagnação e que fomos presenteados, nesse ano de 2015, com mais um excelente filme sobre o jovem.

“Porque eu quero ir pra Havard? Se eu fosse branco,vocês me fariam essa pergunta?

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Tangerina, 2015

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★★★★★

O diretor Sean Baker dirigiu em 2012 o pequeno grande filme “Starlet” que, basicamente, acompanha uma menina e uma relação nada provável que se estabelece entre ela e uma senhora de 80 anos de idade.

O engraçado é que por mais que eu tenha gostado do filme, apenas a intenção de “mergulhar” na relação fora do comum entre uma pessoa querendo descobrir o mundo e uma senhora solitária que tem muito a oferecer, que realmente me chamou a atenção. Quando eu assisti, há uns 2 anos, jamais classificaria o diretor como ousado ou um grande nome para o futuro. Vejam só que ironia! Assistindo o seu mais recente filme foram exatamente essas certezas que eu tive.

“Tangerina” tem como proposta algo aparentemente simples: acompanhar a vida de duas meninas, transexuais, pelo mundo da prostituição. Como podemos imaginar, esse mundo suburbano traz consigo uma série de outros elementos que irão compor essa história como, por exemplo, violência, preconceito, amizade, falsidade etc.

 O trabalho de direção é muito eficiente pois consegue transmitir uma sensação de rebeldia, desprendimento e atitude, demonstrando com perfeição a alma do cinema independente. Filmado inteiramente com apenas 3 Iphones – o que não é algo inédito no cinema – os movimentos de câmera que acompanha a protagonista, geralmente enquanto ela perambula pelas ruas de Los Angeles, dá a sensação de mergulho na personagem, nas suas necessidades, bem como no seu olhar sobre as ruas.

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Mesmo que o diretor se utilize da tecnologia para a filmagem, o seu trabalho é tão eficiente e maduro, as decisões são tão oportunas, que logo nas cenas iniciais concluímos que o filme, de forma alguma, é amador. Muito pelo contrário.

O fato de ser utilizado celulares para a realização, não apenas diz respeito ao orçamento, como também dá a possibilidade de uma maior liberdade de criação, uma flexibilidade e intensidade que, no caso do filme em questão, se torna muito necessário. Com o ótimo resultado em grandes festivais como Sundance, por exemplo, essa decisão impacta diretamente na forma de se fazer filmes. Hoje com o crescimento da tecnologia, a evolução da qualidade, se tornou muito fácil produzir um conteúdo. Isso de forma alguma é algo ruim, pois dá voz à pessoas talentosas para produzirem a sua arte da forma mais acessível possível.

O celular pode ser uma ferramenta crucial no cinema, principalmente independente, pois é algo que a maioria possui. Então partir do pressuposto, em uma narrativa, que a realidade está sendo captada da forma mais amadora e visceral é possível, e, dependendo da forma como será trabalhada, poderá ser desenvolvidas outras grandes obras como “Tangerina”; Que consiga se sobressair a qualquer dúvida em relação a qualidade de filmagem.

Sean Baker, um diretor de 44 anos – com muita vontade e sensibilidade – conheceu duas pessoas em um evento LGBT: Kiki Kitana Rodriguez e Mya Taylor. Ambas não tinham nenhuma experiência como atrizes e desenvolvem as suas personagens de forma extremamente visceral. Existe uma liberdade ali, uma intenção de tornar as ruas em um grande palco e, assim, fazer as atrizes brilharem. Eu não hesitaria em afirmar que ambas as atuações poderiam ser reconhecidas em premiações grandes, caso não existisse tanto conservadorismo e preconceito no mundo.

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Logo no início já percebemos uma preocupação enorme em ser natural, o que poderia acabar resultando no equívoco da artificialidade, porém, se mantem com elegância no objetivo, a naturalidade se torna o maior mérito dessa obra. Talvez os conflitos apresentados sugiram algo vazio nas cenas iniciais, porém demonstra com perfeição a realidade dessas pessoas, que se utilizam da rua como uma forma de sobrevivência e aceitação.

A amizade está muito presente, assim como a comédia. É incrível a capacidade dos envolvidos em apresentar um tema tão profundo, de forma tão despretensiosa e que se relacione tão bem com o humor. Mais interessante ainda é notar que há uma inteligência na mescla do drama em momentos pontuais, homenageando essas personagens que conseguem ser tão fortes a ponto de sorrir mesmo em meio as lágrimas internas que existem quase que constantemente. Os conflitos, que pareciam vazios, vão dando lugar ao entendimento e respeito para com aquela forma de vida.

O uso da música, de uma forma geral, é muito boa, em dado momento temos um clássico de Beethoven e a personagem parece estar acorrentada pela vida, pelas pessoas, como se fosse invisível, e, de repente, diante a um movimento simples, começa a tocar um hip hop. Em outra cena, uma das melhores do filme, Alexandra ( Mya Taylor ) apresenta a canção “Toyland” em uma boate, extremamente linda, extremamente talentosa, porém, não consegue atrair tantos olhares, tantas admirações; Depois em uma discussão sabemos que ela teve que pagar para cantar na boate, ou seja, precisava se mostrar. No entanto, o sorriso no rosto ao convidar suas amigas e clientes para a sua apresentação, dá lugar a decepção da realidade: ela é uma pessoa que vive a margem da sociedade.

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O fato da história ou conflito acontecer na véspera de natal, só reforça o quanto faz falta um lar. No mesmo tempo que diante a fotografia alaranjada, os detalhes vermelhos e a própria postura das protagonistas, sugerem que aquele sistema se torna uma grande família imperfeita, por mais errôneo que possa parecer aos olhares exteriores.

Desde as prostitutas até os pais de famílias que procuram os seus serviços eventualmente. Aliás, o termo “família” é algo muito questionável durante o filme, talvez de forma implícita, assim como a amizade. Parece que todas precisam ser amigas, precisam estar conectadas, uma relação amorosa não é o suficiente, o sexo, por sua vez, não é prazeroso.

“Los Angeles é uma mentira embalada em um papel bonito”

Outro foco do longa é os taxistas armênios, além deles serem um dos clientes das prostitutas no filme, servem como uma fuga para o espectador. As cenas inseridas com pessoas, por vezes, aleatórias, conversando sobre o cotidiano é uma quebra, uma forma de direcionar rapidamente o olhar para o outro lado e, assim, percebemos que lá ocorre algo tão monótono ou complexo quanto. Enfim, tudo é a vida.

Se o começo do filme é de uma intensidade tamanha, no final temos um equilíbrio. Tecnicamente tudo vai se tornando mais calmo, um verdadeiro contraste a uma série de confusões que vínhamos acompanhando. Temos uma densidade que traz uma reflexão sobre todo o processo: percebemos o quão importante é tentar entender os motivos do outro e ultrapassar nossos próprios preconceitos sobre um mundo do qual não pertencemos mas que permanecemos vizinhos. Afinal, existe centenas de coisas absurdas acontecendo nas ruas nesse exato momento.

A cena final é extremamente carinhosa, onde o espectador se conforta junto com as duas amigas, e passa a ter certeza que, apesar das discussões, a amizade que existe ali é verdadeira e confortará ambos corações em momento de desespero – pelo menos naquele instante é de suma importância ter alguém para dividir a peruca.

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Flowers, 2015

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★★★★★

Sempre surge, em uma discussão sobre o terror, a questão do gênero estar em plena decadência. É evidente que mudanças são feitas por conta do contexto, esse gênero tão querido se transforma conforme as situações que a sociedade passa.

No mesmo tempo, surgem inovações, como o found footage que se mostrou uma boa oportunidade para produzir com pouco e render bastante, uma verdadeira porta de entrada para realizadores independentes criarem o seu, as vezes, bom conteúdo.

Ou seja, há diversas experimentações e, por consequência, no mesmo tempo que existem coisas boas, há muitos oportunistas. O que é normal em qualquer área da criatividade humana. Esse ano de 2015 está sendo muito interessante para os, como eu, amantes do terror. Tivemos “It Fallows” que brinca com os clichês de forma inteligente e, principalmente, o suspense de forma eficiente. “Goodnight Mommy” é um drama com resquícios de horror psicológico – talvez o subgênero mais complicado que existe, pois é preciso ter consciência do objetivo e saber conduzir a trama para esse fim, com artifícios técnicos. Outro que, na minha opinião, se destacou bastante foi o “The Atticus Institute” pois pega um elemento conhecido dos filmes atuais, o exorcismo, e subverte a regra, tranca a protagonista, usa o homem como peão para tentar controlar o mal.

Acrescentando mais um para a lista, “Flowers” é uma perfeita viagem surrealista através da destruição e a própria morte. Antes de, fatalmente, revelar um pouco da sinopse, indico ao leitor que não se atenha simplesmente as informações/sinopses como indicadores se devem ou não assistir essa pequena obra prima pois é muito pouco, nem de longe demonstrará a profundidade que é acompanhar a experimentação dirigida pelo estreante Phil Stevens.

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A história toda se passa em uma espécie de mansão, cujos porões escondem prisioneiras que, na sua maioria, foram abusadas. Acompanharemos seis mulheres, se arrastando como vermes a caminho de uma fuga, mas para chegar lá são expostas a destroços humanos, sangue, medo e a própria morte.

Destacarei dois aspectos importantes para contextualizar os elogios que virão a seguir, sim, pois o filme é perfeito dentro da sua proposta. Primeiro: Não temos um diálogo sequer, uma hora e vinte minutos de desespero, com sons estranhos, distorcidos, as vezes abafados, como se as mulheres estivessem no inferno. Segundo: Se trata de um filme extremo, com muito sangue, podridão, violência e sujeira – inclusive o tom sépia ajuda na construção desses elementos, principalmente na “sujeira”.

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Logo no começo percebemos que o filme acompanha uma prisioneira, aos que não leram nada antes de assistir, como eu, esperam ansiosos por gritos e pedidos de socorro e, extraordinariamente, isso não acontece. O fato de não haver uma frase sequer, subverte o clichê clássico da moça indefesa que grita por ajuda, inclusive existem seis mulheres que, mesmo em meio ao desespero, se mantém, estranhamente, calmas, como se os seus corpos estivessem em um lugar e a mente em outra, ou como se a tortura fosse tão grande que, aos poucos, elas foram se distanciando da própria persona, se transformando em um zumbi.

A edição de som se aproveita para assumir o posto de protagonista, pois se as personagens, cuja existência fora deixado no passado, não falam, existe no som uma tradução do que elas estão vendo. Gemidos, moscas, gritos, barulhos, incomoda muito os mais conservadores pois, como disse anteriormente, talvez seja uma fiel demonstração, no audiovisual, do que é o inferno para aqueles que acreditam. Aliás, o inferno, como sentido em Flowers, é a casa de um monstro e esse monstro é mesmo um ser humano.

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Há ainda uma provocação, uma distorção de lógica, em muitos momentos é possível encontrar um crânio de porco no chão ou em cima de algo, imediatamente ouvimos um porco, bem abafado, como se fosse uma lembrança ou, simplesmente, uma analogia o quão vivo aquele porco se encontra. O surrealismo que está presente constantemente, impulsiona ainda mais o sentimento de repulsa e curiosidade, nada é explicado, o que faz desse filme uma obra extremamente particular, muitos não conseguirão passar dos vinte minutos iniciais.

Quem assistiu o também fascinante e terrível “Subconscious Cruelty”, de 2000, percebe imediatamente que este serviu como inspiração para que “Flowers” tivesse a oportunidade de ser tão ousado e, no mesmo tempo, profundo no seu drama. Assim como sua inspiração, a mensagem em “Flowers” está protegido por camadas de carne e o diretor, sabiamente, entrega uma faca a cada espectador e lhe promete respostas se tiver coragem de dissecar, rasgar e torturar a vítima.

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Sabe quando você leva um susto muito grande e fica sem a voz? Então, “Flowers” se passa nesses três segundos sem reação, onde o medo é tão insano que perdemos o controle do nosso corpo. Onde a dor dá lugar a busca interminável por sobrevivência. Existe beleza na violência quando explorada no audiovisual, pois mesmo que alguns tentem provar a gratuidade do extremo, os artistas que pensam os objetivos atrás da cortina geralmente tentam encontrar respostas, muitos se perdem em meio a própria verdade de que, infelizmente, o homem é abominável.

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