Especial Halloween – Filmes de terror no ano de 2016 ( parte 1 )

Esse é um artigo especial do Cronologia do Acaso para o halloween 2016. Será dividido em duas partes: a primeira é analisando os filmes de maior destaque lançados em circuito comercial de janeiro até junho. A segunda é de julho até agora ( outubro ), próximos lançamentos e recomendações de algumas obras que ainda não foram lançadas no Brasil, além de concluir o artigo com um “top 5 filmes de terror do ano”. Portanto, leia, compartilhe e comente quais os melhores filmes de terror em 2016, na sua opinião!

terror-2016

No mês de janeiro não tivemos nenhum filme de terror, mas em fevereiro tivemos o primeiro que saiu nos cinemas, com algum destaque, mas com qualidade duvidosa, que foi o Boneco do Mal. A primeira vez que soube desse filme, logo tive muito preconceito pois ele parecia pegar carona com o sucesso de Anabelle. De boneca para boneco, fico com o Chucky, porque nenhum dos dois valem a pena. The Boy ou Boneco do Mal é dirigido pelo William Brent Bell, o mesmo diretor de “Filha do Mal”, e até começa bem, apresentando a personagem principal, que chega em uma mansão para cuidar de uma criança e se depara com um casal de velhinhos doidos que tratam um boneco como ser humano. A ideia é mórbida, transmite uma sensação estranha, a maneira que o boneco é filmado desperta a curiosidade, porém a resolução do filme falha muito.

O destaque do ano, sem sombra de dúvidas, é o A Bruxa, como já escrevi artigo e crítica sobre ele, reitero que é o melhor filme de terror do ano, pois aborda temas complexos, inverte valores e prega exaustivamente a liberdade da mulher, usando o satanismo como veículo e o diabo como amuleto, é sem dúvida nenhuma uma obra-prima.

Outro filme que estreou em março foi o aclamado Boa Noite, Mamãe, também escrevi sobre ele e o mais interessante, ao meu ver, é o uso da figura da mãe – tida como intocável, inquestionável e perfeita – para provocar o medo, então a sensação de proteção que nos é identificável, quando relacionamos com o sentimento materno, é desmoronado e, ainda por cima, acompanhamos duas crianças que precisam lidar com toda essa aflição. Na verdade, Boa Noite, Mamãe é um excelente trilher, inteligente ao usar os personagens e os seus movimentos pela casa: todos os cômodos provocam a urgência, os espectadores, assim como os personagens, ficam em alerta constantemente.

Mês de abril tivemos o Do Outro Lado da Porta, que começa bem mal, quase um drama sobre uma mãe que, após perder o seu filho, fica maluca quando descobre que existe um ritual onde pode se comunicar com os mortos. Muita coisa ruim acontece com os personagens e nada bom acontece no filme, personagens mal desenvolvidos, dramas que não provocam a empatia, atores mirins péssimos, protagonista também não segura o filme, é um desperdício, pois a ideia do ritual é interessante.

Ainda no mês de abril tivemos o ótimo Rua Cloverfield, 10, com um roteiro maravilhoso e um trabalho excepcional de som e desenho de produção, a força principal do longa é o primeiro e segundo ato onde três personagens completamente distintos entre si, precisam sobreviver em um bunker, e respeitar a fé um do outro sobre um possível apocalipse no mundo exterior. Esse cenário apertado muda conforme o psicológico dos personagens e as suas decisões, a intenção de cada um é indecifrável até o final e a tensão é muito grande. Pena é o terceiro ato que destoa bastante do início, mas ainda assim não tira o brilho de Rua Cloverfield, 10 que, inclusive, tem como mérito a sua protagonista Michelle que, interpretada pela Mary Elizabeth Winstead, exala uma força e independência que há muito não se via em hollywood.

Destaque também para a atuação de John Goodman que é um coadjuvante de luxo, trabalhou com nomes como Todd Solondz e os irmãos Coen, enfim, John Goodman é rei no circuito independente e em Rua Cloverfield, 10 tem a sua voz e, melhor ainda, para o grande público, fiquei muito feliz por vê-lo e, sem dúvida, é uma das melhores atuações do ano.

Em maio teve o lançamento do remake de Martyrs – ignorem essa merda. Ainda em maio, outro destaque foi Demon, um terror polonês com pitadas de humor negro, diferente, pois a possessão demoníaca é em base ao folclore judaico, enfim, outro grande filme do ano. 

Em junho, último mês dessa primeira parte, tivemos o lançamento de Invocação do Mal 2 que provou mais uma vez o talento do jovem diretor James Wan. É extremamente bem dirigido, provoca o medo da forma que o grande público gosta e ainda consegue divertir os mais exigentes. É um filme que conhece o seu próprio limite, respeita os seus personagens e faz o básico, não exagera, as filmagens são feitas de forma a ressaltar a estranheza da casa, há inserções digitais de uma criatura que lembra algo como Babadook, é bem corajoso e a personagem mirim, cujo corpo vira a casa para um espírito maligno, é muito boa. James Wan pega um caso que abertamente se sabe que é mentira, dá um contorno interessante e atrai o público com mais uma de suas criações diabólicas, que nesse caso é a “freira do mal” – Inclusive quando criança eu tinha medo de freira e me peguei lembrando disso durante a sessão.

Vale lembrar que junho também foi o mês de lançamento do terror nacional O Caseiro que é bem legal. Mesmo que se estruture no clichê do “homem cético que colocará as suas crenças em questionamento ao investigar um caso sobrenatural”, o bacana é que o filme é mais um mistério e prende a atenção até o fim. No entanto, a conclusão é muito rápida e insegura, até vai de desencontro com o que foi apresentado: personagens que mudam drasticamente e sem sentido nenhum, trama que abandona alguns detalhes, diálogos fracos para rápidos entendimentos de uma história pouco complexa, enfim, no final, é um filme mediano.

Muito bem, essa foi a primeira parte do especial Halloween, a segunda parte eu lançarei, também, antes do dia 31 de outubro. Então é isso, abraço e até a próxima!

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

More Posts - Website

Follow Me:
TwitterFacebookGoogle PlusFlickrYouTube

Precisamos falar sobre a sexualização da Arlequina

GalleryComics_1900x900_20140122_HARLEY_Cv2_52c744d6923ca3.99726847

Antes de mais nada é importante ressaltar que eu não sou muito interessado em entrar em discussões que as pessoas criam pela internet após assistir o trailer de um filme. Mesmo que seja um tema válido, os trailers são ferramentas de divulgação e nem ao menos o diretor tem controle sobre o que é mostrado, sendo assim, se trata de um conteúdo extremamente limitado e que descontextualiza tudo para, finalmente, criar a expectativa em quem assiste.

A expectativa é a morte para um crítico de cinema. Ter opiniões e gostos pessoais é evidentemente normal, mas se deixar levar pela expectativa é o que separa os homens das crianças. Isso em diversas áreas da vida, inclusive. Por exemplo, eu posso ser infantil ao ponto de não me preocupar com o argumento por inteiro e me ater apenas a uma frase e essa frase, por estar isolada, se transforma em algo extremamente polêmico.

Trailer é produto de marketing e a expectativa é o câncer para uma boa experiência cinematográfica. O que sobra então? Há, sim, a sexualização da mulher.

arlequina3

O papel da mulher na sociedade, apesar de vir crescendo muito nos últimos tempos, ainda é envolta de muita inferioridade, infelizmente. Os homens teimam em inferiorizar a mulher e transformá-las em produtos, isso é fato. Mas não acontece só na mídia ou arte. Desde que pisamos nesse mundo a mulher é alvo de preconceitos e posturas arrogantes/superiores. A igreja condenou as mulheres só pelo fato de serem, bem, mulheres. Imagina aquelas que eram independentes ou priorizavam a liberdade?

Que a mulher merece papeis melhores no cinema é indiscutível, que mais diretoras precisam ter oportunidades, também. Agora, é importante não confundir valorização da mulher com sexualidade característica de determinado personagem.

Ora, vamos por partes: eu sou apreciador de filmes obscuros, filmes do Gaspar Noé, por exemplo, são polêmicos, lidam com a mulher de forma, no mínimo, crua. Ainda tem alguns tipos de agressões, incesto, – pedofilia, direta ou indiretamente – e obsessão. Eu assisto esses filmes para entender e/ou me identificar com outros lados do ser humano, da corrupção, da banalidade de viver, dos erros, enfim, eu não vou assistir uma obra dessa intensidade para ver um reflexo fiel da minha vida – pelo menos não literalmente. Na verdade obras de arte podem dialogar com vida de quem aprecia, mas só o fato de representarem algo e a mensagem ser desmistificada, pronto, cumpriu o seu papel; é preciso aceitação, maturidade e seriedade para enfrentar a arte, pois ela não existe para representar fielmente cada um de nós, mas fazer um questionamento, incentivar a catarse.

Chegamos, de fato, a sexualidade. Não é porque assisto um filme onde um personagem, homem, mata crianças e as estupra que eu me identifico ou me sinto representado pelos seus atos. Assim como não é porque uma personagem, feminina, é extremamente sexualizada que isso diminui a importância das mulheres e as inferioriza de alguma forma, e, principalmente, essa personagem não representa todas as mulheres do mundo, ela representa ela, e tão somente ela.

esquadraoarlequina

Como escrevi acima, eu geralmente não fico observando trailers. Mas pude reparar, depois de prestar muita atenção, que a figura da Arlequina segue fielmente os quadrinhos: uma personagem que depende obsessivamente da sua sexualidade – como uma arma poderosa que, por vezes, se torna um elemento que acaba escravizando-a, isso acontece por conta da personagem ter sido abusada pelo Coringa. Reparem que existe uma sexualidade na maneira que ela se comporta, no olhar e nas expressões, esses sutis elementos são tão impactantes do que o seu próprio figurino.

Voltando… é trailer, pode ser que o filme trate mal a personagem e ela, infelizmente, só sirva para mostrar a bunda e atrair os homens – eu me incluo nessa lista – mas, através de rápidas impressões, a sexualidade me parece um artifício de desenvolvimento da personagem. Agora, se alguém me perguntar: ai Emerson, como você pode falar isso apenas por um trailer? Eu te respondo, caro neném, que eu estou supondo, com argumentos, as minhas opiniões, mas nem eu, muito menos as pessoas que reclamaram da roupa da Arlequina, posso dizer nada, simplesmente porque não vi(mos) o filme ainda.

size_810_16_9_20151019-26684-hwkn71

A roupa da Arlequina nos quadrinhos lembra bastante a qual vemos no trailer, não?

Tenho que confessar que precisei de um certo cuidado para escrever esse texto, por conta dos extremistas. Por isso abri dando a minhã opinião geral sobre a mulher e quanto é tratada como objeto pela indústria. Devemos combater isso, sem dúvida, assim como incentivar a produção de outros conteúdos realizados exclusivamente por mulheres, mas quando adentramos na questão de personagens, estamos invadindo um espaço muito particular, cujas pretensões e detalhes como a sexualidade, por exemplo, existem para compor e não destruir ou inferiorizar. Aliás, se chega ao ponto de inferiorização, ai temos um problema sério de má realização ou mentes mal intencionadas mesmo – o que seria impossível distinguir com um trailer de 3 minutos.

Mas todos homens da minha sala de cinema, enquanto eu assistia o trailer, gritaram quando a Arlequina apareceu trocando de roupa… isso é repulsivo“.

arlequina1 arlequina2

Então, se eu falar que detestei a cena por causa disso, estou mentindo. Eu adorei a cena, antes de mais nada, pelo contexto, é divertido a liberdade e despreocupação dela, no mesmo tempo que a forma como todo mundo, ao fundo, para e contempla a sua beleza também é muito engraçada. Mas eu achei ela extremamente sexy e provocante, sim, e daí? Essa é a sua personagem, foi pensada assim para os quadrinhos e a mesma essência será trabalhada no cinema.

As mulheres também ficam loucas com cena do Superman sem camisa – e estão mais do que certas (ui) – ou com o Wolverine, até mesmo com o nu frontal do Fassbender em “Shame“. Pena que existem poucas cenas que realmente exploram a sexualidade dos homens de forma tão clara, pois, repito, na arte às vezes é um artifício essencial.

A conclusão é que não existe conclusão. Apenas um devaneio. Devemos procurar igualdade de inúmeros outros jeitos, podemos e é direito, mas não precisa começar atacando um trailer e uma personagem, que pertence a um universo diferente e têm suas próprias regras. Isso ai parece desculpa para pessoas sem ter o que fazer, que nunca leram “Lolita”, ou outras diversas obras que relacionam a mulher – no caso do citado uma menina – com o sexo e, durante o processo de desenvolvimento, mostram a força da personagem. Existe muitas outras coisas interessantes para fazer como, por exemplo, esperar o filme estrear e, ai sim, dar sua opinião ou até mesmo criticar figurino e outras decisões. Claro, se todos esses pontos se encaixarem com perfeição no contexto do filme e ajudarem a história como um todo, então a sua opinião será equivocada. Por outro lado, se existir a gratuidade das roupas curtas e afins, com certeza eu ajudarei a criticar negativamente o filme. #esperemos

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

More Posts - Website

Follow Me:
TwitterFacebookGoogle PlusFlickrYouTube

O Clube, 2015

Emerson Teixeira comenta o filme chileno “O Clube”, de 2015. O filme é dirigido pelo Pablo Larraín e é extremamente polêmico, aborda a história de um grupo de padres que vivem isolados em uma casa pois estão fugindo de um passado obscuro.

Twitter: @cronodoacaso

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

More Posts - Website

Follow Me:
TwitterFacebookGoogle PlusFlickrYouTube

Feliz 2016!

FELIZ-ANO-NOVO

No dia 31 de dezembro de 2014 eu postei essa publicação no [Cronologia do Acaso]: http://cronologiadoacaso.blogspot.com.br/2014/12/adeus-2014.html – ainda no Blogspot. Hoje, relendo, exatamente um ano depois, me pego pensando o quanto mudei, em relação aquele garoto ansioso de antes.

Bem, o projeto Cronologia do Acaso está quase fazendo três anos! No começo, me preocupei exclusivamente em compartilhar todos os meus medos e angústias, até mesmo aflições, através de resenhas disfarçadas. Na verdade eu somente produzia minha própria obscuridade.

Isso não é um problema, afinal, estava sendo sincero nas minhas colocações. O interessante é que tenho alguns leitores desde essa época e a relação que construí com eles é excepcional. Parece que me conhecem de forma muito linda e, igualmente, entregue, carinhosa.

Depois de passar rapidamente pelo Cinem(ação) – um momento e realização muito legal e divertida – decidimos que precisávamos evoluir, dar um passo adiante. O CdA sempre esteve atrelado a outros sites, vocês já repararam? Eu não sou um bom empreendedor, portanto sempre mantive distante a ideia de fazer algo mais sério, visando um crescimento. Mas, em março de 2015, finalmente decidimos abrir esse espaço e, com o auxílio de tutoriais, consegui fazer o mínimo para deixar um visual agradável. Hospedagem e domínio realmente facilitam muito a vida, fica a dica.

O site começou a ganhar contornos diferentes, lidei com ele de uma forma bem mais profissional, ainda assim mantendo a essencial e característica sensibilidade. O cronologia é um conforto para o meu coração, honestamente ainda fico pensando muito em formas de ampliar o seu alcance, dinamizar o seu conteúdo, por si só, diferenciado.

Escrever críticas grandes sobre filmes que poucos viram não atrai muitas visitas, mesmo assim eu me surpreendo com a consistência dos acessos. Mesmo tendo conseguido, infelizmente, apenas uma crítica por semana nesse ano. Por outro lado nós conseguimos manter o podcast com periodicidade quinzenal. Aliás, o primeiro episódio do Cronologia do Acaso foi lançado em 2012, na época estávamos no Mídias e Modos, ou seja, ele está entrando no seu quarto ano!

Hoje escrevo sem tristeza, sem melancolia. Esse final de ano representa, para mim, uma oportunidade agarrada com todo afinco. Seja no lado profissional ou até mesmo no Cronologia, sinto que fiz algo útil.

No entanto, é de se esperar novidades, provavelmente na primeira metade do ano eu estarei absurdamente ocupado com o final da faculdade, porém, desde já penso em novidades para o site, até mesmo para não ficar apenas escrevendo críticas e explorar outras formas de escrita, sempre divulgando o cinema independente e, por meio dele, discutindo sobre a vida e amor.

Por fim, agradeço à você, leitor(a) e amigo(a) que me acompanha e me ajuda, agradeço profundamente aos queridos Sandro Macena – meu amigo de longa data que, por motivos pessoais, esteve um pouco afastado mas continua nos bastidores – Cliff Rodrigo, Marcus Rocha, Weuler Lopes, Tiago Messias, – Aliás, no exato momento que estou escrevendo esse texto, saiu o Subverso que participei comentando alguns dos melhores filmes de 2015! clique aqui para ouvir e não se esqueça de comentar – Júlio que fez sua primeira postagem no Cronologia – sobre o curta destino clique aqui para ler – e está prestes a fazer um trabalho sensacional por aqui em base a um sublime diretor e, especialmente,  André Albertim que entrou esse ano para a equipe e foi amor à primeira vista.

Agradeço também ao Marcos Ramon, por nos acompanhar e sempre comentar nas postagens. Destaco especialmente uma indicação que ele fez do nosso podcast em uma postagem incrível onde refletiu sobre a mídia clique aqui para ler – confesso que me emocionei quando percebi que ele nos indicou e, ainda mais, descrevendo com tanta sensibilidade o nosso projeto.

Tradicionalmente eu faço uma lista de melhores filmes do ano. Eu estou construindo ela com muita atenção e, para conseguir ser o máximo responsável possível, darei tempo a mim mesmo e postarei, sem falta, no dia 5 de janeiro. Junto com a lista dos melhores, postarei também uma lista com todos os filmes que eu vi no ano, já que muita gente me pergunta o que estou assistindo =D

Me despeço de vocês afirmando, de coração, que estou por ai, quem quiser conversar, trocar ideias sobre cinema, dar dicas ou sugestões para o site, entre em contato. O e-mail é: contato@cronologiadoacaso.com.br, Twitter: @cronodoacaso.

Feliz ano novo,
Emerson Teixeira Lima

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

More Posts - Website

Follow Me:
TwitterFacebookGoogle PlusFlickrYouTube

Manhattan, 1979

Manhattan.1979.DVDRip.XviD-VLiS.avi_snapshot_00.05.44_[2015.01.23_00.01.40]

Com o passar do tempo, percebo que minha escrita vem mudando, assim como surgem algumas necessidades minhas, explorar áreas do cinema que, até então, eu tinha muito receio de abordar e, um deles, vou tentar hoje. Eu já escrevi um singela homenagem ao meu ídolo e mestre Woody Allen ( clique aqui ) porém, nunca havia escrito sobre algum de seus filmes. Para ser sincero, não me acho capaz de analisar nada que venha dele, pois eu amo tudo, principalmente os detalhes, então imediatamente após escrever esse texto eu certamente vou ficar irritado por esquecer de alguma coisa, portanto vou escrever e postar rápido.

Conheci Woody Allen bem novo e, impressionantemente, passou a existir mais um jovem de 14/15 anos que tem como inspiração um senhor de 60/70. Acho que diminuo as coisas relacionando-o à inspiração, pois antes disso, eu tive o pleno sentimento de identificação, até então eu não tinha vivido o suficiente, amorosamente falando, para isso acontecer, só sei que aconteceu, muito por conta do diálogo. O cinema começa mudo, depois vem a fala, mas com o Woody Allen o diálogo é elevado ao último degrau, eu me identifiquei logo com o pessimismo, a simplicidade ou até mesmo as referências, não me considero uma pessoa cult, formal ou tão entendida como Woody, por exemplo, mas eu aprecio uma conversa repleta de referências, seja ela qual for, aquela conversa que vai embora, passa rápido, entre sorrisos e desabafos e nunca parece enjoar. A maioria dos meus relacionamentos – conturbados – se estruturam em base a amizade. Inclusive eu brinco com algumas amigas que, se por acaso eu estragar tudo, é porque eu me apaixonei. Isso sempre acontece, sempre acabo conhecendo muito bem a pessoa antes do sentimento que passarei a ter por ela, mas até lá as classificações vão caminhando e, quando vejo, estou encantado. Bem, preciso de muito diálogo. Sinto que se alguém não entender o meu amor/vício por cinema, por exemplo, estaremos automaticamente fadados ao fracasso. Só precisa entender, pois o gosto a gente vai colocando com o tempo.

Manhattan.1979.DVDRip.XviD-VLiS.avi_snapshot_00.14.22_[2015.01.23_00.01.16]

Woody Allen ultrapassa a linha, ao meu ver, de bom diretor, ator, ou gênio do cinema. Ele é um homem, um artista completo. Não possui fãs, ele possui seguidores, esses seguidores não só assistem como são ele. Precisam das ideias dele para se certificar que não estão loucos. Ou seja, se um seguidor do Woody se relaciona com uma seguidora, deve acontecer algum tipo de mágica. Para o bem ou mal mas, sem dúvida, deve render muita compreensão. E é exatamente essa a dificuldade de escrever sobre Woody Allen, até agora eu nem comecei as primeiras linhas sobre o filme que comentarei.

Ele começou sua carreira como comediante, escrevia centenas de piadas para a rádio e, após conhecer Diane Keaton, acontece uma mágica: ele passa a escrever com os olhos de uma mulher. É perceptível a mudança, parece que os dois se divertem em cena, como se todo o conteúdo do filme fosse uma grande conversa que eles tiveram no dia anterior. Estou falando isso porque, igualmente, Allen não é ator, ele é o carinha dos seus filmes e o carinha do filme é o senhor que dá entrevistas. As piadas surgem do nada, os trejeitos, tudo. Diane Keaton é o símbolo dessa fase onde Allen assume o que realmente é, primeiramente um neurótico e, por isso, engraçado. Não ao contrário, como fazia no começo da carreira.

Manhattan.1979.DVDRip.XviD-VLiS.avi_snapshot_00.27.49_[2015.01.23_00.02.06]

“Manhattan”, de 1979 – se você chegou até aqui imagino que sabe ao menos a sinopse – é um filme que me machuca muito. Uma dor que honestamente não sei o motivo. Tento traçar algumas observações do porquê mexe tanto comigo, me vêm a Tracy na cabeça, mas certamente não é só por isso. Poxa, temos um personagem de quase 50 anos namorando uma de 17, mas muito mais do que idade, estamos falando de diferenças, e diferenças existe em todos os casos. Isaac Davis não leva Tracy a sério, está com ela pois é da vida querer estar com alguém, se torna ainda mais confortante quando, pelo motivo de ter 17 anos, você acredite que será fácil se despedir. Pois a pequena menina precisa conhecer o mundo e, então, caberá ao maduro da relação(?) usar isso como desculpa. O quanto é preciso usar desculpas não é? Apaixonamos errado o tempo todo, trocamos muito, talvez ninguém seja feliz amando apenas uma vez, como diria o grande Raul Seixas.

Não vejo “Manhattan” como continuação do “Annie Hall, como alguns dizem, se fosse assim, haveria uma série de 80 filmes, bem, talvez seja todos sequências mesmo. As reviravoltas do amor, os erros, se fazem tão presentes que acabam, por si só, construindo um público, aqueles que se identificam com os diversos questionamentos que o fim da relação – principalmente – traz. Estamos todos amarrados em redes onde o egocentrismo se faz muito presente. Precisamos do outro para viver, o outro precisa do outro, pois já viveu com outro e sabe que esse atual não é como o que poderia ser. Mas o que era bom se foi, então você tem que decidir se continua com um confortável – mas não o melhor que experimentou – ou procura um outro. Esse outro pode não ser melhor que o que está e assim consecutivamente.

Manhattan.1979.DVDRip.XviD-VLiS.avi_snapshot_01.16.50_[2015.01.23_00.00.51]

Detalhes. Primeiras cenas temos o Isaac tentando escrever sobre Nova Iorque. Claro, enquanto isso temos lindas imagens da cidade em preto e branco, quase tão lindas que se sobressaem as inúmeras tentativas do personagem colocar em palavras a importância que aquela cidade tem na sua vida. Ao fundo temos uma trilha sonora leve, nos remetendo diretamente ao Charles Chaplin.

Capítulo um: Ele adorava Nova York. Ele a idolatrava em excesso. Bem, vamos dizer que ele a romantizava em excesso. Para ele, não importa a estação, a cidade ainda existia em preto e branco e pulsava ao som de Geoge Gershwin. Não, deixe-me começar novamente.
Capítulo um: Ele era romântico demais, em relação a Manhattan como era com tudo mais. Ele adorava estar no meio da multidão e do tráfego, para ele, New york significava mulheres bonitas e homens inteligentes, que pareciam saber de tudo. Não, ficou melodramático demais para o meu gosto. Vou tentar aprofundar mais.
Capítulo um: Ele adorava New York, para ele a cidade era uma metáfora, da decadência da cultura contemporânea a mesma falta de integridade individual que conduzia as pessoas a procurar a saída mais fácil rapidamente transformava a cidade dos seus sonhos em… não, vai parecer sermão. Vou querer vender esse livro.
Capítulo um: Ele adorava New York embora fosse para ele uma metáfora da decadência da cultura atual. Como era difícil viver em uma sociedade anulada pelas drogas, música alta, televisão, crime, lixo? Muito inflamado, não quero parecer isso.
Capitulo um: Ele era duro e romântico assim como a cidade que ele amava, por trás dos óculos pretos estava a potência sexual de um gato selvagem. Adorei essa. A cidade era dele e sempre seria.

Vemos nesse pensamento inicial que mesmo idolatrando a cidade a qual pertence, ele só consegue finalizar a sua linha criativa quando mistura a mesma consigo próprio. Partindo de uma união entre ambos para explicar não só o seu amor pela cidade, quanto para já se caracterizar. É o velho personagem, refazendo seus gostos, se encontrando em uma mesma situação, só que ao inverso. Enfim, é o que sempre acontece, a vida. O personagem ser escritor, assim como a maioria dos personagens principais, só demonstram a metáfora de grandes deuses, arcando com a responsabilidade de suas próprias escolhas, como se trata da dura realidade amorosa, escolhas imperfeitas mas, se pensarmos bem, será que há mesmo uma escolha certa?

Passamos então para a apresentação de quatro personagens: Isaac Davis ( interpretado pelo Woody ), Tracy ( Mariel Hemingway, cujo papel lhe rendeu uma indicação a atriz coadjuvante ), Yale ( Michael Murphy ) e Anne ( Byrne Hoffman Emily ). Os dois primeiros um casal incomum, o segundo mais comum impossível. Aliás, até traição está acontecendo por parte do yale. Na apresentação desses personagens temos já um dos melhores diálogos, começando pela piada envolvendo o cigarro, do qual Isaak afirma que não sabe tragar porém fica realmente muito lindo segurando um na mão. Tracy fica meio irritada, pede licença, surge o comentário do amigo Yale dizendo que ela é linda, Isaak responde:

– Mas só tem 17. Eu tenho 42 e ela 17. Sou mais velho que o pai dela, dá para acreditar? É a primeira vez que esse fenômeno acontece na minha vida.

Esse filme é tem como tema principal o amor de um homem velho com uma menina. Pode existir outros diversos casos e questões, como a ex-mulher ou a amante do amigo Mary ( Diane ), mas o foco realmente é esse. Essa primeira cena explica muita coisa, pois o personagem ignora o fato dela ser linda, como o amigo afirma, se preocupando em deixar claro que não tem como haver nada sério ali. Algo como se a consciência estivesse gritando o tempo todo, mesmo que bêbado. A menina, por sua vez, é quase tão madura quando o próprio homem, criando, assim, um enorme problema, pois a mesma se vê em condições, mesmo que Isaak tente se colocar para ela apenas como um sábio, que a guiará no presente para, enfim, poder desfrutar do futuro. Ele a recusa no agora e ainda, sem querer, tem pretensões arrogantes, do tipo “aprenda comigo, mas não se preocupe, deixe-me um dia”. Não há julgamento, nem por parte do espectador, nem os personagens do filme, apesar que a Mary tira um sarro dele quando descobre que a menina tem 17 anos dizendo “Nabokov deve estar rindo em algum lugar, não é? Enfim a menina se mostra apaixonada, Isaak a conforta passando a imagem de um atalho, mas será que essa tentativa de se esquivar da responsabilidade, essa tentativa de proteger a menina não acaba virando um machucar grande? Para mim, essa atitude a agride muito e, pensando bem, deve ser justamente esse ponto que mais me identifico, essa ânsia por se considerar atalho para o outro, te transforma em alguém pessimista para com o tempo, você necessita explicar que possivelmente não durará o quanto imagina, mas as pessoas precisam sentir que será eterno, caso o contrário, nem começariam.

Manhattan.1979.DVDRip.XviD-VLiS.avi_snapshot_00.10.04_[2015.01.23_00.13.09]

O breve relacionamento de Isaak com Mary também resulta em ótimos momentos, a começar que ele vive dizendo que ela pensa demais, usa o cérebro com demasia, enquanto o próprio também o faz com perfeição. Ou seja, o sujo falando do mal lavado. Em uma das conversas ele afirma que ela deveria conhecer alguém burro para, quem sabe, aprender algo, é basicamente isso que acontece. Ela não precisa de alguém igual a ela, em termos intelectuais, ela está cansada de gênios, eles não a satisfazem mais, como um dia foi, ela própria diz que o seu primeiro marido era um avassalador na cama, e quando finalmente o vemos, é perceptível que ele foge dos padrões de beleza, ou seja, ela estava no auge de uma necessidade diferente, por isso se encontra em um relacionamento proibido com um homem casado, quer algo mais desprendido que isso? De todos os personagens ela é mais problemática, prova disso é que seu analista, o querido Donny, não soa muito bem. O fato é que esse relacionamento se fez através de encontros inesperados e, consecutivamente, forçados, mesmo que contraditório, então cabe a Isaak, em um passeio de barco, colocar a mão na água e, depois, reparar que a mesma está repleta de lodo, simbolizando a situação daquela relação e, ainda por cima, uma crítica a própria cidade. Coisa de gênio.

Diferentemente de outros filmes, a piada aqui surge em momentos oportunos como o “eu tenho dinheiro para viver por um ano… se eu viver como Gandhi.” mas não o vejo como uma comédia, pelo contrário, uma profundidade sem tamanho que, unido a fotografia e ótimo roteiro, tudo se torna sim um pouco mais leve. Cenas como o passeio de Isaak e Tracy na carruagem em que, após um beijo, ele fala que ela é a resposta de Deus a jó, ou quando Isaak vai contar para ela que está se envolvendo com alguém mais velho, ela vira para ele e ele fala “não me encare com esses olhos grandes está parecendo crianças carente precisando dos pais” entraram para a história como uma das melhores, sendo a segunda uma ousadia sem tamanho, pois, realmente, se trata de uma criança que precisa sim dos pais. Mexendo em uma ferida grande, principalmente aos olhos dos mais conservadores.

Manhattan.1979.DVDRip.XviD-VLiS.avi_snapshot_00.08.56_[2015.01.23_00.12.59]

No fim, quando depois da sua aventura, ora bolas, com uma mulher mais madura – algo que parece totalmente ao contrário, é mais comum as aventuras serem com jovens – ele percebe que a única que mexeu com ele de uma forma verdadeira é a menos provável. A criança. Sai correndo em direção dela, que por sua vez está de partida para Londres. Tudo o que ele havia dito, sobre experiências ou sobre ser visto como atalho, foi jogado no lixo. Ela era um atalho para ele se encontrar, mais irônico que isso impossível. Ele se desespera como uma crianças precisando dos pais, o mesmo brinca com isso pedindo para a menina parar de ser madura, fica aflito pois serão seis meses sem se verem e, nesse tempo, poderá conhecer alguém mais interessante… ela olha para ele e diz que “nem todos se corrompem” e, finalizando essa obra de arte, continua com “você tem que ter mais fé nas pessoas”. Woody Allen, não Isaak agora, não mais, fica sem graça e dá um leve sorriso. É sorriso de aceitação, do tipo “é, você tem mais que razão e é por isso que estou fazendo esse filme”, é de tamanha importância e impacto no meu coração, tanto quanto Charles Chaplin sorrindo no final de “Luzes da Cidade”. Amores, sentimentos, nunca nos sentiremos totalmente seguros, improvável ter fé, mesmo que seja necessário ter, para continuar vivendo confortavelmente. Quantas oportunidades desperdiçadas, quantas pessoas se foram por arrogância, quantas outras virão e perceberão, que somos/sou só uma pessoa tentando me entender. Uma pessoa imperfeita, buscando me encaixar em outras imperfeições, ser aceito e receber carinho, pois, só assim, em meio a distância da idade, discrepância de desejos, seremos parte de um outro, seremos um. Estaremos a espera da nossa criança, assim como criança. Pois não há julgamento de valor quando se ama, não há cérebro que vença a batalha, pois essa habita o coração, esse lugar hostil, repleto de promessas e afeições.

“Fatos? Eu tenho um milhão de fatos na ponta dos dedos!”
“Pois é, e eles não significam nada não é? Porquê nada que vale a pena saber pode ser entendido com a mente.”

Manhattan.1979.DVDRip.XviD-VLiS.avi_snapshot_01.29.29_[2015.01.22_23.59.55] Manhattan.1979.DVDRip.XviD-VLiS.avi_snapshot_01.29.38_[2015.01.23_00.00.31]

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

More Posts - Website

Follow Me:
TwitterFacebookGoogle PlusFlickrYouTube

O Pequeno Príncipe – a infância que se esvai

PEQUENO-PRÍNCIPE-CAPA1

O mundo existe aproximadamente 4.7 bilhões de anos. O ser humano existe aproximadamente 200.000 anos. Você tem quantos anos? Eu, nesse momento que escrevo, tenho 20 anos.

Eu sou o pó do homem. O homem é pó do mundo e o mundo, por sua vez, é o pó da vida. Somos todos lindos e cheirosos pó do pó do pó. Mas espera ai, antes de ficar irritado comigo, caro (des)conhecido, pense na areia da praia. Nessa areia existe vários grãos, imagina se todos os grãos se sentissem horríveis por serem apenas mais um em meio a tantos? Imagina se todos se demitissem de suas funções e fossem embora para longe?

Você costuma ler livros? Sabe aquela frase que ama? Essa frase existe em meio a outras inúmeras palavras, frases, páginas… mas pra você ela faz a diferença não faz? Bem, então chegamos a um ponto crucial.

Todos nós fomos crianças. E, infelizmente, me parece que hoje tem muita criança sendo adulto e muito adulto sendo criança.  Pessoalmente não gosto de dizer para um garoto que a sua infância é pior que a minha, até porque eu estaria mentindo. Claro que há diferenças, há exceções, mas eu jamais entenderia as crianças de hoje pois cresci, hoje sou adulto, tenho barba, afundei na realidade.

Mesmo que eu diga que tento manter a minha criança viva, mesmo que diga que vivo sorrindo pelos cantos e tentando fazer os outros sorrirem comigo, mesmo que seja do tipo louco e sem vergonha, eu sou um adulto rabugento. Eu acho que você se desprende da infância quando passa a ter vergonha de se mostrar, quando a imaginação não aparece como antes pois você está muito ocupado resolvendo coisas de adultos.

Você é criança ou adulto? Veja isso:

15021259

O que você vê?

O ser humano é o único animal capaz de sorrir. Os outros podem até reagir a uma cócegas ou algo do tipo, mas sorrir, isso não. Pesquisas dizem – poxa, dados e estatísticas são coisas de gente que cresceu, não é mesmo? – que a criança é capaz de sorrir dentro da barriga da mãe. Ou seja, o neném aprende com o mundo externo, se você dançar na frente dele, ele vai querer imitar, mas o sorriso… isso ele já sabe muito bem como fazer.

Agora eu te pergunto: o sorriso da criança é diferente do sorriso do adulto?

O mundo é tão grande, as vezes me dói o coração saber que não terei tempo para ver tudo o que queria. Tem tanta gente no mundo, tanta história, tantos planetas, e eu aqui, nesse mundo pequeno, preso na minha própria insanidade. Eu, minha flor, e as estrelas.

Quando eu era criança, queria ser adulto. Poder ser independente, comprar minhas coisas, fazer o que quisesse. Ai quando me tornei adulto, queria ser criança, porque percebi que ser livre é, consecutivamente, estar preso, pois tinha que comprar coisas; percebi também que fazer o que quisesse me traria graves consequências.

Todo ser é um mundo a ser descoberto. Esse mundo tem sua cor, seus personagens e o seu próprio tempo. Deve ser por isso que é tão difícil compartilhar a sua vida com alguém, tem muitos conflitos, nem sempre vocês doam o mesmo tamanho de espaço, uns mais outros menos e, quando percebem, ficam apertadinhos no mundo do outro.

Acho que os adultos tem dificuldade de aceitar que as pessoas não são propriedades. Classificam e, por isso, passam a acreditar que tem direitos sobre. Ninguém enxerga as pessoas como pessoas. Tem que ter diferença, homem ou mulher, gordo ou magro, triste ou sorrindo, criança ou adulto. Será que não poderíamos ser um só?

Quando era criança achava que a vida seria para sempre, que o amor nunca escaparia de mim, que pessoas importantes não partiam e que, de forma alguma, eu ficaria triste. Quando me tornei adulto, percebi que os anos se passavam. Quando menos esperava o amor deu um pulinho por entre meus dedos. Pessoas importantes se tornaram irrelevantes. Percebi que, aos poucos, me transformava em tristeza e a alegria ficava cada vez mais quietinha, sentada em um banquinho lá na rua que cresci.

Depois que cresci um pouco – metade homem, como dizem – me veio a pergunta: “tá, o que faço agora?”. A minha amiguinha se desenvolveu, como eu, acredito, e me apaixonei por ela. O ser humano dava lugar a mulher. A verdade dava lugar ao interesse.

Percebi que era preciso me produzir. Quando criança tinha um par de tênis, agora tinha dois. Quando era criança não passava perfume, agora dependo dele. Quando era criança não penteava o cabelo, agora sou dependente do gel. Quando criança não tinha vergonha de conversar com meninas, agora tenho vergonha de tudo.

“Se consegues julgar a si próprio, és um grande sábio”

  • O livro O Pequeno Príncipe me ensinou que o nome B-612, na realidade, não importa. Essa definição foi feita para alimentar as expectativas dos adultos.
  • Me ensinou que a vaidade nos faz ouvir apenas aquilo que queremos, privando-nos de todo o resto.
  • Me ensinou que o homem tenta esquecer suas vergonhas da forma mais irracional possível
  • Me ensinou que um rei serve para reinar súditos, mas se ele existe sozinho, reina a si próprio e, por vezes, o contrário
  • Me fez ter certeza de que prefiro ser um preguiçoso do que um contador de estrelas
  • me ensinou que existem muitos geógrafos nesse mundo, mas muito poucos exploradores

Me ensinou que para ser o melhor, basta ser sincero. E mesmo que esse mundo doente faça me sentir carente, aprendi que devo continuar sendo um sonhador. Pois as estrelas estão no céu, é fácil possuí-las, mas contemplá-las é um trabalho muito mais delicado e necessita de um carinho que hoje, como um adulto que sou, só consigo acessar se me aproximar do que um dia já fui.

O mundo é tão grande que nunca me encontrarei com a cobra, mas pude me reconhecer na frase “entre os homens a gente também se sente só”. Nunca encontrarei com a raposa, mas me identifiquei com as suas reflexões. Talvez nunca me encontrarei com você, leitor, mas aposto que você se identificou com alguma coisa que escrevi.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

More Posts - Website

Follow Me:
TwitterFacebookGoogle PlusFlickrYouTube

Mr. Pickles, 2014 ( série )

mrpickles

Quem procura por bizarrices certamente já ouviu falar dessa animação. Ela vem agradando diversos loucos ao redor do mundo com o seu conteúdo que beira a insanidade. Não que seja ruim, muito pelo contrário, viva o gore, humor negro, surrealismo, polêmica etc etc.

Fazendo uma mistura oportuna de Simpsons, Family Guy e South Park, com pitadas de sangue e satanismo, pronto, está feito, Mr. Pickles é a animação mais trash que eu já vi.
Criado por Will Carsola & Dave Stewart, ambos foram inspirados pelo clássico “Lassie”, a animação aborda a família Goodman, que é composta pela mãe gostosa, inclusive quem a dubla é a Brooke Shields – sim, ela está viva ainda! -, o pai, vovô, um menininho chamado Tommy e o seu cachorrinho, aparentemente inocente, Mr. Pickles. Mas esse cachorro é do mal, destroça pessoas vivas, faz sexo constantemente, sacrifica animais, possui escravos e imagens satânicas na sua casinha, mas, acima de tudo, é um bom companheiro para Tommy.

KktleRs

A primeira temporada tem dez episódios, todos curtos, de onze minutos, pautados em uma narrativa frenética, criticando com maestria alguns assuntos polêmicos, como pedofilia, política, trabalho, jovens, mas não espere nenhum posicionamento, a animação não tem pudor nenhum e faz do proibido o seu alvo de piadas, sendo totalmente politicamente incorreto. Então temos sexo, mortes – das mais variadas formas – e diversas bizarrices como o querido cachorrinho trepando com uma cabeça que acabara de arrancar de um capanga do mal.

Sem contar o fato dele ser satânico, tendo, inclusive, um “poder” de hipnotizar qualquer animal e fazer com que eles se unam à alguma causa. É quase um anticristo.

Considerações sobre alguns episódios:

Piloto: ★★

O piloto já apresenta a ideia que veremos nos próximos dez episódios. Uma introdução insana – relacionado ou não com o desenrolar – depois vem a abertura com um death metal foda, aliás, uma composição belíssima e refinada ( cof, cof ) e, por fim, a apresentação da família. O querido cachorro maldito/dos infernos (quase) estuprando a mamãe peituda de tanto acariciá-la…

Episodio Piloto.mp4_snapshot_01.21_[2015.06.14_20.16.18] Episodio Piloto.mp4_snapshot_01.32_[2015.06.14_20.16.34]

Episódio 2: Torta no dia dos pais ★★★★

Esse episódio é muito bom pois somos inseridos no mundo e rotina do papai da família, no seu emprego de merda onde só tem gente trouxa, todos trabalhando para um chefe loiro extremamente chato. O bacana é que ele teve problemas com o seu papai e deseja que o sr. Goodman seja o filhinho dele no dia dos pais para, enfim, poder sentir o gosto de menosprezar alguém. Uma série de eventos se unirão a isso, como um “pé grande” que vive na floresta.

02-Torta no dia dos pais.mp4_snapshot_02.20_[2015.06.14_20.25.26] 02-Torta no dia dos pais.mp4_snapshot_07.20_[2015.06.14_20.25.44]Episódio 4 – O Homem Queijo ★★★

O quarto episódio a família Goodman vai acampar, então acontece uma série de coisas engraçadas e loucas. Primeiro que do lado deles chega um trailer cheio de jovens que só querem saber de sexo e se divertirem. Outra que naquele local existe a lenda do “homem queijo”, uma espécie de fantasma de um homem que morreu com queijos na fogueira. Mas o destaque fica com o pai tentando ensinar o filho como sobreviver em um acampamento, sendo que o mesmo é um imbecil.

04-O Homem Queijo.mp4_snapshot_01.08_[2015.06.14_20.31.51] 04-O Homem Queijo.mp4_snapshot_07.48_[2015.06.14_20.32.25]Episódio 8 – Coma ★★★★

Esse é sensacional. O pai vai sair trabalhar e um garoto que entrega jornais joga um tablet na cabeça dele, pois na cidade não tem mais jornal, eles resolveram trocar por tablets – olha a crítica ai – o pai então acaba entrando em coma. Acompanhamos então o sonho dele, onde ele é um cachorro, no caso o Mr. Pickles e Pickles é ele. Muito bom e divertido.

08-Coma.mp4_snapshot_01.56_[2015.06.14_20.42.22] 08-Coma.mp4_snapshot_05.25_[2015.06.14_20.42.41]

Episódio 10 – O Covil ★★★★★

A “casinha de cachorro” do Mr. Pickles é um abrigo para vários prisioneiros e servos satânicos, cheio de bizarrices, isso fica claro desde o primeiro episódio. Mas nós nunca vemos, de fato, o que raios existe naquele lugar assombrado. É então que eles fecham com chave de ouro essa primeira temporada mostrando, finalmente, o vovô conhecendo o local.
Surrealismo no talo. Viva o satanás!

10-OCovil.mp4_snapshot_01.44_[2015.06.14_20.46.43] 10-OCovil.mp4_snapshot_08.19_[2015.06.14_20.47.15]Como vocês podem imaginar, nunca mostrem para crianças. Aliás, nunca conte para nenhum religioso que assiste esse desenho. Pois eles certamente irão te exorcizar.
Mas vale conferir pelo grotesco, bizarro, maldito, surreal, humor negro, gore, e outros infindáveis pontos que fazem dessa uma animação muito foda.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

More Posts - Website

Follow Me:
TwitterFacebookGoogle PlusFlickrYouTube