Pieles (2017)

Peles (Pieles, Espanha, 2017) Direção: Eduardo Casanova

Como em qualquer arte, o cinema respira insanidade. O realismo é maravilhoso e boa parte das obras independentes se apoiam na visceralidade do cotidiano. Mas há de se imaginar que a normalidade assusta, tanto quanto o terror ou suspense, a falta do abstrato limita o potencial criativo. É por esse motivo que devemos aplaudir quando ideias diferentes são apresentadas no cinema porque, diferentemente de outras artes, o audiovisual envolve muitos realizadores, todos trabalhando em suas camadas para se atingir um mesmo resultado. A insanidade precisa se fragmentar em diversos pedaços de modo que atinja a arte como um todo, caso contrário, mesmo uma mensagem poderosa alcançará à mediocridade. Ainda sobre isso, é preciso ter coragem para apresentar obras como Pieles (2017) pois como se sabe o artista produz um filme e ele é apresentado em uma experiência coletiva e, por diversas vezes em casos como esse, a sensibilidade é a única coisa que separa aqueles que entenderam ou não determinado recado do realizador.

Pieles (2017), portanto, é feito para chocar. Mas o choque é somente a primeira camada – a qual certamente o diretor sabe que a maioria irá atingir – para uma imensidão de temas relevantes que englobam a conduta obsessiva do ser humano em busca da perfeição física e como esse corpo dialoga com outros, existe uma nudez que teimamos em esconder, o corpo casto é, hoje mais do que nunca, motivo de vergonha em um mundo imediatista e expositivo.

Se esconder o corpo se tornou uma atividade corriqueira em tempos onde a artificialidade “mostra os dentes”, ganha ainda mais forças com a facilidade de manipulação que o registro audiovisual provoca no indivíduo, desde estrelas de cinema até famosos do Instagram, todos são protagonistas de uma vida que chama as atenções e, por elas, se tornam reféns. Emagrecer é a solução e o passar do anos simboliza um inimigo mortal. Enquanto isso, a boa parte da população que se mantém invisível – e se diz confortável com essa condição – é obrigado à viver em um mundo de consumo onde o padrão são os manequins das lojas. Tudo é preciosamente imposto e deliciosamente oportunista e nós? bem, somos escravos e, por esse motivo, ainda não nos habituamos com a ideia de que somos e são todos imperfeitos.

Eduardo Casanova é um jovem de vinte e seis anos que parece compreender isso e ter a audácia de falar há tempos sobre a questão, desde o curta “Eat my Shit“, o qual serviu como inspiração para esse longa. Pieles (2017) resgata a atmosfera surreal e maluca de Jodorowsky com o charme e narrativa direta do Almodóvar, ainda há uma inteligência por parte do diretor em conduzir uma grande história em pouco tempo e que ainda acompanha momentos da vida de diversos personagens. O resultado de tudo isso é que o espectador ama ou odeia essa obra, mas é inevitavelmente incrível quando a percepção sobre o grotesco vai se modificando em base à qualidade argumentativa e toda a bizarrice se transforma em poesia.

As cores rosa e roxo se dividem no protagonismo das cenas, e ainda ilustram perfeitamente algumas lacunas emocionais, é possível compreender exatamente os conflitos que unem todas personagens e os detalhes que as separam, dores exclusivas são ressaltadas com a leve diferenciação das cores e iluminação. A sintonia aqui tem resquícios depressivos, os personagens são “deformados” pois assim se enxergam e esse sentimento encontra o seu agravante com os julgamentos alheios. Mas cabe ressaltar que não existe surrealidade em uma mulher que, ao invés da boca, tem um ânus no rosto, isso porque tem muita gente por aí que dedica sua vida, seja pessoal ou profissional, para falar e comer merda – perdoem-me minha impolidez, mas a obra exige o um manifesto direto; não existe monstruosidade em um menino que quer cortar as suas pernas, afinal, muitos possuem saúde e não se contentam, submetendo-se à infinitas cirurgias afim de encontrar a sua completude, como se a existência se resumisse somente no exterior.

Quanto mais as coisas se aceleram e a tecnologia encontra o seu estágio máximo, mais a humanidade se amputa. Parece que o homem em sociedade nunca está confortável, nunca se aceita como é: normal e repleto de erros. O maior erro é rejeitar a possibilidade de felicidade para vestir uma fantasia de ursinho, de modo que a fofura artificial da roupa sintetize tudo aquilo que nós poderíamos ser, mas não somos por falta de carinho com nós mesmos.

Se não bastasse, o sistema existencial cobra desses indivíduos perdidos que se achem nos espaços vazios de um outro alguém. Criam-se relações que trazem consigo uma gama de interesses movidos pela fragilidade. Se o padrão manipula nossa sagrada imagem refletida no espelho, quem dirá uma vida em dois, em três, em sucessivos infinitos.

Às vezes nos sentimos esgotados em um mundo de aparências. Sorte que todos, direta ou indiretamente, estão com os olhos tampados diante à uma imensidão de nuncas. No entanto, é triste afirmar que nem todos conseguem ultrapassar essa limitação com olhos de diamante. Resta para os outros roubar essa singularidade e evacuar no banheiro.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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O Cadáver de Anna Fritz, 2015

O Cadáver de Anna Fritz ( El Cadáver de Anna Fritz, Espanha, 2015 ) Direção: Hèctor Hernández Vicens

Cadáver, corpo sendo violado, necrotério, filme espanhol… Nacho Cerdà?

Nacho Cerdà chocou o mundo com o curta-metragem “Aftermath”, onde basicamente trabalhou temas como violação do corpo, instinto selvagem, fragilidade da carne etc, através da necrofilia. A narrativa se pauta no silêncio, não há diálogos, apenas música clássica em um som extra diegético e os gemidos do violentador, agindo como um animal irracional. A crítica e ironia é evidente desde os primeiros momentos.

Hèctor Hernández Vicens com certeza assistiu o curta e se inspirou no quesito coragem, mas sem nenhuma pretensão de criar algo com a mesma qualidade ou profundidade filosófica. A história em “El Cadáver de Anna Fritz” começa com notícias sobre a repentina morte de uma famosa atriz espanhola chamada Anna Fritz. Seu corpo, que outrora despertava desejo nos homens ao redor do mundo, é levado ao necrotério e fica sob observação do jovem Pau (Albert Carbó) que, fascinado por estar acompanhado do cadáver de uma linda e famosa atriz, tira foto do seu rosto e envia para os amigos. Posteriormente os convida para olhar o corpo de Anne, levantando o desejo em um deles e, consecutivamente, um estupro coletivo.

Os primeiros minutos do filme são excelente, mesmo em um formato convencional consegue provocar alguns temas extremamente reflexivos, por diversas vezes é possível imaginar o quão superficial é o desejo carnal: a fama aqui é um caminho certo para essa questão, visto que muito famosos sustentam a sua carreira em base ao desejo físico, portanto, o que acontece com o seu corpo frio, morto? Todo o fascínio se esvai ou, como visto aqui, esse impulso ainda se mantém?

Os dois amigos convidados por Pau iriam para uma balada na mesma noite que são convidados. Mesmo que um deles relute até o fim, o primeiro contato acontece e, uma das primeiras coisas que o “líder” faz é colocar as mãos nos seios de Anna Fritz. Pau dá detalhes sobre o sexo com um cadáver, deixando implícito que já abusou de outro corpo e a confissão é que poderia ser uma menor de idade.

A atriz mundialmente conhecida está ali, imóvel e sem vida, vulnerável, assim como o estupro sugere, só que sem a resistência. Portanto, o primeiro ato consegue estabelecer com primor essas questões de ética, onde os próprios jovens repensam os seus atos e enfrentam as consequências,afinal, só eles estão no local, portanto permanecem isentos de qualquer julgamento, senão, das suas próprias consciências.

A técnica, seja visual ou narrativa, é comum mas não desaponta. Há momentos de tensão que são fortemente prejudicadas por cenas repetitivas. Todos os atores estão dando o máximo nas expressões que exigem, uma relação estreita com sentimentos como medo, raiva, arrependimento e incerteza. O diretor explora bem as atuações mas peca em criar cenas claustrofóbicas, algo que seria relativamente fácil, visto que os personagens permanecem em boa parte do filme em um ambiente fechado.

 Existe uma limitação física de um dos personagens aqui que resulta em cenas realmente angustiantes, além de o espaço ser bem explorado ao longo dos setenta e seis minutos de filme.

Curioso é notar como é o tratamento dos cadáveres pelos jovens: antes de relevar o corpo de Anna para os amigos, Pau mostra um cadáver de um senhor, desfigurado, no mesmo tempo que obtém como resposta: “cubra esse lixo”. Momentos depois o mesmo personagem fala que o corpo, sem vida, da Anna é “delicioso”. Um contraste obscuro, limitado e doente.

Mesmo com as limitações – não espere uma obra extremamente diferenciada – Hèctor Hernández Vicens conduz uma história dinâmica que, mesmo com pouco tempo, consegue trazer questões éticas e chocar com imagens de necrofilia e desrespeito dos personagens para com o corpo (templo) de uma mulher que perdera a vida precocemente. Os desenvolvimento do roteiro cai e as reviravoltas são repletas de truques; ainda existe uma ideia de vingança má explorada mas que, certamente, aliviará os corações mais revoltosos.

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O processo solitário de se perder

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A Influência La Influencia, Espanha, 2007.  ) Direção: Pedro Aguilera

★★★

A depressão é a doença que mais isola o ser da sua capacidade de sorrir, o faz de forma silenciosa, distanciando aos poucos o indivíduo do resto do mundo, dos olhares e gestos. O toque não satisfaz, o amor é uma sombra ou uma vergonha e o acordar é um pesadelo.

Dirigido pelo Pedro Aguilera com uma frieza assustadora, “A Influência” segue o padrão Michael Haneke, onde o estilo documental registra a dor, isolamento e tristeza de um personagem, grupo ou família. A história acompanha uma mulher que sobrevive as custas de sua loja, cuidando dos seus dois filhos, uma adolescente e uma criança. Mas ela vê sua vida desmoronar quando não consegue clientes por conta de uma crise no país, gradativamente percorreremos a transformação da personagem em rumo à depressão e desistência da vida, contrastando com a vitalidade dos filhos.

Somos apresentados à protagonista e ela está de costas, como se fosse a perfeita representação da sociedade para com a personagem. Vemos a sua loja, extremamente vazia e desorganizada, no mesmo tempo que a trilha sonora traz uma música confortável e passos são mostrados de pessoas transitando pelas ruas. Essas pessoas, possíveis clientes, não percebem a loja, ignoram o azul de suas paredes que remetem diretamente à melancolia.

O azul envolve cada segundo do filme, as cenas se pautam na cor para promover um estado de espírito, como se percebêssemos as cenas através do olhar da protagonista. O azul está na fotografia, nas paredes, no gorro do seu filho, no brinquedo que compra na loja, enfim, a alegoria da repetição é clara e se torna constante à medida que a personagem se esvai em meio à tristeza e caos psicológico.

A paleta de cores do figdiminuídaurino da protagonista só atinge a vividez quando ela está na loja. Ela começa vestindo vermelho, depois amarelo e, na última vez que entra no local, está com uma blusa amarela, desgastada, sem cor. A loja significa a última esperança que, pouco a pouco, vai sendo diminuída, como uma transição de sentimentos representados pela cor que, nessa obra, está tão presente que chega a ser onírico.

Claudia Bertorelli interpreta sua personagem com muita entrega, inclusive a mãe não tem nome, tornando-se símbolo da transformação e tristeza, um andarilho através da depressão. Os filhos, por sua vez, estabelecem o contraponto, preenchem as cenas com equilíbrio e demonstram insatisfação pela condição conturbada da mãe, no mesmo tempo que caminham em direção ao desprendimento e crescimento. Não à toa temos uma cena em que um pequeno menino pinta a sua parede azul com as tintas que ainda lhe restam e a sua irmã, ao invés de repreendê-lo, incentiva-o e ajuda a colar pedaços de uma revista no colorido da parede. Costurando um ser humano fragmentado através das suas imagens despedaçadas.

Ao final de “A Influência” a sensação é de dor e, mesmo com as repetições e ritmo que, por vezes, incomodam, a mensagem que a obra deixa é que o processo de se perder deve ser diferente para cada um e, portanto, não cabe julgamentos. Basta seguir em frente e estar presente, estar entregue.

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Ma Ma, 2015

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★★★

“Ma Ma” é o novo filme do diretor Julio Medem, cujo último trabalho de grande destaque havia sido o maravilhoso “Um Quarto em Roma”, e tem uma presença muito marcante e entregue da atriz Penélope Cruz que também assina a produção.

O filme conta a história de uma mulher, Magda, que descobre ter câncer de mama e, através do seu sorriso e simpatia, acompanhamos a sua luta e, principalmente, preocupação em manter uma relação estável com o seu filho.

Até a primeira metade é de se destacar a mensagem feminista que toma cada segundo de projeção, pautando-se na força de sua personagem, bem como no carisma da Penélope Cruz, Magda se revela incrivelmente forte e independente, despertando a atenção por onde passa e, como reflexo da sua irreverência, todos a tratam incrivelmente bem e, principalmente, sem interesses.

A fotografia tende a ser bem clara, principalmente quando o assunto “câncer” entra em voga, o branco é importante para a compreensão da trama – em dado momento, a protagonista entrega um envelope e traça um paralelo com a cor ( branca ) que é a mesma do time do coração de um outro personagem, no caso, o Real Madrid. No final do filme, após uma cena deveras emocionante, também há a inserção de uma imagem bem iluminada, como se despertasse àquilo que marca a personagem no mundo, representando a sua bondade, força e inocência.

Outro ponto importante é a narrativa flexível, diálogos diretos e inserções minimalistas como o coração – vale ressaltar uma cena em que Magda faz amor e em nenhum momento é mostrado o ato sexual, corajosamente somos “transportados” para dentro do corpo dela, onde, guiados pelo ritmo, vemos um coração pulsando, movido pelo prazer, essa cena representa a simplicidade do longa, no mesmo tempo que traça uma diferença gritante com os demais trabalhos do diretor Julio Medem, que sempre tiveram, em sua essência, o sexo como principal elemento de união. A narração, por vezes, lembra “O Fabuloso Destino de Amelie Poulain”, mas não é a toa, nas suas devidas proporções, ambos têm como hino mulheres sonhadoras, a diferença é que uma se deixa levar para outro universo, enquanto a outra tem um filho.

O problema de “Ma Ma” se encontra no segundo ato, pois perde a direção e investe em personagens secundários que não estão à altura dos poucos que foram apresentados até então e a simpatia que a protagonista despertava nas pessoas, passa a ser quase um super poder que transforma qualquer um em “super protetor da Magda”, abdicando as suas vidas para cuidar dela. Então a força e independência, elementos cruciais para a identificação imediata, vão sendo diminuídas.

No final, apela para um desfecho poético e surpreende, mesmo com o deslize, é fácil navegar feliz por essa história. A atuação da Penélope Cruz dá um charme crucial, como sempre, e sustenta essa obra que, caso contrário, seria apenas mais uma.

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Musarañas, 2014

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★★★★

Dirigido por Esteban Roel e Juanfer Andrés “Ninho de Musaranho” é o típico filme que agrada bastante, mesmo com toda sua densidade, é altamente envolvente e tentador. Musaranho ou Soricidae é o nome de pequenos mamíferos roedores que são conhecidos pela sua ferocidade, mesmo sendo bem pequenos. Com essa analogia clara, temos a história de duas irmãs: Montse e Hermana. A primeira é a mais velha e sofre de uma doença chamada agorafobia, ou seja, ela tem um medo avassalador de sair de casa ou tudo que vai além dos limites do seu território. Já Hermana possui uma ânsia de viver, tem namorado, enfim, uma vida altamente normal se não fosse alvo de cuidados extremos por parte da irmã. A vida de ambas começa a se transformar com o aparecimento do vizinho Carlos.

Hermana é vivida por Nadia de Santiago, dona de uma beleza angelical e que utiliza isso à favor da sua personagem. No entanto, sempre existe um quê de estranheza nos seus trejeitos e, principalmente, na aceitação quase impensável sobre as atitudes da irmã mais velha. Fica evidente que existe algum tipo de obsessão ou passado sombrio entre elas. Já a irmã mais velha, Montse, é interpretada incrivelmente bem pela Macarena Gómez, atriz que doa o impossível para construir uma personagem além dos limites da insanidade. Ela não é muito conhecida do grande público, mas já trabalhou com Álex de la Iglesia – que assina a produção desse filme – em “As Bruxas de Zugarramurdi”.

O filme se passa em 1950 e é importante a pequena ambientação exterior para aumentar a nossa distância para com alguns conceitos, principalmente em relação à liberdade. No mesmo tempo que as vestes e o comportamento religioso obsessivo dá ao filme um ar clássico de terror psicológico; isso desde o começo do filme, a ambientação sombria funciona e causa muitas estranhezas no espectador, típico de filmes de terror ou suspense espanhóis.

Alguns elementos ficam bem claros já no começo do filme, como o papel da mãe na trama e os cuidados extremos, além de que o apartamento onde as irmãs vivem, assume uma importância gigantesca para provocar quem assiste, se tornando uma espécie de personagem principal. As paredes sufocam e, nas primeiras cenas onde vemos a limitação da Montse que a impede de colocar o braço na parte externa da casa, a suposta estranheza dá lugar a compreensão de que realmente há coisas que deveriam ser temidas no mundo e que sua fobia é mais a representação da proteção do que qualquer outra coisa.

Há ainda brincadeiras clássicas – aqui muito bem utilizadas – como a iluminação, que em diversas cenas são diferentes nas duas irmãs, ressaltando o contraste entre inocência e maldade.

O filme atinge um nível mais alto com o aparecimento de Carlos, o roteiro joga o espectador para todos os lados e sacode com tamanhas curvas na narrativa, que em determinados momentos nos impulsiona para o entendimento da protagonista, ora nos faz ter raiva pela sua atitude e, de uma hora para outra, pena pelo seu desequilíbrio. É o típico filme que é preciso recomendar mas sem contar absolutamente nada, pois pode afetar diretamente na experiência de quem assiste.

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CdA #035 – A Pele que Habito

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Senhoras e senhores, no sétimo episódio do Cronologia do Acaso falamos sobre uma obra fantástica do diretor Pedro Almodóvar, A Pele que Habito!

O filme explora um universo sombrio, refletindo sobre criador/criatura e, mais do que isso, violação do limite da ética.

Para tentar revolver essa provocação, convidamos os Guardiões da Masmorra Marcos Noriega e Angélica Hellish (cinemasmorra.com.br/). 

Até a próxima quinzena!

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Filmes alternativos sobre a relação pai e filho

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Enfim, os dias dos pais. Pessoalmente eu invejo muito aqueles que fazem um belo almoço, dão presentes, abraçam e beijam os seus pais nesse dia ou em qualquer dia do ano. Essa presença tão importante permanece, há bastante tempo, inexistente na minha vida.

Mas essa postagem não é para lamentações, até porque não fico triste, pois, a vida nos recompensa de diversas formas, pai não é aquele que nos colocou no mundo, não é somente homem. Existem mães que batalham dia a dia para dar o melhor aos filhos, existem amigos que protegem em qualquer circunstância, existem pessoas que nem sabemos o nome, mas que estão aqui ou lá, presentes nos nossos corações.

Não existe um dia específico, uma data do ano é muito pouco para tamanha importância. Mas beije, abrace, diga um lindo e feliz “eu te amo” ao seu pai. Se você está lendo isso, dê uma pausa, procure se entregar mais, não hoje, nem amanhã, mas sempre.

Se o seu caso é como o meu, não se lamente, comente o quanto a vida é legal por deixar você enxergar o outro lado. Ame, independente de classificações.

Bem, vamos lá: essa postagem é para recomendar alguns filmes que possuam alguma relação com esse tema ou simplesmente tenham um personagem pai que por algum motivo chamou a minha atenção.

A Música Nunca Parou, 2011 

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Me emociona só de lembrar. Existe uma relação, inicialmente, do filho com a música o que acaba, por consequência, criando um conflito com o pai. É uma metáfora interessante, pois um gosta de Rock, aquele que mesclava – impulsionava – o movimento hippie e o outro aprecia um bom clássico.

Quando o filho começa a lidar com o esquecimento, a única coisa que liga os dois é exatamente a música, o pai faz da arte a sua respiração, o seu recomeço.

A Lula e a Baleia, 2005

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Como a ideia é tentar resgatar da memória vários caminhos do mesmo tema, nesse longa dirigido pelo Noah Baumbach, temos o exemplo claro de um personagem ( pai ) fragilizado diante ao processo de mudança, no caso, da separação com a esposa. Interpretado maravilhosamente pelo Jeff Daniels, há ainda uma relação curiosa com o filho, que o segue e, inclusive, o imita. De forma a estabelecer algumas dicas em relação a psicologia daquele convívio familiar, onde o pai impõe os seus gostos e a sua cultura.

Sempre Estarei Contigo, 2012

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Temos aqui um pai, do tipo herói, já idoso ele pode se orgulhar de ter todos os filhos criados e, ainda mais, ter ajudado os netos a terem suas próprias terras. Um ser humano com a vida completa(?). Resta a esse senhor, perceber que precisa, finalmente, de mais tempo com a sua esposa, mas a sua vontade de sempre estar construindo algo o leva cada vez mais a pensar em outras possibilidades.

Tangerines, 2013

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Representante da Estônia no Oscar de melhor filme estrangeiro, acabou perdendo para “Ida”. Aqui temos a figura paterna da proteção, seja dos personagens que estão em guerra que aparece e o cuidado que existe ali ou a proteção de uma lembrança.

Crítica do filme: http://cronologiadoacaso.blogspot.com.br/2015/01/tangerines-2013.html

A Busca, 2013

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Esse filme mexeu tanto comigo que escrevi sobre ele chorando. Uma perfeita simbologia ao ato de buscar aquilo que se perdeu, seja diante as próprias atitudes ou pelo tempo. As pessoas crescem, buscam liberdade, constroem suas próprias famílias, se vão, a busca se torna, consecutivamente, ir em frente.

Cítica do filme: http://cronologiadoacaso.blogspot.com.br/2014/07/a-busca.html

É Tudo Tão Calmo, 2013

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Esse filme da Holanda, silencioso e contemplativo ao nível máximo, é bem particular. Bem como é restrito, é complicado digerir perfeitamente, é preciso calma, assim como a própria tradução sugere. Aqui temos o exemplo do “cuidado”, um filho cuidando do seu pai e lidando com a verdade de que a morte se aproxima, no mesmo tempo que ele é triste por isso, existe ainda o cansaço.

Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada, 2007

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Esse é talvez o filme mais conhecido da lista. Ele mora no meu coração pois me encantou em diversos pontos, desde ser uma comédia romântica perfeita, passando pelas atuações gostosas do querido Steve Carell e a diva Juliette Binoche até chegar a profundidade.

Temos um viúvo, que tem problemas para reconstruir a sua vida, até por ser um pai muito dedicado. E, em uma confraternização em família, ele se apaixona pela namorada do irmão, mas, mais do que isso, aprende a valorizar os seus próprios interesses e percebe com perfeição que, para ser um bom pai, é preciso, também, estar completo e, para isso, precisa ter uma vida.

A Outra Família, 2011

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Esse filme mexicano me agradou bastante. Uma criança foi abandonada por uma usuária de crack e foi adotada temporariamente por um casal gay. Existe uma polêmica presa somente nessa sinopse, mas o filme não é um melodrama, pelo contrário, muito consciente e respeitoso. O que é, de fato, uma família?

Alamar, 2010

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Outro representante do México, esse beira um documentário. Uma criança é dividida entre dois mundo após a separação dos seus pais. A mãe é uma Italiana, vive no mundo da cidade grande, prédios e modernidade, enquanto o seu pai é de origem Maia, leva uma vida que beira a primitividade, cercado pela natureza, vive de pesca, mergulhos, liberdade.

Acompanhamos o filho na natureza, a admiração está o rodeando o tempo todo, mesmo que nenhuma palavra seja dita. O filho admira o seu pai, por esse saber conviver com naturalidade tamanha com a sua própria simplicidade.

A Criança, 2005

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O que mais me agrada na filmografia dos irmãos Dardenne é a capacidade que eles tem em retratar essa relação de pais e filhos de uma forma inexplicavelmente incomunicável. Existe uma parede entre o espectador e a realidade apresentada, uma distância cruel, um desejo de tentar compreender os personagens, por vezes, vazios.

 “A Criança” tem como protagonistas dois jovens delinquentes, que acabaram de ter um bebê. Eles não sabem o que vão fazer da vida e a criança sofre com essa imaturidade ou falta de objetivo. Uma existência sem significado, uma nova vida fadada ao abandono.

Jérémie Renier e Déborah François estão surpreendentes.

Tudo que Quiseres, 2010

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Filme Espanhol, que navega por entre uma relação de pai e filha, onde ambos acabam de perder a mãe/esposa. O pai então, para acalmar o coração da menina, começa a se vestir como a mulher.

Crítica do filme: http://cronologiadoacaso.blogspot.com.br/2014/03/todo-lo-que-tu-quieras-2010.html

Caos Calmo, 2008

Está confirmado! Se eu tenho um pai no cinema, ele se chama: Nanni Moretti. Esse ator/diretor, esse filme, foi muito impactante para mim, em um momento que estava muito carente. Aliás, um outro filme do Moretti – que ele atua e dirige – chamado “O Quarto do Filho” de 2001 também poderia estar facilmente nessa lista.

A mãe/mulher também morre e o pai, vendo que sua filha está diferente, resolve sentar em uma praça, de frente a escola, todos os dias. Ou seja, ele leva a sua filha na escola e, depois, ao invés de ir trabalhar/viver, fica lá sentado até a menina sair.

É de um amor, é de uma sensibilidade que só assistindo. Para morrer de chorar e se encantar com tamanha beleza.

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Chico & Rita, 2010

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★★★★

Vencedor do prêmio de melhor animação no Goya de 2011, “Chico e Rita” poderia ser simplesmente – e somente – mais uma história de amor. Mas como já é costumeiro nas animações espanholas, existem centenas de elementos cruciais e referências para os mais atentos. No filme em questão, há uma relação incontestável com a música cubana. Visto que ambos protagonistas são músicos de alto nível: Chico é um pianista e Rita uma cantora, dona de uma voz potente.

Não sou um conhecedor dos cantores de Cuba, o máximo que já ouvi foi o excelente Miguelito Valdés mas, por influência dessa exímia homenagem, me dei a oportunidade de pesquisar mais sobre, por sinal estou descobrindo coisas fantásticas. Não tem como ignorar a felicidade dos realizadores Fernando Trueba, Javier Mariscal e Tono Errando na contemplação da música. Afinal, o filme – personagens- viaja para Paris, Las Vegas, New York, destaque para esse último, onde teremos uma profunda reflexão sobre os preconceitos existentes no Estados Unidos, visto que o filme começa no final da década de 40. Ainda mais, é um verdadeiro passeio pela história do blues/jazz, diretamente afetada por essa separação da população.

Temos aparições ou citações ilustres, como é o caso do Charlie Parker. Um ícone para a música, mas também imortalizado pela forma de vida, o vício sempre esteve muito presente. Aliás, essa querida animação tem como maior característica o desprendimento daquela famosa ideia de que “se é animação, foi feito para crianças”, aqui temos um conteúdo inteiramente adulto, inclusive com uma cena de nu frontal.

A vida boêmia se faz presente, bem como o relacionamento conturbado. Chico não faz o romântico perfeito, muito menos Rita segue o perfil delicado. A personagem se desenvolve em base a uma ousadia incrível, felizmente o roteiro é sublime em fazê-la ser a frente do seu tempo, diferente – incrivelmente sexy – sem ser vulgar.

Entre encontros e desencontros, os dois, já na velhice, compreendem que viveram intensamente e, pelo mesmo motivo, se perderam um do outro. Complementando a introdução desse texto, “Chico e Rita” não é uma história de amor entre duas pessoas, mas sim de duas para com a música, com todas oportunidades, desastres e perdas que ela traz.

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