De Canção Em Canção (Terrence Malick, 2017)

Esse é mais um representante dessa nova etapa artística do diretor Terrence Malick, onde o universo, técnica e figuras importantes do cinema parecem entrar em comum acordo para representar a angústia da existência. Talvez seja justamente por isso que o diretor consiga agregar tantos nomes poderosos em um único trabalho, mesmo que sejam cortados na edição, pois eles sabem que o estilo do diretor transcende a narrativa dita através dos anos como convencional, a sua câmera invade a privacidade da performance, bem como por vezes se recusa a aceitar o óbvio ou o ascendente. Perceba momentos que o movimento de câmera acontece e para nos detalhes, como na mão de uma personagem na maçaneta da porta. Às vezes a reação facial das personagens esconde trejeitos, a postura, enfim, uma série de características que compõe a sua personalidade. No mesmo tempo que o cinema funciona como uma janela para observar a vida, o seu formato e padronização impede que tenhamos a perspectiva completa, admirar a paisagem pela janela, dentro de casa, e no exterior são duas coisas completamente diferentes, sendo assim, Malick é como um garoto rebelde, mesmo que sua mãe o castigue e o impeça de sair, ele foge e faz questão de registrar absolutamente tudo aquilo que lhe convém, mesmo que soe como corrupção da performance e convencionalidade.
Sua câmera se movimenta de forma ondeante, obrigando o espectador à árdua tarefa de assimilação espacial, as sensações dizem respeito ao etéreo, como se tivéssemos analisando o comum sob a perspectiva de uma deidade.

De Canção Em Canção (2017) segue esse padrão, o mesmo de A Árvore da Vida (2011), Cavaleiro de Copas (2015) e Amor Pleno (2013) e, por isso, pode ser injustamente acusado como repetitivo e sem sentido. Mas o curioso é que visivelmente o diretor compreende que esses adjetivos fazem parte do processo, ainda mais quando o produto artístico é tão complexo e transcendental. Nem todas pessoas estão dispostas à falarem de si mesmas, e fazê-lo de modo a contemplarem diversas realidades que não condizem com a sua é certamente ainda mais difícil.

Nesse longa a incoerência do amor e cumplicidade são analisados a partir do universo das estrelas da música. A produção musical que exige individualidade e momentos curtos de sincronia. É de se notar a flexibilidade fotográfica que ora se dedica intimamente às figuras que acompanha, ora os recusa, transformando-os em invisíveis em meio à ambientação – diferença estética que faz jus a instabilidade do mundo que acompanha.

As narrações em off durante boa parte do filme são simples e diretas, parecem realmente trechos de músicas e não me espantaria se de fato fossem. Elas dialogam com o cotidiano e abrem espaço para o visual, onde pequenas demonstrações de afeto, posição no quadro e palavras fazem dos inocentes movimentos das personagens experiências incrivelmente intensas.

Existem tantas cenas simbólicas – muitas delas perceptivelmente improvisadas pelo ótimo elenco – que precisaria de muito tempo para as analisar metaforicamente. Por exemplo um momento em que o casal Faye (Rooney Mara) e BV (Ryan Gosling) fazem uma brincadeira relacionada à confiança. Os dois personagens, inclusive, assim como Rhonda (Natalie Portman) são os mais interessantes como início da reflexão sobre a condição de corrupção e decepção de um jovem esperançoso inserido no meio musical. Cook (Michael Fassbender) é um personagem completamente sedado pela conquista, é a personificação do fascínio perigoso que o poder teima em sussurrar nos ouvidos como a perfeita solução.

De Canção Em Canção (2017) é uma obra sensorial, que exige muita atenção e a maior imersão possível afim de proporcionar a melhor experiência. No entanto, atrás da narrativa pouco convencional, não se esconde um material complexo como a sua forma – como acontece em outros trabalhos do diretor. Ainda assim é um filme extremamente relevante e que apura os sentidos, pois transforma o cotidiano e a realidade desgastante da fama em poesia; sustentado principalmente pela fotografia de Emmanuel Lubezki e pelos impulsos naturais performáticas de um elenco incrivelmente talentoso, mas que pela própria linguagem são sabotados em muitos momentos.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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O Regresso, 2015

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★★★★★

O diretor Alejandro González Iñárritu afirmou em uma entrevista que o seu novo filme, O Regresso “merece ser visto em um templo”. Esse e alguns outros comentários foram o suficiente para creditá-lo como pretensioso, mas não deixa de ser a mais pura verdade.

Um templo, no meu entendimento, faz referência à um lugar que exala um respeito crucial e, assim, dá a oportunidade para um processo de catarse. O Regresso é poderoso e ambicioso ao extremo, bebendo de fontes como o recente – e também mal compreendido – A Árvore da Vida do Terrence Malick e agregando elementos importantes dos famosos filmes de vinganças e faroestes.

Alejandro González Iñárritu sempre foi um especialista em unir todos os homens em apenas um; Universalizava, com grande respeito, todos os seus personagens e seus respectivos erros, medos e sentimentos mais profundos. Na “trilogia da morte”, composta por Amores Brutos, 21 Gramas e Babel ele fez um trabalho minucioso sobre a ligação do homem com algo maior que a própria existência. Iñárritu, junto com o seu fiel amigo roteirista Guillermo Arriaga – que, depois de um tempo, viriam a se separar – tiveram uma experiência absurda, ao longo de três filmes, e desenvolveram inúmeros personagens complexos, que iam desde a falta de comunicação – como visto em Babel – até a aproximação com a morte em 21 Gramas. Destaco ambos temas, pois, sem dúvida, estão muito presentes em seu mais recente trabalho.

O Regresso é uma obra que contempla o vazio de uma sobrevivência insana, motivado por ideais fortes mas que, sem dúvida, se tornam frágeis diante a primeira luz de realidade. O que importa, de fato, é o processo de conhecimento do homem, a simbiose entre três elementos cruciais: natureza, animal e se humano.

Na cena inicial temos um flashback, logo depois acompanhamos passos lentos do Hugh Glass ( Leonardo DiCaprio ) e o seu filho Hawk ( Forrest Goodluck ) em plena caçada. O movimento de câmera é sutil, no mesmo tempo que parece constante, dando uma sensação de proximidade e ainda ressalta a grandiosidade das ações. Essa contemplação inicial percorre pai e filho, dando destaque à um pequeno riacho sob seus pés, o espectador sente a diferença da narrativa, compreende que todos os elementos da floresta como água e árvores serão extremamente importantes para o entendimento da obra e os seus infinitos significados.

Nesse aspecto, a fotografia de Emmanuel Lubezki assume uma importância gigantesca. Traduzindo não só uma série de sentimentos do protagonista, como também agiganta a floresta, deixando os homens pequenos diante a vida, no mesmo tempo que eles imediatamente se transformam em heróis ao tentar enfrentá-la. Existe uma incomunicabilidade presente em cada quadro, fica evidente que o trabalho do diretor é sustentado quase que completamente no visual, entregando ao Lubezki boa parte da responsabilidade e ele, por sua vez, vem demonstrando ao longo dos anos que dá conta do recado.

Se existe um pai e filho já na segunda cena, em seguida aparecem mais elementos que serão importantes para a trama como a caça e a pele dos animais. É mostrado homens tentando dominar a natureza/vida e ganhando dinheiro com a pele dos animais, curioso é notar que diante a uma provocação de John Fitzgerald (Tom Hardy) – após um grupo de brancos serem atacados por índios – Hugh Glass diz ao seu filho, que está furioso, para se acalmar, pois os outros só veem a cor da sua pele, o menino é descendente de uma tribo indígena.

A pele representa o exterior, é a postura do homem arrogante em tentar se manter constantemente superior. Negando-se a chegar em outra definição ou significado do ser.

A cena mais inesquecível e alvo de atenções certamente é o ataque do urso, onde atinge um nível de ferocidade incrível. O protagonista, que fora apresentado como uma figura segura e sábia, se desmorona perante a uma vida irracional, o embate entre o homem dá lugar a oportunidade de conexão entre um ser humano e a natureza. Um contato íntimo com o desastre, fraqueza e morte. Hugh Glass morre após o ataque, pois começa a pensar diferente, se entender diferente. Os sussurros do seu filho, ecoam por todos os 156 minutos de filme – “estarei bem aqui“.

Na morte do seu filho, diante a um desespero avassalador, a câmera se aproxima do protagonista e a sua respiração embaça a tela, obrigando o espectador a se posicionar frente a frente com o sofrimento e angústia. Esse simples detalhe é de suma importância, já que a segunda vez que vemos esse “embaçamento” é logo após Glass sair de dentro da barriga do cavalo, – onde estava se protegendo do frio – essa cena visivelmente representa o recomeço do personagem, nascendo novamente e libertando-se para a vida, como se ele fosse o filho que morreu. O fato de “nascer” da barriga do cavalo, um animal que exala algum tipo de fascínio, representa o processo de transformação, a sobrevivência só acontece porque o protagonista entende que é consequência da vida, ele morre e renasce para concretizar a sua vingança, para caçar, assim como foi caçado pelo urso, demonstrando a sua grandeza e superioridade. Não a toa o protagonista veste a pele do urso e leva consigo as suas garras como lembrança, aos poucos ele se torna o urso. É o homem na sua essência primitiva.

O filme é repleto de brutalidade mas é envolto de uma sensibilidade extrema. Existe um espaço para refletir e outro espaço enorme para criar empatia pelo protagonista e todo o seu sofrimento e motivação, isso se deve ao trabalho espetacular do DiCaprio que atinge o mais alto nível nesse trabalho. Proibido de desenvolver as nuances com palavras, ele utiliza-se do olhar, expressões, corpo, enfim, é a realização máxima do ator, ele se mantém completamente entregue a iniciativa de desvendar o seu personagem e compartilhá-lo da forma mais visceral possível.

A caça no final só demonstra a grandiosidade da obra, aumenta consideravelmente o nível de tensão sem nunca se esquecer de ser poético, a perseguição é uma sinfonia, alinhado e coreografado perfeitamente, cada movimento dos personagens, cada ação e a câmera que sobrevoa constantemente.

O sangue contrasta com a neve, iniciamos com a água e retornamos a ela no final. O processo está concluído e o homem selvagem, filho da natureza, caminha por entre o vazio da realidade: A solidão é a morte mais dolorosa de todas as que enfrentou.

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