Quando o amor ensina a se comunicar

A Linguagem do Coração ( Marie Heurtin, França, 2016 ) Direção: Jean-Pierre Améris

★★★

Baseado na história da Marie Heurtin -filha de artesãos e que nasceu surda e cega. O seu pai, desesperado para criar uma conexão com a filha e não precisar mandá-la para um sanatório, resolve procurar ajuda no Instituto Larnay, uma escola católica para meninas surdas. A madre superiora recusou a menina, afirmando que o seu estágio era avançado demais para o local, no entanto uma irmã, Marguerite, se sensibiliza pelo caso e busca Marie na sua casa para começar a educá-la. A comunicação entre as duas, em um primeiro momento, foi difícil, mas a irmã utilizava as suas expressões como uma forma de ensinar os sinais, transformando a vida da garota.

O poder dessa história atinge diretamente os educadores. Os professores hoje se veem, na sua maioria, em uma situação delicada nas escolas, por conta das inserções de alunos com necessidades especiais e, em diversos casos, nem ao menos possuem tempo para se adaptarem aos alunos, privando-os da atenção exigida.

Nesse ponto o filme ilustra bem o quanto a atenção exclusiva, bem como a força de vontade e amor são instrumentos valiosos no ensino. Se não bastasse, é perceptível que a irmã Marguerite possui um conhecimento absoluto sobre a comunicação, apresentando suas convicções de forma alegre e otimista, mas o resultado parece ser, também, fruto da sua paciência.

A cena inicial revela Marie estendendo as mãos e sentindo o sol, a garota é levada por seu pai até o instituto e o plano detalhe nas suas mãos será constante até então. Até porque a comunicação aqui será trabalhada com o toque.

A sensibilidade por parte de Marguerite é tocante, o motivo é que a própria têm consciência da sua finitude e quer, de todas as maneiras, realizar um feito para ser lembrada, não para se sentir exaltada, mas sim completa. Em dado momento ela se questiona como será viver em um mundo sem som e de escuridão, é justamente essa empatia que emociona e faz pensar que, na educação, é preciso colocar-se no lugar de diversas histórias e necessidades.

Isabelle Carré dá a sua Marguerite um quê de doçura, inocência e, o mais interessante, é que mesmo com todo o seu otimismo, nunca transparece ignorância nas suas convicções. O destaque fica por conta da atriz Ariana Rivoire que é surda de verdade e desenvolve sua personagem de forma sublime, transparecendo a postura selvagem que, após a evolução, leva à serenidade – é preciso coragem para enfrentar a sua condição e estabelecer uma ponte com o mundo exterior que teima em vê-la como uma aberração.

No entanto, a sensação que fica é que a história real é tão significativa que o próprio filme não ousa ao tentar contá-la, fazendo o simples e, com isso, se despreocupando com alguns clichês e acaba devendo algumas explicações quanto ao processo de aprendizagem. Algo que poderia ser melhor analisado se não houvesse a necessidade de concluir em um drama comum.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Um cinema para todos

Essa foto foi tirada em um dia muito especial na minha vida. Como professor de tecnologia em um programa do Governo, desenvolvi há alguns anos um planejamento que cobrisse algumas necessidades pessoais e, inevitavelmente, entendia que fosse um grande ganho para as crianças/adolescentes com os quais trabalho ou trabalhei. Portanto, dou aula de fotografia, cinema, enfim, primando, essencialmente, pela arte, enquanto inserida na própria tecnologia.

Depois de criar um cineclube na própria escola, que atendesse exclusivamente os alunos que participam do programa, na sua maioria carentes, nós tivemos a oportunidade de levá-los ao cinema, uma boa parte deles, pela primeira vez!

Primeiro fizemos um piquenique, depois entramos com umas 90 crianças, separadas em pequenos grupos, no shopping. A reação deles era incrível, olhavam tudo com muita atenção, o sorriso era intrínseco. Eu tive o prazer de, antes, falar um pouco como funcionava a mecânica do cinema, então lá estavam presentes 90 “mini-cinéfilos” que, por serem crianças, esqueceram tudo e foram envolvidos tão somente pela magia.

Eu, cinéfilo que o sou, que já afirmei diversas vezes que o cinema mudou a minha vida, me salvou… Estava diante de uma real possibilidade de me imortalizar. Enquanto cuidava do meu grupo, tirava fotos desenfreadamente e, nos momentos oportunos, me distanciava para me emocionar sozinho.

Bem, esse foi um dos casos, mas o cinema me proporcionou outros momentos assim, de reflexão. Eu nunca fui rico, inclusive acabei de escrever que sou professor, que fotografo, ou seja, dois empregos que não dão dinheiro. Não que eu me importe com isso, pelo contrário. Eu sou feliz com o meu torrent, sou feliz quando no final do mês pego meu dinheirinho ( que sobrou das contas, pois, infelizmente, cresci ) e vou até o cinema assistir um filme blockbuster – sim, apesar do [Cronologia do Acaso] ser exclusivo sobre cinema alternativo, eu assisto também esses para me divertir.

http://www.revistaforum.com.br/blog/2015/08/blog-e-criticado-na-internet-por-defender-fim-do-cinema-barato/

Esses dias li o texto do Jurandir Filho, não o conhecia muito bem, mas, sinceramente, o conteúdo apresentado me desanimou bastante. Não criticando a sua pessoa, muito pelo contrário, todos nós somos cabíveis do erro, mesmo que tenhamos convicção do que foi falado ou escrito, a experiência que vivemos, a criação, muda bastante o nosso olhar. Afinal, o conteúdo do texto soa arrogante, apostaria, inclusive, que o autor deve ser abastado e, pelo mesmo motivo, acabou se esquecendo da outra grande maioria, a qual eu também me incluo – pois pagar 20 reais para assistir um filme chato/sem conteúdo como a maioria desses filmes de super heróis, comédias nacionais e demais produtos que as salas me oferecem atualmente, é um absurdo.

Novamente, o autor foi ignorante no que diz respeito a indiferença com a realidade do nosso país, pois as pessoas merecem a oportunidade de entrar em contato com a arte, é o mínimo que se pode esperar, aumentar os valores só faria e faz com que as pessoas fiquem cada vez mais cômodas. Que bom seria se o livro fosse um real, se o cinema fosse um real, quem sabe assim as pessoas tivessem a mesma oportunidade que esses “críticos” tem de assistir tantos filmes no cinema, muitos desses, inclusive, criando um conteúdo extremamente superficial.

Apesar de que, existe sim uma postura diferente das pessoas em relação ao entendimento do cinema como arte, nesse ponto o Jurandir tem razão. Mas, um grande portal como o Cinema com Rapadura impulsiona isso e tem todo o direito, afinal, lucra muito, mas é extremamente infantil atribuir isso ao público quando, no mesmo tempo, 90% do conteúdo desses grandes sites só falam sobre o mesmo, direcionando o leitor/ouvinte para o consumismo e tirando-o a oportunidade de olhar para uma outra direção.

Não sou contra ninguém, a diferença tem que ser louvada. O Jurandir não está errado em colocar a sua opinião, assim como o seu conteúdo é importante. Mas há um abismo entre o cinema/produto e o cinema/arte. No mesmo tempo que a linha é tênue. Faltou um pouco mais de carinho, de observação, tem muita polêmica e pouco amor no conteúdo em questão.

O cinema não deve ser mensurado.

E, da mesma forma que mesmo com tão pouco, consegui ver o brilho nos olhos das crianças por entrarem em uma sala de cinema pela primeira vez, queria que o mundo sentisse o que eu sinto quando vejo um pai de família, com roupa do trabalho, levando seus dois filhos para assistir algum filme em cartaz. Sem pensar muito, sem questionar o preço – mesmo que seja monstruoso – pois, pelo menos uma vez ao ano, ele precisa sentir o sorriso daqueles que ama.

Se o mundo estivesse no cinema, 
As pessoas pelo menos estariam em silêncio.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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