Espaço Além – Marina Abramović e o Brasil, 2016

Espaço Além – Marina Abramović e o Brasil ( The Space In Between, Brasil, 2016 ) Direção: Marco Aurélio del Fiol

Marina Abramović adentra uma caverna encantada, repleta de incertezas incomunicáveis. Ela resiste à fraqueza da carne, sua mente transcende a dor, redimensionando a sua existência e, através do seu corpo, um veículo, explora a arte simples do cotidiano e motiva o público a fazer o mesmo.

Ela cria uma ponte entre o ser e o mundo espiritual e eterno, eternizando sua arte através de tatuagens feitas por todos aqueles que passaram por sua vida. Seria injusto separá-la da coragem; seria ingenuo não usar a sua imagem como uma forma segura de afirmação de que a arte é único caminho válido para se encontrar Deus.

O que nos liga é o sentimento de descoberta, descobrir-se como entregue, disposto à enfrentar os mistérios da crença, respeitando a diferença, lugar e história. Marina Abramović pratica a empatia e se suicida a cada segundo, desprendendo-se constantemente da vida e exaltando seus movimentos como uma forma divina de contemplação sobre o absurdo do acordar.

Assistir esse documentário proporciona uma experiência tão esmagadora e maravilhosa como a que Marina vivência com o chá de ayahuasca; uma verdadeira catarse, evacuação dos medos, uma jornada à cegueira total.

Há diversas cenas onde a espiritualidade atinge a imagética, o objeto se torna uma corrente que aprisiona o convencional. Acompanhamos os passos de um ser em busca de compreensão, de forma simples percebemos o quão grandioso é a liberdade total da consciência, a fé absoluta em coisas inimagináveis e perigosas – como uma imagem onde uma baiana “levita” ou o tratamento espiritual nada convencional onde é colocado uma faca nos olhos daqueles que creem, um momento altamente grotesco, se analisado exclusivamente com a razão.

A arte é entregar-se as emoções mais profundas, confiando na natureza como fonte primária de inspiração e reflexão. Marina Abramović deixa claro a sua posição sobre a  diferença entre instituição religiosa e espiritualidade, é importante para a compreensão dessa jornada onde a “andarilha moderna” encontra a si em cada personagem que sente, em cada passo lento à caminho da ciência, em cada arte e em cada cebola e alho que devora.

Na última vez que estive no Brasil, visitei uma xamã chamada Denise. Ela trabalhou com pedras de meteorito para determinar as minhas origens. Ela disse: “Sabe, você nunca se sente em casa em lugar nenhum.” Isso é verdade. “Você nunca se sente em casa em lugar nenhum. Porque você não é deste planeta. Seu DNA é galáctico, você vem de estrelas distantes. E você veio ao planeta Terra com um propósito”. Eu perguntei a ela: “Qual é o meu propósito?” “Seu propósito é ensinar os humanos a transcender a dor.”

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Katatsumori, 1994

Caracol ( Katatsumori, Japão, 1994 ) Direção: Naomi Kawase

Naomi Kawase troca o termo documentário por memórias. O início da sua carreira, após fazer um curso e dar aulas de fotografia, é toda voltada para os registros viscerais de sua vida. Uma câmera na mão e muito coração dentro do peito. O abandono do pai e opção da mãe por entregá-la à adoção estão sempre presentes nos seus filmes, bem como a força da natureza que aprendera com sua “vovó” – assim chamava a sua mãe adotiva.

Em “Caracol” Naomi se dedica a filmar sua avó com uma simplicidade monstruosa. É possível ouvir até os ruídos da sua filmadora, algo bem amador e pessoal, como um diário audiovisual procurando refúgios em imagens super próximas do objeto principal, de forma a aproximá-lo da autora, tornando-o eterno.

Seguimos a vovó e seus cuidados atenciosos com a terra, enquanto divaga sobre questões cotidianas como passado, preocupações e relação com sua filha. O close-up no seu rosto é constante, trazendo até mesmo um leve desconforto para ela que, prontamente, aceita a condição de ser estudo da Naomi, existe uma compreensão e fé nos talentos da, até então, jovem diretora de 24 anos.

Existe magia em cada lar, sentimentos incompreensíveis de afeto em cada família e isso é trabalhado aqui. Logo no início vovó fala com felicidade dos seus oitenta e cinco anos, no mesmo tempo que salienta em dado momento que viverá até os cem para ver as realizações de sua filha. Faz uma lista de possíveis coisas – sempre haverá a inclusão de filhos, como o ideal perfeito da continuidade da história – e, logo em seguida, pede para Naomi filmar a si mesma. Me pego pensando o quão simbólico é isso pois é justamente através da filmagem que a diretora se imortalizou na história do cinema.

As lembranças são todas as riquezas que temos, que bom poder viajar no tempo e viver um momento conforme a sua imagem. “Caracol” se trata de uma obra tão particular, que chega a incomodar em certo ponto, como se fosse uma intromissão. A sensação é de estarmos invadindo uma casa aleatória e roubando uma pequena, mas especial, caixinha de lembranças.

Vovó trata a terra com a mesma dedicação que têm com Naomi, planta de modo a criar vida e se questiona indiretamente. Ela se preocupa com as filmagens, por registrá-la sem maquiagem e perto demais do seu rosto. Chega a dizer: “…essa cara velha e enrugada, sem maquiagem” e é justamente nesse momento que pega a filmadora e registra sua filha, a diretora, ainda bem nova e cheia de esperanças. Ainda sobre sua imagem envelhecida, caminhar fragilizado… quando ela questiona a falta de maquiagem, o espectador inconscientemente responde: é justamente a sua naturalidade que a torna a senhora mais linda de todas.

É de se notar que a comunicação entre as duas, apesar de partir da pureza e do mútuo respeito, percorre alguns momentos de timidez, como uma pergunta da vovó onde ela questiona se sua filha a ama. A resposta, em forma de poesia visual, acontece em uma filmagem em off através da janela, distante; os dedos da diretora fazem carinho na vovó através do vidro, como se estivesse sempre cuidando dela, apesar de não ter forças o suficiente para demonstrar em todos os momentos.

O sussurro no final, com a frase “boa noite”, é de partir o coração. Um momento de realidade se intromete no processo de contemplação da beleza. Todas histórias, com seus amores e decepções, dependem de uma boa noite de sono para se tornarem grandiosas. Naomi reflete isso e o faz de forma sublime, respeitando as suas imagens e sua musa, mas sem esquecer que tudo vai embora, até mesmo a jovem diretora, com toda a sua inocência e insegurança.

Existe, apesar de algum amadorismo, – qual verdade não é, afinal – um planejamento visual feliz. Mas o documentário se destaca pela força metafísica do seu objetivo: imortalizar uma pessoa, diálogos, expressões e carinho. Naomi guarda sua vovó e cabe ao espectador tentar fazer o mesmo.

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Colecionismo, fotografia e sensualidade

Preto, Branco e Cinza ( Black White + Gray: A Portrait of Sam Wagstaff and Robert Mapplethorpe, Estados Unidos/Alemanha, 2007 ) Direção: James Crump

★★★★

Esse documentário fala sobre a vida do colecionador, curador de exposições e artista Sam Wagstaff, principalmente sobre o seu fascínio por fotografias desconhecidas que, por coincidência, refletiam traços da sua personalidade excêntrica e como esse vício/objetivo impactou a vida do seu namorado e fotógrafo Robert Mapplethorpe.

O núcleo do filme acontece entre as décadas de 70 e 80, que apesar de serem opostas, ambas são extremas e refletem bem a personalidade de Sam Wagstaff e Robert Mapplethorpe e como ambos representavam o complemento perfeito para uma face repleta de lacunas tanto emocionais quanto físicas. Sam Wagstaff cresceu em meio a aristocracia, dotado de uma beleza exótica, desde novo era acompanhante da mãe e exalava segurança e domínio. Robert Mapplethorpe, por sua vez, se apresentava ao mundo como um rebelde sem causa, em um primeiro momento é curioso como o documentário trabalha essa relação que funciona como uma catarse para alcançar a autonomia do próprio corpo e sexualidade.

Sam começa, através do seu parceiro e aceitação da sua opção sexual, a descobrir um outro lado da sua persona; corajoso, subversivo, explorador, expositivo, enfim, ele passa a dialogar com uma nova versão de si mesmo, que será ainda mais desenvolvida com a união das suas paixões como artes, colecionismo e fotografia.

Usando a cidade de Nova Iorque como pano de fundo para a autonomia e liberdade de expressão, o documentário – brilhantemente dirigido pelo James Crump, que consegue transitar pelos depoimentos, fotografias maravilhosas e temas com uma fluidez inacreditável – se divide em vários ao transmitir o poder de uma relação que se estrutura, basicamente, em uma simbiose profunda e como esse encontro pode desencadear o surgimento de novos intelectuais e revolucionários, mas também aborda o sentimento de êxtase que a coleção provoca e o poder reflexivo que a fotografia possui, principalmente quando um sujeito está disposto a tentar descobrir um pouco de si em cada imagem que analisa.

É um filme fascinante para amantes de fotografia, pois exalta constantemente essa arte como forma de evolução e diálogo com a sociedade, mas também é uma ode ao colecionador que, com muito carinho e dedicação, reúne diversos objetos que o identificam de alguma maneira. De brinde temos uma grande história de amor e amizade – a cantora punk Patti Smith era muito amiga do casal principal – que serve como mensagem simples e impactante sobre a busca do indivíduo em completar seus medos e ausências com o amor, mesmo que a sociedade o repreenda. As fotografias de Robert Mapplethorpe exalam essa ideia de libertação, revolução sexual e “voz aos homossexuais”, com decisões cruciais na utilização das sombras para criar os contrastes, é um trabalho imprescindível para adoradores de fotografias e apoiadores do movimento LGBT.

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Os senhores que se confundem com a sujeira das ruas

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On The BoweryOn The Bowery, Estados Unidos, 1956. ) Direção: Lionel Rogosin

★★★★★

Esse filme é, provavelmente, um dos mais avassaladores da década de 50. Muito à frente do seu tempo, lidou com um tema pesadíssimo de uma forma extremamente visceral, com a ajuda de uma fotografia inesquecível e direção impecável.

A influência que “On The Bowery” exerceu na história do cinema é gigantesca, a começar pelos próprios documentaristas da época que se apropriaram da mesma linguagem para construir os seus registros. John Cassavetes, um dos maiores nomes do circuito independente norte-americano, disse uma vez que Rogosin era “provavelmente o maior documentarista que existia”.

Outro influenciado pela obra é Paul Thomas Anderson, principalmente para a composição do filme “The Master“. O diretor pediu para Joaquin Phoenix assistir esse documentário e o ator, por sua vez, mencionou o filme como a essência do personagem Freddie Quell. Peguem a obscuridade abordada na obra de PTA, a bebida como forma de degradação humana e perca da razão, o ser sem lugar no mundo e, enfim, teremos a alma de respectivos filmes, tanto “On The Bowery” como “The Master” repercutem a mesma ideia, de formas diferentes e tão importantes quanto, a principal diferença é que o primeiro foi esquecido pelo tempo, sendo restaurado recentemente.

“On The Bowery” se passa em três dias, acompanha os senhores da rua Bowery. A ótica do diretor permanece sobre as suas vidas movida pela desesperança, frutos da crise, e moradores de lugar nenhum. Os personagens registrados deitam nas ruas, confundem-se com a sua sujeira e os únicos sentidos que encontram são a bebida e os bares, cercados de cigarros e sorrisos, no mesmo tempo que o álcool cria um elo com a felicidade, aprisiona-os na ilusão.

O documentário é uma mistura de ficção e realidade, mentira e verdade se relacionam da forma mais impactante que existe. A história inicia-se com a chegada de Ray Salyer na cidade, depois percorre à sua tristeza e existencialismo regrado a álcool e cigarro. A câmera estática é uma intrusa nas conversas, muitas delas referentes à possíveis empregos invisíveis, os senhores dialogam na esperança de esquecer que, à noite, terão que dormir no chão.

As cenas são maravilhosamente bem fotografadas por Dick Bagley, tanto que começamos o longa com imagens de senhores dormindo em papelões espalhados pelo chão, homens “presos” em valas, bêbados caminhando como se o mundo fosse um palco onde o maior espetáculo é a solidão. A fotografia pressiona o espectador, provoca sentimentos, o preto e branco transmite melancolia em cada segundo, há diversos momentos que os personagens são filmados entre grades, sugerindo o aprisionamento daqueles seres sem alma, sem dignidade.

A cena mais impactante é quando o protagonista(?) – Ray Salyer, em teoria, é o protagonista, mas a rua e as vidas o consome constantemente e o protagonismo se perde – entra em um abrigo para pegar comida e dormir, enquanto ouve as regras que dizem que na primeira noite, o cidadão deve dormir no chão. O prazo para ficar nesse local é de uma semana, no intuito de que nesse período os homens possam conseguir um emprego, mas é evidente que não existe emprego, não existe dinheiro, não existe existência. Os senhores, todos cordiais e unidos, se arrastam juntos à caminho do vício e da enganação.

Um velho afirma que não se pode vencer todo dia, essa é a síntese do documentário, vemos três dias de derrota. Alguns buscam conforto em deus, no mesmo tempo que, em off, ouvimos um homem dizendo em seu depoimento que perdeu a fé há 24 anos.

A mensagem final é para destruir, no mesmo tempo que cria a expectativa de fuga, há uma frase de um personagem que sugere “a volta”. Como um círculo, pessoas trabalhando os seus próprios conceitos de solidão, vítimas da sociedade, do poder e do vício. Uma hora de duração; uma hora de realidade em forma de arte.

Ray Salyer, o personagem principal, recebeu um convite para trabalhar em Hollywood após fazer o documentário. Mas ele recusou, continuou vivendo em Bowery, na sua maldição e benção. A fuga espera pela volta ansiosamente e o homem se embriaga para esquecer a sua própria fraqueza.

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Deep Water, 2016

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Um jovem corre por uma rua, encontra um grupo de jovens e, em seguida, é espancado por eles. Inesperadamente eles descobriram que ele era gay, então ouve-se piadas, principalmente uma mulher pedindo para enfiar um pau no seu ânus pois “ele iria gostar”.

“Bicha!” – diziam, enquanto o espancavam.

O jovem consegue fugir e pede ajuda para um homem que caminhava em um parque. Então ouve como resposta:

– Eu não ajudo viados.

E com esse depoimento devastador, começamos o documentário triste “Deep Water” que aborda a violência contra os homossexuais. Essa sequência inicial, narrada pelo jovem citado acima, nos dá a possibilidade de sentir repulsa da sociedade. Parece não haver escapatória, em cada canto existe o preconceito, como se estivéssemos afundando em um mar de merda.

Dirigido pela Amanda Blue, esse documentário foi lançado com uma série do mesmo nome e tem como maior mérito a seriedade que o assunto é abordado, sem nunca cair nos fáceis julgamentos, muito pelo contrário, os relatos, as situações e informações são passadas de forma bem verdadeira, chocando o espectador com tamanha crueldade.

Existe a intenção de desvendar um caso, criticar o sistema e desmistificar o descaso da lei na década de 80 – inclusive fica claro que a indiferença parte da despreocupação da sociedade para com os próprios homossexuais -, porém, o mais impactante é acompanhar o desespero da família e amigos.

Que mundo é esse em que existem pessoas que tentam desesperadamente decifrar o que é normal e o que não é?

É repulsivo imaginar que alguém assassina o outro por ser gay, qual o limite para tal atitude impensável? Qual foi o momento em que nos imaginamos como reis da existência e protetores do “correto”? aliás, o que é correto nesse mundo devastado pelo ódio e egoísmo?

A comunidade LGBT fez mais pela sociedade do que muitos de nós, brigando pelo direito de serem ouvidos, gritando a diferença e alertando o mundo que ela existe. Esse movimento salva vidas, protege os jovens que temem se assumir e esbanja coragem. Após assistir o documentário, me sinto feliz que tivemos algum progresso e triste, ao mesmo tempo, por ainda vivermos em um mundo tomado por imbecis.

Seria tão simples se todos respeitássemos o amor, independente do caminho que ele se aplica. Seria tão maravilhoso poder sentir as coisas no seu limite, respeitar e ser respeitado na mesma proporção.

A homossexualidade é tratada como tabu, diversos políticos e pastores opinam sobre e, por incrível que pareça, o jovem que teme fica calado. O homem e mulher que ama, sofre sozinho e ninguém pergunta a sua opinião. Mas o que se esconde atrás da sua máscara… esse tem a oportunidade, esse contribui com a sua parcela inútil de julgamento, esse ajuda na propagação do ódio.

Os homossexuais não são ouvidos pelo poder, porque o próprio povo ignora as suas angústias. Os conservadores observam com atenção, apontam o dedo e deduzem que tudo é “baixaria”. Baixaria é não rever conceitos, não aplicar a empatia todas as manhãs quando acorda e não aceitar que escolha é a coisa mais sagrada que existe nessa vida.

Os jovens assassinaram um jovem, jogando-o em um penhasco. Fizeram sem pensar que mudariam o rumo de uma história, sem imaginar o impacto na vida de uma família, sem acreditar no sofrimento que aquilo provocaria. Fizeram, sem perceber que estamos todos de passagem e que a nossa única obrigação é entender a nossa própria jornada. O homem não consegue viver junto, sem se entender só; não consegue amar, sem compreender as diversas formas de carinho; não consegue acordar, sem compartilhar o espaço; não consegue respirar, sem ter empatia.

Eu precisei me despir de uma série de preconceitos ao longo da minha breve caminhada, mas nunca precisei superar o ódio. Quem acompanha o Cronologia do Acaso, vez ou outra, se depara com ideias e palavras repetidas, mas nenhuma é tão forte e presente quanto “empatia”, “amor” e “respeito”. São três palavras que podem mudar o mundo; três personagens de qualquer história; três vidas.

Como um menino pobre que sou, tento ajudar dentro do meu limite e humildemente escrevo para divulgar essas três palavras através da arte. “Deep Water” nos mostra uma triste história e comove pela sua visceralidade, basta usarmos o seu conteúdo de forma inteligente nas nossas vidas, traduzindo a maldade em esperança.

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Olhos de Ressaca – primeiro curta de Petra Costa

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No final desse lindo filme – o primeiro da diretora Petra Costa – acompanhamos com um sorriso no rosto e algumas lágrimas pedindo licença, os créditos finais. Percebemos que o nome da diretora aparece em vários setores como produção, roteiro e montagem; isso provaria, em outra análise, o quanto é difícil fazer cinema independente no Brasil, restando ao artista abraçar todos os pequenos detalhes da sua obra. Mas após “Olhos de Ressaca” essa afirmação é contraditória; a onipresença por parte da realizadora é quase uma devoção exagerada, uma mãe que abraça a sua arte e, por descuido, a devora.

Petra Costa é uma preciosidade que transita por entre a sensibilidade humana, dialogando direta ou indiretamente com a perda e, na maioria das vezes, consegue achar o brilho na ausência pela sua postura crítica e revoltada diante da normalidade. Ela inverte o normal e agride o tempo, consultando-o como um oráculo mas se desviando constantemente das suas obrigações.

Como documentarista, destaco a sua humanidade que, ligado com a sua visão fotográfica, consegue registrar o eterno de pequenos movimentos; o colorido do preto e branco e a vida da morte. Ela ultrapassa a barreira da vida e cria poesia com a sugestão, faz sorrir com a sua montagem e, por fim, nos relembra da importância do equilíbrio.

Esse documentário percorre a vida de dois seres humanos, casados há 60 anos: Gabriel e Vera. Eles falam como se conheceram, a intensidade, passando pela aceitação até culminar no carinho. Talvez o amor seja esse sentimento profundo de querer bem, simplesmente. Quando o fato de ser casado não atinge mais a obrigação e o “dois” se transforma em “um”.

O título do filme faz referência à um trecho do livro “Dom Casmurro“, onde há uma descrição dos olhos de Capitu como sendo “olhos de ressaca”. Àquele olhar que trás tudo para si, contempla o mundo e o devora. O amor é improvável demais, parte de um desencontro, por isso, é uma sincronia perfeita de ilusões.

Em uma cena, Vera está na piscina e começa a tocar “Valsa para a Lua“, do Vítor Araújo. Exatamente no momento em que ela começa a falar da sua mãe, que falecera. Então é questão de segundos para percebemos que Petra não veio ao mundo por acaso, ela tinha que deixar suas emoções e esperar que outros pudessem entender tanto quanto ela. A brevidade da vida não tira a emoção de viver, mas nos dá humildade para o fazer com calma.

Se alguém apontar o dedo para você e te julgar por conhecer pouco da vida, por ser criança… diga, com todo orgulho do mundo: “eu vi a alma de Petra Costa“.

“olhos de cigana oblíqua e dissimulada.” Eu não sabia o que era obliqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se podiam chamar assim. Capitu deixou-se fitar e examinar. Só me perguntava o que era, se nunca os vira, eu nada achei extraordinário; a cor e a doçura eram minhas conhecidas.”

  • Texto sobre o documentário “Elena”: clique aqui.

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Entre o corpo, a tinta e a alma

O documentário “Pina”, dirigido pelo Wim Wenders, se encontra em um grau alto e desconhecido, onde a arte atinge o seu limite, morre e renasce. Provando mais uma vez que a expressão é a única fuga e esperança para todos os males do mundo, incluindo a perda.

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Desde quando o 3D virou mania nos grandes cinemas, sempre me provocou muita curiosidade. Demorei bastante para assistir um filme em 3D e, quando assisti, foi encanto imediato. Com o passar do tempo o fascínio foi diminuindo até se tornar um aborrecimento. Por ter consciência de que a maioria dos filmes hoje são convertidos para 3D, sem o mínimo de cuidado, apenas para aumentar o preço dos ingressos, a ferramenta – que pretendia levar mais pessoas ao cinema – se tornou apenas mais uma arma de manipulação do grande cinema-produto.

Contudo, assim como em todos os aspectos da arte e da vida, sempre há exceções e pude perceber isso assistindo “Pina”, o documentário onde o maravilhoso Wim Wenders faz uma carta de amor, junto com os bailarinos, à coreógrafa e dançarina alemã Pina Bausch.

Primeiro que é curioso notar a facilidade que o diretor Wim Wenders tem de se reinventar, transitando por entre linguagens diferentes, ele parece sempre manter intacta a habilidade de agredir visualmente o espectador, confrontar e abusar da capacidade de simbiose que o audiovisual pode atingir; isso fica claro desde o primeiro minuto do documentário que se baseia, basicamente, em mostrar algumas das principais coreografias da Pina enquanto os seus bailarinos falam sobre a sua mestre. É preciso ressaltar que, antes mesmo de começar a filmar a obra, Pina Bausch acabou falecendo, mas o diretor fez questão de continuar, claro, de forma diferente, para fazer uma homenagem a altura da grandiosidade de Bausch.

Pina Bausch é o maior expoente de uma expressão chamada dança-teatro. Como o próprio nome já diz, se baseia na interpretação com o auxílio de conceitos básicos da dança, movimentos e música. É de se destacar que a linha que separa a dança do teatro sempre foi muito tênue, no entanto existe alguns pontos cruciais na dança-teatro que são, por exemplo, a representação de um personagem e a linguagem sendo transmitida com uma sintonia entre o movimento e a palavra. A grosso modo, eu diria que essa expressão se aproxima muito da dança contemporânea, se revelando muito visceral e contemplando o humano na sua condição mais selvagem; afinal, todos nós nós somos cabíveis do movimento e da necessidade de expressão, portanto, um sutil balançar das mãos, se planejado e ensaiado, pode ganhar formas e contexto como dança ou teatro.

O que Pina Bausch fez, ao longo da sua história, foi reorganizar o homem diante a essa verdade absoluta e muito contestada: a arte existe para comunicar aquilo que não se mensura. A palavra, que ouvimos por diversas vezes no documentário, é transmitida através de expressões, olhares, a dança e a conexão dos corpos, no entanto, com a realização maravilhosa do filme e a utilização magistral do 3D, o espectador se sente capaz de perfurar essa separação que existe entre o real e a tela, tornamo-nos um só. O corpo é o movimento, a tinta são os bailarinos ( homens ) e a alma é a conexão que existe entre um indivíduo e aquilo que assiste ou sente.

Wim Wenders desconstrói o trabalho da Pina Bausch e se mantém coerente na contemplação da sua genialidade, pois ele mesmo é genial no seu registro. Esse é um dos casos raros que a arte atravessa o tempo e se refaz, ao chegar no fim. Que fim seria esse? Pina deixou algo tão importante para o mundo, ela demonstrou que é possível existir a linguagem em infinitas oscilações, que podemos encontrar o equilíbrio na instabilidade e que para ser livre, é preciso entregar-se ao caos e à loucura.

Uma das maiores sensações do mundo é apresentar em frente à uma platéia, os olhos atenciosos, contemplando a sua presença, percorrendo o seu corpo como se fosse uma exposição, em uma vitrine que se desloca para o coração de vários. O teatro é uma forma de nos sentirmos tocados, mesmo solitários, nos sentirmos leves, mesmo que tensos, nos sentirmos parede, porta, água ou caixão; parte de um todo e nada; a excitação é breve, no mundo real, como uma droga, mas no universo interior aquele que se apresenta se compreende por uma vida inteira.

E quanto a Pina Bausch? Ela continua dançando e se esquecendo…. dançando e se esquecendo… dançando e se esquec… Quem é Pina Bausch? Uma tinta, uma alma, uma professora mas, principalmente, uma mulher.

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O Começo da Vida, 2016

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★★★★★

O que posso escrever sobre um documentário que trata o ser com uma sensibilidade gigantesca, dando atenção a cada pequeno momento particular como se fosse um universo inteiro de possibilidades? Aliás, as crianças do mundo inteiro parecem ter algum tipo de conexão, todas elas, sem exceção, criam com uma facilidade extrema. Um pequeno objeto ou um tecido, tudo vira uma maravilha escondida atrás do comum.

É fácil perceber que essa palavra, “comum”, é uma extensão do grande problema que é crescer e amargurar-se. Não existe o comum e, na verdade, todo processo de criação depende unicamente da entrega ao deleite do simples.

Confesso que a diretora Estela Renner não tinha chamado a minha atenção com o documentário “Muito Além do Peso”, mas devo admitir que a importância da obra é gigantesca, pois o mal da obesidade é realmente um perigo muito próximo. A diretora parece se preocupar com a criança, boa parte do seu trabalho abraça essa questão. Com “O Começo da Vida”, lançado recentemente pela Netflix, ela parece chegar ao auge do amor e carinho, registrando momentos isolados de afeto entre as famílias e das crianças com o mundo que os cercam. Ela se intromete nesse universo dos bebês, das famílias, mas nunca de um jeito negativo. Afinal, ela é criadora, portanto, criança. Não vejo uma outra explicação para tamanha simbiose com as ações.

A fotografia é clara, a luz está muito presente, como se todos ali estivessem em um paraíso. Em um mundo onde a pressa, o trabalho e a preocupação toma conta do homem, surgem pequenas e importantes vírgulas em nossas vidas. Ter um filho é uma delas. Uma adorável demonstração para a vida que somos proprietários de um dom mágico, o de ensinar.

No começo do filme senti falta da diversidade, as casas são sempre muito espaçosas, limpas e bonitas, as crianças envoltas de muita dedicação por parte da família. Mas a diretora foi inteligente em ir desconstruindo essa perfeição em doses homeopáticas. É possível ver depoimento do Brasil, Índia, enfim, algo que funciona para uma reflexão sobre as possibilidades que o governo dá para os cuidados de um novo cidadão. É questão de tempo compararmos a sociedade dos países e perceber, de imediato, o quanto o carinho, dedicação e união de uma família contribui para o desenvolvimento de um ser humano. Que perigo é essa responsabilidade de ser criado e criar, não é mesmo?

“O afeto é a fita isolante das ligações entre os neurônios, uma vez que você tenha essa ligação, vem o afeto e faz com que seja tão forte que nunca será desfeita… Mude o começo e mudará a história toda.”

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The Cave of the Yellow Dog , 2005

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★★★★★

Byambasuren Davaa, cineasta Mongol, teve o seu documentário “Camelos Também Choram” indicado ao Oscar em 2004. Apresentando a partir dai uma sensibilidade sem fim para registrar o cotidiano dos nômades na Mongólia. Mais do que isso, inclusive, a sensação que ela transmite é universal, pois o seu olhar desbrava o homem e sua família como poucos no cinema atualmente.

Parte de algo simples, um conflito quase inexistente, senão, existir. Aliás, qual conflito seria maior que esse? Há um choque de realidade. Estamos cada vez mais afundados em meio ao consumismo, a posse se tornou sinônimo de sucesso e cada dia que passa nos tornamos mais egoístas. Me emociona o fato de existir artistas como Byambasuren Davaa que conseguem nos lembrar da nossa essência simples e orgânica, muito diferente daquela que nos pregam como verdade.

As obras da diretora me fazem revisitar o meu interior, a minha verdade, que se esconde em muitas camadas de mentiras. Mentiras essas fabricadas exclusivamente para afirmar positivamente com a cabeça quando alguém me pergunta: “você está bem?”.

Não, não estou bem. O mundo não está bem. O homem se utiliza de guerras, violência e discriminação para convencer os ignorantes que essa é a postura correta para se proclamar como o dono da verdade. Mas que verdade é essa? Que o Deus dele é maior que o Deus da sua vizinha? Onde se encontra o amor? O que se tornou o lar? Como deixaremos o mundo para as nossas crianças?

Die Hohle des gelben Hundes

“Todos morrem, mas ninguém está morto totalmente”

“The Cave of the Yellow Dog” ou “A Caverna do Cachorro Amarelo” fala sobre tudo isso que mencionei. Sem dizer uma única palavra do que escrevi. Silencioso e contemplativo, talvez essa seja a chave para, assim, encontrarmos uma possibilidade real de catarse.

A estrutura não poderia ser mais linda: a diretora filma uma família de nômades, incluindo um cachorrinho que uma das crianças leva para “casa”, e sua vida simples nas montanhas. Com trabalhos quase que constantes, de modo a construir uma ideia de luta pela sobrevivência. Essa família é real, se trata de não-atores, ou seja, a diretora faz uma espécie de documentário, misturado com ficção para, enfim, observar essas pessoas que fogem de qualquer hipótese de modernidade.

O significado de casa é muito relativo. Ultimamente tenho pensado muito no quanto precisamos nos sentir inabalável. O quanto a nossa casa representa um templo sagrado onde, jamais, poderia ter a segurança rompida.

A nossa profissão, por consequência, é fruto de uma obrigação imposta pela vida. Mas como seria se pudéssemos fazer aquilo que partisse unicamente do impulso, da irresponsabilidade – ou responsabilidade – de, apenas, viver para sentir?

– Estire sua mão, como eu. Agora tente morder a palma de sua mão 
– Não posso.
– Não pode? Tente outra vez. Mesmo que pareça muito perto, esta muito longe para morder. Não pode ter tudo o que vê

Die Hohle des gelben Hundes

Com uma fotografia tão linda e delicada, somos os “outros” que observam com atenção algo que poderia ser bem mais identificável se não fosse pela nossa obrigatoriedade em nos perdemos em meio a prédios e a pressa.

As crianças – duas meninas e um menino – são tratados desde cedo com extrema importância, tendo mais responsabilidade que muitos adultos, aprisionados dentro das tarefas, porém, fazendo dos seus momentos livres uma grande oportunidade de experimentar a natureza. A casa que nunca permanece no mesmo lugar, representa o homem e o seu verdadeiro lar: tudo.

De onde vem essa necessidade de criar raízes? Um vínculo com um pedaço de terra. Somos pobres e cômodos.

Há muito tempo viveu nesta terra uma família muito rica, eles tinham uma linda filha. Um dia a filha adoeceu. Não havia remédio que a ajudasse, então o pai decidiu pedir conselho à um sábio. O sábio disse:

– O seu cachorro amarelo está com raiva. Despache-o!

O pai perguntou:

– Por que? Protege a nós e ao rebanho.

– Isso é o que eu tenho a dizer e o que você precisa saber.

O pai não podia matar o cachorro amarelo mas tinha que fazer algo pelo bem da sua filha. Então escondeu o cachorro em uma caverna onde era impossível escapar. Levava comida para ele diariamente, porém, um dia ele havia ido.

Mas a garota melhorou muito. A razão era: a garota estava apaixonada por um jovem e sem o cachorro o casal poderia se encontrar sem serem incomodados.

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A ideia de ciclo é apresentada de forma sutil, entre os espaços de silêncio, temos diálogos que reforçam o quanto a vida humana é um milagre. Tão milagre quanto um grão de arroz se equilibrar na ponta de uma agulha.

Essa preocupação em se manter leve, as frases soam como ondas do mar, a reflexão se mantém profunda e distante ao mesmo tempo. A caverna do cachorro amarelo somos nós, os alheios a essa condição de vida. Prisioneiros do próprio homem e, por isso, tudo permanece envolta de uma postura e entendimento mecânico: família, trabalho, relações, sentimentos, enfim, tudo apenas é, nada é reflexo das nossas atitudes e, se por uma eventualidade passa a ser, já é tarde demais.

Assim como o ser pode ser considerado um milagre, a arte que ele produz também. A sua complexa busca pela imortalidade se dissipa com a criação. Conhecemos aquilo que estamos olhando, leia-se, sentir. O mundo é muito grande, há muitas situações e muitas condições. O documentário é a salvação daqueles que amam, amam a vida e o fato de que existe faíscas de verdade à todo instante e o instante, em alguns casos, pode se tornar uma eternidade.

“The Cave of the Yellow Dog” pode ser classificado por alguns como “parado”, outros podem afirmar que “não acontece nada”. Mas como sabemos a vida é deliciosa e merece ser degustada com calma, equilíbrio e respeito, tudo acontece na vida e nesse documentário entre os espaços, entre as vírgulas, é um exercício de eco. Gritamos e acreditamos estar sozinhos, enquanto o próprio retorno das nossas vozes nos fazem nos sentirmos menos solitários. Apesar de ser uma simples ilusão, eu prefiro ser iludido do que me deparar dia após dia com a realidade.

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E assim minha casa vai sendo desmontada. Minha arte se tornando tímida. Minha escrita vai diminuindo sua intensidade. O que para alguns é crítica, para outros é simples desabafo. Mas nada importa, senão, se construir.

E, assim, vou indo, esperando sempre pelo inesperado.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Elena – Entre o âmago da arte e a ternura de uma busca vã

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Quem é Elena?

Parte I – O âmago da arte

O homem procura a eternidade até mesmo no último suspiro. Direciona suas crenças para mundos diferentes, melhores ou piores que o nosso, mas, sempre, diferente. Como se o “aqui” não refletisse, totalmente, as suas necessidades, como se o “agora” não bastasse para aliviar o coração.

O que seria o normal? Chegar ao entendimento do que é arte é tão ambíguo quanto compreender o significado da vida. Há diversos espaços, há diversas oportunidades, há diversas ações e histórias, sempre percorrendo a arte ou acrescentando fragmentos de informações à ela. Um ser vivo é parte de um todo e esse todo é parte de um mistério; Simples como desvendar a morte, incrível como acreditar no impossível.

Eu percorri diversos pensamentos sobre a minha pessoa, me consumi na obrigação de me encontrar, acreditei estar sozinho e quanto mais prestava atenção, mais afundava. Acreditar nos meus limites era quase uma imposição do mundo, superar esse obstáculo e me enxergar como um ousado era um trabalho para uma outra vida, um outro encontro e uma outra causa. Até que repensei a arte como um veículo, como um cavalo levando seu cavalheiro à encontro dele mesmo. Eu, que me apresentava como o senhor ninguém, cuja imagem sempre era transmitida de forma borrada, assumia a posição de criador mas, acima de tudo, admitindo, sem nenhum problema, que só conseguia o ser pois um dia eu fora criatura.

A arte é o encontro, entre todas as criaturas e sentimentos que existem dentro de apenas um ser humano, é o movimento das águas, o vento que balança uma árvore, é a sincronia e aceitação do ciclo, da mudança, do tempo. A arte está em tudo e no mesmo tempo não existe, assim como o fim, é uma criação do próprio homem para dar sentido à coisas inexplicáveis.

Quem é Elena? Uma excelente representação, de um centro do mundo. De uma existência única que, para mim e para você, permanece desconhecida, senão, pela arte, pelo olhar. Nunca conheceremos Elena, conhecemos, após assistir o documentário da Petra Costa, o olhar que a diretora tinha (tem) sobre sua irmã. Quando a arte atinge uma simbiose, uma sincronia, uma visceralidade no que diz respeito a fusão de histórias, interesses, sentimentos, dores e ausências. Petra Costa é sua irmã, Elena. A mãe assume, por vezes, a vida de Petra, outra de Elena. Elena é lembrada e, por isso, continua viva. A intenção e necessidade dessas três protagonistas de uma história orgânica, ultrapassa os limites do cinema e atinge o coração de cada espectador que, por algum motivo, em algum momento, conflitou com a melancolia.

A priori toda arte deveria ser consequência do despimento, rompimento, caos e tenuidade. Transformando assim os seus personagens ou objetivo, seja no cinema, música, escultura, desenho etc, em ruídos. Aquela confusão criada a partir de um não entendimento, aquela sensação provinda de um movimento minucioso, aquela provocação por sentir a harmonia partindo de uma busca sem resposta.

Quem é Elena? Elena é um ruído, uma imagem embaçada que se torna crível tanto pelo seu elo com a arte, como pela desmistificação que sua irmã faz através de uma série de narrações em off, dialogando perfeitamente com as imagens de arquivo, ora sem sentido como um balançar de mãos, ora uma dança, mas gritando nas entrelinhas, constantemente, que apenas a dor da ausência é que faz sentido.

Parte II: ternura de uma busca vã

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A busca vã é a falta de capacidade de se esconder diante a verdade. As pessoas tem dificuldade em aceitar a morte e lidar com o luto quando, na verdade, deveríamos todos ter força para utilizar isso como catarse, transformar o desespero em soluções, eternizar a angústia, de forma a trabalhá-la constantemente.

Infelizmente não temos essa capacidade, a ideia de finitude nos consome, existe um mergulho profundo na obscuridade do tempo. Ele, de repente, em um dia chuvoso, sussurra nos nossos ouvidos que falta-nos pouco para concretizar aquilo que realmente queremos. Mas em nenhum momento podemos deixar de viver de forma mecânica para seguir nossos reais interesses, seja por conta da sociedade, necessidade ou status.

Elena encontrou no tempo uma oportunidade. Queria ser atriz e procurou se especializar aos olhos da sociedade – até porque “ser atriz” é intrínseco a ela – a bebê que dançava de forma desengonçada dá lugar a uma atriz entregue de corpo e alma, do tipo que não se contenta ser apenas uma, mas todas as suas personagens.

Em 1990, quando Elena se suicidou, o governo havia acabado de interromper a produção de cinema no país. Ela era já muito conhecida nos palcos, mas queria cinema e, portanto, procura refúgio em Nova York, quase como um exílio que também pode ser traduzido como uma espera por algo grande. O fracasso, mesmo em meio a empolgação, traz consigo a perigosa tristeza. A arte entra em conflito com a obsessão da incapacidade, o caos e o ruído não dialogam tão perfeitamente como antes e, assim, a linha tênue entre o suicídio e o equilíbrio, tão presente na vida de um artista, é desfeita.

Elena ingere aspirina com cachaça e morre. Suicídio. Quem é Elena? Um ser humano que buscava o que não se encontra, um segredo, um vácuo que jamais poderia ser preenchido. Uma decisão desperdiçada. Em sua autópsia consta a informação de que o seu coração pesa 300 gramas, mas, metaforicamente, o espectador sabe que pesa muito, muito mais do que isso. Afinal, não existe espaço para estatísticas em obras de arte, elas são imensuráveis.

“O vazio, mesmo quando cheio é pesado demais. O vácuo também preenche, também esgota”

Parte III: O documentário

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A diretora, Petra Costa, afirmou em algumas entrevistas que começou a desenvolver o conceito do documentário após se deparar com o diário de sua irmã. Em um devaneio Petra percebeu que tinha a mesma idade de Elena e, por um instante, parecia que o que estava lendo foi escrito por ela própria. A angústia misturada com a empolgação e o vazio, aos poucos, iam se tornando mais identificáveis.

Petra pode se classificar como afortunada, pois encontrou diversos registros – em áudio e vídeo – da irmã na garagem de sua casa. Através dessas imagens o documentário se desenvolve mesclando as perspectivas, Petra e a sua mãe falam sobre Elena com total conhecimento e, no mesmo tempo, desconhecimento.

Em uma verdadeira contemplação, importante ressaltar que em nenhum momento beira o superficial, uma das primeiras narrações de Petra faz jus a expectativa da família sobre a sua pessoa: “você pode ir para qualquer lugar do mundo, menos Nova York e escolher qualquer profissão, menos ser atriz”. Enfim, Petra vai para Nova York estudar teatro, quase como se quisesse desabafar a ânsia da contradição, como se visse em si a oportunidade de uma nova chance da irmã.

O filme pode ser considerado, por insensíveis, como algo muito particular, egocêntrico ou até mesmo egoísta, ledo engano, na minha opinião se trata de uma experiência universal. Fazendo jus ao sentimento de perda, em qualquer âmbito, de desencontro e de aceitação.

O jovem se afunda facilmente na melancolia, está diante a uma série de decisões que mudaram para sempre o seu destino. Esse momento é conhecido como “período potencialmente crítico”, sendo superado facilmente com o respaldo da família, porém, isso dificilmente acontece; Primeiro porque o próprio jovem se isola; Segundo porque a família muitas vezes trata com desdém os problemas de um “adolescente”.

Aliás, o ser humano é assim, trata de forma indiferente ou inferior os problemas pelo qual ele não está passando. O problema é que a tristeza que conhecemos é apenas a nossa, podemos até tentar nos colocar no lugar de alguém mas, no final, sempre chegaremos as nossas próprias ansiedades.

Petra Costa é corajosa em se expor, no mesmo tempo que o seu trabalho é envolto de uma intenção desmedida: alcançar a comunicação com alguém que já se fora. Curioso é certificar que isso se realiza, através da própria arte. O filme é um elo entre mundos.

Elena foi homenageada, foi resgatada para o agora. Trazida com carinho pela irmã e moldada através das imagens e registro. Elena não gostava da própria letra, por isso “escrevia” cartas com a voz, se certificando de compartilhar suas experiências e novidades. Petra, Elena e a mãe são a mesma pessoa; Ligadas pelo conflito, pelo desejo de morrer, pela tristeza. No mesmo tempo que Petra procura sua irmã, se depara com a verdade de que ela mora em todos os lugares, uma chuva se torna o seu choro, o vento se torna um movimento, os pássaros a sua risada.

Petra, hoje, está mais velha que a sua irmã. Mas como escrevi acima, na arte nada se calcula, não existe idade. Existe verdade. A verdade da Elena é que ela se “sente mais a vontade e natural em frente a uma câmera”. A verdade sobre Petra é que sua sensibilidade é monstruosa e apaixonante. A verdade sobre mim: sou mais um, mas, nem por isso, comum.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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