Dois curtas para conhecer a diretora Caroline Fioratti

Olhando da esquerda para a direita, a diretora Caroline Fioratti é a penúltima. Está ao lado do elenco de “Meus 15 Anos”.

Roteirista e diretora, Caroline Fioratti acredita no poder de uma história bem contada. Com diversos cursos e laboratórios de dramaturgia no currículo, Caroline se especializou em criar universos e personagens. Sua matéria prima são os conflitos humanos e suas ferramentas as técnicas narrativas e cinematográficas. A cada projeto, uma nova história esculpida com som e fúria. (Site)

Tive a oportunidade de ver, no Projeta Brasil de 2017, o filme “Meus 15 Anos”, apesar de ser nítido o fato de que não pertenço ao seu público, o achei bem mediano, apesar de clichê. Tem ao menos uma mensagem (repetiviva) importante para os pré-adolescentes. Mas esse artigo não é para falar sobre esse filme, mas sim da diretora.

Evidentemente Caroline Fioratti alcançou o maior sucesso da sua carreira ao lado da estrela Larissa Manoela, no entanto poucos conhecem os seus belíssimos curtas-metragens, a maioria voltada para o humano, família, sentimento, entre outras coisas.

A diretora tem uma conta no Vimeo e hospeda alguns trabalhos lá, portanto os dois curtas que recomendarei aqui poderão ser assistido nos links, prestigie o trabalho da diretora!

Formigas, 2009

Primeiro curta da diretora, que também assume o roteiro. A história não podia ser mais delicada ao apresentar uma família de imigrantes japoneses após a Segunda Guerra Mundial que se vê em constante alerta. A metáfora mora no fato de que as duas filhas, auge da criatividade infantil e inocência, acreditam que quem está ameaçando seu pai são as formigas.

Com uma leveza sem tamanho, apesar de demonstrar uma aflição, essa quebra com a pureza transborda sentimentos de profunda empatia pelos personagens. A linguagem se aproxima bastante, inclusive, dos filmes japoneses, onde a atenção maior são nos personagens e pequenos movimentos fazem toda a diferença no trabalho de contemplação do silêncio.

Assista ao filme clicando aqui

A Grande Viagem, 2011

Também dirigido e roteirizado pela Caroline, esse sem dúvida é o seu mais famoso curta e ainda mais delicado. Ao lidar com memórias e ansiedade em busca de um tempo passado, o qual, sem dúvidas, reflete a decisão de um personagem específico.

Lançado em diversos festivais, incluindo a Mostra de São Paulo, fica nítido o talento da diretora na sensibilidade do trato das relações humanas. A magia acontece de forma contida, inerente à disposição, um embarque na loucura do faz de conta.

O avô se perde em sua própria mente, vende sonhos e lugares, transitando na ilusão do tempo e buscando no neto o conforto do momento agora. Desde as mãos que seguram um aviãozinho de brinquedo, enquanto surge o título, passando pelas transições de lugares que exalam essa super imaginação, esse filme é realmente mágico na sua simplicidade.

Assista ao filme clicando aqui

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Garotas, 2014

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★★★★

Lembro que quando assisti “Lírios D’Água”, de 2007, fiquei bem indiferente. Não achei bom ou ruim, simplesmente muito parecido com o clássico e dono de um lugar especial no meu coração chamado “Amigas de Colégio” do Lukas Moodysson e, portanto, vi com uma postura ignorantemente distante.

Alguns anos depois eu me deparei com um filme chamado “Tomboy”, de 2011. Procurei o diretor e me surpreendi comigo mesmo, como não dei atenção para a grande Céline Sciamma?
Esse carinho todo, essa carta de amor ao jovem me conquistou de vez, eu simplesmente me tornei fã do trabalho dessa moça que, brilhantemente, investiga a situação da inocência e, por consequência, descoberta.

“Garotas” lançado em 2014, mas com estréia no Brasil em 2015, é diferente dos outros trabalhos da curta carreira, até então, da querida Sciamma. Como já é de se imaginar, extremamente maduro em comparação ao primeiro citado, “Lírios D’Água”.

Conta a história de uma menina chamada Marieme, de 16 anos, negra, sua vida é cercada de regras, o medo está sempre presente, assim como a repreensão. É claro desde o começo que ela precisa seguir um padrão de comportamento, como se estivesse em uma gaiola o tempo todo. A sua vivência nas ruas é a – e tão somente – observação, onde constata, inclusive, que vive em um mundo onde os meninos ditam as regras. Ela conhece algumas garotas, se enturma, se encontra, se descobre. Então o filme parte para uma investigação sobre essa nova necessidade: adaptação aos códigos da rua e violência.

A diretora explora a incomunicabilidade da criança, principalmente quando relacionado ao processo de entender a si mesmo, com essa proposta ela joga na cara que esteremos sempre sozinhos nessa situação. Evidentemente, nos dois primeiros filmes ela usa a sexualidade para a proposta principal, já em “Garotas” existem outros aspectos importantes, demonstrando grande flexibilidade por parte da diretora, na própria direção, com decisões interessantes, enquadramentos, nuances, como no roteiro, visto que a própria também assume essa função.

A cor azul, assim como em “A Gangue“, também de 2015, está muito presente, por exemplo no vestido “novo” da protagonista, o seu quarto, enfim, remetendo-nos diretamente tanto a melancolia vivida por ela como a sua personalidade calma, que prefere contemplar as diversas situações em que é exposta ao longo dos 112 minutos de filme.

É a primeira vez que a Céline Sciamma trabalha com protagonistas negros, já se cria uma inevitável – infelizmente – distancia com o mundo, pois é notável que Marieme se sente diminuta em todos os aspectos, inclusive o racial. Aliás, a atriz estreante e lindíssima Karidja Touré faz aqui um trabalho muito bom, seguro e que encaixa perfeitamente na trama.

Duas palavras chaves para desvendar esse filme são “atitude” e “desprendimento”, a amizade também é abordado com maestria, pois surge com uma celeridade incrível, e permanece até um ponto crucial de mudança na personagem, mesmo que as influências tenham sido devastadoras para compor o seu olhar.

Em dado momento, a garota para e pensa o rumo que a sua decisão a levará. Decisão essa de se desamarrar, “o importante não é necessariamente ser livre, mas se sentir livre”, inclusive uma cena que demonstra isso com perfeição é quando sua amiga pede para repetir a frase “faço o que quero”, duas vezes. No mesmo tempo que é inspirador uma menina enfrentando o seu próprio medo, nunca temos uma esperança, parece que ela está fadada ao fracasso.

É justamente por esse fator que ela questiona, primeiramente, as amizades. Mas de uma forma hiper realista, bem diferente do início, a fragilidade dá lugar a um coração cansado de se iludir. A mesma afirma o que estava claro o tempo todo ““vocês não estão indo à lugar nenhum”, e existe alguém, nesse mundo, que está indo para algum lugar?

Essas reflexões, como mencionado, são todas moldadas com muita preocupação e maturidade, uma realização muito especial. A cena que as garotas cantam a música “Diamonds” da Rihanna é fantástica. Lembrando que a Rihanna é inspiração para muita gente, no mundo inteiro, que vê na cantora uma negra que conquistou um sucesso e reputação, mediante a força de vontade.

Brilhe intensamente como um diamante
Encontre a luz no belo mar
Eu escolho ser feliz
Você e eu, você e eu
Nós somos como os diamantes no céu

Você é uma estrela cadente, eu vejo
Uma visão de êxtase
Quando você me segura, sinto-me viva
Nós somos como os diamantes no céu
Eu logo soube que nos tornaríamos um só

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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