Shelley, 2016

Shelley 2016

★★★★

Shelley tem tudo para provocar o espectador, cria um clima soturno desde a primeira cena, a tensão se estende para os olhares, pequenos movimentos, enfim, o clima adentra o espaço da dúvida e a trilha ajuda a alimentar esse contexto sombrio.

Há muita comparação desse filme com o clássico “O Bebê de Rosemary”, de 1968, a influência é óbvia, no entanto nunca se desenvolve da mesma maneira. Aliás, é importante que aja filmes que estão dispostos a seguir o caminho dos clássicos psicológicos, é preciso abordagens diferentes, visto que o cinema de terror é inundado de clichê e sustos gratuitos.

“Shelley” é um filme dinamarquês, dirigido pelo estreante em longas Ali Abbasi – maravilha esses novos diretores do gênero que vêm surgindo ultimamente, todos extremamente corajosos e dispostos a quebrar as regras – e tem como história principal um casal, Louise e Kasper, que desejam ter um filho mas, mesmo com várias tentativas, não conseguem. Eles vivem em uma mansão isolada, aparentemente normal, e com a chegada de uma nova empregada chamada Elena, eles começam a ter uma relação de extrema confiança por conta da sua bondade e sinceridade, passando a vê-la como uma oportunidade de carregar o filho que eles tanto desejam.

O ritmo lento e contemplativo, unido com a trilha ameaçadora, lembra muito o outro ótimo filme lançado esse ano chamado “A Bruxa”; além do mais, outros dois pontos se assemelham bastante: a famosa divergências de opiniões daqueles que assistem e, por se tratar de uma obra diferente, creditam isso à uma pretensão por parte do realizador; E o papel de extrema importância da mulher. É evidente que o mistério se desenrola através da gravidez, algo extremamente sensível e de uma conexão extrema, e por isso é possível observar uma atenção especial para as personagens Louise ( Ellen Dorrit Petersen ) e Elena ( Cosmina Stratan ).

Ellen Dorrit Petersen, com sua presença eletrizante, dá a sua personagem uma frieza impressionante, com a expressão sempre serene, distante, parece se importar pouco com a sua empregada – que aqui mais parece um veículo – e o motivo constantemente parece nebuloso. Petersen já havia demonstrado os seus talentos no ótimo “Blind” que, no final de 2014, o coloquei na minha lista dos melhores do ano.

Quanto a Cosmina Stratan, com sua beleza angelical e a progressiva transformação, representa o espectador com todas as dúvidas sobre os acontecimentos, é assustadoramente impactante a transição da doçura, no começo do longa, e a raiva/obsessão do final.

“Shelley” promete e cumpre. É difícil se destacar em um cinema repleto de julgamentos, por isso é louvável a atitude do diretor em desenvolver uma obra que abraça alguns elementos já conhecidos, mas subverte com o silêncio e a incomunicabilidade, chocando pela diferença da narrativa, ambientação e performance das atrizes principais.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Qivitoq, 1956

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★★★

Há diversos pontos interessantes para comentar sobre esse filme, como o fato de ter sido indicado ao Oscar de filme estrangeiro – o primeiro dinamarquês a conseguir tal feito – e selecionado para Cannes. É de se surpreender, na verdade, quando percebemos que “Qivitoq” funciona como uma espécie de cartão postal da ilha Groenlândia, a maior que existe. A sua paisagem, cercada por gelo, traz a ideia de isolamento do povo, uma cidade paralela, um mundo diferente, onde a personagem principal, junto com quem assiste, será convidada a conhecer.

Conta a história da Eva Nygaard, uma moça dinamarquesa que vai até Groenlândia afim de encontrar o seu noivo, um doutor que está prestando trabalhos na ilha. Mas ela é surpreendida pelo fato do mesmo ter uma outra mulher, inclusive é uma enfermeira. Eva fica desolada e é amparada por alguns moradores da Groenlândia. Esperando até que o próximo barco venha e, assim, voltar para a casa, Eva decide esperar em uma pequena vila de pescadores, muito simples e aconchegante, ela ficará hospedada na casa do solitário Jens, um homem que funciona como uma espécie de prefeito/trabalhador da vila, visto que ele dá ordens, ajuda os outros, enfim, é extremamente atarefado e importante.

Jens é uma pessoa que aprendeu a viver por outras pessoas, no mesmo tempo está acostumado a viver só, tendo companhia apenas da sua empregada, a qual ele sempre maltrata. Com a chegada da Eva, inicialmente, ele age de uma maneira rude, o que cria diversos desentendimentos, porém esse tratamento indelicado parece funcionar para a personagem, que acabou de perder o noivo e está inteiramente magoada, a visão realista e fria de Jens a ajuda a superar a tristeza. Os dois vão, aos poucos, abrandando os corações, se conectando. Eva tem que decidir se assume essa vida simples ou se volta para a antiga vida.

A solução para desenvolver esses pequenos conflitos é usar elementos da própria paisagem, como citei acima, o gelo representa a postura do personagem que, até então, permanecia frio diante as várias sensações que deixou para, enfim, se juntar a vila. Além do mais, Groenlândia é de uma beleza única, impossível não ficar com vontade de visitar, parece um paraíso perdido, rodeado por águas e, assim, unindo as pessoas de uma maneira extraordinária, o que resulta em diversas estranhezas a personagem principal, que veio de uma cidade grande, um mundo completamente diferente.

A vida de pescador, simples, de trabalho quase que infinito, ilustra a importante situação econômica da ilha, tendo como Jens uma grande chave para lidar com os problemas. Diante a diversas pessoas inocentes, ele se mostra apto a resolver qualquer problema, sendo uma espécie de sistema para aquele local e também um porto seguro, um amigo. A figura selvagem vai se desconstruindo aos poucos, de forma a exibir um coração muito bonito e dedicado. A figura do ator Poul Reichhardt só exalta uma beleza natural, desenvolvendo com propriedade o seu papel, vale dizer o mesmo da Astrid Villaume que, mesmo sem ter uma cena extremamente impactante, é talentosa, apesar de alguns pequenos exageros.

Qivitoq, o nome do filme, faz referencia a um fantasma que o povo acredita existir entre as geleiras, existe essa lenda entre eles, o qual funciona para uma metáfora interessante para os dois personagens em questão, em uma das descrições da criatura sobrenatural é dito que “ele aparece à noite como um fantasma, provavelmente só quer comida. Há superstições demais”, Eva então pergunta curiosa:

O que é um Qivitoq?

Jens responde – Significa o andarilho da montanha. Quando um groelândes está encarando uma grande tristeza ou é desonrado, ele pode sair pelas montanhas para sempre.

Eva conclui, devaneando em voz alta “é uma forma de suicídio”. Esse filme em questão não é uma obra máxima da profundidade, inclusive ele se torna bem falho em diversos detalhes, mas em suma é uma oportunidade interessante para conhecer uma cultura bem diferente, a qual eu nem sabia que existia, e ainda se deparar com singelas reflexões sobre os efeitos que a solidão causa no homem, assim como a desilusão de um fim de relacionamento te deixa frágil e, no mesmo tempo, apto a novas experiências. Sem dúvida, um clássico perdido que merece mais atenção.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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