A Corrupção, 1963

A Corrupção ( La corruzione, Itália, 1963 ) Direção: Mauro Bolognini

Dois lados. “A Corrupção” conversa sobre os conflitos de dois lados, extremos em suas necessidades, mas distantes no que diz respeito à manipulação. Dirigido pelo excelente Mauro Bolognini, conta a história de um jovem chamado Stefano Mattoli que, depois de terminar a escola, se vê desesperado porque terá que ocupar um lugar de destaque na empresa do seu pai. Em contraste com essa infeliz realidade, ele deseja virar padre. O seu pai não aceita e o convida para uma viagem em um barco, chama também a linda Adriana (Rosanna Schiaffino) para seduzir o seu filho, de modo a colocá-lo contra suas próprias convicções.

O longa começa na sala de aula, um local que exerce grande influência sobre a vida de qualquer jovem. O professor afirma, sem pestanejar, que só existem dois lados no mundo adulto, o dos capitalistas e marxistas e ainda acrescenta aos alunos que, dada as suas condições financeiras, todos já sabem a qual lado pertencem. É de uma mediocridade esse comentário, que fica evidente inclusive no estilo de filmagem, algo frontal, cadeiras alinhadas e direcionadas.

É tanta ordem que o protagonista, Stefano Mattoli – interpretado pelo ótimo Jacques Perrin – decide ser padre. Recusando o dinheiro que lhe é comum e também a política, acusa o seu pai de arrogância, mas não os ricos. O filme é interessante pois em nenhum momento expande as questões para outras histórias, o problema aqui é Stefano, portanto existe um respeito no que diz respeito a analise crua sobre um menino tendo que lidar com o seu seguro futuro e todas as limitações que essa vida traz.

Algumas decisões sutis do diretor são tão charmosas que deixam o ambiente mais aprazível, encurtando os caminhos e sendo direto nas propostas filosóficas ao, por exemplo, filmar uma missa sob os olhares de Stefano e, mais ousado ainda, é fazê-lo em plongée – ou seja, é como se estivesse jogando com o futuro, desesperado tentando encontrar uma maneira de fugir de um destino cansativo. Não à toa as pessoas na igreja vestem preto ou branco, quase como um jogo de xadrez.

Tudo aqui será trabalhado entre dois caminhos. O pai é antagonista e egoísta, privando o sonho do seu filho. No mesmo tempo que, em um primeiro momento, sua preocupação e insegurança são altamente compreendidas. O pai ainda sente que é necessário passar todas as mensagens em pequenos avisos sobre a vida para o seu filho de modo que relacione com a sua própria experiência profissional, por isso frases como “nessa vida uns mandam e outros obedecem” são importantes para demonstrar a visão rudimentar do personagem.

A aparição de Adriana na trama funciona como uma quebra dessa dança entre opostos. Ela se apresenta no meio de dois extremos. Rosanna Schiaffino é excelente na interpretação forte que dificilmente passa despercebida tamanho carisma, simpatia e beleza. É a personagem que também reflete o desejo e indecisão do jovem protagonista, de modo a jogá-lo contra sua própria fé e esperança. Inclusive é citado algo sobre o pecado original, bem oportuno.

Um ser instruído a viver e não pensar. Alguém que conquistou tudo assim que nasceu mas se sente incomodado com tamanha facilidade e com vergonha pela corrupção que envolve essa conquista. O pai é feito de fatos e o filho é feito de reflexões existenciais, duas dimensões diferentes e que, por ironia, dependem uma da outra.

“A ciência matará a poesia”.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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CdA #58 – Lolita: Entre o amor doentio e a obsessão

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“Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo. Li. Ta.”

O livro “Lolita” escrito por Vladimir Nabokov é um dos mais polêmicos da história. Aborda um relacionamento proibido e doente entre um professor e uma menina de 12 anos. Contudo, apesar do tema, existem milhares de pessoas que ainda enxergam a história como uma linda obra de amor. Nesse episódio do [Cronologia do Acaso] Emerson Teixeira e Tiago Messias conversam sobre as duas adaptações cinematográficas de “Lolita” e tentam entender as qualidades e erros desse amor pedófilo e incestuoso.

Edição feita por Tiago Messias do https://altverso.wordpress.com/

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O Estranho Que Nós Amamos, 1971

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★★★★★

Don Siegel fez grandes filmes ao longo de sua carreira, dando uma atenção especial para o desenvolvimento dos personagens que, inseridos no contexto da ação, apresentavam bem mais do que fugas, tiros e atos heroicos.

Já gravamos podcast sobre um filme dele: O Último Pistoleiro ( Clique aqui )

Afirmo sem receio algum que o maior deles e o fiel representante da qualidade do diretor é “O Estranho Que Nós Amamos”, de 1971, uma verdadeira preciosidade esquecida pelo tempo e que conquista diversos fãs pelo mundo por unir e desenvolver temas como obsessão, mulher, opressão e, principalmente, desejo.

O filme se passa no final da Guerra de Secessão, onde claramente os Estados Unidos se dividiam em interesses e eles, por sua vez, ditariam a sequência da história no país. Portanto, todas as pessoas viviam em um conflito de decisões por simplesmente estarem vivendo um momento onde a escravidão seria repensada, a postura econômica, enfim, diversos elementos que levariam o país à diversas mudanças.

Nesse conflito John McBurney ( Clint Eastwood ) se fere e alunas de uma escola para mulheres o acolhem afim de tratar seus ferimentos e, posteriormente, entregá-lo as autoridades – John McBurney defende o Norte enquanto as mulheres são do Sul, ou seja, inimigos e contrários nos ideais – o que acontece é que a figura masculina de John mexe com diversas meninas na escola, inclusive a professora e diretora. Essa opressão faz com que o conflito da guerra civil se estenda para a escola, as próprias alunas e o homem desconhecido passam a agir como seres irracionais, movidos apenas por sentimentos mais insanos como desejo e vingança.

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O filme começa com uns desenhos referente à guerra civil americana e, em seguida, temos uma aluna – a menor delas – caminhando por entre um bosque, ela se depara então com McBurney. A referência parece ser inevitável, a inocência sendo apresentada e, como consequência, quebrada após ver um homem a beira da morte, algo simbólico, como chapeuzinho vermelho encontrando o lobo mau. Existe o sentido de proteção sendo despertado na menina, no mesmo tempo que a sensualidade começa a ser desenvolvida, pois minutos depois os dois se beijam – uma cena altamente polêmica, inclusive, mas que simbolicamente afasta os personagens de suas respectivas classificações: passa a não existir mais criança, diretora, soldado, professora ou alunas e sim “homem” e “mulheres”.

Importante ressaltar a fotografia belíssima que engrandece a obra de uma forma crucial, assim como as atuações de Clint Eastwood e da diva Geraldine Page. O primeiro estava no seu auge físico e profissional, sendo confundido por diversas vezes com o seu famoso pistoleiro sem nome, o ator era sinônimo de homem forte e duro, sendo imprescindível aqui como um sujeito que atrai diversas mulheres pela sua “força” e mistério. No mesmo tempo, Clint transita perfeitamente pelo conquistador e desesperado diante as situações grotescas que é obrigado a passar.

Já Geraldine Page, atriz ganhadora de Oscar, está maravilhosa outra vez, moldando uma personagem complexa, repleta de segredos e manipuladora ao extremo.

A mulher é tão presente nesse filme que é impossível não se encantar com a abordagens das moças que, vivendo uma vida cheia de proibições, enxergam no desconhecido uma forma de fugir das expectativas, quebrando a barreira do bom comportamento – aula que são submetidas com frequência -, parece que todas são prisioneiras do local e da diretora, assim como John se torna um também. Não a toa o simbolismo do corvo por entre as grades, preso e, no final, o mesmo corvo se encontra morto, como se representasse as sensações vividas pelos personagens, cujas expectativas vão se desmoronando conforme o desenrolar da história.

Até mesmo uma menina pequena, a mais nova das alunas e que abre o filme, se envolve emocionalmente com o homem desconhecido, no mesmo tempo que descobre a sexualidade de um jeito decepcionante. Existe uma proposta em se discutir psicologia e essa coragem em se desenvolver lentamente é absolutamente oportuna, pois leva o espectador ao limite da tensão, mesmo que as cenas sejam bem minimalistas.

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A direção de arte é sublime, a época é resgatada de forma crucial, assim como alguns detalhes como o quadro de Jesus na parede que, em dado momento, se confunde com o corpo de John, mas uma prova que todos os personagens são simplificações da discussão sobre o homem e mulher e o inevitável desejo que existe em ambos. Outro ponto para ressaltar a preocupação com os detalhes: depois que as alunas, professora e diretora coloca John na cama, o cobrem com um manto vermelho, cor que simboliza a paixão, proibido e sexualidade de forma geral.

A sutilidade do filme é tamanha que, de um drama com fragmentos eróticos – de forma subliminar – se transforma em um suspense, onde alguns sentimentos vão se transformando em necessidade de vingança e a obsessão se revela de forma curiosa. A conclusão é maravilhosa e faz jus a grandiosidade desse clássico que, com muita categoria, tem presença cativa na seleção dos melhores filmes da história.

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