Invocação do Mal, 2013

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★★★★

Colocar o diretor James Wan como um dos grandes nomes do gênero terror atual é recorrente. Ele parece ter entrado para o cinema com uma fonte inesgotável de ideias, reuniu diversos clichês e seguiu uma linha de trabalho onde consegue abusar de todos os elementos já vistos no cinema, mas ainda assim consegue extrair algo novo, de fato ele é um verdadeiro oportunista, conseguiu construir uma fórmula para provocar o medo e o faz com tamanha naturalidade que nem ao menos parece um truque.

A sua maior força está na maturidade e direcionamento, Wan sabe lidar maravilhosamente bem com a sugestão. Em um das principais cenas de “Invocação do Mal”, uma das irmãs olha assustada para a porta do seu quarto, no escuro, a menina afirma que tem alguém olhando para ela, mas o espectador, assim como uma personagem que está no quarto, não vê absolutamente nada. Existe, nessa cena, o ápice da sugestão, o diretor parece sorrir e gozar do seu artifício e a forma que utiliza com maestria. Isso não é inédito no cinema, mas por incrível que pareça o gênero terror parece que se esqueceu, com o tempo, que mostrar os monstros toda hora nem sempre é a melhor maneira de provocar a tensão.

É só pensar em filmes como “O Bebê de Rosemary”, dirigido por Roman Polanski e “O Exorcista” do William Friedkin, os realizadores tem em comum a inteligência em mostrar pouco e, quando o faz, é em doses extremamente inteligentes. Existe um equilíbrio, pois o ser humano precisa disso. Em um quarto escuro pode existir qualquer coisa, até que se acenda a luz.

“Invocação do Mal” foi baseado em uma das histórias do casal Ed e Lorraine Warren que são investigadores de casos paranormais. Nessa história, em específico, um casal (Ron Livinston e Lili Taylor) se muda para uma casa antiga e grande com as suas cinco filhas. Pequenos eventos vão acontecendo, até que chega um momento onde todos definitivamente acreditam que algo sobrenatural está acontecendo, eles então recorrem à ajuda dos Warren.

Logo no início do filme somos apresentados à Ed e Lorraine Warren, eles estão dando uma palestra que inclui uma história sobre a boneca Annabelle – mais um evento verdadeiro e que, através do filme, atingiu um patamar muito grande de popularidade, tendo sido feito, inclusive, um filme somente sobre ela – e com a ajuda da trilha sonora, é um excelente convite ao espectador.

A partir daí temos a apresentação comum da casa antiga e enorme, um casal feliz com a mudança e crianças brincando e pulando sobre as mudanças. O incrível é a forma que é conduzido, os eventos acontecem rápido, mas são bem orquestrados, é mostrado o suficiente para provocar o medo mas não o bastante para enjoar. Existe um poder grande de utilizar algumas atitudes cotidianas, por exemplo as brincadeiras das meninas, como forma de demonstrar o quão fragilizados se encontram os personagens, assim como o fato de ter muitas meninas também soa interessante, pois quando começa a acontecer os eventos sobrenaturais cada uma sente de uma forma diferente, uma é sonâmbula, a outra é puxada pelo pé constantemente, a menor brinca com uma caixinha cujo espelho reflete um espírito, enfim, é uma forma eficaz de exigir uma atenção maior em quem assiste.

Fotograficamente o filme é muito poderoso, ambienta-nos no estranho e com a ajuda da trilha sonora agressiva, nos conduz ainda mais em direção ao medo. Se a sugestão até a metade do filme foi trabalhado exaustivamente, do segundo para o terceiro ato não se pode dizer o mesmo. Visivelmente a inserção de piadas e os aparelhos eletrônicos para a captação de fantasmas tiram um pouco o foco do realismo, o clima sombrio passa a ser colorido e perde temporariamente a força, – apesar que é normal, pois seria impossível sustentar uma hora e cinquenta minutos de sustos – recuperando somente nos minutos finais.

“Invocação do Mal” chegou aos cinemas para assustar e, apesar de não figurar na lista dos “melhores filmes de terror de todos os tempos” – algo que nunca pretendeu, inclusive – consegue se sair muito bem e faz jus a sua proposta. Agora é esperar pelas continuações para vermos quais outras aventuras Ed e Lorraine Warren se meteram na vida.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Entendendo o filme “A Bruxa” – Por entre o satanismo, ignorância e desprendimento

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Esse texto não se trata de uma análise crítica sobre “A Bruxa”, mas sim de uma investigação dos detalhes de modo a relacioná-los com a história da igreja católica, bíblia, filosofia e satanismo. Ainda por cima, visa auxiliar aqueles que tiveram e ainda têm dificuldades para compreender o filme. Afinal, o melhor da arte é estar disposto a discutir as inúmeras leituras e interpretações que podem ser feitas.
Se você, caro leitor, se sente ofendido quando o assunto é religião, talvez prefira a crítica do filme, escrita poucos minutos após a sessão. Clique aqui.

Eu ainda me espanto com a quantidade de pessoas que detestaram o filme “A Bruxa”. Na verdade, o meu espanto parte das justificativas que são dadas para a banalização da obra. Muitos afirmaram se tratar de um “filme que não quer dizer nada“, que “não chega a lugar nenhum” ou até mesmo escreveram diretamente que tinham dúvidas se era realmente um filme(?). 

Acho completamente compreensível que o filme não tenha agradado à todos, isso se deve ao fato da pretensão. Em nenhum momento o diretor pretendia ser aceito e entendido por todos, sabia exatamente a grandiosidade dessa ousadia. Sim, existe a perspectiva daqueles que acompanham exclusivamente as propagandas e, realmente, foram muito mal na venda do filme como mais um de sustos. Porém, ficou sempre muito claro aos olhos treinados que a obra em questão se utilizaria do terror mas nunca se tornaria escravo do próprio gênero.

O que realmente é estranho são grandes sites e seus respectivos “formadores de opiniões” divulgando ódio para com “A Bruxa”. Com argumentos tão infantis que beiram o inacreditável. Então esse texto é, ao mesmo tempo, um estudo particular e um convite a todos que não entenderam o filme e que estão dispostos a tentar. Abordarei alguns pontos que, pessoalmente, considero fundamentais para a compreensão de alguns dos inúmeros símbolos que o filme aborda subliminarmente, principalmente os relacionados à opressão religiosa e algumas linhas de pensamento que priorizam a liberdade do homem, como o satanismo. Mas estou, enquanto escrevo, livre de qualquer preconceito e espero ansiosamente que você, caro leitor, faça o mesmo. 

Parte 1 – Qual o motivo da incompreensão?

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É justo que eu deixe claro, antes de mais nada, que todas as informações inseridas nesse texto servirão para acrescentar na compreensão dos símbolos do filme. Mas isso não quer dizer que é preciso saber todas e mais algumas para entender. Quando eu fui assistir o filme no cinema, as pessoas vaiavam e faziam piadas, esse desrespeito só pode partir da ignorância. Não existe outra explicação.

Veja bem, ignorância não é ser burro. Parte de um não conhecimento sobre determinada área, portanto, absolutamente comum. É comum não entender, o problema é quando você age com preconceito e/ou se acomoda na posição de não saber e propaga isso como algo legal.

A expectativa é a maior vilã da experiência cinematográfica. Por isso, indico para todos parar de ver trailer, ler sinopse, enfim, qualquer coisa que faça com que você crie expectativas sobre determinada obra. Temos que aprender a encarar o cinema como arte e não como uma prostituta, onde nós pagamos e esperamos que tudo esteja dentro daquilo que acreditamos/esperamos. O nosso “acreditar” depende exclusivamente do senso de humor e o nosso senso de humor costuma mudar bastante. Então encare o cinema como uma linda e profunda oportunidade de aprender, nem que para isso precise ler mais, conversar mais ou até mesmo escrever mais.

“A Bruxa”, logo nas cenas iniciais, deixa claro que irá inverter e desconstruir o gênero terror. Geralmente temos em filmes do gênero uma fórmula pronta, principalmente – mas não somente – no que diz respeito ao vilão da história: sempre colocam o demônio como causador de todos os problemas. Se não é o demônio, é aquele que não segue as normas padrões imposta pela sociedade. Talvez um psicopata, infiel, herege, ateu, cético…

Mas “A Bruxa” no primeiro minuto se recusa a aceitar essa condição e simplesmente diz “não” ao espectador. “Não, vocês não terão essa fórmula. Vocês verão agora o que acontece quando um filme de terror tem como o seu grande vilão o Deus que muitos de vocês amam”. Pronto, foi justamente por essa inversão que o filme causou tantos espantos. Inconscientemente todos na sala perceberam que o filme estava atacando a fé, com isso, todos aqueles que acreditam em Deus se sentiram, de cerca forma, afetados. Se sentir afetado assistindo esse filme é completamente normal, o problema é quando o nível de incompreensão atinge o tamanho monstruoso e aparecem pessoas rejeitando de todos os modos o filme e, como escrevi anteriormente, agem com desrespeito, brincando nas sessões e prejudicando a experiência de pessoas que, como eu, estavam boquiabertos com a quantidade de informações que aconteciam.

Parte 2 – Idade Média e o sobrenatural

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Vamos começar com um momento crucial da história da humanidade, principalmente quando relacionado com a religião: Idade Média. A igreja católica, ao contrário do que se pensa, não se tornou extremamente poderosa e influente de uma hora para a outra. Até atingir uma base incrivelmente sólida, existiram diversos problemas e fatos que impediram o seu avanço total.

A mescla com as religiões politeístas contribuíram muito, de diversas formas, para a construção do que temos hoje nos conceitos da igreja. Principalmente na postura de atribuir tudo aquilo que é desconhecido como sendo do demônio ou satânico.

Entre a Alta e Baixa idade média aconteceram bastante mudanças. A Europa estava em pleno declínio a beira da total loucura. Existia uma urgência, a vida simplesmente era sufocada por essas mudanças e descentralização, seja política e de crenças e como esses dois fatores se relacionavam entre si.
O trabalhador, preso a sua terra – lembrando que a “escravidão” dá lugar a “servidão” que, a grosso modo, se trata do homem escravo das suas próprias terras, ele quer estar preso e isso se deve a uma série de interesses, incluindo a própria proteção – tinha a expectativa de vida muito baixa, portanto a ideia de ser feliz em uma próxima vida era muito mais real do que acreditar que poderia, algum dia, ser feliz nessa vida terrestre. Se analisarmos friamente a religião hoje em dia, inclusive, percebemos que a ideia de vida eterna vêm aos poucos mudando, há, hoje, uma supervalorização da vida aqui na terra; A ideia do famoso “carpe diem” vai de desencontro com o que prega a bíblia, que deixa muito claro que o nosso propósito real é a próxima vida.

Além da vida dos trabalhadores ser extremamente vinculada com a religiosidade, o medo movia as famílias também. Tudo aquilo que estava ao redor das suas terras era o local onde o mal existia. Não à toa a crença em seres fantásticos, bruxas, demônios, espelhos mágicos etc. Só os guerreiros e, principalmente, o clero, detinham o poder e coragem de ir além e lutar contra essas forças do mal. Percebam que, ao impor esse medo do sobrenatural, a igreja controlava tudo e todos.

Voltando as famílias dos trabalhadores, existia muita superstição, por exemplo: se um corvo pousasse na sua casa, com certeza eles atribuiriam isso a aproximação da morte. Você, caro leitor, deve se lembrar que aparece um corvo no filme “A Bruxa” em uma cena crucial, não é? Essa cena é justamente o pontapé para uma série de mortes que acontecerá na família.

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Agora que mencionei o corvo, pense nessas possíveis interpretações sobre pequenos  detalhes do cotidiano na época como um animal, floresta, enfim, e tente encontrar no filme alguns desses elementos. Em “A Bruxa” tem a floresta, corvo, coelho – que, em suma, representa vida e está atrelado também com a curiosidade principalmente após o lançamento do livro “Alice no País das Maravilhas” de Lewis Carroll – e, por fim, e talvez mais importante, em determinado momento, na floresta, existe uma referência direta à “Chapeuzinho Vermelho“. Essa referência acontece quando a “bruxa” aparece para Caleb, extremamente sexualizada, e o beija. A resposta para essa referência pode ir de encontro com a origem do satanismo. Explico a seguir:

Parte 3 – Satanismo

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Em plena Idade Média, um grupo do Sul da França contestou corajosamente ou insanamente a igreja e vários dos seus conceitos. Inverteram alguns valores e, por isso, são considerados por alguns pensadores como os primeiros hereges da história. Esse grupo ficou conhecido como “cátaro”. Eles foram a sociedade secreta mais relevante da Idade Média e, inclusive, preste bem atenção pois vamos fazer aquele jogo de relacionar com o filme novamente, chamavam a Igreja Católica de “Igreja dos Lobos“. No filme a família acredita que o lobo pegou o bebê Samuel, portanto, diante a essa leitura, podemos trocar o lobo pela igreja/religião. A fé monstruosa e desequilibrada ataca como um câncer e vai sugando cada alma boa e pura que existe naquela família. Claro, difícil é saber o que seria uma “alma boa”.

No conto clássico de Chapeuzinho Vermelho, a menina caminha por entre a floresta e tenta, de todos os modos, escapar das garras do lobo mau. Como se quisesse fugir dessa prisão e ser livre. A aparição de uma bela mulher com capa vermelha no filme não é por acaso, há outra inversão de valores: Caleb é a menina frágil e Chapeuzinho esconde um lobo em sua veste. No mesmo tempo que essa cena deixa algo aberto: Talvez, de fato, tenha acontecido uma relação sexual entre Caleb e Thomasin e o lobo seja a representação fiel das angústias do menino em lidar com o gozo.

Continuando a história do satanismo, é preciso concluir que a inquisição foi criada justamente por causa dos Cátaros. Como uma forma de combater aqueles que pregassem contra qualquer coisa que a Igreja afirmava. Houve, inclusive, uma cruzada apenas para converter os Cátaros, o problema é que a distinção entre eles e os católicos era impossível, parte daí a frase “Matai-os todos, Deus reconhecerá os seus!”. 

Bem, na Idade Média temos a formação da contradição, mas é no Renascimento que o Satanismo ganha forças. É preciso ressaltar, inclusive, que para a Igreja absolutamente tudo que a contrariasse era considerado Satanismo, mas isso acontece até hoje em dia, imaginem na época.

O Renascimento, como o próprio nome sugere, vêm para combater a Idade Média e uma infinidade de opressões, esse desprendimento provém do conhecimento. O homem passou a direcionar a sua atenção para as filosofias e artes, o que evidentemente sempre libertou a humanidade.

Foi no Renascimento que surgiu uma importante linha da filosofia chamada “Renascimento Humanista” ou “humanismo”, que basicamente coloca o homem como centro do universo. É de se notar que nesse tempo já havia grandes questionamentos sobre Deus, principalmente relacionado a sua onipotência, onipresença e oniciência. Além do mais, era só ler a bíblia e perceber que havia uma diferença entre o Deus do Velho e Novo testamento, um se relacionava intimamente com o ódio e o outro com o amor infinito.

Todas essas questões aproximou a figura de Satã do desprendimento. Shaitan, do hebraico, significa adversário. No filme “A Bruxa” a mãe se compara com a mulher de Jó. Resumidamente, na história bíblica de Jó, ele é uma isca para uma prova de que o amor do homem é verdadeiro e infinito. Satã fala para Deus que se tirar tudo do homem, então ele perderá a sua fé. Mas Deus prova o contrário com um homem amável e dedicado chamado Jó. A mulher de Jó clama para a revolta do marido para com Deus, mas ele se mantém mais calmo.

Então sua mulher lhe disse: Ainda reténs a tua sinceridade? Amaldiçoa a Deus, e morre. Jó 2:9

A mãe, no filme “A Bruxa” também perde a sua fé, após o desaparecimento e morte de três filhos. Mas o pai se mantém distante, relacionando a sua dor constantemente com a vontade de Deus. Na época isso era algo altamente comum, porém hoje, com os nossos olhos, todos sabemos que as coisas que acontecem, incluindo a própria praga que assola a plantação, poderia ter sido resolvida de outras maneiras, principalmente se não houvesse a insistência. Mas ai entra o conhecimento, hoje a psicologia nos mostra o que é “histeria coletiva”, “epilepsia” e outras doenças que estavam extremamente vinculada com demônios. E, nesse ponto, “A Bruxa” incomoda muito, pois existe essa verdade exposta de todos os maus que a religião causou nas famílias devotas da época.

Voltemos ao Renascimento… Satã, por questionar Deus se tornou um símbolo imediato de algo que o humanismo pregava. E, a partir dessa filosofia, começaram a existir outras linhas de pensamento, incluindo o próprio satanismo que vai ser modificado no século XX com Lavey.

Parte 4 – Entendendo “A Bruxa”

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Primeiro é importante ressaltar que as bruxas, na Idade Média, eram na maioria mulheres. Essa classificação era colocada naquelas que faziam remédios caseiros, se rejeitavam a casar, eram muito bonitas e despertavam desejos em homens de famílias, enfim, tudo isso fazia uma mulher ser condenada à fogueira por ser bruxa. Elas passavam por uma série de torturas e eram obrigadas a confessar o seu amor pelo demônio.

Então a bruxaria, assim como o satanismo, está diretamente ligada com o desprendimento. E o filme de 2016 usa isso para compor a ideia principal do roteiro: Não se trata de um filme de terror e sim um drama sobre a opressão religiosa, preconceito para com a mulher e ignorância.

Percebam que as pessoas que vaiaram, brincaram e agiram com desrespeito, fizeram basicamente a mesma coisa que o filme prega como o mal. A ignorância é a ferramenta que dá espaços para a manipulação e a única coisa que pode salvar um ser desse demônio – o maior de todos – é o conhecimento. Portanto, sim, Thomasin é uma bruxa. Ela é a única, de toda a família, que está envolvida com a sexualidade e não teme isso, que está consciente dos acontecimentos e não fica atribuindo qualquer desastre a culpa e vontade de Deus. Ela está extremamente preocupada com a vida e o “agora”, mesmo com as limitações da época, ela é livre no seu interior.

O filme, só a título de curiosidade, não se passa na Idade Média, mas sim na Nova Inglaterra em plena formação dos Estados Unidos. A floresta e o medo imenso do desconhecido está presente.

Após a família ser expulsa da colônia, é perceptível que todos da família saem do julgamento rapidamente, seguindo o pai. Thomasin é a única que hesita algum tempo antes de seguir a sua família.

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Depois disso, temos uma cena que mostra a visão da garota – uma câmera subjetiva – olhando os portões sendo fechados para a sua família. Eles são expulsos pela visão religiosa extremista, que é tão grande que vai de desencontro com a própria religião.

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Momentos depois a família adentra a floresta, algo extremamente proibido e perigoso, o lar dos monstros e demônios, eles estão em busca de um pedaço de terra para sobreviver. Mas todos aqueles conceitos de proteção, relação com o sobrenatural sobrevive – Thomasin, no final do filme, fala para o seu pai que ele é um péssimo caçador, que ele só sabe cortar madeira, isso prova a mente direcionada e necessidade de proteção. É curioso notar a ironia, pois Black Phillip, no final do filme, mata o pai diante as madeiras que ele cortava constantemente, como se estivesse entregue a única coisa que sabia fazer, além de orar e entregar-se a Deus, no mesmo tempo que esquecia que tinha uma família para guiar.

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Se Jó tinha uma propriedade farta, a família em “A Bruxa” é o contrário. A provação acontece de forma distorcida, eles estão a beira da loucura, fome e desespero. Em uma terra completamente nova, o terror com o auxilio da trilha sonora acontece durante todo o tempo. Nós não sentimos medo, mas adentramos em um mundo particular de fragilidade. A natureza se torna má e poderosa demais.

Os olhares do Caleb para os seios de Thomasin é a representação fantástica do desejo incestuoso que existe entre eles. A aceitação por parte da irmã e o descontrole por parte do irmão. Mas, claro, o desejo é visto como uma maldição e Thomasin, só pelo fato de ser mulher, é considerada bruxa por estar em pleno desenvolvimento. A menina se controla de todas as maneiras possíveis, segue todas as regras, mas, no final do filme, por um breve momento, se desvia desse caminho e tudo desmorona. Sua família, incrédula, atribui a ela todos os males do mundo.

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 Cena crucial é quando Thomasin encontra o seu irmão perto de um lago. Os dois estão atarefados e Thomasin percebe os olhares maliciosos, no entanto acolhe o irmão em seus braços antes de se proclamar como sendo a bruxa para a irmã mais nova. É questão de segundo para relacionarmos isso com a autonomia e ousadia da menina em confirmar o incesto, mesmo que somente a intenção e conexão. Ela afirma com propriedade, dá os detalhes e intimida ambos irmãos, causando um desconforto. Lembrando, o fato de ser ou não bruxa é uma metáfora e qualquer cena que sugira algo mais explícito serve apenas como uma distração.

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Pouco tempo depois Caleb foge com sua irmã para a floresta, eles se perdem e acompanhamos Caleb e o seu encontro com a “bruxa”, em uma forma bem sensual, como se completasse todos os seus desejos mais íntimos. O desejo nunca foi um problema real da humanidade, mas pode se tornar quando a crença a proíbe ou cria uma série de limitações. Nesse caso, a culpa passa a ser gigante e consome o ser. Isso é o que acontece com Caleb na floresta. A capa vermelha – cor associada automaticamente ao sexo, paixão etc – traz a ideia de que, sim, houve algum tipo de relação entre os dois irmãos, mas Caleb não aguenta a culpa, é fraco demais para ser um bruxo e, consecutivamente, livre.

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Quando Caleb retorna para a sua casa, Thomasin o encontra nu. Quando ele desperta e surta, os seus movimentos e feição remetem ao gozo, ao prazer extremo, é possível perceber que em diversos momentos o menino se abraça, como se o seu corpo estivesse envolvido com as palavras sem sentido, no mesmo tempo que existe uma tentativa de redenção, como se quisesse ser aceito. O menino ficou preocupado e questionou o seu pai, logo no início do filme, sobre qual seria o critério de Deus para escolher os bons ou maus.

A mãe da família, para mim, é a personagem mais conturbada e fraca, ela praticamente não existe. Em alguns momentos fala com alegria sobre a época que tinha a idade da filha mais velha, mas sempre se mostra muito abatida e fragilizada. Como se existisse muitos arrependimentos. É a mulher que nunca teve coragem de se libertar, por isso é possível perceber uma clara inveja da sua filha Thomasin. A mãe revela que estava ciente das “insinuações para o irmão”, mas nunca tomou providência. Talvez ela tinha medo de que a menina tentasse conquistar o seu marido.

Quando a mãe morre, a única morte que Thomasin provoca, de fato, ela está em uma posição muito sugestiva, em cima da barriga da filha. Simbolizando uma troca de papeis, como se tivesse se tornado a filha ou prestes a realizar o que sempre quis, mas nunca teve coragem. Thomasin, a partir da morte de todos os membros da família, se torna todos eles, a coragem e desprendimento da família.

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Chegamos na parte final e é justamente a qual, geralmente, as pessoas mais se confundem. Bem, vale ressaltar que a primeira coisa que Thomasin faz após matar sua mãe é tirar o vestido. Esse vestido, que a cobre durante todo o filme, visivelmente a sufocava. Ela começa a sua liberdade ai.

Depois segue o Black Phillip e vai procurar, finalmente, as respostas.

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O bode no filme é a representação do demônio. Baphomet é sempre revelado com uma cabeça de bode e ele significa algumas coisas, principalmente relacionado com dualidade. Bem e mal, luz e trevas, homem e mulher, enfim, o feminino e masculino tem uma importância gigantesca para o final do filme. A mulher está diante a sua liberdade, mas não sabe o que fazer ao dar o próximo passo, portanto precisa entrar em catarse, conhecer os seus limites.

Ela seguindo o Black Phillip representa todos os espectadores que esperam ansiosos por respostas. E quando isso acontece, o filme o faz com maestria. Primeiro que focaliza apenas no rosto da Thomasin, afinal, ela é a protagonista dessa mudança. É quando começa um dos melhores diálogos da história do cinema.

Reparem que Black Phillip pergunta o que ela quer e dá algumas sugestões, principalmente relacionado a comida – pois passava fome – e liberdade. “Ver o mundo“. Thomasin deixa claro a sua posição e diz que não sabe escrever, ele responde, com sua voz arrepiante, que guirá as mãos da menina. Essa cena deixa claro que a protagonista está diante a uma mudança devastadora, fruto da sabedoria. A cena final, onde acontece um “ritual”, é outra alusão ao rito de passagem. A menina flutuando é uma vida leve, sem amarras e proibições, ainda fica diante uma árvore, fazendo referência a Lilith que, diz a teoria da conspiração, poderia ter sido a primeira mulher de Adão.

A cena final é arrepiante e, em meio a uma estranheza gigantesca, é possível sentir uma felicidade. O espectador desavisado chora e os mais atentos sorriem. “A Bruxa” é um dos melhores filmes da história e uma verdadeira junção de elementos históricos e filosóficos. Vai ao desencontro da fórmula e o padrão, assim como o tema estudado, e consegue provar que o terror mora nos lugares mais improváveis.

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Referência: http://maconariaesatanismo.com.br/satanismo/satanismo-na-idade-media/

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Il Demonio, 1963

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★★★★

Uma declaração do diretor Brunello Rondi – famoso por escrever roteiros com Federico Fellini – exemplifica bastante as qualidades principais do clássico esquecido “Il Demonio”: “Minhas personagens femininas expressam suas neuroses através do corpo”. Por essa frase, que demonstra uma preocupação com a figura feminina – e isso é maravilhoso – podemos entender melhor a atuação inesquecível da talentosa e lindíssima Daliah Lavi que permanece constantemente entregue a sua personagem que, por sua vez, está entregue a insanidade e opressão. Se trata, sem dúvida, de um trabalho inesquecível da atriz que, em 1963, também trabalhou com um gênio do cinema Italiano chamado Mario Bava no filme “O Chicote e o Corpo”.

“Il Demonio” se passa todo em uma pequena vila, onde as pessoas são movidas por uma fé extrema. Purí, a protagonista, é uma mulher apaixonada por um ex-amante que está prestes a se casar com uma outra mulher, no entanto Purí faz uma magia negra para ter o amado ao seu lado, passa a ser perseguida por um demônio até ser fatalmente possuída por ele. Aliando-se a isso, tem o fato de que a crença da população seja os olhos do espectador, ou seja, eles caçam a moça chamando-a de bruxa, no mesmo tempo que o sobrenatural dá espaço à temas como opressão a mulher, manipulação da igreja, abuso do homem e consequências da ignorância.

Uma coisa que difere bastante esses filmes antigos sobre possessões demoníacas com os recentes, é o desenvolvimento. Enquanto os antigos se preocupam com os espaços para as dúvidas, os recentes apelam exclusivamente para o sobrenatural. “Il Demonio” é uma obra sobre uma mulher devastada pelo seus próprios sentimentos e estuprada pela ignorância alheia.

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Antes de mais nada, na introdução, é dito que se trata de uma obra baseado em um fato real, depois a primeira cena é a protagonista fazendo a magia negra, pega o sangue do seu peito, representando o seu leite, alimentação para sua criação. Um amor que não existe, até mesmo a paixão é nebulosa aqui, se tratando apenas de uma obsessão. A própria moça não entende os seus desejos.

Na cena seguinte ela dá o seu sangue, misturado com vinho ao homem que ama afim de enfeitiça-lo. Interessante ressaltar que esse feitiço nunca acontece de forma literal, restando apenas metáforas, podemos, então, atingir a interpretação de que tudo se trata apenas de um desequilíbrio psicológico. A crença extrema na sua criação faz com que a menina tome medidas drásticas e que nem ao menos conhece, como a magia negra. Não a toa, a cidade é extremamente supersticiosa, o misticismo que os cerca acaba, por consequência, aprisionando aquelas pessoas e distanciando-os do conhecimento. Algo extremamente comum, principalmente na idade média.

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Purí é tratada de forma selvagem, o seu amado diversas vezes a empurra, arrasta pelos cabelos, até mesmo o seu pai a chicoteia em sua própria cama por ser “diferente”. Na primeira “manifestação demoníaca” ela reage de formas bem específicas como: puxa o seu cabelo de forma muito parecida com o que o seu amor faz, se machuca e toca em sua vagina – aliás, a sexualidade está muito presente nesse filme.

Ela ainda é estuprada por diversas vezes, de forma subliminar. Uma durante uma fuga, em que está ao lado de diversas ovelhas brancas – e ela de vestido preto, como se fosse uma ovelha negra – e a outra por um padre. A trilha fantástica que sempre ressalta tensão não traduz o sobrenatural que a protagonista teima estar vivendo, mas sim o quanto essa mulher é mal tratada por outros.

Um exemplo disso é uma cena onde ela está caminhando com outras pessoas com uma pedra na mão, em dado momento todos tem que gritar o seu pecado para se livrar dele. Uma senhora grita que roubou a galinha do vizinho, um senhor fala que teve desejos sexuais pela filha de 16 anos – algo abominável – mas as pessoas só ficam horrorizadas quando Purí afirma que o seu pecado é conversar com o demônio.

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No mesmo tempo que o filme levanta essas questões, graficamente ele apresenta o outro lado, expõe também algo mais sobrenatural. Como por diversas vezes ela parece ouvir vozes, encontra com Salvatore perto do lago, um garotinho que morreu tempos antes pedindo água para sua mãe, chegando até mesmo ao ponto onde, finalmente, teremos a famosa cena de exorcismo na igreja em que a moça vira de ponta cabeça como uma aranha. Algo que posteriormente, em 1973, foi copiado por “O Exorcista”.

Il.Demonio.(Brunello.Rondi.1963.-.Frank.Wolff.Daliah.Lavi).Dvdrip.Ita.By.Acia.avi_snapshot_00.54.54_[2016.01.24_22.36.18]Il.Demonio.(Brunello.Rondi.1963.-.Frank.Wolff.Daliah.Lavi).Dvdrip.Ita.By.Acia.avi_snapshot_00.55.47_[2016.01.24_22.36.47]

No mesmo tempo que temos essa aproximação com o sobrenatural, voltamos imediatamente à crítica a religião quando a câmera se torna subjetiva e o espectador olha a igreja de ponta cabeça, sob os olhares da Purí. Como se aquele lugar, aquelas crenças estivem sendo corrompidos, há uma subversidade na protagonista pois passa, inconscientemente, a pensar criticamente sobre a sua própria situação.

O resultado é chocante para a época, revelando-se como um filme extremamente ousado e inteligente, principalmente se tratando de uma década tão conservadora. É um grande clássico esquecido pelo tempo e que certamente inspirou diversos outros clássicos.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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CdA #53 – Incubus: o demônio do sexo

incubus 1966

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Um novo formato do podcast [Cronologia do Acaso] começa a ser desenvolvido nesse episódio #53. [Moscas] tem como objetivo ser um espaço para analisar filosoficamente, socialmente e, claro, cinematograficamente, alguns temas obscuros e/ou polêmicos que estejam de alguma forma relacionado ao cinema. Abordaremos o cinema de terror, dando prioridade à obras primas esquecidas pelo tempo.

Nesse episódio analisamos Incubus ( 1966 ), um dos filmes mais polêmicos de todos os tempos. Nos dizeres de alguns, um “filme feito por ocultistas para ocultistas”. Emerson Teixeira e Tiago Messias discutem sobre o significado do Incubus e Sucubus – ambos demônios sexuais – e ainda observam a obra audiovisual sob alguns significados bíblicos. Uma conversa sem pudor sobre maldade e demônios.

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