CdA #72 – Novela (1992) e Giselle (1980)

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Nesse episódio Emerson Teixeira recebe o grande Malforea, vocalista da banda Distintivo Blues para, juntos, indicarem dois filmes. Voltamos ao formato de recomendações em grande estilo, com duas obras nacionais: o polêmico Giselle (1980) e o curta-metragem Novela (1992). Ambos filmes completamente diferentes, o papo envolveu assuntos interessantes como as novelas do nosso país e a comodidade de muitos em relação à cultura.

Filmes citados:

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Scorpio Rising, 1964

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Scorpio Rising é o curta-metragem mais conhecido do excelente diretor experimentalista Kenneth Anger – isso se deve ao fato de ser o único filme, da sua filmografia, que figura entre os mil e um filmes do livro “1001 filmes para ver antes de morrer” mas, também, por sintetizar toda a sua obra.

Kenneth Anger se interessou pelo ocultismo muito cedo, bastou pouco tempo para ser seguidor de Aleister Crowley e começar amizades com nomes importantes da literatura ou música, principalmente aqueles com algum vínculo com o ocultismo ou mundo underground, como  Anton LaVey, Jimmy Page,  Keith Richards etc. Eu conheci o seu trabalho, inclusive, em pesquisas sobre ocultismo, visto que o diretor desenvolveu um trabalho chamado “The Man We Want to Hang” ( 2002 ) onde ele registra algumas pinturas do Crowley.

Kenneth Anger, geralmente, abusa da atmosfera surrealista, a maioria dos seus filmes contém cortes frenéticos, inserções de imagens que fazem referência à algo místico ou que determina a característica principal de um local ou personagem, também sempre dialoga com a polêmica, contracultura, religião, satanismo, homossexualidade, enfim, é uma daquelas experiências frenéticas acompanhar os seus trabalhos. Mas, para os corajosos, vale a pena pois sua influência no meio artístico é muito grande, mesmo nunca tendo saído do circuito independente, prova disso é que realizou inúmeros trabalhos, porém, todos curtas-metragens experimentais; é um nome desconhecido que influenciou cineastas modernos como Martin Scorsese e David Lynch.

“Scorpio Rising” acompanha um grupo de motoqueiros, de forma experimental, com uma linguagem vanguardista que, abusando da contracultura e rebeldia, relaciona temas como homossexualidade, sexo, religião, ocultismo, drogas, enfim, com paralelos iconoclastas, inserções de imagens que fazem referência à passagens bíblicas – todas envolvendo Jesus Cristo, apresentando-se de forma super sexualizada – e, como linguagem temos, principalmente, uma sequência de treze músicas de rock clássico que direciona a história para a subversão.

Como o curta-metragem não têm diálogo – se estrutura em uma série de imagens, apoiados à uma montagem hipnotizante – compreendemos a música como um guia espiritual, se não bastasse, a experiência é catártica e provém, primeiramente, da provocação e sensações. Contextualizando a liberdade sexual e liberdade de expressão, no entanto, em alguns momentos, sugere o perigo da exposição, somos convidados a uma viagem pelo submundo, onde o profano está frente a frente à condição de viver.

Uma inserção de Jesus Cristo, mais precisamente a passagem bíblica onde ele cura um cego, faz alusão à visão, resultando em uma jornada de desprendimento, livre, como se o homem pudesse, através desse milagre da cura, caminhar sem preconceitos ou insegurança. Outra inserção é quando Jesus chega à Jerusalém montado em um jumento, outra vez fazendo analogia à jornada, inclusive nessa cena há uma transição para as motos – veículo que simboliza poder, velocidade e modernidade.

É um excelente obra, recomendado para aqueles que estão dispostos a se despir de preconceitos e refletir sobre os mais diversos temas, pois sem dúvida se trata de um dos filmes mais subversivos de todos os tempos e que proporciona, com toda a sua polêmica, uma experiência singular.

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It Can Pass Through the Wall, 2014

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★★★

Esse é um curta-metragem romeno, simples, que acompanha alguns minutos da vida de um avô e sua neta. Ele joga gamão com um amigo enquanto conversa sobre um moço no seu apartamento que se suicidou há pouco tempo, enquanto isso tenta colocar a sua neta para dormir mas a garotinha, escutando o assunto dos adultos, fica com muito medo e não consegue ficar sozinha no quarto.

É um filme gracioso, usa a comédia de forma bem direta o que, por sinal, se relaciona bem com a narrativa simplista. A história é básica, porém brilhantemente sustentada pelo carisma da atriz mirim que se encontra com medo das histórias do seu avô – algo extremamente natural, afinal, a despreocupação dos diálogos dos adultos sobre a paranormalidade perto da criança é muito grande.

A câmera é, na maioria das vezes, estática, acompanha o quarto escuro que a menina está e, em off, ouvimos o assunto dos adultos, então existe os dois lados, sendo que um é “protegido” e o outro não – isso reflete na própria iluminação.

Apesar de ter apenas dezessete minutos, é trabalhado de forma divertida o medo, posicionando-nos, indiretamente, na imaginação de uma criança.

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Curta-Metragem – Paura Dentro, 1997

"Paura dentro", Lorenzo Bianchini

“Paura dentro” é um curta-metragem de 12 minutos dirigido pelo Lorenzo Bianchini – o mesmo diretor de “Across the River”. É de se notar que ambos se passam em uma floresta e a utilização do som é muito importante para criar o clima de tensão.

“Paura dentro” começa com uma mulher desenhando uma moça em uma floresta, de forma quase automática ela começa a desenhar, também, uma sombra nesse desenho, como se fosse uma extensão ou um monstro. Depois a protagonista vai dormir e, da forma mais onírica e brilhante possível, percebemos que o seu sonho é o quadro que desenhou. O medo e clima obscuro é trabalhado de forma cautelosa, principalmente com a utilização do som que, por vezes, fica distorcido e estranho.

Os aparecimentos da sombra, ou monstro, são sempre sutis e, apesar de caricato, o impacto é sempre poderoso, visto que estamos diante a um verdadeiro pesadelo e a forma como o diretor trabalha esse tema é realmente muito bom para um curta metragem feito de forma visivelmente simples.

Ver online:

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A inesperada virtude do encontro

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Não conhecia o trabalho do diretor Deivid Almeida, mas inesperadamente – como deveria ser toda e qualquer obra de arte – me deparei com um dos seus curtas e simplesmente me senti feliz com a qualidade e profundidade.

Sou suspeito, pois faço parte da geração mostrada no curta “Décimo segundo andar”, tenho 21 anos e vivo constantemente observando o meu redor e refletindo sobre a velocidade e responsabilidades que nos cercam. Às vezes me pego parado em algum lugar, perdido, só para acompanhar os movimentos das outras pessoas. Engraçado como que, por vezes, encontramos as mesmas pessoas, com os mesmos gestos e expressões e, por vezes, a mesma roupa. Temos todos nossas obrigações – ou deveríamos – e não sobra muito tempo para os detalhes, os sentimentos e olhares. Estamos rodeados de “rotina” e pessoas mas mesmo assim nos sentimos solitários.

Pesquisando um pouco sobre o diretor, Deivid Almeida, pude perceber que também é um jovem. um jovem fotógrafo. De imediato me senti ainda mais representado. Por algum motivo imaginei que essa história poderia ser muito intima do realizador, isso me confortou de alguma maneira. Como se eu gritasse para mim mesmo: não estou sozinho no mundo!

Ao som da rua, carros e ruídos da cidade, surge a frase “um filme por David Almeida”. Uma voz em off desabafa que acabara de pedir demissão do trabalho – deixando claro, de imediato, essa quebra do vínculo com a rotina – e continua enquanto surge o nome do curta: “Décimo Segundo Andar”. Uma música começa a tocar e a cidade – maravilhosamente bem fotografada – começa a ser revelada, uma sincronia perfeita com a música; Alguns cortes dão a obra um espirito jovial, um ritmo típico do hip hop. O efeito de time-lapse contribui para ideia do movimento mecanizado vindo diretamente da rotina.

A decisão do som diegético é interessante, pois distancia o protagonista do mundo exterior no mesmo tempo que ele ainda permanece próximo à ela. Aliás, é impossível se distanciar totalmente.

A narração em off – constante durante os quase sete minutos – ajuda a compor a ânsia do protagonista em novos acontecimentos. Quando ele encontra uma moça e começa a observá-la é como se encontrasse um propósito. A garota representa algo identificável, puro, poderia ser qualquer um ou qualquer coisa – mesmo que na primeira descrição da moça, ao fundo, ouvimos o som de um coração pulsando, como se aquilo provocasse alegria ou medo no narrador.

Com elementos modernos, decisões técnicas excelentes, o curta é uma verdadeira preciosidade. Em um momento crucial o narrador se pergunta o “porquê de não atravessar a rua para conversar sobre a vida”, e é justamente essa a maior força do curta: a dúvida. O que acontece depois da quebra da barreira social? E, por fim, como lidar com as vírgulas desse grande texto que é a vida?

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