O Rolo Compressor e o Violinista, 1961

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Andrei Tarkóvski é um dos maiores diretores de todos os tempos, um artista que transcende o cinema e atinge diversas esferas do conhecimento, contemplando a filosofia, política, enfim, um visionário que escreve com a luz.

Em “O Rolo Compressor e o Violinista” o diretor realiza o seu trabalho de conclusão em um curso de cinema, apesar da imaturidade que essa afirmação possa provocar, estamos falando de um dos seus melhores filmes, mesmo que seja quase impossível estabelecer uma ordem de qualidade das suas obras, pois todas atingem o mesmo patamar.

O filme acompanha a história, em 45 minutos, ou seja, se trata de um média-metragem, do pequeno Sasha. Um menino que toca violino e é constantemente agredido por seus colegas de bairro que querem, de toda a forma, destruir o seu instrumento. Sasha desenvolve uma amizade com um motorista de rolo compressor, que o ajuda com os garotos.

Primeiro que a história é leve e super flexível, nada muito reflexivo e complicado. No entanto, o desenvolvimento carinhoso não impede o diretor de, desde então, provocar o espectador com alguns temas pertinentes. O primeiro deles, e sem dúvida o mais importante, é a dicotomia que existe entre dois mundos, um “sujo” e o outro “limpo”. Metaforicamente o limpo seria a arte, que está diretamente envolvida com o luxo. Não à toa os meninos do bairro, aparentemente “comuns”, tentam destruir o violino do protagonista, como forma de podá-lo e torná-lo igual. Quando a amizade com o trabalhador é estabelecida, uma das primeiras coisas que acontecem é o garoto sujar as mãos com graxa, representando uma forma de humildade, é quando ele atinge a compreensão de que é possível aprender com tudo, indiferentemente da sua classe social.

Sasha passa a aprender com o Sergei tudo aquilo que se rejeita por consequência de uma vida regrada. O diretor consegue, dentro da sua sutileza e inteligência, desenvolver uma história absurdamente linda e que é atemporal. Com uma imensidade de cenas onde o reflexo se faz presente, o filme é, além de poesia pela naturalidade, um primor fotográfico. Com diversas opções interessantes visuais, a sensação que fica é que o espectador acompanha escondido os pequenos movimentos dos dois amigos pelas ruas, enquanto conversam sobre trivialidades de suma importância para ambos; culminando em uma cena belíssima onde Sasha toca o seu violino enquanto Sergei, em segundo plano, contempla a sua redução. Não que ele seja inferior, mas simplesmente aceita o fato que Sasha é o futuro, repleto de oportunidades.

Com uma abordagem minimalista, o cuidado que o protagonista demonstra ao não beber leite sem ser fervido e nos treinos cansativos de violino etc, são trocados pela linguagem despreocupada do novo, porém, temporário amigo. O apertar de mãos dos dois, no final, envolto de uma simetria incrível com o reflexo da água, é a simbolização desse compromisso: do experimento da vida com o objetivo de crescer e ser aceito.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Veneno Para As Fadas (1984)

Veneno Para As Fadas (Veneno para las Hadas, México, 1984) Direção: Carlos Enrique Taboada

Carlos Enrique Taboada foi um grande diretor mexicano, dirigiu filmes de diversos gêneros mas se consolidou mesmo com o terror, inclusive é muito citado pelo Guillermo del Toro que vê no realizador de clássicos como “Hasta el Viento Tiene Miedo” (1968) e “Más Negro que la Noche” (1975) uma grande inspiração. Quem conhece os dois diretores percebe imediatamente a ligação óbvia, principalmente em relação à atmosfera densa e utilização de crianças para provocar o medo ou desconforto, sem contar o vislumbre visual que, com sua escuridão, sombras, contrastes e ângulos, insere imediatamente o espectador em um contexto macabro.

“Veneno Para As Fadas” (1984) representa o grande ápice do diretor e, curiosamente, se trata do seu último trabalho relevante – depois Taboada faria alguns pequenos trabalhos na TV e roteiros -, isso porque mistura diversos elementos que vão desde a bruxaria, passando pela maldade intrínseca e inerência do ser humano em abusar da fraqueza emocional alheia, todos esses temas, genuinamente maus, enraizados em uma única personagem: Verónica – interpretada pela Ana Patricia Rojo, que depois, a título de curiosidade, participaria de novelas que ficaram famosas no Brasil como “Maria do Bairro” e “Esmeralda”.

A protagonista é apresentada antes mesmo dos créditos iniciais, a força da obra se encontra na sua presença e em todos elementos místicos que a envolvem. Sua imagem de menina delicada é subvertida à exaustão, a doçura do olhar passa, através de uma sequência de truques narrativos e técnicos, a provocar a dúvida e essa ambiguidade é importante para a experiência imersiva que o filme propõe. A menina é cercada pela escuridão, ausente de carinho e proteção, tem como Norte apenas as histórias que sua cozinheira conta, todas elas envolvem bruxaria e misticismo. Verónica afirma ser uma bruxa, na escola sofre preconceito por causa disso, no entanto as coisas começam a mudar com a chegada de uma nova aluna chamada Flavia (Elsa María Gutiérrez).

Há uma evidente tendência ao terror, mas a trilha sonora pontual e a narrativa com doses oníricas, escondem um verdadeiro drama sobre a solidão e as consequências da imaginação e controle mental. Verónica passa a controlar Flavia por afirmar ser “bruxa”, o que começa como brincadeira se transforma em algo sério quando o medo passa a coagir alguém. Esse jogo psicológico, cuja verdade é oculta até o final, transforma esse filme em uma preciosidade no que diz respeito a um estudo de personagem. As consequências de uma mensagem pesada imposta para uma criança, ganha proporções enormes quando essas mesmas informações são utilizadas como ferramentas de manipulação.

Sempre quando Verónica é registrada na sua casa, é feito de forma sufocante, a ausência de luz e o ângulo alto – plongée – dão a impressão de que sua vida é repleta de opressão. O único refúgio da garota é se esconder em um possível mundo inventado.

No entanto é curioso perceber a diferença de iluminação ou mesmo a posição quando está perto da Flavia. O papel inverte, o filme sugere constantemente “domínio”.

“Veneno Para As Fadas” (1984) é uma das maiores obras que desenvolvem o terror em base à fantasia, depositando todas as suas fichas em duas personagens mirins centrais e na relação de amizade entre elas, a perversidade é esquecida pelo brilho que a infância evoca, no entanto, o maior mérito do diretor Carlos Enrique Taboada, que também assume o roteiro, é trabalhar questões políticas e filosóficas subliminarmente.

Verónica não tem ninguém; mas pertence a algo. Verónica se sente só, mas tem um propósito; Verónica é fraca, mas manipula brincando de criar. Verónica envenena, mas a bruxa queima.

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Os Esquecidos, 1950

Os Esquecidos (Los Olvidados, México, 1950) Direção: Luis Buñuel

Luis Buñuel é o artista que representa perfeitamente o impulso imaginativo, do tipo que rejeita o formato padrão e constrói o seu universo peculiar em base à realidade mas, quando lhe é proposto o registro dela, o faz de forma surrealista. Existem infinitas verdades no surrealismo, porém elas são trabalhadas de forma subliminar, inerente à experiência social e filosófica do artista.

Luis Buñuel é um filósofo com uma capacidade de absorção da realidade inimaginável, como comprovação temos a sua própria trajetória, que evidencia a sua insatisfação com o cômodo. Tendo estudado diversas áreas – incluindo a religiosa – antes de adentrar os saberes das letras e filosofia, essa mistura de conhecimentos funcionou ao diretor como uma oportunidade única de trabalhar brincando com os mais diversos elementos místicos. Sem contar as viagens do diretor pelo mundo afim de encontrar um refúgio criativo, o qual permitiu que ele olhasse o objeto e dilemas sociais com uma certa distância.

A sua fixação no México simboliza exatamente essas transições enquanto estudante dos métodos artísticos, apesar de relacionado com outras artes, por sorte Buñuel resolveu ser cineasta e, se tinha apresentado, anos antes, ao mundo o surreal “Um Cão Andaluz” (1928) – que quebrou qualquer barreira narrativa imaginável, através da exploração do visual – o início do seu trabalho no novo país é pautado na realidade.

“Los Olvidados” (1950) é mais um exemplo do talento incomparável do diretor em desmoronar as dores do mundo, dobrar e fazer um barquinho. Os problemas sociais, questões de ética e opressões são desenvolvidos com um lirismo visceral tão denso que parecem cacos de vidros.

O filme acompanha um grupo de crianças e adolescentes nos subúrbios da Cidade do México. Eles passam os dias vandalizando, inclusive cometendo pequenos roubos. O líder dessa “gangue” é Jaibo (Roberto Cobo) que em um dia, junto com pequeno Pedro (Alfonso Mejía) espanca um menino até a morte. A partir desse momento a obra investiga as consequências emocionais do fato para a vida do Pedro, um menino que, dentre todos, parece ter mais envolvimento familiar e alguma esperança, porém as suas atitudes e companhias o impedem de evoluir. Por outro lado, Jaibo é um inconsequente, suas atitudes ultrapassam a linha natural e atingem a perversidade, no entanto há infinitas possibilidades de relacionar suas palavras e ações às fragilidades na estrutura da sua família, no passado – ele cita o seu pai em um momento e, a ilustração mais evidente dessa analogia, ele se apaixona pela mãe do Pedro.

A obra é incrível visualmente, o preto e branco se faz presente e, mesmo sendo bonito, ressalta as sujeiras das ruas. No entanto, essas sensações são reforçadas com a coragem em expor as perversidades das suas personagens, como em momentos onde as crianças agridem deficientes físicos. As atitudes monstruosas são tamanhas, que a experiência do espectador se torna pesada e ao longo dos oitenta e cinco minutos a sensação de sufocamento é constante. Algo está errado no poder, para as crianças terem chegado ao ponto de ultrapassar qualquer senso de cidadania. Vemos a miséria, a fome, devastação social, mas o que mais assusta é a barbaridade dos seres em formação.

A mensagem é crua e direta, a briga por interesses e despreocupação da política com a situação do seu povo, cria monstros. O título “Os Esquecidos” sugere essa ideia, principalmente quando relacionado com o contexto histórico e o próprio desenvolvimento da obra. É válido ressaltar que o filme começa com avisos sobre os fatos serem reais e distantes de qualquer otimismo, não poderia ser mais oportuno. Já na primeira cena Jaibo caminha pelas calçadas da cidade, rodeado de crianças ao seu redor, pois todos estão curiosos para saber como foi a sua experiência na prisão. Ele se engrandece e detalha momentos da estadia, inclusive coloca a sua liberdade como uma opção. Essa postura demonstra não só um ser que viola as autoridades, como também a visão de Jaibo sobre as ruas, afinal, elas também são prisões, ele só escolheu outra opção. Ainda sobre a cena, as crianças pequenas, frenéticas, em volta de Jaibo, escutam atentas as suas palavras, é como se ele fosse um Messias do caos – inclusive há cenas que ressaltam essa mensagem, trazem Jaibo sob uma iluminação diferente dos demais, como na própria imagem que ilustra esta crítica.

Buñuel faz um relato perturbador sobre os desdobramentos sociais envolta da miséria. As consequências da indiferença sendo retratada da forma mais fiel e visceral possível. Simplesmente um filme obrigatório em todas aulas de sociologia e filosofia. Há ainda uma impressionante cena de um sonho perverso, onde é acrescentado ruídos sonoros incômodos que representam brilhantemente toda a experiência de se assistir Os Esquecidos.

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Imperador Ketchup, 1971

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★★★

Talvez esse seja o filme mais controverso de todos os tempos, uma polêmica crítica à liberdade sexual dos jovens nos anos 60/70, vemos um mundo tomado pelas crianças que, juntas, criam uma série de leis que proíbem os adultos de qualquer opressão e proibição. As crianças passam a ter todos os direitos, se deleitam em uma série de diversões perversas que vão desde o sexo até a tortura de adultos. Mulheres são escravizadas e servem como rede de ping pong, prostitutas guardadas no guarda roupa, enfim, se tornam objetos.

Juntos as crianças criam um governo totalitário, preenchem o mundo com a maldade e, por esse motivo, essa obra de Shuji Terayama é conhecida como um dos filmes mais malditos de todos os tempos.

Quem conhece o diretor, sabe a sua capacidade artística de explorar da polêmica temas atemporais, criando algum tipo de identificação, mesmo que a realidade mostrada seja suja e indecifrável. Aqui ele dedica-se à uma fotografia superexposta, que funciona como um alívio e, no mesmo tempo, leva terror para uma esfera onírica, como se essa guerra espiritual fosse um pesadelo.

As crianças, imagem essa de bondade e pureza, se transformaram em sádicos, talvez essa mudança seja extensão da liberdade; as narrações, durante boa parte do longa, fazem referência as novas regras desse mundo caótico, uma delas, em especial, diz que todos os professores serão presos, como um manifesto, limitando o conhecimento, algo extremo mas de suma importância para qualquer regime totalitário.

A nudez que Shuji Terayama explora sempre possui uma mensagem maior, aqui faz alusão ao desprendimento, até mesmo à pureza. “Imperador Ketchup” traz cenas onde crianças simulam sexo com adultos, porém, é perceptível que diversas vezes a simulação dá lugar ao afeto materno, é de se destacar a ousadia do diretor que transformou sua ideia em uma arte morta – hoje ela é imperdoável, no entanto a mensagem perdura, visto que estupros, mortes e torturas acontecem diariamente, mesmo com as infinitas oportunidades ao conhecimento e avanços tecnológicos, o homem parece sempre retomar à sua essência selvagem.

“Todas crianças são livres para limpar as suas bundas na bíblia”.

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The Children, 2008

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★★

Só o fato de um filme usar crianças como vilãs é interessante, existe uma inconfundível certeza de que, se bem trabalhado, a obra poderá provocar o espectador com a sensação de desconforto, afinal, se trata de uma figura inocente e, talvez, uma das últimas que relacionamos quando o assunto é medo, morte, frieza, etc.

Tom Shankland dirige “The Children” com segurança, começando as primeiras cenas com aquelas clássicas reuniões de famílias para a comemoração do natal e, junto com toda essa felicidade, existe uma jovem – no auge da sua independência – reclamando por estar distante dos amigos. Por outro lado não há, na direção e roteiro, ousadia o suficiente para tentar algo diferente, a apresentação e o desenvolvimento só soam interessantes pela própria trama: as crianças dessa família vão, ao longo do tempo, mudando de personalidade até se transformarem em pequenos assassinos e sádicos.

A estrutura da narrativa é bem clichê, mas existe um desconforto real pelas modificações tão bruscas no comportamento das crianças, apesar de que, se por um lado as crianças chamam a atenção e se destacam – Eva Sayer, Raffiella Brooks e William Howes merecem boa parte dos créditos pela verossimilhança no que diz respeito as transformações. Aliás, vou além e afirmo com propriedade que eles merecem, também, os créditos por boa parte da qualidade do longa – os adultos de “The Children” são tão mal resolvidos que chega ao cúmulo de serem infantis. Não adianta trabalhar tanto os vilões ou o mal, quando não existe empatia de quem assiste por aqueles que deveriam sobreviver. O desejo aqui é que os adultos/fantoches morram o mais depressa possível e que as crianças malvadas reinem. Isso poderia até ser interessante, mas visivelmente a proposta era completamente diferente.

Não há nenhuma explicação sobre o porquê dos eventos, isso desencadeia uma série de erros como a velocidade das mortes e os dilemas frágeis que surgem ao longo dos 84 minutos. Ainda que exista duas ou três boas cenas – uma em específico é aterrorizante, mas em nenhum momento inédita -, o filme não possui aquele charme comum em filmes com criancinhas do mal e acaba não conseguindo sustentar a premissa poderosa que cria nas primeiras cenas.

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CdA #65 – Os Inocentes – Por entre a proteção e o desejo

Os Inocentes

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Em mais um episódio [Moscas]Emerson Teixeira e Tiago Messias analisam o filme clássico “Os Inocentes”. Criam significados e interpretam as diversas mensagens ocultas dessa obra imortalizada como uma das melhores obras do terror, perfeito exemplo da mudança que acontecia no gênero em plena década de 60!

Edição feita pelo Tiago Messias

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O Começo da Vida, 2016

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★★★★★

O que posso escrever sobre um documentário que trata o ser com uma sensibilidade gigantesca, dando atenção a cada pequeno momento particular como se fosse um universo inteiro de possibilidades? Aliás, as crianças do mundo inteiro parecem ter algum tipo de conexão, todas elas, sem exceção, criam com uma facilidade extrema. Um pequeno objeto ou um tecido, tudo vira uma maravilha escondida atrás do comum.

É fácil perceber que essa palavra, “comum”, é uma extensão do grande problema que é crescer e amargurar-se. Não existe o comum e, na verdade, todo processo de criação depende unicamente da entrega ao deleite do simples.

Confesso que a diretora Estela Renner não tinha chamado a minha atenção com o documentário “Muito Além do Peso”, mas devo admitir que a importância da obra é gigantesca, pois o mal da obesidade é realmente um perigo muito próximo. A diretora parece se preocupar com a criança, boa parte do seu trabalho abraça essa questão. Com “O Começo da Vida”, lançado recentemente pela Netflix, ela parece chegar ao auge do amor e carinho, registrando momentos isolados de afeto entre as famílias e das crianças com o mundo que os cercam. Ela se intromete nesse universo dos bebês, das famílias, mas nunca de um jeito negativo. Afinal, ela é criadora, portanto, criança. Não vejo uma outra explicação para tamanha simbiose com as ações.

A fotografia é clara, a luz está muito presente, como se todos ali estivessem em um paraíso. Em um mundo onde a pressa, o trabalho e a preocupação toma conta do homem, surgem pequenas e importantes vírgulas em nossas vidas. Ter um filho é uma delas. Uma adorável demonstração para a vida que somos proprietários de um dom mágico, o de ensinar.

No começo do filme senti falta da diversidade, as casas são sempre muito espaçosas, limpas e bonitas, as crianças envoltas de muita dedicação por parte da família. Mas a diretora foi inteligente em ir desconstruindo essa perfeição em doses homeopáticas. É possível ver depoimento do Brasil, Índia, enfim, algo que funciona para uma reflexão sobre as possibilidades que o governo dá para os cuidados de um novo cidadão. É questão de tempo compararmos a sociedade dos países e perceber, de imediato, o quanto o carinho, dedicação e união de uma família contribui para o desenvolvimento de um ser humano. Que perigo é essa responsabilidade de ser criado e criar, não é mesmo?

“O afeto é a fita isolante das ligações entre os neurônios, uma vez que você tenha essa ligação, vem o afeto e faz com que seja tão forte que nunca será desfeita… Mude o começo e mudará a história toda.”

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Indicação de filmes – O olhar das crianças sobre o mundo que as cercam

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We are the world, we are the children/ Nós somos o mundo, nós somos as crianças

Quem são as crianças? Os adultos crescem e, erroneamente, aceitam o fato de que se tornam mais distantes da imaginação. O ser humano é o único animal capaz de sorrir e talvez o mais genuíno sorriso seja o da criança.

No cinema, diversos temas já foram trabalhados sob a perspectiva das crianças e, quando bem explorado, é sempre muito interessante acompanhar essas histórias. É possível transformar coisas simples em mágicas, simplesmente por ser possível utilizar a inocência como forma de desenvolver determinada história, mesmo que seja repleta de medos e dores.

As crianças estão no cinema desde o seu início, quem não se lembra, por exemplo, do menininho do filme “O Garoto”, do Charles Chaplin? Esse é um ótimo exemplo pois se trata de uma transição, Chaplin passou a construir histórias pautadas na drama e comédia e a sua ousadia atingiu o limite, passou a dizer coisas horríveis sorrindo, de forma a amenizar os sofrimentos do mundo e, ainda assim, alertar à todos.

Essa é a primeira parte de uma postagem, onde irei recomendar alguns filmes que são desenvolvidos sob a perspectiva de uma criança. Ela pode ser protagonista ou não, mas certamente terá um papel crucial na história. Dei um maior destaque para obras pouco conhecidas, pois esse é o perfil do Cronologia do Acaso. Obs: As obras não estão em ordem de preferência, isso certamente seria um erro, pois todos atingem uma qualidade incrível.

1- Hugo och Josefin ( 1967 ), Suécia

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A Suécia é o segundo cinema, ao meu ver, que melhor trabalhou/trabalha com as crianças. O primeiro é certamente o cinema iraniano. Mas, enfim, o primeiro filme dessa lista se chama “Hugo och Josefin” que, basicamente, conta a história de Hugo e Josefin, duas crianças solitárias, que decidem virar amigos e andam pelas ruas da vida se divertindo e se conhecendo, de forma muito minimalista somos apresentados há alguns dramas pessoais deles, mas tudo isso é em segundo plano. O que realmente importa é o amor que existe ali.

Sem dúvida é um dos filmes mais carinhosos que eu já vi, me peguei chorando por diversas vezes, principalmente quando eles encontram um adulto e ele, extremamente inocente, ensina para os pequenos amigos alguns valores. Esse filme tem uma das risadas mais lindas da história do cinema, a protagonista dessa cena é Marie Öhman. O diretor captou um momento verdadeiro, onde a menina está comendo e se diverte – de verdade – pois não consegue engolir um ovo. O diretor teve tanta sensibilidade, que continuou filmando e registrou o momento onde todos os atores, incluindo a Marie, dão muitas risadas com a reação da menina. Um verdadeiro momento inesquecível da história do cinema.

2- Oshin ( 2013 ), Japão

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“Oshin”, dirigido pelo Shin Togashi, é um dos filmes que eu mais chorei na minha vida. E ele foi feito para mexer com o psicológico da humanidade. A protagonista, Oshin, é enviada para trabalhar em outra família, pois a sua está passando por sérios problemas financeiros.

O que mais encanta nesse filme é a protagonista, dona de uma maturidade sem fim, ela aceita a sua condição, mas sofre silenciosamente. E só demonstra ser criança em cenas bem singelas, é de uma força esse filme que beira o inacreditável. Recomendado para todas as mulheres, pois é uma verdadeira homenagem à elas, triste é pensar que essa é uma história que foi vivida por inúmeras crianças.

Kokone Hamada é a atriz protagonista e ela é um absurdo. Quando eu escrevi sobre o filme a coloquei como uma das maiores promessas do cinema mundial, tomara que eu esteja certo e apareça outras oportunidades, porque o que ela faz é impressionante.

3 – Corpo Celeste ( 2012 ), Itália

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Dirigido pela queridíssima Alice Rohrwacher, esse filme foi selecionado para a quinzena dos realizadores no festival de Cannes em 2011. A história concentra-se em uma menina chamada Marta, de 13 anos, que se vê sufocada pela religião e passa a questionar a sua liberdade.

Esse é o típico filme poderoso, pois aborda tanto a liberdade da mulher, como também um desprendimento religioso, imposto pela família. Em uma cena crucial, Marta está fazendo crisma e tem os seus olhos vedados, representando a sua situação, cega diante a uma infinidade de possibilidades. Interessante é que depois que ela corta o cabelo, a sua postura muda completamente. Ela passa a se enxergar como uma mulher livre e vai de encontro com um amadurecimento provindo do incomodo e ousadia para livrar-se do comum.

4 – Garoto-Estilingue ( 1960 ), Tchecoslováquia

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Esse é dirigido por um dos melhores diretores tchecos de todos os tempos, chamado Karel Kachyna. “Garoto-Estilingue” é um dos seus primeiros longas, anos depois viria a fazer outra preciosidade chamada “The High Wall”. Inclusive escrevi uma crítica sobre esse filme e é uma das que eu mais me orgulho de ter feito, você pode conferir clicando aqui.

Garoto-Estilingue” conta a história de um garoto que é salvo de um campo de concentração e levado pelo exército tcheco. Lá ele se torna uma espécie de mascote, todos o tratam com muito carinho, e o garoto começa a se sentir como parte de uma grande família. No mesmo tempo tenta mostrar a sua força e se diz pronto para entrar na guerra com os amigos. O garoto-estilingue da tradução ou prace no original faz referência aos garotos tchecos que lutavam com estilingues na guerra.

Esse é super esquecido e é um dos melhores que eu já assisti na minha vida. É difícil encontrar bons filmes sobre a guerra e esse sem dúvida é um dos melhores. O menino protagonista é muito carismático e o espectador sente todos os seus dramas. Outro ponto interessante é acompanhar o exército que, mesmo em meio a guerra, encontra no menino uma fuga para a inocência, eles o tratam como filho, como se fosse uma possibilidade real de voltar para a casa.

5 – Doro no Kawa ( 1981 ), Japão

Mais um filme japonês, esse é o primeiro do diretor Kôhei Oguri. É um filme super sensível sobre a amizade de dois garotos pós-guerra.

É mais um que usa bem a guerra para contextualizar os dramas dos seus personagens, com destaque para todo o elenco infantil que interpretam com o coração, doam tudo o que sabem e constroem algo lindo e emocionante de se ver.

Alguns temas como abandono e dificuldades financeiras são trabalhados de forma muito minimalista, chega a doer tamanho carinho e dedicação. Esse é um outro tesouro perdido que, sem dúvida, emocionará muitos com a sua profundidade e simplicidade.

6 – Uma Vida Nova em Folha ( 2009 ), Coréia do Sul

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Particularmente eu tenho um carinho muito grande com esse filme. Foi o primeiro do cinema sul coreano que eu assisti na vida. Lembro-me que era apenas um adolescente e conheci esse cinema maravilhoso, repleto de sensibilidade. A diretora Ounie Lecomte simplesmente marcou a minha vida, eu assisti esse filme há muito tempo e ainda me lembro de todas as cenas como se tivesse assistido ontem.

A história é sobre uma menina chamada Jin-hee, de 9 anos, que é levada pelo pai à um orfanato, então passamos a acompanhar a menina e a sua dificuldade em aceitar a nova vida, talvez a palavra “aceitação” é a mais trabalhada durante toda a obra.

Destaque para a atuação da Sae-ron Kim que, hoje, tem quinze anos e é muito popular na Coréia do Sul. Ela é um verdadeiro talento e merece todas as coisas boas nesse mundo, a acompanho desde novinha e é sempre um prazer perceber o quanto é talentosa.

Destaque para uma cena onde a protagonista, cansada da sua “nova vida”, cava um buraco e joga terra por cima. Como se estivesse gritando para o mundo que não quer mais pertencer a ele. O filme é extremamente silencioso mas, através do silêncio, machuca muito.

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Bem, essa é a primeira parte, eu vou retomar a lista na semana que vem. Espero que tenham gostado e convido à todos a deixarem nos comentários as suas recomendações. Abraço amigos!

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CdA #54 – Mc Melody, funk e o futuro das nossas crianças

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Nesse episódio do formato ímpar, Emerson Teixeira faz uma reflexão sobre a situação atual de muitas crianças que são expostas muito cedo a sua sexualidade. Além dos perigos da internet e o caso da Mc Melody, que representa bem toda essa manipulação que estamos vivendo.

Leia a transcrição: http://cronologiadoacaso.com.br/2016/01/25/mc-melody-funk-e-o-futuro-das-nossas-criancas/

Cover da música “Piloto Automático” feito pela Mariana Nolasco e tocada no final do episódio: https://www.youtube.com/watch?v=xf-XTmg0Vsg

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Um cinema para todos

Essa foto foi tirada em um dia muito especial na minha vida. Como professor de tecnologia em um programa do Governo, desenvolvi há alguns anos um planejamento que cobrisse algumas necessidades pessoais e, inevitavelmente, entendia que fosse um grande ganho para as crianças/adolescentes com os quais trabalho ou trabalhei. Portanto, dou aula de fotografia, cinema, enfim, primando, essencialmente, pela arte, enquanto inserida na própria tecnologia.

Depois de criar um cineclube na própria escola, que atendesse exclusivamente os alunos que participam do programa, na sua maioria carentes, nós tivemos a oportunidade de levá-los ao cinema, uma boa parte deles, pela primeira vez!

Primeiro fizemos um piquenique, depois entramos com umas 90 crianças, separadas em pequenos grupos, no shopping. A reação deles era incrível, olhavam tudo com muita atenção, o sorriso era intrínseco. Eu tive o prazer de, antes, falar um pouco como funcionava a mecânica do cinema, então lá estavam presentes 90 “mini-cinéfilos” que, por serem crianças, esqueceram tudo e foram envolvidos tão somente pela magia.

Eu, cinéfilo que o sou, que já afirmei diversas vezes que o cinema mudou a minha vida, me salvou… Estava diante de uma real possibilidade de me imortalizar. Enquanto cuidava do meu grupo, tirava fotos desenfreadamente e, nos momentos oportunos, me distanciava para me emocionar sozinho.

Bem, esse foi um dos casos, mas o cinema me proporcionou outros momentos assim, de reflexão. Eu nunca fui rico, inclusive acabei de escrever que sou professor, que fotografo, ou seja, dois empregos que não dão dinheiro. Não que eu me importe com isso, pelo contrário. Eu sou feliz com o meu torrent, sou feliz quando no final do mês pego meu dinheirinho ( que sobrou das contas, pois, infelizmente, cresci ) e vou até o cinema assistir um filme blockbuster – sim, apesar do [Cronologia do Acaso] ser exclusivo sobre cinema alternativo, eu assisto também esses para me divertir.

http://www.revistaforum.com.br/blog/2015/08/blog-e-criticado-na-internet-por-defender-fim-do-cinema-barato/

Esses dias li o texto do Jurandir Filho, não o conhecia muito bem, mas, sinceramente, o conteúdo apresentado me desanimou bastante. Não criticando a sua pessoa, muito pelo contrário, todos nós somos cabíveis do erro, mesmo que tenhamos convicção do que foi falado ou escrito, a experiência que vivemos, a criação, muda bastante o nosso olhar. Afinal, o conteúdo do texto soa arrogante, apostaria, inclusive, que o autor deve ser abastado e, pelo mesmo motivo, acabou se esquecendo da outra grande maioria, a qual eu também me incluo – pois pagar 20 reais para assistir um filme chato/sem conteúdo como a maioria desses filmes de super heróis, comédias nacionais e demais produtos que as salas me oferecem atualmente, é um absurdo.

Novamente, o autor foi ignorante no que diz respeito a indiferença com a realidade do nosso país, pois as pessoas merecem a oportunidade de entrar em contato com a arte, é o mínimo que se pode esperar, aumentar os valores só faria e faz com que as pessoas fiquem cada vez mais cômodas. Que bom seria se o livro fosse um real, se o cinema fosse um real, quem sabe assim as pessoas tivessem a mesma oportunidade que esses “críticos” tem de assistir tantos filmes no cinema, muitos desses, inclusive, criando um conteúdo extremamente superficial.

Apesar de que, existe sim uma postura diferente das pessoas em relação ao entendimento do cinema como arte, nesse ponto o Jurandir tem razão. Mas, um grande portal como o Cinema com Rapadura impulsiona isso e tem todo o direito, afinal, lucra muito, mas é extremamente infantil atribuir isso ao público quando, no mesmo tempo, 90% do conteúdo desses grandes sites só falam sobre o mesmo, direcionando o leitor/ouvinte para o consumismo e tirando-o a oportunidade de olhar para uma outra direção.

Não sou contra ninguém, a diferença tem que ser louvada. O Jurandir não está errado em colocar a sua opinião, assim como o seu conteúdo é importante. Mas há um abismo entre o cinema/produto e o cinema/arte. No mesmo tempo que a linha é tênue. Faltou um pouco mais de carinho, de observação, tem muita polêmica e pouco amor no conteúdo em questão.

O cinema não deve ser mensurado.

E, da mesma forma que mesmo com tão pouco, consegui ver o brilho nos olhos das crianças por entrarem em uma sala de cinema pela primeira vez, queria que o mundo sentisse o que eu sinto quando vejo um pai de família, com roupa do trabalho, levando seus dois filhos para assistir algum filme em cartaz. Sem pensar muito, sem questionar o preço – mesmo que seja monstruoso – pois, pelo menos uma vez ao ano, ele precisa sentir o sorriso daqueles que ama.

Se o mundo estivesse no cinema, 
As pessoas pelo menos estariam em silêncio.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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