Wend Kuuni, 1983

Wend Kuuni (Idem, Burkina Faso, 1983) Direção: Gaston Kaboré

Burkina Faso é um país altamente pobre do continente Africano. A pequena população passa fome, as crianças, na sua maioria, são desnutridas, ao ponto de terem que se alimentar de lagartas das árvores de karité para sobreviver. Mas uma curiosidade que chama muito a atenção é que o pequeno país produz uma quantidade enorme de filmes, inclusive sedia o maior festival de cinema do Continente Africano: o Fespaco.

Inclusive um filme da Burkina Faso já ganhou a Palma de Ouro em Cannes, se trata do maravilhoso “Tilaï”, ou “Questão de Honra” (1990). Essa obra traz consigo um registro visceral do povo, com uma narrativa que se desdobra, dentre outras coisas, em uma relação proibida.

Wend Kuuni foi lançado sete anos antes, dirigido pelo Gaston Kaboré – cujos filmes são raros, mas de extrema relevância quando tratamos sobre o cinema Africano – e que tem em sua essência a linguagem documental. A relevância da obra é justamente acompanhar um povo e a sua rotina, principalmente os seus trabalhos, através dos olhos de um pequeno menino que se perde e é adotado por uma nova família.

Quem interpreta o protagonista, Wend Kuuni, é o Serge Yanogo. Um trabalho impressionante pois determina exatamente a energia do filme, a sua performance é pautada na naturalidade, no entanto a força da sua expressão faz com que a história ganhe novas proporções. É de se notar que todos os eventos partirão da sua, a princípio, incomunicabilidade – o menino, após o trauma de se perder, não tem forças para falar e isso é altamente metafórico -, passando pela adaptação com o novo povoado. Os passos do protagonista representam não só as dores das suas tristes experiências, como também sinalizam o caminho que o espectador percorrerá. A partir dele, vários temas subliminares aparecem, o mais expressivo deles, sem dúvida, é a condição da mulher e o seu aprisionamento dentro do próprio sistema de vida. Isso pode ser ilustrado em dois momentos: um é quando acontece uma briga entre um casal no povoado, onde a mulher se revolta com o seu marido, o qual grita que a castigará fisicamente. O segundo momento é uma pequena garotinha – que passa a ser a irmã do Wend Kuuni – imaginando ser homem, chega inclusive a mencionar uma história de “espíritos que transformam mulher em homem”.

Mas os temas, motivados pela simplicidade do filme, afinal, é perceptível o orçamento quase inexistente, aparecem de forma tímida, sempre enraizadas com a cultura. A proposta é mesmo ser extremamente visceral e tanto o estilo de vida do povoado, quando a paisagem seca, ajudam nessa intenção.

A trilha sonora é constante, a música delicada pontua um cotidiano comum e regrado de trabalho, principalmente o artesanato. Importante ressaltar que o protagonista, na sua outra vida, era um caçador. Portanto precisa se adaptar, também, a um estilo de vida equilibrado, mesmo diante a fome e pobreza.

Mesmo que Wend Kuuni nunca atinja um ápice dramático, se trata de um filme altamente importante do país, principalmente por se tratar de uma arte altamente real. Existe muita beleza na simplicidade das cenas, das atuações e da própria história. O cinema parece ser feito disso, oportunidades únicas e ideias que captam a realidade de determinado grupo social, indivíduo sem lugar e adaptações com o diferente. O potencial dramático de um garoto calado, sofrendo suas dores sozinho, é grande, principalmente quando ele representa a história e condição de um país inteiro.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Discurso de um Proprietário, 1947

Discurso de um Proprietário ( Nagaya shinshiroku, Japão, 1947 ) Direção: Yasujiro Ozu

Yasujiro Ozu é um dos maiores nomes do cinema japonês. Sua influência é imensa até hoje e tem como maior mérito a sensibilidade. Os temas dos seus longas geralmente incluíam a família, principalmente a figura materna, mas sempre conseguia explorar mensagens novas e igualmente fortes, principalmente dado o contexto histórico durante as realizações das suas obras. Um Japão doente, quebrado, com medo e sofrendo as consequências de uma guerra e infinitas limitações.

Nesse contexto, certamente falar sobre a guerra era algo movido por uma coragem e segurança inabalável, um dos maiores exemplos é “Discurso de um Proprietário”, onde os impactos sociais e, principalmente, emocionais, são observados a partir de um elemento estranho sendo obrigado a adentrar em um núcleo familiar e como todos reagirão a essa nova presença.

Na história Tashiro (Chishû Ryû) encontra um garoto perdido e leva para sua casa, na intenção de que algum dos seus vizinhos o adote. Com muita relutância a senhora Otane (Chôko Iida) fica com o garoto e, no começo, a relação é pouco saudável e muito arrogante. Ela lida com o garoto como se fosse um bicho, “um perdido” como é citado ao longo. Mas aos poucos a convivência vai se tornando agradável até alcançar a função de um portal de segurança e afeto ao garoto e amor incondicional por parte da Otane.

O diretor é conhecido como “o mais japonês dentre os cineastas japoneses”. O seu trabalho é permeado pela ambição de transformar quem assiste em japonês, inserindo-o na cultura de forma visceral, a execução é inteligentíssima para isso, a começar pelas histórias simples e personagens comuns, sua narrativa é tão natural que dialoga muito com os documentários.

Em “Discurso de um Proprietário”  a famosa câmera baixa do diretor, contextualizando o olhar assim como os japoneses ao fazer as refeições, também está presente desde a primeira cena. É delicado como o espectador conhece a família principal através de diálogos diretos, íntimos, como se fossemos um outro integrante da família. Não existe rodeios para a contextualização dos eventos, no primeiro minuto o garoto chega na casa, sua postura – geralmente com as mãos nos bolsos, já são assimiladas e, a partir de então, só temos tempo para apreciar o simples em forma de obra-prima.

A pobreza e a situação catastrófica social é nebulosa, sendo mantida como pano de fundo de uma família em sintonia. Uma cena onde diversos amigos cantam na mesa de refeição é a prova disso, inclusive a canção é sobre um amor em plena guerra, algo que simboliza justamente o quanto, no íntimo, pode existir esperança nas coisas mais terríveis.

Há ainda espaço para filmagens externas belíssimas, todas com a intenção de engrandece o local e aproximar a senhora Otome do garoto. A jornada de conhecimento, principalmente de assimilação das emoções e afeto entre os dois, é poderosa. O caminho até surgir a frase “pode chamar isso de amor materno” é dura e, por vezes, fria, mas a conclusão é de uma poesia encantadora.

É de se notar que o choro, no final, é pelas coisas terem dado certo. É extremamente difícil, no cinema, encontrarmos um personagem que se emociona e chora por algo que não é movido ao individualismo e interesses próprios. A senhora Otome, mesmo sendo obrigada a se distanciar, ignora a sua dor e fica feliz pelas coisas terminarem bem. Essa sensibilidade é consequência de uma dor coletiva, ausência total de esperança por dias melhores e amor incondicional que só uma mãe poderia ter. Uma verdadeira obra-prima do cinema japonês e mundial.

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Coro, 2015

Coro ( Chorus, Canadá, 2015 ) Direção: François Delisle

O luto é um processo demorado, talvez represente a maior injustiça de todas e é um claro aviso do universo sobre a nossa finitude. Essa espera pelo depois, bem como a consciência da morte torna a existência mais bela, mais intensa, – ou deveria – mas ainda assim é complicado essa frase quando ela é inserida em um evento particular.

A família simboliza a segurança existencial, um abrigo diante às inúmeras oportunidades de cair; uma mãe doa tanto de si ao filho que, no fundo, esquece das suas próprias limitações e sonhos, tornando-se mestre de um universo inteiro a ser pintado, mas que, por consequência do tempo, desvincula-se da sua essência e experimenta o mundo dentre suas próprias convicções.

Cores vibrantes dão lugar ao preto e branco em “Coro”, dirigido pelo François Delisle. Acompanhamos Irene (Fanny Mallette) que, após dez anos da morte do seu filho, é obrigada a reviver as conturbações do evento, para isso precisa do apoio do seu ex-marido Christophe (Sébastien Ricard) que, juntos, se sustentam e conversam em silêncio suas dores, culpas e vazio existencial; ambos possuem um espaço em branco que jamais será preenchido.

O luto caminha como uma sombra junto com os dois personagens centrais, modificando suas posturas e escolhas diante à vida e, por consequência, também aflige aqueles que estão envolvidos. É uma dor sendo trabalhada em forma de estudo de personagem, principalmente Irene, e esse sentimento é tão forte que não há formas de escapar, portanto, o espectador sente a presença de uma aflição que não têm esperanças de partir, humanizando a sensibilidade e a transformando na maior realidade possível.

A obra se baseia no silêncio e pequenos movimentos para representar um estado psicológico – geralmente Christophe e Irene estão lado a lado, representando justamente o sufoco por não conseguir compartilhar suas depressões, senão, entre eles mesmos; quando os dois finalmente veem os ossos desenterrados do filho, Irene surta e Christophe vai para o canto da tela, simbolizando a sua consciência de culpa sobre o ocorrido, principalmente em relação às consequências emocionais para a vida da sua ex-mulher que, detalhe, ele ainda ama mas não consegue olhar diretamente nos olhos.

Ainda há uma simetria em cada quadro, vale ressaltar que os personagens geralmente são filmados entre objetos, móveis ou paredes, reforçando a ideia de claustrofobia que envolve a todos. A condição da existência oprime o pai e a mãe, eles passam a ser escravizados pelo próprio espaço.

Irene canta em um coral na igreja, algo que exige muita concentração, organização e, principalmente, mútua cumplicidade e aceitação entre os envolvidos, algo que certamente precisará aplicar em sua vida.

Ao longo do desenvolvimento, há preocupações em estabelecer um elo da situação com pequenas reflexões da protagonista, em um plano detalhe, por exemplo, ela toca a cicatriz da cesária; assim como existe algumas alegorias da repetição, a mais profunda é quando Christophe admira o desenho do filho e passa o dedo justamente em um espiral – a câmera move devagar até vermos a totalidade e percebemos que se trata de um caracol – que representa não só os contornos da situação, como também o seu estado emocional, visto que não têm certeza se continua com sua ex-esposa ou volta para o México; e, depois, Irene passa os dedos em uma camisinha usada, repleta de espermas, como se fizesse carinho em um futuro utópico, onde a criação desse uma segunda chance para o amor e vice-versa.

O filme é uma alegoria sobre o abandono, seja literal ou psicológico, em suma, algumas dores não podem ser compreendidas ou mensuradas, senão, por aqueles que as vivem. “Coro” começa sua jornada com essa certeza, envolvendo muita coragem e respeito de modo a contemplar perfeitamente um fato horroroso. A poesia se encontra na simetria visual e no silêncio provocativo, criando uma verdadeira análise sobre o luto e o recomeço.

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Djamilia – A força feminina como portal para o amadurecimento

Djamilia ( Dzhamilya, União Soviética, 1969 ) Direção: Irina Poplavskaya e Sergei Yutkevich

Quem é Dzhamilya? 

Quem é Dzhamilya? onde se encontra a distinção entre mulher e homem, senão, pela separação e dores da guerra? um lado existe a saudade e preocupação; do outro a saudade e o medo de não voltar. O trabalho no campo demonstra uma característica fundamental que isenta às mulher de pensar em seus maridos mergulhados na guerra: preencher suas mentes e esgotar o físico com o trabalho desenfreado. Nesse intervalo, uma doce camponesa consegue sorrir, despertando inveja e curiosidade nos demais por ser, bem, como dizem, livre.

Quem é Dzhamilya? metaforicamente, Dzhamilya é o espírito liberto e entregue à vida como se as horas fossem segundos; é a entidade que mora em cada mulher que se desprende e se rebela contra a sociedade que teima em traçar uma infeliz diferença entre o masculino e feminino, atribuindo ao primeiro a força absoluta no que diz respeito à estrutura de uma relação. Aqui, de forma poética, Dzhamilya e sua força são os perfeitos veículos para uma provocação generalizada, partindo da estranheza das demais mulheres, passando por uma ajuda inconsciente à uma criança a se entender como jovem e finalizando na paixão.

Um processo cru, visceral, poético e agridoce de uma jovem diante de si mesma e a possibilidade de desprendimento.

Essa é Dzhamilya, uma camponesa de cabelos compridos. Trabalha em meio à natureza, caminhando entre as suas irmãs, as flores. O seu marido está na guerra e o único laço afetivo da menina é o seu cunhado, um pequeno menino. Os dois se divertem em um mundo que estranha o sorriso; eles zombam do sacrifício; eles são o que são, compõe rimas com suas verdades e isso basta.

Dzhamilya sente falta do seu marido constantemente…

[…] mas sua força é extrema e o seu coração gigante ao ponto de lidar com todos os problemas de modo surpreendente: amando, compartilhando, brincando, o que a transforma em uma eterna criança sem, com isso, perder a identidade dominadora e inteligente de uma mulher.

Uma obra da União Soviética, baseado em uma novela homônima de Chingiz Aitmatov, a qual o grande escritor Louis Aragon creditou como sendo “a mais bela história de amor de todos os tempos”. E é assim, em uma primeira camada há somente o romance, mas trabalhado com lirismo. O campo, tomado por plantações de trigo, é a perfeita composição do quadro, que possui Dzhamilya como sua protagonista, aquela que traz cor ao preto e branco brilhantemente trabalhado de forma a representar as emoções tristes escondidas em todos na vila.

É irônico o longa começar com uma discussão entre dois adultos – pai e mãe – onde ele obriga Dzhamilya trabalhar e ela se mostra mais flexível. Duas mentalidades opostas, incentivando um artifício que será muito utilizado ao longo de todos os minutos. Diversos caminhos vão surgindo, restando aos personagens fazerem as escolhas dos seus destinos, bem como usar as experiências do passado. Não à toa a história é contada por meio de uma narração – do próprio escritor Chingiz Aitmatov – e simula o garoto no futuro onde, morando em uma cidade populosa, se tornou artista, inclusive todas as suas pinturas remetem as suas inesquecíveis experiências com Dzhamilya, como se ela realmente fosse a musa inspiradora tanto de liberdade quanto de inocência, despertando paixão naqueles que acreditam em suas atitudes.

A fotografia colorida e comum do presente, na cidade, dá lugar ao preto e branco do passado, no campo. Penetrante, assim como as inserções das pinturas do narrador durante os 83 minutos, de forma a contextualizar-nos no olhar do menino e como os eventos impactaram e serviram como uma ponte entre ele e o seu amadurecimento.

Desde os primeiros momentos que a protagonista é apresentada, as suas atitudes, todas vinculadas ao desprendimento, ficam claras: um homem a agarra dizendo “onde eu coloco os meus pés é o meu caminho; e a mulher que eu agarro é minha” e ela prontamente o empurra, afastando qualquer opressão e estilo de vida conservador, ela fora criada para aceitar mas se transformou em uma inconformada, rebelde e indomável.

“É difícil explicar o que houve com Dzhamilya. E como ela desejava sua alma. Eu corria atrás dela, a olhava. E assim, eu também me livrava da tristeza. Então eu não sabia que, na minha mente surgia o quadro, que depois eu chamaria de “a mulher que corre pela campina”

A trilha sonora pauta bem o clima convidativo. A sensação é de empatia imediata pela certeza da protagonista, sua maneira espontânea de enfrentar uma situação caótica. É de uma esperança e choque, ao mesmo tempo, como se alguém nos desse um soco no estômago de modo a reconhecermos que, no pior momento das nossas vidas, sempre haverá a possibilidade de dar pulinhos sobre os problemas e rir, se encantar, apaixonar-se e fugir… para depois começar tudo de novo.

Quando Dzhamilya ri, obtém como retorno uma indagação: “por que você ri? traz boas notícias?”, a heroína sabiamente responde: “simplesmente sou feliz”.

Quando um outro personagem aparece, Daniar, um amor surge. Ele, tímido, a observa e absorve mesmo que distante a sua energia, enquanto a menina/mulher o irrita de diversos modos, culminando em uma cena em que troca o saco de cereais por um mais pesado, obrigando Daniar a carregar cem quilos nas costas enquanto sobe uma escada. A brincadeira passa dos limites e a culpa se faz presente, principalmente pelo fato de Dzhamilya saber que o Daniar ficou com problemas nas pernas após retornar da guerra. O sofrimento do homem calado, carregando a sua maldição, é demonstrado como um sinônimo visual da coragem: a filmagem chega a inverter, de modo que toda a normalidade se perca.

Brilhantemente dirigido – a força extraída de todos personagens e figurantes é sublime, além da composição das cenas externas – e atuado por Natalya Arinbasarova que, com toda a sua beleza, dá a sua personagem uma doçura enorme, que certamente funciona muito bem para o rápido encanto de quem assiste.
A cena final apresenta um cavalheiro, cavalgando sobre um cavalo branco, como um príncipe. Ele persegue um cavalo negro, indomável, assim como Dzhamilya. A mensagem é pura, ousada e atemporal, uma vida sem medos, incertezas e arrependimentos, sendo transmitida da forma mais inteligente possível. Como conclusão, é um dos “maiores filmes de amor de todos os tempos”.

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A Chave, 1986

A Chave ( Kelid, Irã, 1986 ) Direção: Ebrahim Forouzesh

A sétima arte é uma entrada para a reflexão do comum. As possibilidades são imensas, pois a intenção é a imortalização das imagens, algo que o Homem tenta desesperadamente desde os primórdios da sua existência. É como se o conforto do ser fosse a materialização audiovisual das suas lembranças ou sonhos, transformando o inconsciente em algo palpável; sendo possível ver, ouvir e sentir constantemente os seus maiores sonhos e medos. Essa ideia pode soar como um conto de fadas – tenho minhas dúvidas se não o é – mas, na realidade, podemos denominar essa necessidade como “cinema”.

Quando jovem olhei dentro da minha própria alma com o cinema iraniano. E, assim, fui crescendo ao ponto de me tornar o que sou hoje. Nem sei mais se sou jovem, homem, mulher ou criança, a única certeza que tenho é que o meu fascínio por esse cinema só aumentar com o passar dos anos e, a cada minuto que passa, ganha diversas justificativas. A minha visão cinematográfica passa pela humanidade e intromissão do alheio, portanto, a identificação é imediata quando uma obra audiovisual oferece o simples e compõe sua história com o real. Essa narrativa geralmente, por mais frágil que seja, acompanha o espectador por uma jornada incrível de catarse.

“A Chave”, dirigido por Ebrahim Forouzesh e roteirizado pelo mestre Abbas Kiarostami, é mais uma prova que sensibilidade e simplicidade são grandes amigas, quando falamos sobre cinema iraniano. A história é sobre um garoto de quatro anos chamado Amir Mohammad que acorda em uma manhã e vê sua mãe saindo e trancando a porta, deixando-o junto com o seu irmão, ainda bebê. Diante da demora da sua mãe, o menino se vê preso e precisa da ajuda dos vizinhos e da avó para conseguir abrir a porta.

É engraçado assistir filmes como esse e estudar a sua narrativa, aparentemente fácil, de modo a compreender as camadas. Em “A Chave” não temos um vilão que não seja a própria adversidade. A mãe que não retorna para casa é mais um elemento de dificuldade, mas nunca se faz necessário a discussão sobre os motivos que a levaram a tomar tal atitude, simplesmente porque a história é tão bem escrita que, mesmo sem conhecê-la, sabemos que a figura da mãe é atenciosa e protetora, portanto, algo terrível deve ter acontecido com ela. Mas tudo é sugestão.

É necessário existir um grande grau de confiança no roteiro para ocultar explicações que facilitariam a compreensão sobre os acontecimentos. Nesse longa, portanto, a única coisa que importa é a criança e como qualquer decisão ou movimento, aparentemente simples para um adulto, se torna grandioso e difícil para um ser em formação. O protagonista ainda se vê preso entre as tarefas afim de sair do apartamento e a atenção e carinho ao irmão, por vezes chega a dar mais atenção à criança do que o perigo que corre – tem uma panela a ponto de explodir no fogão, o que gera bastante tensão.

Não à toa, logo nas cenas iniciais, Amir Mohammad alimenta com cuidado o seu passarinho enjaulado, representando a situação que se encontraria posteriormente. É de uma poesia incrível, pois se trata de uma linguagem documental, câmera estática acompanhando as decisões e detalhes de alguém que, na maioria das vezes, é pouco visto.

As filmagens exteriores e, por consequência, os outros personagens que aparecem, sempre remetem aos adultos tentando ajudar os irmãos presos. Por ironia, a ajuda é cercada de dificuldades e, mesmo sendo mais velhos e sábios, pouco fazem diante à situação.

O filme é mais uma prova da qualidade do cinema iraniano, nos faz pensar com tranquilidade nas adversidades e como elas podem mudar conforme as limitações.

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[ Republicação ] – Oshin, 2013

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Há! Como é grande o meu amor pelo cinema. Como é grande o meu amor pela vida, por histórias, como sou feliz por encontrar obras de artes perdidas como “Oshin”, filme japonês – olha, quem diria que iria voltar ao país tão cedo – de 2013, dirigido pelo Shin Togashi e que tem, em seu elenco, uma das atrizes mais bonitas, ao meu ver, Ueto Aya fazendo a mãe da personagem título, interpretada pela adorável e talentosa… pausa, peguem o caderno… pausa… Kokone Hamada! Você caro amigo(a), anote esse nome, estamos falando da menininha que se tornará, em breve, uma das maiores atrizes do Japão. Por que o que ela faz nesse filme é uma das coisas mais profundas que eu já vi, no que diz respeito a atuação de crianças, olha que, como pesquisador do tema que eu sou, já vi muitas atrizes boas, principalmente vindo da Suécia, mas essa menina é de deixar boquiaberto, mesmo com certos exageros costumeiros do cinema Japonês ela realiza algo inacreditável, eu ouso creditar como classificar como a maior performance mirim que eu já vi na história do cinema.

Na postagem anterior, sobre “Paixão Juvenil” eu falei um pouco sobre a visão que a mulher tinha no Japão, bem, claro que o filme que comento hoje é recente, porém ele se passa em um período muito conturbado onde, consecutivamente, a mulher era alvo de muito sofrimento. Em pleno período Meiji, repleto de mudanças políticas, econômicas, assim como o próprio trabalho, o povo buscava encontrar uma forma de viver, em meio as mudanças e, sim, era comum o trabalho de criança, desde muito novos. Até chegar nas mulheres, que serviam a casa de todas formas possíveis. Tá, até ai não tem muita novidade, o fato é que teremos todas essas questões sendo tratada de forma extremamente sutil através de uma garotinha de 7/8 anos. O que, diante a inúmeros eventos catastróficos, digo, tristes, ela vai amadurecendo, até chegar ao ponto de ver sua mãe se prostituindo e, com as sábias palavras da sua patroa, busca o equilíbrio com a verdade de que, a mulher, está fadada a nunca trabalhar para si própria, mas para os filhos, maridos etc. Por fim, em um diálogo esplêndido, a senhora ainda fala para a menina “ame-a – sua mãe – com todas as suas forças” pois ela sofre por estar fazendo o que faz, assim como a menina sofre com a vida que lhe fora imposta.

Um filme extremamente triste, sim, real, é impossível não chorar, mas mesmo com os recorrentes exageros, em nenhum momento senti a obra pedinte, os acontecimentos vão desabrochando naturalmente, de forma que a emoção também seja muito natural, mesmo que quase durante todo o filme. A menina é um poço de coragem e atitude, servindo como exemplo, eu diria, para essa nova geração que tem tudo nas mãos, sim, eu também estou me incluindo. Poxa, ela começa a trabalhar aos sete anos, não conseguimos mais imaginar algo assim, ainda mais surgindo com tamanha naturalidade para a família essa questão, o pai soa como um explorador, mas não deixa de ser igualmente explorado, então estamos limitados a fazer um contexto mesmo, em prol a entrega, sem ficar com tanta raiva das injustiças, o que é bem difícil. Importante a reflexão/experiência adquirida ao assistir “Oshin”, tem como protagonista uma personagem muito madura e fofinha, cujo nome significa confiança, a qual, aliás, aprenderá a adquirir, por mais que seu direito de opinião seja praticamente inexistente, mas, no fundo, ela consegue ler e, sendo assim, é diferente, há muita esperança em seu sorriso simpático.

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Mc Melody, funk e o futuro das nossas crianças

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Parte 1 – Procura por explicações

Onde está os adultos no funk? Ou melhor, onde está os adultos no mundo? O que será que andamos fazendo em? Mexendo no whattsapp enquanto nossas crianças… mexem no whattsapp no outro cômodo da casa?

Incrível pensar que estamos vivendo uma era onde a distância está mais presente do que nunca, o homem vive no seu casulo e cuidar de um filho se tornou muito fácil: pois há, hoje, diversas formas de hipnotizá-lo.

Já pensei ou me questionei por diversas vezes se eu seria um bom pai, até por ser abandonado pelo meu, a gente sempre acaba tendo um pouco de medo. Mas o fato é que, hoje, fico com mais medo do mundo do que da minha possível incapacidade em criar.

Tem uma palavra chamada cultura, é essencial que a família assuma esse papel inicial de transmitir o conhecimento. É óbvio que cada uma está inserida em um contexto e o saber nunca será o mesmo em todas as crianças, porém é preciso fazer o mínimo de esforço para que “fugas” como a internet sejam menos impactante na vida do ser em formação do que atualmente é. O Brasil vive uma carência de informação, tudo é muito caro, o entretenimento é luxo, existe muita preguiça em procurar coisas novas. A pena é que esse último fator é o que mais separa o brasileiro do conhecimento, o comodismo é um perigo.

Eu não estou falando exclusivamente das escolas, até porque todos sabem que a educação no Brasil é outra discussão complicada – e falo isso como professor de crianças e jovens de escolas públicas – existe um conhecimento crucial durante a formação que se chama experiência. Não sou daqueles que vivem dizendo aos ventos que o “meu tempo era melhor”, mas sem dúvida posso me lamentar que no meu tempo éramos mais livres.

A violência proíbe a criança de brincar na rua, existe uma onda grande de estupro, a mulher é tratada cada vez mais como objeto, enfim, está realmente difícil a situação do ser que, milagrosamente, continua respirando um ar repleto de vírus.

Esses e outros fatores fazem com que cada vez mais crianças e adultos se desenvolvam em meio a uma série de repetições e desinteresses, estamos todos sufocados com a monotonia e rotina. O encontro se torna frívolo, restando aos bates papos virtuais preencherem as nossas necessidades de elogios e sorrisos o que, por sua vez, podem ser traduzidas por emoticons. E esses bichinhos falam exatamente aquilo que queríamos não é mesmo? O homem está se auto-privando de desabafar o que sente. E o sentir se tornou arma para fracos.

Parte 2 – Exposição na internet e funk

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Gente, o que vou falar aqui é muito sério, você que acompanha o Cronologia do Acaso, sabe que jamais divulgaríamos ou falaríamos algo a toa, por favor, usem esse episódio como alerta, você, criador de conteúdo na internet, que escreve textos reflexivos, ajude nesse aviso.

Como uma pesquisa para esse episódio, eu fui atrás de alguns cantores, casos e vídeos de funk. Na verdade, o que eu encontrei atualmente no gênero musical é 90% produzido por crianças. O pior e mais perigoso é que existem adultos por trás delas, guiando-as, ensinando o caminho da exposição, distribuindo-as como se fosse garotos e garotas de programa. E tem gente que consome, que fica silenciosamente esperando a próxima criança rebolando, pronunciando vulgaridades que não cabe em sua boca inocente.

Antes vamos voltar um pouco e falar sobre o funk:

O funk é um gênero musical que teve inicio, basicamente, nos anos 60. Teve inspirações de diversos outros gêneros e criou-se musicas dançantes, que exploravam um lado muito espirituoso de, principalmente, uma classe inferior diante as imposições da sociedade.

Eu costumo usar bastante jazz e blues nas edições do Cronologia, sou fã de nomes como Miles Davis, John Coltrane, Nina Simone, Tom Waits etc. Já fui ignorante o suficiente em afirmar que as músicas que eu gostava eram melhores do que os dos outros. Hoje me entendo como uma pessoa que navega por entre estilos, tenho as minhas preferências mas tento não ter preconceito com nada.

Inclusive, o Jazz exerceu grande influência no começo do Funk. Vindo para o Brasil, o funk sempre foi muito interessante musicalmente, pois se tratava de um gênero cujo padrão é realmente ser simples. Então dava destaque às composições e certamente se tornava uma grande oportunidade para pessoas pobres, algumas vezes moradores de favelas ou simplesmente pessoas com pouca oportunidade, fazerem suas músicas e criar a sua arte.

Com essa liberdade, é evidente que iríamos cair na problematização da sexualidade, musicas com apelo sexual, algumas surgindo como representações do coito, enfim, é o que acontece. O sexo está presente em diversas outras músicas e composições, nos mais variados gêneros musicais. Esse não é o problema.

O problema começa, ao meu ver, quando a mulher é exposta e tratada de forma inferior. Quando o funk começou a ser uma arma de exposição e vulgaridade, mulheres invadindo a Tv e mostrando suas lindas bundas para crianças de todo o país que, consecutivamente, tentavam imitá-las. Mas essa é uma questão pessoal, apesar de achar algumas moças bonitas ou, sendo literal, gostosas, o que elas representam no funk jamais faz jus a importância e caráter que, acredito, todas tem.

O tempo passou e certamente foi se agravando essa situação. Com o aumento das drogas, lavagem de dinheiro e inerência do homem perante a tecnologia que se espalhava rapidamente no começo dos anos 2000, ficou claro que as novas gerações já nascem inundadas em um mar de sexualidade exposta de forma precária, cultura banalizada, vulgaridade e, o pior, sabem que é possível se expor de forma semelhante na internet e ai começa o desastre total.

Nas minhas pesquisas para fazer esse texto, me deparei com coisas que me assustaram.

Então vamos lá, escute um trecho dessa música:

https://www.youtube.com/watch?v=X921KUZiR38

Beleza, eu poderia julgá-la como uma verdadeira porcaria, fazer descaso e nunca mais escutar nada desse “cantor”. O problema é que se trata de um menino, aproximadamente uns 6 anos e, enquanto canta essa música, em um clip, tem duas mulheres rebolando atrás dele. O que é isso? Existem centenas de pessoas discutindo o feminismo etc, apoiando a mulher e o seu desprendimento mas, se olharmos para os conteúdos que nossos filhos assistem no youtube, veremos que chegamos ao ponto de menininhos cantarem repetidamente para mulheres quicarem, sentarem, pepeca e outras infinidades de coisas escrotas. Então é muito complicado remar contra a maré – mesmo que seja correto tentar – existe um enorme descaso ao próprio corpo, e as mulheres que rebolam nesse vídeo? Será que elas não são mães? Será que não tem mães? Onde fica a sua moral, empatia pelo garoto que se expõe de forma imbecil, manipulado por adultos e seus infinitos interesses.
Esse vídeo tem mais de dois milhões de visualizações no Youtube.

Parte 3 – Mc Melody

A internet está cansada de fazer piadas com a pobre Melody, não vou aqui tratá-la mal, muito menos chamá-la de idiota. Eu vejo e entendo a menina como vítima, ela tem uma clara expectativa de alcançar o sucesso, de certa forma está alcançando, mas está fazendo isso de um jeito terrível. O seu caso exemplifica toda essa questão das crianças, as transformações do mundo e o funk.

Mc Melody já falou em diversas entrevistas que estuda música com o seu pai, o cantor Mc Belinho. Quando eu ouvi isso, me partiu o coração. Sério. Dá para sentir a admiração que a menina tem para com o seu pai, para ela sem dúvida ele é o melhor musico do mundo – e, se focarmos apenas no seu olhar, ela tem razão – ela está certa em fazer isso, muitos teriam inveja de possuir uma figura masculina que representa todo esse orgulho na filha.

O porém é que Mc Belinho não é um bom musico e não está empresariando uma artista, mas sim uma bonequinha que vai morrer com a primeira luz de realidade. Ele manipula a sua filha – não sei se de forma intencional ou motivado, também, pela sua própria ignorância – e a motiva a fazer sucesso de forma ridícula e despreparada. As pessoas não dão risada com a Melody, dão risada dela.

Quais serão os impactos de toda essa exposição no seu futuro? O que se transformará esse orgulho do pai quando a maturidade atingir o seu cérebro e perceber tamanho interesse? Ou melhor, será que tudo isso realmente acontece ou a burrice no país cega o ser humano pela vida inteira?

A menina dá gritos, fala que é falsete e todos dão risadas disso, vira moda, vira música. Mais da metade dos que aplaudem ela, nem ao menos sabem o que é um falsete.

Vivemos em dias complicados para se entender, me sinto constantemente um peixe fora da água. Tento fazer a diferença dentro do que eu posso, mas como professor e estando inserido nessa realidade, percebo o quanto essa “cultura frágil” interfere na criação das crianças e, unido-se a isso, a internet é extremamente perigosa.

Guie as crianças, por favor. Você que é pai, mãe, irmão, tio, avô, se dediquem para fazer a diferença. Eu sou um adepto da ideia de John Locke e sua explicação da “tabula rasa”. Para mim todo ser humano é uma folha em branco, um vazio que será preenchido com suas experiências e cuidados exteriores, portanto a criança está sempre pronta para ser moldada, como uma linda obra de arte. Evite a exposição descontrolada, use e abuse da arte e, principalmente, dê muito amor às crianças. Elas só precisam ser escutadas e levadas a sérios, pequenos momentos de liberdade e desabafo total, onde nenhum compromisso ou tarefa seja mais importante que o seu sorriso.

Se, por algum motivo, eu não ter mais tempo para trabalhar tanto, estudar tanto, ler tanto, escrever tanto ou gravar podcast, pode ter certeza que eu vou estar ocupado demais tentando ser o melhor pai do mundo.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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O Pequeno Príncipe – a infância que se esvai

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O mundo existe aproximadamente 4.7 bilhões de anos. O ser humano existe aproximadamente 200.000 anos. Você tem quantos anos? Eu, nesse momento que escrevo, tenho 20 anos.

Eu sou o pó do homem. O homem é pó do mundo e o mundo, por sua vez, é o pó da vida. Somos todos lindos e cheirosos pó do pó do pó. Mas espera ai, antes de ficar irritado comigo, caro (des)conhecido, pense na areia da praia. Nessa areia existe vários grãos, imagina se todos os grãos se sentissem horríveis por serem apenas mais um em meio a tantos? Imagina se todos se demitissem de suas funções e fossem embora para longe?

Você costuma ler livros? Sabe aquela frase que ama? Essa frase existe em meio a outras inúmeras palavras, frases, páginas… mas pra você ela faz a diferença não faz? Bem, então chegamos a um ponto crucial.

Todos nós fomos crianças. E, infelizmente, me parece que hoje tem muita criança sendo adulto e muito adulto sendo criança.  Pessoalmente não gosto de dizer para um garoto que a sua infância é pior que a minha, até porque eu estaria mentindo. Claro que há diferenças, há exceções, mas eu jamais entenderia as crianças de hoje pois cresci, hoje sou adulto, tenho barba, afundei na realidade.

Mesmo que eu diga que tento manter a minha criança viva, mesmo que diga que vivo sorrindo pelos cantos e tentando fazer os outros sorrirem comigo, mesmo que seja do tipo louco e sem vergonha, eu sou um adulto rabugento. Eu acho que você se desprende da infância quando passa a ter vergonha de se mostrar, quando a imaginação não aparece como antes pois você está muito ocupado resolvendo coisas de adultos.

Você é criança ou adulto? Veja isso:

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O que você vê?

O ser humano é o único animal capaz de sorrir. Os outros podem até reagir a uma cócegas ou algo do tipo, mas sorrir, isso não. Pesquisas dizem – poxa, dados e estatísticas são coisas de gente que cresceu, não é mesmo? – que a criança é capaz de sorrir dentro da barriga da mãe. Ou seja, o neném aprende com o mundo externo, se você dançar na frente dele, ele vai querer imitar, mas o sorriso… isso ele já sabe muito bem como fazer.

Agora eu te pergunto: o sorriso da criança é diferente do sorriso do adulto?

O mundo é tão grande, as vezes me dói o coração saber que não terei tempo para ver tudo o que queria. Tem tanta gente no mundo, tanta história, tantos planetas, e eu aqui, nesse mundo pequeno, preso na minha própria insanidade. Eu, minha flor, e as estrelas.

Quando eu era criança, queria ser adulto. Poder ser independente, comprar minhas coisas, fazer o que quisesse. Ai quando me tornei adulto, queria ser criança, porque percebi que ser livre é, consecutivamente, estar preso, pois tinha que comprar coisas; percebi também que fazer o que quisesse me traria graves consequências.

Todo ser é um mundo a ser descoberto. Esse mundo tem sua cor, seus personagens e o seu próprio tempo. Deve ser por isso que é tão difícil compartilhar a sua vida com alguém, tem muitos conflitos, nem sempre vocês doam o mesmo tamanho de espaço, uns mais outros menos e, quando percebem, ficam apertadinhos no mundo do outro.

Acho que os adultos tem dificuldade de aceitar que as pessoas não são propriedades. Classificam e, por isso, passam a acreditar que tem direitos sobre. Ninguém enxerga as pessoas como pessoas. Tem que ter diferença, homem ou mulher, gordo ou magro, triste ou sorrindo, criança ou adulto. Será que não poderíamos ser um só?

Quando era criança achava que a vida seria para sempre, que o amor nunca escaparia de mim, que pessoas importantes não partiam e que, de forma alguma, eu ficaria triste. Quando me tornei adulto, percebi que os anos se passavam. Quando menos esperava o amor deu um pulinho por entre meus dedos. Pessoas importantes se tornaram irrelevantes. Percebi que, aos poucos, me transformava em tristeza e a alegria ficava cada vez mais quietinha, sentada em um banquinho lá na rua que cresci.

Depois que cresci um pouco – metade homem, como dizem – me veio a pergunta: “tá, o que faço agora?”. A minha amiguinha se desenvolveu, como eu, acredito, e me apaixonei por ela. O ser humano dava lugar a mulher. A verdade dava lugar ao interesse.

Percebi que era preciso me produzir. Quando criança tinha um par de tênis, agora tinha dois. Quando era criança não passava perfume, agora dependo dele. Quando era criança não penteava o cabelo, agora sou dependente do gel. Quando criança não tinha vergonha de conversar com meninas, agora tenho vergonha de tudo.

“Se consegues julgar a si próprio, és um grande sábio”

  • O livro O Pequeno Príncipe me ensinou que o nome B-612, na realidade, não importa. Essa definição foi feita para alimentar as expectativas dos adultos.
  • Me ensinou que a vaidade nos faz ouvir apenas aquilo que queremos, privando-nos de todo o resto.
  • Me ensinou que o homem tenta esquecer suas vergonhas da forma mais irracional possível
  • Me ensinou que um rei serve para reinar súditos, mas se ele existe sozinho, reina a si próprio e, por vezes, o contrário
  • Me fez ter certeza de que prefiro ser um preguiçoso do que um contador de estrelas
  • me ensinou que existem muitos geógrafos nesse mundo, mas muito poucos exploradores

Me ensinou que para ser o melhor, basta ser sincero. E mesmo que esse mundo doente faça me sentir carente, aprendi que devo continuar sendo um sonhador. Pois as estrelas estão no céu, é fácil possuí-las, mas contemplá-las é um trabalho muito mais delicado e necessita de um carinho que hoje, como um adulto que sou, só consigo acessar se me aproximar do que um dia já fui.

O mundo é tão grande que nunca me encontrarei com a cobra, mas pude me reconhecer na frase “entre os homens a gente também se sente só”. Nunca encontrarei com a raposa, mas me identifiquei com as suas reflexões. Talvez nunca me encontrarei com você, leitor, mas aposto que você se identificou com alguma coisa que escrevi.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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CdA #011 – Vidas sem Destino, 1997

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No décimo segundo episódio do podcast [Cinema sem Causa] Emerson Teixeira analisa o filme “Gummo” de 1997. Filme que beira a surrealidade, dirigido pelo ousado Harmony Korine que depois de fazer o roteiro de “Kids”, com 19 anos, despontou e mostrou todo o seu talento no seu primeiro trabalho como diretor.

Uma obra que transborda verdade, crueldade e sujeira. Monstruoso é pensar que o ser humano caminha por entre destroços e, ainda assim, sobrevive.

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