CdA #64 – Esquadrão Suicida

Esquadrão Suicida

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Emerson Teixeira convida Rafa Tanaka do Humanoides e Eduardo Pess do Mundo Animado para, juntos, tentarem entender o que aconteceu com o Esquadrão Suicida. Mais do que uma analise, esse episódio assume a responsabilidade de analisar o que deu errado no processo criativo dos personagens e como a falta de planejamento e indecisão pode afetar uma obra, principalmente em um filme tão grande e popular.

 

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Esquadrão Suicida – Qual é o Problema?

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Quando eu escrevi sobre a Arlequina e toda aquela discussão sobre a sexualização da personagem ( aqui ), muitas pessoas me criticaram. Uns falaram que eu só escrevi sobre para ganhar cliques – o que é algo realmente muito estranho, pois se estivesse muito preocupado com acessos certamente não escreveria sobre filmes da Polônia -, outros julgaram a minha opinião pelo fato de eu não ser mulher ou até mesmo por não ler quadrinhos.

Uma coisa, talvez a maior delas, que tentei desmistificar naquele texto é: não tem como julgar nada só por um trailer. E, pois bem, o filme lançou e eu fui ver na pré-estréia, super ansioso, até porque estamos falando do “Esquadrão Suicida” desde que o primeiro trailer foi lançado, aquele com uma versão maravilhosa da música “I Started a Joke”.

Começo

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Antes de mais nada, é importante lembrar que esse filme foi muito bem divulgado. A ansiosidade dos fãs e amantes do cinema aconteceu após o primeiro trailer e alguns comunicados sobre os bastidores. Era perceptível uma união carinhosa do diretor e todo o elenco, as coisas pareciam ter dado certo pelo ambiente criado e, outra coisa legal, era o fato de se tratar de vilões, não mocinhos.

Essa fórmula de “vilões sendo obrigados a realizar alguma missão do bem” não é inédita, já vimos bastante em faroestes, porém sempre atraiu bastante, o ser humano tem fortes tendências a se identificar com os vilões, muito por conta dos seus erros.

Então esperávamos, no mínimo, um filme diferente, que fosse fiel ao que se propôs desde o início e que, eventualmente, pudesse fazer sorrir, através da sua insanidade. Mas hoje, no grande cinema, temos muito mais necessidade em produzir produtos do que ideias e, claro, quando interesses começam a entrar no jogo, tudo muda.

O diretor David Ayer sempre foi muito dedicado no desenvolvimento de personagens, mas nunca excelente. Ele teve, talvez, uma das tarefas mais difíceis de todos esses diretores de filmes de heróis: trabalhar com inúmeros personagens interessantes, apenas com um filme, onde teria que introduzir, desenvolver e concluir.

Os filmes da Marvel, no mesmo tempo que divertem bastante – confesso que eu não me divirto, só me canso – se tornaram um grande problema para quem ama cinema. Por dois motivos, um é extremamente criativo e o outro acontece além da obra. O primeiro problema é a criação e planejamento, existiu um tempo onde os filmes, qualquer filme, era pensado como “um”, eles tentavam fazer uma obra o melhor possível e, a partir do resultado desse planejamento, poderia acontecer de estender para outros filmes. Hoje acontece o inverso, ao invés de pensar em fazer o melhor e mais estável, é pensado no “universo”, aliás, essa palavra “universo” está me causando arrepio. Em um processo criativo, qualquer vinculado a arte, existe – deveria existir – um universo em apenas uma obra.

Com a Marvel deu certo, ok, eles trabalharam duro nisso, demorou muito tempo até que os espectadores criassem um vínculo – espectadores, não fãs, porque quem paga esses filmes são espectadores, independente da “categoria” que você se autodenomina – mas com a DC deu bastante errado. Isso porque existia um lado dos criadores que queriam brincar de ser realistas, mas como ser realista em um “universo” que existe um homem com forças quase ilimitadas que voa? Então existem dois lados, o realismo com o Batman e fantasioso com o Superman, é preciso decidir qual deles será desenvolvido tudo, não é possível que uma, duas, várias mentes joguem a toalha e pare bem no meio.

Esquadrão Suicida

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Sabe quando você quer ser o centro de uma conversa entre os amigos e fica tentando relembrar qualquer atitude épica ou engraçada que teve ao longo da vida? Então, a venda do Esquadrão Suicida foi assim. No começo era muito legal saber o quanto o Jared Leto “achava” que estava doidão, mandando ratinhos para os coleguinhas ( ui! ), mas depois começou a virar um circo.

Não comparando, nada do tipo, aliás, sou fã do Jared Leto ( ator ) e o acho o homem mais lindo desse mundinho feio, mas quando o Heath Ledger embarcou nos estudos para o personagem, não se ouvia maluquices a cada hora que se passava. Ele estudou, incorporou, enlouqueceu e fez. Assim como qualquer outro ator, na verdade. Jared Leto mesmo fez tantos sacrifícios quanto Ledger, e nunca precisou sustentar o seu talento apenas nisso.

Mas chegamos no filme… bem, olhando agora nas minhas anotações encontro coisas como: “uso de músicas maravilhosas com uma frequência inexplicável…”, “apresentações ruins…”, “Arlequina exibicionista e irritante..”, “Coringa inútil…”, “Pistoleiro herói(?)… todos heróis(!?) e por ai vai.

O filme se inicia de modo tão infantil que beira o inacreditável. Apesar de gostar de todas as músicas dos primeiros vinte minutos, a transição das cenas, acompanhadas de vinte segundos de música, me fez ficar desconfortável. A edição moderna, dinâmica, que prometia ser um diferencial, só me causou espanto, parece que largaram um adolescente gamer para editar e foram tomar café, sem nenhum tipo de segunda ou terceira opinião.

E, se tecnicamente o filme é, no mínimo, indecifrável, o seu roteiro é uma grande e maravilhosa piada. A apresentação dos personagens, aliás, segue o ritmo dos cortes bruscos e servem como uma medida desesperada para o famoso desenvolvimento, mas é tão rápido e gratuito que acaba nos desviando do principal: a ideia maluca da querida Amanda Waller em unir esse bando de vilões.

Eu sei que nos quadrinhos funciona, como também sei que na animação da DC também, pois já assisti e é muito boa. Mas há coerência nesses dois casos citados, são bem trabalhados. No filme acontece o contrário. Aliás, o Esquadrão só se reuni por causa da ideia em criar o Esquadrão. O vilão do filme, desconectado também e pouco identificável, está relacionado com a criação dessa equipe.

Se a propaganda era a insanidade, vilões e desprendimento, no filme essa proposta não é concluída, “Esquadrão Suicida” foi covarde, modifica no segundo ato os seus personagens para justificar a continuação da sua operação, mas, fazendo isso, o roteiro esquece aquilo que apresentou, ou seja, recusa o próprio conceito.

Arlequina e Coringa

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O mundo quer saber sobre esses dois personagens e eu vou começar dando a minha  opinião sobre a Arlequina, até para complementar o meu texto sobre a sexualização da personagem:

Eu escrevi muito no artigo – que você pode ler clicando aqui – que era impossível dizer alguma coisa de um trailer. Isso poque houve muitos boatos sobre a roupa da Arlequina e a forma que ela era apresentada. Enfim, continuo concordando comigo mesmo e ressalto, novamente, que se a concepção de figurino dela é uma calcinha, devemos todos aceitar, até porque a atriz, enquanto artista, estava ciente de que teria que se submeter à criações desde o início da carreira. Agora, se é algo que ajuda na narrativa ou não, ai sim podemos opinar, discutir, etc – mas nunca com um trailer!

A Arlequina, interpretada pela Margot Robbie, é aquela personagem que deveria chamar a atenção mesmo quando está no fundo, em segundo plano. Caro leitor, pegue como exemplo um filme popular e recente: “As Caça-Fantasmas”, repare na personagem Jillian Holtzmann e como ela se porta em cena, o carisma da atriz Kate McKinnon é tão grande e sua personagem foi tão bem escrita que o espectador nunca consegue esperar nada normal vindo dela, mesmo em momentos de poucos destaques. Agora, aos que viram, compare com a Arlequina e me responda qual é a mais natural dentre as duas.

Arlequina aqui implora por atenção, parece que o diretor apontou o dedo para a Margot Robbie e afirmou que ela era a melhor atriz da atualidade e que precisava fazer o mais louco que conseguisse, só que sem preparação. Então ela, sozinha, decidiu que se ganhasse ratinhos do amiguinho já estaria louca o suficiente.

Tem uma cena em que há um diálogo, completamente fora de contexto, que citam brevemente a loucura. Ela imediatamente olha como quem diz: “falaram de mim? Em? Em? Porque eu estou muito doidona“. Suas piadas se baseiam em afirmar a sua loucura, como em um momento que, do nada, ela pergunta se não está vendo coisas “porque esqueceu de tomar o remédio“, e, também, infelizmente, mostrar gratuitamente o seu corpo. Em duas cenas específicas – e ruins – a piada que envolve a Arlequina é com planos acompanhando de forma sugestiva a sua bunda, o que é muito pouco para quem dizia se tratar de uma obra especial e provocativa.

Agora, vou partir o meu coração, pois o pior do filme é o coringa, vivido pelo Jared. Depois de toda a tentativa de provocar a ansiedade nos fãs através de brincadeirinhas nos bastidores, o Coringa pouco aparece e quando acontece é motivo de piada. Sua participação é irrelevante, mas muito irrelevante, do ponto de vista de roteiro é uma decisão, no mínimo, ignorante, colocar um personagem que não faz andar a história, apenas serve como uma vírgula.

Servindo como um ruído para o roteiro, ainda é muito mal interpretado pelo Jared Leto, inclusive me causou espanto, pois se trata de um dos melhores atores da sua geração. Ele é, ainda, um artista que sempre soube escolher papeis desafiadores e moldá-los mas, aqui, ele se atém a criar algumas coisas – que não dão certo em nenhum momento – e imitar o Heath Ledger.

O resultado fica tão estúpido que, igualmente, beira o inacreditável. A sua risada – que é alvo de questionamentos em qualquer programa de TV com entrevistas do ator – é horrorosa, parece mais que ele está engasgado e sempre surge de forma pouco natural. Além do mais, ele tem um forte apelo sexual, com certeza de propósito, me fazendo questionar seriamente qual o motivo para isso.

Com “Esquadrão Suicida” eu finalizo qualquer texto ou podcast vinculado à filmes de super heróis, assim, feito com tão pouco cuidado. Esse filme representa os males que essas produções trouxeram para o cinema, soando artificial ao extremo, indeciso e frágil em todos os aspectos. Personagens e tramas interessantes sendo desperdiçadas – como o Diablo e a Bruxa – em troca de exibicionismo e gratuidade. Mas, com certeza, o roteiro do segundo e terceiro já está pronto, o “universo” está sendo trabalhado, mas, vejam só, como pensar no universo sem o seu princípio?

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