Casa Vazia (2004)

O silêncio está muito presente no cinema, principalmente na Europa, é bem comum encontrarmos um filme onde os protagonistas são cercados de uma alma silenciosa para, enfim, desenvolver através de gestos e alguns artifícios técnicos – como fotografia, por exemplo – o que se passa, realmente, com as personagens. No caso de “Casa Vazia”, filme de 2004, dirigido pelo excelente Kim Ki Duk, o silêncio é muito mais do que um artifício, passa a ser uma entidade, um personagem complexo, talvez, o maior personagem do filme.
É recorrente atribuirmos ao silêncio um poder grande na relação, seja ela qual for. É inerente ao ser, achar que o outro consegue entender sem apenas um diálogo, uma frase. Palavras soam infantis, quando se comparado com atitudes. Conversas. Enfim, o silêncio é uma virtude, para aqueles que o entendem e, consecutivamente, usam para o bem próprio, basicamente se entender. O barulho impede a reflexão sobre nós e, sejamos francos, entender nós mesmos é a nossa única missão nesse mundo.
O filme mostra um rapaz, jovem, que vive invadindo as casas de famílias enquanto os mesmos viajam, passam dias fora. Ele não rouba ou nada do tipo, simplesmente se hospeda lá e, em troca, oferece pequenos favores, consertando alguma coisa da casa que ele percebe que está quebrada – se tratando, evidentemente, de uma metáfora. Em uma dessas suas aventuras bizarras, ele se depara com uma mulher que, ao invés de acompanhar o marido na suposta viagem, fica em casa, ela também se encontra perdida como o pobre garoto, então analisa ele silenciosamente e, após alguns desentendimentos, parte com ele em rumo à outras casas.
Enfim, o personagem principal não tem uma fala sequer, bem, tentarei explicar o meu entendimento sobre o porquê isso acontece mais a frente. Acho relevante revelar que, misteriosamente, eu tive alguns processos de identificação muito estranhos no cinema e, imaginem só, muito parecidos, ao longo da minha vida cinéfila. “Following”, filme de 1998 dirigido pelo Nolan, ainda me causa um desconforto, para quem não lembra, tem um escritor que segue pessoas desconhecidas na rua, pretendendo adquirir inspiração para escrever o seu livro. Enfim, é algo totalmente insano, mas mais insano ainda é se identificar com isso, algo parecido aconteceu comigo quando assistia esse belíssimo filme Sul Coreano, o fato de ter um cara, sem rumo, dormindo em casas de desconhecidos me chamou a atenção. Eu não precisava de mais nada para ter certeza que tinha que assistir.
Para minha surpresa, o filme é mais que uma ideia sensacional. O silêncio, como disse acima, é uma metáfora, assim como a invasão das casas, o próprio personagem principal, os acontecimentos, enfim, nada me parece ter um sentido literal. É um verdadeiro quebra cabeça mesmo, onde a sensibilidade traduz com perfeição as estranhezas e nos aproxima da ideia que, de fato, assistimos um filme extremamente real.
O protagonista é um perdido, sem família e sem amor, pois o mesmo é uma sombra, um andarilho, ele não invade casas, ele invade lares, sentimentos. Em toda casa por onde passa, ele tira uma foto dele mesmo perto de algum quadro dos donos da casa, pessoas que, por sinal, apesar de aparentemente terem tudo, são vazios, até mais vazios que ele próprio. Como visto, a casa que tem uma maior profundidade é a qual uma personagem, uma bela mulher, acaba se interessando pelo modo de vida do rapaz, aliás, ela é casada e visivelmente não vai nada bem no casamento, me parecendo que aquela “aventura” que ela está prestes a fazer, a remete para uma vida passada, seja com o próprio marido ou não, enfim, o protagonista é sombra dela, assim como é sombra do marido. Ele é um camaleão, se adapta a realidades e declínios em prol a atitude de mudar.
A posse é extremamente frágil, assim como o rótulo. As casas que ele invade, apesar de muito belas e cheias de frescura – como uma TV com muitos canais e etc – não o iludem. Ele não está interessado no ter, ele só quer ter um teto para viver até o próximo dia. Talvez ele seja exatamente o que todos os seres humanos são: sobreviventes, porém sem a necessidade de usar máscaras. A mulher, pelo contrário, tem que viver com o fardo de possuir, seja uma casa ou um casamento, apesar da ânsia de se desprender dessas amarras, ela ainda é uma pessoa enjaulada. Mas pensa fora da caixa, isso a faz ser a única que consegue ver o jovem, depois que ele desenvolve técnicas para, literalmente, se esconder atrás da pessoa, imitando seus movimentos.
Enfim, assim como “Primavera, Verão, Outono, Inverno e… Primavera” do mesmo diretor, “Casa Vazia” é uma obra difícil, porém sensível ao extremo, vale pela experiencia e reflexão, desde uma vida acorrentada pelo medo de fugir, passando pelo poder do silêncio, principalmente nos momentos certos.
Obs: Texto originalmente publicado em 16 de janeiro de 2015

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Gojitmal (1999)

Gojitmal que, em inglês, foi traduzido como “Lies”, ou seja, “Mentiras”, é estranho, assim como a sua tradução. Fiquei imaginando o motivo do título, seria uma ironia? Talvez, em outra situação esse questionamento poderia ser banal, mas aqui se faz necessário, ao terminar de assistir, tive a ligeira impressão de que o diretor, Jang Sun Woo, poderia ter extraído bem mais dessa história.

Não posso negar, aliás, que o início do filme é um primor, mesmo com uma filmagem que apresenta um certo desequilíbrio, senti como se fosse um voyeur, seguindo aqueles personagens comuns a caminho de suas próprias descobertas. Em muitos momentos a câmera se esconde atrás da parede, como se estivesse espionando o sexo, as pronúncias envoltas de muita excitação. Enfim, como disse, “Lies” me ganhou nesse início onde temos, representativamente, um diretor de cinema apresentando a ideia do próprio filme que virá à seguir, nas palavras dele a obra fala sobre possessão, o que me parece deveras interessante, temos dois personagens centrais que possuem um ao outro mas não se possuem, ou seja, vazios, não há identificação por eles, não passam de almas penadas enquanto sozinhos, parece que voltam à vida quando estão, de alguma maneira, relacionados ao sexo. E bota sexo nisso, há em todos os momentos cenas picantes, motivo que levou o filme, inclusive, a ser banido na Coréia do Sul em 1999.

A certeza que fica no início é realmente essa: o filme fugirá dos padrões, parecerá com um documentário e, ao longo, será inserido uma espécie de Making-Off. Tentarei explicar, antes dos créditos iniciais o diretor fala para alguém – espectador – sobre o que trata o filme, surgem os créditos e depois somos apresentados a personagem Y, uma menina de 18 anos que está indo encontrar um cara que ela fez sexo por telefone, depois corta e temos a atriz que interpreta Y falando, nos bastidores da entrevista para entrar no elenco, que se estava se sentindo um pouco desconfortável por estar fazendo um filme que apareceria bastante tempo nua. Bem, é uma loucura, mas genial. Não me lembro de outro filme utilizando esse artifício, para mim foi uma novidade maravilhosa.

Y encontra J, ela uma menina de 18 anos e ele um homem de 38, sua mulher está viajando e ele conhece Y no telefone, fica claro que ambos já se excitaram um com o outro, por meio da voz. Ela até fala que não teria como não aceitar encontrá-lo pois tinha ficado molhada apenas ao ouvi-lo. Bem, eles vão para um quarto de motel – durante uma hora e quarenta minutos, vinte minutos é de filmagens externas e uma hora e vinte é tudo dentro de quartos – e lá se conhecem visualmente, cada detalhe, a calcinha, o pênis, o cheiro da axila (?) enfim, é de se admirar(estranhar) a naturalidade que eles agem no primeiro encontro, ou esse seria simplesmente uma consequência da afinidade adquirida por telefone, ou seja, sem o toque. Ele narra suas ações, fala do corpo dela, pergunta se sabe o que está fazendo, avisa o momento de penetrá-la, enfim, alguns exageros mesmo, até que esses encontros vão trazendo outras consequências, ele começa a levar uma mala com chicotes, varas, madeiras e, juntos, aderem o sadomasoquismo.

Em tempos de “50 Tons de Cinza”, Lies é uma bela contradição, filme Sul Coreano, difícil de digerir, enfim, poderia ser muito mais elaborado, infelizmente acaba se perdendo na mesmice, pois da metade para frente é só bunda erguida para levar palmada, os dois protagonistas – ou seria apenas um? – chegam ao cúmulo de sair pelas ruas procurando pedaços de madeira e outras coisas para bater e apanhar, culminando em uma cena onde Y passa perto de uma construção, vê um pedreiro com um martelo e se delicia nas suas imaginações.
Uma coisa que achei muito interessante, é a analogia da violência com as lembranças de quando criança, J afirma que, enquanto apanha, é como se transportasse para sua infância, enquanto Y acrescenta, logo após, que se sente como sua mãe.

Não poderia deixar de citar uma frase, ainda no primeiro encontro deles, onde J fica lambuzando o ânus da pequena ninfeta, avisando-a que irá penetrá-la, ele então solta um “imagine meu pau como merda”. É no mínimo divertido.
Eles passam por diversos motéis, todos eles funcionam como um ninho de amor e interpretação de quem são e, principalmente, o que gostam. Em dado momento Y diz que gostaria de cortar o pênis do seu amante e guardar. Isso demonstra o enorme carinho e obsessão pela posse. O filme fala de possessões, introduções, sexo, posse e vício. O que importa é ter para si o corpo de alguém e, fazer desse alguém o seu boneco, construindo dores compartilhadas.
“Minha esposa viu o “meu amor” tatuado na minha coxa, me perguntou o que significava aquilo. Então eu comecei a mentir.”
Obs: Texto originalmente publicado em 25 de abril de 2015

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The Piper, 2015

O Flautista (The Piper, Coréia do Sul, 2015) Direção: Kim Kwang-tae

Um flautista chega à cidade de Hamelin e presencia o desespero dos habitantes por conta de uma infestação de ratos. Ele prontamente se dispõe a ajudá-los em troca de um bom pagamento. Tocando a sua flauta, o homem misterioso hipnotiza os ratos e todos seguem diretamente ao rio, onde morrem afogados. Quando o flautista retorna para receber, os poderosos da cidade se recusam a pagá-lo, alegando que ele não tinha trazido provas das mortes dos ratos. Dias depois o mesmo flautista retorna para hipnotizar as crianças da cidade e direcioná-las ao encontro da morte.

Essa história é impactante e sombria, principalmente porque se trata de uma manifestação contextual moldada diante à Peste Negra que assolava as cidades na Idade Média. Há uma mescla de ignorância e aproveitamento, bem como uma evidente intenção de vingança, o que, por sinal, são temas que combinam bastante com o cinema sul-coreano. O Flautista (2015) é realizado em base a esse conto, no entanto os eventos acontecem em outro contexto, o roteiro se preocupa em dar uma ênfase no homem e o motivo de sua ira, embora exista diferenças, as semelhanças foram escolhidas com perfeição, e ainda por cima também existe o conflito histórico como plano de fundo, pois aqui um povoado se vê preso e isolado por conta de uma guerra, o que os proíbem de se moverem, restando-os compartilharem a fixa moradia com uma enorme quantidade de ratos.

Nas primeiras cenas é possível perceber que se trata de uma jornada entre pai e filho, e como ambos se ajudarão no processo. O objetivo é ir até Seoul, pois o filho tem problemas respiratórios e um médico de tal lugar prometera uma recuperação perfeita. O caminho fica estruturado o suficiente e visualmente o filme ressalta constantemente a união do pai com seu filho e como a estrada para a sua recuperação será difícil – algo que pode ser facilmente compreendido através de uma fotografia que posiciona os personagens em estradas estreitas, engolidos por uma paisagem exuberante, pureza essa que será contrastada no final do filme, onde a fotografia fica escura e sombria, acompanhando a densidade do roteiro.

Ainda sobre a posição dos personagens em meio à natureza, essa alegoria da repetição possui uma importância enorme quando há uma tentativa de definir os exatos momentos do roteiro que a obra ganha contornos soturnos. Se o primeiro ato pai e filho estão sempre pertos e a fotografia é clara o suficiente para dizer que, apesar da doença, a união dos dois simplesmente os fazem felizes, no terceiro ato a solidão é devastadora e, com o auxílio da escuridão, a obra gira 360° graus e atinge perfeitamente elementos clássicos do gênero terror, isso sem abandonar a proposta fabulesca.

O flautista não procura a vingança; a vingança o encontra no momento que se isola da esperança. A mesma natureza que o envolvia e emanava luz, passa a escondê-lo no escuro.

 Apesar de bons momentos, a infinidade de curvas narrativas tiram a atenção do foco principal. Às vezes as viradas bruscas que vão do drama ao terror em questão de minutos, atingem o exagero e a experiência se torna cansativa. A sensação que fica é que seria melhor ter escolhido entre um caminho ou outro, assim como os próprios personagens centrais do filme. Todavia, esse é um problema que assola o primeiro e segundo ato, pois o terceiro há uma fixação dos reais interesses metafóricos de todo o trabalho desenvolvido até então, principalmente em relação ao roteiro que mais parece uma fábula com pitadas do bom cinema de vingança sul-coreano. E é surpreendente o resultado, pois a perversidade se alinha com a infantilidade, provocando o desconforto imediato.

A atuação do Seung-ryong Ryu demonstra exatamente as nuances da sua personagem que vai se quebrando aos poucos, um senhor de respeito passa a ser um predador, manipulador de pragas e vingativo. O sorriso das crianças e o seu próprio, ao ouvir as canções da flauta, não passam de ilusões que anteveem a catástrofe. A reinterpretação da história do flautista de Hamelin, é tão obscura quanto o conto original, que guarda em suas linhas um mistério sobre o desaparecimento de crianças e o sofrimento causado por doenças; ainda que o real motivo da vingança, nos dois contos, seja o homem isolado e sofrendo as consequências por confiar.

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O Túnel, 2016

O Túnel (Teo-neol, Coréia do Sul, 2016) Direção: Kim Sung Hoon

Jung-su sai do trabalho e dirige até a sua casa. No caminho um túnel despenca, deixando-o preso entre os escombros. Em um ambiente apertado e destruído, uma das suas ferramentas de comunicação com o mundo exterior é justamente um celular e, a partir dele, toma consciência da sua situação perturbadora e é aconselhado a economizar água afim de aguentar os sete dias para a concretização do resgate.

O primeiro ato é trabalhado com dedicação pelo diretor Kim Sung Hoon, de forma que o protagonista e sua história seja desenvolvida através da catástrofe. Mas no decorrer, o que se percebe é a incapacidade de relacionar o espaço limitado em que o personagem se encontra com a sua vida, visto que não há propostas dramáticas além da própria situação traumática, limitando o roteiro e, principalmente, afastando o espectador da identificação.

Existem cenas realmente impactantes e tensas, mas a claustrofobia é deixada de lado no momento em que esse espaço, do nada, aumenta. A intenção é muito clara: um roteiro fragilizado chega a um ponto que se perde completamente, para contornar essa situação, é preciso colocar mais personagens e situações-conflito para o protagonista resolver.

Se o roteiro se perde em meio aos dilemas individuais de um homem só, lutando pela sobrevivência e limitando-se a esperar o impossível, isso chega a um estágio enorme quando quando analisamos a obra politicamente. É curioso notar que a operação de resgate é inacreditavelmente grande, resultado de enormes investimentos e ainda por cima é acompanhado pela mídia, mas tudo isso é para salvar a vida de apenas um homem. Agora, pensando friamente, em que mundo utópico algo assim aconteceria? O potencial filosófico é desperdiçado. O resultado é um filme clichê que se salva por pequenos momentos, mas que entrega apenas o aceitável. Recusando, portanto, qualquer dilema moral ou social, se atendo apenas ao óbvio.

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Hill of Freedom, 2014

Hill of Freedom (Jayuui Eondeok, Coréia do Sul, 2014) Direção: Hong Sang-soo

Hong Sang-soo, a cada trabalho, imprime suas características de forma orgânica e elegante, como um maestro, sempre priorizando as relações humanas afim de questionar como o indivíduo enfrenta as mais diversas situações do dia a dia. Na sua essência, lembra o Éric Rohmer, mas o desenvolvimento têm semelhanças com o Woody Allen. Isso sem nunca soar artificial ou cópia. O diretor parece conquistar facilmente o seu espaço e respeito através de honestas crônicas onde temas como as relações, verdade e tempo serão trabalhados de uma forma agridoce.

Em Hill of Freedom ele conta a história de um japonês chamado Mori (Ryo Kase) que viaja à Coréia do Sul para reencontrar uma amiga. Com uma simplicidade enorme, assim como a sinopse sugere, acompanhamos essa trajetória e os seus inúmeros desencontros através de lembranças. É uma jornada de pequenos e importantes diálogos, onde o protagonista, em meio a uma busca, se depara com o inesperado e, nesse processo, compreende a si e seu silêncio.

A maior força da obra é mesmo o seu equilíbrio entre a técnica e o natural. A filmagem, algumas vezes, nos aproxima do objeto em um zoom e cria planos visuais limpos, acolhedores – em perfeita harmonia, inclusive, com a clara fotografia. A sensação que transparece é a de tranquilidade, se trata mesmo de um filme de viagem onde os problemas pessoais e conflitos do protagonista são esquecidos justamente pela sua maturidade diante à vida. Ele se sente um pouco desconfortável nas conversas, mas ainda assim é muito simpático, despertando atenção daqueles que estão ao redor.

A atuação do grande ator japonês Ryo Kase, que vem nos presenteando com grandes performances desde o maravilhoso e popular “Ninguém pode Saber” (2004), é primorosa nesse sentido e colabora diretamente na empatia provocada pela sua imagem doce e misteriosa. Existe muito coração nesse personagem. Suas opiniões são sempre respeitosas e a comunicação acontece de forma delicada, aliás, existe uma importância grande no que diz respeito a linguagem, não à toa o filme é quase todo falado em inglês, visto que o personagem principal não sabe falar coreano. Essa decisão, sem dúvida, ausenta os personagens de domínio um sobre o outro, visto que todos estão falando uma segunda língua, todos estão, portanto, completamente despidos.

A câmera estática representa a segurança que é adquirida conforme os dias se passam, inclusive o tempo é relativo aqui, visto que a narrativa acontece por meio de uma leitura de cartas onde todas estão fora de ordem, portanto, a alma da obra é justamente as lembranças vividas por alguém, cuja interpretação e olhar modificou os lugares e as pessoas que conheceu.

O percurso de encontrar alguém, traz consigo uma infinidade de vírgulas, uma garçonete que se interessa pelo protagonista, após ele salvar o seu cachorro, é a mais evidente. E esse pequeno relacionamento é envolto de doçura, mútuo respeito e empatia. Inclusive, é interessante notar que, à medida que há mais confiança na relação, a câmera se aproxima. Essa barreira criada para representar o turista e os limites do diálogo é excelente pois representa o sentimento universal de estar só, mesmo que rodeado de histórias, vidas e diferenças. Em meio ao trajeto de ir e vir, existe uma quantidade imensa de conhecimentos que se adquire e sente e é essa a única obrigatoriedade da existência: entregar-se.

O final do filme é a conclusão de uma simples jornada, como todas são. A grandiosidade dos movimentos está na visão daqueles que assistem ou descobrem. Dois personagens seguem em rumo a um outro país, os passos seguem uma direção, enquanto o coração teima em enfrentar todas. A delicadeza do simples é investigada por Hong Sang-soo e o resultado se dá em uma obra incrivelmente transparente.

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Eu Sou um Cyborg, e Daí?, 2006

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★★★★

Quem conhece o trabalho do diretor Park Chan-wook sabe o quão prazeroso é acompanhar o seu olhar sobre a obscuridade humana. Mais do que a tensão, o diretor consegue, dentro de cada detalhe, desenvolver uma série de significados que se estendem para toda uma compreensão do homem, que vão desde a insanidade até chegar a monstruosidade.

Eu Sou um Cyborg, e Daí?” é uma obra que na sua narrativa, direção de arte, fotografia, montagem… se difere bastante de toda a atmosfera apresentada nos filmes mais populares do Park Chan-wook – como é o caso de “Oldboy” e “Segredos de Sangue” -, porém, a proposta filosófica é extremamente parecida e, ainda por cima, cria um elo, de forma indireta, entre alguns temas trabalhados pelo diretor anteriormente.

A história é de uma simplicidade e surrealismo sem tamanho, mas existe um toque de realidade e drama em cada cena estranha. Demora poucos minutos para percebemos que essa sensação é movida por uma verdade oculta: Nada poderia ser tão real, perturbador e identificável quanto a loucura de não saber quem é.

Esse e outros dilemas são desenvolvidos através de uma personagem central, Cha Young-goon, que é internada em um hospital psiquiátrico por acreditar que é um ciborgue. A garota rejeita todo tipo de comida e recarrega sua energia com pilhas, trazendo graves consequências à sua saúde. No entanto, um garoto anti-social chamado Park Il-Soon ajudará a protagonista a encontrar um caminho, estabelecendo uma conexão entre a loucura e sobrevivência nesse mundo “normal” que vivemos.

É válido ressaltar que essa ajuda acontece por meio da inocência, totalmente desprendido da razão e entregue a insanidade. Uma relação bem distante do clichê de inúmeros filmes românticos. Ainda mais, em nenhum momento há preocupação em explicar quem são os doentes mentais, até porque os médicos são tão problemáticos quanto, o filme vai muito além e situa o espectador na mente dos personagens – que, por sinal, permanece bem distante da “ordem” e, portanto, em 107 minutos somos transportados para um mundo onírico que se torna ainda mais exuberante com a linda direção de arte e fotografia.

São diversas informações transmitidas através de metáforas e rimas visuais. Elementos como objetivo, dúvida e amor ficam escondidos nos corações de personagens complexos por sua postura livre – destaque para a atuação da Lim Su-Jeong que percorre diversas expressões e utiliza, de forma sábia, o corpo e olhar para compor sua personagem.

O homem moderno oculta muitas coisas para continuar em perfeito ritmo com o sistema; O homem moderno oculta até mesmo sua insanidade. Parece que vivemos em perfeito estado de aceitação e as coisas simplesmente não são assim. Como as coisas são? O que somos? Aquilo que nos foi imposto ou o que acreditamos ser?

Lindo, profundo e poético é a cena em que o casal está lado a lado para testar o “megatron de arroz” e, após ter sido bem sucedido, Park Il-Soon se curva e fica diante ao coração da Cha Young-goon, enxergando, junto com quem assiste a obra, as engrenagens da protagonista, percebendo como tudo está funcionando perfeitamente – apesar das inúmeras imperfeições.

Como seria perfeito um mundo em que nossos problemas pudessem ser resolvidos com doses de inocências. Sorte que existem, espalhados pelo mundo, técnicos especialistas em megatron de arroz, prontos para ajudar a ultrapassar as dificuldades da vida, com garantia para a vida toda e atendimento à domicílio.

emersontlima

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Mother – A Busca pela Verdade, 2009

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★★★★

Joon-ho Bong é, sem sombra de dúvidas, um dos melhores diretores sul coreano em atividade. O realismo que os seus personagens são apresentados, dialogam de forma bem direta com o onírico, repleto de absurdos e de falhas. A sua facilidade em subverter o gênero policial é outra virtude, como visto nesse seu trabalho lançado em 2009, onde uma mãe assume a função de pessoa que procura desvendar os fatos, afim de procurar o(s) culpados de um assassinato, e, consecutivamente, livrar o próprio filho – doente mental, inclusive – da cadeia.

O fato é que a personagem é uma mãe, Mother em inglês, em nenhum momento revela o seu nome; É, portanto, unicamente uma mãe, nada mais. Já nas cenas iniciais fica evidente o cuidado especial e obsessivo que ela tem pelo seu filho, em singelos momentos essa ideia vai, aos poucos, sendo passada ao espectador. Ainda mais, e talvez mais perigoso, em alguns momentos é mostrado pequenas atitudes que demonstram que a mãe possui uma ansiedade em ocultar os erros. Principalmente do filho mas, no desenvolver da trama, percebemos que o tratamento dado é apenas um reflexo dos erros pessoais desse ser humano misterioso.

O próprio nome da mãe fora tirado dela. O único direito e necessidade que ela tem é cuidar do seu filho, a preocupação é nebulosa, não se sabe muito bem se é por algum tipo de medo, diante da clara doença mental do filho – o que, por sinal, em nenhum momento o impede de viver e entender as coisas ao redor – ou algum tipo de remorso ou insegurança.

A cena inicial temos a mãe, em um campo, solitária, ela começa a dançar, um contraste curioso em relação ao comportamento que será desenvolvido a seguir. Poderia ser apenas uma apresentação, porém serve como porta de entrada e representa um claro indício de que essa mulher é uma marionete de suas escolhas, que sua função é controlar um outro pois, na sua cabeça, a fragilidade está em todos os lugares, menos nela mesma. É um trabalho muito difícil interpretar a relação da mãe e do filho, extremamente ambíguo e obscuro.

A multiplicidade dessa relação é reforçada com a técnica cinematográfica de forma muito consciente, destaque para a fotografia, com tons azulados e cinzas, demonstra com perfeição o psicológico da mãe, estabelecendo desde o começo um interesse involuntário em descobrir mais sobre esse ser humano frio, sem amor próprio. No mesmo tempo que o fato de estar sempre chovendo, ajuda a criar um ambiente perfeito para se estabelecer o mistério.

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O figurino da mãe recorrentemente traz o vermelho ou vinho, remetendo-nos a ideia da paixão, sangue – que será derramado em dado momento de forma literal, mas existe sangues derramados durante quase todo o filme nas entrelinhas – e, se aprofundarmos um pouco mais, a excitação.

Tracei uma relação óbvia entre a relação mãe e filho – que assume diversas outras funções – com o complexo de Édipo. Essa dependência inconsciente do filho, movido, inicialmente, pelas suas próprias limitações, atingem um outro patamar a partir do momento que o garoto começa a ter atitudes impulsivas e grotescas por influência de um amigo. Ele começa a sentir o que é ser independente, no mesmo tempo que não é capaz para tal desprendimento.

Ele precisa de alguém para guiar; Não à toa, mesmo diante a iminente descoberta sexual, ele permanecia “inocente” até o seu amigo preencher sua mente com desejo por mulheres, despertando a necessidade humana de se relacionar com o sexo oposto. O que seria absurdamente normal, se a vida dele não fosse tão conturbada. Em uma provocação o amigo pergunta para ele se já dormiu com uma mulher, ele responde positivamente e, depois de algum mistério, fala: “eu dormi com a minha mãe“.

A relação percorre diversos degraus, pai e filho, filho e mãe e, entre eles, ainda há espaço para o homem e mulher. Ora, ambos personagens só possuem um ao outro, é um contato doentio, baseado em uma necessidade primordial. Existe apenas um personagem: a mãe. O filho é parte dela, os dois são os mesmos, nasceram de um mesmo ponto e caminharão juntos para um mesmo fim.

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Existe uma sombra, a personagem da mãe busca o seu sepulcro. A “busca pela verdade” da tradução permanece como um questionamento durante todo o longa. Que verdade seria essa? O conflito do assassinato, a resposta sobre o que realmente aconteceu parece muito simples diante a complexidade daquela relação provocante. Aliás, quando a mãe descobre quem matou a menina – mistério que move o filme até certo ponto, pois os fatos não são tão difíceis assim de assimilar mas, repito, causar a surpresa não é a preocupação principal do filme – ela permanece com mesma intenção e atitude que tinha no início, nada mudou além de compreender a verdade.

No final, fechando o ciclo que começa na apresentação onde a personagem dança em um campo, metaforicamente temos uma mulher perdida em meio a tantas outras, ela se torna ainda mais prisioneira da culpa e, ainda por cima, começa a entender que o seu destino é cobrir erros para sempre, assim podemos interpretar que a própria é um grande erro do universo e precisa, assim, se esconder constantemente.

O choro ao final, ao ver a conclusão da sua busca, faz-nos pensar que ela não se entristece apenas pelo seu filho, mas por todos os filhos do mundo.

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The Silenced, 2015

The Silenced 2015 ( Cronologia do Acaso )

Esse filme, cujo título original é impronunciável, “Gyeongseonghakyoo: Sarajin Sonyeodeul” é sul coreano, tendo sido lançado no país em junho de 2015. Mescla fantasia, terror com pequenas doses de dramas, aliás, existem várias doses nesse filme, que vão desde “Carrie” até “X-men” e outras referências inacreditáveis para aqueles que, como eu, esperavam algo completamente diferente diante as cenas iniciais. Nesse caso em específico as surpresas não são um ponto forte, apenas resultado de uma indecisão monstruosa no que diz respeito a narrativa. Sempre solta, inexplicável, fazendo com que o espectador fique com um pouco de dor de cabeça de tanto pensar e, na sua conclusão, não chegar a lugar nenhum.

Enfim, o filme conta a história de uma garota chamada Joo-Ran que está doente e chega em um internato para recuperar a saúde. Nesse internato tem uma diretora incrivelmente caricata, como se o diretor Lee Hae-Young quisesse esfregar na cara de quem assiste que se trata de uma vilã, apesar de em filmes como “Expresso do Amanhã” isso ter dado certo, aqui temos, novamente, o mal desenvolvimento de elementos simples, como a própria maquiagem.

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Pois bem, Joo-Ran percebe que está em meio a uma confusão crescente, um verdadeiro mistério. Suas amigas desaparecem, ela começa a se sentir diferente, com mudanças anormais pelo corpo, e passa a suspeitar que a escola esteja por trás desses fatos.

Começamos as cenas iniciais com uma bela paisagem, destaque para a fotografia que faz das filmagens exteriores um absurdo de lindeza, a personagem principal está sendo levada para o internato, inclusive sua roupa vermelha se sobressai as cores do cenário, evidencia a sua diferença ou os acontecimentos que virão a seguir, até mesmo contraria o uniforme que passará a usar.

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O que funciona na obra é a fotografia, designer de produção que se preocupa com cada detalhe do internato, criando um lugar que, praticamente, consome todos os personagens pouco desenvolvidos, e a tensão que é mantida até a metade. Ou seja, todos os aspectos relevante se tornam frágeis com um objetivo pouco funcional, resultando em observações muito desprendidas, a técnica não pode ser maior que o roteiro, nada está encaixado como deveria, transformando-o em um produto belíssimo, visualmente, e sem conteúdo algum.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Expresso do Amanhã, 2013

expresso do amanha

★★★★

Por ser um apreciador do cinema sul-coreano, fiquei extremamente feliz com a oportunidade de assistir “Expresso do Amanhã” no cinema. Já havia escutado comentários sobre ele e, mesmo assim, sem nenhum motivo aparente, acabei não tendo muita curiosidade. Pelo menos valeu a pena esperar dois anos e conferir na tela grande.

Bong Joon-ho é um dos melhores cineastas do mundo, muito jovem, ele demonstra uma maturidade incrível para lidar com diversos temas, consegue caminhar com tranquilidade pelo drama até chegar na tensão, como visto em “Memórias de um Assassino” e “Mother”. Agora ele faz um filme para o grande público, acertando bastante, principalmente se comparado com outros diretores do circuito alternativos que pecam em não transportar toda a sua capacidade para as realizações maiores.

O mais recente filme de Joon-ho começa explicando que um experimento dá errado e o homem se vê em meio a uma nova era do gelo. A pouca população que ainda resta está a bordo de um trem que foi planejado por um homem chamado Wilford ( Ed Harris ), lá dentro a desigualdade é presente, pois as pessoas são divididas por classes. A classe inferior, liderados por Curtis ( Chris Evans ), estão prestes a mover uma grande revolta e, por consequência, o espectador entenderá a situação e o contraste com os demais vagões do trem que representam, em resumo, o status.

A metáfora está presente desde a primeira cena, ou melhor, desde a sinopse. Fica claro que cada vagão representa uma classe social, porém, podemos ainda estender o seu significado para a própria história da humanidade. A classe inferior, a qual somos apresentados primeiros e, através deles, descobriremos as demais, representa tanto os operários quanto a primitividade ou a irracionalidade existente no mundo. Traduzindo, os primeiros homens da terra, ainda descobrindo as ferramentas para, enfim, encontrar a sua evolução.

Através da estratégia e observação dos seus personagens, o filme bem no início já os constrói de forma perfeita, criando, por exemplo, em Curtis o perfeito “futuro líder”, aquele que deve passar por cima da impulsividade para ser o guia dos mais ignorantes. É a representação do despertar, em qualquer âmbito, o homem necessita da exploração para entender o meio e a si próprio.

Evidentemente, o líder necessita de ajuda e, por esse motivo, Gilliam, interpretado pelo John Hurt, faz o típico sábio, aquele que mesmo inserido na inferioridade, se mostra extremamente ciente sobre a sua situação. Bem como, em seguida, para abrir as portas e entrar nos próximos vagões, eles precisam de um especialista. Entra em cena Namgoong Minsu ( Song Kang-ho ) e Yona ( Ko Ah-sung ), ambos atores excelentes, Song Kang, inclusive, ao lado de Min-Sik, é meu ator preferido da Coréia do Sul. A cada porta que Namgoong ele ganha drogas, esse personagem representa a ultrapassagem, a coragem para enfrentar o que vem adiante. Ele dá as chaves, ele encontra o momento certo. É válido ressaltar, inclusive, que além do humor negro, o surrealismo está presente, em doses pequenas, como por exemplo a personagem Yona que pode enxergar através da porta/tempo, traduzindo com perfeição o sentido de precaução do homem.

Essas metáforas, podem ser reduzidas, como escrevi acima, apenas em classes sociais, transformando o filme em uma necessidade nos cursos de sociologia, porém, imagino que há outras discussões filosóficas a fazer, principalmente no que diz respeito a etapas. As cenas de lutas são frenéticas, cortes rápidos, algumas ausências sonoras, como se fosse uma vírgula para o espectador dar forma a esse turbilhão de significados que somos apresentados.

Em nenhum momento se torna pedinte, inclusive, a interpretação acontece de forma orgânica, imagino que era justamente a intenção, pois ter o Chris Evans no pôster leva o grande público a crer que se trata de mais um filme de ação, tradicional e do mesmo, o que de forma alguma traduz a realidade. O maior mérito do filme é não ser comum, acaba por tirar quem assiste da zona de conforto.

Em um momento crucial, quando os rebeldes chegam em uma sala de aula, há uma crítica feroz a, inicialmente, deixar as sujeiras escondidas embaixo do pano e, posteriormente, a atitude da professora que da aulas para o seus alunos como se quisesse alcançar uma espécie de alienação em prol a exaltação de um ser que os garotos desconhecem. Pregando, inclusive, a indiferença com o restante, algo bem real e recorrente na sociedade, desde o princípio.

Parece que cada personagem é um monumento, explorado em todos os detalhes para desenvolver mensagens importantes, dentre elas, a importância da igualdade e esperança. Uma verdadeira seleção artificial, onde o poder cria um meio sustentável de cegar o homem até mesmo sobre a situação real do mundo. Em dada cena um dos personagens pede para que os rebeldes se limpem, com água, tirando o sangue do corpo, isso poucos minutos antes de seguir para uma nova etapa, adentrando então em um universo elegante e falso, onde existe desespero em perder até mesmo uma simples bebida.

Aliás, durante toda a projeção eu imaginei Wilford como Deus e, como consequência, o objetivo dos homens. Como se ele representasse o estágio final da batalha por um lugar no mundo. Aqueles homens que conseguirem concluir todas as missões, tem direito de sentar ao lado de Deus e questionar o real objetivo do sistema, que pode ser tanto entendido como injusto como necessário.

O que me frustou um pouco – nada comparado com a grandiosidade do longa – foi no final as longas explicações do antagonista, chegando ao cúmulo de soltar “o trem é a vida, as pessoas são a humanidade”, algo que desde o começo estava muito claro, além disso os efeitos especiais nas cenas externas são bem fracas, algumas delas poderiam ser ocultadas, inclusive seria um artifício interessante, afinal o que realmente interessa é a vida/trem.

Por fim, é um excelente filme para refletir alguns temas importantes, desenvolvido de forma inteligente e que, mesmo se rendendo há alguns clichês, se torna único por conta de alguns elementos e preocupação com os detalhes, seja visual – como o contraste entre os cinzas no primeiro vagão e as cores vibrantes nos últimos – ou narrativa, pois existem várias discussões maravilhosas ao longo.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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