O Túnel, 2016

O Túnel (Teo-neol, Coréia do Sul, 2016) Direção: Kim Sung Hoon

Jung-su sai do trabalho e dirige até a sua casa. No caminho um túnel despenca, deixando-o preso entre os escombros. Em um ambiente apertado e destruído, uma das suas ferramentas de comunicação com o mundo exterior é justamente um celular e, a partir dele, toma consciência da sua situação perturbadora e é aconselhado a economizar água afim de aguentar os sete dias para a concretização do resgate.

O primeiro ato é trabalhado com dedicação pelo diretor Kim Sung Hoon, de forma que o protagonista e sua história seja desenvolvida através da catástrofe. Mas no decorrer, o que se percebe é a incapacidade de relacionar o espaço limitado em que o personagem se encontra com a sua vida, visto que não há propostas dramáticas além da própria situação traumática, limitando o roteiro e, principalmente, afastando o espectador da identificação.

Existem cenas realmente impactantes e tensas, mas a claustrofobia é deixada de lado no momento em que esse espaço, do nada, aumenta. A intenção é muito clara: um roteiro fragilizado chega a um ponto que se perde completamente, para contornar essa situação, é preciso colocar mais personagens e situações-conflito para o protagonista resolver.

Se o roteiro se perde em meio aos dilemas individuais de um homem só, lutando pela sobrevivência e limitando-se a esperar o impossível, isso chega a um estágio enorme quando quando analisamos a obra politicamente. É curioso notar que a operação de resgate é inacreditavelmente grande, resultado de enormes investimentos e ainda por cima é acompanhado pela mídia, mas tudo isso é para salvar a vida de apenas um homem. Agora, pensando friamente, em que mundo utópico algo assim aconteceria? O potencial filosófico é desperdiçado. O resultado é um filme clichê que se salva por pequenos momentos, mas que entrega apenas o aceitável. Recusando, portanto, qualquer dilema moral ou social, se atendo apenas ao óbvio.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Hill of Freedom, 2014

Hill of Freedom (Jayuui Eondeok, Coréia do Sul, 2014) Direção: Hong Sang-soo

Hong Sang-soo, a cada trabalho, imprime suas características de forma orgânica e elegante, como um maestro, sempre priorizando as relações humanas afim de questionar como o indivíduo enfrenta as mais diversas situações do dia a dia. Na sua essência, lembra o Éric Rohmer, mas o desenvolvimento têm semelhanças com o Woody Allen. Isso sem nunca soar artificial ou cópia. O diretor parece conquistar facilmente o seu espaço e respeito através de honestas crônicas onde temas como as relações, verdade e tempo serão trabalhados de uma forma agridoce.

Em Hill of Freedom ele conta a história de um japonês chamado Mori (Ryo Kase) que viaja à Coréia do Sul para reencontrar uma amiga. Com uma simplicidade enorme, assim como a sinopse sugere, acompanhamos essa trajetória e os seus inúmeros desencontros através de lembranças. É uma jornada de pequenos e importantes diálogos, onde o protagonista, em meio a uma busca, se depara com o inesperado e, nesse processo, compreende a si e seu silêncio.

A maior força da obra é mesmo o seu equilíbrio entre a técnica e o natural. A filmagem, algumas vezes, nos aproxima do objeto em um zoom e cria planos visuais limpos, acolhedores – em perfeita harmonia, inclusive, com a clara fotografia. A sensação que transparece é a de tranquilidade, se trata mesmo de um filme de viagem onde os problemas pessoais e conflitos do protagonista são esquecidos justamente pela sua maturidade diante à vida. Ele se sente um pouco desconfortável nas conversas, mas ainda assim é muito simpático, despertando atenção daqueles que estão ao redor.

A atuação do grande ator japonês Ryo Kase, que vem nos presenteando com grandes performances desde o maravilhoso e popular “Ninguém pode Saber” (2004), é primorosa nesse sentido e colabora diretamente na empatia provocada pela sua imagem doce e misteriosa. Existe muito coração nesse personagem. Suas opiniões são sempre respeitosas e a comunicação acontece de forma delicada, aliás, existe uma importância grande no que diz respeito a linguagem, não à toa o filme é quase todo falado em inglês, visto que o personagem principal não sabe falar coreano. Essa decisão, sem dúvida, ausenta os personagens de domínio um sobre o outro, visto que todos estão falando uma segunda língua, todos estão, portanto, completamente despidos.

A câmera estática representa a segurança que é adquirida conforme os dias se passam, inclusive o tempo é relativo aqui, visto que a narrativa acontece por meio de uma leitura de cartas onde todas estão fora de ordem, portanto, a alma da obra é justamente as lembranças vividas por alguém, cuja interpretação e olhar modificou os lugares e as pessoas que conheceu.

O percurso de encontrar alguém, traz consigo uma infinidade de vírgulas, uma garçonete que se interessa pelo protagonista, após ele salvar o seu cachorro, é a mais evidente. E esse pequeno relacionamento é envolto de doçura, mútuo respeito e empatia. Inclusive, é interessante notar que, à medida que há mais confiança na relação, a câmera se aproxima. Essa barreira criada para representar o turista e os limites do diálogo é excelente pois representa o sentimento universal de estar só, mesmo que rodeado de histórias, vidas e diferenças. Em meio ao trajeto de ir e vir, existe uma quantidade imensa de conhecimentos que se adquire e sente e é essa a única obrigatoriedade da existência: entregar-se.

O final do filme é a conclusão de uma simples jornada, como todas são. A grandiosidade dos movimentos está na visão daqueles que assistem ou descobrem. Dois personagens seguem em rumo a um outro país, os passos seguem uma direção, enquanto o coração teima em enfrentar todas. A delicadeza do simples é investigada por Hong Sang-soo e o resultado se dá em uma obra incrivelmente transparente.

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Eu Sou um Cyborg, e Daí?, 2006

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★★★★

Quem conhece o trabalho do diretor Park Chan-wook sabe o quão prazeroso é acompanhar o seu olhar sobre a obscuridade humana. Mais do que a tensão, o diretor consegue, dentro de cada detalhe, desenvolver uma série de significados que se estendem para toda uma compreensão do homem, que vão desde a insanidade até chegar a monstruosidade.

Eu Sou um Cyborg, e Daí?” é uma obra que na sua narrativa, direção de arte, fotografia, montagem… se difere bastante de toda a atmosfera apresentada nos filmes mais populares do Park Chan-wook – como é o caso de “Oldboy” e “Segredos de Sangue” -, porém, a proposta filosófica é extremamente parecida e, ainda por cima, cria um elo, de forma indireta, entre alguns temas trabalhados pelo diretor anteriormente.

A história é de uma simplicidade e surrealismo sem tamanho, mas existe um toque de realidade e drama em cada cena estranha. Demora poucos minutos para percebemos que essa sensação é movida por uma verdade oculta: Nada poderia ser tão real, perturbador e identificável quanto a loucura de não saber quem é.

Esse e outros dilemas são desenvolvidos através de uma personagem central, Cha Young-goon, que é internada em um hospital psiquiátrico por acreditar que é um ciborgue. A garota rejeita todo tipo de comida e recarrega sua energia com pilhas, trazendo graves consequências à sua saúde. No entanto, um garoto anti-social chamado Park Il-Soon ajudará a protagonista a encontrar um caminho, estabelecendo uma conexão entre a loucura e sobrevivência nesse mundo “normal” que vivemos.

É válido ressaltar que essa ajuda acontece por meio da inocência, totalmente desprendido da razão e entregue a insanidade. Uma relação bem distante do clichê de inúmeros filmes românticos. Ainda mais, em nenhum momento há preocupação em explicar quem são os doentes mentais, até porque os médicos são tão problemáticos quanto, o filme vai muito além e situa o espectador na mente dos personagens – que, por sinal, permanece bem distante da “ordem” e, portanto, em 107 minutos somos transportados para um mundo onírico que se torna ainda mais exuberante com a linda direção de arte e fotografia.

São diversas informações transmitidas através de metáforas e rimas visuais. Elementos como objetivo, dúvida e amor ficam escondidos nos corações de personagens complexos por sua postura livre – destaque para a atuação da Lim Su-Jeong que percorre diversas expressões e utiliza, de forma sábia, o corpo e olhar para compor sua personagem.

O homem moderno oculta muitas coisas para continuar em perfeito ritmo com o sistema; O homem moderno oculta até mesmo sua insanidade. Parece que vivemos em perfeito estado de aceitação e as coisas simplesmente não são assim. Como as coisas são? O que somos? Aquilo que nos foi imposto ou o que acreditamos ser?

Lindo, profundo e poético é a cena em que o casal está lado a lado para testar o “megatron de arroz” e, após ter sido bem sucedido, Park Il-Soon se curva e fica diante ao coração da Cha Young-goon, enxergando, junto com quem assiste a obra, as engrenagens da protagonista, percebendo como tudo está funcionando perfeitamente – apesar das inúmeras imperfeições.

Como seria perfeito um mundo em que nossos problemas pudessem ser resolvidos com doses de inocências. Sorte que existem, espalhados pelo mundo, técnicos especialistas em megatron de arroz, prontos para ajudar a ultrapassar as dificuldades da vida, com garantia para a vida toda e atendimento à domicílio.

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Mother – A Busca pela Verdade, 2009

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★★★★

Joon-ho Bong é, sem sombra de dúvidas, um dos melhores diretores sul coreano em atividade. O realismo que os seus personagens são apresentados, dialogam de forma bem direta com o onírico, repleto de absurdos e de falhas. A sua facilidade em subverter o gênero policial é outra virtude, como visto nesse seu trabalho lançado em 2009, onde uma mãe assume a função de pessoa que procura desvendar os fatos, afim de procurar o(s) culpados de um assassinato, e, consecutivamente, livrar o próprio filho – doente mental, inclusive – da cadeia.

O fato é que a personagem é uma mãe, Mother em inglês, em nenhum momento revela o seu nome; É, portanto, unicamente uma mãe, nada mais. Já nas cenas iniciais fica evidente o cuidado especial e obsessivo que ela tem pelo seu filho, em singelos momentos essa ideia vai, aos poucos, sendo passada ao espectador. Ainda mais, e talvez mais perigoso, em alguns momentos é mostrado pequenas atitudes que demonstram que a mãe possui uma ansiedade em ocultar os erros. Principalmente do filho mas, no desenvolver da trama, percebemos que o tratamento dado é apenas um reflexo dos erros pessoais desse ser humano misterioso.

O próprio nome da mãe fora tirado dela. O único direito e necessidade que ela tem é cuidar do seu filho, a preocupação é nebulosa, não se sabe muito bem se é por algum tipo de medo, diante da clara doença mental do filho – o que, por sinal, em nenhum momento o impede de viver e entender as coisas ao redor – ou algum tipo de remorso ou insegurança.

A cena inicial temos a mãe, em um campo, solitária, ela começa a dançar, um contraste curioso em relação ao comportamento que será desenvolvido a seguir. Poderia ser apenas uma apresentação, porém serve como porta de entrada e representa um claro indício de que essa mulher é uma marionete de suas escolhas, que sua função é controlar um outro pois, na sua cabeça, a fragilidade está em todos os lugares, menos nela mesma. É um trabalho muito difícil interpretar a relação da mãe e do filho, extremamente ambíguo e obscuro.

A multiplicidade dessa relação é reforçada com a técnica cinematográfica de forma muito consciente, destaque para a fotografia, com tons azulados e cinzas, demonstra com perfeição o psicológico da mãe, estabelecendo desde o começo um interesse involuntário em descobrir mais sobre esse ser humano frio, sem amor próprio. No mesmo tempo que o fato de estar sempre chovendo, ajuda a criar um ambiente perfeito para se estabelecer o mistério.

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O figurino da mãe recorrentemente traz o vermelho ou vinho, remetendo-nos a ideia da paixão, sangue – que será derramado em dado momento de forma literal, mas existe sangues derramados durante quase todo o filme nas entrelinhas – e, se aprofundarmos um pouco mais, a excitação.

Tracei uma relação óbvia entre a relação mãe e filho – que assume diversas outras funções – com o complexo de Édipo. Essa dependência inconsciente do filho, movido, inicialmente, pelas suas próprias limitações, atingem um outro patamar a partir do momento que o garoto começa a ter atitudes impulsivas e grotescas por influência de um amigo. Ele começa a sentir o que é ser independente, no mesmo tempo que não é capaz para tal desprendimento.

Ele precisa de alguém para guiar; Não à toa, mesmo diante a iminente descoberta sexual, ele permanecia “inocente” até o seu amigo preencher sua mente com desejo por mulheres, despertando a necessidade humana de se relacionar com o sexo oposto. O que seria absurdamente normal, se a vida dele não fosse tão conturbada. Em uma provocação o amigo pergunta para ele se já dormiu com uma mulher, ele responde positivamente e, depois de algum mistério, fala: “eu dormi com a minha mãe“.

A relação percorre diversos degraus, pai e filho, filho e mãe e, entre eles, ainda há espaço para o homem e mulher. Ora, ambos personagens só possuem um ao outro, é um contato doentio, baseado em uma necessidade primordial. Existe apenas um personagem: a mãe. O filho é parte dela, os dois são os mesmos, nasceram de um mesmo ponto e caminharão juntos para um mesmo fim.

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Existe uma sombra, a personagem da mãe busca o seu sepulcro. A “busca pela verdade” da tradução permanece como um questionamento durante todo o longa. Que verdade seria essa? O conflito do assassinato, a resposta sobre o que realmente aconteceu parece muito simples diante a complexidade daquela relação provocante. Aliás, quando a mãe descobre quem matou a menina – mistério que move o filme até certo ponto, pois os fatos não são tão difíceis assim de assimilar mas, repito, causar a surpresa não é a preocupação principal do filme – ela permanece com mesma intenção e atitude que tinha no início, nada mudou além de compreender a verdade.

No final, fechando o ciclo que começa na apresentação onde a personagem dança em um campo, metaforicamente temos uma mulher perdida em meio a tantas outras, ela se torna ainda mais prisioneira da culpa e, ainda por cima, começa a entender que o seu destino é cobrir erros para sempre, assim podemos interpretar que a própria é um grande erro do universo e precisa, assim, se esconder constantemente.

O choro ao final, ao ver a conclusão da sua busca, faz-nos pensar que ela não se entristece apenas pelo seu filho, mas por todos os filhos do mundo.

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The Silenced, 2015

The Silenced 2015 ( Cronologia do Acaso )

Esse filme, cujo título original é impronunciável, “Gyeongseonghakyoo: Sarajin Sonyeodeul” é sul coreano, tendo sido lançado no país em junho de 2015. Mescla fantasia, terror com pequenas doses de dramas, aliás, existem várias doses nesse filme, que vão desde “Carrie” até “X-men” e outras referências inacreditáveis para aqueles que, como eu, esperavam algo completamente diferente diante as cenas iniciais. Nesse caso em específico as surpresas não são um ponto forte, apenas resultado de uma indecisão monstruosa no que diz respeito a narrativa. Sempre solta, inexplicável, fazendo com que o espectador fique com um pouco de dor de cabeça de tanto pensar e, na sua conclusão, não chegar a lugar nenhum.

Enfim, o filme conta a história de uma garota chamada Joo-Ran que está doente e chega em um internato para recuperar a saúde. Nesse internato tem uma diretora incrivelmente caricata, como se o diretor Lee Hae-Young quisesse esfregar na cara de quem assiste que se trata de uma vilã, apesar de em filmes como “Expresso do Amanhã” isso ter dado certo, aqui temos, novamente, o mal desenvolvimento de elementos simples, como a própria maquiagem.

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Pois bem, Joo-Ran percebe que está em meio a uma confusão crescente, um verdadeiro mistério. Suas amigas desaparecem, ela começa a se sentir diferente, com mudanças anormais pelo corpo, e passa a suspeitar que a escola esteja por trás desses fatos.

Começamos as cenas iniciais com uma bela paisagem, destaque para a fotografia que faz das filmagens exteriores um absurdo de lindeza, a personagem principal está sendo levada para o internato, inclusive sua roupa vermelha se sobressai as cores do cenário, evidencia a sua diferença ou os acontecimentos que virão a seguir, até mesmo contraria o uniforme que passará a usar.

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O que funciona na obra é a fotografia, designer de produção que se preocupa com cada detalhe do internato, criando um lugar que, praticamente, consome todos os personagens pouco desenvolvidos, e a tensão que é mantida até a metade. Ou seja, todos os aspectos relevante se tornam frágeis com um objetivo pouco funcional, resultando em observações muito desprendidas, a técnica não pode ser maior que o roteiro, nada está encaixado como deveria, transformando-o em um produto belíssimo, visualmente, e sem conteúdo algum.

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Expresso do Amanhã, 2013

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★★★★

Por ser um apreciador do cinema sul-coreano, fiquei extremamente feliz com a oportunidade de assistir “Expresso do Amanhã” no cinema. Já havia escutado comentários sobre ele e, mesmo assim, sem nenhum motivo aparente, acabei não tendo muita curiosidade. Pelo menos valeu a pena esperar dois anos e conferir na tela grande.

Bong Joon-ho é um dos melhores cineastas do mundo, muito jovem, ele demonstra uma maturidade incrível para lidar com diversos temas, consegue caminhar com tranquilidade pelo drama até chegar na tensão, como visto em “Memórias de um Assassino” e “Mother”. Agora ele faz um filme para o grande público, acertando bastante, principalmente se comparado com outros diretores do circuito alternativos que pecam em não transportar toda a sua capacidade para as realizações maiores.

O mais recente filme de Joon-ho começa explicando que um experimento dá errado e o homem se vê em meio a uma nova era do gelo. A pouca população que ainda resta está a bordo de um trem que foi planejado por um homem chamado Wilford ( Ed Harris ), lá dentro a desigualdade é presente, pois as pessoas são divididas por classes. A classe inferior, liderados por Curtis ( Chris Evans ), estão prestes a mover uma grande revolta e, por consequência, o espectador entenderá a situação e o contraste com os demais vagões do trem que representam, em resumo, o status.

A metáfora está presente desde a primeira cena, ou melhor, desde a sinopse. Fica claro que cada vagão representa uma classe social, porém, podemos ainda estender o seu significado para a própria história da humanidade. A classe inferior, a qual somos apresentados primeiros e, através deles, descobriremos as demais, representa tanto os operários quanto a primitividade ou a irracionalidade existente no mundo. Traduzindo, os primeiros homens da terra, ainda descobrindo as ferramentas para, enfim, encontrar a sua evolução.

Através da estratégia e observação dos seus personagens, o filme bem no início já os constrói de forma perfeita, criando, por exemplo, em Curtis o perfeito “futuro líder”, aquele que deve passar por cima da impulsividade para ser o guia dos mais ignorantes. É a representação do despertar, em qualquer âmbito, o homem necessita da exploração para entender o meio e a si próprio.

Evidentemente, o líder necessita de ajuda e, por esse motivo, Gilliam, interpretado pelo John Hurt, faz o típico sábio, aquele que mesmo inserido na inferioridade, se mostra extremamente ciente sobre a sua situação. Bem como, em seguida, para abrir as portas e entrar nos próximos vagões, eles precisam de um especialista. Entra em cena Namgoong Minsu ( Song Kang-ho ) e Yona ( Ko Ah-sung ), ambos atores excelentes, Song Kang, inclusive, ao lado de Min-Sik, é meu ator preferido da Coréia do Sul. A cada porta que Namgoong ele ganha drogas, esse personagem representa a ultrapassagem, a coragem para enfrentar o que vem adiante. Ele dá as chaves, ele encontra o momento certo. É válido ressaltar, inclusive, que além do humor negro, o surrealismo está presente, em doses pequenas, como por exemplo a personagem Yona que pode enxergar através da porta/tempo, traduzindo com perfeição o sentido de precaução do homem.

Essas metáforas, podem ser reduzidas, como escrevi acima, apenas em classes sociais, transformando o filme em uma necessidade nos cursos de sociologia, porém, imagino que há outras discussões filosóficas a fazer, principalmente no que diz respeito a etapas. As cenas de lutas são frenéticas, cortes rápidos, algumas ausências sonoras, como se fosse uma vírgula para o espectador dar forma a esse turbilhão de significados que somos apresentados.

Em nenhum momento se torna pedinte, inclusive, a interpretação acontece de forma orgânica, imagino que era justamente a intenção, pois ter o Chris Evans no pôster leva o grande público a crer que se trata de mais um filme de ação, tradicional e do mesmo, o que de forma alguma traduz a realidade. O maior mérito do filme é não ser comum, acaba por tirar quem assiste da zona de conforto.

Em um momento crucial, quando os rebeldes chegam em uma sala de aula, há uma crítica feroz a, inicialmente, deixar as sujeiras escondidas embaixo do pano e, posteriormente, a atitude da professora que da aulas para o seus alunos como se quisesse alcançar uma espécie de alienação em prol a exaltação de um ser que os garotos desconhecem. Pregando, inclusive, a indiferença com o restante, algo bem real e recorrente na sociedade, desde o princípio.

Parece que cada personagem é um monumento, explorado em todos os detalhes para desenvolver mensagens importantes, dentre elas, a importância da igualdade e esperança. Uma verdadeira seleção artificial, onde o poder cria um meio sustentável de cegar o homem até mesmo sobre a situação real do mundo. Em dada cena um dos personagens pede para que os rebeldes se limpem, com água, tirando o sangue do corpo, isso poucos minutos antes de seguir para uma nova etapa, adentrando então em um universo elegante e falso, onde existe desespero em perder até mesmo uma simples bebida.

Aliás, durante toda a projeção eu imaginei Wilford como Deus e, como consequência, o objetivo dos homens. Como se ele representasse o estágio final da batalha por um lugar no mundo. Aqueles homens que conseguirem concluir todas as missões, tem direito de sentar ao lado de Deus e questionar o real objetivo do sistema, que pode ser tanto entendido como injusto como necessário.

O que me frustou um pouco – nada comparado com a grandiosidade do longa – foi no final as longas explicações do antagonista, chegando ao cúmulo de soltar “o trem é a vida, as pessoas são a humanidade”, algo que desde o começo estava muito claro, além disso os efeitos especiais nas cenas externas são bem fracas, algumas delas poderiam ser ocultadas, inclusive seria um artifício interessante, afinal o que realmente interessa é a vida/trem.

Por fim, é um excelente filme para refletir alguns temas importantes, desenvolvido de forma inteligente e que, mesmo se rendendo há alguns clichês, se torna único por conta de alguns elementos e preocupação com os detalhes, seja visual – como o contraste entre os cinzas no primeiro vagão e as cores vibrantes nos últimos – ou narrativa, pois existem várias discussões maravilhosas ao longo.

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