Retrato de uma garota do fim dos anos 60 em Bruxelas, 1994

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No ano de 1994 foi ao ar, na TV francesa, uma série chamada “Tous les garçons et les filles de leur âge” – traduzindo seria algo como “Garotos e Garotas de Todas as Épocas” – que possuía nove episódios, todos dirigidos por pessoas diferentes e que analisava, em uma curta duração, a vida de jovens inseridos no contexto de determinada década.

Foi muito elogiado pela crítica e se destacou justamente pela despretensiosidade e marcas pessoais deixadas pelos diretores, muito por conta da liberdade criativa. André Téchiné, Chantal Akerman, Claire Denis, Olivier Assayas, Laurence Ferreira Barbosa, Patricia Mazuy, Émilie Deleuze, Cédric Kahn e Olivier Dahan foram os nomes que construíram, a sua maneira, uma porta para a reflexão sobre a vida e angústias dos jovens, tendo resgatado isso de forma visceral, com o auxílio de atores e atrizes desconhecidos.

Depois de “U.S Go Home“, da diretora Claire Denis, fui ver o maravilhoso “Retrato de uma garota do fim dos anos 60 em Bruxelas” e, de imediato, pude perceber algumas mudanças cruciais que fazem, esse segundo, ser o fiel representante da ideia excelente de criar pequenos filmes que abraçam a causa do jovem.

O filme é dirigido pela Chantal Akerman e acompanha a história de uma garota, de 15 anos, que desiste da escola e vai para o cinema todos os dias. Além disso, a personagem transita pelas ruas de Bruxelas, em 1968, conversando, se apaixonando e demonstrando, sempre, uma perfeita ciência do que acontece ao seu redor.

A produção foi feita visivelmente com poucos recursos, a abordagem técnica é prejudicada, também, por ser uma obra destinada à TV. No entanto, existe um brilho na intenção de existir um conteúdo audiovisual tão profundo e de acesso facilitado. O maior mérito desse longa está nos diálogos que, sustentando-se no fato de ter, em mãos, uma personagem extremamente complexa e madura, se deleita em cada indagação filosófica ou até mesmo nas referências literárias.

A força feminina está em cada cena, a protagonista se vê em meio à uma série de interesses e jamais se deixa levar, mantendo-se fiel à sua personalidade sincera, despreocupada e um tanto rebelde.

Ela foge para o cinema e, esse momento, não é trabalhado com sentimentalismos, pelo contrário. Ela chega a dizer, em dado momento, que nem se lembra do nome do filme que acabara de ver. A fuga é trabalhada na sua condição mais pura, isolada de qualquer possível disfarce artístico.

“[…] eu gosto dos livros sobre incomunicabilidade[…]”

Uma cena que destaco é quando a menina está no cinema, ao lado de um rapaz e mesmo concentrada no filme, ela sugere ao garoto que a beije. De forma completamente direta e sem vergonha. Depois na rua eles passam a refletir sobre o beijo. Se ela afirma que gosta de livros que abordam a incomunicabilidade, o longa expõe seus atores de forma contrária, extraindo deles a palavra, mesmo que ela ilustre um pequeno detalhe.

Ainda sobre tempo para diálogos bem engraçados como “você têm um corpo bonito, quero te ver nu” e, reparem, todos pautados na mesma naturalidade. Complementando, as músicas são bem utilizadas e a jovem faz jus à força feminina. Em comparação com “U.S Go Home” – que abusa das referências musicais e trabalha com uma personagem indecisa – é infinitamente melhor, no entanto são dois lados de um ser em formação, envolto de muita vontade e pouco conhecimento.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Feliz 2016!

FELIZ-ANO-NOVO

No dia 31 de dezembro de 2014 eu postei essa publicação no [Cronologia do Acaso]: http://cronologiadoacaso.blogspot.com.br/2014/12/adeus-2014.html – ainda no Blogspot. Hoje, relendo, exatamente um ano depois, me pego pensando o quanto mudei, em relação aquele garoto ansioso de antes.

Bem, o projeto Cronologia do Acaso está quase fazendo três anos! No começo, me preocupei exclusivamente em compartilhar todos os meus medos e angústias, até mesmo aflições, através de resenhas disfarçadas. Na verdade eu somente produzia minha própria obscuridade.

Isso não é um problema, afinal, estava sendo sincero nas minhas colocações. O interessante é que tenho alguns leitores desde essa época e a relação que construí com eles é excepcional. Parece que me conhecem de forma muito linda e, igualmente, entregue, carinhosa.

Depois de passar rapidamente pelo Cinem(ação) – um momento e realização muito legal e divertida – decidimos que precisávamos evoluir, dar um passo adiante. O CdA sempre esteve atrelado a outros sites, vocês já repararam? Eu não sou um bom empreendedor, portanto sempre mantive distante a ideia de fazer algo mais sério, visando um crescimento. Mas, em março de 2015, finalmente decidimos abrir esse espaço e, com o auxílio de tutoriais, consegui fazer o mínimo para deixar um visual agradável. Hospedagem e domínio realmente facilitam muito a vida, fica a dica.

O site começou a ganhar contornos diferentes, lidei com ele de uma forma bem mais profissional, ainda assim mantendo a essencial e característica sensibilidade. O cronologia é um conforto para o meu coração, honestamente ainda fico pensando muito em formas de ampliar o seu alcance, dinamizar o seu conteúdo, por si só, diferenciado.

Escrever críticas grandes sobre filmes que poucos viram não atrai muitas visitas, mesmo assim eu me surpreendo com a consistência dos acessos. Mesmo tendo conseguido, infelizmente, apenas uma crítica por semana nesse ano. Por outro lado nós conseguimos manter o podcast com periodicidade quinzenal. Aliás, o primeiro episódio do Cronologia do Acaso foi lançado em 2012, na época estávamos no Mídias e Modos, ou seja, ele está entrando no seu quarto ano!

Hoje escrevo sem tristeza, sem melancolia. Esse final de ano representa, para mim, uma oportunidade agarrada com todo afinco. Seja no lado profissional ou até mesmo no Cronologia, sinto que fiz algo útil.

No entanto, é de se esperar novidades, provavelmente na primeira metade do ano eu estarei absurdamente ocupado com o final da faculdade, porém, desde já penso em novidades para o site, até mesmo para não ficar apenas escrevendo críticas e explorar outras formas de escrita, sempre divulgando o cinema independente e, por meio dele, discutindo sobre a vida e amor.

Por fim, agradeço à você, leitor(a) e amigo(a) que me acompanha e me ajuda, agradeço profundamente aos queridos Sandro Macena – meu amigo de longa data que, por motivos pessoais, esteve um pouco afastado mas continua nos bastidores – Cliff Rodrigo, Marcus Rocha, Weuler Lopes, Tiago Messias, – Aliás, no exato momento que estou escrevendo esse texto, saiu o Subverso que participei comentando alguns dos melhores filmes de 2015! clique aqui para ouvir e não se esqueça de comentar – Júlio que fez sua primeira postagem no Cronologia – sobre o curta destino clique aqui para ler – e está prestes a fazer um trabalho sensacional por aqui em base a um sublime diretor e, especialmente,  André Albertim que entrou esse ano para a equipe e foi amor à primeira vista.

Agradeço também ao Marcos Ramon, por nos acompanhar e sempre comentar nas postagens. Destaco especialmente uma indicação que ele fez do nosso podcast em uma postagem incrível onde refletiu sobre a mídia clique aqui para ler – confesso que me emocionei quando percebi que ele nos indicou e, ainda mais, descrevendo com tanta sensibilidade o nosso projeto.

Tradicionalmente eu faço uma lista de melhores filmes do ano. Eu estou construindo ela com muita atenção e, para conseguir ser o máximo responsável possível, darei tempo a mim mesmo e postarei, sem falta, no dia 5 de janeiro. Junto com a lista dos melhores, postarei também uma lista com todos os filmes que eu vi no ano, já que muita gente me pergunta o que estou assistindo =D

Me despeço de vocês afirmando, de coração, que estou por ai, quem quiser conversar, trocar ideias sobre cinema, dar dicas ou sugestões para o site, entre em contato. O e-mail é: contato@cronologiadoacaso.com.br, Twitter: @cronodoacaso.

Feliz ano novo,
Emerson Teixeira Lima

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Um cinema para todos

Essa foto foi tirada em um dia muito especial na minha vida. Como professor de tecnologia em um programa do Governo, desenvolvi há alguns anos um planejamento que cobrisse algumas necessidades pessoais e, inevitavelmente, entendia que fosse um grande ganho para as crianças/adolescentes com os quais trabalho ou trabalhei. Portanto, dou aula de fotografia, cinema, enfim, primando, essencialmente, pela arte, enquanto inserida na própria tecnologia.

Depois de criar um cineclube na própria escola, que atendesse exclusivamente os alunos que participam do programa, na sua maioria carentes, nós tivemos a oportunidade de levá-los ao cinema, uma boa parte deles, pela primeira vez!

Primeiro fizemos um piquenique, depois entramos com umas 90 crianças, separadas em pequenos grupos, no shopping. A reação deles era incrível, olhavam tudo com muita atenção, o sorriso era intrínseco. Eu tive o prazer de, antes, falar um pouco como funcionava a mecânica do cinema, então lá estavam presentes 90 “mini-cinéfilos” que, por serem crianças, esqueceram tudo e foram envolvidos tão somente pela magia.

Eu, cinéfilo que o sou, que já afirmei diversas vezes que o cinema mudou a minha vida, me salvou… Estava diante de uma real possibilidade de me imortalizar. Enquanto cuidava do meu grupo, tirava fotos desenfreadamente e, nos momentos oportunos, me distanciava para me emocionar sozinho.

Bem, esse foi um dos casos, mas o cinema me proporcionou outros momentos assim, de reflexão. Eu nunca fui rico, inclusive acabei de escrever que sou professor, que fotografo, ou seja, dois empregos que não dão dinheiro. Não que eu me importe com isso, pelo contrário. Eu sou feliz com o meu torrent, sou feliz quando no final do mês pego meu dinheirinho ( que sobrou das contas, pois, infelizmente, cresci ) e vou até o cinema assistir um filme blockbuster – sim, apesar do [Cronologia do Acaso] ser exclusivo sobre cinema alternativo, eu assisto também esses para me divertir.

http://www.revistaforum.com.br/blog/2015/08/blog-e-criticado-na-internet-por-defender-fim-do-cinema-barato/

Esses dias li o texto do Jurandir Filho, não o conhecia muito bem, mas, sinceramente, o conteúdo apresentado me desanimou bastante. Não criticando a sua pessoa, muito pelo contrário, todos nós somos cabíveis do erro, mesmo que tenhamos convicção do que foi falado ou escrito, a experiência que vivemos, a criação, muda bastante o nosso olhar. Afinal, o conteúdo do texto soa arrogante, apostaria, inclusive, que o autor deve ser abastado e, pelo mesmo motivo, acabou se esquecendo da outra grande maioria, a qual eu também me incluo – pois pagar 20 reais para assistir um filme chato/sem conteúdo como a maioria desses filmes de super heróis, comédias nacionais e demais produtos que as salas me oferecem atualmente, é um absurdo.

Novamente, o autor foi ignorante no que diz respeito a indiferença com a realidade do nosso país, pois as pessoas merecem a oportunidade de entrar em contato com a arte, é o mínimo que se pode esperar, aumentar os valores só faria e faz com que as pessoas fiquem cada vez mais cômodas. Que bom seria se o livro fosse um real, se o cinema fosse um real, quem sabe assim as pessoas tivessem a mesma oportunidade que esses “críticos” tem de assistir tantos filmes no cinema, muitos desses, inclusive, criando um conteúdo extremamente superficial.

Apesar de que, existe sim uma postura diferente das pessoas em relação ao entendimento do cinema como arte, nesse ponto o Jurandir tem razão. Mas, um grande portal como o Cinema com Rapadura impulsiona isso e tem todo o direito, afinal, lucra muito, mas é extremamente infantil atribuir isso ao público quando, no mesmo tempo, 90% do conteúdo desses grandes sites só falam sobre o mesmo, direcionando o leitor/ouvinte para o consumismo e tirando-o a oportunidade de olhar para uma outra direção.

Não sou contra ninguém, a diferença tem que ser louvada. O Jurandir não está errado em colocar a sua opinião, assim como o seu conteúdo é importante. Mas há um abismo entre o cinema/produto e o cinema/arte. No mesmo tempo que a linha é tênue. Faltou um pouco mais de carinho, de observação, tem muita polêmica e pouco amor no conteúdo em questão.

O cinema não deve ser mensurado.

E, da mesma forma que mesmo com tão pouco, consegui ver o brilho nos olhos das crianças por entrarem em uma sala de cinema pela primeira vez, queria que o mundo sentisse o que eu sinto quando vejo um pai de família, com roupa do trabalho, levando seus dois filhos para assistir algum filme em cartaz. Sem pensar muito, sem questionar o preço – mesmo que seja monstruoso – pois, pelo menos uma vez ao ano, ele precisa sentir o sorriso daqueles que ama.

Se o mundo estivesse no cinema, 
As pessoas pelo menos estariam em silêncio.

emersontlima

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CdA #40 – Entrevista com Emerson Teixeira

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Sim! Você não está maluco! Dois episódios em dois dias! Um super especial do Cronologia ^__^

No segundo episódio especial entrevistando os criadores do projeto [Cronologia do Acaso] Sandro Macena formula cinco perguntas para o Emerson Teixeira responder. Um verdadeiro questionamento sobre a vida e, consecutivamente, desabafo bem pessoal e emocionado.

Descubra um pouco mais sobre esse louco-excêntrico-com tendências hipsters-pervertido-perdido-apaixonado-sarcástico e cidadão do interior chamado: Emerson Teixeira.

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CdA #39 – Entrevista com Sandro Macena

sandro macena

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Depois de 38 episódios filosofando sobre a vida, discutindo sobre vários temas da sociedade… hoje, paramos tudo e falamos de quem nós somos. Nós que produzimos esse podcast com tanto carinho, falando sobre cinema alternativo, ser humano e todos os seus demônios.

Começamos nessa semana com uma entrevista feita pelo Emerson Teixeira com o nerd-sorridente-hipster-alternativo-melancólico-estranho e que mora em um lugar perdido chamado Sepetiba: Sandro Macena.

Vocês que nos escuta há dois anos – mesmo que sem tanta periodicidade – irá descobrir mais sobre os criadores desse projeto [Cronologia do Acaso]. Na próxima semana tem uma entrevista com o Emerson Teixeira, fiquem de olho!

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