A Harpa da Birmânia, 1956

A Harpa da Birmânia (Biruma no Tategoto, Japão, 1956) Direção: Kon Ichikawa

A mesma guerra que transforma indivíduos em heróis, ganha contornos épicos e salienta os interesses do poder, transforma vidas cabíveis dos mais diversos sentimentos em corpos podres jogados no chão. É a personificação da brutalidade do homem, inerente às suas raízes, vai de encontro ao fim, provando sua força e coragem, sob o respaldo de uma intenção dos gigantes que, confortáveis, repousam nas suas salas de estar.

Ninguém pensa no soldado que, em meio ao desespero, desiste de ser herói. Aquele que, ao ver o seu amigo despedaçado por um tiro de canhão, clama por perdão, principalmente por estar em meio à uma peça de xadrez, onde os intelectuais movimentam seus peões e os sacrificam. A guerra transforma o ser humano em um amante do vazio, reduzindo o seu intelecto à uma programação segmentada; faminto, refém e permanentemente envolvido com a morte.

A Harpa da Birmânia vai de desencontro do famoso cinema popular de guerra, e concentra a sua atenção nas consequências dela no psicológico de um indivíduo, bem como a união de um grupo que, mesmo em meio ao caos, ainda tem forças para cantar. De imediato, percebemos uma proposta de reflexão do filme em questionar a situação que percorre, sem fazer propagandas, exaltação de feitos heroicos ou apontar vilões. É muito comum filme do gênero estabelecer imediatamente o inimigo, como forma de engrandecer um dos lados. Na verdade, isso se trata de uma ilusão, pois estando na guerra qualquer grande feito é criação de muitas mortes e dores, não existe inimigo e mocinho quando ambos defendem aquilo que acreditam.

A história do filme acontece no final da Segunda Grande Guerra em 1945, e se inicia com a apresentação de uma tropa japonesa que é, por ventura, liderada por um capitão apaixonado por música e que demonstra grande confiança por um dos soldados, o harpista do título, Mizushima – interpretado pelo Shôji Yasui, que fez poucos trabalhos mas imortais na história do cinema japonês. Na fronteira da Tailândia, essa tropa fica sabendo da rendição do Japão e entrega suas armas para os ingleses. Enquanto isso, o harpista é encarregado de levar a notícia para outra tropa que estava prestes a enfrentar os inimigos. No entanto, eles se recusam a perder suas dignidades através de uma rendição e morrem em batalha. Mizushima sobrevive e, ao invés de voltar para os seus amigos e esperar o dia de retornar para o seu país e ajudar na sua reconstrução, ele rouba as roupas de um monge e caminha por entre os destroços da guerra, rezando e enterrando os seus parceiros, meditando em silêncio e se desprendendo do passado.

Se trata de um dos filmes mais anti-bélicos que existem, pois mesmo que se contextualize em um ambiente assolado pelas sombras, se atém aos homens iluminados nessa jornada de purificação. A sobrevivência aqui é tratada como uma benção e maldição, em nenhum momento a tropa é vista como bondosa, apenas nos é lembrado constantemente da sua humanidade, que inclusive está diretamente ligada com a música que os envolve em momentos de tortura, seja física ou psicológica.

O vasto deserto que serve como pano de fundo para letreiros informativos no começo, é uma feliz ilustração do que está por vir. O protagonista caminhará por esse plano vazio e solitário, como se cada passo expurgasse os seus conflitos internos e traumas, fazendo com que esse ser não seja merecedor dos milagres da existência e estivesse, por consequência, fadado à andar sem propósito. O diretor Kon Ichikawa – um dos mais importantes diretores japoneses da história, tendo feito grandes clássicos como Kokoro (1955), Ten Dark Women (1961) e As Irmãs Makioka (1983) – consegue criar um filme épico e melancólico, sem querer chamar toda a atenção para si, mas sendo altamente técnico e inteligente na direção, não à toa a simetria e coerência visual que está presente desde o primeiro quadro até o último. As imagens acima ilustram um singelo corte que alinha os soldados posicionados com perfeição em meio à mata e logo em seguida os seus pés caminhando nas areias, buscando um destino. Esses cortes, imagens sobrepostas e, principalmente, posicionamento dos soldados no quadro, irão se repetir diversas vezes.

A obra é altamente metafórica quando deposita todas as suas atenções em soldados que, em diversos momentos, cantam e reconhecem de longe o som da harpa do amigo Mizushima. Como se sua harmonia soasse parecida com uma luz dos anjos, um caminho doce a ser enfrentado e, por que não, a própria esperança. A catástrofe amansia esses homens, de modo que todos interajam perfeitamente com a versão mais pueril de si, despidos de camadas sociais pois, nesse momento, são sobreviventes, são livres. Levam consigo o terror das mortes, óbvio, assim como são frutos de interesses – e isso fica nítido visualmente, pois sempre há soldados pressionados entre outros personagens, cercas etc – mas estão em plena recuperação, pois tiveram a arte funcionando como um Fio de Ariadne, que os conectava com resquícios de diversos sentimentos, como a empatia.

Visão dos soldados que encontram Mizushima transformado, solitário e vagante. Ele está ao lado de uma criança que carrega uma harpa (esperança), se encontra livre.

Já os soldados que retornarão para casa, estão apertados ao lado do outro e atrás da cerca. Juntos, sim, mas fadados à enfrentarem as consequências dos seus atos, bem como carregar as mágoas do contexto caótico para o resto de suas vidas.

Na Birmânia ou Myanmar era comum a prática do budismo de Theravada, o qual tenta resgatar perfeitamente os ensinamentos de Buda. Mizushima desde sua primeira aparição é trabalhado como o símbolo da subversão, traz a amenidade e faz emocionar somente com o movimento comum, mas grandioso, de jogar a arma para o lado e carregar a harpa. Como um escudo, como um mantra. A sua harmonia conduz os pecadores ao caminho da nova chance. Não é só os soldados, mas também o garotinho que pede esmolas.

Como não se emocionar com cenas maravilhosas como o monge caminhando na praia e avistando uma pilha de corpos no chão, no mesmo tempo que tampa os olhos e atravessa o local correndo. Como uma criança repleta de medo e que não teme demonstrá-los a quem quer que seja. Como pode um homem valente reduzir-se (agigantar-se) a tal ponto? A trilha sonora dá ênfase à profundidade dramática desses silêncios, como se conversasse com a alma. Aos pacifistas e amantes da música, é um milagre acompanhar essa jornada de um homem só, se entendendo como nada, buscando o nirvana e respeitando aqueles que se foram ao ponto de rastejar pelos seus restos como forma de manter viva as suas honras. Ele aprende a respirar diferente, pensar diferente e se comunicar, só a possibilidade de se manifestar verbalmente dói, portanto usa a sua música e um pássaro para criar mais um elo entre o estranhamento e o propósito. O ser invisível jamais voltará as suas terras, pois dela muitos partiram ao encontro do fim.

“Para a terra não basta cobrir um morto[…] Adeus aos amigos que retornam à Pátria”.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Creepy, 2016

Creepy (Kurîpî: Itsuwari no rinjin, Japão, 2016) Direção: Kiyoshi Kurosawa

O cinema japonês é sempre lembrado quando falamos sobre bons filmes de suspense. Comumente lidando com personagens dimensionais, com valores ambíguos e passado sombrio. Podemos agregar ainda mais camadas quando citado o trabalho do diretor Kiyoshi Kurosawa que, trazendo todas as características típicas mencionadas acima, ainda se preocupa em trabalhar com elementos contemporâneos nos seus mistérios, algo que pode ser visto em “Kairo” (2001) – o qual explora a internet e o sentimento de novidade em relação à nova ferramenta para dar sustentação à sensação de medo.

É de se lamentar, portanto, que o último filme do diretor, “Creepy” (2016), seja um filme ruim. A novidade, outrora primordial nos filmes do realizador, dá lugar ao comum aqui, o que temos é um filme de mistério que percorre absurdamente os mesmos caminhos de muitos outros e, no que tenta se diferenciar, acaba caindo em uma armadilha, pois as decisões provocam somente um leve cansaço e constrangimento.

A história gira em torno de um jovem policial que se aposenta por causa de um grave acidente e vira professor de psicologia criminal. Ele e sua esposa vão morar em um bairro tranquilo no subúrbio mas, por desconfiança sobre algumas atitudes de um suspeito vizinho e com o convite de um amigo da policia, o protagonista ajuda a policia em mais uma investigação.

O primeiro e começo do segundo ato entregam a promessa de bons eventos e descobertas, personagens complexos vão aparecendo timidamente, momentos em sala de aula onde o protagonista fala sobre serial killers e os classifica de três formas “organizados, desorganizados e mistos” dão a sensação – e deveriam – de que assumiriam uma importância no desenvolvimento, mas isso é plenamente descartado ao longo dos minutos.

Os vizinhos do casal são estranhos, não aceitam os presentes e contrastam com a simpatia dos novos moradores. No entanto essa relação de pouca comunicação também se estende para o próprio casal principal, cuja interação é nula e alguns acontecimentos poderiam ser facilmente superados se houvessem diálogos entre os dois.

A conclusão caminha para o óbvio, o roteiro deixa claro quais serão os desdobramentos mas ainda se vê preocupado em acrescentar, no final, uma série de cenas grotescas e que se perdem em seu sentido dramático. No entanto, há de se destacar a atuação do grande Teruyuki Kagawa que emprega características assustadoras ao seu antagonista e o posicionamento de câmeras dentro das casas de todos os personagens, pois geralmente deixam o objeto na diagonal, representando brilhantemente a confusão e insegurança, sentimentos pelos quais eles estão passando.

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Discurso de um Proprietário, 1947

Discurso de um Proprietário ( Nagaya shinshiroku, Japão, 1947 ) Direção: Yasujiro Ozu

Yasujiro Ozu é um dos maiores nomes do cinema japonês. Sua influência é imensa até hoje e tem como maior mérito a sensibilidade. Os temas dos seus longas geralmente incluíam a família, principalmente a figura materna, mas sempre conseguia explorar mensagens novas e igualmente fortes, principalmente dado o contexto histórico durante as realizações das suas obras. Um Japão doente, quebrado, com medo e sofrendo as consequências de uma guerra e infinitas limitações.

Nesse contexto, certamente falar sobre a guerra era algo movido por uma coragem e segurança inabalável, um dos maiores exemplos é “Discurso de um Proprietário”, onde os impactos sociais e, principalmente, emocionais, são observados a partir de um elemento estranho sendo obrigado a adentrar em um núcleo familiar e como todos reagirão a essa nova presença.

Na história Tashiro (Chishû Ryû) encontra um garoto perdido e leva para sua casa, na intenção de que algum dos seus vizinhos o adote. Com muita relutância a senhora Otane (Chôko Iida) fica com o garoto e, no começo, a relação é pouco saudável e muito arrogante. Ela lida com o garoto como se fosse um bicho, “um perdido” como é citado ao longo. Mas aos poucos a convivência vai se tornando agradável até alcançar a função de um portal de segurança e afeto ao garoto e amor incondicional por parte da Otane.

O diretor é conhecido como “o mais japonês dentre os cineastas japoneses”. O seu trabalho é permeado pela ambição de transformar quem assiste em japonês, inserindo-o na cultura de forma visceral, a execução é inteligentíssima para isso, a começar pelas histórias simples e personagens comuns, sua narrativa é tão natural que dialoga muito com os documentários.

Em “Discurso de um Proprietário”  a famosa câmera baixa do diretor, contextualizando o olhar assim como os japoneses ao fazer as refeições, também está presente desde a primeira cena. É delicado como o espectador conhece a família principal através de diálogos diretos, íntimos, como se fossemos um outro integrante da família. Não existe rodeios para a contextualização dos eventos, no primeiro minuto o garoto chega na casa, sua postura – geralmente com as mãos nos bolsos, já são assimiladas e, a partir de então, só temos tempo para apreciar o simples em forma de obra-prima.

A pobreza e a situação catastrófica social é nebulosa, sendo mantida como pano de fundo de uma família em sintonia. Uma cena onde diversos amigos cantam na mesa de refeição é a prova disso, inclusive a canção é sobre um amor em plena guerra, algo que simboliza justamente o quanto, no íntimo, pode existir esperança nas coisas mais terríveis.

Há ainda espaço para filmagens externas belíssimas, todas com a intenção de engrandece o local e aproximar a senhora Otome do garoto. A jornada de conhecimento, principalmente de assimilação das emoções e afeto entre os dois, é poderosa. O caminho até surgir a frase “pode chamar isso de amor materno” é dura e, por vezes, fria, mas a conclusão é de uma poesia encantadora.

É de se notar que o choro, no final, é pelas coisas terem dado certo. É extremamente difícil, no cinema, encontrarmos um personagem que se emociona e chora por algo que não é movido ao individualismo e interesses próprios. A senhora Otome, mesmo sendo obrigada a se distanciar, ignora a sua dor e fica feliz pelas coisas terminarem bem. Essa sensibilidade é consequência de uma dor coletiva, ausência total de esperança por dias melhores e amor incondicional que só uma mãe poderia ter. Uma verdadeira obra-prima do cinema japonês e mundial.

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#03 – [Três Quadros]: Teshi no Tamago (1985)

Finalmente chegamos a terceira publicação da coluna [Três Quadros], onde me proponho a discutir as obras cinematográficas a partir de três fotografias. A proposta principal da seleção das imagens e comentários é motivar uma reflexão sobre a importância da fotografia para a construção narrativa de um longa. Para isso, busco facilitar a explicação apresentando dilemas filosóficos de forma que se contextualizem com as imagens.

O filme escolhido dessa vez é uma animação chamada “Teshi no Tamago” (1985), dirigida pelo mestre Mamoru Oshii, que também dirigiu o incrível “Ghost in the Shell” (1995) – obra aclamada e que conquistou diversos seguidores com o tempo, muito lembrada por ter sido inspiração para o “Matrix” (1999).

É importante, antes de mais nada, lembrar que a história da animação é tão misteriosa quanto o seu desenvolvimento, pautado em uma proposta surrealista, seguimos uma menina que caminha por entre um mundo devastado. O mundo pós-apocalíptico representa uma desordem interna, no mesmo tempo que a sua jornada é o processo de observação e experimentação de si. A criança, cujo nome nunca é dito, anda sem rumo e o seu objetivo também é nebuloso, a única certeza que existe é que ela precisa cuidar e depositar todas as suas esperanças em um ovo.

O ovo, como já era esperado, representa o desdobramento do amanhã, o mistério, o novo e o renascimento. No filme, esse trajeto desperta a curiosidade e identificação de um outro personagem, um homem, que carrega uma arma em formato de cruz em suas costas.

A animação se constrói com poucos diálogos e por esse motivo a parte visual é tão importante. Vamos às imagens:

1)

O mundo que nossa heroína enfrenta e que, por conseguinte, somos inseridos, é repleto de escuridão. Cada passo da protagonista soa como uma aproximação do perigo, existe morte e tristeza. O visual da menina é interessante: vivendo em um mundo sem cor, seu figurino é a única coisa que contrasta. Vestido rosa, cabelos brancos e a expressão sempre indiferente.

Há diversas cenas onde ela está diante, inserida ou prestes à escuridão. Às vezes ela está na sombra, dá um passo e encontra e luz; outras é o contrário. A primeira imagem foi escolhida para representar essa decisão inteligente. Ela observa e a vemos de frente, a escuridão em suas costas esclarece, logo nas primeiras cenas, a sua condição imersa, principalmente psicologicamente.

2)

Essa imagem é, praticamente, uma continuação da anterior. A protagonista percorre um caminho estreito, as sombras são quase constantes, violadas somente por tímidas luzes que iluminam o caminho. Inclusive elas são extensões do ovo que ela carrega.

3)

O segundo personagem que aparece ao longo da jornada, o homem, segue a garota e se sente, por ela, atraído. O senso de proteção é imediato, mas os dois juntos funcionam como a representação do oposto na sociedade. Ela é jovem, deposita expectativas naquilo que abraça; ele é um adulto, sua arma em forma de cruz traz consigo muito sofrimento e desesperança. Ela veste roupas coloridas; ele roupas com cores frias etc.

A terceira imagem representa inúmeras coisas, começando pela divisão clara entre os dois. Mas há também uma inversão: ela está na cama, em um canto escuro, enquanto ele a observa em um ambiente iluminado. E isso não acontece na maioria das cenas, no entanto, é evidente durante o longa que a menina possui o dom de enfrentar as trevas, o que inspira o adulto a fazer o mesmo.

Sem dúvida essa é uma das maiores animações japonesas que existem, principalmente por unir uma série de dilemas existenciais com uma trilha sonora fantástica. Como já era esperado, a dedicação dos realizadores com o visual de modo a compor um pensamento crítico sobre a natureza é perfeito.

Utilizando-se de extremos opostos, a obra fala subliminarmente sobre o crescimento, bem como a sobrevivência que, pela arrogância do homem, se torna de extrema dificuldade para aqueles que teimam em acreditar que o amanhã trará consigo a felicidade. O uso das cores, sombras e desenho dos personagens são brilhantes, assim como diversas e sutis cenas onde existem alusões ao aprisionamento.

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Katatsumori, 1994

Caracol ( Katatsumori, Japão, 1994 ) Direção: Naomi Kawase

Naomi Kawase troca o termo documentário por memórias. O início da sua carreira, após fazer um curso e dar aulas de fotografia, é toda voltada para os registros viscerais de sua vida. Uma câmera na mão e muito coração dentro do peito. O abandono do pai e opção da mãe por entregá-la à adoção estão sempre presentes nos seus filmes, bem como a força da natureza que aprendera com sua “vovó” – assim chamava a sua mãe adotiva.

Em “Caracol” Naomi se dedica a filmar sua avó com uma simplicidade monstruosa. É possível ouvir até os ruídos da sua filmadora, algo bem amador e pessoal, como um diário audiovisual procurando refúgios em imagens super próximas do objeto principal, de forma a aproximá-lo da autora, tornando-o eterno.

Seguimos a vovó e seus cuidados atenciosos com a terra, enquanto divaga sobre questões cotidianas como passado, preocupações e relação com sua filha. O close-up no seu rosto é constante, trazendo até mesmo um leve desconforto para ela que, prontamente, aceita a condição de ser estudo da Naomi, existe uma compreensão e fé nos talentos da, até então, jovem diretora de 24 anos.

Existe magia em cada lar, sentimentos incompreensíveis de afeto em cada família e isso é trabalhado aqui. Logo no início vovó fala com felicidade dos seus oitenta e cinco anos, no mesmo tempo que salienta em dado momento que viverá até os cem para ver as realizações de sua filha. Faz uma lista de possíveis coisas – sempre haverá a inclusão de filhos, como o ideal perfeito da continuidade da história – e, logo em seguida, pede para Naomi filmar a si mesma. Me pego pensando o quão simbólico é isso pois é justamente através da filmagem que a diretora se imortalizou na história do cinema.

As lembranças são todas as riquezas que temos, que bom poder viajar no tempo e viver um momento conforme a sua imagem. “Caracol” se trata de uma obra tão particular, que chega a incomodar em certo ponto, como se fosse uma intromissão. A sensação é de estarmos invadindo uma casa aleatória e roubando uma pequena, mas especial, caixinha de lembranças.

Vovó trata a terra com a mesma dedicação que têm com Naomi, planta de modo a criar vida e se questiona indiretamente. Ela se preocupa com as filmagens, por registrá-la sem maquiagem e perto demais do seu rosto. Chega a dizer: “…essa cara velha e enrugada, sem maquiagem” e é justamente nesse momento que pega a filmadora e registra sua filha, a diretora, ainda bem nova e cheia de esperanças. Ainda sobre sua imagem envelhecida, caminhar fragilizado… quando ela questiona a falta de maquiagem, o espectador inconscientemente responde: é justamente a sua naturalidade que a torna a senhora mais linda de todas.

É de se notar que a comunicação entre as duas, apesar de partir da pureza e do mútuo respeito, percorre alguns momentos de timidez, como uma pergunta da vovó onde ela questiona se sua filha a ama. A resposta, em forma de poesia visual, acontece em uma filmagem em off através da janela, distante; os dedos da diretora fazem carinho na vovó através do vidro, como se estivesse sempre cuidando dela, apesar de não ter forças o suficiente para demonstrar em todos os momentos.

O sussurro no final, com a frase “boa noite”, é de partir o coração. Um momento de realidade se intromete no processo de contemplação da beleza. Todas histórias, com seus amores e decepções, dependem de uma boa noite de sono para se tornarem grandiosas. Naomi reflete isso e o faz de forma sublime, respeitando as suas imagens e sua musa, mas sem esquecer que tudo vai embora, até mesmo a jovem diretora, com toda a sua inocência e insegurança.

Existe, apesar de algum amadorismo, – qual verdade não é, afinal – um planejamento visual feliz. Mas o documentário se destaca pela força metafísica do seu objetivo: imortalizar uma pessoa, diálogos, expressões e carinho. Naomi guarda sua vovó e cabe ao espectador tentar fazer o mesmo.

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Extensões Capilares, 2007

extensões capilares

★★★

Os japoneses certamente tem algum problema com cabelos ou simplesmente veem neles uma boa ferramenta para criar medo nos filmes de terror. Há bastante filmes que brinca com isso, desde sua utilização como meio de esconder o rosto até chegar na bizarrice “Ekusute”, dirigido pelo excelente Sion Sono.

Esse diretor é bem conhecido pelos amantes do terror, construindo sua carreira em base ao mistério e terror psicológico, sempre causando uma estranheza e desconforto no público, como em “O Pacto” (2001) onde ele conta a história de garotas no colégio que, sem um motivo aparente, se suicidam em grupo. O seu trabalho é envolto de uma obscuridade absurda, levando ao limite questões que, outrora, passariam despercebidas. Um verdadeiro provocador, do horror.

Em “Extensões Capilares” ele realiza o seu projeto mais exagerado e isso de forma alguma é ruim. A utilização do cabelo é sensacional, pois é construído toda uma relação antes de sermos expostos a uma crescente de absurdo. A protagonista, interpretada por uma das melhores atrizes japonesas chamada Chiaki Kuriyama, tem uma identificação bem pessoal com o corte do cabelo ou a profissão de cabeleireiro. Inclusive esse fator é detalhado em um momento chave onde ela leva a sua sobrinha a uma reflexão da importância desse momento, no dizer dela, extremamente especial.

Yuko tem uma irmã que não liga para a filha e se apega muito a menina, inclusive algo que viveu no passado aumenta ainda mais essa aproximação, essa conexão entre as duas é abordado ao máximo, poderíamos considerar esse filme um drama com pitadas de terror e comédia.

O fato do cabelo de um cadáver, inexplicavelmente, continuar crescendo está presente durante todo tempo, porém dá vez a uma construção lenta e detalhista, onde mesmo com todas as deficiências ainda se torna algo interessante de se acompanhar. Nos minutos finais o exagero está presente em cada cena mas, ainda bem, não destrói o que havia sido construído até então.

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