A Chave, 1986

A Chave ( Kelid, Irã, 1986 ) Direção: Ebrahim Forouzesh

A sétima arte é uma entrada para a reflexão do comum. As possibilidades são imensas, pois a intenção é a imortalização das imagens, algo que o Homem tenta desesperadamente desde os primórdios da sua existência. É como se o conforto do ser fosse a materialização audiovisual das suas lembranças ou sonhos, transformando o inconsciente em algo palpável; sendo possível ver, ouvir e sentir constantemente os seus maiores sonhos e medos. Essa ideia pode soar como um conto de fadas – tenho minhas dúvidas se não o é – mas, na realidade, podemos denominar essa necessidade como “cinema”.

Quando jovem olhei dentro da minha própria alma com o cinema iraniano. E, assim, fui crescendo ao ponto de me tornar o que sou hoje. Nem sei mais se sou jovem, homem, mulher ou criança, a única certeza que tenho é que o meu fascínio por esse cinema só aumentar com o passar dos anos e, a cada minuto que passa, ganha diversas justificativas. A minha visão cinematográfica passa pela humanidade e intromissão do alheio, portanto, a identificação é imediata quando uma obra audiovisual oferece o simples e compõe sua história com o real. Essa narrativa geralmente, por mais frágil que seja, acompanha o espectador por uma jornada incrível de catarse.

“A Chave”, dirigido por Ebrahim Forouzesh e roteirizado pelo mestre Abbas Kiarostami, é mais uma prova que sensibilidade e simplicidade são grandes amigas, quando falamos sobre cinema iraniano. A história é sobre um garoto de quatro anos chamado Amir Mohammad que acorda em uma manhã e vê sua mãe saindo e trancando a porta, deixando-o junto com o seu irmão, ainda bebê. Diante da demora da sua mãe, o menino se vê preso e precisa da ajuda dos vizinhos e da avó para conseguir abrir a porta.

É engraçado assistir filmes como esse e estudar a sua narrativa, aparentemente fácil, de modo a compreender as camadas. Em “A Chave” não temos um vilão que não seja a própria adversidade. A mãe que não retorna para casa é mais um elemento de dificuldade, mas nunca se faz necessário a discussão sobre os motivos que a levaram a tomar tal atitude, simplesmente porque a história é tão bem escrita que, mesmo sem conhecê-la, sabemos que a figura da mãe é atenciosa e protetora, portanto, algo terrível deve ter acontecido com ela. Mas tudo é sugestão.

É necessário existir um grande grau de confiança no roteiro para ocultar explicações que facilitariam a compreensão sobre os acontecimentos. Nesse longa, portanto, a única coisa que importa é a criança e como qualquer decisão ou movimento, aparentemente simples para um adulto, se torna grandioso e difícil para um ser em formação. O protagonista ainda se vê preso entre as tarefas afim de sair do apartamento e a atenção e carinho ao irmão, por vezes chega a dar mais atenção à criança do que o perigo que corre – tem uma panela a ponto de explodir no fogão, o que gera bastante tensão.

Não à toa, logo nas cenas iniciais, Amir Mohammad alimenta com cuidado o seu passarinho enjaulado, representando a situação que se encontraria posteriormente. É de uma poesia incrível, pois se trata de uma linguagem documental, câmera estática acompanhando as decisões e detalhes de alguém que, na maioria das vezes, é pouco visto.

As filmagens exteriores e, por consequência, os outros personagens que aparecem, sempre remetem aos adultos tentando ajudar os irmãos presos. Por ironia, a ajuda é cercada de dificuldades e, mesmo sendo mais velhos e sábios, pouco fazem diante à situação.

O filme é mais uma prova da qualidade do cinema iraniano, nos faz pensar com tranquilidade nas adversidades e como elas podem mudar conforme as limitações.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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O medo, o abandono e a opressão

Under the Shadow, 2016

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“O Exorcista” ( 1973 ), “O Bebê de Rosemary” ( 1968 ) e “Os Inocentes” ( 1961 ), esses foram os três únicos filme que me deixaram com muito medo, daquele jeito que o indivíduo fica uma semana acordando assustado, olhando para os lados e indo ao banheiro correndo. Detalhe: todos esses eu assisti quando era criança, portanto estava mais suscetível à esse sentimento.

E, em 2016, eu tive medo novamente. “Under the Shadow”, novo filme iraniano do diretor Babak Anvari – que dirigiu um curta maravilhoso chamado “Dois mais Dois”, cujo tema aborda o totalitarismo e controle, de forma direta, simples e inteligente – fala sobre o medo, abandono e opressão social, a história é mostrada de forma brilhante, envolvendo o drama com a angústia do isolamento até, por fim, mesclar com o misticismo, afim de provocar a tensão.

O filme se passa no fim da década de 80, onde acontecia uma guerra entre o Iraque e o Irã. Uma mãe e a sua filha são obrigadas a ficarem em um apartamento, em pleno bombardeamento na cidade. O desespero pelo enclausuramento se mescla com eventos paranormais. Drama e terror se confundem, o medo acaba sendo provocado pela própria situação catastrófica do país, enquanto conceitos sobre família, proteção e opressão à mulher vão sendo desconstruídos.

O longa começa apresentando a protagonista ( Shideh/mãe ) pedindo uma chance para voltar à universidade. No passado, ela fazia medicina mas o seu sonho foi interrompido por participar de revoluções políticas. Então o papel da mulher já começa a ser deveras importante para a compreensão da obra que, em suma, desenvolve o terror sob temas sociais e políticos.

A narrativa é importante e bem realizada, precisa ser a mais dinâmica possível sem soar artificial. A divisão dos atos é muito clara, até pela própria duração, o filme pede por uma montagem linear e isso é feito da forma mais coerente possível. Geralmente, em filmes populares de terror, há uma preocupação em encaixar os sustos da forma mais rápida possível, como se fosse a obrigação da produção para com o público. Essa pretensão infantil não calcula a essência do medo, o que não acontece aqui, Under the Shadow constrói tudo de forma lenta, preenchendo cada lacuna e estabelecendo a ordem para, só assim, entrar com elegância no caos psicológico.

Medicina cura vidas, ou pretende; guerras causam mortes. Um grande contraste. A protagonista vive em um meio que não a satisfaz, a menina rebelde e que lutava por uma causa política, dá lugar a uma dona de casa que se submete a concordar que fora uma “adolescente estúpida que nem sabia o que era direita e esquerda”. A sensação claustrofóbica já está presente na cena inicial, uma desilusão e impaciência, provocados pela ganância política e desdém do poder para com seu povo.

O terror começa quando a mãe e a filha ficam sozinhas. Por ser um filme iraniano, a paranormalidade se sustenta sobre a crença do Islamismo – que, por sinal, possui um dos infernos mais cruéis que existe – e será abordado nomes como Iblis que, na verdade, é o demônio do Islã.

[ Iblis é retratado como sendo uma criação do próprio Alá e que foi rebaixado após recusar-se a submeter aos homens que foram feitos do barro. Para ele, uma criatura que se originou no fogo era mais grandiosa do que todos. Como curiosidade, para alguns pensadores, Iblis possuía uma crença monoteísta. Afinal, ele rejeitou-se se ajoelhar perante qualquer criatura que não fosse Alá. ]

O fogo provocado pela guerra é o mesmo que Iblis se originou. O temor nasce do abandono, percorre a incerteza e cresce na resistência. Há cenas assustadoras, simples e impactante, como um momento que vemos Shideh dormindo, em uma filmagem vertical e a câmera gira quando a personagem fica frente a frente com a filha. É relevante esse momento pois o fato de ser mãe consome muito a protagonista, apesar de amar a sua condição, ela se vê fraca e desamparada, e é nesse ponto que mora a importância da personagem Dorsa – interpretada brilhantemente pela Avin Manshadi: exigir da sua mãe o processo contínuo de reflexão sobre a sua postura.

Como exercício narrativo, é válido perceber que todos elementos e cenas que envolvem o susto ou medo estão estreitamente conectados com os sentimentos mais profundos da personagem principal – isso é confirmado quando ela coloca uma fita na janela para proteção dos vidros em um possível bombardeio, e a sombra forma um “x” em seu rosto, como se ela/população fossem o alvo da guerra.

 Outra cena de suma importância é quando Shideh sai de casa sem a túnica – por conta do tormento causado pelas assombrações – e vai presa. Na volta, quando fecha a porta, ela se assusta com a sua própria imagem no espelho e tira a túnica, como um ato de revolta para com a sua condição, principalmente as ordens e julgamentos que lhe são impostos diariamente. Novamente, ela convive com o demônio dentro de si.

“Uma mulher deve temer a exposição acima de qualquer coisa”

Com uma abordagem inteligente e precisa, Under the Shadow é brilhante na concepção do terror psicológico. Transformando cenas simples em poesias por conta da crítica social e opressão à mulher, provoca o medo como há muito tempo não sentia. A atuação da Narges Rashidi reforça a atmosfera sombria, no mesmo tempo que a utilização dos espaços da casa é muito oportuna para a sensação de aprisionamento. Um dos melhores filmes do ano.

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Abbas Kiarostami – Descanse em paz mestre!

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Segunda-feira, dia 04 de julho de 2016. Estava no trabalho e voltei para casa em silêncio, não o porquê, mas nesse dia estava menos inquieto e mais reflexivo. Imaginei uma série de coisas sobre minha vida, procurei alguma explicação antes do meio-dia, mas não fui capaz de entender essa dor no meu peito.

Cheguei em casa, fui ler notícias do dia e me deparo com uma péssima: O diretor Abbas Kiarostami havia falecido. Bem, imediatamente as lágrimas escorreram e me lembrei do dia que conheci o cinema iraniano, então eu tive um motivo real para experimentar a tristeza.

Esse texto não é para contar a história do diretor ou escrever sobre algum dos seus filmes – contudo, me veio agora uma vontade monstruosa de assistir todo o seus trabalhos novamente e fazer uma análise profunda, quem sabe um dia – mas sim desabafar.

A primeira coisa que fiz, ao receber a notícia, foi imaginar quantos não conhecem o seu trabalho e nem ao menos se darão o trabalho de conhecer. Mas ainda me peguei refletindo o quanto profundo é a dor daqueles que amavam o seu cinema, pois com Abbas era assim: Quem conhecia, adorava e o compreendia como um grande poeta do audiovisual, que transformava o simples em algo mágico, simplesmente por ser a verdade.

Lembrei-me de quando era jovem, mais jovem, conheci o filme “Close-up” ( 1990 ), um verdadeiro dialeto sobre a mentira, amor e devoção à arte, sem nenhum tipo de julgamento, somente sensibilidade e necessidade emocionante em entregar-se através do cinema. Seria tolo se eu não admitisse que o cinema iraniano mudou a minha vida e a forma como enxergo o meu dia, o meu redor e eu mesmo. Abbas Kiarostami mudou o Irã com a sua arte, fez do mundo um palco pequeno e atraiu olhares, empatia e admirações pelo seu país, com os seus sofrimentos e proibições. Fez-nos amar as crianças, entender o dom da atuação como algo muito maior do que credenciais de ator e conhecer o gosto da cereja.

A vida continua Abbas, infelizmente sem você, mas o seu legado é imortal para aqueles que creem no divino, creem que a arte transforma, desde um indivíduo com seus vícios até um sistema político. Através das Oliveiras o seu ensinamento descansa e assim vou tentando ser uma cópia fiel do meu mestre. Ele que me ajudou a caminhar por entre a naturalidade de singelos sentimentos e perceber que eu só existo para compartilhar, do caso contrário serei um viajante cheio de experiências vazias e exíguas.

Não conhecer o seu trabalho é normal, quem dera eu poder assistir todos como se fosse a primeira vez, com a mesma intensidade e felicidade, mas assistir, sem se sensibilizar, é desumano.

Tenho me questionado repetidas vezes, desde criança, o motivo de tamanho amor pelo cinema, por diversas vezes me esqueço que se trata de um elemento atribuído com grande frequência, atualmente, ao entretenimento e tão somente à ele, mas sigo enfrentando essa dúvida e continuo me classificando como um amante do cinema verdade, cinema real, cinema que reflete a vida, entre outros. No fundo eu sei que a linha entre realidade e ficção é tênue, tudo é verdade, somente existe. Abbas deixou algo forte no meu coração, tão forte que por diversas vezes nem sei como usar, mas vou desmistificando essa missão e, agora, que o meu mestre se fora para um outro lugar, me resta voltar e sentir tudo novamente, me apaixonar novamente, não me sentir tão só e tentar aceitar que, onde quer que Kiarostami esteja, eu nunca esquecerei de lhe perguntar: “onde fica a casa do meu amigo?”

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CdA #029 – “Adeus”, 2011

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Dessa vez Emerson Teixeira e Sandro Macena escolheram um filme iraniano para conversar, “Adeus” (Bé Omid É Didar) de 2011, dirigido por Mohammad Rasoulof. Falamos ainda sobre a situação social do Irã, sobre a mulher e, claro, destacamos alguns detalhes do cinema iraniano.

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