Tanna, 2015

Tanna ( Idem, Austrália, 2016 ) Direção: Bentley Dean e Martin Butler

“Tanna” é uma encenação de algumas pessoas da tribo Yakel, situada em uma remota ilha do Pacífico, sobre um caso real de amor proibido onde uma jovem apaixonou-se pelo filho do chefe da tribo – consecutivamente, seu sucessor – mas fora oferecida como esposa ao clã inimigo, como uma forma de anunciar a paz, portanto, a moça se vê presa entre os seus próprios interesses e o bem estar da sua comunidade.

Dirigido por Bentley Dean e Martin Butler – ambos possuem experiências com jornalismo e documentários – fica claro desde os primeiros minutos a intenção de mesclar a realidade com ficção de uma forma pura, sustentando-se na paisagem devastadora da ilha que traz, de brinde, um vulcão que protagoniza as mais belas cenas do filme.

É uma experiência catártica quando a opção pela construção narrativa passa pela utilização de não-atores, aqui acontece isso e é realmente surpreendente pensar que nenhum dos “atores” sabiam nem ao menos o que era uma câmera e, mesmo assim, aceitaram participar do projeto. É preciso uma cumplicidade e entendimento sobre o mecanismo, algo que partiu, sem dúvidas, de uma relação íntima que durou meses ou anos, entre os realizadores e o povo. Tudo está estreitamente sincronizado no que diz respeito as performances, inclusive não parece haver espaços para improvisos, o que certamente causa impacto negativo em algumas cenas.

O trabalho visceral se mostra competente em um primeiro momento. É motivo de emoção tamanha sutileza, crianças atuando de forma desprendida, senhores pronunciando curtas, mas sabias palavras, etc, mas a sensação com o passar dos minutos é de pura enganação, até porque a realidade é uma ponte fácil para a empatia imediata.

Antes de mais nada, o fato de usar não-atores é comum em cinemas que priorizam a mescla entre documentário e ficção, recomendo o cinema iraniano para ilustrar como tal opção pode ser brilhantemente utilizada quando uma direção segura e inteligente se faz presente, algo que definitivamente não acontece em “Tanna”.

Primeiramente, o roteiro parte de uma premissa clichê na história mundial. A história do amor proibido, hoje, precisa ser trabalhado de formas diferentes, sendo sustentado de outras formas para, na conclusão, a mensagem não ser óbvia. A direção pouco abusa nesse sentido, o limite que separa documentário da ficção não é trabalhada de forma a causar o impacto, a simplicidade se torna uma interrogação bem grande no centro da tela e os personagens não são bem desenvolvidos. A angústia pela qual deveríamos enfrentar junto com a protagonista ou a relação de afeto e proteção extrema que ela possui com a irmã, em momento nenhum é explorado, reforçando uma abordagem preguiçosa que se apoia exclusivamente na suposta realidade. Oras, não seria melhor fazer um documentário?

A fotografia, sem dúvida nenhuma, chama a atenção, principalmente pela utilização inteligente do vulcão que motiva os personagens a uma passagem espiritual, seja de união ou desprendimento.

É uma obra necessária aos amantes de obras orgânicas, que se baseiam nas paisagens para compor a naturalidade e identificação. No entanto, a sensação que fica é que uma ideia brilhante é desperdiçada com um desenvolvimento pouco corajoso, há uma dedicação em organizar as atuações de modo que fiquem aceitáveis, a filmagem acompanha de modo feliz o movimento dos personagens, mas, em resumo, a essência é esquecida, exibindo um roteiro fraco que é afetado por uma direção que tenta ser grandiosa demais, caminhando em direção oposta à proposta inicial.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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O Sonho de Greta, 2015

O Sonho de Greta ( Girl Asleep, Austrália, 2016 ) Direção: Rosemary Myers

Inadequação social é quase o representante máximo de qualquer jovem. Mundo distorcido, pessoas desinteressantes, nada parece pertencer ao universo próprio do indivíduo jovem, nem mesmo a sua mania em sentir-se único.

Amarelo e vermelho no uniforme e parede azul, contrate de cores extravagantes, tornando-se chamativo, irônico e um pouco esquisito, assim como o filme O Sonho de Greta”. Bebendo de outras fontes conhecidas, o longa acompanha a garota do título prestes a fazer quinze anos tendo que lidar com a pressão causada pela idade e desconexão do mundo e da família.

O visual do filme e as cores representam o olhar da protagonista, interpretada com uma certa desconfortabilidade pela atriz Bethany Whitmore, mas tento acreditar que essa falta de expressão condiz com o próprio papel. Tudo é caricato e extremamente dinâmico, escola nova e ambições pequenas fazem de Greta uma ambulante em pleno hospício. Jovens saltando na frente dela e pouco interesse se sente por parte de todos, tudo é cheio de cores mas elas não exalam alegria, como estamos acostumados.

A sua família é bizarra: a mãe é horripilantemente e artificialmente atenciosa; o pai, com um visual hippie dos anos setenta, é um homem distante e incomunicável; e a irmã, por fim, está aproveitando um outro tempo e outras necessidades que não as da Greta. A vida particular da heroína não acolhe e se torna tão perigosa quanto as “amigas” manipuladoras na escola.

A única pessoa que a acompanha é Elliott (Harrison Feldman) mas ainda assim a amizade surge inesperadamente e se mantém por ser exclusiva. Inclusive o trabalho do jovem ator começa agradável e vai se tornando enjoativo, como tudo no filme, inclusive.

O terceiro ato, durante a festa de quinze anos, é repleto de cenas que fazem alusão ao crescimento – contando, inclusive, com um momento onde a protagonista se depara com ela mesma na versão criança que, particularmente, salva os últimos vinte minutos – e se tornam cansativas pois a mensagem é simples, direta, mas feita com inúmeros simbolismos surreais mal realizados.

Doses de onirismo, humor expositivo e levemente insano, assim como um adolescente que se sente solitário – basicamente todos, mesmo que todos não assumam. Brinca com a linguagem de Wes Anderson, sem esquecer Alice no País das Maravilhas e com resquícios de terror – brincadeira, mas as gêmeas que aparecem aqui dão medo. O filme perde força no terceiro ato mas, ainda assim, é divertido e explora bem a inadequação de uma jovem querendo se desvincular de si mesma como “monstro”, como todos já fomos(seremos, somos…).

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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