Voltando para Casa, 2014

Voltando para Casa ( Gui Lai, China, 2014 ) Direção: Zhang Yimou

Zhang Yimou é um artista completo. O uso das cores sempre muito inteligentes, unido com uma sensibilidade enorme, fazem dele o maior nome do cinema chinês. Depois de assistir, por acaso, “O Caminho para Casa” (1999) me encantei ainda mais com a profundidade e importância do professor na sociedade, principalmente quando relacionamos com a individualidade. Através de uma mensagem carinhosa do diretor, passei a ter certeza da profissão que seguiria a seguir.

Mas não é em apenas um filme que Zhang Yimou aborda a relação entre professor e aluno, seja representado por dois ou mais indivíduos ou algo pessoal, é constante a aprendizagem como objetivo principal dos seus roteiros. Em “Voltando para Casa” (2014) ele retorna à uma abordagem delicada, repleta de emoções e lida novamente com a aprendizagem, dessa vez ela acontece de uma forma forçada pois um personagem – curiosamente, um professor – precisa se reeducar afim de encontrar maneiras de se aproximar da sua esposa, após ser preso por oposição ao governo chinês em plena revolução cultural, se não bastasse, ele descobre, ao retornar, que ela perdera a memória no tempo em que esteve ausente.

A trama principal pode parecer comum mas é desenvolvida com muito esmero. A começar pela parte visual que, tencionando representar uma história de distância e esquecimentos, além da própria readaptação, se baseia em uma paleta de cores frias; os figurinos também seguem a ideia e, ainda por cima, são perfeitamente alinhados, fechados até onde é possível e em diversas vezes apresenta inúmeras camadas: blusa, cachecol, enfim, transparecendo insegurança diante das transformações sociais e evidenciando um amor fragilizado. Se o figurino e fotografia estão em harmonia, é interessante ressaltar que a palidez só é quebrada quando a filha do casal, uma bailarina, veste cores vermelhas, fortes, de modo a representar os seus sonhos artísticos que, por motivos políticos, precisam ser podados. O sangue das suas lágrimas – jamais exploradas com artifícios fáceis – também são vermelhos. A cor está presente em todos os trabalhos de Zhang Yimou e, aqui, parece ser uma prisioneira, personificando ideais artísticos, opondo-se à opressões criativas e sociais.

As primeiras cenas apresentam os tempos nebulosos que as personagens se encontram, a ausência do marido é sentida em cada expressão da talentosíssima Gong Li – parceira fiel do diretor – e os detalhes vão sendo entregues em doses homeopáticas. Como, por exemplo, o ensaio que a filha do casal principal está fazendo, cujo talento não basta para a escolha do papel principal, visto que o protagonismo passa por uma análise política, que inclui também os seus pais e antepassados. Irônico, também, é perceber que em diversos movimentos da coreografia, as bailarinas se utilizam de uma arma como composição essencial.

O filme parece ganhar proporções maiores quando a mãe tenta reviver o seu amor e se posiciona entre o marido e a filha. A força da mulher, bem como suas escolhas, ficam evidentes e, sem demonstrar muito, entendemos o seu passado e a mensagem poderosa da sua difícil decisão. A tentativa do reencontro com o seu marido, após anos preso, falha e uma passagem brusca de tempo acontece – uma das fragilidades do roteiro, inclusive. A partir desse momento a obra deposita suas atenções na liberdade e retorno de Lu Yanshi e a sua coragem em enfrentar o tempo.

Aceitar a finitude da vida é fácil, perto da visualização e presença diante da morte causada pelo esquecimento. Ir embora ainda perto; morrer existindo. Toda história se perde e a presença fica. Esse tema demonstra vazios da existência que jamais serão superados. A compreensão da finitude é um motivador para a intensidade da vida dentro da rotina; a perca da memória é somente um aviso da natureza sobre a nossa pequenice.

Nesse ponto, o ator Chen Daoming brilha ao compor, em seus olhos e movimentos, exatamente essa aflição. O querer abraçar e não poder, simplesmente porque tudo aquilo que acredita nunca existiu, senão, na sua própria cabeça. Por outro lado, Feng Wanyu ainda se lembra do jovem marido, que prometera há anos que retornará. Com frequência ela o espera e cabe ao Lu Yanshi, simplesmente, estar ao lado; esperando a si mesmo, enfrentando suas memórias e ignorando o presente.

A poesia visual vai de lágrimas caindo em uma antiga fotografia, como símbolo da transição do tempo, passando por luzes em meio a um abraço e grades separando dois amores. É mais uma obra-prima de Zhang Yimou, estruturada principalmente na força dos seus atores principais como veículo para uma perfeita alegoria sobre a distância.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

More Posts - Website

Follow Me:
TwitterFacebookGoogle PlusFlickrYouTube

Espírito de Lobo, 2016

wolf totem

“Espírito de Lobo” é o novo filme do diretor Jean-Jacques Annaud que, na maioria dos seus trabalhos, se dedicou a investigar a história da humanidade; obras como “O Nome da Rosa” e A “Guerra do Fogo” ultrapassaram a sua importância no audiovisual e atingiram diretamente a educação.

Em seu mais recente filme ele acompanha o jovem Chen Zhen, em plena década de 60, na China, que é enviado para viver com os nômades do interior da Mongólia. Em prol aos estudos e, ao mesmo tempo, terá a oportunidade de ensinar as crianças do local. Com a experiência ele têm a possibilidade de refletir sobre as diversas condições de vida e, principalmente, as similaridades que o homem possui com os lobos, uma metáfora para a sobrevivência, estratégia e força.

O filme é uma perfeita mistura das obras da Byambasuren Davaa, principalmente o “Caverna do Cachorro Amarelo” e, também, o filme da Islândia “Cavalos e Homens“. Isso porque nos mostra a vida dos nômades, algo que a diretora mongol faz com extrema competência nos seus documentários, inclusive com uma sensibilidade bem parecida; e se assemelha com “Cavalos e Homens” na sua contemplação do animal como forma de estabelecer uma conexão com o homem. Há ainda uma dedicação em discutir, nas entrelinhas, a natureza como uma força projetada no respeito para com todos os seres vivos.

Como a narrativa se apoia na naturalidade, há diversos intervalos de silêncio para a reflexão. O longa parece querer propor ao espectador, constantemente, uma viagem ousada. Adentrando uma forma de vida completamente diferente, onde o cultivo e o contato com a terra representam uma obrigação e o avanço intelectual é a aceitação dessa condição.

O protagonista chega ao interior com a oportunidade de ensinar, mas o faz em poucos momentos. Rapidamente a sua arrogância de menino estudado da cidade grande dá lugar a um tímido aprendiz, olhando o seu redor com muito fascínio por sentir vida em cada grama e sentir amor em cada lobo, mesmo que o animal represente a força, sobrevivência e morte, Chen Zhen os enxerga como seres superiores, deuses da inteligência, e existe um quê de milagre nessa percepção.

wolf-totem-2015-720p-brrip-1gb-mkvcage-mkv_snapshot_00-09-29_2016-09-09_23-18-44

De todos os animais, o lobo é um dos raros que representam coisas bem distintas, todas com a mesma força e repleta de significados. Em uma primeira camada, ele representa, em diversas culturas, o bem, por estar diretamente ligado com a força, agilidade e inteligência. Por outro lado, é sabido que há muito tempo o lobo tem sido atribuído ou mencionado como um ser envolvido com o mal. O interessante é que o que transforma ele nessa rede de diversas possibilidades é justamente as suas virtudes, ora, é difícil confiar nos estrategistas.

Essa ideia de poder, unido com inúmeras outras características do lobo – como por exemplo o fato dos casais permanecerem juntos a sua vida inteira, ou seja, estruturação da família – nos faz compreendermos o porquê da grandiosidade do filme, resgatar todos esses conceitos e estabelecer uma conexão entre todos os personagens e dilemas, com isso, criar uma ponte com quem assiste, é realmente algo maravilhoso. Com um visual hipnotizante, ressaltando sempre as cores e a grandiosidade da paisagem – que envolve os personagens, culminando em uma cena que o protagonista adentra uma pequena caverna para pegar um filhote de lobo que se escondia dentro – é fácil creditar “Espírito de Lobo” como um ensaio sobre a fé, da forma mais pura que existe, contemplando o real, compreendendo que a caça e, consecutivamente, a morte, fazem parte da vida.

É citado ao longo Gengis Khan, que estudou estratégia com os lobos. E tem muita relevância essa observação, pois o filme fala de movimentos. Os jovens embarcam para uma jornada no interior, os lobos se locomovem para sobreviver, os nômades transitam para criar, enfim, existe uma sincronia a ser registrada, de forma tão carinhosa e orgânica, como o vento.

Esse desenvolvimento aprazível nos lembra da virtude em estar diante a vida, lembrando que sobreviver e viver são coisas bem diferentes mas, assim como os lobos, a dicotomia pode entrar em comunhão, mesmo que por um breve instante.

Resgata ainda cenas de verdadeiras batalhas, homem enfrentando os animais, a natureza e o seu próprio medo. Assistir filmes como “Espírito de Lobos” é entregar-se à um ritual, onde só apreciam aqueles que se doam por completo. Não à toa o diretor abusa dos closes nos lobos, como uma forma de nos aproximar do perigo, ou até mesmo estabelecer uma conexão com os deuses. Lembrando que em diversas culturas indígenas, os lobos também sempre foram a representação da magia na terra.

Shaofeng Feng dá ao seu personagem, Chen Zhen, uma doçura estonteante, a cada olhar demonstra uma humildade, reduzindo-se a um servo da vida, atônito diante a grandiosidade da natureza.

O filme têm como maior mérito essa intenção de transformar o simples e visual em poesia, exaltando aquilo que não se olha, de uma forma que não se sente. Brincando com o improvável e desmistificando a ingenuidade. Somos seres primatas primando pela singularidade, caminhando em direção a morte, mas, nem por isso, esquecendo de fazer uma épica jornada a caminho de uma explicação.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

More Posts - Website

Follow Me:
TwitterFacebookGoogle PlusFlickrYouTube

CdA #66 – O cinema chinês e Little Toys

Pequenos Brinquedos

Download

No novo episódio do podcast [Cronologia do Acaso] Emerson Teixeira Tiago Messias viajam para a China, em plena década de 30, auge do cinema como forma de ilustrar as transformações políticas e sociais, através de um filme chamado Little Toys, de 1933. Obra clássica do cinema chinês, escrita e dirigida pelo mestre Yu Sun e protagonizado pela musa eterna Lingyu Ruan.

Além da nossa habitual análise sobre o filme mudo, você ainda ouvirá discussões sobre o cinema mudo e as suas diferenças, o cinema clássico chinês – e como ele está envolvido com as transformações sociais- e dilemas sobre a infância, cultura e brinquedos.

Edição do podcast feita por Tiago Messias

  • E-mail: contato@cronologiadoacaso.com.br
  • Twitter: @cronodoacaso
  • Assine nosso feed: http://feeds.feedburner.com/cronoacasopod
  • Itunes: https://itunes.apple.com/br/podcast/cronologia-do-acaso/id1076216544

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

More Posts - Website

Follow Me:
TwitterFacebookGoogle PlusFlickrYouTube

The Assassin, 2015

The.Assassin.2015

★★★★★

Quando criança, adorava assistir os famosos filmes Wuxia. Esse subgênero está diretamente ligado a cultura chinesa, tendo sido desenvolvido e alcançado o seu auge nos anos 60 e 70.

Espero um dia poder escrever sobre esses filmes tão fascinantes que trabalham com exaustão as lutas e a figura do herói, sempre com elementos de fantasia. Já surgiram muitos clássicos, uma prova disso é que muitos diretores asiáticos atuais homenageiam esses trabalhos revivendo o wuxia, algo parecido com o que acontece com o western no Estados Unidos.

Todo o trabalho do diretor Hou Hsiao-hsien se desenvolve lentamente, de forma a contemplar cada detalhe e, consecutivamente, o silêncio. Depois de nomes como Wong Kar-Wai, Ang Lee e Zhang Yimou, chegou a vez de Hou Hsiao trabalhar o wuxia e, confesso, ele consegue realizar um trabalho primoroso, inclusive ganhou o prêmio de melhor direção em Cannes.

Ao lado da sua musa, a belíssima Shu Qi que começou os seus trabalhos em pequenos filmes softcore até atingir o auge da performance em filmes como “Millennium Mambo”, Hsiao preenche com maestria as lacunas da sua obra com uma poesia visual inacreditável. A fotografia, os cenários, o figurino, enfim, tudo é tão encantador que é impossível não gostar, apesar do ritmo bem frágil, que, por muitas vezes, cansa e tira a atenção.

The.Assassin.2015

O posicionamento de câmera começa introduzindo o espectador na ideia da contemplação, o movimento das árvores, os olhares, até mesmo a violência é doce, acontecendo – durante todo o filme – de forma extremamente sutil.

A história é básica, explicada em doses homeopáticas – apesar de que veremos a seguir que tanto os personagens como suas respectivas histórias não são tão importantes como as suas reações, ou seja, o presente – Nie Yinniang é uma garota que fora, ainda criança, raptada e treinada por uma freira para ser uma assassina. Depois de falhar em uma das missões, a moça precisa voltar ao seu passado e enfrentar um grande amor, do qual o presente teima em sussurrar nos seus ouvidos que se trata de um inimigo.

 A apresentação de “A Assassina” não revela muito, curioso é notar que é em preto e branco que temos o primeiro contato com esse mundo ou período, afinal o filme se passa na China, no século IX. Aliás, tanto o monocromático quanto as cores vibrantes e mescladas, são trabalhadas de forma a contar um pouco da personalidade dos personagens, que se distanciam por diversas vezes do espectador por conta da ausência de diálogos ou narrações. A fotografia em preto e branco, do começo, ressalta a psicologia da protagonista, diante a iminente necessidade de matar, contrastando com, primeiramente, uma mulher brincando com um bebê e, depois, com as cores extremamente fortes e hipnotizantes, seja do cenário ou figurinos.

The.Assassin.2015.1080p.WEB-DL.x264.AAC - pt.br.mkv_snapshot_01.13.31_[2015.12.29_11.19.04]

Frases como “Você tem dominado a espada, mas precisa resolver o coração” é repetida muitas vezes, de variadas formas. Se trata apenas e brilhantemente, de uma mulher lutando contra os seus instintos, buscando o seu lugar. A sua figura, sempre vestindo roupas pretas – contudo, destaco que em determinado momento onde Yinniang desaba emocionalmente, ela está envolta de vermelho – se transforma rapidamente em algo intimidador, mesmo que ela seja a que menos tenha diálogo. É difícil se identificar com os personagens, não são trabalhados com a linearidade que estamos acostumados, é preciso se esforçar para encontrar no vazio uma explicação: engraçado é constatar que a resposta da personagem é o próprio vazio, visto que o seu caminhar, o seu combate, a sua reflexão, mesmo que silenciosa, remete-nos a ideia de um ser sem alma, que se um outro alguém tocar se perderá em uma imensidão de escuridão.

A câmera é usada de forma inteligente ao extremo, primeiro porque seus movimentos traduzem algumas frases que nunca são ditas, até por esse motivo a filmagem estática está muito presente, aliás, se não bastasse a coreografia das lutas ou uma cena de dança, que é maravilhosa, ainda temos em diversos momentos uma decisão, no mínimo, audaciosa: os personagens param em cena como se fosse pinturas de um quadro. Parece que o diretor, por vezes, se torna um John Constable e faz do audiovisual o seu “Estudo das nuvens“.

As filmagens longas, os diálogos que se repetem, a delicadeza misturada com uma pitada de monotonia, todos esses elementos aproximam a obra da verdade, mesmo que esteja inserida em um visual quase surrealista. Destaco a busca pela verdade, tecnicamente, com os movimentos de câmera que, muitas vezes, passa por entre tecidos e acompanha os personagens de forma embaçada, representando o olhar da protagonista sobre uma realidade que nunca sentiu: a família, o amor, o carinho, o toque, etc.

Seria Yinniang uma vilã? Seria sua mestre uma vilã? É complicado determinar essa função em um filme que caminha em direção oposta. Elas são, nós somos, todos vítimas da vida. Apesar de condições, Yinniang consegue estar a beira da reflexão sobre sua real importância, nem que para essa indecisão ela precise caminhar por entre o caos, é uma heroína clássica, a representação do “homem sem nome” dos filmes de faroeste, ou melhor, me corrijo, nada de homem, o que importa em “The Assassin” é a mulher, mulher sem nome, sem rosto, mas com muito sentimento e amor no coração, mesmo que não seja capaz de tocar ou sentir essa capacidade escondida.

O período histórico é visto e sentido pelo espectador através de pequenos elementos do cenário, como se tudo que está em tela quisesse dizer algo. Criando assim uma mise-en-scène poderosa.

A grande síntese da obra acontece quando uma das personagens diz: “suas habilidades são incomparáveis, mas sua mente é refém dos sentimentos humanos.” É evidente a manipulação, a maldade em tentar arrancar os sentimentos mas eles são inerentes ao ser. Pensando bem, todos nós, assim como Yinniang, ficamos mais vulneráveis ao amar, mas talvez esse seja o risco pelo qual acordamos todos os dias.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

More Posts - Website

Follow Me:
TwitterFacebookGoogle PlusFlickrYouTube