Ma Ma, 2015

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★★★

“Ma Ma” é o novo filme do diretor Julio Medem, cujo último trabalho de grande destaque havia sido o maravilhoso “Um Quarto em Roma”, e tem uma presença muito marcante e entregue da atriz Penélope Cruz que também assina a produção.

O filme conta a história de uma mulher, Magda, que descobre ter câncer de mama e, através do seu sorriso e simpatia, acompanhamos a sua luta e, principalmente, preocupação em manter uma relação estável com o seu filho.

Até a primeira metade é de se destacar a mensagem feminista que toma cada segundo de projeção, pautando-se na força de sua personagem, bem como no carisma da Penélope Cruz, Magda se revela incrivelmente forte e independente, despertando a atenção por onde passa e, como reflexo da sua irreverência, todos a tratam incrivelmente bem e, principalmente, sem interesses.

A fotografia tende a ser bem clara, principalmente quando o assunto “câncer” entra em voga, o branco é importante para a compreensão da trama – em dado momento, a protagonista entrega um envelope e traça um paralelo com a cor ( branca ) que é a mesma do time do coração de um outro personagem, no caso, o Real Madrid. No final do filme, após uma cena deveras emocionante, também há a inserção de uma imagem bem iluminada, como se despertasse àquilo que marca a personagem no mundo, representando a sua bondade, força e inocência.

Outro ponto importante é a narrativa flexível, diálogos diretos e inserções minimalistas como o coração – vale ressaltar uma cena em que Magda faz amor e em nenhum momento é mostrado o ato sexual, corajosamente somos “transportados” para dentro do corpo dela, onde, guiados pelo ritmo, vemos um coração pulsando, movido pelo prazer, essa cena representa a simplicidade do longa, no mesmo tempo que traça uma diferença gritante com os demais trabalhos do diretor Julio Medem, que sempre tiveram, em sua essência, o sexo como principal elemento de união. A narração, por vezes, lembra “O Fabuloso Destino de Amelie Poulain”, mas não é a toa, nas suas devidas proporções, ambos têm como hino mulheres sonhadoras, a diferença é que uma se deixa levar para outro universo, enquanto a outra tem um filho.

O problema de “Ma Ma” se encontra no segundo ato, pois perde a direção e investe em personagens secundários que não estão à altura dos poucos que foram apresentados até então e a simpatia que a protagonista despertava nas pessoas, passa a ser quase um super poder que transforma qualquer um em “super protetor da Magda”, abdicando as suas vidas para cuidar dela. Então a força e independência, elementos cruciais para a identificação imediata, vão sendo diminuídas.

No final, apela para um desfecho poético e surpreende, mesmo com o deslize, é fácil navegar feliz por essa história. A atuação da Penélope Cruz dá um charme crucial, como sempre, e sustenta essa obra que, caso contrário, seria apenas mais uma.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Não se Esqueça de Compartilhar, 2009

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★★★★

Sion Sono, esse é sem dúvida um diretor a se descobrir cada vez mais. Ironicamente, esse filme que analiso hoje percorre uma direção oposta da descrição que eu fiz do seu trabalho quando escrevi sobre “Extensões Capilares“. Lá, coloquei que “o diretor é ótimo em lidar com a obscuridade[…] um provocador do horror. Engraçado é, hoje, reafirmar essa colocação tendo, inclusive, um maior embasamento. Afirmo que, antes de mais nada, Sion Sono é um provocador da vida. Deveria estar claro para mim que, mesmo no meio de tantos elementos trash que existe em Extensões Capilares, ainda há espaço para o drama familiar.

“Não se Esqueça de Compartilhar”, um drama de 2009, nos revela um Sion Sono preocupado com alguma coisa, essa preocupação parte de uma vontade inquietante de gritar para o mundo o quanto o outro é importante. Porém, quando o espectador, já emocionado, lê a frase “esse filme é dedicado ao meu pai” nos créditos finais, tudo fica extremamente claro: se trata de uma obra particular, talvez uma autocrítica feita pelo diretor sobre a sua própria postura para com o pai ou o contrário. Faz-nos pensar que possa ter existido na relação deles uma ausência de diálogo.

No mesmo tempo que se ater aos motivos para se criar determinada obra é ruim, se mostra nesse caso uma necessidade. Passamos então a refletir sobre a nossa própria vida e, no meu caso, cheguei a conclusão que nunca compartilharemos o suficiente.

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O filme conta a história de um jovem, Shiro, e sua luta em se manter bem mesmo diante ao seu pai com câncer. Se manter bem é quase uma obrigação, visto que Shiro passa boa parte do tempo do lado do pai, no hospital, então precisa estar sorrindo para, assim, confortar o seu mestre. No entanto, em meio a algumas situações que despertam essa reflexão, o jovem começa a se questionar o quanto é importante compartilhar e, ainda mais, repensa as suas próprias atitudes. Tudo isso diante a uma iminente morte.

Tudo parece acontecer com uma perfeita sincronia, Tetsuji Kita, o pai, foi professor de futebol a vida inteira, tendo, inclusive, dado aula ao próprio filho. Era rígido, a relação de ambos sempre traz a ideia da distância, do medo. Mas mesmo assim é evidente a admiração do filho que, constantemente, parece enxergar o seu pai como uma entidade, envolta de muita confiança e força. Aliás, quando essa imagem vai se desmanchando por conta da doença, temos uma aproximação entre ambos, como se a fragilidade unisse as pessoas.

“Meu pai durão desabou”

Seria um erro analisar o filme tecnicamente, por sinal o filme erra em algumas decisões, mas a proposta é tão sincera e carinhosa que é impossível não abraçar a experiência e se sensibilizar com a trajetória desse ser em busca de entender a si mesmo como uma obra que precisa ser compartilhada, merece não, precisa.

A identificação foi tanta, foi tão profunda. Eu tenho uma irmã de 11 anos, sou o professor dela na escola. Quando entramos de férias, estávamos sentados na mesa e, de repente, ela devaneia: “estou com saudade do professor Emerson“. Essa frase me fez pensar em inúmeras coisas ao mesmo tempo, o quanto somos capazes de nos dividirmos em vários fragmentos, várias versões de nós para preencher as necessidades de determinada pessoa/lugar/profissão etc.

“Ele sempre foi um professor para mim. Tanto na escola como em casa”

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Somos feitos de pequenos momentos e pequenos fragmentos daquilo que vivemos ou temos. Nossas lembranças das ruas e lugares que vivíamos, como quando Shiro visita a escola que estudou e fica vislumbrado, com os olhos alegres e assustados ao mesmo tempo, como se quisesse dizer “isso aqui era tão grande na época!”. (in)Felizmente os lugares vão diminuindo ou somos nós mesmos que vamos crescendo tanto que não nos permitimos nos manter igual ao que passou. Algo como a Alice que cresce e encolhe na mesma velocidade, comendo aquilo que desconhece ou bebendo aquilo que não quer.

A pesca em “Não se Esqueça de Compartilhar” representa o elo. No final do filme, algo que pareceria exagerado em outra oportunidade – no entanto, típico em todo trabalho do diretor – soa como algo extremamente natural e metafórico. Um processo que todos nós deveríamos fazer ao menos uma vez: lutar para manter eternamente.

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No fim, somos um pouco de tudo aquilo que mantemos por perto, nem sempre as coisas são para eternas, mas, se nós quisermos e pensarmos que podemos, o para sempre existe e mora logo ao lado. Basta compartilhar, afinal, até as cigarras compartilham, quem somos nós para não tentar fazer o mesmo?

“Você ainda continuaria comigo se eu estivesse morrendo de câncer assim como o meu pai?”

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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