O suicídio de deus e o nascimento da angústia

Begotten, 1990

begotten

Um trabalho visivelmente experimental. É essa a descrição óbvia de “Begotten” – uma obra que transcende o aceitável e caminha corajosamente pelo incerto, pelo errôneo. Há uma necessidade de se estabelecer paralelos, a arte tem como proposta principal a dúvida, esse questionamento parte de uma ânsia e de uma série de experiências daquele que sente determinada obra.

Encontrar respostas é morrer; morrer é lembrar-se da verdade; e a verdade é que não há nenhum deus. Aqui explico:

“Begotten”, com sua fotografia assustadoramente andarilha entre preto e branco, começa apresentando uma cabana. Deus está sentado em uma cadeira, no canto de uma sala. Sua figura é grotesca, agredida, violada, deforme e bizarra. Seria deus um demônio? Seriam, os dois, um só?

Deus ou o monstro, pega uma navalha e se fura, começa a sangrar e morrer. A mãe natureza brota da terra, transvestida de mulher e começa a masturbar o cadáver celestial. Do seu gozo ( sua semente ) nasce o homem que, encontrando-se sozinho e desesperado, teima em ser a morte.

O filme é uma agressão.

O filme é uma maldição.

begotten1991-by-elias-merhige-avi_snapshot_00-14-18_2016-10-12_11-32-07

O filme só pode falar sobre o fim do mundo – pensei – quando deus se decepciona com as escolhas da sua criação e se suicida. Abandonando-nos. Ledo engano, Begotten é o registro, subversivo, da gênesis.

Então a verdade da obra é que deus criou os seres humanos a sua imagem, porém a melancolia o invadiu. O homem é um erro, um amontoado de merda. O criador se mata, castigando-se e, por consequência, o espectador parte para uma viagem onírica por um mundo tomado pela angústia.

E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas.

A terra sem forma é o cinema. O cinema extremo têm como objetivo o choque que, por sua vez, causa uma catarse. O diretor E. Elias Merhige dedicou muitos anos da sua vida trabalhando na pós-produção, re-fotografando e filtrando fotograma por fotograma.

A sensação de estranheza começa com a fotografia, afinal, é a primeira coisa que percebemos. Passa pela trilha que, por diversas vezes, se baseia em um sussurro, distorções, culminando em dois momentos onde parece que um homem se engasga; a sensação provocada pelo som é estarrecedora.

begotten1991-by-elias-merhige-avi_snapshot_00-37-30_2016-10-12_11-30-58

Se não bastasse, somos provocados constantemente. O cérebro cria definições com as imagens borradas, as mortes são evidentes, porém, na sua sugestão. O espectador se confunde, nada fica muito explícito. É uma viagem ao inferno.

A primeira camada é, sem dúvida, o experimentalismo. Existe uma intenção real de captar a reação das pessoas ao assistir. Mas a mensagem – segunda camada – também é muito interessante. Repleto de referências religiosas, desde o cristianismo, passando por religiões pagãs, somos transportados para um desastre, onde a maior tortura é estar diante ao sofrimento, como se o causador de todos os males fosse mostrado em um espelho. Após assistir, nos sentimos sujos.

Essa é uma viagem que pode, facilmente, cair no desdém. É comum confundir a arte com uma loucura desnecessária. Confundir a mensagem com vazio “pseudo-intelectual”. Mas, como amante do cinema, tento compreender as camadas, aceitar a mensagem e evoluir. Ninguém é obrigado a assistir Begotten, no entanto ao enfrentar a experiência, é preciso atenção e dedicação. Afinal, se trata de uma obra complexa e que, por conta da repetição, se torna cansativa.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

More Posts - Website

Follow Me:
TwitterFacebookGoogle PlusFlickrYouTube

CdA #68 – Cinema maldito, polêmico e extremo

filmes-polemicos

Download

Nesse episódio Emerson Teixeira e Thiago Lepre conversam sobre a arte no seu estágio mais impactante, quando a representação se torna transgressora, subversiva e explícita. Tentamos entender o quanto o cinema extremo é importante para a reflexão e, mais ainda, fizemos uma lista de dez filmes, nessa primeira parte, para ilustrar as nossas opiniões sobre o cinema maldito.

  • Audition, 1999
  • Vase de Noces,1974
  • Holocausto Canibal, 1980
  • Saló ou os 120 dias de sodoma, 1975
  • Imperador Ketchup, 1971
  • Irreversível, 2002
  • Jogos Mortais, 2004
  • Violência Gratuita, 1997
  • Centopeia Humana, 2009
  • Begotten, 1991
  • E-mail: contato@cronologiadoacaso.com.br
  • Twitter: @cronodoacaso
  • Assine nosso feed: http://feeds.feedburner.com/cronoacasopod
  • Itunes: https://itunes.apple.com/br/podcast/cronologia-do-acaso/id1076216544

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

More Posts - Website

Follow Me:
TwitterFacebookGoogle PlusFlickrYouTube