Tanna, 2015

Tanna ( Idem, Austrália, 2016 ) Direção: Bentley Dean e Martin Butler

“Tanna” é uma encenação de algumas pessoas da tribo Yakel, situada em uma remota ilha do Pacífico, sobre um caso real de amor proibido onde uma jovem apaixonou-se pelo filho do chefe da tribo – consecutivamente, seu sucessor – mas fora oferecida como esposa ao clã inimigo, como uma forma de anunciar a paz, portanto, a moça se vê presa entre os seus próprios interesses e o bem estar da sua comunidade.

Dirigido por Bentley Dean e Martin Butler – ambos possuem experiências com jornalismo e documentários – fica claro desde os primeiros minutos a intenção de mesclar a realidade com ficção de uma forma pura, sustentando-se na paisagem devastadora da ilha que traz, de brinde, um vulcão que protagoniza as mais belas cenas do filme.

É uma experiência catártica quando a opção pela construção narrativa passa pela utilização de não-atores, aqui acontece isso e é realmente surpreendente pensar que nenhum dos “atores” sabiam nem ao menos o que era uma câmera e, mesmo assim, aceitaram participar do projeto. É preciso uma cumplicidade e entendimento sobre o mecanismo, algo que partiu, sem dúvidas, de uma relação íntima que durou meses ou anos, entre os realizadores e o povo. Tudo está estreitamente sincronizado no que diz respeito as performances, inclusive não parece haver espaços para improvisos, o que certamente causa impacto negativo em algumas cenas.

O trabalho visceral se mostra competente em um primeiro momento. É motivo de emoção tamanha sutileza, crianças atuando de forma desprendida, senhores pronunciando curtas, mas sabias palavras, etc, mas a sensação com o passar dos minutos é de pura enganação, até porque a realidade é uma ponte fácil para a empatia imediata.

Antes de mais nada, o fato de usar não-atores é comum em cinemas que priorizam a mescla entre documentário e ficção, recomendo o cinema iraniano para ilustrar como tal opção pode ser brilhantemente utilizada quando uma direção segura e inteligente se faz presente, algo que definitivamente não acontece em “Tanna”.

Primeiramente, o roteiro parte de uma premissa clichê na história mundial. A história do amor proibido, hoje, precisa ser trabalhado de formas diferentes, sendo sustentado de outras formas para, na conclusão, a mensagem não ser óbvia. A direção pouco abusa nesse sentido, o limite que separa documentário da ficção não é trabalhada de forma a causar o impacto, a simplicidade se torna uma interrogação bem grande no centro da tela e os personagens não são bem desenvolvidos. A angústia pela qual deveríamos enfrentar junto com a protagonista ou a relação de afeto e proteção extrema que ela possui com a irmã, em momento nenhum é explorado, reforçando uma abordagem preguiçosa que se apoia exclusivamente na suposta realidade. Oras, não seria melhor fazer um documentário?

A fotografia, sem dúvida nenhuma, chama a atenção, principalmente pela utilização inteligente do vulcão que motiva os personagens a uma passagem espiritual, seja de união ou desprendimento.

É uma obra necessária aos amantes de obras orgânicas, que se baseiam nas paisagens para compor a naturalidade e identificação. No entanto, a sensação que fica é que uma ideia brilhante é desperdiçada com um desenvolvimento pouco corajoso, há uma dedicação em organizar as atuações de modo que fiquem aceitáveis, a filmagem acompanha de modo feliz o movimento dos personagens, mas, em resumo, a essência é esquecida, exibindo um roteiro fraco que é afetado por uma direção que tenta ser grandiosa demais, caminhando em direção oposta à proposta inicial.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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O Sonho de Greta, 2015

O Sonho de Greta ( Girl Asleep, Austrália, 2016 ) Direção: Rosemary Myers

Inadequação social é quase o representante máximo de qualquer jovem. Mundo distorcido, pessoas desinteressantes, nada parece pertencer ao universo próprio do indivíduo jovem, nem mesmo a sua mania em sentir-se único.

Amarelo e vermelho no uniforme e parede azul, contrate de cores extravagantes, tornando-se chamativo, irônico e um pouco esquisito, assim como o filme O Sonho de Greta”. Bebendo de outras fontes conhecidas, o longa acompanha a garota do título prestes a fazer quinze anos tendo que lidar com a pressão causada pela idade e desconexão do mundo e da família.

O visual do filme e as cores representam o olhar da protagonista, interpretada com uma certa desconfortabilidade pela atriz Bethany Whitmore, mas tento acreditar que essa falta de expressão condiz com o próprio papel. Tudo é caricato e extremamente dinâmico, escola nova e ambições pequenas fazem de Greta uma ambulante em pleno hospício. Jovens saltando na frente dela e pouco interesse se sente por parte de todos, tudo é cheio de cores mas elas não exalam alegria, como estamos acostumados.

A sua família é bizarra: a mãe é horripilantemente e artificialmente atenciosa; o pai, com um visual hippie dos anos setenta, é um homem distante e incomunicável; e a irmã, por fim, está aproveitando um outro tempo e outras necessidades que não as da Greta. A vida particular da heroína não acolhe e se torna tão perigosa quanto as “amigas” manipuladoras na escola.

A única pessoa que a acompanha é Elliott (Harrison Feldman) mas ainda assim a amizade surge inesperadamente e se mantém por ser exclusiva. Inclusive o trabalho do jovem ator começa agradável e vai se tornando enjoativo, como tudo no filme, inclusive.

O terceiro ato, durante a festa de quinze anos, é repleto de cenas que fazem alusão ao crescimento – contando, inclusive, com um momento onde a protagonista se depara com ela mesma na versão criança que, particularmente, salva os últimos vinte minutos – e se tornam cansativas pois a mensagem é simples, direta, mas feita com inúmeros simbolismos surreais mal realizados.

Doses de onirismo, humor expositivo e levemente insano, assim como um adolescente que se sente solitário – basicamente todos, mesmo que todos não assumam. Brinca com a linguagem de Wes Anderson, sem esquecer Alice no País das Maravilhas e com resquícios de terror – brincadeira, mas as gêmeas que aparecem aqui dão medo. O filme perde força no terceiro ato mas, ainda assim, é divertido e explora bem a inadequação de uma jovem querendo se desvincular de si mesma como “monstro”, como todos já fomos(seremos, somos…).

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Lake Mungo, 2008

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★★★★

Causar o medo é algo extremamente complicado hoje em dia. A informação, tão importante para a venda do filme, acaba prejudicando na experiência daqueles que entram nas salas de cinema a par da história, ciente de algumas cenas chaves porque assistiram o trailer, enfim, cada vez mais a surpresa vai desaparecendo.

No entanto, posso colocar que algumas obras se sobressaem a essa questão e o motivo é muito simples: qualidade. Uma boa ideia, uma boa execução pode ultrapassar qualquer informação prévia ou familiaridade com alguns clichês, isso poque se torna empolgante acompanhar o desenvolvimento, sem se preocupar, necessariamente, com o resultado.

Isso acontece perfeitamente com o terror australiano “Lake Mungo” dirigido pelo estreante, em longas, Joel Anderson, que realiza uma obra madura e que se difere em muitos sentidos das recentes produções de terror, principalmente por não utilizar efeitos sonoros e outros artifícios recorrentes para provocar o medo, pelo contrário, lida com a realidade de um fato desastroso que, por sinal, desencadeia uma série de dúvidas.

Lake Mungo

“Lake Mungo” é um documentário que investiga a vida da Alice Palmer, uma jovem que morre em um lago. Depois do corpo ser reconhecido, os familiares começam a sentir manifestações sobrenaturais em casa, então há diversas tentativas de registro por meio de filmadoras ou até mesmo de fotos, por parte do irmão, bem como ajuda de especialistas para tentar entender o que está acontecendo e encontrar os motivos das aparições fantasmagóricas.

É preciso acrescentar que se trata de um mockumentary ou um documentário falso, cuja intenção principal é utilizar atores para interpretarem, dar depoimentos de modo que simule um documentário real. Na verdade, é uma brincadeira com o “fato”, pois é extremamente relativo essa questão em um filme de terror. Se a pessoa que assiste acredita na paranormalidade, parte do pressuposto que todo filme que aborda inteligentemente a questão é baseado em casos reais, portanto, não deixa de ser um documento sobre a verdade.

Há um contexto para esse devaneio, aqui tento explicar, pois “Lake Mungo” é diferente, existe uma tensão que ultrapassa a curiosidade sobre o paranormal e percorre caminhos do próprio ocorrido, então ficamos com dúvida o tempo todo, no que diz respeito aos motivos da morte, como aconteceu, e o porquê de estar acontecendo as manifestações. É tanto mistério que se torna inevitável não ficar, no mínimo, intrigado com aquela situação.

No caso das aparições, muitas vezes em filmagens de filmadoras instaladas pela casa, afim de registrar os eventos sobrenaturais, o filme é feliz em nunca ter uma explosão sonora para fortalecer o óbvio, não necessita do susto, isso se torna bem interessante porque a qualquer momento pode aparecer algo, não existe a expectativa quanto a isso. Talvez “Lake Mungo” cause o medo visceral, é uma verdadeira experiência.

Outro ponto positivo é usar a tecnologia de forma positiva, contribuindo com a narrativa de forma elegante, então veremos filmagens feitas pelo celular, fotografias, enfim, ajudando a estruturar essa atmosfera obscura que ultrapassa o sobrenatural e vai de encontro com a sensação do luto, afinal, a família está vivendo um.

Infelizmente a conclusão deixa a desejar, apesar de curioso, é muito pouco se comparado com o desenvolvimento. Mas o processo não deixa de ser interessante.

Obs: A cena pós-créditos me deu um arrepio.

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The Babadook, 2014

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★★★★★

O medo é a sensação mais desgastante que existe. Eu me sentia muito amedrontado quando criança, bastava minutos para minha imaginação ir além do que meu senso de indiferença aguentasse. Um escuro, um barulho, uma história, parece que tudo era motivo para criar sobre a escuridão de não entender. Morando no interior então, nem se calcula as diversas lendas, histórias em torno da fogueira etc. Parece que eu fui programado para desafiar o medo.

Crescendo, me tornando jovem, me debrucei em livros ocultistas, filmes de terror, exorcismos, procurando desvendar essa natureza poderosa e real, mesmo que não exista. Foi justamente nesse período, inclusive, depois de tanto exigir do meu cérebro, que acabei tento as mais diversas experiências sobrenaturais, aquele pavor que te cala a boca, mesmo diante a uma tentativa desesperada de gritar pedindo ajuda.

Nem todo mundo acredita no sobrenatural, aliás, não há nada de errado com isso, eu mesmo não acredito totalmente. Mas devemos acreditar no medo. Aliás, quanto mais o procuramos, mais ele se torna reluzente. Existe o medo do sobrenatural, existe o medo de enfrentar o próximo passo assim como existe o medo do passado, mas vamos nos ater no primeiro e terceiro exemplo.

O terror é um dos meus gêneros favoritos, difícil falar isso quando se ama cinema, mas eu colocaria o terror como a minha fuga, paro de buscar algo sério, decifrar o homem e me preocupo exclusivamente com a experiência, pessoal, no caso. Isso porque acredito que para o  terror ser bem feito é preciso envolver, criar uma simbologia e, a partir dela, desenvolver algo que convide o leitor ou espectador.

“The Babadook” acerta em todos os aspectos e o fato de ser feito em meio a diversas catástrofes do gênero de terror, só o torna ainda mais especial. Há uma brincadeira com a tensão, inclusive ele é criado com muita paciência, para não perder o interesse do espectador e, ainda por cima, prevalecer a discussão filosófica que existe.

Uma mãe e um filho. Amelia ( Essie Davis ) e Samuel ( Noah Wiseman ) moram sozinhos, pois o pai do garoto faleceu em um acidente no dia que o mesmo nasceu. A mãe se sente perdida constamente, parece haver uma distância grande entre os dois, mesmo diante a aproximação em diversas cenas.

O filho, Samuel, se prepara, literalmente, para um duelo contra um monstro que ele afirma com propriedade que existe. A mãe, como normalmente aconteceria, não leva a sério a sua angústia.

Nos filmes de terror geralmente existe uma família se mudando para uma casa e, após isso, se depara com eventos sobrenaturais. Em “Babadook”, como era de se esperar, esse clichê e outros são superados, a casa existe, a família já mora lá, essa história será contada a partir da rotina e não da novidade, o que fortalece o sentido de fragilidade que todos nós podemos passar.

É mais complicado se identificar com “uma mudança para a casa assombrada” do que com um tormento no seu próprio lar, aquele que você já está acostumado. Samuel, ao contrário da sua mãe, está ciente do que está acontecendo, nas suas brincadeiras se mostra valente, uma atitude de quem quer proteger. Mas quando acontece qualquer coisa, ele volta a ser criança, como se quisesse dizer que por mais que tente, ele jamais poderá resolver esse problema, pois está vinculado ao passado. A mãe é a chave para a história, bem como o destaque do longa. Desde a atuação da Essie Davis, que compõe uma personagem extenuada, existe uma artificialidade nela, um olhar vago, estado que vai se agravando com o passar do tempo, vivendo naquela casa, fechada, só dá entender que a mesma se encontra em um mundo diferente dos demais seres humanos. Quando o sol bate em seu rosto, é possível enxergar um desconforto, como se ela fosse um vampiro mesmo, se incomodando com o dia, a luz.

O horror se faz presente em cada cena, a mãe se sente solitária, olha os casais se beijando e até esse detalhe causa um estranhamento, como se ela quisesse sugar um pouco daquela iniciativa, fosse um espírito -­ quem, de fato, é o monstro? É ameaçador ela viver só com uma criança, nenhum dos dois se mostram em plena saúde mental, eles são ventríloquos sem ninguém para controlar e mora ali um perigo, quanto mais vulnerável, mais as sensações entram para sugar e, nesse caso, o medo se apresentou cordialmente.

Babadook é o monstro, tão comentado pelo garoto e tão presente durante todo o filme, parte de um livro Pop Up, estéticamente macabro, que a mãe lê para o filho em uma das infindáveis noites. Enquanto é feito a leitura, acontece algum tipo de magia, um encantamento, que apesar de estarem diante de um conteúdo bizarro, queriam saber o que estava escrito na próxima página. A ideia é aterrorizante, mais ainda quando percebemos que o monstro em questão foi projetado para ser um “símbolo”. Desde o nome, Babadook, que soa bonitinho, é gostoso de pronunciar e, assim, interage perfeitamente com a infantilidade, assim como o seu visual, é um mérito o filme não necessitar de uma criatura horrorosa, cheia de efeitos para assustar. Aqui é extremamente básico, começa com o próprio desenho, depois vai estendendo para elementos de cena como um chapéu e blusa e, quando menos percebemos, Babadook está em todo o canto. Afinal, ele é os personagens, mais precisamente, a mãe.

Há muito tempo eu não sentia medo assistindo um filme, mas tenho que confessar que enquanto assistia olhava para os lados, procurando algo. Isso porque ele lida extraordinariamente bem com a função do terror: provocar. Não é o efeito sonoro alto que dá o susto, é a construção. Quando somos obrigados a pensar e, assim, convidados a uma provocação, tudo se torna bem mais natural. O medo aqui é consequência de um desenvolvimento de roteiro, fotografia, atuações, ou seja, independente do gênero, se existisse a discussão interessante sobre a luta contra o desprendimento do passado, ele seria eficaz. O terror ultrapassa, ou deveria, os limites do seu próprio gênero.

“The Babadook” é uma brilhante sensação de aprisionamento. Não há maneiras de fugir do que vivenciamos, é um ciclo que, se por acaso não existe equilíbrio, se desprende em direção a loucura. O livro fora escrito pela mãe, já que a própria afirma que era escritora de livros infantis, mas por algum motivo essa outra vida se torna nebulosa. Uma folha de papel e caneta são formas simples para se criar o medo, bem como existe um Babadook dentro de cada um de nós. Só esperemos que, quando ele sair, saibamos como domesticá-­lo.

Obs: Leia a crítica do curta metragem da mesma diretora, que serve como base para “The Babadook”: clicando aqui

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[Curta-­Metragem ] Monster, 2005

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★★★★

Jennifer Kent é uma diretora que vem dando vozes as mulheres no que diz respeito a direção de filmes de terror. Ela é uma estudante do cinema, ajudou o diretor Lars von Trier, depois fez alguns trabalhos em séries de terror na Austrália e, por fim, chamou a atenção com um dos melhores filmes de 2014, “The Babadook”. É de se esperar ainda mais sucesso nos próximos anos, pois seus futuros projetos ainda são pautados na estranheza e profundidade, algo que corre em direção oposta dos filmes de terror atuais.

O que poucos sabem é que antes de “The Babadook” existiu uma semente chamada “Monster”, um curta metragem de aproximadamente dez minutos que utiliza quase a mesma ideia do longa mas, evidentemente, se desenvolve muito mais depressa por conta unicamente da duração, até porque mantém o mesmo nível de qualidade.

Começa o curta e somos apresentado a um menino, ele luta com sua espada contra um boneco macabro, depois joga algo em seu rosto para tampar, como se existisse um objetivo muito bem estruturado para essa atitude. É então que aparece um letreiro escrito “monstro”.

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Depois disso conhecemos a mãe, uma mulher com olhares vagos, sempre fazendo uma atividade doméstica, como se estivesse submersa em um devaneio sem fim. Podemos inclusive observar que ela permanece tão distante, que qualquer barulho a assusta, consecutivamente, o espectador fica atento.

O maior mérito do curta é o clima, a fotografia preto e branco, o som, bem como a estranheza dos personagens principais, gera uma apreensão em quem assiste, outro aspecto importante é o bom uso dos espaços. Como é de se imaginar, por se passar inteiramente em uma casa, mas necessariamente nos quartos e corredor, a sensação de claustrofobia aumenta gradativamente, conforme os protagonistas vão “encolhendo” nos seus próprios medos.

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O menino se prepara para um monstro, o mesmo afirma que “matará o monstro para a mãe”, não existe um medo grande por parte dele, mas uma aflição por proteger, o que é muito interessante.

Mesmo com o pouco tempo, conseguimos sentir uma leve profundidade em algumas questões que serão melhor trabalhados no longa metragem e, aos mesmo tempo, sentir um leve medo durante o processo de desconhecer o que os atormenta. Depois que o monstro aparece ­ destaco a cena da escada, que assusta qualquer um ­ e mais, depois que a mãe consegue “domar” ele, a atmosfera criada até então vai embora e o curta caminha em direção a um drama psicológico. Uma proposta excelente que comete um pequeno deslize em se revelar demais. Mas ainda assim, foi um feliz convite ao mundo para embarcar na cabeça da Jennifer Kent, motivando­-a para o desenvolvimento da sua obra prima: The Babadook.

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Mary e Max, 2010

Quão louco é estar por aqui, saudade daqueles nossos olhos vidrados perante algo que é, aos olhares adultos, extremamente simples, a criança cria um universo próprio, repleto de dúvidas e soluções divertidas, lembro que, ao passear de carro a noite, eu ficava observando a lua me acompanhando, brincava que ela vinha comigo para qualquer lugar que fosse. Lembro também dos faroestes que assistia, eram os meus heróis, minha imaginação saltava e, rapidamente, eu estava vestido de Cowboy, andando desengonçado – estilo John Wayne – mas destemido, esse era meu passatempo, imitar meus heróis da TV. Inclusive já pensei em ser super herói de verdade, defender a cidade com minha bicicleta e alguma espada de plástico. Uma construção, perto da casa onde eu morava, se tornou um castelo, cuja terra eu utilizava para escalar e matar dragões… Enfim, falo da minha infância, por que não tem como assistir Mary e Max e não lembrar de você mesmo, tentando definir o que falaria, o que perguntaria, quando criança, para um amigo em Nova York.

O filme começa destacando detalhes da vida de Mary, deste patins jogados, até a caixa de correio – que virá a ser quase um veículo de sensações para ambos protagonistas – o narrador, então, define a menina pelos olhos e a mancha marrom na testa, o segundo faz parte de um incômodo que a menina levará consigo durante toda sua vida, enquanto o primeiro, bem, os olhos/visão, soarão ultrapassados ao longo, dará a vez ao coração, as palavras, o quanto elas podem ser sinceras sem as máscaras do toque.

Do outro lado temos Max, um senhor que se arrasta por entre uma estrada de concepções. A sua vida me parece tão fascinante quanto identificável, envolto de um preto e branco, surge como uma ironia muito grande New York nessa animação, afinal, quando aparece a plaquinha com o nome da cidade, ela recebe três tiros, como um aviso. Se não bastasse, as pessoas estão sempre esquisitas. Fazendo nosso querido Max parecer inofensivo, no meio de tanta insanidade destrutiva, a piada com o peixe, por exemplo, é ótima.

Mary e Max são opostos, estão em fases diferentes da vida, porém, em vários outros aspectos são idênticos, reparem que eles assistem aos Noblets por motivos diferentes mas, por fim, ressaltam que os personagens possuem muitos amigos. Enfim, é tão poderoso esse questionamento de vidas isoladas/separadas, perdidas no mundo, quando, em algum outro lugar, alguém precisa ouvir e falar as mesmas coisas que você.Uma lista telefônica nos apresenta inúmeros nomes, todos esses nomes tem histórias diferentes, todos esses nomes já foram crianças, Mary imagina como eles são fisicamente, mas será que naquele momento eles estavam bem? Estavam cuidando de seus filhos, que vieram de um copo de cerveja, estavam olhando outras listas telefônicas, estavam se drogando…? O quê todos essas pessoas desconhecidas fazem o tempo todo, o porquê somos tão fragmentados? A vida as vezes parece ser meio solitária, ai lembramos que não é possível que estejamos sozinhos nessa, existem sombras de nós mesmos, espalhados pelo mundo, pequenos pedacinhos de procura, enfeitando nossa existência pois, cedo ou tarde, serão encontrados(das).

Quando assisti pela primeira vez, tanto Mary quanto Max mexeu muito comigo, me identifiquei com os dois personagens, mas o Max era uma facada no estômago, sua visão de mundo, bem como sua ausência fazia com que cada frase sua soasse como um desabafo meu. Eu sempre fui muito entregue, mas em dada etapa da minha vida minha boca não dizia aquilo que minha cabeça pensava, eu não agia, pois o medo de me enfrentar não permitia que eu questionasse o quão importante eu era para essa peça de teatro brilhante também conhecida como existência.

 Sei lá, é confuso a vida. As vezes olho para trás e percebo o quanto as pessoas foram importantes na minha vida, não necessariamente amigos, muitas vezes só conhecidos. Talvez não haja grande separação assim, ou talvez eu, naquele momento, não parei para refletir sobre o a verdadeira função daquela determinada pessoa na minha transformação, é claro que sempre resta estar só para evoluir, mas sem o outro não somos ninguém, não conseguimos nada. Eu sempre fui muito dependente da palavra, principalmente as verdadeiras, então minhas relações foram sempre construídas através de muito diálogo, com a Internet isso ficou ainda mais gritante. Quando escrevo aqui, por exemplo, eu tenho o costume de me imaginar sozinho, mas é questão de tempo para perceber que alguns estão lendo, sendo assim, posso estar ajudando alguém, assim como esse alguém pode estar me ajudando. O mundo se tornou bem mais pequenininho. É um grande outro lado do mundo, fico feliz por ter conhecido pessoas que me fizeram – e continuam fazendo, mesmo que distantes – bem.
 

O pai da Mary gasta o seu tempo com amigos mortos, a mãe vive embriagada, existe uma pressão grande ali, um sufocamento, mesmo assim o ser mundo permanece colorido, como se a idade representasse uma esperança por um dia melhor, uma outra possibilidade, há tanta sensibilidade nisso, há tanta tristeza em se pensar, reparem como a música “Que Sera Sera” encaixa bem nesse filme:

Quando eu era apenas uma menina,
Perguntei para minha mãe, ‘
O que vou fazer?’ Vou ser bonita? Será que vou ser rica?
E ela disse isso pra mim: Que Sera Sera,
Quando eu cresci e me apaixonei,
Perguntei ao meu amor, o que virá depois. Haverá arco-íris, dia-após-dia?
E o meu amor me disse: Que sera, sera,Agora eu tenho meus próprios filhos
Eles perguntam a sua mãe o que serão Vou ser bonito? Vou ser rico?
Digo-lhes com ternura Que sera, sera,

 
Ela apresenta três etapas da vida, nas três existe um conflito, para as três existe apenas uma respostas, as coisas são como são, parece óbvio, mas há apenas uma única oportunidade, pra quê questionar a forma, quando o que realmente importa é o processo. Tudo é uma questão de processo. Eu sou fotógrafo, amante de cinema, a visão para mim é tudo… no mesmo tempo nada. É muito conflituoso todo e qualquer tipo de análise de filme, mas aquele que te toca é ainda mais complicado, as letras fogem do controle, assim como a desordem organizada da vida de Max, sua Tv grande tem som e não tem imagem, sua Tv pequena tem imagem e não tem som, parece que ele precisa sempre estar colando pequenas coisinhas, com simplicidade de sentir e criar significados sobre tudo, é tão forte para mim assistir hoje em dia meu velho amigo, é um reencontro marcado por emoção, assim como eu me pego em uma fase completamente nova e, meu querido Max, deixa de ser igual, passa a ser uma lembrança. Como é forte para mim seus animais, os diversos sanduíches de chocolate, as invenções culinárias, sua vida cheia de sonhos, cujo doutor os classifica como imbecis, queria pedir com gentileza para esse doutor não ser tão duro com meu amigo, tolo é não sonhar, tolo é não viver, tolo é não ter amigos. Quando começa a tocas “Coro a bocca chiusa”, no final, fica claro que eles se conhecem, o pote de leite condensado foi dividido há muito tempo, desde, talvez, o começo dessa história, na iniciativa de mandar uma carta, na coragem de responder, na vontade de continuar, não precisa necessariamente da distância, bem como o estar perto não diz muitas coisas, o sincero transcende o espaço, está dentro de você, dentro de todos nós. Ame, sonhe, compartilhe, tenha amigos… até aqueles que já foram.
Dedico esse texto há uma pessoa que mora em uma das gavetas mais especiais do meu coração, dedicada a palavras jamais esquecidas, de longas conversas indecifráveis. Obrigado pela paciência, por acreditar em mim de alguma forma, por ser sincera e sarcástica em diversas oportunidades, você viu de longe uma transição curiosa, como te disse uma vez, algumas pessoas são anjos… Fazem rir.

Com carinho, Emerson Teixeira. Seu amigo de Santa Branca,

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