Eu, Olga Hepnarová, 2016

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Eu, Olga Hepnarová ( Já, Olga Hepnarová, República tcheca, 2016.  ) Direção: Petr Kazda e Tomás Weinreb.

★★★★

O preto e branco do filme é a primeira coisa que desperta a atenção. Sua qualidade se mantém em perfeita sincronia com os enquadramentos e com a iluminação mas, principalmente, com o psicológico da protagonista.

Olga Hepnarová foi a última mulher sentenciada a morte na Tchecoslováquia. Em 10 de julho de 1973 ela atropelou, intencionalmente, vinte e cinco pessoas. O seu caso ainda é muito estudado no país, principalmente por causa de uma carta que a moça deixou como “testamento” das suas experiências como vítima de bullying e, consecutivamente, provando total consciência do seu ato e transformando-o em um grito de desabafo.

O filme se desenvolve lentamente, como um documentário, acompanhando o trajeto da protagonista e a sua insatisfação constante. Nesse aspecto, a atriz Michalina Olszanska realiza um trabalho primoroso, através de expressões que refletem a sua fúria. Com uma aparência delicada, suas vestes são o contraste: sempre largas, tiram a forma do seu corpo, ressaltando a sua independência e desprendimento com o padrão.

Além disso, Olga possui sempre o desejo de ser vista – uma cena que resume essa intenção é em uma festa, onde a personagem mostra os seus seios, aparentemente sem proposta alguma – mas, inteligentemente, o filme nos direciona à contestação de que ela não sabe o que fazer com a atenção que clama em silêncio. Demonstrando ser uma  mulher forte, e de fato é, existe uma série de lacunas que possibilitam ao espectador preencher com a fraqueza, desespero e depressão, isso não quebra a figura intocável da personagem, apenas a faz mais humana.

O enquadramento dá a sensação de desconforto, a protagonista dificilmente se encontra no centro da tela. Na maioria das vezes está no canto, envolvida de ar e pressionada pela rotina, bem como permanece rodeada de objetos – quadro, cadeira, mesa, garrafas vazias etc. – uma forma de tirar o foco dela, como se sua imagem ficasse borrada facilmente.

O filme é um verdadeiro estudo de personagem, através do seu silêncio, não faz julgamentos e isso é raro. Olga vive a beira de um suicídio, gosta de se sentir a dominadora da vida e das relações, algo que, inclusive, é sintetizado em uma frase no final em que é sugerido que a menina “não decide se é deus ou vítima”.

No entanto, se o cinema ensina algo, com certeza é o fato de todos sermos deuses de uma única história inacabada. Olga Hepnarová precisava ser vista e encontrou na dor alheia uma forma de provocar sensações em pessoas, ao olhar dela, anestesiadas e cegas. É sufocada pelo fato de viver e os diretores Petr Kazda e Tomáš Weinreb conseguem transmitir essa melancolia através de uma narrativa realista que, mesmo cansando na segunda metade, ainda consegue se reinventar com algumas decisões oportunas como os cortes que fluem por momentos, aparentemente, aleatórios e uma singela quebra da quarta parede.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Deep Water, 2016

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Um jovem corre por uma rua, encontra um grupo de jovens e, em seguida, é espancado por eles. Inesperadamente eles descobriram que ele era gay, então ouve-se piadas, principalmente uma mulher pedindo para enfiar um pau no seu ânus pois “ele iria gostar”.

“Bicha!” – diziam, enquanto o espancavam.

O jovem consegue fugir e pede ajuda para um homem que caminhava em um parque. Então ouve como resposta:

– Eu não ajudo viados.

E com esse depoimento devastador, começamos o documentário triste “Deep Water” que aborda a violência contra os homossexuais. Essa sequência inicial, narrada pelo jovem citado acima, nos dá a possibilidade de sentir repulsa da sociedade. Parece não haver escapatória, em cada canto existe o preconceito, como se estivéssemos afundando em um mar de merda.

Dirigido pela Amanda Blue, esse documentário foi lançado com uma série do mesmo nome e tem como maior mérito a seriedade que o assunto é abordado, sem nunca cair nos fáceis julgamentos, muito pelo contrário, os relatos, as situações e informações são passadas de forma bem verdadeira, chocando o espectador com tamanha crueldade.

Existe a intenção de desvendar um caso, criticar o sistema e desmistificar o descaso da lei na década de 80 – inclusive fica claro que a indiferença parte da despreocupação da sociedade para com os próprios homossexuais -, porém, o mais impactante é acompanhar o desespero da família e amigos.

Que mundo é esse em que existem pessoas que tentam desesperadamente decifrar o que é normal e o que não é?

É repulsivo imaginar que alguém assassina o outro por ser gay, qual o limite para tal atitude impensável? Qual foi o momento em que nos imaginamos como reis da existência e protetores do “correto”? aliás, o que é correto nesse mundo devastado pelo ódio e egoísmo?

A comunidade LGBT fez mais pela sociedade do que muitos de nós, brigando pelo direito de serem ouvidos, gritando a diferença e alertando o mundo que ela existe. Esse movimento salva vidas, protege os jovens que temem se assumir e esbanja coragem. Após assistir o documentário, me sinto feliz que tivemos algum progresso e triste, ao mesmo tempo, por ainda vivermos em um mundo tomado por imbecis.

Seria tão simples se todos respeitássemos o amor, independente do caminho que ele se aplica. Seria tão maravilhoso poder sentir as coisas no seu limite, respeitar e ser respeitado na mesma proporção.

A homossexualidade é tratada como tabu, diversos políticos e pastores opinam sobre e, por incrível que pareça, o jovem que teme fica calado. O homem e mulher que ama, sofre sozinho e ninguém pergunta a sua opinião. Mas o que se esconde atrás da sua máscara… esse tem a oportunidade, esse contribui com a sua parcela inútil de julgamento, esse ajuda na propagação do ódio.

Os homossexuais não são ouvidos pelo poder, porque o próprio povo ignora as suas angústias. Os conservadores observam com atenção, apontam o dedo e deduzem que tudo é “baixaria”. Baixaria é não rever conceitos, não aplicar a empatia todas as manhãs quando acorda e não aceitar que escolha é a coisa mais sagrada que existe nessa vida.

Os jovens assassinaram um jovem, jogando-o em um penhasco. Fizeram sem pensar que mudariam o rumo de uma história, sem imaginar o impacto na vida de uma família, sem acreditar no sofrimento que aquilo provocaria. Fizeram, sem perceber que estamos todos de passagem e que a nossa única obrigação é entender a nossa própria jornada. O homem não consegue viver junto, sem se entender só; não consegue amar, sem compreender as diversas formas de carinho; não consegue acordar, sem compartilhar o espaço; não consegue respirar, sem ter empatia.

Eu precisei me despir de uma série de preconceitos ao longo da minha breve caminhada, mas nunca precisei superar o ódio. Quem acompanha o Cronologia do Acaso, vez ou outra, se depara com ideias e palavras repetidas, mas nenhuma é tão forte e presente quanto “empatia”, “amor” e “respeito”. São três palavras que podem mudar o mundo; três personagens de qualquer história; três vidas.

Como um menino pobre que sou, tento ajudar dentro do meu limite e humildemente escrevo para divulgar essas três palavras através da arte. “Deep Water” nos mostra uma triste história e comove pela sua visceralidade, basta usarmos o seu conteúdo de forma inteligente nas nossas vidas, traduzindo a maldade em esperança.

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Homem Irracional, 2015

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★★★

Woody Allen é um querido diretor. Aprendi muita coisa com seus filmes, me identifiquei muito com sua personalidade extrema e conheci muito o cinema clássico, bem como jazz entre outras inúmeras referências.

Aqui mesmo no Cronologia do Acaso, escrevi uma “carta para o Woody” e um especial, analisando com bastante detalhe o seu filme clássico “Manhattan“. Bem, Woody Allen continua fazendo um filme por ano, essa média é realmente muito incrível, principalmente para alguém com oitenta anos e que mantém, dentro do possível, a média de qualidade. No entanto, essa postura traz consigo muitas críticas, isso porque visivelmente não há tanto tratamento no roteiro e alguns outros detalhes técnicos, como a própria utilização da música. Mas vamos com calma.

Eu sou adorador do Woody Allen, como disse. Acho divertido a forma como os seus filmes são recepcionados pelo público, muitos não gostam, outros surgem sempre com o mesmo argumento “os filmes ruins dele são melhores do que muita coisa que sai no cinema atualmente”.  Bem, não acho que frases como essa justificam a grandiosidade do seu trabalho, pelo contrário, ele certamente não está nem um pouco interessado em fazer algo comum.

“Homem Irracional” faz jus aos filmes anteriores do diretor que falam sobre a banalidade da morte, o diretor se sai bem quando trabalha, levemente, com o suspense. A história é de um professor de filosofia Abe Lucas – interpretado por ninguém menos que Joaquin Phoenix – que chega para lecionar em uma universidade mesmo em meio à uma crise existencial. Ele começa uma relação de amizade com uma aluna ( Emma Stone ) que, diante a sua infelicidade, fica encantada pelo professor charmoso. Algo perigoso faz Abe reencontrar a felicidade e a ânsia de viver novamente.

É evidente que todo filme o Woody Allen influência os seus atores e eles começam a agir como o próprio diretor, refletindo suas manias no desenvolvimento dos papeis. Phoenix, apesar de encaixar muito bem no protagonista típico de Allen – escritor ou professor que não consegue escrever livros ou artigo – destoa bastante da sua leveza. Cria um personagem extremamente denso e sombrio, que está emocionalmente quebrado e isso fica claro na sua composição, o olhar perdido, confunde por vezes com a crueldade. É interessante como o professor Abe, mesmo estando fora de forma, ainda apresenta um charme fora do normal.

Se por um lado temos o melhor ator da atualidade – vide “O Mestre”, “Ela” e “Vício Inerente” do outro Emma Stone desempenha maravilhosamente o seu papel, com uma naturalidade típica da atriz. Não a toa é o seu segundo trabalho com o diretor, consecutivo. E sabemos como o Woody Allen é seletivo com suas escolhas.

A falta de conexão do protagonista com a escrita pode ser traduzido como o seu encontro com a verdade: nesse caso, ele reflete constantemente que a filosofia não pode ser resumida apenas em livro, é preciso sentir na prática. Algo como uma desculpa, ou uma forma de controlar sua tristeza, afinal, está praticando filosofia ao ser existencialista; Sendo um livro, um artigo científico.

“eu não posso escrever porque eu não posso respirar”

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A complexidade do protagonista é o ponto forte do filme, ainda mais com a relação que se estabelece de fascínio pela tristeza, no mesmo tempo que há uma intromissão masoquista por parte da aluna.

Depois que Abe encontra um sentido para a sua vida, que está diretamente ligado ao fato de se distanciar do intelecto – o título do filme demonstra um desejo – há alguns artifícios interessantes para ressaltar a sua mudança de comportamento. A principal e mais clara delas é a iluminação. O personagem fica, em diversos momentos, envolta de luzes, como se se sentisse brilhante, um artista, como se as luzes estivessem seguindo os seus passos.

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Enfim, “Homem Irracional” é interessante no seu desenvolvimento, mas deixa bastante a desejar na sua conclusão. Transformando bons minutos de atuações impecáveis e profundidade filosófica em algo irrelevante.

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