Arte – a religião de voltar-se a si

Existe um coração universal que pulsa em cada ser humano; existe uma trajetória que os afasta do seu âmago; e existe o olhar que absorve o mundo e é, por ele, absorvido. Enquanto indivíduo, somos frágeis e delicados. Em civilização somos máscaras. O que torna o homem capaz de violar, de ser rude e ganancioso?

A existência tem como sobremesa a sobrevivência. O homem em seu estado uniforme grita aos quatro cantos o seu status, sua formação é em base à sociedade, seu comportamento e vestimenta. Mas o homem fragmentado, bem, esse representa a mágica realidade da existência pueril. Não existiu e nunca existirá na história uma única revolução que não tenha partido do caos e da revolta, e, convenhamos, o mundo precisa de grandes rebeliões para conhecer o amanhã. Portanto, é necessário que o homem se despedace afim de encontrar o começo de sua jornada. E entre um caco de vidro e outro, eis que surge o dilema da função religiosa da arte.

A arte possui uma definição subjetiva, é claro, que ganha proporções diferentes conforme o contexto histórico ou social. Contudo, é de se notar que essa entidade nunca esteve separada do ser humano. A arte não é uma ferramenta que traz ao homem uma facilitação no seu processo de imortalidade através das suas expressões artísticasa arte é o homem no seu estado inicial. A arte é o coração universal, o big bang, é a expansão e criação do homem, que fora passado para traz conforme a civilização foi se tornando sólida. A arte enquanto sociedade é apenas registro; a arte enquanto indivíduo é uma deidade.

A religião mais intensa e verdadeira que existe é a arte, pois ela traz consigo a noção de outro estado. A terra motiva o homem a superar adversários, estruturar pensamentos e atribuir significados à todas as coisas; a convivência social obriga os indivíduos a se encaixarem em uma classificação previamente planejada por um burguês – desse modo, é válido reforçar que a classificação é o alimento preferido dos ignorantes; e o tempo, por sua vez, impulsiona o ser acovardado a criar raízes. Enquanto isso, a arte e o seu “outro estado” caminha despida por entre um paraíso imaginativo, que se adapta às necessidades de cada um. A arte é a mágica do homem, é a verdade irrevogável, é a única maneira de voltar-se a si.

No campo terreno estamos envolta de conservadorismo e limitações, mas nas expressões não existem regras, não existe ditadura, não existe preconceitos. Por isso é tão difícil unir sociedade e cultura, sociedade e educação, pois desde pequenos somos treinados a definir o redor, como se fossemos dotados dessa capacidade maçante. É preciso sentir os intervalos de um diálogo e outro, de uma atitude e outra. Perceber a beleza da maldade e a leviandade do controle. Na terra dos homens existem as leis, no estado artístico a única lei é ser. Mulheres são homens e vice-versa, o amor é um só, a mensagem não é clara e nem por isso ininteligível, a palavra não é reprimida e o manifesto é consequência e milagre social.

Adoradores da arte, fundemos uma nova percepção espiritual, a sociedade do estado artístico. Um plano astral onde podemos retornar ao primórdio. Aniquilar as classificações e jogar-nos fisicamente e emocionalmente ao desconhecido prazer de sentir. A dimensão da criatividade extrema impede a corrupção de mostrar os dentes. Enquanto isso, o ignorante permanece sentado na sala de jantar, classificando o inclassificável, rejeitando o manifesto pacífico da poesia e proibindo aquilo que nunca fez e nunca fará.

Você está convidado a fazer parte dessa sociedade. Reinvente-se!

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Espaço Além – Marina Abramović e o Brasil, 2016

Espaço Além – Marina Abramović e o Brasil ( The Space In Between, Brasil, 2016 ) Direção: Marco Aurélio del Fiol

Marina Abramović adentra uma caverna encantada, repleta de incertezas incomunicáveis. Ela resiste à fraqueza da carne, sua mente transcende a dor, redimensionando a sua existência e, através do seu corpo, um veículo, explora a arte simples do cotidiano e motiva o público a fazer o mesmo.

Ela cria uma ponte entre o ser e o mundo espiritual e eterno, eternizando sua arte através de tatuagens feitas por todos aqueles que passaram por sua vida. Seria injusto separá-la da coragem; seria ingenuo não usar a sua imagem como uma forma segura de afirmação de que a arte é único caminho válido para se encontrar Deus.

O que nos liga é o sentimento de descoberta, descobrir-se como entregue, disposto à enfrentar os mistérios da crença, respeitando a diferença, lugar e história. Marina Abramović pratica a empatia e se suicida a cada segundo, desprendendo-se constantemente da vida e exaltando seus movimentos como uma forma divina de contemplação sobre o absurdo do acordar.

Assistir esse documentário proporciona uma experiência tão esmagadora e maravilhosa como a que Marina vivência com o chá de ayahuasca; uma verdadeira catarse, evacuação dos medos, uma jornada à cegueira total.

Há diversas cenas onde a espiritualidade atinge a imagética, o objeto se torna uma corrente que aprisiona o convencional. Acompanhamos os passos de um ser em busca de compreensão, de forma simples percebemos o quão grandioso é a liberdade total da consciência, a fé absoluta em coisas inimagináveis e perigosas – como uma imagem onde uma baiana “levita” ou o tratamento espiritual nada convencional onde é colocado uma faca nos olhos daqueles que creem, um momento altamente grotesco, se analisado exclusivamente com a razão.

A arte é entregar-se as emoções mais profundas, confiando na natureza como fonte primária de inspiração e reflexão. Marina Abramović deixa claro a sua posição sobre a  diferença entre instituição religiosa e espiritualidade, é importante para a compreensão dessa jornada onde a “andarilha moderna” encontra a si em cada personagem que sente, em cada passo lento à caminho da ciência, em cada arte e em cada cebola e alho que devora.

Na última vez que estive no Brasil, visitei uma xamã chamada Denise. Ela trabalhou com pedras de meteorito para determinar as minhas origens. Ela disse: “Sabe, você nunca se sente em casa em lugar nenhum.” Isso é verdade. “Você nunca se sente em casa em lugar nenhum. Porque você não é deste planeta. Seu DNA é galáctico, você vem de estrelas distantes. E você veio ao planeta Terra com um propósito”. Eu perguntei a ela: “Qual é o meu propósito?” “Seu propósito é ensinar os humanos a transcender a dor.”

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A arte e o amor contra a ambição de um dia melhor

Divinas ( Divines, França, 2016 ) Direção: Houda Benyamina

★★★★★

A palavra “divina” é muito comum, mas dificilmente encontramos, em meio à rotina, uma boa forma de aplicá-la em nossa vida. O motivo é simples: divino, em síntese, é aquilo que está acima da compreensão humana, é a aceitação do sobrenatural e reflexão sobre os limites da nossa intelectualidade.

A ironia se encontra justamente na grandiosidade do seu significado e banalização no seu uso, visto que o maior elo do ser com qualquer plano superior e místico é, sem dúvidas, o seu próprio processo de evolução. Nesse ponto podemos sempre citar os jovens que, no auge dos seus primeiros contatos com o desprendimento, se veem diante à uma floresta interminável e escura chamada “crescer”.

“Dividas”, primeiro longa-metragem da diretora Houda Benyamina, busca na palavra uma metáfora maravilhosa com o desabrochar. É o exemplo perfeito de uma obra que discute não só a ânsia de uma jovem perante um mundo de facilidades, como também a sua reação diante as infinitas vírgulas que a vida coloca em nossos caminhos – no caso do filme, a mais evidente é a arte, pois a protagonista se apaixona por um dançarino que a faz repensar sua vida no crime.

A história começa e fica visível a narrativa realista, o uso inteligente da câmera que, através dos seus movimentos, transmite um estilo que beira o documental, tornando a realidade uma essência para o desenvolvimento. Se não bastasse, elementos técnicos como a baixa profundidade de campo em momentos cruciais, isola a protagonista do mundo que vive, o que será trabalhado ao longo por conta da ambição da garota em crescer financeiramente e se diferenciar, nem que para isso precise roubar ou vender drogas.

A personagem principal, Dounia – interpretada brilhantemente pela promissora Oulaya Amamra que também fez o curta-metagem “Belle Gueule” – é dotada de carisma, força e espontaneidade, junto com a sua amiga Maimouna ( Déborah Lukumuena ) batalha inconscientemente para fugir do seu lugar, para criar um futuro diferente da decadente mãe e, por fim, para ter sucesso.

O gueto que ela mora apresenta dois ideais completamente distintos, – algo que será ainda mais trabalhado no segundo e terceiro ato – as crianças crescem entre a religião e o crime, a vida terrestre, aquela que deveria ser divina, é desmanchada e transformada em maldição, pois o sucesso só abraça os ricos.

O contraste de mundos é refletido nas músicas que tocam ao longo, transitando entre o clássico e o hip hop, a maneira abrupta que são cortadas sugere a intromissão, como se a própria arte entrasse na casa da sua outra versão sem bater na porta. Mas essa dicotomia fica evidente com um terceiro personagem: Djigui.

Djigui é dançarino, expressa constantemente os seus sentimentos e os vivência intensamente, ele luta para conseguir um papel em um espetáculo e têm, como talismã,  Dounia, que passa a assisti-lo e contemplar a beleza dos seus movimentos. A protagonista se vê encantada com o desprendimento mais visceral que existe, a arte, e começa a questionar as suas próprias decisões, o filme passa a investigar a pergunta “o que acontece quando o amor se torna o objetivo ao invés da ambição do crescimento?”.

O amor e a arte remete, muitas vezes, a estagnação, como um “agora” que não tem pressa, um momento bom que não quer ser esquecido e assim por diante. Dounia não vive o seu presente, pelo contrário, suas ambições, estão estritamente ligados ao dinheiro, estão relacionados com o futuro – uma cena que ilustra isso é quando ela simula estar dirigindo uma Ferrari – então a obra assume uma importância gigantesca em trabalhar a arte e o amor como uma maturidade concentrada no hoje, que afasta a protagonista por conta do medo desse sentimento.

Com diálogos incríveis, “Dividas” apresenta a diferença, tanto de expectativas quanto de escolhas e suas consequências, por isso as danças são filmadas em plongée – de cima para baixo – demonstrando que Dounia se sente superior aquela expressão artística, algo que será contestado no final, onde a própria garota está jogada no tapete, ensanguentada. Aliás, os cortes rápidos no final são bem próximos à cultura de rua, ainda é inteligente em entrecortar a dança de forma que pareça se tratar de uma coreografia de hip hop – a utilização do som nesse momento assume uma importância gigantesca.

Divino é a possibilidade de enfrentar obstáculos e entregar-se as pequenas chances que temos, algo que Dounia aprende nesse processo de pegar atalhos fáceis para se alcançar o fim. Vítima de sua condição e personalidade, Houda Benyamina coloca muita esperança em sua obra para, depois, fragmentar suas personagens, como um alerta, como um documentário que investiga fatos; a menina que tanto sonhou com futuro, aprende que o hoje é o melhor dia para ser vivido.

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Colecionismo, fotografia e sensualidade

Preto, Branco e Cinza ( Black White + Gray: A Portrait of Sam Wagstaff and Robert Mapplethorpe, Estados Unidos/Alemanha, 2007 ) Direção: James Crump

★★★★

Esse documentário fala sobre a vida do colecionador, curador de exposições e artista Sam Wagstaff, principalmente sobre o seu fascínio por fotografias desconhecidas que, por coincidência, refletiam traços da sua personalidade excêntrica e como esse vício/objetivo impactou a vida do seu namorado e fotógrafo Robert Mapplethorpe.

O núcleo do filme acontece entre as décadas de 70 e 80, que apesar de serem opostas, ambas são extremas e refletem bem a personalidade de Sam Wagstaff e Robert Mapplethorpe e como ambos representavam o complemento perfeito para uma face repleta de lacunas tanto emocionais quanto físicas. Sam Wagstaff cresceu em meio a aristocracia, dotado de uma beleza exótica, desde novo era acompanhante da mãe e exalava segurança e domínio. Robert Mapplethorpe, por sua vez, se apresentava ao mundo como um rebelde sem causa, em um primeiro momento é curioso como o documentário trabalha essa relação que funciona como uma catarse para alcançar a autonomia do próprio corpo e sexualidade.

Sam começa, através do seu parceiro e aceitação da sua opção sexual, a descobrir um outro lado da sua persona; corajoso, subversivo, explorador, expositivo, enfim, ele passa a dialogar com uma nova versão de si mesmo, que será ainda mais desenvolvida com a união das suas paixões como artes, colecionismo e fotografia.

Usando a cidade de Nova Iorque como pano de fundo para a autonomia e liberdade de expressão, o documentário – brilhantemente dirigido pelo James Crump, que consegue transitar pelos depoimentos, fotografias maravilhosas e temas com uma fluidez inacreditável – se divide em vários ao transmitir o poder de uma relação que se estrutura, basicamente, em uma simbiose profunda e como esse encontro pode desencadear o surgimento de novos intelectuais e revolucionários, mas também aborda o sentimento de êxtase que a coleção provoca e o poder reflexivo que a fotografia possui, principalmente quando um sujeito está disposto a tentar descobrir um pouco de si em cada imagem que analisa.

É um filme fascinante para amantes de fotografia, pois exalta constantemente essa arte como forma de evolução e diálogo com a sociedade, mas também é uma ode ao colecionador que, com muito carinho e dedicação, reúne diversos objetos que o identificam de alguma maneira. De brinde temos uma grande história de amor e amizade – a cantora punk Patti Smith era muito amiga do casal principal – que serve como mensagem simples e impactante sobre a busca do indivíduo em completar seus medos e ausências com o amor, mesmo que a sociedade o repreenda. As fotografias de Robert Mapplethorpe exalam essa ideia de libertação, revolução sexual e “voz aos homossexuais”, com decisões cruciais na utilização das sombras para criar os contrastes, é um trabalho imprescindível para adoradores de fotografias e apoiadores do movimento LGBT.

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Entre o corpo, a tinta e a alma

O documentário “Pina”, dirigido pelo Wim Wenders, se encontra em um grau alto e desconhecido, onde a arte atinge o seu limite, morre e renasce. Provando mais uma vez que a expressão é a única fuga e esperança para todos os males do mundo, incluindo a perda.

pina

Desde quando o 3D virou mania nos grandes cinemas, sempre me provocou muita curiosidade. Demorei bastante para assistir um filme em 3D e, quando assisti, foi encanto imediato. Com o passar do tempo o fascínio foi diminuindo até se tornar um aborrecimento. Por ter consciência de que a maioria dos filmes hoje são convertidos para 3D, sem o mínimo de cuidado, apenas para aumentar o preço dos ingressos, a ferramenta – que pretendia levar mais pessoas ao cinema – se tornou apenas mais uma arma de manipulação do grande cinema-produto.

Contudo, assim como em todos os aspectos da arte e da vida, sempre há exceções e pude perceber isso assistindo “Pina”, o documentário onde o maravilhoso Wim Wenders faz uma carta de amor, junto com os bailarinos, à coreógrafa e dançarina alemã Pina Bausch.

Primeiro que é curioso notar a facilidade que o diretor Wim Wenders tem de se reinventar, transitando por entre linguagens diferentes, ele parece sempre manter intacta a habilidade de agredir visualmente o espectador, confrontar e abusar da capacidade de simbiose que o audiovisual pode atingir; isso fica claro desde o primeiro minuto do documentário que se baseia, basicamente, em mostrar algumas das principais coreografias da Pina enquanto os seus bailarinos falam sobre a sua mestre. É preciso ressaltar que, antes mesmo de começar a filmar a obra, Pina Bausch acabou falecendo, mas o diretor fez questão de continuar, claro, de forma diferente, para fazer uma homenagem a altura da grandiosidade de Bausch.

Pina Bausch é o maior expoente de uma expressão chamada dança-teatro. Como o próprio nome já diz, se baseia na interpretação com o auxílio de conceitos básicos da dança, movimentos e música. É de se destacar que a linha que separa a dança do teatro sempre foi muito tênue, no entanto existe alguns pontos cruciais na dança-teatro que são, por exemplo, a representação de um personagem e a linguagem sendo transmitida com uma sintonia entre o movimento e a palavra. A grosso modo, eu diria que essa expressão se aproxima muito da dança contemporânea, se revelando muito visceral e contemplando o humano na sua condição mais selvagem; afinal, todos nós nós somos cabíveis do movimento e da necessidade de expressão, portanto, um sutil balançar das mãos, se planejado e ensaiado, pode ganhar formas e contexto como dança ou teatro.

O que Pina Bausch fez, ao longo da sua história, foi reorganizar o homem diante a essa verdade absoluta e muito contestada: a arte existe para comunicar aquilo que não se mensura. A palavra, que ouvimos por diversas vezes no documentário, é transmitida através de expressões, olhares, a dança e a conexão dos corpos, no entanto, com a realização maravilhosa do filme e a utilização magistral do 3D, o espectador se sente capaz de perfurar essa separação que existe entre o real e a tela, tornamo-nos um só. O corpo é o movimento, a tinta são os bailarinos ( homens ) e a alma é a conexão que existe entre um indivíduo e aquilo que assiste ou sente.

Wim Wenders desconstrói o trabalho da Pina Bausch e se mantém coerente na contemplação da sua genialidade, pois ele mesmo é genial no seu registro. Esse é um dos casos raros que a arte atravessa o tempo e se refaz, ao chegar no fim. Que fim seria esse? Pina deixou algo tão importante para o mundo, ela demonstrou que é possível existir a linguagem em infinitas oscilações, que podemos encontrar o equilíbrio na instabilidade e que para ser livre, é preciso entregar-se ao caos e à loucura.

Uma das maiores sensações do mundo é apresentar em frente à uma platéia, os olhos atenciosos, contemplando a sua presença, percorrendo o seu corpo como se fosse uma exposição, em uma vitrine que se desloca para o coração de vários. O teatro é uma forma de nos sentirmos tocados, mesmo solitários, nos sentirmos leves, mesmo que tensos, nos sentirmos parede, porta, água ou caixão; parte de um todo e nada; a excitação é breve, no mundo real, como uma droga, mas no universo interior aquele que se apresenta se compreende por uma vida inteira.

E quanto a Pina Bausch? Ela continua dançando e se esquecendo…. dançando e se esquecendo… dançando e se esquec… Quem é Pina Bausch? Uma tinta, uma alma, uma professora mas, principalmente, uma mulher.

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CdA #57 – A Serbian Film – Existe um limite na arte?

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No episódio #57 do Cronologia do Acaso voltamos ao formato [Moscas] e, dessa vez, falamos sobre um filme extremamente polêmico: A Serbian Film!
Emerson Teixeira convidou o Tiago Messias e, juntos, conversaram sobre esse filme nada sútil. Discutiram sobre o papel da arte na sociedade e, com isso, surgiu a dúvida: “existe um limite na arte?”.  Ouça ainda reflexões sobre o sexo no cinema e outras questões pertinentes.

Obs: Nesse episódio convidamos a ouvinte Ana Paula para ouvir a gravação de um Cronologia do Acaso. Ela ainda deu a sua importante contribuição para a discussão. Agradecemos a sua participação Ana!

. Edição feita por Tiago Messias do https://altverso.wordpress.com/

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Feliz 2016!

FELIZ-ANO-NOVO

No dia 31 de dezembro de 2014 eu postei essa publicação no [Cronologia do Acaso]: http://cronologiadoacaso.blogspot.com.br/2014/12/adeus-2014.html – ainda no Blogspot. Hoje, relendo, exatamente um ano depois, me pego pensando o quanto mudei, em relação aquele garoto ansioso de antes.

Bem, o projeto Cronologia do Acaso está quase fazendo três anos! No começo, me preocupei exclusivamente em compartilhar todos os meus medos e angústias, até mesmo aflições, através de resenhas disfarçadas. Na verdade eu somente produzia minha própria obscuridade.

Isso não é um problema, afinal, estava sendo sincero nas minhas colocações. O interessante é que tenho alguns leitores desde essa época e a relação que construí com eles é excepcional. Parece que me conhecem de forma muito linda e, igualmente, entregue, carinhosa.

Depois de passar rapidamente pelo Cinem(ação) – um momento e realização muito legal e divertida – decidimos que precisávamos evoluir, dar um passo adiante. O CdA sempre esteve atrelado a outros sites, vocês já repararam? Eu não sou um bom empreendedor, portanto sempre mantive distante a ideia de fazer algo mais sério, visando um crescimento. Mas, em março de 2015, finalmente decidimos abrir esse espaço e, com o auxílio de tutoriais, consegui fazer o mínimo para deixar um visual agradável. Hospedagem e domínio realmente facilitam muito a vida, fica a dica.

O site começou a ganhar contornos diferentes, lidei com ele de uma forma bem mais profissional, ainda assim mantendo a essencial e característica sensibilidade. O cronologia é um conforto para o meu coração, honestamente ainda fico pensando muito em formas de ampliar o seu alcance, dinamizar o seu conteúdo, por si só, diferenciado.

Escrever críticas grandes sobre filmes que poucos viram não atrai muitas visitas, mesmo assim eu me surpreendo com a consistência dos acessos. Mesmo tendo conseguido, infelizmente, apenas uma crítica por semana nesse ano. Por outro lado nós conseguimos manter o podcast com periodicidade quinzenal. Aliás, o primeiro episódio do Cronologia do Acaso foi lançado em 2012, na época estávamos no Mídias e Modos, ou seja, ele está entrando no seu quarto ano!

Hoje escrevo sem tristeza, sem melancolia. Esse final de ano representa, para mim, uma oportunidade agarrada com todo afinco. Seja no lado profissional ou até mesmo no Cronologia, sinto que fiz algo útil.

No entanto, é de se esperar novidades, provavelmente na primeira metade do ano eu estarei absurdamente ocupado com o final da faculdade, porém, desde já penso em novidades para o site, até mesmo para não ficar apenas escrevendo críticas e explorar outras formas de escrita, sempre divulgando o cinema independente e, por meio dele, discutindo sobre a vida e amor.

Por fim, agradeço à você, leitor(a) e amigo(a) que me acompanha e me ajuda, agradeço profundamente aos queridos Sandro Macena – meu amigo de longa data que, por motivos pessoais, esteve um pouco afastado mas continua nos bastidores – Cliff Rodrigo, Marcus Rocha, Weuler Lopes, Tiago Messias, – Aliás, no exato momento que estou escrevendo esse texto, saiu o Subverso que participei comentando alguns dos melhores filmes de 2015! clique aqui para ouvir e não se esqueça de comentar – Júlio que fez sua primeira postagem no Cronologia – sobre o curta destino clique aqui para ler – e está prestes a fazer um trabalho sensacional por aqui em base a um sublime diretor e, especialmente,  André Albertim que entrou esse ano para a equipe e foi amor à primeira vista.

Agradeço também ao Marcos Ramon, por nos acompanhar e sempre comentar nas postagens. Destaco especialmente uma indicação que ele fez do nosso podcast em uma postagem incrível onde refletiu sobre a mídia clique aqui para ler – confesso que me emocionei quando percebi que ele nos indicou e, ainda mais, descrevendo com tanta sensibilidade o nosso projeto.

Tradicionalmente eu faço uma lista de melhores filmes do ano. Eu estou construindo ela com muita atenção e, para conseguir ser o máximo responsável possível, darei tempo a mim mesmo e postarei, sem falta, no dia 5 de janeiro. Junto com a lista dos melhores, postarei também uma lista com todos os filmes que eu vi no ano, já que muita gente me pergunta o que estou assistindo =D

Me despeço de vocês afirmando, de coração, que estou por ai, quem quiser conversar, trocar ideias sobre cinema, dar dicas ou sugestões para o site, entre em contato. O e-mail é: contato@cronologiadoacaso.com.br, Twitter: @cronodoacaso.

Feliz ano novo,
Emerson Teixeira Lima

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Elena – Entre o âmago da arte e a ternura de uma busca vã

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Quem é Elena?

Parte I – O âmago da arte

O homem procura a eternidade até mesmo no último suspiro. Direciona suas crenças para mundos diferentes, melhores ou piores que o nosso, mas, sempre, diferente. Como se o “aqui” não refletisse, totalmente, as suas necessidades, como se o “agora” não bastasse para aliviar o coração.

O que seria o normal? Chegar ao entendimento do que é arte é tão ambíguo quanto compreender o significado da vida. Há diversos espaços, há diversas oportunidades, há diversas ações e histórias, sempre percorrendo a arte ou acrescentando fragmentos de informações à ela. Um ser vivo é parte de um todo e esse todo é parte de um mistério; Simples como desvendar a morte, incrível como acreditar no impossível.

Eu percorri diversos pensamentos sobre a minha pessoa, me consumi na obrigação de me encontrar, acreditei estar sozinho e quanto mais prestava atenção, mais afundava. Acreditar nos meus limites era quase uma imposição do mundo, superar esse obstáculo e me enxergar como um ousado era um trabalho para uma outra vida, um outro encontro e uma outra causa. Até que repensei a arte como um veículo, como um cavalo levando seu cavalheiro à encontro dele mesmo. Eu, que me apresentava como o senhor ninguém, cuja imagem sempre era transmitida de forma borrada, assumia a posição de criador mas, acima de tudo, admitindo, sem nenhum problema, que só conseguia o ser pois um dia eu fora criatura.

A arte é o encontro, entre todas as criaturas e sentimentos que existem dentro de apenas um ser humano, é o movimento das águas, o vento que balança uma árvore, é a sincronia e aceitação do ciclo, da mudança, do tempo. A arte está em tudo e no mesmo tempo não existe, assim como o fim, é uma criação do próprio homem para dar sentido à coisas inexplicáveis.

Quem é Elena? Uma excelente representação, de um centro do mundo. De uma existência única que, para mim e para você, permanece desconhecida, senão, pela arte, pelo olhar. Nunca conheceremos Elena, conhecemos, após assistir o documentário da Petra Costa, o olhar que a diretora tinha (tem) sobre sua irmã. Quando a arte atinge uma simbiose, uma sincronia, uma visceralidade no que diz respeito a fusão de histórias, interesses, sentimentos, dores e ausências. Petra Costa é sua irmã, Elena. A mãe assume, por vezes, a vida de Petra, outra de Elena. Elena é lembrada e, por isso, continua viva. A intenção e necessidade dessas três protagonistas de uma história orgânica, ultrapassa os limites do cinema e atinge o coração de cada espectador que, por algum motivo, em algum momento, conflitou com a melancolia.

A priori toda arte deveria ser consequência do despimento, rompimento, caos e tenuidade. Transformando assim os seus personagens ou objetivo, seja no cinema, música, escultura, desenho etc, em ruídos. Aquela confusão criada a partir de um não entendimento, aquela sensação provinda de um movimento minucioso, aquela provocação por sentir a harmonia partindo de uma busca sem resposta.

Quem é Elena? Elena é um ruído, uma imagem embaçada que se torna crível tanto pelo seu elo com a arte, como pela desmistificação que sua irmã faz através de uma série de narrações em off, dialogando perfeitamente com as imagens de arquivo, ora sem sentido como um balançar de mãos, ora uma dança, mas gritando nas entrelinhas, constantemente, que apenas a dor da ausência é que faz sentido.

Parte II: ternura de uma busca vã

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A busca vã é a falta de capacidade de se esconder diante a verdade. As pessoas tem dificuldade em aceitar a morte e lidar com o luto quando, na verdade, deveríamos todos ter força para utilizar isso como catarse, transformar o desespero em soluções, eternizar a angústia, de forma a trabalhá-la constantemente.

Infelizmente não temos essa capacidade, a ideia de finitude nos consome, existe um mergulho profundo na obscuridade do tempo. Ele, de repente, em um dia chuvoso, sussurra nos nossos ouvidos que falta-nos pouco para concretizar aquilo que realmente queremos. Mas em nenhum momento podemos deixar de viver de forma mecânica para seguir nossos reais interesses, seja por conta da sociedade, necessidade ou status.

Elena encontrou no tempo uma oportunidade. Queria ser atriz e procurou se especializar aos olhos da sociedade – até porque “ser atriz” é intrínseco a ela – a bebê que dançava de forma desengonçada dá lugar a uma atriz entregue de corpo e alma, do tipo que não se contenta ser apenas uma, mas todas as suas personagens.

Em 1990, quando Elena se suicidou, o governo havia acabado de interromper a produção de cinema no país. Ela era já muito conhecida nos palcos, mas queria cinema e, portanto, procura refúgio em Nova York, quase como um exílio que também pode ser traduzido como uma espera por algo grande. O fracasso, mesmo em meio a empolgação, traz consigo a perigosa tristeza. A arte entra em conflito com a obsessão da incapacidade, o caos e o ruído não dialogam tão perfeitamente como antes e, assim, a linha tênue entre o suicídio e o equilíbrio, tão presente na vida de um artista, é desfeita.

Elena ingere aspirina com cachaça e morre. Suicídio. Quem é Elena? Um ser humano que buscava o que não se encontra, um segredo, um vácuo que jamais poderia ser preenchido. Uma decisão desperdiçada. Em sua autópsia consta a informação de que o seu coração pesa 300 gramas, mas, metaforicamente, o espectador sabe que pesa muito, muito mais do que isso. Afinal, não existe espaço para estatísticas em obras de arte, elas são imensuráveis.

“O vazio, mesmo quando cheio é pesado demais. O vácuo também preenche, também esgota”

Parte III: O documentário

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A diretora, Petra Costa, afirmou em algumas entrevistas que começou a desenvolver o conceito do documentário após se deparar com o diário de sua irmã. Em um devaneio Petra percebeu que tinha a mesma idade de Elena e, por um instante, parecia que o que estava lendo foi escrito por ela própria. A angústia misturada com a empolgação e o vazio, aos poucos, iam se tornando mais identificáveis.

Petra pode se classificar como afortunada, pois encontrou diversos registros – em áudio e vídeo – da irmã na garagem de sua casa. Através dessas imagens o documentário se desenvolve mesclando as perspectivas, Petra e a sua mãe falam sobre Elena com total conhecimento e, no mesmo tempo, desconhecimento.

Em uma verdadeira contemplação, importante ressaltar que em nenhum momento beira o superficial, uma das primeiras narrações de Petra faz jus a expectativa da família sobre a sua pessoa: “você pode ir para qualquer lugar do mundo, menos Nova York e escolher qualquer profissão, menos ser atriz”. Enfim, Petra vai para Nova York estudar teatro, quase como se quisesse desabafar a ânsia da contradição, como se visse em si a oportunidade de uma nova chance da irmã.

O filme pode ser considerado, por insensíveis, como algo muito particular, egocêntrico ou até mesmo egoísta, ledo engano, na minha opinião se trata de uma experiência universal. Fazendo jus ao sentimento de perda, em qualquer âmbito, de desencontro e de aceitação.

O jovem se afunda facilmente na melancolia, está diante a uma série de decisões que mudaram para sempre o seu destino. Esse momento é conhecido como “período potencialmente crítico”, sendo superado facilmente com o respaldo da família, porém, isso dificilmente acontece; Primeiro porque o próprio jovem se isola; Segundo porque a família muitas vezes trata com desdém os problemas de um “adolescente”.

Aliás, o ser humano é assim, trata de forma indiferente ou inferior os problemas pelo qual ele não está passando. O problema é que a tristeza que conhecemos é apenas a nossa, podemos até tentar nos colocar no lugar de alguém mas, no final, sempre chegaremos as nossas próprias ansiedades.

Petra Costa é corajosa em se expor, no mesmo tempo que o seu trabalho é envolto de uma intenção desmedida: alcançar a comunicação com alguém que já se fora. Curioso é certificar que isso se realiza, através da própria arte. O filme é um elo entre mundos.

Elena foi homenageada, foi resgatada para o agora. Trazida com carinho pela irmã e moldada através das imagens e registro. Elena não gostava da própria letra, por isso “escrevia” cartas com a voz, se certificando de compartilhar suas experiências e novidades. Petra, Elena e a mãe são a mesma pessoa; Ligadas pelo conflito, pelo desejo de morrer, pela tristeza. No mesmo tempo que Petra procura sua irmã, se depara com a verdade de que ela mora em todos os lugares, uma chuva se torna o seu choro, o vento se torna um movimento, os pássaros a sua risada.

Petra, hoje, está mais velha que a sua irmã. Mas como escrevi acima, na arte nada se calcula, não existe idade. Existe verdade. A verdade da Elena é que ela se “sente mais a vontade e natural em frente a uma câmera”. A verdade sobre Petra é que sua sensibilidade é monstruosa e apaixonante. A verdade sobre mim: sou mais um, mas, nem por isso, comum.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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À Procura de Sugar Man, 2012

sugar man

★★★★★

Assim como escrevi na crítica sobre “Kurt Cobain: Montage of Heck“, esses documentário que se propõem, com tanto carinho, em dissecar a obra de um artista, pedem uma maior liberdade na análise, afim de compartilhar não a história inteira do personagem estudado – pois para isso é preciso assistir ao próprio documentário –  mas de traduzir as sensações ao descobrir um pouco mais sobre a vida do cantor, ator, enfim, ser humano.

O documentário investiga a vida, no mínimo, curiosa de um cantor mexicano de folk dos anos 70 chamado Sixto Rodriguez. Ele gravou dois álbuns, foi um sucesso de crítica na época, porém, não vendeu nada. Ele então entrou em um ostracismo. Alguns dizem que em uma apresentação, após ouvir vaias do público, pegou uma pistola e atirou na própria cabeça, outros dizem que ele ateou fogo em si próprio, no palco.

O fato é que nos Estados Unidos, onde foram feitas as gravações dos dois álbuns, “Cold Fact” ( 1970 ) e “Coming from Reality” ele não era nem um pouco conhecido e sua “morte” foi superada imediatamente. Mas na África ele era tido como um Deus da música. Pois suas letras libertadoras foram um verdadeiro símbolo de ousadia, incentivando o povo a lutar contra o poder, em busca dos seus direitos. Sixto era, na África, mais conhecido que Elvis Presley. Duas pessoas se dedicam, então, a procurar mais sobre a vida desse homem misterioso e temos o documentário “À Procura de Sugar Man” que, inclusive, ganhou o Oscar.

Se não assistiu, confia nesse que vos escreve e assista, sinta, pois sua visão sobre a música mudará, ou melhor, sua visão sobre criação. Eu lembro que passei rapidamente, há algum tempo, pelo Imdb e só copiei o nome “Sixto Rodriguez” no google. Consegui os seus dois álbuns e fui escutar. Fiquei boquiaberto com tamanha qualidade e profundidade da letra. Depois, sem saber absolutamente nada, fui assistir o documentário.

Chorei em 90% do filme, pois me senti parte de alguma coisa. Me senti feliz por acreditar na arte feita com amor e distante de interesses. Eu cresci sendo torturado com insinuações, pessoas querendo manipular o meu destino, me transformando, precipitadamente, em um boneco cuja vida já está planejada. Isso me sufocava, me angustiava. Até que cresci.

Cresci e aprendi que no mais profundo que eu possa chegar, dentro do meu coração, sempre haverá alguém movido por amor. Como poderia um homem crescido sobreviver assim? Sem ser definido por ignorantes como vagabundo, anormal, estranho etc? Então achei um caminho, um não, vários, pequenas coisas que me fazem me sentir completo e que, no mundo dos homens importantes, seria visto como infantil, pois não me deixa tão rico assim. Porém, me sinto feliz, a pessoa mais rica do mundo.

A história de Sixto demonstra para todos os amantes de música que, por mais que vivemos em um mundo de interesses, o bom conteúdo sempre encontra um caminho. E não estou falando só sobre música, aliás, músicas não são só músicas, filmes não são só filmes, estou falando de criação, a partir do momento que você cria, a partir da sua verdade, está sujeito a críticas, mas entre o silêncio e o grito, sempre devemos escolher a segunda opção, simplesmente, por que sempre terá alguém no mundo que te entenderá.

No caso do Sixto, esse entendimento acontece diante uma realidade social. Sua arte foi reconhecida, mesmo que depois da sua morte e o que seria a morte? Depois que parou de criar. No mais humilde possível, ele cantou, não conquistou a fama de, talvez, o seu interior esperasse, mas teve a oportunidade de se mostrar sereno quanto a ideia de que fez o seu melhor. Independente se uma ou seis pessoas compraram o seu disco, o melhor foi feito, o amor está compartilhado e a arte o eternizou.

Quando penso em mim, depois de assistir o documentário, fico feliz por ter entendido antes que é preciso acreditar nas nossas loucuras. Criar e, talvez, fazer disso um trabalho mas, se não der certo, ter capacidade o suficiente para sorrir e nunca se esquecer que tentou. O quão importante é a arte e, no mesmo tempo, aos desavisados, o quão perigoso pode ser, mas se você acredita no que faz, nenhuma opinião destrutiva te derruba, pelo contrário, te faz ter mais certeza de que para se encontrar a arte, é preciso dialogar verdadeiramente com o amor e fazer dele o seu único elo com o outro.

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CdA #42 – Juventude, 1951

Juventude

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No episódio 42 do podcast [Cronologia do Acaso] Emerson Teixeira, Tiago Messias, Marcus Rocha, André Albertim e Cliff Rodrigo conversam sobre um clássico do grande mestre Ingmar Bergman de 1951 chamado: “Sommarlek” ou “Juventude”. Falamos um pouco sobre a história do cinema sueco, abordamos brevemente o começo da carreira do diretor e, claro, conversamos bastante sobre esse lindo filme que mostra com perfeição as principais características do trabalho do Bergman, que muitos consideram como o “maior diretor de todos os tempos”.

Assista ao filme, escuta o podcast e comente as suas impressões!

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