As Bodas de Satã, 1968

As Bodas de Satã

Seria impossível analisar “As Bodas de Satã” sem se lembrar de como o satanismo foi discutido durante os anos 60. A liberdade e o movimento hippie trouxeram, também, um outro lado obscuro que envolvia o desconhecido e, claro, o satanismo está incluso na lista.

Em 1969, um ano após o lançamento desse filme, Charles Manson assassinou a Sharon Tate que era esposa do diretor Roman Polanski e estava grávida de oito meses. Então é de se imaginar a ousadia de todos os envolvidos em lidar com esse tema de forma tão natural e impactante.

O filme é baseado em um conto do Dennis Wheatley, inclusive ele teve o Aleister Crowley como consultor para criação da sua história.

Dirigido por Terence Fisher, “As Bodas de Satã” conta a história de Duc de Richleau ( Christopher Lee ) que descobre que o seu sobrinho está envolvido com rituais satânicos e magia negra, ele passa a usar os seus conhecimentos místicos para combater o mal e os livrarem dessa situação.

A produtora Hammer é icônica na história do cinema, trabalhou exaustivamente com alguns monstros famosos como o “Drácula” e a “Múmia”, aqui trabalha com a magia negra e consegue se sair muito bem. A técnica empregada pelo Terence Fisher dá um tom elegante e o roteiro é dinâmico e aproxima o espectador do conflito principal. É uma aula de cinema para os jovens, que teimam em se utilizar dos sustos gratuitos. Aqui acontece o contrário, existe uma atenção maior para com a história, depois os personagens, o visual e só depois vem a necessidade de provocar o medo. Contudo, como o foco está totalmente na ambientação, a sensação de urgência e o trabalho inteligente com elementos diabólicos traz a sensação de medo de forma mais pura, é realmente uma experiência prazerosa.

Ainda há espaços para algumas discussões sobre o mal e o ceticismo, o que é importante, mas em nenhum momento se torna o principal na narrativa. Felizmente é tudo singelo, trabalhado de forma delicada, destoando inclusive do próprio tema, sem dúvida se trata de um dos melhores filmes da Hammer.

“-Você acredita no mal?
-Como uma ideia.
-Acredita nos poderes das trevas?
-Como uma superstição.
-Estão erradas!
O poder das trevas é muito mais que mera superstição!
É uma força viva que pode atacar a qualquer momento da noite.”

A teatralidade, com ajuda do clima gótico, faz jus a mitologia que o filme alcançou posteriormente, tendo sido inspirações dentro da música, escritores, enfim, é impossível falar de terror sem citar essa obra maravilhosa, cercada de muita dedicação e carinho e, por que não, relacionada com a curiosidade e medo da sociedade na década de sessenta.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Possessão demoníaca no cinema

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O cinema de terror nos anos 60

Os anos 60 foram, sem dúvida, um dos mais importantes para a história do cinema de terror, isso porque antes era produzido muitos filmes onde o medo era traduzido em forma de monstros. Filmes da Universal e Hammer eram feitos aos montes, e nomes como Frankenstein, Drácula, O Fantasma da Ópera etc, eram os grandes chamariz.

É então na década de 60 que começamos a ter, efetivamente, diretores trabalhando o sobrenatural mas, claro, sem deixar nossos queridos monstros de lado. O sobrenatural atingia níveis que refletiam a própria situação da sociedade – leia-se espíritos, fantasmas, possessões, terror psicológico e os famosos filmes de exorcismos ou que envolviam, de modo mais literal e cotidiano, o demônio.

O grande clássico Psicose ( 1960 ) dirigido pelo mestre Alfred Hitchcock, trazia consigo uma série de inovações. Como a “introdução do terror psicológico”, inversão do papel da protagonista, tratamento interessante do vilão etc.

Não que anos antes não existisse filmes diferentes ou que os já citados filmes da Universal e Hammer fossem ruins e vazios, muito pelo contrário. Todos sabem – ou deveriam saber – que diversas criaturas partiram do medo real do homem com as bombas nucleares, por exemplo. O que quero dizer é que a sociedade precisava de uma abordagem diferente no gênero terror, esse que é o gênero que mais extrai características da realidade e, por consequência, atinge uma dificuldade inacreditável para se trabalhar, afinal, despertar o medo não é algo fácil de se fazer.

A produção cinematográfica no mundo inteiro estava em plena transformação, pessoalmente, acredito que os anos 60 e 70 foram os melhores para os filmes de terror por conta da diversidade de temas e relevância dos trabalhos para a arte do cinema. Inglaterra, Japão, México, Itália, enfim, todos esses países produziram obras na década de 60 que destacam muito bem toda essa reflexão como Onibaba ( 1964 ), Kwaidan ( 1964 ), Yabu no naka no kuroneko ( 1968 ) e Jigoku ( 1960 ) no Japão, Hasta el Viento Tiene Miedo ( 1968 ) no México etc.

Possessão demoníaca no cinema

Como um fragmento dos diversos temas que seriam trabalhados com maior propriedade nos anos 60, tem um em específico que perdura até a atualidade – de forma trágica na maioria das vezes, é verdade – que é os filmes de possessão demoníaca ou de exorcismos.

Exorcismo é uma prática feita para expulsar entidades malignas de alguém ou algo, na verdade esse ritual é muito antigo e quase todas religiões tem uma ligação com essa palavra, de formas diferentes e necessidades diferentes, o fato é que o exorcismo está muito presente, mesmo que oculto, nas mais diversas crenças.

O primeiro filme que aborda a questão, de forma literal, é um polonês chamado “Madre Joana dos Anjos” de 1961, inclusive tem uma crítica aqui no site sobre ele ( clique aqui ). Dirigido pelo Jerzy Kawalerowicz, esse filme tem uma atmosfera incrivelmente obscura, aborda a possessão de forma psicológica e muito, mas muito filosófica. Deixa qualquer fã de Begman maluco!

Outros filmes que posso citar aqui é “The Devils” ( 1971 ) dirigido pelo Ken Russell e que se baseia no mesmo fato real de “Madre Joana dos Anjos” – uma onda de possessões em diversas freiras em uma cidade pequena – porém é muito mais gráfico, transgressor, subversivo e, para alguns, doentio. Se trata de uma obra imprescindível para quem gosta de cinema.

E, claro, o maior e mais conhecido filme de exorcismos de todos os tempos: “O Exorcista” ( 1973 ). Apesar do clássico dirigido pelo William Friedkin ser extremamente poderoso visualmente, os artifícios mecânicos, bem como a atmosfera traz o cinema de terror à um patamar inédito. O incrível é constatar que mesmo se tratando de um filme que aborda o sobrenatural, ainda há lacunas para a dúvida. Seria esse mundo desconhecido realmente real ou tudo não é somente problemas psicológicos?

Se você, caro leitor, fica incomodado com os diversos filmes de exorcismos atuais e se incomoda com o fato de que muitos copiam descaradamente o clássico de 1973, saiba que o mesmo também copiou muito os já citados “The Devils”, “Madre Joana dos Anjos“, “Il Demonio” e, eu citaria também, um filme chamado “Incubus” 1966.

No caso do filme Italiano “Il Demonio” (1963 ), dirigido pelo Brunello Rondi, dizem que a Warner até chegou a vetar a exibição do filme em terras norte americanas por conta de temer a notícia de que o clássico se “inspirou” para realizar algumas cenas. Por exemplo, você sabia que aquela cena em que Regan desce as escadas invertida, parecendo uma aranha, foi retirada desse filme italiano? Não? Então compare:

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“Il Demonio”, mais do que um filme de exorcismo, é uma obra que analisa de forma minuciosa o papel feminino, envolta de muita opressão por parte da igreja, ignorância e o próprio homem. Recomendo a leitura da minha crítica ( clique aqui para ler )

Além da já citada cena que o clássico de 73 copiou, há ainda alguns pontos semelhantes como enquadramentos, um momento específico onde acontece a primeira “manifestação demoníaca”, algumas mensagens sexuais e a ousadia em trabalha-las direta ou indiretamente e, dentre outras coisas, a personagem feminina. Afinal, vocês já repararam que a grande maioria de filmes de possessão é uma mulher que recebe a entidade e não um homem?

Agora, voltando bem rápido ao “O Exorcista”, se você gosta de conferir coisas novas e interessantes, bem como engraçadas, sugiro duas versões que surgiram no ano seguinte que copiaram na cara dura o filme. Uma é italiana: “L’Anticristo” ( 1974 ) e o outro pertence ao movimento blaxploitation, norte americano mesmo, chamado “Abby” ( 1974 ). Claro, esse segundo é para amantes de filmes B e querem dar uma boa risada.

Bem, seguindo os anos, chegando aos atuais, poucos que trabalham o tema da possessão demoníaca me atraem. Muitos ignoram o fato de que é preciso trabalhar a dúvida, criar expectativa, ter respeito pelo tema e simplesmente utilizam os exorcismos como ferramentas para chamar a atenção e criar um medo embalado como “produto para reunião de amigos no cinema”.

Destaco obras como “O Exorcismo de Emily Rose” ( 2005 ) – que se desenvolve como um filme de tribunal, isso é muito interessante, assim como o caso real que foi inspirado. Eu já escrevi sobre ele ( clique aqui para ler ) – “Invocação do Mal” ( 2013 ) esse é um bom exemplo de filme que cria a expectativa e transforma a entidade maligna em uma força onipresente, antes mesmo do momento da possessão.

Enfim, poderia citar outros, mas minha proposta nesse artigo é apresentar os clássicos para quem não conhece. Espero que gostem e que procurem os citados, qualquer coisa é só me chamar. Aliás, deixem nos comentários outros bons filmes de exorcismo, recentes ou não. Abraço e tenham medo!

emersontlima

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Horror Hotel, 1960

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★★★★

Dirigido pelo argentino John Llewellyn Moxey, “The City of the Dead” é do mesmo ano de outro clássico do suspense: “Psicose“. Poderia ser loucura da minha parte comparar a qualidade dos dois, no entanto ouso afirmar que ambos mantém o mesmo nível – mesmo que isso possa causar confusão, pois os clássicos geralmente são intocáveis – mas tracei uma comparação óbvia entre a narrativa desses dois filmes.

“The City of the Dead” ou “Horror Hotel” traz a história de uma cidade chamada Whitewood que, em 1692, foi amaldiçoada por uma bruxa enquanto ela queimava em um fogueira. A bruxa e o seu amante serviam a lúcifer, a partir de então, conta a lenda, a cidade permaneceu aos cuidados de satanás.

Centenas de anos depois, acompanhamos um professor sinistro – interpretado pelo sempre magnífico Christopher Lee – de bruxaria. Ele recomenda a uma de suas alunas, aparentemente a mais exemplar e curiosa sobre o tema obscuro, que visite a cidade de Whitewood para fins de pesquisar e sentir o clima de um lugar que permanece até a atualidade amaldiçoada.

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Esse é um exemplo incrível de filme que sabe trabalhar de forma sublime o mistério e a construção da tensão. O professor, até por conta da excelente performance de Lee, parece um porteiro do inferno, mandando a sua alma inocente ao submundo e ela, por sua vez, deixa a curiosidade consumir a razão.

Desde o início o tema “bruxaria” é trabalhado com cautela, é evidente uma preocupação em questionar a veracidade dos fatos, inclusive, apresentando personagens ao longo da trama que desconhecem ou simplesmente não acreditam em nada do que está sendo dito. Esse é um dos pontos chaves para o começo de uma viagem através do medo, transformando esse filme em uma pequena obra-prima clássica do terror. Inclusive, a utilização da protagonista se aproxima muito do, já citado, “Psicose”; É muito curioso a decisão do diretor em utilizar apenas uma personagem para ir na cidade, uma jornada solitária, o que acaba resultando em uma ótima performance e eleva o clima de tensão.

Nesse ponto, a atuação da belíssima Venetia Stevenson é muito importante, construindo uma personagem ( Nan Barlow ) que está preparada para embarcar nas emoções que, até então, só havia tido contato através de aulas e livros. O destaque fica mesmo com Patricia Jessel, sua atuação é tão excelente que consome todos os demais – não classifico como algo ruim, apenas uma constatação – que, aliado com a fotografia em preto e branco, uso inteligente das sombras, névoa e hotel com aspecto assombrado, surge desde o início como uma personagem ameaçadora, misteriosa, quase a representação fiel das intenções do longa.

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Com direito a um cenário impecável, no que diz respeito a provocação do medo – como um cemitério que não é usado há 200 anos – e frases como “essa cidade é do diabo”, esse filme é um dos melhores da história sobre bruxaria. Tem uma estrutura interessante e sabe utilizar-se de pequenos elementos para compor o suspense, sem contar que o desenvolvimento dos personagens, mesmo que a duração seja bem curta, é muito eficiente.

Um verdadeiro clássico, deveria servir de inspiração para os novos filmes de terror que esquecem todo o processo e se utilizam de artifícios fáceis para provocar o susto. Aqui temos mais um belo exemplo de que, mais do que susto, o pavor é provocado, antes de mais nada, pelo clima e, para se alcançar isso, é preciso uma boa história, ambientação macabra e boas atuações.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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