Especial Halloween – Filmes de terror no ano de 2017

Leia também o “Especial Halloween” de 2016 (Clique aqui)

O ano de 2017 está sendo importante para o Cronologia do Acaso em relação aos filmes de terror, principalmente pelo fato de termos tido a estréia do “Frequência Fantasma“, um podcast comandado pelo Sergio Junior e equipe, apenas sobre o gênero.

Dada a recomendação, começo citando o filme russo “A Noiva” como um dos maiores potenciais desperdiçados do ano, isso porque trabalha a fotografia, com cadáveres e nem mesmo com todos esses elementos macabros consegue construir uma atmosfera densa e, pior, não encontra uma forma interessante de desenvolvimento, senão, através do caminho óbvio de sustos sem nenhum tipo de cuidado. Na mesma situação temos “Experimento Belko”, cuja premissa é bastante parecida com “Battle Royale” (2000), acompanhamos um grupo de pessoas no trabalho que são interrompidas por uma voz alertando-os que precisarão matar um ao outro afim de continuarem vivos. O começo mediano dá atenção demais à personagens pouco cativantes, enquanto outros são ignorados e profundidades dramáticas são jogadas fora.

“A Noiva” (Svyatoslav Podgayevskiy, 2017) e “Experimento Belko” (Greg McLean, 2017)

Saindo das boas ideias e execuções frágeis, destaco seis filmes de terror no ano, começando pelo A Ghost Story (David Lowery, 2017). Um filme pouco convencional, que retrocede o medo no seu estado mais puro, onde a consciência humana reflete sobre o vazio da sua existência, se apegando ao espaço e sendo por ele engolido. É um drama torturante sobre o sentimento de estar presente mas não poder tocar, bem como o ser no seu estágio de ciência da finitude e a dor que esse conhecimento traz. (Leia a crítica completa aqui).

“Mãe!(Darren Aronofsky, 2017) é outra obra complicada de ser enquadrada no gênero, pois é muito mais um drama do que qualquer outra coisa. Mas há muito terror no meio de infinitas camadas de metáforas, das quais diversas fazem alusão à ganância do homem em relação à natureza, mulher e ele mesmo enquanto inserido no processo de criação, seja ele qual for. Além do mais, a casa que tem vida, a situação extremamente claustrofóbica, o desespero da personagem principal, cenas pesadas e direção frenética fazem deste um grande representante da lista. (leia a crítica completa).

Ao Cair da Noite (Trey Edward Shults, 2017) apareceu como uma grande surpresa também ao se dedicar inteiramente à criação da atmosfera constantemente frágil e urgente, alcançando ainda mais densidade através da união familiar e possíveis ameaças de desestabilização. O amor do pai e da mãe, bem como a interação do filho, são tão bem desenvolvidas que o espectador confronta a ética em diversos momentos, o sentido filosófico da palavra “sobrevivência” é muito bem explorado aqui. (leia a crítica completa).

Annabelle: Creation (David F. Sandberg, 2017) é até então o grande filme de terror popular do ano. É a prova de que uma direção inteligente faz toda a diferença, principalmente com um formato que clama por inovações afim de alcançar a surpresa, David F. Sandberg entende isso e o faz de forma brilhante na maior parte do tempo, ainda que o terceiro ato destoe um pouco do que vinha sendo feito até então, principalmente no que diz respeito à intensidade e equilíbrio da exposição. (leia a crítica completa aqui).

Raw ( Julia Ducournau, 2017) passa longe de ter a qualidade que se comentava nas primeiras exibições, mas tirando a expectativa criada e as promessas de cenas extremas, o filme se destaca no estudo da personagem principal, criando elos visuais e significados brilhantes no que tange a alimentação com o momento vivido pela protagonista no auge da sua juventude. A intensidade da carne, do desejo, dilemas universais sendo transmitidos literalmente.

Os fãs de Álex de la Iglesia foram presenteados com o grande “O Bar” (2017), uma obra que acompanha um grupo de distintas pessoas que ficam presas em um bar e aos poucos vão confrontando uns aos outros, derrubando as máscaras por meio de uma situação que os reúnem e exploram o máximo da sua sanidade. O espaço reduzido e o tempo como agente de transformação é a chave para a revelação do caráter dos personagens; o desenvolvimento acontece, como é comum no trabalho do diretor, através do humor negro, de modo que o verniz social se dissolva aos poucos.

Frases como “o pobre que se dane, é sempre assim” traduzem perfeitamente a intenção por traz da linguagem dinâmica, há diversas críticas políticas e os bons costumes são ridicularizados, assim como diversas outras mentiras relacionadas aos relacionamentos humanos. Em “O Bar” pequenos objetos de cena ganham importância e o sistema camuflando a real situação por interesses é pouco se comparado aos homens devorando homens por puro egoísmo.

Pior filme de terror do ano:

A melhor coisa de “Devil in the Dark”(Tim Brown, 2017) é o seu pôster, altamente enganoso, diga-se de passagem. O filme acompanha dois irmãos tipicamente diferentes um do outro – um responsável, de família e o outro um jovem adulto irresponsável, mais estereotipado impossível – que planejam caçar na floresta para assim passarem um tempo juntos e resolverem os problemas entre eles. Oitenta minutos de duração, sendo que noventa por cento dele é um drama forçado entre os dois, com direito à flashbacks injustificáveis, mas que nos vinte minutos finais resolvem acrescentar um monstro nessa floresta, cuja presença nunca se justifica, muito menos amedronta. Um longa que não respeita o espectador, nem a sua própria história.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Annabelle: Creation (David F. Sandberg, 2017)

Annabelle 2: A Criação do Mal (Annabelle: Creation, EUA, 2017) Direção: David F. Sandberg

O cinema de terror atual se divide claramente em duas esferas completamente diferentes, contudo, as duas vertentes narrativas têm como prioridade a qualidade no que diz respeito à ambientação e o processo de sugestividade. Obras como “No Cair da Noite” (2017), A Bruxa (2016), Sob a Sombra (2016) utilizam a contemplação e os silêncios como forma de incentivar a atenção absoluta do espectador, de modo que o sentimento aja em virtude da curiosidade, reflexão, desconforto ou mesmo o medo; por outro lado, os mais populares, motivados pelo sucesso de novos inteligentes diretores como James Wan, Mike Flanagan, David F. Sandberg etc, compreenderam através da manifestação do público, que o gênero terror moderno precisa caminhar em outra direção afim de não se acomodar no óbvio. É possível perceber, portanto, uma evolução em filmes como “Invocação do Mal 2” (2016), “Quando as Luzes se Apagam” (2016) ou “Ouija 2” (2016), mesmo que alguns citados tenham qualidades finais duvidosas, há de se observar alguns detalhes oportunos em cada um deles, a direção de Wan e habilidade em referências dentro do gênero, a utilização da ausência de luz – medo primitivo – como forma de fragilização psicológica e a competência de Flanagan em trabalhar com o som em seus filmes.

Quando o primeiro “Annabelle” foi lançado, em 2014, a ideia era aproveitar o sucesso do “Invocação do Mal”. E o maior problema do filme é justamente nunca ser pensado por si, mas como extensão de algo maior. O desenvolvimento rápido tirava qualquer possibilidade de mergulho nas sombras que uma boneca amaldiçoada evoca, no fim, um grande potencial fora perdido em prol a um filme exibicionista. Mas na continuação eles acertam, a começar pela escolha de David F. Sandberg para dirigir, um artista que errou em seu primeiro longa-metragem mas que possui diversos curtas-metragens medonhos e, por incrível que pareça, nenhum passa de dois minutos – alás, dois deles são referenciados em momentos oportunos em “Annabelle: Creation”.

O filme começa da maneira mais comum possível, mostrando o passado de uma família onde um acidente fatal com uma menina desencadeia uma série de problemas paranormais em uma mansão de aspecto tenebroso. Fato que se agrava ainda mais a partir do momento onde cinco meninas de um orfanato são convidadas a se hospedarem no local. A apresentação da protagonista Janice (Talitha Bateman) acontece de forma oportuna, pois ao descer do ônibus a câmera se posiciona no degrau ao passo que mostra a dificuldade da menina em descer por conta da sua limitação física em uma das pernas, ponto importante não só pela questão psicológica, a menina se sente a mais fragilizada e vagarosamente vai perdendo as esperanças de ser adotada, como também no desespero causado em diversas cenas de eventos sobrenaturais, onde o fato de não poder correr obriga a personagem a enfrentar o medo ou mesmo fechar os olhos, se esconder, enquanto o espectador enxerga o que está acontecendo em volta, algo que potencia a experiência e exige um bom trabalho com os espaços e objetos da casa.

A maior força do primeiro ato é na exploração dos elementos que futuramente serão importantes para as cenas de sustos, a tetricidade dos objetos fazem desse filme impactante em diversos momentos, inclusive a quantidade de possibilidades que se formam em todos os cômodos da casa são incríveis, parece que cada boneco, sombra ou pano pode se tornar um acessório para provocar o medo. Quando o espectador assimila o espaço, fica constantemente em alerta com o que acontece no segundo plano, e isso é muito oportuno no gênero, mas dificilmente é bem feito.

As atrizes mirins têm ótimas performances, mesmo que o longa dependa da extrema coragem de duas personagens para dar sequência ao roteiro. O diretor David F. Sandberg resgata sua melhor competência – demonstrada nos curtas-metragens sem diálogos, caseiros e com somente uma personagem – em criar cenas assustadoras sem recorrer aos artifícios mais comuns, apesar de tê-los como obrigação, nunca mostra aquilo que esperamos no mesmo tempo ou maneira, sempre tem algum detalhe que nos tira a atenção e surpreende.

O terceiro ato destoa do desenvolvimento mostrado até então, o equilíbrio da exposição e sugestão dá lugar as soluções apressadas e decisões que se retardaram afim de se encaixarem no roteiro. Mas ainda assim, “Annabelle: Creation” segue sendo um ótimo filme desse universo criado pelo “Invocação do Mal” e que continuará nos próximos anos apresentando as mais diversas figuras demoníacas perseguindo as mais inocentes almas.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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