Discurso de um Proprietário, 1947

Discurso de um Proprietário ( Nagaya shinshiroku, Japão, 1947 ) Direção: Yasujiro Ozu

Yasujiro Ozu é um dos maiores nomes do cinema japonês. Sua influência é imensa até hoje e tem como maior mérito a sensibilidade. Os temas dos seus longas geralmente incluíam a família, principalmente a figura materna, mas sempre conseguia explorar mensagens novas e igualmente fortes, principalmente dado o contexto histórico durante as realizações das suas obras. Um Japão doente, quebrado, com medo e sofrendo as consequências de uma guerra e infinitas limitações.

Nesse contexto, certamente falar sobre a guerra era algo movido por uma coragem e segurança inabalável, um dos maiores exemplos é “Discurso de um Proprietário”, onde os impactos sociais e, principalmente, emocionais, são observados a partir de um elemento estranho sendo obrigado a adentrar em um núcleo familiar e como todos reagirão a essa nova presença.

Na história Tashiro (Chishû Ryû) encontra um garoto perdido e leva para sua casa, na intenção de que algum dos seus vizinhos o adote. Com muita relutância a senhora Otane (Chôko Iida) fica com o garoto e, no começo, a relação é pouco saudável e muito arrogante. Ela lida com o garoto como se fosse um bicho, “um perdido” como é citado ao longo. Mas aos poucos a convivência vai se tornando agradável até alcançar a função de um portal de segurança e afeto ao garoto e amor incondicional por parte da Otane.

O diretor é conhecido como “o mais japonês dentre os cineastas japoneses”. O seu trabalho é permeado pela ambição de transformar quem assiste em japonês, inserindo-o na cultura de forma visceral, a execução é inteligentíssima para isso, a começar pelas histórias simples e personagens comuns, sua narrativa é tão natural que dialoga muito com os documentários.

Em “Discurso de um Proprietário”  a famosa câmera baixa do diretor, contextualizando o olhar assim como os japoneses ao fazer as refeições, também está presente desde a primeira cena. É delicado como o espectador conhece a família principal através de diálogos diretos, íntimos, como se fossemos um outro integrante da família. Não existe rodeios para a contextualização dos eventos, no primeiro minuto o garoto chega na casa, sua postura – geralmente com as mãos nos bolsos, já são assimiladas e, a partir de então, só temos tempo para apreciar o simples em forma de obra-prima.

A pobreza e a situação catastrófica social é nebulosa, sendo mantida como pano de fundo de uma família em sintonia. Uma cena onde diversos amigos cantam na mesa de refeição é a prova disso, inclusive a canção é sobre um amor em plena guerra, algo que simboliza justamente o quanto, no íntimo, pode existir esperança nas coisas mais terríveis.

Há ainda espaço para filmagens externas belíssimas, todas com a intenção de engrandece o local e aproximar a senhora Otome do garoto. A jornada de conhecimento, principalmente de assimilação das emoções e afeto entre os dois, é poderosa. O caminho até surgir a frase “pode chamar isso de amor materno” é dura e, por vezes, fria, mas a conclusão é de uma poesia encantadora.

É de se notar que o choro, no final, é pelas coisas terem dado certo. É extremamente difícil, no cinema, encontrarmos um personagem que se emociona e chora por algo que não é movido ao individualismo e interesses próprios. A senhora Otome, mesmo sendo obrigada a se distanciar, ignora a sua dor e fica feliz pelas coisas terminarem bem. Essa sensibilidade é consequência de uma dor coletiva, ausência total de esperança por dias melhores e amor incondicional que só uma mãe poderia ter. Uma verdadeira obra-prima do cinema japonês e mundial.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Os Brutos Também Amam, 1953

Os Brutos Também Amam (Shane, EUA, 1953) Direção: George Stevens

O faroeste, no auge da sua produção, exerceu grande influência na sociedade americana, principalmente pelo fato de resgatar a imagem heroica e destemida de um homem adulto que, vivendo em meio a um ambiente inóspito, – principalmente pelos perigos iminentes de uma cidade sem lei, tendo como boa parte dos habitantes homens rudes, que provam os seus valores através da força bruta – ainda conseguia sobreviver e ultrapassava as injustiça através de uma boa pontaria.

Crianças que cresceram assistindo aos mais diversos faroestes, se familiarizaram desde cedo com os conflitos básicos que permeavam os famosos bang bang. As donas de casa em perigo; prostitutas; conflitos com os índios; xerifes; bares como lugares perfeitos para fazer amizades ou lutar até morrer etc. Esses elementos caracterizaram o sub-gênero, mas enfatizam, primordialmente, que todo faroeste é, de fato, um drama. A partir da essência do desprendimento, coragem, força, batalha, entre outros, são desenvolvidos diversos temas que, por consequência, dialogam com os gêneros ação e romance. A palavra “faroeste”, enquanto pensado cinematograficamente, funciona mais como uma representação do contexto, estimulando a expectativa e nos remetendo diretamente a esses signos comuns.

É válido ressaltar essa reflexão, pois o filme em questão quebra a figura filosófica do herói dos faroestes. “Os Brutos Também Amam” (1953) trabalha um protagonista que foge do seu passado, não há nenhuma necessidade em explorar as situações que o levaram até tal ponto. O filme dá pequenos indícios do seu talento com a pistola, das suas habilidades em lutas, mas o retorno nunca acontece em sua totalidade. A angústia espiritual de uma trajetória repleta de mortes é uma maldição solitária do protagonista. Portanto, sobra espaços para o espectador preencher com os seus próprios conhecimentos, olhando o forasteiro da mesma forma que o garotinho Joey Starrett (Brandon De Wilde).

Shane surge cavalgando em um ambiente vazio – como era de se esperar – e o primeiro que o avista é o pequeno Joey. Algo que refletira no final do filme, onde o menino é o único que olha os feitos do herói perdido e, em seguida, é obrigado a vê-lo partir rumo ao Norte.

Humildes rancheiros passam a abrigar esse homem sem lar. Confiando unicamente na sua verdade. Há indícios de que o herói não se encaixa na família, apesar de ser bem aceito por eles. Em algumas cenas a fotografia nos mostra o protagonista em cômodos diferentes ou na parte externa da casa, olhando os movimentos rotineiros da família. Algo está dessincronizado, um ser humano vagueia pelo deserto, depositando toda a sua esperança em um esquecimento do seu registro.  Esse homem se transforma quando passa a enxergar na família uma oportunidade perdida e é, pelo amor, forçado a enfrentar a dura realidade: não há maneiras de lutar contra o seu próprio instinto.

A origem do herói é o verdadeiro vilão da história. A possibilidade de criar raízes é jogado fora com o passar dos minutos e o espectador percebe isso. É o drama psicológico de alguém que, apesar de ser querido, sabe que sua presença causará danos e afetará diretamente a doce realidade daqueles que se privam da luta para proteger seus filhos.

“Todos estaríamos em melhor condição se não houvesse arma alguma nesse vale, inclusive a sua”

Diversas camadas compõe esse universo que transborda realidade e sensibilidade. O foco não está nos feitos, muito menos na figura heroica que Shane representa para o menino Joey. A real preocupação se encontra em transmitir o sofrimento de um homem que vive as custas de transparecer força. O cinema mundial, principalmente americano, vive as custas da exposição do inquebrável, aqui nós temos a pureza, um alerta de que não existe perfeição sem dúvidas; não existe coragem sem medo; não existe robustez sem lágrimas.

Como último aviso, Shane pede para Joey avisar a sua mãe de que “não há mais armas no vale”. E com o protagonista se recusando a olhar para traz, somos obrigados a aplaudir um faroeste que critica subliminarmente os signos comuns que geralmente são associados ao sub-gênero. Nessa obra-prima, nunca existirá pacificidade enquanto o homem portar uma arma de fogo.

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Do Amor e Outros Demônios, 2009

Do Amor e Outros Demônios ( Del Amor y Otros Demonios, Colômbia, 2009 ) Direção: Hilda Hidalgo

O longa é baseado em um famoso livro do escritor colombiano Gabriel García Márquez, ganhador do prêmio Nobel da literatura – o qual comprei imediatamente após assistir ao filme. Aborda a história de Sierva María, uma jovem de cabelos ruivos e longos, que é filha de aristocratas e, após ser mordida por um cachorro com raiva, é acusada pela igreja de estar possuída por um demônio. Caetano, um jovem padre, é encarregado de exorcizá-la, no mesmo tempo que se vê encantado pela beleza de María e se torna um prisioneiro do desejo.

A primeira cena deixa claro a relação íntima que María possui com a morte o que, na juventude, voltará a rondar sua vida por conta dos julgamentos e interesses da igreja. Sua pessoa é desconstruída de modo que se relacione com as agonias do clero em relação à liberdade: a personagem, mesmo doente, aos poucos vai se relevando mais interessada na provocação, começa como uma criança inocente e, aos poucos, vai se transformando em uma jovem que usa a a sua delicadeza e inocência a favor da conquista – ou seria esse unicamente o ponto de vista do padre?

O caminho até atingir essa transformação é chamativo, porém, o desenvolvimento deixa a desejar em relação à grandiosidade da sua história, a sensação que fica – reitero que ainda não tive a oportunidade de ler o livro – é que a obra literária seria o melhor caminho para entrar no universo e compreender melhor as angústias e sentimentos dos personagens.

Contudo, é de se notar a capacidade da diretora em registrar a melancolia de modo sedutor, principalmente em base a sua personagem de longos cabelos ruivos que, vivida pela Eliza Triana, é de uma beleza singular.

Há diversos trabalhos com as sombras e, logo no começo, fica evidente a intenção de aprisionar os personagens, por isso a utilização das grades é de suma importância em cenas cruciais – principalmente aquela que antecede o acidente com o cachorro, a janela da prisão que María é obrigada a ficar enquanto se “cura”, o chão quadriculado que ela se deita e outros espaços curtos que lhe tiram os seus direitos.

A recriação de época é excelente e a inquisição é trabalhada de modo inteligente, pois é utilizado uma história de amor como essência para o desenvolvimento indireto do tema. Apesar do longa soar clichê em diversos momentos, a narrativa chama a atenção e as interpretações convencem. No entanto, é imediato a vontade de ler o livro pois é evidente as fragilidades do roteiro, e essa afirmação definitivamente não é boa quando falamos de cinema, visto que uma obra audiovisual deveria se sustentar por si só e não provocar unicamente a curiosidade de ir além – ao menos em algumas ocasiões, como os comerciais, por exemplo.

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Djamilia – A força feminina como portal para o amadurecimento

Djamilia ( Dzhamilya, União Soviética, 1969 ) Direção: Irina Poplavskaya e Sergei Yutkevich

Quem é Dzhamilya? 

Quem é Dzhamilya? onde se encontra a distinção entre mulher e homem, senão, pela separação e dores da guerra? um lado existe a saudade e preocupação; do outro a saudade e o medo de não voltar. O trabalho no campo demonstra uma característica fundamental que isenta às mulher de pensar em seus maridos mergulhados na guerra: preencher suas mentes e esgotar o físico com o trabalho desenfreado. Nesse intervalo, uma doce camponesa consegue sorrir, despertando inveja e curiosidade nos demais por ser, bem, como dizem, livre.

Quem é Dzhamilya? metaforicamente, Dzhamilya é o espírito liberto e entregue à vida como se as horas fossem segundos; é a entidade que mora em cada mulher que se desprende e se rebela contra a sociedade que teima em traçar uma infeliz diferença entre o masculino e feminino, atribuindo ao primeiro a força absoluta no que diz respeito à estrutura de uma relação. Aqui, de forma poética, Dzhamilya e sua força são os perfeitos veículos para uma provocação generalizada, partindo da estranheza das demais mulheres, passando por uma ajuda inconsciente à uma criança a se entender como jovem e finalizando na paixão.

Um processo cru, visceral, poético e agridoce de uma jovem diante de si mesma e a possibilidade de desprendimento.

Essa é Dzhamilya, uma camponesa de cabelos compridos. Trabalha em meio à natureza, caminhando entre as suas irmãs, as flores. O seu marido está na guerra e o único laço afetivo da menina é o seu cunhado, um pequeno menino. Os dois se divertem em um mundo que estranha o sorriso; eles zombam do sacrifício; eles são o que são, compõe rimas com suas verdades e isso basta.

Dzhamilya sente falta do seu marido constantemente…

[…] mas sua força é extrema e o seu coração gigante ao ponto de lidar com todos os problemas de modo surpreendente: amando, compartilhando, brincando, o que a transforma em uma eterna criança sem, com isso, perder a identidade dominadora e inteligente de uma mulher.

Uma obra da União Soviética, baseado em uma novela homônima de Chingiz Aitmatov, a qual o grande escritor Louis Aragon creditou como sendo “a mais bela história de amor de todos os tempos”. E é assim, em uma primeira camada há somente o romance, mas trabalhado com lirismo. O campo, tomado por plantações de trigo, é a perfeita composição do quadro, que possui Dzhamilya como sua protagonista, aquela que traz cor ao preto e branco brilhantemente trabalhado de forma a representar as emoções tristes escondidas em todos na vila.

É irônico o longa começar com uma discussão entre dois adultos – pai e mãe – onde ele obriga Dzhamilya trabalhar e ela se mostra mais flexível. Duas mentalidades opostas, incentivando um artifício que será muito utilizado ao longo de todos os minutos. Diversos caminhos vão surgindo, restando aos personagens fazerem as escolhas dos seus destinos, bem como usar as experiências do passado. Não à toa a história é contada por meio de uma narração – do próprio escritor Chingiz Aitmatov – e simula o garoto no futuro onde, morando em uma cidade populosa, se tornou artista, inclusive todas as suas pinturas remetem as suas inesquecíveis experiências com Dzhamilya, como se ela realmente fosse a musa inspiradora tanto de liberdade quanto de inocência, despertando paixão naqueles que acreditam em suas atitudes.

A fotografia colorida e comum do presente, na cidade, dá lugar ao preto e branco do passado, no campo. Penetrante, assim como as inserções das pinturas do narrador durante os 83 minutos, de forma a contextualizar-nos no olhar do menino e como os eventos impactaram e serviram como uma ponte entre ele e o seu amadurecimento.

Desde os primeiros momentos que a protagonista é apresentada, as suas atitudes, todas vinculadas ao desprendimento, ficam claras: um homem a agarra dizendo “onde eu coloco os meus pés é o meu caminho; e a mulher que eu agarro é minha” e ela prontamente o empurra, afastando qualquer opressão e estilo de vida conservador, ela fora criada para aceitar mas se transformou em uma inconformada, rebelde e indomável.

“É difícil explicar o que houve com Dzhamilya. E como ela desejava sua alma. Eu corria atrás dela, a olhava. E assim, eu também me livrava da tristeza. Então eu não sabia que, na minha mente surgia o quadro, que depois eu chamaria de “a mulher que corre pela campina”

A trilha sonora pauta bem o clima convidativo. A sensação é de empatia imediata pela certeza da protagonista, sua maneira espontânea de enfrentar uma situação caótica. É de uma esperança e choque, ao mesmo tempo, como se alguém nos desse um soco no estômago de modo a reconhecermos que, no pior momento das nossas vidas, sempre haverá a possibilidade de dar pulinhos sobre os problemas e rir, se encantar, apaixonar-se e fugir… para depois começar tudo de novo.

Quando Dzhamilya ri, obtém como retorno uma indagação: “por que você ri? traz boas notícias?”, a heroína sabiamente responde: “simplesmente sou feliz”.

Quando um outro personagem aparece, Daniar, um amor surge. Ele, tímido, a observa e absorve mesmo que distante a sua energia, enquanto a menina/mulher o irrita de diversos modos, culminando em uma cena em que troca o saco de cereais por um mais pesado, obrigando Daniar a carregar cem quilos nas costas enquanto sobe uma escada. A brincadeira passa dos limites e a culpa se faz presente, principalmente pelo fato de Dzhamilya saber que o Daniar ficou com problemas nas pernas após retornar da guerra. O sofrimento do homem calado, carregando a sua maldição, é demonstrado como um sinônimo visual da coragem: a filmagem chega a inverter, de modo que toda a normalidade se perca.

Brilhantemente dirigido – a força extraída de todos personagens e figurantes é sublime, além da composição das cenas externas – e atuado por Natalya Arinbasarova que, com toda a sua beleza, dá a sua personagem uma doçura enorme, que certamente funciona muito bem para o rápido encanto de quem assiste.
A cena final apresenta um cavalheiro, cavalgando sobre um cavalo branco, como um príncipe. Ele persegue um cavalo negro, indomável, assim como Dzhamilya. A mensagem é pura, ousada e atemporal, uma vida sem medos, incertezas e arrependimentos, sendo transmitida da forma mais inteligente possível. Como conclusão, é um dos “maiores filmes de amor de todos os tempos”.

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Mais Fortes que Bombas, 2015

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Joachim Trier têm três filmes no currículo, até então, todos maravilhosos. Certamente em “Mais Forte Que Bombas” é possível observar um amadurecimento importante, principalmente para a reflexão do processo de luto, que o diretor se propõe em seu mais novo trabalho.

O filme acompanha a história de uma família, pai e dois filhos, lidando com o luto da sua mulher/mãe Isabelle Reed ( Isabelle Huppert ), que fora uma importante fotógrafa e faleceu precocemente. Ela ganha, três anos depois, uma exposição, que unirá o pai, Gene Reed ( Gabriel Byrne ), o filho mais novo Conrad Reed ( Devin Druid ) e o mais velho Jonah Reed ( Jesse Eisenberg ), juntos eles passarão pelo processo, simples e importante, de se enxergarem, para compreenderem como cada um lida com a perda em suas respectivas vidas.

A cena inicial mostra Jonah Reed segurando as mãos de seu filho recém-nascido. Como se, imediato, o diretor nos guiasse para o entendimento de que a vida é um ciclo, de novas infinitas oportunidades de reinvenção. Isabelle foi/é uma importante fotógrafa, registra a verdade e a imortaliza, no entanto com a sua morte, tudo se foi, quase tudo se esquece, senão, os seus feitos. Mesmo que a sensação seja de apagar a imagem, a lembrança resgata o mais importante de cada indivíduo; o mais curioso é que a lembrança varia de pessoa para pessoa e, nesse ponto, o filme é poderoso em acompanhar diversas perspectivas sobre uma mesma mulher, ora heroína, para os filhos, ora uma pessoa que trai, para o marido, e uma artista imortal para o restante do mundo.

É impressionante como as pessoas atingem várias facetas e são moldadas, ao longo da vida, por diversas pessoas. Criamos e somos criados diariamente, como um verdadeiro, bonito e traiçoeiro conto de fadas.

Toda a carga emocional cai em cima do Conrad Reed, o filho mais jovem, que não aceita a morte como algo natural, leva a vida com uma vontade exagerada de rejeitar a realidade. Ele dedica-se aos games, obrigando o seu pai, em dado momento, a criar uma conta em um jogo online para tentar estabelecer uma conexão com o filho, nem que a ultima opção seja o fazer online. É uma crítica grandiosa e oportuna para essa nova geração que prefere ocultar os seus sentimentos ou descarregar em uma realidade virtual, onde criam avatares que representam as suas angústias mais ocultas.

Por esse motivo, o ator Devin Druid é o que mais se destaca. Inclusive é curioso como o seu comportamento físico está parecido com outros trabalhos do Jesse Eisenberg que, por sua vez, desenvolve um personagem bem diferente do que estamos acostumados. Aqui ele é o nerd depois do ensino médio, cheio de experiências e maturidade que o impedem de ser alienado.

Ainda no elenco destaco também a presença poderosa da sempre maravilhosa Isabelle Huppert. Mesmo que sua personagem não tenha tanto tempo para brilhar, ela demonstra um cansaço, chegando até mesmo a dialogar com o desespero, típico de alguém extremamente vivido que, por motivos óbvios, se vê preso quando tem que voltar para a casa e enfrentar a rotina.

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Isabelle Reed é uma entidade, uma sombra e, finalmente, uma lembrança que transita durante o longa e se revela para os três personagens principais. Como se eles enxergassem ela e nós, espectadores, não. Por isso os momentos de silêncio funcionam, pois sabemos que existe algo mais naquele cômodo ou rua, algo que permanece intacto na cabeça de todos, a lembrança é o maior milagre da vida e, consecutivamente, se transforma em maldição.

“Mas agora, enquanto ela afundava, cada vez mais distante das ondas da superfície, não havia os momentos cruciais que ele tinha previsto. Ao contrário, os seus pensamentos buscaram no fundo da memória pequenos eventos esquecidos há tempos. Lembrou de uma frase que havia lido em um jornal há poucos dias e que não entendeu[…] Insignificantes fragmentos apareceram, todos juntos nos segundos finais.”

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Mais Sombrio Que a Meia-Noite, 2014

Mais Sombrio Que a Meia-Noite ( Più buio di mezzanotte, Itália, 2014 ) Direção: Sebastiano Riso

★★★

Davide é um personagem complexo, solitário ao extremo e, por consequência, observador. Ele não se sente homem e em meio a esse sentimento de confusão se vê protegido pela mãe e maltratado pelo pai. O garoto, em um protesto imediato pela sua condição oprimida e cercada de julgamentos, foge de casa e vai pedir ajuda para a rua, abrigando-se na Villa Bellini, um parque na Catânia, que está repleta de homossexuais e transexuais, funcionando como uma nova chance para o protagonista, bem como um caminho para a compreensão do seu próprio gênero e opção sexual.

O tema certamente é comum no cinema, mas poucas vezes podemos seguir um personagem que não fora construído para servir como bandeira de algum lado. Em Mais Sombrio Que a Meia-Noite a jornada é silenciosa, muito física e cada segundo de Davide nas ruas transmite, ao mesmo tempo, as sensações de liberdade e dor. O desprendimento não é, de nenhuma forma, exaltado como a única esperança, a própria obra é inteligente em estabelecer, como regra principal do roteiro, a imparcialidade.

Com um roteiro que flui tanto quanto o seu protagonista, percorrendo o subúrbio e sendo por ele possuído, é fácil a assimilação dos locais e personagens, no entanto a direção se perde na tentativa de criar relações fortes e passamos a assistir uma série de personagens com possibilidades reais de serem trabalhadas com mais cuidado mas que, por ingenuidade, são ignoradas. O filme dá indícios que trabalhará a pluralidade mas, em resumo, se atém apenas ao simples, como se o silêncio fosse suficiente e, nesse caso, não é.

Há aspectos positivos dessa jornada de autoavaliação, principalmente por causa da excelente atuação de Davide Capone – o nome do personagem e ator são irmãos, uma decisão que provoca uma ideia pertinente, assim como a possibilidade dos jovens se rebelarem com a vida padronizada e conservadora – que interage com um mundo libertário, mas se vê igualmente preso diante a tentativa de sobrevivência, por esse fato Davide se prostitui e caça alimentos no lixo. Há ainda intercessões de flashbacks, mostrando a vida do protagonista na sua casa, no conforto e na condição que aprendera a odiar – cabe ressaltar que nos momentos onde vemos as lembranças, o som é definitivamente mais baixo, os personagens quase sussurram, demonstrando assim o medo por parte dos controlados e manipulação por parte do agressor ( pai ).

Mesmo que a direção de Sebastiano Riso soe infantil por diversos momentos e ofusque o preenchimento da trajetória principal, a história de Davide Capone chama a atenção e consegue imprimir bons momentos, principalmente pela importância do tema a ser tratado: o jovem desesperado em meio ao suposto conforto, é direcionado à repreensão e julgamento; a partir do momento que liberta-se, torna-se fugitivo do passado e preso à experiência, com todas as suas consequências. O grito em frente ao espelho, no final do longa, projeta a ideia de que o passado sempre encontrará o protagonista, mas não se trata de perder-se e, sim, de enfrentar… mesmo que seja para fugir.

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O homem e a busca por aceitação do seu presente

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A Tartaruga VermelhaThe Red Turtle, Holanda/Japão, 2016 ) Direção: Michael Dudok de Wit

★★★★★

A tartaruga é um animal muito complexo, exala sabedoria e conecta todos os outros seres, de uma forma ou de outra. Se pensarmos, sua carapaça traz a ideia de abrigo ou lar, suas patas sustentam esse universo, demonstrando força e segurança. Portanto, a tartaruga representa o conforto pois, simbolicamente, se trata próprio mundo. É como se fosse a representação do titã Atlas na terra, amaldiçoado/abençoado por Zeus a carregar o mundo nas costas.

Partindo desse pressuposto, é válido mencionar o poder da animação A Tartaruga Vermelha em estabelecer pontes entre o espectador e sentimentos extremamente profundos através de um visual estarrecedor e trilha sonora encantadora. Inclusive a ponte mencionada é exibida em dado momento no filme, em um sonho, onde o personagem principal – nunca é mencionado o seu nome, afinal, o longa não têm diálogos – imagina uma ponte suspensa em cima do mar que conecta a ilha que ele está enclausurado com o horizonte.

A história é básica, porém os seus desdobramentos não são nada comuns: um homem perdido em uma ilha luta para conseguir escapar, criando uma balsa. No entanto, sempre que a coloca no mar e tenta fugir – se enche de esperanças – uma tartaruga vermelha impede a sua partida, destruindo a sua balsa.

A experiência de oitenta minutos possibilita algumas reflexões impactantes no que diz respeito ao homem moderno. Percebendo as nuances do personagem principal, o Homem, cabe ressaltar os seus movimentos cautelosos afim de conhecer a ilha, o pequeno carinho com os caranguejos que o cercavam constantemente e a sua indiferença para com a natureza. Enquanto conhece a ilha, o espectador sente, através do visual espetacularmente poético, que o lugar é um paraíso natural, mas esse entendimento se esvai com o desespero do protagonista.

A fuga é sempre o motivo da existência. O homem moderno vive o hoje pensando em como suas atitudes afetarão o amanhã. Existe um desdém em relação ao que se faz, conhece e sente no presente. O trabalho e estudo são provas disso: trabalha-se para ter dinheiro no final do mês e faz o melhor para ser promovido quando só alguém, que não você, sabe; estuda para ser alguém na vida – não necessariamente alguém que você gostaria – e aprende para tirar notas; mas, afinal, e o hoje? quem somos durante esse processo de pensar o amanhã?

O Homem da animação se perde e a fuga é uma necessidade óbvia, mas a velocidade dos seus movimentos impedem o equilíbrio, a sustentação do seu universo. A pergunta deveria ser, na sua essência, voltar para onde?

A tartaruga, como explicado acima, representa a sabedoria e a natureza, trava as ambições do Homem e o acompanha em direção à catarse emocional e desprendimento, principalmente através da aceitação. Há ainda, no filme, um excelente alerta sobre a péssima postura do homem frente aos animais.

Quando o Homem mata a tartaruga – curiosamente o faz virando-a de cabeça para baixo, ou seja, invertendo o seu mundo – pula em cima dela como um sinal de superioridade, pobre rapaz, subjugando a natureza. O animal se transforma em uma mulher que, evidentemente, remete a cor vermelha e resume-se como o próprio sentimento de amor. Mas há uma segunda mensagem que está extremamente relacionada com a arrogância do homem em maltratar os animais, privando-os de sentimentos, classificando-os como acessórios.

A Tartaruga Vermelha possui uma ousadia estética e direção maravilhosa do Michael Dudok de Wit. A produção, que é feita em parceria com o Studio Ghibli, ganha bastante qualidade com esse intercâmbio, visto que o nome Ghibli está vinculado eternamente com a sensibilidade. A animação referencia as transformações do homem em direção a aceitação do seu presente, mesmo que a força para enfrentar o dia seguinte seja construída através da ilusão, existe um milagre em estar vivo e, principalmente, em sincronia com o meio.

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Deep Water, 2016

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Um jovem corre por uma rua, encontra um grupo de jovens e, em seguida, é espancado por eles. Inesperadamente eles descobriram que ele era gay, então ouve-se piadas, principalmente uma mulher pedindo para enfiar um pau no seu ânus pois “ele iria gostar”.

“Bicha!” – diziam, enquanto o espancavam.

O jovem consegue fugir e pede ajuda para um homem que caminhava em um parque. Então ouve como resposta:

– Eu não ajudo viados.

E com esse depoimento devastador, começamos o documentário triste “Deep Water” que aborda a violência contra os homossexuais. Essa sequência inicial, narrada pelo jovem citado acima, nos dá a possibilidade de sentir repulsa da sociedade. Parece não haver escapatória, em cada canto existe o preconceito, como se estivéssemos afundando em um mar de merda.

Dirigido pela Amanda Blue, esse documentário foi lançado com uma série do mesmo nome e tem como maior mérito a seriedade que o assunto é abordado, sem nunca cair nos fáceis julgamentos, muito pelo contrário, os relatos, as situações e informações são passadas de forma bem verdadeira, chocando o espectador com tamanha crueldade.

Existe a intenção de desvendar um caso, criticar o sistema e desmistificar o descaso da lei na década de 80 – inclusive fica claro que a indiferença parte da despreocupação da sociedade para com os próprios homossexuais -, porém, o mais impactante é acompanhar o desespero da família e amigos.

Que mundo é esse em que existem pessoas que tentam desesperadamente decifrar o que é normal e o que não é?

É repulsivo imaginar que alguém assassina o outro por ser gay, qual o limite para tal atitude impensável? Qual foi o momento em que nos imaginamos como reis da existência e protetores do “correto”? aliás, o que é correto nesse mundo devastado pelo ódio e egoísmo?

A comunidade LGBT fez mais pela sociedade do que muitos de nós, brigando pelo direito de serem ouvidos, gritando a diferença e alertando o mundo que ela existe. Esse movimento salva vidas, protege os jovens que temem se assumir e esbanja coragem. Após assistir o documentário, me sinto feliz que tivemos algum progresso e triste, ao mesmo tempo, por ainda vivermos em um mundo tomado por imbecis.

Seria tão simples se todos respeitássemos o amor, independente do caminho que ele se aplica. Seria tão maravilhoso poder sentir as coisas no seu limite, respeitar e ser respeitado na mesma proporção.

A homossexualidade é tratada como tabu, diversos políticos e pastores opinam sobre e, por incrível que pareça, o jovem que teme fica calado. O homem e mulher que ama, sofre sozinho e ninguém pergunta a sua opinião. Mas o que se esconde atrás da sua máscara… esse tem a oportunidade, esse contribui com a sua parcela inútil de julgamento, esse ajuda na propagação do ódio.

Os homossexuais não são ouvidos pelo poder, porque o próprio povo ignora as suas angústias. Os conservadores observam com atenção, apontam o dedo e deduzem que tudo é “baixaria”. Baixaria é não rever conceitos, não aplicar a empatia todas as manhãs quando acorda e não aceitar que escolha é a coisa mais sagrada que existe nessa vida.

Os jovens assassinaram um jovem, jogando-o em um penhasco. Fizeram sem pensar que mudariam o rumo de uma história, sem imaginar o impacto na vida de uma família, sem acreditar no sofrimento que aquilo provocaria. Fizeram, sem perceber que estamos todos de passagem e que a nossa única obrigação é entender a nossa própria jornada. O homem não consegue viver junto, sem se entender só; não consegue amar, sem compreender as diversas formas de carinho; não consegue acordar, sem compartilhar o espaço; não consegue respirar, sem ter empatia.

Eu precisei me despir de uma série de preconceitos ao longo da minha breve caminhada, mas nunca precisei superar o ódio. Quem acompanha o Cronologia do Acaso, vez ou outra, se depara com ideias e palavras repetidas, mas nenhuma é tão forte e presente quanto “empatia”, “amor” e “respeito”. São três palavras que podem mudar o mundo; três personagens de qualquer história; três vidas.

Como um menino pobre que sou, tento ajudar dentro do meu limite e humildemente escrevo para divulgar essas três palavras através da arte. “Deep Water” nos mostra uma triste história e comove pela sua visceralidade, basta usarmos o seu conteúdo de forma inteligente nas nossas vidas, traduzindo a maldade em esperança.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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A poesia de ser mulher

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Antes de mais nada, quero compartilhar algo muito emocionante para mim: após mandar duas críticas/textos/desabafos para a página oficial da Petra Costa no Facebook, minhas duas análises sobre os seus filmes anteriores foram publicados no site oficial do filme Elena

elena-oficial

Você pode ler minhas críticas sobre os filmes anteriores da diretora: “Olhos de Ressaca” e “Elena“.

Olmo e a Gaivota, 2015

Quantas histórias esse mundo já contou? quantas possibilidades de identificação e quantas frases bem elaboradas. A palavra e a escrita é uma forma real que o homem encontrou, desde o princípio, para enfrentar a sua própria pequenice. Mas, faça esse exercício, quantas dessas milhares de obras exploram a mulher? quais grandes obras falam sobre a gravidez?

Quantas mulheres escreveram e, em algum momento da vida, enfrentaram diversos problemas por serem, como diz mesmo, “mulher”?

“Mulher”. Essa palavra é tão forte, esteve tão presente e, ao mesmo tempo, tão distante que me sinto um monstro, me sinto sujo e incoerente. Na palavra “mulher” não existe plural, pelo menos não nessa análise, pois todas brigam, mesmo que indiretamente, pela mesma causa. Somos “um” na teoria, mas, em sociedade, em conjunto, somos divididos: homens e mulheres; poder e submissão; subversão e regra; pênis e vagina; mundo e casa; desespero e mãe.

Esse devaneio é resultado do trabalho minucioso de uma diretora – aqui, duas, visto que Petra Costa co-dirige “Olmo e a Gaivota” com a dinamarquesa  Lea Glob – que dialoga, com extrema totalidade, com o universo feminino. Esse universo não precisa ser engrandecido, muito menos colocado acima dos outros infinitos, porém, é preciso, somente, falar sobre, tentar entender suas nuances e os seus intervalos.

“Olmo e a Gaivota” percorre a história de dois atores, unidos pelo amor e pela arte, transitando por entre o documentário e a ficção – existe separação entre eles? – que, de repente, descobrem a gravidez. A perplexidade toma conta dos pais, a preocupação, bem como o amor que, de mansinho, vai caminhando por outros lados, de outras formas, como se estivesse constantemente se preparando. A sensação que beira o êxtase, do processo de criar, assim como um deus, dá lugar à insegurança, medo e tristeza. Existe uma vida lá fora, existe um trabalho – afinal, o teatro é uma incontável criação de vidas e histórias – e a mãe, cuja responsabilidade/benção/maldição carrega no ventre, se vê sozinha.

Serge: – A minha presente realidade é diferente da sua.
Olivia: – Minha presente realidade também é a sua. Mas sou eu quem a carrega.

A atriz, acostumada com as luzes do palco, precisa acostumar-se, forçadamente, com a quietude de um apartamento. Onde estaria, então, o seu marido/futuro pai? esse se preocupa, apenas, em sustentar o futuro e, consecutivamente, o seu ego. Ele vive a rua. Deixa em casa uma Rapunzel, presa em uma torre no meio urbano, acompanhada dos seus demônios… uma Rapunzel sem as tranças, sem esperanças.

“Olmo e a Gaivota” é uma inconstância, tudo que se sabe e se acha é a mulher. A mídia trabalha o amor com uma imaginação ingênua; trabalha a gravidez com uma segurança devastadora mas, todos sabemos, é um assunto cercado de questionamentos. Nenhuma mãe se sente totalmente segura desde o início, nenhuma mulher precisa ser forte o tempo todo; mas eles empurram essa ideia, com correntes e sangue: a mulher precisa estar feliz por estar grávida, não pode ter dúvidas e, qualquer problema, há de arcar com a responsabilidade, afinal, foi a sua escolha.

O filme não fala nada diretamente, não julga, muito menos grita à favor do aborto, como muitos dizem, simplesmente analisa a mulher, a gravidez e todas as suas vírgulas. Nunca foi feito algo assim, principalmente com essa narrativa que se assemelha muito com o melhor do cinema iraniano.

Grande parcela da população não está interessada em discutir temas polêmicos com a arte. A maioria prefere apontar o dedo e selecionar o que é certo e o que não é – em base ao seu conservadorismo. As pessoas iludem outras com falsas chamadas de sabedoria, e dizem que analisar com calma, individualmente, não é necessário. Que priorizar os sentimentos é uma forma de alienação.

O mundo nunca pôde ser dividido em dois lados, pelo menos a arte dá a possibilidade de trabalhar uma série de camadas, por isso, é a demonstração perfeita de poder e manipulação da vida, seja aqueles que fazem ou que sentem.

A “mulher” têm crises e histórias, elas escrevem as suas todos os dias assim como qualquer um, então porque as limitações? somos donos do nosso corpo, no entanto, em massa, criamos uma série de dilemas para a manipulação. Criar uma vida dentro de si é uma escolha artística, um sentimento profundo de auto-compreensão, uma atitude que parte do equilíbrio, do melhor momento; ser mãe é, antes de mais nada, aceitar-se como mãe.

O lado positivo de “Olmo e a Gaivota” é a pronuncia, a coragem para se discutir o início da vida, humanizando esse processo seja qual for a consequência. Histórias felizes e tristes acontecem o tempo todo, mas a nossa arrogância nos tira a possibilidade de empatia. O filme estabelece essa conexão: tema, indivíduo, arte, mulher e Petra Costa, talvez Elena. O trabalho da diretora é transcender à liberdade, fazer pensar com a poesia e mergulhar no existencialismo.

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Procura Insaciável, 1971

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★★★★

O filme começa com canções maravilhosas, principalmente um acústico da música “Love” (Nina Hart) que, interpretada pela própria cantora, chama a atenção tanto pela extravagância e extensão vocal de Nina, quanto pela sua letra que é o perfeito resumo da obra “Taking Off” – o primeiro filme do diretor Miloš Forman nos Estados Unidos:

Acredito, acredito, eu acredito no amor
E caminhando, caminhando pelas ruas
as pessoas que eu encontro
parecem não saber que existe uma palavra
chamada amor

Depois dessa abordagem direta que sintetiza o jovem hippie da década de 70, o espectador simplesmente aceita a sua condição de apreciar uma jornada através da procura incansável e interminável da juventude. O filme intercala a apresentação musical, com rosto de jovens, todas diferentes, mas com a mesma conexão emocional, em rumo à liberdade e desprendimento emocional. Em seguida, a cena corta e vemos um adulto passando por uma sessão de hipnose, ou seja, perdido, fraco.

A força do jovem é, inocentemente, acreditar no amor, isso é o que perdemos e, infelizmente, acaba influenciando a nossa sensação de fracasso ao longo da vida. Seria justo abandonar sempre, guiar-se sempre pelas emoções e caminhar por entre uma estrada escura, tendo como escudo um violão e um cigarro.

“Procura Insaciável” é o verdadeiro relato do homem que se encontra desesperado por ter perdido as esperanças, por ter desacreditado da sua rebeldia transformadora. A história, muito simples, acompanha alguns pais que perderam os filhos para a vida, pois eles fugiram – a maioria tentando buscar um futuro na música – e, nesse processo de procura, estabelecem uma relação saudável um com o outro, refazendo uma união que se perdeu com o tempo, culminando na necessidade de entendimento dos sentimentos dos seus filhos perdidos ( encontrados ), mesmo que para isso tenham que fumar maconha.

A obra é referência até hoje no que diz respeito à filmes que contemplam a vida hippie, usando o tema como guia para algo maior, transitando por entre o conservadorismo, falta de atenção dos pais para com seus filhos, enfim, é surpreende que um tema tão importante e sério como esse seja tratado de forma tão engraçada. O diretor Miloš Forman trouxe muito humor negro, ironia e exagero da New Wave Tcheca, dialogando com a situação dos jovens norte-americanos e propondo uma discussão inteligente.

Sem dúvida a cena mais polêmica, impactante e engraçada é quando o psicólogo de uma “associação dos pais que perderam os seus filhos” propõe para todos que experimentem maconha para entenderem os seus filhos. É a intenção de simbiose, no mesmo tempo que demonstra a ingenuidade e desespero dos adultos que, desavisados, perderam o respeito dos filhos por serem direcionados e convencionais.

Com pequenas participações especiais, como a Kathy Bates, ainda bem nova, cantando e Tina Turner em um concerto, “Procura Insaciável” certamente figura na lista dos melhores filmes hippies, mesmo que se perca em alguns momentos, retoma na direção da crítica social e, nesse aspecto, é extremamente bem-sucedido.

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