When Marnie Was There (2014)

Studio Ghibli é sinônimo de pureza, dedicação e sensibilidade. Eu poderia criar uma lista interminável de adjetivos, mas seria inútil, pois me sinto um ignorante em relação à grandiosidade desse estúdio. Nunca fui um especialista em animações japonesas ou animes, mas certamente sou um grande curioso, pois a cultura do Japão vê no desenho – seja animes, filmes ou manga – a sua alma. Studio Ghibli representa algo extremamente poderoso, uma entrega quase que absoluta à arte, é impossível não se emocionar, pois as histórias estão diretamente relacionadas com o nosso lado criança, desbravando um mundo mágico. E, nesse mundo mágico, acontecem coisas que se aproximam do exagero, porém é exatamente isso que torna os filmes cativantes e únicos. Poderia afirmar que a Pixar, há alguns anos atrás, era fruto dessa magia, uma pena que agora anda errando bastante, mas é basicamente a mesma coisa, se sustenta em grandes criadores e, principalmente, humanos extraordinários que têm muito amor e simplicidade em seus respectivos corações. Se a Pixar tem John Lasseter, o Studio Ghibli tem Hayao Miyazaki e Isao Takahata dois gênios que ensinaram os mais jovens a fazer filmes como, por exemplo, Hiromasa Yonebayashi que assina a direção desse último filme do estúdio chamado “When Marnie Was There”.

Hiromasa Yonebayashi fez “O Mundo dos Pequeninos” que, igualmente ao mais recente, nos brinda com um mundo fantástico e mistérios, levados as últimas consequências nesse último, aliás, ouso dizer que temos ai um grande nome para suceder o grande Hayao Miyazaki, poderia estar cometendo uma injustiça, mas vejo nesse jovem diretor de 40 anos um potencial enorme.

When Marnie Was There ao contrário de “O Mundo dos Pequeninos” é inteiramente adulto, não só pelos temas que descreverei a seguir, como também pela profundidade. Não lembro de um filme sequer desse estúdio querido, que não possua temas interessantes, mas são desenvolvidos sobre um olhar infantil, quase doce, não que isso não aconteça aqui, mas há uma dose de confusão, quase um misticismo envolto de lembranças, algo que comove muito mais os adultos. Conta-nos a história de Anna, uma garota solitária e tristonha, que por motivos de saúde vai passar um tempo no campo, para se manter bem tanto fisicamente quanto emocionalmente, ela se vê diante de uma vida monótona, até que encontra uma mansão misteriosa. Essa mansão traz algum tipo de lembrança para a menina, mesmo que a própria e nós, espectadores, não saibamos. Há boatos na pequena cidade de que não mora ninguém na mansão, mas surpreendentemente Anna enxerga sempre uma menina loira através da janela, isso a intriga ao ponto de transformar esse mistério em obsessão. Conhecendo um pouco mais dessa menina, além de fazer uma belíssima amizade com a mesma, Anna descobre que ela está cercada de mistérios.

O filme começa e Anna está sentada em uma praça, qualquer atividade é atrapalhada por aflições da personagem sobre a sua pessoa, ela visivelmente passa por problemas de auto-estima, sempre meio deslocada, a própria começa afirmando com propriedade: “[…] nesse mundo há um círculo mágico invisível[…]”, ela olha para outras garotas e continua “[…]ou você está dentro ou fora dele.”, curiosamente no mesmo tempo que ela sintetiza o filme, ainda coloca sua figura, o que representa, fora desse círculo mágico, que podemos traduzir como a vida. Ela não faz parte de nada, pelo menos o sentimento é esse, isso só se agrava ainda mais por ela ser adotada, distanciando-a, psicologicamente, da normalidade, por mais que sua mãe teime em dizer que está tudo normal. O coração de Anna sente que algo está errado e, mais além, sente que precisa passar por algo para compreender sua real situação, aquele famoso soco no estômago da vida, para aceitação da sua própria imagem, tão deturpada por si própria.

Ela segue rumo à cidadezinha, no interior, onde a natureza se faz ainda mais presente e influenciável, soando como o paraíso das crianças. Ela, pelo contrário, fica no quarto, escreve cartas, enfim, com seu jeito tímido e delicado, quase que constante.  Quando a solidão não é mais cabível e a iniciativa para fazer amizade é nula, surge a possibilidade de enfrentar o desconhecido – representado brilhantemente pelo barco, do qual ela deve remar -, com a mansão e seus mistérios, que acabam impulsionando uma nova e rápida amizade. Tão veloz que soa artificial, no mesmo tempo que é estável, quase que natural, o mistério está jogado ao espectador, soluções clichês começam a aparecer, mas o filme em nenhum momento se torna fraco por isso, pelo contrário, esse enigma é surpreendente, talvez não inédito, mas envolto de, igualmente, muita magia e emoção.

Essa amizade/história pode ser tudo amigo imaginário, fantasma, ela mesma, enfim, tudo que é possível caber nesse mundo invisível, citado no começo do filme, pode ter uma dose de religião, como uma reencarnação, o que me parece uma grande viagem, mas é esse o real legado, pensar e solucionar algo que está muito claro, ela simplesmente precisa se sentir parte de algo, bem como transformar esse algo no seu templo, afim de seguir à diante.

Esse amor que nasce é tão poderoso, que não se explica em nenhum momento, nem dá espaço para entendermos, é um tanto romântico às vezes, no mesmo tempo confuso, pois os fatos são conflitantes, mas acima de tudo são de extrema sinceridade. A explicação começa a dar lugar às lágrimas, não por saber, mas simplesmente por estar acontecendo.

Adaptado de um livro com o mesmo nome – o qual eu fiquei curioso para ler – “When Marnie Was There” faz jus ao anterior do estúdio “Princesa Kaguya” e nos transporta para um mundo incrivelmente maravilhoso, deixando de lado nossas interpretações para, tão somente, sentir.

“Eu te amo mais do que qualquer outra garota que já conheci.”

Obs: Crítica originalmente publicada no dia 4 de abril de 2015.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Édes Emma, drága Böbe, 1992

Édes Emma, drága Böbe (Queridas Amigas, Hungria, 1992) Direção: István Szabó

István Szabó é um dos diretores mais conhecidos do cinema Húngaro, isso se deve ao fato de ter sido vencedor do Oscar de filme estrangeiro com o maravilhoso “Mephisto” (1981), onde acompanha a história de um ator que se filia ao partido nazista com a intenção de crescer profissionalmente, porém a ideologia que prega traz uma série de dilemas para a sua vida. O personagem é preso entre o fascínio pelo sucesso conquistado e a tristeza pelo trajeto percorrido até chegar a tal ponto.

Dez anos depois o diretor realiza uma pequena obra chamada “Édes Emma, drága Böbe” que, em poucos minutos, exibe uma protagonista que divide sua vida entre dar aula em uma escola e conversar com sua amiga, a qual divide um quarto de hotel. A história é simples, existe profundidade nas questões abordadas – principalmente aqueles que se referem ao ensino – mas o desenvolvimento se perde em meio às críticas sociais e a amizade como representação da liberdade.

O filme começa com uma imagem aterrorizadora, o corpo de uma mulher, nua, escorrega em uma montanha de areias, sua vida segue em desordem a caminho da morte. A fotografia azulada, bem escura, traz uma sensação estranha, de fraqueza. Emma acorda assustada, no seu quarto, percebe que tudo foi um sonho. O espectador passa, a partir de então, a assistir esse mesmo corpo caindo, sem equilíbrio, objetivo ou autonomia.

Algo está constantemente em desordem, a protagonista levanta, se arruma brevemente para trabalhar e tenta acordar sua amiga, Böbe. Inclusive a filmagem é inteligente ao se distanciar do objeto, deixando em primeiro plano as paredes externas do pequeno quarto. Se não bastasse, o cômodo é extremamente bagunçado. Essa desorganização, visualmente bem trabalhada, transmite a ideia de que as amigas não seguem as regras, muito menos se preocupam em transparecer maturidade, mesmo que uma delas enfrente uma profissão que exija isso; mas também aproxima quem assiste, cria uma ponte para a identificação e, ainda por cima, exala a ideia de liberdade. O resto do mundo é uma montanha, prestes a engolir os corpos, mas o quarto é a superfície, segura e extremamente aconchegante.

O relacionamento de Emma e Böbe é curioso: no mesmo tempo que se entendem, é perceptível uma série de diferenças entre elas. Inclusive diferenças significativas que, em outro momento, afastariam uma da outra. Em uma cena Böbe reflete que “você se define pelo que têm” e se mostra, desde o começo, esperançosa para obter status em base a um relacionamento, por outro lado Emma é romântica, busca amar antes de qualquer questão financeira. Uma é inocente, sonhadora; a outra é realista e amargurada. Mas é válido ressaltar que as características das duas são entregues de forma sensata, há muito espeço para interpretarmos as suas atitudes ou opiniões.

Como forma de auxílio para o desenrolar da história, temos algumas inserções de letreiros no meio da obra, quase sempre as frases são irônicas, mas é visível a preocupação em parecer, por vezes, que se trata de um conto de fadas social.

Se a ideia principal é inteligente, a execução deixa a desejar. A começar pelo ritmo, quando um filme de uma hora e vinte entedia, é realmente preocupante. O terceiro ato fica aquém da construção inicial, principalmente por não finalizar os temas principais que vinham sendo discutidos, mesmo que timidamente, até então. Os caminhos não são bem definidos.

Outro ponto que incomoda é a atriz principal: Johanna Ter Steege é talentosa, muito lembrada por ter feito a obra-prima “O Silêncio do Lago (1990), mas ela é holandesa. Portanto, os seus diálogos tiveram que ser dublados em Húngaro, fato que, mesmo que tenha um propósito narrativo – ideia que teimo em recusar, inclusive – incomoda demais, tira a concentração e, por vezes, a seriedade dá lugar a um leve sorriso, tamanho trabalho mal feito.

Se trata de uma obra regular, que apresenta algumas reflexões válidas. Por exemplo, em dado momento um grupo de amigas, incluindo as duas principais, ficam sabendo de uma seleção para a figuração em um filme. Elas vão fazer o teste, mesmo que a cena em questão seja em um banheiro, e elas precisem ficar nuas. Diversas mulheres aparecem despidas para o teste, mas as protagonistas não. É uma metalinguagem bem interessante, apesar de que a sua função no roteiro seja extremamente oculta, ainda assim é divertido.

A força principal fica mesmo por conta da sutil amizade, pois mesmo com as diferenças elas conseguem compreender suas dores, através da ausência de amor. Elas compartilham suas decepções amorosas e são apoiadas uma pela outra, através da consciência e mútuo respeito. A palavra “vácuo” é citada no final da obra, ainda é mencionado que essa palavra é a mesma em inglês e russo e o filme fala sobre isso: gestos, decisões e simplicidade que podem ser assimiladas em qualquer lugar, ultrapassando línguas e história. Mulheres tentando se encontrar.

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Liberdade sexual e subversão sob olhares conservadores

Alucarda, 1977

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★★★★★

“Alucarda” proporciona um exercício de reflexão muito parecido com o recente “A Bruxa”, traço essa comparação por ser recente e, segundo, por ter escrito há algum tempo um artigo especial sobre, dissecando os símbolos e desmistificando – ou tentando, pois se trata de um tabu – o satanismo, de forma a misturá-lo com a liberdade. Então, antes de mais nada, indico o artigo como uma leitura prévia: clique aqui.

“Alucarda” aborda a história de uma garota chamada Justine (Susana Kamini ) que chega a um convento e, imediatamente, faz amizade com uma outra menina chamada Alucarda ( Tina Romero ). Alucarda é irreverente e subversiva, mesmo estando no convento não parece, de forma alguma, pertencer àquele lugar – isso é transmitido pelo seu figurino, um vestido totalmente preto, fúnebre, sem detalhes – e encanta a virginal Justine que representa, em seu âmago, a pureza sendo “corrompida” pelo amor.

Como comentado no artigo sobre “A Bruxa”, o satanismo representa, entre muitas outras coisas, a liberdade, é o impulso rebelde do homem em direção ao conhecimento. O conhecimento, no caso desse filme, é a paixão que cresce entre as duas garotas e, obviamente, condenado pela igreja. O culto satânico, aparições, transformações físicas, enfim, são elementos metafóricos para explicitar a problemática da crença obsessiva, construída, claro, por todo um contexto histórico. Porém, é triste notar que mesmo nos dias atuais, o relacionamento homoafetivo não é aceito pelo sistema social que, dentre outros artifícios, utiliza a religião para controlar as escolhas, de forma a categorizar as atitudes com pecados arcaicos – afinal, que se foda os pecados, a vida é um pecado e eu não fico julgando deus por isso.

Não é inteligente generalizar a religião e pregar que todas proíbem o relacionamento homoafetivo, muito pelo contrário, mas infelizmente existe e “Alucarda” trabalha muito bem o assunto. Com uma direção primorosa do grande Juan López Moctezuma – que trabalhou ao lado de grandes realizadores espanhóis como Arrabal e Jodorowsky -, o filme dialoga com uma atmosfera onírica, pautando-se em acontecimentos rápidos, sem muitas explicações, como se o tempo estivesse passando diferente para as duas personagens centrais.

A mãe de Justin é interpretada pela Tina Moreno, a mesma que faz a protagonista Alucarda. Isso deixa claro que tanto Alucarda quanto Justine são as mesmas, uma só, um só propósito, pois ambas “vieram” do mesmo lugar. Talvez o sentimento de estranheza para com mundo normal, seja o elemento comum entre as duas, por isso a cumplicidade e empatia quase imediata.

O mesmo acontece com dois dos personagens mais complexos do longa: o cigano corcunda e o Dr. Oszek. O primeiro é um mágico da floresta que impulsiona o rito satânico das duas amigas; o segundo é o médico que, no terceiro ato, aparece para contestar o exorcismo que está sendo feito dentro da igreja. Ambos personagens são interpretados por Cláudio Brook, o que é muito interessante visto que representam a dicotomia entre a ciência e o misticismo. Com a atitude de colocar um ator para fazer esses dois lados tão conflitantes entre si, é como se o diretor gritasse para o espectador que partem de uma mesma necessidade humana, uma sincronia de ideias para, enfim, alcançar a explicação.

A primeira vez que Alucarda aparece, ela sai atrás da Justine, em um quarto, a iluminação é oportuna ao mostrar a protagonista no escuro, quase como se estivesse saindo da parede. Demonstrando, perfeitamente, o estado psicológico dela que há muito sucumbira ao local ( convento ) e, com a aparição da amiga, consegue reunir forças o suficiente para quebrar as amarras da opressão. Seremos então transportados para cenas viscerais de rituais satânicos, sangue, sexo, remetendo-nos ao vampirismo, há elementos de gore, mas nada é tão absurdo quanto o ritual da igreja para fazer o exorcismo, cujo momento mais agonizante é quando um padre perfura Justine para libertá-la do mal.

Mesmo com recursos limitados, “Alucarda” é extremamente inteligente e, mesmo que seja uma obra oculta do grande público, merece ser visto como forma de reflexão. Seja sobre a opressão da igreja ou homossexualidade, passando por questões importantes como liberdade, cumplicidade e aceitação. É, sem dúvida, um dos maiores filmes do México. Alinha a técnica para sustentar um clima obscuro e conclui hipnotizando o espectador através de uma excelente atuação da Tina Romero.

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Swiss Army Man, 2016

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O cinema é um poço de reinvenções e maravilhas ocultas, criação dos sentimentos mais profundos de um homem que, perdido em seu devaneio, inventa a sua própria imortalidade e sopra-lhe um instante de vida.

Assim, defino, o ato de se fazer cinema. Doar-se ao projeto audiovisual que, por consequência, registra os anseios e angústias de um outro alguém. É essa profundidade que os diretores Daniel Kwan e Daniel Scheinert tocaram o meu coração; aquela vontade extrema de cuspir palavras, mesmo quando, no seu interior, você saiba que nada será capaz de definir o que sente.

Swiss Army Man” conta a história de Hank ( Paul Dano ) que está perdido em uma ilha. Sem encontrar maneiras de fugir, ele se encontra extremamente desmotivado, mesmo tendo deixado uma vida monótona e solitária para trás, a sua nova condição o incomoda ao ponto de querer se suicidar. No entanto, ele enxerga, durante a tentativa de suicídio, um corpo na praia. Manny ( Daniel Radcliffe ) é uma pessoa igualmente solitária e, aos poucos, descobriremos ser um reflexo do protagonista, incluindo os seus desejos, medos e arrependimentos.

A linguagem cinematográfica se utiliza de uma série de artifícios para estruturar uma história. Uma delas é a metáfora que, com o passar dos dias, ganha diferentes proporções por conta da aceitação. Aqui temos a escatologia como forma de enganar o público mas, na verdade, nos direciona para a exposição gratuita para, no desenrolar, surpreender com a inteligente narrativa.

Com diálogos excelentes, orgânicos e diretos, envolto de um humor negro e explícito, somos transportados para dentro de um ser solitário. Tomado por uma imaginação sem fim e, milagrosamente, dependente da observação. Os simples movimentos do dia a dia são calculados por Hank, inclusive a sua falta de iniciativa o tira da tranquilidade; ele está sempre julgando a si próprio por não ter coragem.

Hank ensina para Manny os conceitos básicos sobre sentimentos. Por estar isolado, as suas colocações sempre soam nostálgicas, como se o mundo “real” não mais lhe pertencesse. Ele condiciona o seu amigo ao fascínio, no mesmo tempo que a vida que ilustra é leve, os problemas englobam apenas a falta de coragem, principalmente relacionado à não conhecer o interesse platônico no ônibus e ter vergonha de levar a vida do seu jeito, se aceitar.

“[…]eu me masturbarei pensando na sua mãe”.

A cena em que Hank demonstra o que Manny irá sentir quando conhecer a “Sarah” no ônibus é uma das mais lindas desse ano no cinema. Singelo ao extremo, criativo, doce, no entanto, é de tamanha profundidade que chaga a doer. A poesia é obscura, depressiva, oscila tanto no objetivo, quanto na iluminação, nas atuações enigmáticas, enfim, a obra é de uma incoerência surreal, portanto, verdadeiramente completa.

Em dado momento, Manny pergunta o porquê seu novo amigo quer voltar para a cidade se foi ignorado a vida toda e essa é realmente uma dúvida interessante. Pois a única felicidade do personagem é justamente quando ele está completamente desarmado, desprendido de amarras, atingindo ao máximo o seu potencial através do desabafo criativo. Ele manipula a morte, inventa a vida, transgride o normal e mantém essa subversão como forma direta de sobrevivência.

No mesmo tempo que o filme é ácido e eficaz no humor, existe um quê de drama muito delicado e denso. A ideia de filme de sobrevivência na selva é desmistificado e atinge uma outra esfera: a da problematização psicológica do homem moderno que, atarefado, perde a sua identidade na mesma velocidade que o passar dos minutos.

A obra possui uma mensagem atemporal e, através da sua dinâmica montagem, fotografia certeira e imersiva – usada para destacar alguns pontos da consciência ou lembrança do protagonista; as cores vibrantes são usadas em momentos onde a felicidade o rodeia; no mesmo tempo os tons de azul resgatam sempre momentos onde há alusão à solidão – consegue fazer pensar mesmo com as diversas distrações.

A atuação de Paul Dano é absurda. Ele é um ator que vêm se destacando há muito tempo no circuito independente, principalmente em filmes indies, e infelizmente é pouco reconhecido. Trabalhou com grandes nomes e nunca esteve na zona do conforto, buscando pequenas expressões, posturas, entonações de voz, enfim, felizmente “Swiss Army Man” é uma obra que beneficia muito o trabalho do ator, lhe dá muita liberdade, pois exige bastante do físico.

Daniel Radcliffe, que tentava desesperadamente sair do seu famoso pepel do bruxo Harry Potter, conseguiu, finalmente, fazer algo épico. Se doando de forma extrema, desenvolvendo as nuances de forma linda em uma curta possibilidade de movimento. É um trabalho de confiança, quando um ator sabe que possui em mãos um bom roteiro e diretores que transformarão, através da sua captação, ângulos e movimentos de câmera, uma história grandiosa em dinâmica.

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CdA #67 – O Rolo Compressor e o Violinista

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Nesse episódio do podcast [Cronologia do Acaso] Emerson Teixeira recebe o Sandro Macena para um debate sobre o média-metragem “O Rolo Compressor e o Violinista“, de 1961, uma das primeiras obras do cultuado diretor russo Andrei Tarkóvski.

Além da análise sobre o filme, temos ainda reflexões sobre a arte como elemento de conexão, amizade entre um adulto e criança e liberdade.

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Eu, Você e a Garota Que Vai Morrer, 2015

Eu, Você e a Garota Que Vai Morrer ( Cronologia do Acaso )

★★★★

“Eu, Você e a Garota Que Vai Morrer”, premiado em Sundance, caminha em direção oposta a outros filmes feitos para jovens – muitas vezes baseados em livros: ele traz personagens bem identificáveis e naturais.

Apesar de ter gostado de “A Culpa é das Estrelas”, é impossível não perceber que a comunicação que se estabelece entre o casal é de uma maturidade tamanha, isso nem seria absurdo, o problema é quando existe uma relação quase perfeita, no que diz respeito a atitudes e a própria palavra. É tão bem encaixado, tão bem desenvolvido, existe tanta esperança no outro e o outro, por sua vez, nunca decepciona. São exibidos os melhores momentos, as melhores referências, os melhores questionamentos e as melhores escolhas. Parece ser a vitrine do relacionamento “popular” ou “descolado”.

De forma alguma é ruim, muito pelo contrário, é possível os jovens se identificarem, ou até melhor, podem buscar a melhor versão deles mesmos através dos personagens que adquiriram uma intelectualidade e maturidade por estarem a beira da morte. Mas ainda assim me parece forçado. O mesmo acontece com “Crepúsculo”, “Cidade de Papel” etc.

Quando afirmo que “Eu, Você e a Garota Que Vai Morrer” caminha em direção oposta a essa questão, é possível, dada a explicação, entender como uma real forma de se identificar de forma orgânica com os personagens e não somente tentar desesperadamente ser ou sentir aquilo que os amados bonitinhos são ou sentem. O filme dirigido por Alfonso Gomez-Rejon, que dirige também American Horror Story e Glee, ou seja, entende as expectativas do jovem, começa com a brincadeira do clichê logo em seu título: Me and Earl and the Dying Girl. 

A tradução para o português, ao que parece, resolveu trocar o nome do amigo do protagonista “Earl” por “você”. É uma diferença pequena, nem se compara com outras catástrofes em termos de traduções, mas ainda assim é motivo para refletir. O relacionamento que se estabelece é pano de fundo, um mero detalhe, para evolução de um ser humano e, coincidentemente, esse ser é um jovem. Portanto, existe três elementos chaves para a composição desse rito de passagem: Greg, um jovem que não sabe o que fazer da vida. Earl, seu amigo e extremamente importante para o não isolamento total do protagonista. E, por fim, Rachel, que é uma menina que tem leucemia, que está morrendo e que vai, diferentemente de outros filmes já citados, contribuir com o crescimento de Greg através da própria situação, pessimismo e distância, tudo isso através de uma amizade.

É tão natural ao ponto de nunca tentar deixar a dúvida se existirá um futuro namoro, claro que os mais otimistas pensarão isso, mas o ponto positivo é trabalhar o amor de forma mais abrangente, afinal, a importância de uma pessoa para uma outra nem sempre é traduzida em beijo na boca, abraço e relacionamento em que todos ficam felizes e bem no final. O aprendizado parte justamente do contrário, das experiências, independente da relação que se cria.

Parece, hoje, que temos uma necessidade em achar crucial o relacionamento amoroso. E afirmar em todos os cantos que só assim seremos felizes para sempre. Mas espera! Será mesmo que uma pessoa no final da vida, temendo a morte e pessimista quanto a possibilidade de uma salvação, teria tempo para conhecer um príncipe encantado e se apaixonar? Pode ser, pode acontecer, mas e o outro lado?

estranho na escola Sempre nas escadas ( algo a alcançar )

Somos apresentados ao protagonista como um jovem comum. Na escola ele é mais um, o talento do diretor em lidar com o clichê, mais uma vez, é muito eficiente, visto que explora certas técnicas para dizer o “de sempre”, porém, sem precisar de muita explicação. Nas imagens acima, por exemplo, vemos Greg caminhando pelo corredor da sua escola em um plongée e, na primeira vez que encontra Rachel, é apresentado a menina em um contra-plongée, mesmo que a moça represente uma iminente fragilidade, se revela ao espectador como uma figura bem mais segura e confiante que o protagonista e é justamente esse ponto que deverá ser trabalhado ao longo dos 105 minutos de projeção.

Uma das coisas que eu sempre perguntei era como ficariam minhas coisas se eu morresse hoje. Não que eu seja uma pessoa materialista – quem não é um pouco hoje em dia? – mas existem certos objetos que estão atrelados a nossas lembranças mais impactantes, um diário, uma caixinha de cartas, enfim, são diversos elementos materiais que ajudam na composição da nossa história. Sendo assim, me peguei fascinado com a exploração do quarto que existe em “Eu, Você e a Garota Que Vai Morrer”. O relacionamento dos personagens/desenvolvimento acontece, basicamente, no quarto da menina, as pelúcias e os seus inúmeros travesseiros representam a sua personalidade, um tanto quanto atenue.

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Greg definitivamente não sabe lidar com a morte, definitivamente não sabe lidar com as pessoas – inclusive chega a teorizar sobre tudo, inclusive as “gostosas”, mostrando mais uma vez a sua vulnerável personalidade – sua amizade com Earl parece ser estruturado a partir da sorte e, principalmente, do cinema. Repleto de citações cinematográficas, afinal, ambos são “cineastas” amadores, esses trabalhos ao longo chegam a acrescentar a trama e, ainda por cima, criar um alívio cômico pois, mesmo que não pareça, estamos falando de um filme profundo.

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No final temos a conclusão da subversão do clichê em relação aos filmes de jovens, com a reflexão: “ela ia dizer aquelas coisas que só aprendemos no final da vida “, no entanto, nessa obra, dentro de suas limitações, ousada, eles simplesmente sentem o silêncio juntos, como verdadeiros amigos onde, em uma simbiose, entendem que nenhuma palavra que seja pronunciada aliviará a dor de estar prestes a morrer. E, para você que pensa que esse último parágrafo contém spoiler, te provoco perguntando: será possível uma pessoa morrer enquanto vive dia após dia?

A única coisa que afirmo, para finalizar, é: na minha morte, eu adoraria estar assistindo um filme.

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