O Cadáver de Anna Fritz, 2015

O Cadáver de Anna Fritz ( El Cadáver de Anna Fritz, Espanha, 2015 ) Direção: Hèctor Hernández Vicens

Cadáver, corpo sendo violado, necrotério, filme espanhol… Nacho Cerdà?

Nacho Cerdà chocou o mundo com o curta-metragem “Aftermath”, onde basicamente trabalhou temas como violação do corpo, instinto selvagem, fragilidade da carne etc, através da necrofilia. A narrativa se pauta no silêncio, não há diálogos, apenas música clássica em um som extra diegético e os gemidos do violentador, agindo como um animal irracional. A crítica e ironia é evidente desde os primeiros momentos.

Hèctor Hernández Vicens com certeza assistiu o curta e se inspirou no quesito coragem, mas sem nenhuma pretensão de criar algo com a mesma qualidade ou profundidade filosófica. A história em “El Cadáver de Anna Fritz” começa com notícias sobre a repentina morte de uma famosa atriz espanhola chamada Anna Fritz. Seu corpo, que outrora despertava desejo nos homens ao redor do mundo, é levado ao necrotério e fica sob observação do jovem Pau (Albert Carbó) que, fascinado por estar acompanhado do cadáver de uma linda e famosa atriz, tira foto do seu rosto e envia para os amigos. Posteriormente os convida para olhar o corpo de Anne, levantando o desejo em um deles e, consecutivamente, um estupro coletivo.

Os primeiros minutos do filme são excelente, mesmo em um formato convencional consegue provocar alguns temas extremamente reflexivos, por diversas vezes é possível imaginar o quão superficial é o desejo carnal: a fama aqui é um caminho certo para essa questão, visto que muito famosos sustentam a sua carreira em base ao desejo físico, portanto, o que acontece com o seu corpo frio, morto? Todo o fascínio se esvai ou, como visto aqui, esse impulso ainda se mantém?

Os dois amigos convidados por Pau iriam para uma balada na mesma noite que são convidados. Mesmo que um deles relute até o fim, o primeiro contato acontece e, uma das primeiras coisas que o “líder” faz é colocar as mãos nos seios de Anna Fritz. Pau dá detalhes sobre o sexo com um cadáver, deixando implícito que já abusou de outro corpo e a confissão é que poderia ser uma menor de idade.

A atriz mundialmente conhecida está ali, imóvel e sem vida, vulnerável, assim como o estupro sugere, só que sem a resistência. Portanto, o primeiro ato consegue estabelecer com primor essas questões de ética, onde os próprios jovens repensam os seus atos e enfrentam as consequências,afinal, só eles estão no local, portanto permanecem isentos de qualquer julgamento, senão, das suas próprias consciências.

A técnica, seja visual ou narrativa, é comum mas não desaponta. Há momentos de tensão que são fortemente prejudicadas por cenas repetitivas. Todos os atores estão dando o máximo nas expressões que exigem, uma relação estreita com sentimentos como medo, raiva, arrependimento e incerteza. O diretor explora bem as atuações mas peca em criar cenas claustrofóbicas, algo que seria relativamente fácil, visto que os personagens permanecem em boa parte do filme em um ambiente fechado.

 Existe uma limitação física de um dos personagens aqui que resulta em cenas realmente angustiantes, além de o espaço ser bem explorado ao longo dos setenta e seis minutos de filme.

Curioso é notar como é o tratamento dos cadáveres pelos jovens: antes de relevar o corpo de Anna para os amigos, Pau mostra um cadáver de um senhor, desfigurado, no mesmo tempo que obtém como resposta: “cubra esse lixo”. Momentos depois o mesmo personagem fala que o corpo, sem vida, da Anna é “delicioso”. Um contraste obscuro, limitado e doente.

Mesmo com as limitações – não espere uma obra extremamente diferenciada – Hèctor Hernández Vicens conduz uma história dinâmica que, mesmo com pouco tempo, consegue trazer questões éticas e chocar com imagens de necrofilia e desrespeito dos personagens para com o corpo (templo) de uma mulher que perdera a vida precocemente. Os desenvolvimento do roteiro cai e as reviravoltas são repletas de truques; ainda existe uma ideia de vingança má explorada mas que, certamente, aliviará os corações mais revoltosos.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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A crônica do crescimento em “Amores Urbanos”

Amores Urbanos ( Amores Urbanos, Brasil, 2016 ) Direção: Vera Egito

Amores Urbanos

★★★★★

Viver seria algo absolutamente simples, senão fosse o homem adulto e as suas infinitas regras. A sociedade impõe uma vida padronizada, cujo futuro precisa remeter à clássica felicidade, onde a família, planejamento, sonhos e responsabilidade são, juntos, o cerne da existência e do crescimento.

“Amores Urbanos”, dirigido pela Vera Egito, discute esse tema com perfeição, através de três adultos-jovens na faixa dos trinta anos que, morando no mesmo prédio, dividem momentos de risos e preocupações; no fundo os três procuram um lugar no mundo e a aceitação das pessoas.

Júlia ( Maria Laura Nogueira), Micaela ( Renata Gaspar ) e Diego ( Thiago Pethit ) têm problemas individuais, seja familiar, profissional ou amoroso, o fato é que eles representam a alma perdida, sem propósito, senão, viver e enfrentar as consequências. Essa forma de vida, por sinal, deveria ser muito comum, mas é banida por conta dos julgamentos, no final a sociedade precisa mentir que existe um plano por trás de cada escolha ou movimento.

O filme começa com Júlia descobrindo que o seu namorado é noivo de uma outra mulher, de forma bem interessante e natural, passamos a conhecer as angústias profundas da personagem e, mais do isso, a dinâmica alegre e despretensiosa que existe entre ela e os seus amigos Micaela e Diego, ambos e homossexuais.

O fato é que Julia se isola do mundo e dos amigos. Durante todo o filme fica evidente a sua incapacidade de dizer o que sente e pedir ajuda. Isso é mostrado através de alguns artifícios técnicos como a fotografia que, por diversas vezes, registra a personagem de forma diferente dos demais, seja por causa da iluminação ou posicionamento da tela – é perceptível que diversas vezes a diretora opta por separá-la dos demais personagens com uma parede ou um algum móvel, isso acontece bastante no seu emprego e durante um jantar, com os seus pais. Outro ponto que demonstra a separação da protagonista é bem simples: Diego e Micaela moram no mesmo apartamento; já a Julia, apesar de ser vizinha e estar sempre na casa dos amigos, mora sozinha. Mas por quê? Simples, ela tenta provar constantemente que está com a sua vida perfeita, que o resultado até aquele momento é a perfeita personificação do que sempre planejou, quase como uma resposta direta as expectativas dos seus pais.

O figurino das personagens são joviais, calça rasgada, jaqueta, enfim, traz um contraste àqueles adultos. Violando as normas, também, com as próprias posturas em frente aos problemas, desde os mais simples até os mais complexos.

Diego é um personagem que acaba chamando bastante a atenção justamente pelo contraste citado acima. Ele faz piadas, ri, bebe e se diverte constantemente, porém a sua desconstrução serve como direção à todos os outros, as suas atitudes irreverentes são reflexos de alguém que não tem forças para contar como chegou até aquele ponto. O cantor/ator Thiago Pethit, nesse sentido, se destaca. Lidando com expressões frias até certo ponto, transita por entre a rebeldia e doçura, ambas com a mesma dedicação e talento.

“Amores Urbano” trabalha com personagens que nasceram na década de 80, essa geração cresceu de forma bem diferente da anterior ( escrevi sobre isso em um texto sobre Kurt Cobain ) e o filme faz jus a uma série de consequências dessa diferença. Mesmo que seja sincero em não generalizar, os realizadores parecem não terem medo de trabalhar com personagens que erram, muito pelo contrário, fazem refletir justamente com esse fato.

Júlia, no seu trabalho, é cobrada constantemente. A sua chefe pede que ela coloque mais cores em um anúncio e, apesar de soar fácil, ela não consegue captar a ideia até ser demitida. Irônico e inteligente – na mesma proporção – é observar que, minutos depois, a protagonista está em uma festa com os seus dois amigos e atrás, podemos ver bandeiras coloridas, como uma forma de grito, de alívio e desespero: ela não se adapta ao padrão imposto em um cenário formal, no entanto esse mesmo padrão se transforma em alegria enquanto junto dos amigos. Aliás, não somos todos assim? Esse é o dilema de crescer e ser aborrecido com uma infinidade de regras idealizadas pelos adultos rabugentos.

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Dope, 2015

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★★★★★

Dope” é um bom representante de filmes que prendem a atenção desde o seu início.  Com uma narração envolvente, personagens inteligentes e vestidos de forma bem colorida, o diretor Rick Famuyiwa provoca nos espectadores a preocupação com os protagonistas: pois coloca um trio de amigos geeks vivendo em uma cidade repleta de violência e desesperança, no caso é citado The Bottoms, porém esse lugar representa muito mais. Os amigos são extremamente exigentes e corajosos em mostrar constantemente as suas diferenças, visto que são bons alunos, tiram boas notas na escola e querem ir para a universidade, no mesmo tempo que criam, inconscientemente, uma discrepância entre a realidade e as poucas expectativas que todos tem acerca de quem é negro e vive em The Bottoms.

A cidade representa, então, a discrepância. Existem inúmeros casos de preconceitos na própria família que, movidos por um pensamento arcaico, acreditam que o filho de pobre e negro não pode buscar uma vida melhor, buscar estudos etc. A própria sociedade impulsiona esse pensamento quando faz da oportunidade uma área vip.
Contudo, existem muitas histórias mundo afora de heróis que conseguiram se destacar em meio a uma falta de expectativa e apoio, deram tudo de si, e, mesmo caminhando ao lado das drogas, nunca se deixou levar, sempre com foco e equilíbrio.

É fácil perceber que alguns jogam a vida no modo fácil, outros precisam se atrever, superar obstáculos, muitas vezes maior do que nós passaremos um dia. A realidade social, o contexto familiar, as experiências, nada disso proíbe o batalhador de vencer na vida. Usar esses argumentos como motivo para a derrota é, muitas vezes, tentar disfarçar a própria fraqueza.

O interessante é que “Dope“, como escrevi acima, é provocador. Ele transmite toda essa reflexão sobre realidade social de forma sublime, não precisando cair na exposição, muito menos na seriedade. Essa é a sua maior força e, pessoalmente, acredito que fez toda a diferença para se tornar um dos destaques de grandes festivais como Cannes e Sundance.

A narrativa dá um valor gigantesco ao humor, trabalhando temas como o preconceito racial de forma leve e despretensiosa, porém, nunca perdendo a elegância. Hollywood precisa todo ano fazer algum filme que fale sobre os negros, é quase uma obrigação. Quem dera se todo ano aparecesse uma obra respeitosa assim, pois me parece que algumas coisas tentam ser grandiosas mas fracassam, sendo distantes da realidade e morrendo afogado na sua própria pretensão.

Dope.2015.720p.BluRay.x264.YIFY.mp4_snapshot_01.32.53_[2015.10.26_10.48.55]

O figurino dos três amigos além de ter uma importância para a compreensão do desprendimento existente entre eles com o meio, ressalta também a ousadia do próprio filme; Em abusar de uma montagem que parece estar sempre em sincronia com o hip hop. 

Em dado momento, há uma inclinação a acreditar que os objetivos serão deixados de lado para seguir um caminho fácil. Algo como “Breaking Bad” que, em uma perfeita mescla de humor e densidade, desenvolve personagens que falham muito e constantemente se envolvem em situações comicamente desastrosas.

Porém, depois de uma correria – sim, o filme tem um ritmo ótimo – somos surpreendidos com um fechamento do ciclo muito fiel ao personagem que aprendemos a admirar: ​Malcolm. Interpretado com uma mescla de inocência e responsabilidade pelo – anotem esse nome – Shameik Moore, que, por sinal, não é difícil creditá-lo como um bom nome para o futuro.

O final é quase um soco no estômago, Malcolm quase sussurra/grita/desabafa, subliminarmente, algo assim: “Tá vendo? Você achou que eu tava perdido, que não ia conseguir?”. Então percebemos, com um sorriso enorme, que todas situações catastróficas eram apenas reflexos dos obstáculos que temos na vida, que a droga significava a estagnação e que fomos presenteados, nesse ano de 2015, com mais um excelente filme sobre o jovem.

“Porque eu quero ir pra Havard? Se eu fosse branco,vocês me fariam essa pergunta?

emersontlima

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