Entendendo o filme “A Bruxa” – Por entre o satanismo, ignorância e desprendimento

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Esse texto não se trata de uma análise crítica sobre “A Bruxa”, mas sim de uma investigação dos detalhes de modo a relacioná-los com a história da igreja católica, bíblia, filosofia e satanismo. Ainda por cima, visa auxiliar aqueles que tiveram e ainda têm dificuldades para compreender o filme. Afinal, o melhor da arte é estar disposto a discutir as inúmeras leituras e interpretações que podem ser feitas.
Se você, caro leitor, se sente ofendido quando o assunto é religião, talvez prefira a crítica do filme, escrita poucos minutos após a sessão. Clique aqui.

Eu ainda me espanto com a quantidade de pessoas que detestaram o filme “A Bruxa”. Na verdade, o meu espanto parte das justificativas que são dadas para a banalização da obra. Muitos afirmaram se tratar de um “filme que não quer dizer nada“, que “não chega a lugar nenhum” ou até mesmo escreveram diretamente que tinham dúvidas se era realmente um filme(?). 

Acho completamente compreensível que o filme não tenha agradado à todos, isso se deve ao fato da pretensão. Em nenhum momento o diretor pretendia ser aceito e entendido por todos, sabia exatamente a grandiosidade dessa ousadia. Sim, existe a perspectiva daqueles que acompanham exclusivamente as propagandas e, realmente, foram muito mal na venda do filme como mais um de sustos. Porém, ficou sempre muito claro aos olhos treinados que a obra em questão se utilizaria do terror mas nunca se tornaria escravo do próprio gênero.

O que realmente é estranho são grandes sites e seus respectivos “formadores de opiniões” divulgando ódio para com “A Bruxa”. Com argumentos tão infantis que beiram o inacreditável. Então esse texto é, ao mesmo tempo, um estudo particular e um convite a todos que não entenderam o filme e que estão dispostos a tentar. Abordarei alguns pontos que, pessoalmente, considero fundamentais para a compreensão de alguns dos inúmeros símbolos que o filme aborda subliminarmente, principalmente os relacionados à opressão religiosa e algumas linhas de pensamento que priorizam a liberdade do homem, como o satanismo. Mas estou, enquanto escrevo, livre de qualquer preconceito e espero ansiosamente que você, caro leitor, faça o mesmo. 

Parte 1 – Qual o motivo da incompreensão?

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É justo que eu deixe claro, antes de mais nada, que todas as informações inseridas nesse texto servirão para acrescentar na compreensão dos símbolos do filme. Mas isso não quer dizer que é preciso saber todas e mais algumas para entender. Quando eu fui assistir o filme no cinema, as pessoas vaiavam e faziam piadas, esse desrespeito só pode partir da ignorância. Não existe outra explicação.

Veja bem, ignorância não é ser burro. Parte de um não conhecimento sobre determinada área, portanto, absolutamente comum. É comum não entender, o problema é quando você age com preconceito e/ou se acomoda na posição de não saber e propaga isso como algo legal.

A expectativa é a maior vilã da experiência cinematográfica. Por isso, indico para todos parar de ver trailer, ler sinopse, enfim, qualquer coisa que faça com que você crie expectativas sobre determinada obra. Temos que aprender a encarar o cinema como arte e não como uma prostituta, onde nós pagamos e esperamos que tudo esteja dentro daquilo que acreditamos/esperamos. O nosso “acreditar” depende exclusivamente do senso de humor e o nosso senso de humor costuma mudar bastante. Então encare o cinema como uma linda e profunda oportunidade de aprender, nem que para isso precise ler mais, conversar mais ou até mesmo escrever mais.

“A Bruxa”, logo nas cenas iniciais, deixa claro que irá inverter e desconstruir o gênero terror. Geralmente temos em filmes do gênero uma fórmula pronta, principalmente – mas não somente – no que diz respeito ao vilão da história: sempre colocam o demônio como causador de todos os problemas. Se não é o demônio, é aquele que não segue as normas padrões imposta pela sociedade. Talvez um psicopata, infiel, herege, ateu, cético…

Mas “A Bruxa” no primeiro minuto se recusa a aceitar essa condição e simplesmente diz “não” ao espectador. “Não, vocês não terão essa fórmula. Vocês verão agora o que acontece quando um filme de terror tem como o seu grande vilão o Deus que muitos de vocês amam”. Pronto, foi justamente por essa inversão que o filme causou tantos espantos. Inconscientemente todos na sala perceberam que o filme estava atacando a fé, com isso, todos aqueles que acreditam em Deus se sentiram, de cerca forma, afetados. Se sentir afetado assistindo esse filme é completamente normal, o problema é quando o nível de incompreensão atinge o tamanho monstruoso e aparecem pessoas rejeitando de todos os modos o filme e, como escrevi anteriormente, agem com desrespeito, brincando nas sessões e prejudicando a experiência de pessoas que, como eu, estavam boquiabertos com a quantidade de informações que aconteciam.

Parte 2 – Idade Média e o sobrenatural

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Vamos começar com um momento crucial da história da humanidade, principalmente quando relacionado com a religião: Idade Média. A igreja católica, ao contrário do que se pensa, não se tornou extremamente poderosa e influente de uma hora para a outra. Até atingir uma base incrivelmente sólida, existiram diversos problemas e fatos que impediram o seu avanço total.

A mescla com as religiões politeístas contribuíram muito, de diversas formas, para a construção do que temos hoje nos conceitos da igreja. Principalmente na postura de atribuir tudo aquilo que é desconhecido como sendo do demônio ou satânico.

Entre a Alta e Baixa idade média aconteceram bastante mudanças. A Europa estava em pleno declínio a beira da total loucura. Existia uma urgência, a vida simplesmente era sufocada por essas mudanças e descentralização, seja política e de crenças e como esses dois fatores se relacionavam entre si.
O trabalhador, preso a sua terra – lembrando que a “escravidão” dá lugar a “servidão” que, a grosso modo, se trata do homem escravo das suas próprias terras, ele quer estar preso e isso se deve a uma série de interesses, incluindo a própria proteção – tinha a expectativa de vida muito baixa, portanto a ideia de ser feliz em uma próxima vida era muito mais real do que acreditar que poderia, algum dia, ser feliz nessa vida terrestre. Se analisarmos friamente a religião hoje em dia, inclusive, percebemos que a ideia de vida eterna vêm aos poucos mudando, há, hoje, uma supervalorização da vida aqui na terra; A ideia do famoso “carpe diem” vai de desencontro com o que prega a bíblia, que deixa muito claro que o nosso propósito real é a próxima vida.

Além da vida dos trabalhadores ser extremamente vinculada com a religiosidade, o medo movia as famílias também. Tudo aquilo que estava ao redor das suas terras era o local onde o mal existia. Não à toa a crença em seres fantásticos, bruxas, demônios, espelhos mágicos etc. Só os guerreiros e, principalmente, o clero, detinham o poder e coragem de ir além e lutar contra essas forças do mal. Percebam que, ao impor esse medo do sobrenatural, a igreja controlava tudo e todos.

Voltando as famílias dos trabalhadores, existia muita superstição, por exemplo: se um corvo pousasse na sua casa, com certeza eles atribuiriam isso a aproximação da morte. Você, caro leitor, deve se lembrar que aparece um corvo no filme “A Bruxa” em uma cena crucial, não é? Essa cena é justamente o pontapé para uma série de mortes que acontecerá na família.

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Agora que mencionei o corvo, pense nessas possíveis interpretações sobre pequenos  detalhes do cotidiano na época como um animal, floresta, enfim, e tente encontrar no filme alguns desses elementos. Em “A Bruxa” tem a floresta, corvo, coelho – que, em suma, representa vida e está atrelado também com a curiosidade principalmente após o lançamento do livro “Alice no País das Maravilhas” de Lewis Carroll – e, por fim, e talvez mais importante, em determinado momento, na floresta, existe uma referência direta à “Chapeuzinho Vermelho“. Essa referência acontece quando a “bruxa” aparece para Caleb, extremamente sexualizada, e o beija. A resposta para essa referência pode ir de encontro com a origem do satanismo. Explico a seguir:

Parte 3 – Satanismo

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Em plena Idade Média, um grupo do Sul da França contestou corajosamente ou insanamente a igreja e vários dos seus conceitos. Inverteram alguns valores e, por isso, são considerados por alguns pensadores como os primeiros hereges da história. Esse grupo ficou conhecido como “cátaro”. Eles foram a sociedade secreta mais relevante da Idade Média e, inclusive, preste bem atenção pois vamos fazer aquele jogo de relacionar com o filme novamente, chamavam a Igreja Católica de “Igreja dos Lobos“. No filme a família acredita que o lobo pegou o bebê Samuel, portanto, diante a essa leitura, podemos trocar o lobo pela igreja/religião. A fé monstruosa e desequilibrada ataca como um câncer e vai sugando cada alma boa e pura que existe naquela família. Claro, difícil é saber o que seria uma “alma boa”.

No conto clássico de Chapeuzinho Vermelho, a menina caminha por entre a floresta e tenta, de todos os modos, escapar das garras do lobo mau. Como se quisesse fugir dessa prisão e ser livre. A aparição de uma bela mulher com capa vermelha no filme não é por acaso, há outra inversão de valores: Caleb é a menina frágil e Chapeuzinho esconde um lobo em sua veste. No mesmo tempo que essa cena deixa algo aberto: Talvez, de fato, tenha acontecido uma relação sexual entre Caleb e Thomasin e o lobo seja a representação fiel das angústias do menino em lidar com o gozo.

Continuando a história do satanismo, é preciso concluir que a inquisição foi criada justamente por causa dos Cátaros. Como uma forma de combater aqueles que pregassem contra qualquer coisa que a Igreja afirmava. Houve, inclusive, uma cruzada apenas para converter os Cátaros, o problema é que a distinção entre eles e os católicos era impossível, parte daí a frase “Matai-os todos, Deus reconhecerá os seus!”. 

Bem, na Idade Média temos a formação da contradição, mas é no Renascimento que o Satanismo ganha forças. É preciso ressaltar, inclusive, que para a Igreja absolutamente tudo que a contrariasse era considerado Satanismo, mas isso acontece até hoje em dia, imaginem na época.

O Renascimento, como o próprio nome sugere, vêm para combater a Idade Média e uma infinidade de opressões, esse desprendimento provém do conhecimento. O homem passou a direcionar a sua atenção para as filosofias e artes, o que evidentemente sempre libertou a humanidade.

Foi no Renascimento que surgiu uma importante linha da filosofia chamada “Renascimento Humanista” ou “humanismo”, que basicamente coloca o homem como centro do universo. É de se notar que nesse tempo já havia grandes questionamentos sobre Deus, principalmente relacionado a sua onipotência, onipresença e oniciência. Além do mais, era só ler a bíblia e perceber que havia uma diferença entre o Deus do Velho e Novo testamento, um se relacionava intimamente com o ódio e o outro com o amor infinito.

Todas essas questões aproximou a figura de Satã do desprendimento. Shaitan, do hebraico, significa adversário. No filme “A Bruxa” a mãe se compara com a mulher de Jó. Resumidamente, na história bíblica de Jó, ele é uma isca para uma prova de que o amor do homem é verdadeiro e infinito. Satã fala para Deus que se tirar tudo do homem, então ele perderá a sua fé. Mas Deus prova o contrário com um homem amável e dedicado chamado Jó. A mulher de Jó clama para a revolta do marido para com Deus, mas ele se mantém mais calmo.

Então sua mulher lhe disse: Ainda reténs a tua sinceridade? Amaldiçoa a Deus, e morre. Jó 2:9

A mãe, no filme “A Bruxa” também perde a sua fé, após o desaparecimento e morte de três filhos. Mas o pai se mantém distante, relacionando a sua dor constantemente com a vontade de Deus. Na época isso era algo altamente comum, porém hoje, com os nossos olhos, todos sabemos que as coisas que acontecem, incluindo a própria praga que assola a plantação, poderia ter sido resolvida de outras maneiras, principalmente se não houvesse a insistência. Mas ai entra o conhecimento, hoje a psicologia nos mostra o que é “histeria coletiva”, “epilepsia” e outras doenças que estavam extremamente vinculada com demônios. E, nesse ponto, “A Bruxa” incomoda muito, pois existe essa verdade exposta de todos os maus que a religião causou nas famílias devotas da época.

Voltemos ao Renascimento… Satã, por questionar Deus se tornou um símbolo imediato de algo que o humanismo pregava. E, a partir dessa filosofia, começaram a existir outras linhas de pensamento, incluindo o próprio satanismo que vai ser modificado no século XX com Lavey.

Parte 4 – Entendendo “A Bruxa”

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Primeiro é importante ressaltar que as bruxas, na Idade Média, eram na maioria mulheres. Essa classificação era colocada naquelas que faziam remédios caseiros, se rejeitavam a casar, eram muito bonitas e despertavam desejos em homens de famílias, enfim, tudo isso fazia uma mulher ser condenada à fogueira por ser bruxa. Elas passavam por uma série de torturas e eram obrigadas a confessar o seu amor pelo demônio.

Então a bruxaria, assim como o satanismo, está diretamente ligada com o desprendimento. E o filme de 2016 usa isso para compor a ideia principal do roteiro: Não se trata de um filme de terror e sim um drama sobre a opressão religiosa, preconceito para com a mulher e ignorância.

Percebam que as pessoas que vaiaram, brincaram e agiram com desrespeito, fizeram basicamente a mesma coisa que o filme prega como o mal. A ignorância é a ferramenta que dá espaços para a manipulação e a única coisa que pode salvar um ser desse demônio – o maior de todos – é o conhecimento. Portanto, sim, Thomasin é uma bruxa. Ela é a única, de toda a família, que está envolvida com a sexualidade e não teme isso, que está consciente dos acontecimentos e não fica atribuindo qualquer desastre a culpa e vontade de Deus. Ela está extremamente preocupada com a vida e o “agora”, mesmo com as limitações da época, ela é livre no seu interior.

O filme, só a título de curiosidade, não se passa na Idade Média, mas sim na Nova Inglaterra em plena formação dos Estados Unidos. A floresta e o medo imenso do desconhecido está presente.

Após a família ser expulsa da colônia, é perceptível que todos da família saem do julgamento rapidamente, seguindo o pai. Thomasin é a única que hesita algum tempo antes de seguir a sua família.

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Depois disso, temos uma cena que mostra a visão da garota – uma câmera subjetiva – olhando os portões sendo fechados para a sua família. Eles são expulsos pela visão religiosa extremista, que é tão grande que vai de desencontro com a própria religião.

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Momentos depois a família adentra a floresta, algo extremamente proibido e perigoso, o lar dos monstros e demônios, eles estão em busca de um pedaço de terra para sobreviver. Mas todos aqueles conceitos de proteção, relação com o sobrenatural sobrevive – Thomasin, no final do filme, fala para o seu pai que ele é um péssimo caçador, que ele só sabe cortar madeira, isso prova a mente direcionada e necessidade de proteção. É curioso notar a ironia, pois Black Phillip, no final do filme, mata o pai diante as madeiras que ele cortava constantemente, como se estivesse entregue a única coisa que sabia fazer, além de orar e entregar-se a Deus, no mesmo tempo que esquecia que tinha uma família para guiar.

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Se Jó tinha uma propriedade farta, a família em “A Bruxa” é o contrário. A provação acontece de forma distorcida, eles estão a beira da loucura, fome e desespero. Em uma terra completamente nova, o terror com o auxilio da trilha sonora acontece durante todo o tempo. Nós não sentimos medo, mas adentramos em um mundo particular de fragilidade. A natureza se torna má e poderosa demais.

Os olhares do Caleb para os seios de Thomasin é a representação fantástica do desejo incestuoso que existe entre eles. A aceitação por parte da irmã e o descontrole por parte do irmão. Mas, claro, o desejo é visto como uma maldição e Thomasin, só pelo fato de ser mulher, é considerada bruxa por estar em pleno desenvolvimento. A menina se controla de todas as maneiras possíveis, segue todas as regras, mas, no final do filme, por um breve momento, se desvia desse caminho e tudo desmorona. Sua família, incrédula, atribui a ela todos os males do mundo.

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 Cena crucial é quando Thomasin encontra o seu irmão perto de um lago. Os dois estão atarefados e Thomasin percebe os olhares maliciosos, no entanto acolhe o irmão em seus braços antes de se proclamar como sendo a bruxa para a irmã mais nova. É questão de segundo para relacionarmos isso com a autonomia e ousadia da menina em confirmar o incesto, mesmo que somente a intenção e conexão. Ela afirma com propriedade, dá os detalhes e intimida ambos irmãos, causando um desconforto. Lembrando, o fato de ser ou não bruxa é uma metáfora e qualquer cena que sugira algo mais explícito serve apenas como uma distração.

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Pouco tempo depois Caleb foge com sua irmã para a floresta, eles se perdem e acompanhamos Caleb e o seu encontro com a “bruxa”, em uma forma bem sensual, como se completasse todos os seus desejos mais íntimos. O desejo nunca foi um problema real da humanidade, mas pode se tornar quando a crença a proíbe ou cria uma série de limitações. Nesse caso, a culpa passa a ser gigante e consome o ser. Isso é o que acontece com Caleb na floresta. A capa vermelha – cor associada automaticamente ao sexo, paixão etc – traz a ideia de que, sim, houve algum tipo de relação entre os dois irmãos, mas Caleb não aguenta a culpa, é fraco demais para ser um bruxo e, consecutivamente, livre.

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Quando Caleb retorna para a sua casa, Thomasin o encontra nu. Quando ele desperta e surta, os seus movimentos e feição remetem ao gozo, ao prazer extremo, é possível perceber que em diversos momentos o menino se abraça, como se o seu corpo estivesse envolvido com as palavras sem sentido, no mesmo tempo que existe uma tentativa de redenção, como se quisesse ser aceito. O menino ficou preocupado e questionou o seu pai, logo no início do filme, sobre qual seria o critério de Deus para escolher os bons ou maus.

A mãe da família, para mim, é a personagem mais conturbada e fraca, ela praticamente não existe. Em alguns momentos fala com alegria sobre a época que tinha a idade da filha mais velha, mas sempre se mostra muito abatida e fragilizada. Como se existisse muitos arrependimentos. É a mulher que nunca teve coragem de se libertar, por isso é possível perceber uma clara inveja da sua filha Thomasin. A mãe revela que estava ciente das “insinuações para o irmão”, mas nunca tomou providência. Talvez ela tinha medo de que a menina tentasse conquistar o seu marido.

Quando a mãe morre, a única morte que Thomasin provoca, de fato, ela está em uma posição muito sugestiva, em cima da barriga da filha. Simbolizando uma troca de papeis, como se tivesse se tornado a filha ou prestes a realizar o que sempre quis, mas nunca teve coragem. Thomasin, a partir da morte de todos os membros da família, se torna todos eles, a coragem e desprendimento da família.

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Chegamos na parte final e é justamente a qual, geralmente, as pessoas mais se confundem. Bem, vale ressaltar que a primeira coisa que Thomasin faz após matar sua mãe é tirar o vestido. Esse vestido, que a cobre durante todo o filme, visivelmente a sufocava. Ela começa a sua liberdade ai.

Depois segue o Black Phillip e vai procurar, finalmente, as respostas.

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O bode no filme é a representação do demônio. Baphomet é sempre revelado com uma cabeça de bode e ele significa algumas coisas, principalmente relacionado com dualidade. Bem e mal, luz e trevas, homem e mulher, enfim, o feminino e masculino tem uma importância gigantesca para o final do filme. A mulher está diante a sua liberdade, mas não sabe o que fazer ao dar o próximo passo, portanto precisa entrar em catarse, conhecer os seus limites.

Ela seguindo o Black Phillip representa todos os espectadores que esperam ansiosos por respostas. E quando isso acontece, o filme o faz com maestria. Primeiro que focaliza apenas no rosto da Thomasin, afinal, ela é a protagonista dessa mudança. É quando começa um dos melhores diálogos da história do cinema.

Reparem que Black Phillip pergunta o que ela quer e dá algumas sugestões, principalmente relacionado a comida – pois passava fome – e liberdade. “Ver o mundo“. Thomasin deixa claro a sua posição e diz que não sabe escrever, ele responde, com sua voz arrepiante, que guirá as mãos da menina. Essa cena deixa claro que a protagonista está diante a uma mudança devastadora, fruto da sabedoria. A cena final, onde acontece um “ritual”, é outra alusão ao rito de passagem. A menina flutuando é uma vida leve, sem amarras e proibições, ainda fica diante uma árvore, fazendo referência a Lilith que, diz a teoria da conspiração, poderia ter sido a primeira mulher de Adão.

A cena final é arrepiante e, em meio a uma estranheza gigantesca, é possível sentir uma felicidade. O espectador desavisado chora e os mais atentos sorriem. “A Bruxa” é um dos melhores filmes da história e uma verdadeira junção de elementos históricos e filosóficos. Vai ao desencontro da fórmula e o padrão, assim como o tema estudado, e consegue provar que o terror mora nos lugares mais improváveis.

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Referência: http://maconariaesatanismo.com.br/satanismo/satanismo-na-idade-media/

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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A Bruxa, 2016

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★★★★★

No passado, Deus era creditado como o centro da vida, o teocentrismo trouxe diversas facilidades e amarras do homem com o poder. O controle das massas sempre existiu e ainda é muito presente, principalmente quando está ligado, direta ou indiretamente, com a fé. O homem se torna incrivelmente forte quando crê, mas no mesmo tempo fica muito próximo do desvio da ignorância.

O antropocentrismo preza pelo homem, o conhecimento deu à população a oportunidade de pensar criticamente sem nenhum tipo de interesse político. Saberes como a arte e filosofia ganharam força na busca por um novo destino. Se hoje temos o mínimo de liberdade e direitos, devemos a uma série de insatisfações.

A caça as bruxas foi algo muito real e representa com perfeição a manipulação do poder, bem como a sua inteligência em enxergar na fraqueza uma oportunidade para criar uma histeria coletiva. O desprendimento do conservadorismo traz consigo muitas inseguranças, boa parte dos inúmeros casos de mulheres condenadas por serem “bruxas” estão diretamente relacionadas com sua postura independente e intelectualidade. Suas posições sociais também influenciavam, jamais poderiam ser mais importantes que os homens.

Fica evidente que o tema de “A Bruxa”, dirigido de forma impecável pelo Robert Eggers, é de suma importância para a reflexão sobre um passado repleto de injustiças. Mas o medo, no mais sincero possível da palavra, se desenvolve de forma lenta, até o espectador entender que a opressão ainda existe e que a ignorância continua cegando as pessoas, mesmo com o acesso fácil à informação.

Fui assistir ao filme em uma sessão à noite, a sala estava extremamente lotada. Começa o longa e logo vem os primeiros “sustinhos”. As pessoas visivelmente esperavam outra coisa, e, finalmente, após uma cena grotesca – que funciona quase como um cartão de visita – começam as primeiras risadas, uns desconfortáveis, outros amenizando a atmosfera com piadas irrelevantes. O fato é que muitos ali são religiosos – o que não há problema algum – mas que nunca leram a bíblia. Nunca se deram o trabalho de pesquisar a sua religião e de tentar compreender os outros tantos pensamentos que existem.

O medo do filme é transmitido através da vivência do homem e a certeza, mesmo que nas entrelinhas, de que não evoluímos em nada. Apenas aprendemos a esconder melhor o nosso preconceito. O satanismo sempre esteve relacionado ao homem e sua busca por liberdade, criando uma distância com Deus, como se ele tivesse nos abandonado. Não está diretamente relacionado com morte de animais e crianças, assim como o catolicismo não é completamente relacionado com a pedofilia.

Há exceções em tudo na vida. O que falta é o senso de empatia e uma mente aberta para tentar compreender as ideias que moram do nosso lado.

O que escrevi acima é apenas um desabafo, pois a experiência com minha sessão esteve a beira de uma catástrofe – certamente teria ficado com raiva, mas como o filme é excelente, consegui isolar o mundo exterior para contemplar algo inimaginável – e certamente a citação do satanismo é muito pertinente, até porque se trata de algo extremamente polêmico.

O filme começa com uma família, no ano de 1630 na Nova Inglaterra. Eles são expulsos da cidade e o motivo, inicialmente, é muito nebuloso. Porém, com o auxílio da trilha sonora – que é ótima durante toda obra – e algumas decisões técnicas como a filmagem da cidade onde, junto com a família, vemos o lugar cada vez se tornando mais distante, o espectador consegue imaginar que existe um conflito de posições e ideais ali.

A família adentra um mundo selvagem, o desconhecido. Eles caminham por entre a insegurança e ignorância, deixando para trás o seguro e o normal. Portanto, esse mundo selvagem se torna, cada vez mais, demoníaco. Existem certas referências à algumas religiões que depositam na natureza a sua fé, mas isso acontece para preencher as lacunas da verdadeira mensagem que é a fragilidade do homem quando está exposto ao desconhecido.

O pai da família, interpretado pelo excelente Ralph Ineson, transmite uma preocupação constante, bem como a sua expressão percorre por diversas vezes a obsessão. Com sua voz grave, parece se relacionar perfeitamente com o clima sombrio do filme, intimidando quem assiste. Mas o destaque fica por conta da protagonista Thomasin que, em meio a essa ousadia da família e opressão religiosa, está se desenvolvendo – fisicamente e emocionalmente. O diretor faz questão de, em dois momentos cruciais, ressaltar a sua sexualidade através dos olhos do irmão, onde a câmera subjetiva focaliza os seus seios. A primeira vez acontece enquanto ela está dormindo e a segunda perto do lago, ou seja, como se o irmão estivesse frágil perante esse desejo proibido.

Aliás, penso no filme e sua atmosfera como um representação metafórica de um amor incestuoso entre irmãos que, aprisionados em um tempo espinhoso, passam a se interpretar como pecadores e monstros. Eles são os “bruxos” para uma sociedade puritana.

O abuso existe por parte do pai também, que pretende vender a sua filha para conseguir sobreviver. Nesse ponto, posso afirmar que a atuação da lindíssima Anya Taylor-Joy é de suma importância para a obra, pois sua feição angelical e calma esconde uma inteligência à frente do seu tempo, e, como expliquei na introdução acima, mulheres assim eram classificadas como bruxas.

Thomasin representa o desejo proibido. Tanto das mulheres e o desejo de desprendimento, quanto do irmão que observa a sua beleza com olhares maliciosos. Por isso acontece, em um momento crucial, a referência clara da maça, e é justamente essa fruta que desperta na família a ideia de que o filho fora enfeitiçado. Poucos minutos antes, ele ainda se depara com uma figura extremamente sexualizada, fazendo uma alusão à Sucubus – demônio do sexo. A partir dessa desmistificação do desejo que exala Thomasin, ainda temos os irmãos gêmeos que a acusam de bruxaria. Curioso é notar que, quando o irmão começa suas descrições na cama – aparentemente em um ataque – elas repetem o movimento, se tratando de uma histeria coletiva.

O mais interessante é: Seria o filme sobrenatural ou psicológico? A resposta simplesmente não existe. Se a fé envolve o espectador de modo fervoroso e dita suas decisões ou olhar, certamente passa a entender o filme como um evento sobrenatural. Caso contrário, investigará todo o contexto histórico e será fácil a classificação da obra como uma discussão importantíssima do aprisionamento da mulher ao longo dos anos.

O coelho passa a indicar os caminhos e valores. Representa o olhar do espectador, ele é a isca. Assim como o misterioso e surpreendente Black Phillip. Interessante notar que, no final do filme, quando a menina consegue, finalmente, fazer contato com essa “entidade”, é colocado em jogo a liberdade e conhecimento, bem como timidamente ela diz que não sabe escrever enquanto ouve: “eu seguro a sua mão”. Essa ponte com o sobrenatural – ela mesma – dá a oportunidade de enfrentar o mundo e se rebelar contra as regras imposta pela sociedade. Essa cena é horripilante, tanto por conta da conexão com a entidade, como também por ela parecer muito – sarcasticamente – com o pai. Seria então esse demônio um desejo da garota, que almejava ter um pai que desse oportunidade para ser livre?

É estudado muitos casos nessa época de mulheres que passavam a acreditar que eram bruxas por conta da intimidação. Ou seja, essa atmosfera diabólica e assustadora que vemos em “A Bruxa” é simplesmente a cabeça da personagem principal, que se banha em proibições e está no limite da sua própria sanidade.

Com centenas de elementos metafóricos e referências satânicas, o espectador comum – leia-se aquele de mente fechada que não se dá o trabalho de procurar coisas novas – se atém apenas a primeira camada, excluindo o restante por conta do seu próprio preconceito. Sem perceber que a ignorância presente na sua atitude ao assistir uma obra de arte é muito similar do que está presente na família.

Com referências claras ao sangue e leite, transformando ambos em uma ponte entre a alimentação, sobrevivência e morte, chegamos na última cena que demonstra a ambiguidade que já estava presente desde o início. A protagonista segue o seu caminho de esperança em rumo ao ritual (ela) e se torna leve, sem amarras, finalmente livre. Ainda percebemos que o último quadro é ela na frente de uma árvore, dando lugar a um inevitável elo com Lilith e, ainda mais, o conto de Adão e Eva, fortalecendo a teoria de que ela é o fruto proibido e que o proibido foi, é e, infelizmente, sempre será: pensar diferente.

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