Jim & Andy (2017, Chris Smith)

Um curioso caso de possessão performática

Stanislavski bradou, na profundidade máxima da super disposição em “violar-se”, que a atuação deve ser completa, leia-se vinda do âmago, traduzindo a realização em um espetáculo total do ator, onde ele funciona como veículo de toda uma vida multi-interpretada e por isso é necessário a sua devoção, antes de mais nada, na respiração, na observação de si.

O “método” mora sempre na violação, quando um sujeito simples e indecifrável decide quebrar as cascas do que quer que seja, há de notar inclusive que quando elas são representadas pela sua própria figura, esse movimento em rumo à revolução é muito mais intenso e demonizador. O bom ator sabe que atuar é uma operação constante e que, desse modo, faz jus ao milagre de perceber-se sozinho diante o silêncio do universo. Essa leveza e inerência da atuação começa na análise, nas inspirações, na reflexão, e a partir dai existem milhares de técnicas, mas o que realmente importa é o quanto conseguimos mensurar os detalhes daquilo que vemos ou sentimos.

Jim Carrey absorveu desde novo os pontos mais imperceptíveis de Andy Kaufman, de modo a desenvolver uma persona bem parecida no quesito humor. Se tem uma coisa que Kaufman foi brilhante, é na resinificação do sentido da plateia, cujas expectativas muitas vezes não condizem com o interesse ou necessidade real daquele(a) que apresenta. Mais do que isso, quem que assiste deveria estar preparado para atrever-se, caminhar ao desconhecido, portanto um show de comédias já possui uma série de regras pré-estabelecidas, o riso é uma obrigação e expectativa; e a expectativa, todos sabemos, alimenta almas destroçadas. Andy Kaufman, por fim, era, estava e fazia; violava sua própria imagem em prol à catarse geral, até a última estância onde a plateia se surpreende com sua própria bestialidade confrontada no espelho ao rir do que se desconhece, uma relação, por vezes, estreitamente relacionada com a imoralidade(?).

A oportunidade de vermos Jim Carrey retrocedendo aos seus próprios processos de atuação é um milagre, perceber o contraste emocional entre o jovem e o velho. Ele carrega muitos papeis que já atuou, embora as linhas de expressão e barba grisalhas denunciem que a única realidade é que o tempo passa e bons trabalhos caem no ostracismo. O documentário é perfeito em não tentar engrandecer o ator a cada minuto, é mais um devaneio sobre formas de se atingir um mesmo fim, transcendendo os limites psicológico para criar o que quer que seja. Essa crítica, por exemplo, exige muito esforço e dedicação, posso optar em escrever sobre o filme ou sê-lo. A arte sempre dará a oportunidade de escolher.

Carrey escolheu, até por meio da sua capacidade ímpar, entregar seu corpo às entidades do teatro e, através do seu fascínio, transformou-se em veículo para um ser etéreo. Sua atuação foi uma libertação, como se o menino empolgado na frente da Tv resolvesse doar sua energia para a composição de um personagem. O constante da performance é a prova de que qualquer criação artística atinge o seu ápice quando há uma simbiose entre o objeto, artista e público.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Como Nossos Pais (Laís Bodanzky, 2017)

Recusamos constantemente sermos como nossos pais, talvez essa posição seja fruto do envelhecimento. No fim, todos recorremos à nossa origem para justificar características ou decisões ao longo da vida. É tão difícil decidir entre um e outro que, aliado com a pressão social que existe para todos – se torna lamentável a aceitação do tempo percorrido e as diversas outras possibilidades desperdiçadas.

Esses são dilemas universais que atingem o seu limite máximo com a sociedade machista que vivemos, muitos teimam em separar atividades típicas como forma de infantilizar o homem, isolando-o da responsabilidade, principalmente relacionado à criação.

Se há algo certo na vida é que o maior erro que cometemos é classificar as coisas, pessoas e comportamentos. Essa inerência na divisão inconsequente do que é certo ou errado; casto e malicioso etc. Os relacionamentos são as provas fiéis disso: funcionam como o grande método da sociedade para se amarrar na utopia da completude, o castelo de felicidade que, por obrigação das forças positivas, não pode desmoronar. E, convenhamos, que bom é a existência que se permite devastar.

“Como Nossos Pais” conversa com a essência do conceito família e seu desdobramento conforme o amadurecimento das gerações seguintes. O conflito entre criação, desenvolvimento e criação. Um ciclo que as pessoas necessitam para a sua comprovação de passagem pela Terra. Ainda que a família seja objeto de estudo, o faz através de uma personagem extremamente complexa. Rosa (Maria Ribeiro) é uma mulher que acaba de saber por sua mãe que é filha de um outro homem. Essa verdade a leva para uma série de reflexões sobre a sua condição de esposa, envolvida por indiferença de todos os lados e sobrecarregada, ela busca um tempo de silêncio para compreender suas angústias, para que assim possa respirar e sentir.

A câmera fixa na cozinha, a mãe de Rosa, Clarice (Clarisse Abujamra), ao fundo desfocada; é assim que o filme começa. Escondendo a matriarca em um espaço comum (cozinha), vulgarmente conhecida por ser propriedade do feminino. Mas essa decisão ilustra a ironia, pois só o que há em “Como Nossos P a i s” é a mulher em primeiro plano, almejando lugares mais altos e se entendendo como a única peça merecedora de atenção e virtudes.

Curioso é que a partir do tema mulher, partimos para um outro relacionado com a continuidade da trajetória intrínseca entre pais e filhos. E é tão vazio nossa existência que é certeza que em algum momento já pensamos justamente na efemeridade dos bons momentos. O que sobra quando nossos pés cansam, é válido depositar esperanças na filha como uma forma de encurtar caminhos dolorosos? Qual é a relação ideal entre mãe e filha, aquela que projeta, ausenta ou incentiva?

A família senta à mesa e o masculino é privilegiado, todo esse diálogo é tão rápido, em outra ocasião seria a demonstração de uma cena descartável. Mas aqui, pelo contrário, só comprova os poucos segundos que bastam para essa família estagnar, todos julgando um ao outro ou simplesmente omitindo sua opinião. Os personagens saem e a câmera fica fixa, confrontando um ambiente morto.

Os objetos são importantes, por isso há aqui muitos planos-detalhes. Um deles é mostrando, antes de ser mencionado, o livro “Casa de Bonecas” de Henrik Ibsen, uma obra que aborda a mulher como poucos, vinculada ao casamento e sendo, por ele, oprimida. A moça foge do marido, filhos, da sua escolha e reinicia, dando muito mais valor às possibilidades encantadoras da liberdade… ou pelo menos assim antevemos que aconteça.

Uma cena que sintetiza o filme é quando Rosa discute com Dado (Paulo Vilhena) no banheiro, a fotografia permite centenas de significados. O rosto do seu marido aparece em um reflexo no espelho ao fundo, pequeno, enquanto o boxe divide simetricamente o rosto de Rosa em alguns momentos cruciais. Essas divisões no quadro retornam a acontecer só que com Dado, sempre mostrando sua esposa e filha no outro quarto, enquanto ele dorme sozinho no outro.

Impossível não ressaltar as incríveis performances de Maria Ribeiro, Paulo Vilhena e Clarisse Abujamra. Todos eles têm muito carisma e baseiam sua interpretação na naturalidade, algo de extrema relevância para o contexto geral, super profundo no estudo de personagens. A relação entre eles, os diálogos, tudo acontece em uma sintonia muito próxima, visceral, é impossível não se deixar levar e, mais do que isso, há um isolamento dos esteriótipos. Os três personagens erram porque são frágeis ao extremo.

A história de Eva é banalizada sutilmente aqui, pois a dedicação mesmo é no desabrochamento da Lilith, a mulher que domina, que está acima. “Como Nossos Pais” busca apoio no feminismo para ressaltar elementos importantes e frequentemente esquecidos em uma relação, principalmente a duradoura. No entanto, de forma alguma se atém exclusivamente aos dilemas enfrentados pela mulher, ainda que a perspectiva aqui seja feminino, o filme é muito importante para os homens, pois busca maneiras de dizer a necessidade da readaptação por amor ao próximo. Quando um se sente completo em base à incompletude de outrem, as coisas visivelmente devem ser repensadas. Por isso não há mal ou bom nas histórias, pois somos todos errantes, em busca de histórias bem vividas e não de restrição e estagnação.

Já faz tempo
E eu vi você na rua
Cabelo ao vento
Gente jovem reunida
Na parede da memória
Esta lembrança
É o quadro que dói mais

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Brawl in Cell Block 99 (S. Craig Zahler, 2017)

Quando S. Craig Zahler apresentou ao mundo o faroeste Bone Tomahawk (2015) rapidamente despertou a atenção, principalmente pelo dinamismo dos diálogos e violência gráfica trabalhada de forma orgânica, ainda que extrema. O fato é que surgia uma grande promessa, pois era nítido o excelente trabalho com atores, além dos pontos citados anteriormente.

Em Brawl in Cell Block 99 (2017) o jovem diretor mostra o seu talento novamente, se consagra como um grande nome e passa a despertar ainda mais expectativas em relação ao seu futuro. O filme prima pelas atuações como forma de conexão rápida entre os personagens e as situações ou lugares percorridos por eles. A discussão moral aqui é tão interessante quanto as cenas de ação, inclusive esse é justamente o ponto que faz esse longa agradar os interessados no gênero, mas não esquece em nenhum momento do drama profundamente filosófico, onde o estudo de personagem impera.

A introspecção leva o espectador a uma esfera repleta de sossego, ao passo que abruptamente somos rasgados com a deliciosa máquina da realidade. O personagem outrora inquebrável é o primeiro a desmoronar, ainda que o faça com uma classe assustadora. Nesse sentido, Vince Vaughn apresenta até então a melhor performance masculina do ano ao compor um personagem em constante ciência do redor, estritamente equilibrado e que ama imensamente sua família, tanto que vai do tranquilo ao psicótico em questão de segundos. O protagonista é violado pelas suas próprias decisões e permanece prisioneiro do amor, ainda que sua leve e útil prepotência faça com que ele rejeite a condição de “perdedor”, por isso nunca há desespero, nem mesmo diante da possibilidade de morte.

Assistir Brawl in Cell Block 99 (2017) é como adentrar no inferno, a violência gráfica – expositiva em diversos momentos, o que contrasta com a realidade chocante desenvolvida até então – não é nada se comparada com a fúria do roteiro, que vai transgredindo os conceitos “família”, “união” e “proteção”. Por consequência os personagens são conduzidos (obrigados) à enfrentarem a mais ordinária existência. A prisão que é mostrada através de camadas, que inclusive condizem diretamente com as atitudes de seus detentos, simboliza o psicológico do Bradley Thomas (Vince Vaughn) que alcança o seu máximo de degradação com os cacos de vidros da sua cela, representando o seu coração despedaçado pela distância e o passar dos dias, além da desesperança ao saber que não recepcionará sua filha na sua chegada ao mundo. Retrocedendo ao máximo, o filme é humano ao dispensar a violência e escolhas erradas em prol da relação de amor entre um pai e filha.

Sobre essa relação, é válido apontar duas cenas que dialogam entre si: a primeira é quando Bradley acorda com os pontapés da filha na barriga de sua esposa, ele fica tão entusiasmado que grita e, percebendo que ela continua dormindo, conversa particularmente com a filha. No final do filme acontece a mesma coisa, através do celular.

A tatuagem de uma cruz atrás da cabeça do protagonista tem valor extremamente importante na trama, não à toa é a primeira coisa exibida no começo. O personagem caminhando, em um dia péssimo, sua cruz é como uma fuga do convencional, tornando nobre um homem de figura rude. A benevolência do perdão está presente desde o princípio e a moralidade é outro tema trabalhado. Bradley reconhece que o caminho que passa a seguir após a sua demissão é perigosa, visivelmente abdicou da normalidade no momento que aceitou essa condição. Mas o real interesse passa a ser no homem de classe e disposto à enfrentar consequências de suas escolhas, tendo que se adaptar às regras do sistema que ele próprio inocentemente imaginava ignorar. Na primeira vez que Bradley Thomas briga com um policial, afim de mudar de prisão e realizar sua missão, um outro pisa em sua cabeça, exatamente na cruz. A fé passa a ser no homem e sua versão selvagem de sobrevivência e proteção, a violência é a tradução de um amor tão grande que transcende a ética.

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Especial Halloween – Filmes de terror no ano de 2017

Leia também o “Especial Halloween” de 2016 (Clique aqui)

O ano de 2017 está sendo importante para o Cronologia do Acaso em relação aos filmes de terror, principalmente pelo fato de termos tido a estréia do “Frequência Fantasma“, um podcast comandado pelo Sergio Junior e equipe, apenas sobre o gênero.

Dada a recomendação, começo citando o filme russo “A Noiva” como um dos maiores potenciais desperdiçados do ano, isso porque trabalha a fotografia, com cadáveres e nem mesmo com todos esses elementos macabros consegue construir uma atmosfera densa e, pior, não encontra uma forma interessante de desenvolvimento, senão, através do caminho óbvio de sustos sem nenhum tipo de cuidado. Na mesma situação temos “Experimento Belko”, cuja premissa é bastante parecida com “Battle Royale” (2000), acompanhamos um grupo de pessoas no trabalho que são interrompidas por uma voz alertando-os que precisarão matar um ao outro afim de continuarem vivos. O começo mediano dá atenção demais à personagens pouco cativantes, enquanto outros são ignorados e profundidades dramáticas são jogadas fora.

“A Noiva” (Svyatoslav Podgayevskiy, 2017) e “Experimento Belko” (Greg McLean, 2017)

Saindo das boas ideias e execuções frágeis, destaco seis filmes de terror no ano, começando pelo A Ghost Story (David Lowery, 2017). Um filme pouco convencional, que retrocede o medo no seu estado mais puro, onde a consciência humana reflete sobre o vazio da sua existência, se apegando ao espaço e sendo por ele engolido. É um drama torturante sobre o sentimento de estar presente mas não poder tocar, bem como o ser no seu estágio de ciência da finitude e a dor que esse conhecimento traz. (Leia a crítica completa aqui).

“Mãe!(Darren Aronofsky, 2017) é outra obra complicada de ser enquadrada no gênero, pois é muito mais um drama do que qualquer outra coisa. Mas há muito terror no meio de infinitas camadas de metáforas, das quais diversas fazem alusão à ganância do homem em relação à natureza, mulher e ele mesmo enquanto inserido no processo de criação, seja ele qual for. Além do mais, a casa que tem vida, a situação extremamente claustrofóbica, o desespero da personagem principal, cenas pesadas e direção frenética fazem deste um grande representante da lista. (leia a crítica completa).

Ao Cair da Noite (Trey Edward Shults, 2017) apareceu como uma grande surpresa também ao se dedicar inteiramente à criação da atmosfera constantemente frágil e urgente, alcançando ainda mais densidade através da união familiar e possíveis ameaças de desestabilização. O amor do pai e da mãe, bem como a interação do filho, são tão bem desenvolvidas que o espectador confronta a ética em diversos momentos, o sentido filosófico da palavra “sobrevivência” é muito bem explorado aqui. (leia a crítica completa).

Annabelle: Creation (David F. Sandberg, 2017) é até então o grande filme de terror popular do ano. É a prova de que uma direção inteligente faz toda a diferença, principalmente com um formato que clama por inovações afim de alcançar a surpresa, David F. Sandberg entende isso e o faz de forma brilhante na maior parte do tempo, ainda que o terceiro ato destoe um pouco do que vinha sendo feito até então, principalmente no que diz respeito à intensidade e equilíbrio da exposição. (leia a crítica completa aqui).

Raw ( Julia Ducournau, 2017) passa longe de ter a qualidade que se comentava nas primeiras exibições, mas tirando a expectativa criada e as promessas de cenas extremas, o filme se destaca no estudo da personagem principal, criando elos visuais e significados brilhantes no que tange a alimentação com o momento vivido pela protagonista no auge da sua juventude. A intensidade da carne, do desejo, dilemas universais sendo transmitidos literalmente.

Os fãs de Álex de la Iglesia foram presenteados com o grande “O Bar” (2017), uma obra que acompanha um grupo de distintas pessoas que ficam presas em um bar e aos poucos vão confrontando uns aos outros, derrubando as máscaras por meio de uma situação que os reúnem e exploram o máximo da sua sanidade. O espaço reduzido e o tempo como agente de transformação é a chave para a revelação do caráter dos personagens; o desenvolvimento acontece, como é comum no trabalho do diretor, através do humor negro, de modo que o verniz social se dissolva aos poucos.

Frases como “o pobre que se dane, é sempre assim” traduzem perfeitamente a intenção por traz da linguagem dinâmica, há diversas críticas políticas e os bons costumes são ridicularizados, assim como diversas outras mentiras relacionadas aos relacionamentos humanos. Em “O Bar” pequenos objetos de cena ganham importância e o sistema camuflando a real situação por interesses é pouco se comparado aos homens devorando homens por puro egoísmo.

Pior filme de terror do ano:

A melhor coisa de “Devil in the Dark”(Tim Brown, 2017) é o seu pôster, altamente enganoso, diga-se de passagem. O filme acompanha dois irmãos tipicamente diferentes um do outro – um responsável, de família e o outro um jovem adulto irresponsável, mais estereotipado impossível – que planejam caçar na floresta para assim passarem um tempo juntos e resolverem os problemas entre eles. Oitenta minutos de duração, sendo que noventa por cento dele é um drama forçado entre os dois, com direito à flashbacks injustificáveis, mas que nos vinte minutos finais resolvem acrescentar um monstro nessa floresta, cuja presença nunca se justifica, muito menos amedronta. Um longa que não respeita o espectador, nem a sua própria história.

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A Ghost Story (David Lowery, 2017)

A Ghost Story (Idem, EUA, 2017) Direção: David Lowery

A Ghost Story (2017) não é um filme de terror – pelo menos no sentido literal – pois recusa constantemente a ideia de que o sobrenatural se desprende da realidade da qual conhecemos, é como se o fim proporcionasse uma experiência transcendental do experimento de si, da trajetória. O fantasma, associado evidentemente ao campo sensorial, é trabalhado aqui de forma curiosa: o diretor e roteirista David Lowery opta por mostrá-lo de forma infantilizada e clássica, as formas humanas são escondidas em um lençol com dois buraquinhos, os quais funcionam como ferramentas para captar a vida, mas que cuja escuridão não reflete a condição do florescimento do dia-a-dia.

A história é sobre um casal M (Rooney Mara) e C (Casey Affleck) que enfrentam a rotina entre a incomunicabilidade e o afeto, porém tudo muda quando C falece em um acidente de carro. O espectador é convidado para uma jornada com o seu fantasma, o qual observa atentamente a condição da sua esposa, bem como se mantém enraizado com o lar.

É de se notar, ainda sobre a figura do fantasma, os detalhes referentes aos olhos que, desgastados pelo tempo, vão alongando de modo que estejam coerentes com o tamanho da tristeza do protagonista; as sujeiras do lençol também são importantes para essa reflexão. Contudo, por se tratar de uma presença quase imóvel e que não tem diálogos, senão, por gestos, os sutis movimentos de câmeras e a fotografia falam pelo personagem e, mais do que isso, demonstram com perfeição sua psicologia desestruturada pela existência massante.

A razão de aspecto reduzida é uma decisão importante e diferente, assim como o conceito geral da obra, desde o início parece se tratar do passado dos personagens, e isso definitivamente faz todo sentido, pois passado, presente e futuro aqui simplesmente não importa. O cinema como reflexo da vida resgata a condição maravilhosa de se ater ao meio e não à finitude das histórias. O formato de tela traz uma sensação parecida com aquela provocada por uma fotografia antiga, ainda que seja possível relacioná-la, também, com a visão reduzida dos personagens que circulam pelo ambiente e tencionam fugir, de alguma maneira.

A partir disso, a fotografia é fantástica ao demonstrar, junto com a trilha, todas as dores, solidões e silêncios que o casal sente, mesmo que separados pelo término. As grades da janela aprisionando o fantasma, bem como sua presença desconfortavelmente estática ao fundo enquanto, em primeiro plano, M come uma torta com um misto de raiva, descontrole e desamparo – e essa posição se repete diversas vezes, o símbolo visual é forte ao exibir M constantemente nos cantos da tela, ao passo que o fantasma permaneça simetricamente no meio quando só.

A transição de tempo nessa cena, por exemplo, é feita com um símbolo em comum (música) através de duas perspectivas diferentes e sendo ressaltadas através da fotografia. O passado em cores quentes e o presente azulado, frio.

O diretor David Lowery é um nome interessante para acompanharmos nos próximos anos, jovem e que visivelmente possui muito talento e imaginação, consegue transitar com facilidade pelo alternativo e o popular, dirigiu o “Meu Amigo, o Dragão” (2016) no mesmo tempo que fez “Amor Fora da Lei” (2013), duas propostas completamente diferentes e ambos muito bons. É difícil encontrar um artista que em tão pouco tempo consegue assimilar esse dinamismo criativo e, mais do que isso, deixar sua marca autoral independente da grandeza do produto. No segundo exemplo, inclusive, foi o começo da sua parceria com o Casey Affleck e Rooney Mara.

Casey Affleck marca presença no primeiro ato de “A Ghost Story” (2017) e faz algo parecido com o seu personagem em “Manchester by the Sea” (2016), embora seja similar, o conceito do personagem também resgata uma tristeza mórbida, pois é sugerido o seu estado conformista durante os primeiros minutos, o deslocamento é uma tortura para ele. Já Rooney Mara demonstra mais uma vez o seu enorme talento ao se ater às nuances de uma personagem distanciada forçadamente do afeto. Contudo, as performances acolhedoras do começo são deixadas de lado em uma decisão corajosa no momento que o fantasma assume o protagonismo, a partir de então a narrativa passa a ter uma postura pouco convencional onde os inúmeros personagens, situações e ambientes possuem uma força deslumbrante sobre o fantasma que observa o tempo e os diálogos como forma de preencher sua curta existência afim de encontrar um meio de partir.

Há ainda uma participação do músico Will Oldham em uma pequena mas impactante cena, cujo conteúdo sintetiza a obra, demonstrando com isso o pessimismo de uma vida, feitos e criação esquecida pelo tempo. A ideia que é construída é dolorosamente visceral, o indivíduo se apagando aos poucos até se tornar um veículo, aquilo que passou significa pouco para o mundo, embora seja tudo para ele. Talvez a consciência desse fato – teoricamente simples mas inacreditavelmente complicado de ser aplicado na prática – represente toda a busca dos homens que, desde o princípio, busca o seu reflexo ao reproduzir a sua rotina artisticamente. Por que tencionamos construir um lar e uma cumplicidade com um outro alguém, sendo que cada um possui o seu tempo-espaço-necessidade individual?

“A Ghost Story” (2017) é feliz na criação de perguntas elementares, sem ter a mínima pretensão de respondê-las. Assim como o fantasma, contextualiza o espectador em uma belíssima oportunidade de refletir sobre a obra primordial, aquela que investiga os porquês das decisões, preocupações e patrimônios que nos deixam cada dia mais desumanizados. Apesar de delicado, o único momento agridoce da obra é justamente no ponto que momentos da vida do protagonista passam pelos seus olhos, onde as memórias alcançam o seu auge. Todos nós teimamos viver lindas ilusões para, no fim, desenterrarmos o nosso bilhete engolido pelo lar/conforto.

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Doentes de Amor (Michael Showalter, 2017)

Zoe Kazan estabelece, a cada trabalho, seu nome no topo dos indies agridoces e românticos. Com isso, sua atuação cai na mesmice e até mesmo o esteriótipo de suas personagens são os mesmos. Isso é legal na reunião de inúmeros fãs pelo mundo, no entanto chega um momento – principalmente se a obra for de qualidade duvidosa em relação ao roteiro, principalmente – que cansa o público. Escrevo sobre a atriz, antes de mais nada, pois assistindo seus novos filmes percebo algo parecido com o que acontece com a Zooey Deschanel.

The Big Sick (2017) tem muito de In Your Eyes (2014) e Será Que? (2013), porém sem a mesma qualidade em estabelecer um elo emocional entre o casal como forma de aproximar o espectador ao drama que os envolvem. A partir disso, aqui se repete diversas coisas que de tão utilizadas se tornaram medíocres, como doenças, amor proibido, não aceitação da família etc. O envolvimento do casal acontece de forma tão abrupta, que tudo o que se desenvolve a partir de então se torna, no mínimo, risível. No primeiro ato há a tentativa desesperada de estabelecer o protagonista, o paquistanês Kumail (Kumail Nanjiani), como um moço incrivelmente bem-humorado, no entanto suas colocações levianas simplesmente o torna infantil, o que certamente não condiz com a reação das pessoas que o envolvem, ainda mais em uma situação tão séria.

Se um romance em uma comédia romântica não causa nenhum tipo de empatia já é algo estranho, acrescente uma comédia que não funciona na maioria dos casos e, pior, só direciona o espectador para outro caminho, que não o mostrado. Os diálogos não possuem harmonia, as situações são impostas em base ao absurdo e precisamos aceitar, caso contrário não haveria filme e as tentativas de dar profundidade aos dilemas como preconceito e limitação cultural perdem todo o sentido no momento que não são construídos com inteligência.

Cinco meses de namoro aqui parecem somente três dias. É de se notar, ainda, que nesse tempo o casal nunca tenha conversado sobre as diferenças de tradições entre eles, pois quando Emily (Zoe Kazan) descobre que o seu namorado não pode assumi-la para a família porque seria expulso, sua reação é realizado de maneira tão incoerente com a jovialidade e desprendimento até então demonstrado, que a cena e principal motivação se torna uma verdadeira comédia – algo terrível, visto que o tema é muito sério.

Ainda que poucas coisas boas possam ser tiradas desse filme, destaco a família da Emily, principalmente sua mãe interpretada pela Holly Hunter, que realmente rouba a cena todas as vezes que aparece e, impressionantemente, é a única que faz jus à situação que se encontra e segue o mesmo perfil até o final. Sendo uma figura forte, cômica, no mesmo tempo que passa por um conflito pessoal no relacionamento e, evidentemente, com a filha. O humor falho que tentam empurrar para o Kumail, é muito melhor realizado com a despretensão e naturalidade dela.

O diretor Michael Showalter parece despontar como um grande nome das comédias indies, depois de dirigir a série Love, fez Doris, Redescobrindo o Amor (2015) e, até agora, vem experimentando através dos trabalhos populares. Aqui faz parceria com o ator e roteirista Kumail Nanjiani – que imprime boa parte de suas experiências, pois nasceu no Paquistão e trabalha há anos fazendo comédia nos Estados Unidos. Pena que a imaturidade como roteirista se sobressaia e que bons momentos referentes à sua cultura sejam desperdiçadas em uma tentativa frustada de se esconder em um romance clichê, repleto dos esteriótipos criados pela meiga – e sempre com carinha de menina de treze anos – Zoe Kazan.

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De Canção Em Canção (Terrence Malick, 2017)

Esse é mais um representante dessa nova etapa artística do diretor Terrence Malick, onde o universo, técnica e figuras importantes do cinema parecem entrar em comum acordo para representar a angústia da existência. Talvez seja justamente por isso que o diretor consiga agregar tantos nomes poderosos em um único trabalho, mesmo que sejam cortados na edição, pois eles sabem que o estilo do diretor transcende a narrativa dita através dos anos como convencional, a sua câmera invade a privacidade da performance, bem como por vezes se recusa a aceitar o óbvio ou o ascendente. Perceba momentos que o movimento de câmera acontece e para nos detalhes, como na mão de uma personagem na maçaneta da porta. Às vezes a reação facial das personagens esconde trejeitos, a postura, enfim, uma série de características que compõe a sua personalidade. No mesmo tempo que o cinema funciona como uma janela para observar a vida, o seu formato e padronização impede que tenhamos a perspectiva completa, admirar a paisagem pela janela, dentro de casa, e no exterior são duas coisas completamente diferentes, sendo assim, Malick é como um garoto rebelde, mesmo que sua mãe o castigue e o impeça de sair, ele foge e faz questão de registrar absolutamente tudo aquilo que lhe convém, mesmo que soe como corrupção da performance e convencionalidade.
Sua câmera se movimenta de forma ondeante, obrigando o espectador à árdua tarefa de assimilação espacial, as sensações dizem respeito ao etéreo, como se tivéssemos analisando o comum sob a perspectiva de uma deidade.

De Canção Em Canção (2017) segue esse padrão, o mesmo de A Árvore da Vida (2011), Cavaleiro de Copas (2015) e Amor Pleno (2013) e, por isso, pode ser injustamente acusado como repetitivo e sem sentido. Mas o curioso é que visivelmente o diretor compreende que esses adjetivos fazem parte do processo, ainda mais quando o produto artístico é tão complexo e transcendental. Nem todas pessoas estão dispostas à falarem de si mesmas, e fazê-lo de modo a contemplarem diversas realidades que não condizem com a sua é certamente ainda mais difícil.

Nesse longa a incoerência do amor e cumplicidade são analisados a partir do universo das estrelas da música. A produção musical que exige individualidade e momentos curtos de sincronia. É de se notar a flexibilidade fotográfica que ora se dedica intimamente às figuras que acompanha, ora os recusa, transformando-os em invisíveis em meio à ambientação – diferença estética que faz jus a instabilidade do mundo que acompanha.

As narrações em off durante boa parte do filme são simples e diretas, parecem realmente trechos de músicas e não me espantaria se de fato fossem. Elas dialogam com o cotidiano e abrem espaço para o visual, onde pequenas demonstrações de afeto, posição no quadro e palavras fazem dos inocentes movimentos das personagens experiências incrivelmente intensas.

Existem tantas cenas simbólicas – muitas delas perceptivelmente improvisadas pelo ótimo elenco – que precisaria de muito tempo para as analisar metaforicamente. Por exemplo um momento em que o casal Faye (Rooney Mara) e BV (Ryan Gosling) fazem uma brincadeira relacionada à confiança. Os dois personagens, inclusive, assim como Rhonda (Natalie Portman) são os mais interessantes como início da reflexão sobre a condição de corrupção e decepção de um jovem esperançoso inserido no meio musical. Cook (Michael Fassbender) é um personagem completamente sedado pela conquista, é a personificação do fascínio perigoso que o poder teima em sussurrar nos ouvidos como a perfeita solução.

De Canção Em Canção (2017) é uma obra sensorial, que exige muita atenção e a maior imersão possível afim de proporcionar a melhor experiência. No entanto, atrás da narrativa pouco convencional, não se esconde um material complexo como a sua forma – como acontece em outros trabalhos do diretor. Ainda assim é um filme extremamente relevante e que apura os sentidos, pois transforma o cotidiano e a realidade desgastante da fama em poesia; sustentado principalmente pela fotografia de Emmanuel Lubezki e pelos impulsos naturais performáticas de um elenco incrivelmente talentoso, mas que pela própria linguagem são sabotados em muitos momentos.

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Annabelle: Creation (David F. Sandberg, 2017)

Annabelle 2: A Criação do Mal (Annabelle: Creation, EUA, 2017) Direção: David F. Sandberg

O cinema de terror atual se divide claramente em duas esferas completamente diferentes, contudo, as duas vertentes narrativas têm como prioridade a qualidade no que diz respeito à ambientação e o processo de sugestividade. Obras como “No Cair da Noite” (2017), A Bruxa (2016), Sob a Sombra (2016) utilizam a contemplação e os silêncios como forma de incentivar a atenção absoluta do espectador, de modo que o sentimento aja em virtude da curiosidade, reflexão, desconforto ou mesmo o medo; por outro lado, os mais populares, motivados pelo sucesso de novos inteligentes diretores como James Wan, Mike Flanagan, David F. Sandberg etc, compreenderam através da manifestação do público, que o gênero terror moderno precisa caminhar em outra direção afim de não se acomodar no óbvio. É possível perceber, portanto, uma evolução em filmes como “Invocação do Mal 2” (2016), “Quando as Luzes se Apagam” (2016) ou “Ouija 2” (2016), mesmo que alguns citados tenham qualidades finais duvidosas, há de se observar alguns detalhes oportunos em cada um deles, a direção de Wan e habilidade em referências dentro do gênero, a utilização da ausência de luz – medo primitivo – como forma de fragilização psicológica e a competência de Flanagan em trabalhar com o som em seus filmes.

Quando o primeiro “Annabelle” foi lançado, em 2014, a ideia era aproveitar o sucesso do “Invocação do Mal”. E o maior problema do filme é justamente nunca ser pensado por si, mas como extensão de algo maior. O desenvolvimento rápido tirava qualquer possibilidade de mergulho nas sombras que uma boneca amaldiçoada evoca, no fim, um grande potencial fora perdido em prol a um filme exibicionista. Mas na continuação eles acertam, a começar pela escolha de David F. Sandberg para dirigir, um artista que errou em seu primeiro longa-metragem mas que possui diversos curtas-metragens medonhos e, por incrível que pareça, nenhum passa de dois minutos – alás, dois deles são referenciados em momentos oportunos em “Annabelle: Creation”.

O filme começa da maneira mais comum possível, mostrando o passado de uma família onde um acidente fatal com uma menina desencadeia uma série de problemas paranormais em uma mansão de aspecto tenebroso. Fato que se agrava ainda mais a partir do momento onde cinco meninas de um orfanato são convidadas a se hospedarem no local. A apresentação da protagonista Janice (Talitha Bateman) acontece de forma oportuna, pois ao descer do ônibus a câmera se posiciona no degrau ao passo que mostra a dificuldade da menina em descer por conta da sua limitação física em uma das pernas, ponto importante não só pela questão psicológica, a menina se sente a mais fragilizada e vagarosamente vai perdendo as esperanças de ser adotada, como também no desespero causado em diversas cenas de eventos sobrenaturais, onde o fato de não poder correr obriga a personagem a enfrentar o medo ou mesmo fechar os olhos, se esconder, enquanto o espectador enxerga o que está acontecendo em volta, algo que potencia a experiência e exige um bom trabalho com os espaços e objetos da casa.

A maior força do primeiro ato é na exploração dos elementos que futuramente serão importantes para as cenas de sustos, a tetricidade dos objetos fazem desse filme impactante em diversos momentos, inclusive a quantidade de possibilidades que se formam em todos os cômodos da casa são incríveis, parece que cada boneco, sombra ou pano pode se tornar um acessório para provocar o medo. Quando o espectador assimila o espaço, fica constantemente em alerta com o que acontece no segundo plano, e isso é muito oportuno no gênero, mas dificilmente é bem feito.

As atrizes mirins têm ótimas performances, mesmo que o longa dependa da extrema coragem de duas personagens para dar sequência ao roteiro. O diretor David F. Sandberg resgata sua melhor competência – demonstrada nos curtas-metragens sem diálogos, caseiros e com somente uma personagem – em criar cenas assustadoras sem recorrer aos artifícios mais comuns, apesar de tê-los como obrigação, nunca mostra aquilo que esperamos no mesmo tempo ou maneira, sempre tem algum detalhe que nos tira a atenção e surpreende.

O terceiro ato destoa do desenvolvimento mostrado até então, o equilíbrio da exposição e sugestão dá lugar as soluções apressadas e decisões que se retardaram afim de se encaixarem no roteiro. Mas ainda assim, “Annabelle: Creation” segue sendo um ótimo filme desse universo criado pelo “Invocação do Mal” e que continuará nos próximos anos apresentando as mais diversas figuras demoníacas perseguindo as mais inocentes almas.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Ao Cair da Noite (2017)

Ao Cair da Noite (It Comes at Night, EUA, 2017) Direção: Trey Edward Shults

O mundo desiste e os humanos enfrentam a devastação, o silêncio, o antes. O perigo sempre está um passo a frente em It Comes at Night (2017), os personagens são comprimidos em todos os sentidos, visualmente envoltos de sombras, ambientes estreitos, ainda que as luzes representem a fuga espiritual e psicológica, mas a consciência da iminente finitude desperta as condições mais primitivas do ser, a proteção familiar e vinculação afetiva assumem o mandato e a esfera trabalhada é a política, onde a teia familiar passa a representar um Estado, regendo sua continuidade em base à desconfiança, e é justamente essa posição filosófica no sentido metafórico e frágil enquanto realidade, que se origina o terror nesse longa: a negação intensa das circunstâncias do mundo em prol à prolongação da vida, é justamente o motivo da desestruturação desse Estado criado pela mãe, pai e filho (Carmen Ejogo, Joel Edgerton e Kelvin Harrison Jr., respectivamente).

Nesse sentido, é interessante perceber que o inimigo aqui é a própria sensação de perigo, como um vazio rastejante do externo; quando uma segunda família é apresentada, imediatamente o espectador percebe que a desconfiança mútua é consequência da realidade e que de nenhum personagem é mau, mas todos são frutos da condição selvagem que a sobrevivência exige. Retomando ao princípio, o escuro aqui trabalhado é o mesmo da pré-história, o limite físico e mental fica ainda mais intenso a partir do momento que não há o deslocamento.

As paredes da casa aprisionam todos e, por esse motivo, não existe expectativa de fuga. O designer de som é tão extremo que parece eterno, a narrativa cautelosa reforça a verdadeira intenção de investigar a família no seu âmago e disfuncionalidade.  Um pai é historiador e o outro é ligado com trabalhos braçais, a diferença é atenuada e a exploração mental é a mesma, ainda que o primeiro esteja em forte (des)vantagem por estar vinculado a um lar. Em dado momento, os dois compartilham uma bebida e a garrafa em cima da mesa é visualmente o que os separam. Dois lados quebrados pela perda da consciência.

Seis personagens desconhecem o que temem, mas são íntimos do incômodo. Não à toa a praga assola, primeiramente, os filhos e é a partir deles que surge o conflito físico entre os pais. Quando o futuro supostamente é violado, os poderes não se importam mais em manter escondida a sua guerra.

Ao Cair da Noite (2017) é um filme de drama sob clássicas características do subgênero pós-apocalíptico, mas sua força maior diz respeito ao talento de encontrar, em tais circunstâncias, o terror e relacioná-lo com eventos que ainda não aconteceram. O espectador desconhece os fatos, tampouco os personagens; ao passo que a direção do Trey Edward Shults merece menção por nunca deixar que essas lacunas façam com que o roteiro perca o ritmo. Pelo contrário, os poucos personagens se agigantam em momentos variados e a fotografia de Drew Daniels – que já havia trabalhado com o diretor no ótimo Krisha (2015) – repleta de simbolismos acrescenta ainda mais na experiência catástica que esse filme proporciona. O medo que emana do interno do homem é, sem dúvida, o mais assombroso que existe.

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Pieles (2017)

Peles (Pieles, Espanha, 2017) Direção: Eduardo Casanova

Como em qualquer arte, o cinema respira insanidade. O realismo é maravilhoso e boa parte das obras independentes se apoiam na visceralidade do cotidiano. Mas há de se imaginar que a normalidade assusta, tanto quanto o terror ou suspense, a falta do abstrato limita o potencial criativo. É por esse motivo que devemos aplaudir quando ideias diferentes são apresentadas no cinema porque, diferentemente de outras artes, o audiovisual envolve muitos realizadores, todos trabalhando em suas camadas para se atingir um mesmo resultado. A insanidade precisa se fragmentar em diversos pedaços de modo que atinja a arte como um todo, caso contrário, mesmo uma mensagem poderosa alcançará à mediocridade. Ainda sobre isso, é preciso ter coragem para apresentar obras como Pieles (2017) pois como se sabe o artista produz um filme e ele é apresentado em uma experiência coletiva e, por diversas vezes em casos como esse, a sensibilidade é a única coisa que separa aqueles que entenderam ou não determinado recado do realizador.

Pieles (2017), portanto, é feito para chocar. Mas o choque é somente a primeira camada – a qual certamente o diretor sabe que a maioria irá atingir – para uma imensidão de temas relevantes que englobam a conduta obsessiva do ser humano em busca da perfeição física e como esse corpo dialoga com outros, existe uma nudez que teimamos em esconder, o corpo casto é, hoje mais do que nunca, motivo de vergonha em um mundo imediatista e expositivo.

Se esconder o corpo se tornou uma atividade corriqueira em tempos onde a artificialidade “mostra os dentes”, ganha ainda mais forças com a facilidade de manipulação que o registro audiovisual provoca no indivíduo, desde estrelas de cinema até famosos do Instagram, todos são protagonistas de uma vida que chama as atenções e, por elas, se tornam reféns. Emagrecer é a solução e o passar do anos simboliza um inimigo mortal. Enquanto isso, a boa parte da população que se mantém invisível – e se diz confortável com essa condição – é obrigado à viver em um mundo de consumo onde o padrão são os manequins das lojas. Tudo é preciosamente imposto e deliciosamente oportunista e nós? bem, somos escravos e, por esse motivo, ainda não nos habituamos com a ideia de que somos e são todos imperfeitos.

Eduardo Casanova é um jovem de vinte e seis anos que parece compreender isso e ter a audácia de falar há tempos sobre a questão, desde o curta “Eat my Shit“, o qual serviu como inspiração para esse longa. Pieles (2017) resgata a atmosfera surreal e maluca de Jodorowsky com o charme e narrativa direta do Almodóvar, ainda há uma inteligência por parte do diretor em conduzir uma grande história em pouco tempo e que ainda acompanha momentos da vida de diversos personagens. O resultado de tudo isso é que o espectador ama ou odeia essa obra, mas é inevitavelmente incrível quando a percepção sobre o grotesco vai se modificando em base à qualidade argumentativa e toda a bizarrice se transforma em poesia.

As cores rosa e roxo se dividem no protagonismo das cenas, e ainda ilustram perfeitamente algumas lacunas emocionais, é possível compreender exatamente os conflitos que unem todas personagens e os detalhes que as separam, dores exclusivas são ressaltadas com a leve diferenciação das cores e iluminação. A sintonia aqui tem resquícios depressivos, os personagens são “deformados” pois assim se enxergam e esse sentimento encontra o seu agravante com os julgamentos alheios. Mas cabe ressaltar que não existe surrealidade em uma mulher que, ao invés da boca, tem um ânus no rosto, isso porque tem muita gente por aí que dedica sua vida, seja pessoal ou profissional, para falar e comer merda – perdoem-me minha impolidez, mas a obra exige o um manifesto direto; não existe monstruosidade em um menino que quer cortar as suas pernas, afinal, muitos possuem saúde e não se contentam, submetendo-se à infinitas cirurgias afim de encontrar a sua completude, como se a existência se resumisse somente no exterior.

Quanto mais as coisas se aceleram e a tecnologia encontra o seu estágio máximo, mais a humanidade se amputa. Parece que o homem em sociedade nunca está confortável, nunca se aceita como é: normal e repleto de erros. O maior erro é rejeitar a possibilidade de felicidade para vestir uma fantasia de ursinho, de modo que a fofura artificial da roupa sintetize tudo aquilo que nós poderíamos ser, mas não somos por falta de carinho com nós mesmos.

Se não bastasse, o sistema existencial cobra desses indivíduos perdidos que se achem nos espaços vazios de um outro alguém. Criam-se relações que trazem consigo uma gama de interesses movidos pela fragilidade. Se o padrão manipula nossa sagrada imagem refletida no espelho, quem dirá uma vida em dois, em três, em sucessivos infinitos.

Às vezes nos sentimos esgotados em um mundo de aparências. Sorte que todos, direta ou indiretamente, estão com os olhos tampados diante à uma imensidão de nuncas. No entanto, é triste afirmar que nem todos conseguem ultrapassar essa limitação com olhos de diamante. Resta para os outros roubar essa singularidade e evacuar no banheiro.

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