A Ghost Story (David Lowery, 2017)

A Ghost Story (Idem, EUA, 2017) Direção: David Lowery

A Ghost Story (2017) não é um filme de terror – pelo menos no sentido literal – pois recusa constantemente a ideia de que o sobrenatural se desprende da realidade da qual conhecemos, é como se o fim proporcionasse uma experiência transcendental do experimento de si, da trajetória. O fantasma, associado evidentemente ao campo sensorial, é trabalhado aqui de forma curiosa: o diretor e roteirista David Lowery opta por mostrá-lo de forma infantilizada e clássica, as formas humanas são escondidas em um lençol com dois buraquinhos, os quais funcionam como ferramentas para captar a vida, mas que cuja escuridão não reflete a condição do florescimento do dia-a-dia.

A história é sobre um casal M (Rooney Mara) e C (Casey Affleck) que enfrentam a rotina entre a incomunicabilidade e o afeto, porém tudo muda quando C falece em um acidente de carro. O espectador é convidado para uma jornada com o seu fantasma, o qual observa atentamente a condição da sua esposa, bem como se mantém enraizado com o lar.

É de se notar, ainda sobre a figura do fantasma, os detalhes referentes aos olhos que, desgastados pelo tempo, vão alongando de modo que estejam coerentes com o tamanho da tristeza do protagonista; as sujeiras do lençol também são importantes para essa reflexão. Contudo, por se tratar de uma presença quase imóvel e que não tem diálogos, senão, por gestos, os sutis movimentos de câmeras e a fotografia falam pelo personagem e, mais do que isso, demonstram com perfeição sua psicologia desestruturada pela existência massante.

A razão de aspecto reduzida é uma decisão importante e diferente, assim como o conceito geral da obra, desde o início parece se tratar do passado dos personagens, e isso definitivamente faz todo sentido, pois passado, presente e futuro aqui simplesmente não importa. O cinema como reflexo da vida resgata a condição maravilhosa de se ater ao meio e não à finitude das histórias. O formato de tela traz uma sensação parecida com aquela provocada por uma fotografia antiga, ainda que seja possível relacioná-la, também, com a visão reduzida dos personagens que circulam pelo ambiente e tencionam fugir, de alguma maneira.

A partir disso, a fotografia é fantástica ao demonstrar, junto com a trilha, todas as dores, solidões e silêncios que o casal sente, mesmo que separados pelo término. As grades da janela aprisionando o fantasma, bem como sua presença desconfortavelmente estática ao fundo enquanto, em primeiro plano, M come uma torta com um misto de raiva, descontrole e desamparo – e essa posição se repete diversas vezes, o símbolo visual é forte ao exibir M constantemente nos cantos da tela, ao passo que o fantasma permaneça simetricamente no meio quando só.

A transição de tempo nessa cena, por exemplo, é feita com um símbolo em comum (música) através de duas perspectivas diferentes e sendo ressaltadas através da fotografia. O passado em cores quentes e o presente azulado, frio.

O diretor David Lowery é um nome interessante para acompanharmos nos próximos anos, jovem e que visivelmente possui muito talento e imaginação, consegue transitar com facilidade pelo alternativo e o popular, dirigiu o “Meu Amigo, o Dragão” (2016) no mesmo tempo que fez “Amor Fora da Lei” (2013), duas propostas completamente diferentes e ambos muito bons. É difícil encontrar um artista que em tão pouco tempo consegue assimilar esse dinamismo criativo e, mais do que isso, deixar sua marca autoral independente da grandeza do produto. No segundo exemplo, inclusive, foi o começo da sua parceria com o Casey Affleck e Rooney Mara.

Casey Affleck marca presença no primeiro ato de “A Ghost Story” (2017) e faz algo parecido com o seu personagem em “Manchester by the Sea” (2016), embora seja similar, o conceito do personagem também resgata uma tristeza mórbida, pois é sugerido o seu estado conformista durante os primeiros minutos, o deslocamento é uma tortura para ele. Já Rooney Mara demonstra mais uma vez o seu enorme talento ao se ater às nuances de uma personagem distanciada forçadamente do afeto. Contudo, as performances acolhedoras do começo são deixadas de lado em uma decisão corajosa no momento que o fantasma assume o protagonismo, a partir de então a narrativa passa a ter uma postura pouco convencional onde os inúmeros personagens, situações e ambientes possuem uma força deslumbrante sobre o fantasma que observa o tempo e os diálogos como forma de preencher sua curta existência afim de encontrar um meio de partir.

Há ainda uma participação do músico Will Oldham em uma pequena mas impactante cena, cujo conteúdo sintetiza a obra, demonstrando com isso o pessimismo de uma vida, feitos e criação esquecida pelo tempo. A ideia que é construída é dolorosamente visceral, o indivíduo se apagando aos poucos até se tornar um veículo, aquilo que passou significa pouco para o mundo, embora seja tudo para ele. Talvez a consciência desse fato – teoricamente simples mas inacreditavelmente complicado de ser aplicado na prática – represente toda a busca dos homens que, desde o princípio, busca o seu reflexo ao reproduzir a sua rotina artisticamente. Por que tencionamos construir um lar e uma cumplicidade com um outro alguém, sendo que cada um possui o seu tempo-espaço-necessidade individual?

“A Ghost Story” (2017) é feliz na criação de perguntas elementares, sem ter a mínima pretensão de respondê-las. Assim como o fantasma, contextualiza o espectador em uma belíssima oportunidade de refletir sobre a obra primordial, aquela que investiga os porquês das decisões, preocupações e patrimônios que nos deixam cada dia mais desumanizados. Apesar de delicado, o único momento agridoce da obra é justamente no ponto que momentos da vida do protagonista passam pelos seus olhos, onde as memórias alcançam o seu auge. Todos nós teimamos viver lindas ilusões para, no fim, desenterrarmos o nosso bilhete engolido pelo lar/conforto.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Doentes de Amor (Michael Showalter, 2017)

Zoe Kazan estabelece, a cada trabalho, seu nome no topo dos indies agridoces e românticos. Com isso, sua atuação cai na mesmice e até mesmo o esteriótipo de suas personagens são os mesmos. Isso é legal na reunião de inúmeros fãs pelo mundo, no entanto chega um momento – principalmente se a obra for de qualidade duvidosa em relação ao roteiro, principalmente – que cansa o público. Escrevo sobre a atriz, antes de mais nada, pois assistindo seus novos filmes percebo algo parecido com o que acontece com a Zooey Deschanel.

The Big Sick (2017) tem muito de In Your Eyes (2014) e Será Que? (2013), porém sem a mesma qualidade em estabelecer um elo emocional entre o casal como forma de aproximar o espectador ao drama que os envolvem. A partir disso, aqui se repete diversas coisas que de tão utilizadas se tornaram medíocres, como doenças, amor proibido, não aceitação da família etc. O envolvimento do casal acontece de forma tão abrupta, que tudo o que se desenvolve a partir de então se torna, no mínimo, risível. No primeiro ato há a tentativa desesperada de estabelecer o protagonista, o paquistanês Kumail (Kumail Nanjiani), como um moço incrivelmente bem-humorado, no entanto suas colocações levianas simplesmente o torna infantil, o que certamente não condiz com a reação das pessoas que o envolvem, ainda mais em uma situação tão séria.

Se um romance em uma comédia romântica não causa nenhum tipo de empatia já é algo estranho, acrescente uma comédia que não funciona na maioria dos casos e, pior, só direciona o espectador para outro caminho, que não o mostrado. Os diálogos não possuem harmonia, as situações são impostas em base ao absurdo e precisamos aceitar, caso contrário não haveria filme e as tentativas de dar profundidade aos dilemas como preconceito e limitação cultural perdem todo o sentido no momento que não são construídos com inteligência.

Cinco meses de namoro aqui parecem somente três dias. É de se notar, ainda, que nesse tempo o casal nunca tenha conversado sobre as diferenças de tradições entre eles, pois quando Emily (Zoe Kazan) descobre que o seu namorado não pode assumi-la para a família porque seria expulso, sua reação é realizado de maneira tão incoerente com a jovialidade e desprendimento até então demonstrado, que a cena e principal motivação se torna uma verdadeira comédia – algo terrível, visto que o tema é muito sério.

Ainda que poucas coisas boas possam ser tiradas desse filme, destaco a família da Emily, principalmente sua mãe interpretada pela Holly Hunter, que realmente rouba a cena todas as vezes que aparece e, impressionantemente, é a única que faz jus à situação que se encontra e segue o mesmo perfil até o final. Sendo uma figura forte, cômica, no mesmo tempo que passa por um conflito pessoal no relacionamento e, evidentemente, com a filha. O humor falho que tentam empurrar para o Kumail, é muito melhor realizado com a despretensão e naturalidade dela.

O diretor Michael Showalter parece despontar como um grande nome das comédias indies, depois de dirigir a série Love, fez Doris, Redescobrindo o Amor (2015) e, até agora, vem experimentando através dos trabalhos populares. Aqui faz parceria com o ator e roteirista Kumail Nanjiani – que imprime boa parte de suas experiências, pois nasceu no Paquistão e trabalha há anos fazendo comédia nos Estados Unidos. Pena que a imaturidade como roteirista se sobressaia e que bons momentos referentes à sua cultura sejam desperdiçadas em uma tentativa frustada de se esconder em um romance clichê, repleto dos esteriótipos criados pela meiga – e sempre com carinha de menina de treze anos – Zoe Kazan.

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De Canção Em Canção (Terrence Malick, 2017)

Esse é mais um representante dessa nova etapa artística do diretor Terrence Malick, onde o universo, técnica e figuras importantes do cinema parecem entrar em comum acordo para representar a angústia da existência. Talvez seja justamente por isso que o diretor consiga agregar tantos nomes poderosos em um único trabalho, mesmo que sejam cortados na edição, pois eles sabem que o estilo do diretor transcende a narrativa dita através dos anos como convencional, a sua câmera invade a privacidade da performance, bem como por vezes se recusa a aceitar o óbvio ou o ascendente. Perceba momentos que o movimento de câmera acontece e para nos detalhes, como na mão de uma personagem na maçaneta da porta. Às vezes a reação facial das personagens esconde trejeitos, a postura, enfim, uma série de características que compõe a sua personalidade. No mesmo tempo que o cinema funciona como uma janela para observar a vida, o seu formato e padronização impede que tenhamos a perspectiva completa, admirar a paisagem pela janela, dentro de casa, e no exterior são duas coisas completamente diferentes, sendo assim, Malick é como um garoto rebelde, mesmo que sua mãe o castigue e o impeça de sair, ele foge e faz questão de registrar absolutamente tudo aquilo que lhe convém, mesmo que soe como corrupção da performance e convencionalidade.
Sua câmera se movimenta de forma ondeante, obrigando o espectador à árdua tarefa de assimilação espacial, as sensações dizem respeito ao etéreo, como se tivéssemos analisando o comum sob a perspectiva de uma deidade.

De Canção Em Canção (2017) segue esse padrão, o mesmo de A Árvore da Vida (2011), Cavaleiro de Copas (2015) e Amor Pleno (2013) e, por isso, pode ser injustamente acusado como repetitivo e sem sentido. Mas o curioso é que visivelmente o diretor compreende que esses adjetivos fazem parte do processo, ainda mais quando o produto artístico é tão complexo e transcendental. Nem todas pessoas estão dispostas à falarem de si mesmas, e fazê-lo de modo a contemplarem diversas realidades que não condizem com a sua é certamente ainda mais difícil.

Nesse longa a incoerência do amor e cumplicidade são analisados a partir do universo das estrelas da música. A produção musical que exige individualidade e momentos curtos de sincronia. É de se notar a flexibilidade fotográfica que ora se dedica intimamente às figuras que acompanha, ora os recusa, transformando-os em invisíveis em meio à ambientação – diferença estética que faz jus a instabilidade do mundo que acompanha.

As narrações em off durante boa parte do filme são simples e diretas, parecem realmente trechos de músicas e não me espantaria se de fato fossem. Elas dialogam com o cotidiano e abrem espaço para o visual, onde pequenas demonstrações de afeto, posição no quadro e palavras fazem dos inocentes movimentos das personagens experiências incrivelmente intensas.

Existem tantas cenas simbólicas – muitas delas perceptivelmente improvisadas pelo ótimo elenco – que precisaria de muito tempo para as analisar metaforicamente. Por exemplo um momento em que o casal Faye (Rooney Mara) e BV (Ryan Gosling) fazem uma brincadeira relacionada à confiança. Os dois personagens, inclusive, assim como Rhonda (Natalie Portman) são os mais interessantes como início da reflexão sobre a condição de corrupção e decepção de um jovem esperançoso inserido no meio musical. Cook (Michael Fassbender) é um personagem completamente sedado pela conquista, é a personificação do fascínio perigoso que o poder teima em sussurrar nos ouvidos como a perfeita solução.

De Canção Em Canção (2017) é uma obra sensorial, que exige muita atenção e a maior imersão possível afim de proporcionar a melhor experiência. No entanto, atrás da narrativa pouco convencional, não se esconde um material complexo como a sua forma – como acontece em outros trabalhos do diretor. Ainda assim é um filme extremamente relevante e que apura os sentidos, pois transforma o cotidiano e a realidade desgastante da fama em poesia; sustentado principalmente pela fotografia de Emmanuel Lubezki e pelos impulsos naturais performáticas de um elenco incrivelmente talentoso, mas que pela própria linguagem são sabotados em muitos momentos.

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Annabelle: Creation (David F. Sandberg, 2017)

Annabelle 2: A Criação do Mal (Annabelle: Creation, EUA, 2017) Direção: David F. Sandberg

O cinema de terror atual se divide claramente em duas esferas completamente diferentes, contudo, as duas vertentes narrativas têm como prioridade a qualidade no que diz respeito à ambientação e o processo de sugestividade. Obras como “No Cair da Noite” (2017), A Bruxa (2016), Sob a Sombra (2016) utilizam a contemplação e os silêncios como forma de incentivar a atenção absoluta do espectador, de modo que o sentimento aja em virtude da curiosidade, reflexão, desconforto ou mesmo o medo; por outro lado, os mais populares, motivados pelo sucesso de novos inteligentes diretores como James Wan, Mike Flanagan, David F. Sandberg etc, compreenderam através da manifestação do público, que o gênero terror moderno precisa caminhar em outra direção afim de não se acomodar no óbvio. É possível perceber, portanto, uma evolução em filmes como “Invocação do Mal 2” (2016), “Quando as Luzes se Apagam” (2016) ou “Ouija 2” (2016), mesmo que alguns citados tenham qualidades finais duvidosas, há de se observar alguns detalhes oportunos em cada um deles, a direção de Wan e habilidade em referências dentro do gênero, a utilização da ausência de luz – medo primitivo – como forma de fragilização psicológica e a competência de Flanagan em trabalhar com o som em seus filmes.

Quando o primeiro “Annabelle” foi lançado, em 2014, a ideia era aproveitar o sucesso do “Invocação do Mal”. E o maior problema do filme é justamente nunca ser pensado por si, mas como extensão de algo maior. O desenvolvimento rápido tirava qualquer possibilidade de mergulho nas sombras que uma boneca amaldiçoada evoca, no fim, um grande potencial fora perdido em prol a um filme exibicionista. Mas na continuação eles acertam, a começar pela escolha de David F. Sandberg para dirigir, um artista que errou em seu primeiro longa-metragem mas que possui diversos curtas-metragens medonhos e, por incrível que pareça, nenhum passa de dois minutos – alás, dois deles são referenciados em momentos oportunos em “Annabelle: Creation”.

O filme começa da maneira mais comum possível, mostrando o passado de uma família onde um acidente fatal com uma menina desencadeia uma série de problemas paranormais em uma mansão de aspecto tenebroso. Fato que se agrava ainda mais a partir do momento onde cinco meninas de um orfanato são convidadas a se hospedarem no local. A apresentação da protagonista Janice (Talitha Bateman) acontece de forma oportuna, pois ao descer do ônibus a câmera se posiciona no degrau ao passo que mostra a dificuldade da menina em descer por conta da sua limitação física em uma das pernas, ponto importante não só pela questão psicológica, a menina se sente a mais fragilizada e vagarosamente vai perdendo as esperanças de ser adotada, como também no desespero causado em diversas cenas de eventos sobrenaturais, onde o fato de não poder correr obriga a personagem a enfrentar o medo ou mesmo fechar os olhos, se esconder, enquanto o espectador enxerga o que está acontecendo em volta, algo que potencia a experiência e exige um bom trabalho com os espaços e objetos da casa.

A maior força do primeiro ato é na exploração dos elementos que futuramente serão importantes para as cenas de sustos, a tetricidade dos objetos fazem desse filme impactante em diversos momentos, inclusive a quantidade de possibilidades que se formam em todos os cômodos da casa são incríveis, parece que cada boneco, sombra ou pano pode se tornar um acessório para provocar o medo. Quando o espectador assimila o espaço, fica constantemente em alerta com o que acontece no segundo plano, e isso é muito oportuno no gênero, mas dificilmente é bem feito.

As atrizes mirins têm ótimas performances, mesmo que o longa dependa da extrema coragem de duas personagens para dar sequência ao roteiro. O diretor David F. Sandberg resgata sua melhor competência – demonstrada nos curtas-metragens sem diálogos, caseiros e com somente uma personagem – em criar cenas assustadoras sem recorrer aos artifícios mais comuns, apesar de tê-los como obrigação, nunca mostra aquilo que esperamos no mesmo tempo ou maneira, sempre tem algum detalhe que nos tira a atenção e surpreende.

O terceiro ato destoa do desenvolvimento mostrado até então, o equilíbrio da exposição e sugestão dá lugar as soluções apressadas e decisões que se retardaram afim de se encaixarem no roteiro. Mas ainda assim, “Annabelle: Creation” segue sendo um ótimo filme desse universo criado pelo “Invocação do Mal” e que continuará nos próximos anos apresentando as mais diversas figuras demoníacas perseguindo as mais inocentes almas.

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Ao Cair da Noite (2017)

Ao Cair da Noite (It Comes at Night, EUA, 2017) Direção: Trey Edward Shults

O mundo desiste e os humanos enfrentam a devastação, o silêncio, o antes. O perigo sempre está um passo a frente em It Comes at Night (2017), os personagens são comprimidos em todos os sentidos, visualmente envoltos de sombras, ambientes estreitos, ainda que as luzes representem a fuga espiritual e psicológica, mas a consciência da iminente finitude desperta as condições mais primitivas do ser, a proteção familiar e vinculação afetiva assumem o mandato e a esfera trabalhada é a política, onde a teia familiar passa a representar um Estado, regendo sua continuidade em base à desconfiança, e é justamente essa posição filosófica no sentido metafórico e frágil enquanto realidade, que se origina o terror nesse longa: a negação intensa das circunstâncias do mundo em prol à prolongação da vida, é justamente o motivo da desestruturação desse Estado criado pela mãe, pai e filho (Carmen Ejogo, Joel Edgerton e Kelvin Harrison Jr., respectivamente).

Nesse sentido, é interessante perceber que o inimigo aqui é a própria sensação de perigo, como um vazio rastejante do externo; quando uma segunda família é apresentada, imediatamente o espectador percebe que a desconfiança mútua é consequência da realidade e que de nenhum personagem é mau, mas todos são frutos da condição selvagem que a sobrevivência exige. Retomando ao princípio, o escuro aqui trabalhado é o mesmo da pré-história, o limite físico e mental fica ainda mais intenso a partir do momento que não há o deslocamento.

As paredes da casa aprisionam todos e, por esse motivo, não existe expectativa de fuga. O designer de som é tão extremo que parece eterno, a narrativa cautelosa reforça a verdadeira intenção de investigar a família no seu âmago e disfuncionalidade.  Um pai é historiador e o outro é ligado com trabalhos braçais, a diferença é atenuada e a exploração mental é a mesma, ainda que o primeiro esteja em forte (des)vantagem por estar vinculado a um lar. Em dado momento, os dois compartilham uma bebida e a garrafa em cima da mesa é visualmente o que os separam. Dois lados quebrados pela perda da consciência.

Seis personagens desconhecem o que temem, mas são íntimos do incômodo. Não à toa a praga assola, primeiramente, os filhos e é a partir deles que surge o conflito físico entre os pais. Quando o futuro supostamente é violado, os poderes não se importam mais em manter escondida a sua guerra.

Ao Cair da Noite (2017) é um filme de drama sob clássicas características do subgênero pós-apocalíptico, mas sua força maior diz respeito ao talento de encontrar, em tais circunstâncias, o terror e relacioná-lo com eventos que ainda não aconteceram. O espectador desconhece os fatos, tampouco os personagens; ao passo que a direção do Trey Edward Shults merece menção por nunca deixar que essas lacunas façam com que o roteiro perca o ritmo. Pelo contrário, os poucos personagens se agigantam em momentos variados e a fotografia de Drew Daniels – que já havia trabalhado com o diretor no ótimo Krisha (2015) – repleta de simbolismos acrescenta ainda mais na experiência catástica que esse filme proporciona. O medo que emana do interno do homem é, sem dúvida, o mais assombroso que existe.

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Pieles (2017)

Peles (Pieles, Espanha, 2017) Direção: Eduardo Casanova

Como em qualquer arte, o cinema respira insanidade. O realismo é maravilhoso e boa parte das obras independentes se apoiam na visceralidade do cotidiano. Mas há de se imaginar que a normalidade assusta, tanto quanto o terror ou suspense, a falta do abstrato limita o potencial criativo. É por esse motivo que devemos aplaudir quando ideias diferentes são apresentadas no cinema porque, diferentemente de outras artes, o audiovisual envolve muitos realizadores, todos trabalhando em suas camadas para se atingir um mesmo resultado. A insanidade precisa se fragmentar em diversos pedaços de modo que atinja a arte como um todo, caso contrário, mesmo uma mensagem poderosa alcançará à mediocridade. Ainda sobre isso, é preciso ter coragem para apresentar obras como Pieles (2017) pois como se sabe o artista produz um filme e ele é apresentado em uma experiência coletiva e, por diversas vezes em casos como esse, a sensibilidade é a única coisa que separa aqueles que entenderam ou não determinado recado do realizador.

Pieles (2017), portanto, é feito para chocar. Mas o choque é somente a primeira camada – a qual certamente o diretor sabe que a maioria irá atingir – para uma imensidão de temas relevantes que englobam a conduta obsessiva do ser humano em busca da perfeição física e como esse corpo dialoga com outros, existe uma nudez que teimamos em esconder, o corpo casto é, hoje mais do que nunca, motivo de vergonha em um mundo imediatista e expositivo.

Se esconder o corpo se tornou uma atividade corriqueira em tempos onde a artificialidade “mostra os dentes”, ganha ainda mais forças com a facilidade de manipulação que o registro audiovisual provoca no indivíduo, desde estrelas de cinema até famosos do Instagram, todos são protagonistas de uma vida que chama as atenções e, por elas, se tornam reféns. Emagrecer é a solução e o passar do anos simboliza um inimigo mortal. Enquanto isso, a boa parte da população que se mantém invisível – e se diz confortável com essa condição – é obrigado à viver em um mundo de consumo onde o padrão são os manequins das lojas. Tudo é preciosamente imposto e deliciosamente oportunista e nós? bem, somos escravos e, por esse motivo, ainda não nos habituamos com a ideia de que somos e são todos imperfeitos.

Eduardo Casanova é um jovem de vinte e seis anos que parece compreender isso e ter a audácia de falar há tempos sobre a questão, desde o curta “Eat my Shit“, o qual serviu como inspiração para esse longa. Pieles (2017) resgata a atmosfera surreal e maluca de Jodorowsky com o charme e narrativa direta do Almodóvar, ainda há uma inteligência por parte do diretor em conduzir uma grande história em pouco tempo e que ainda acompanha momentos da vida de diversos personagens. O resultado de tudo isso é que o espectador ama ou odeia essa obra, mas é inevitavelmente incrível quando a percepção sobre o grotesco vai se modificando em base à qualidade argumentativa e toda a bizarrice se transforma em poesia.

As cores rosa e roxo se dividem no protagonismo das cenas, e ainda ilustram perfeitamente algumas lacunas emocionais, é possível compreender exatamente os conflitos que unem todas personagens e os detalhes que as separam, dores exclusivas são ressaltadas com a leve diferenciação das cores e iluminação. A sintonia aqui tem resquícios depressivos, os personagens são “deformados” pois assim se enxergam e esse sentimento encontra o seu agravante com os julgamentos alheios. Mas cabe ressaltar que não existe surrealidade em uma mulher que, ao invés da boca, tem um ânus no rosto, isso porque tem muita gente por aí que dedica sua vida, seja pessoal ou profissional, para falar e comer merda – perdoem-me minha impolidez, mas a obra exige o um manifesto direto; não existe monstruosidade em um menino que quer cortar as suas pernas, afinal, muitos possuem saúde e não se contentam, submetendo-se à infinitas cirurgias afim de encontrar a sua completude, como se a existência se resumisse somente no exterior.

Quanto mais as coisas se aceleram e a tecnologia encontra o seu estágio máximo, mais a humanidade se amputa. Parece que o homem em sociedade nunca está confortável, nunca se aceita como é: normal e repleto de erros. O maior erro é rejeitar a possibilidade de felicidade para vestir uma fantasia de ursinho, de modo que a fofura artificial da roupa sintetize tudo aquilo que nós poderíamos ser, mas não somos por falta de carinho com nós mesmos.

Se não bastasse, o sistema existencial cobra desses indivíduos perdidos que se achem nos espaços vazios de um outro alguém. Criam-se relações que trazem consigo uma gama de interesses movidos pela fragilidade. Se o padrão manipula nossa sagrada imagem refletida no espelho, quem dirá uma vida em dois, em três, em sucessivos infinitos.

Às vezes nos sentimos esgotados em um mundo de aparências. Sorte que todos, direta ou indiretamente, estão com os olhos tampados diante à uma imensidão de nuncas. No entanto, é triste afirmar que nem todos conseguem ultrapassar essa limitação com olhos de diamante. Resta para os outros roubar essa singularidade e evacuar no banheiro.

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Brimstone, 2017

Brimstone (Idem, EUA, 2017) Direção: Martin Koolhoven e Martinus Wouter Koolhoven

Basta assistir poucos minutos desse filme para perceber uma preocupação quase exagerada em trabalhar com o soturno. Não que isso seja ruim, pelo contrário, a manifestação do caos está presente em cada momento, as injustiças e dores provocadas, principalmente, para crença extrema.

Liz (Dakota Fanning) é uma mulher que tenta fugir do seu passado mas se vê confrontada com a chegada de um reverendo diabólico na cidade. Existe entre eles um passado horroroso, motivando uma perseguição cruel, que em consequência afetará a família da protagonista e a sua honra.

Na primeira cena vemos um homem atirando na água. A sutileza da cena esconde um significado profundo, pois as balas perdem a força e velocidade pelo bloqueio do rio. Algo que será, posteriormente, referenciado com a proteção extrema da mãe em relação à integridade da filha. A perseguição, movida por uma insanidade intensa e instinto de vingança, desperta o ódio rapidamente, transformando o vilão – interpretado magistralmente pelo Guy Pearce – em uma figura transgressora, fria e inquebrável. É de se notar, inclusive, que o vilão é apresentado em um plongée e aos poucos vai virando contra-plongée, ressaltando justamente o seu poder.

Ainda sobre planos, em momentos pontuais é utilizado o plongée como uma forma de simular uma possível observação divina, isso é válido pois o inimigo é um homem cuja força e maior perigo se encontra justamente nas suas convicções de que é um veículo para os desejos de deus. Dado o contexto, a ignorância é o perfeito elemento para criar monstros que se alimentam das limitações alheias.

A violência está impregnada e é trabalhada de forma exaustiva pelos diretores Martin Koolhoven Martinus e Wouter Koolhoven, o que acaba cansando em dado momento, mas sua importância em relação aos maus tratamentos às mulheres, obsessão e extremismo religioso torna a obra extremamente significativa.

“Mulheres mais velhas cheiram diferentes. Jovens são inocentes”

O mal, aqui, se alimenta da inocência, a construção familiar é baseada no patriarcalismo e o trabalho constante clama por alívio. Talvez a maior fraqueza do homem esteja atrelado justamente a sua inerência à prática de rituais. Se por um lado o filme é inteligente em trabalhar esses temas de modo a provocar o desconforto, existe uma lacuna grande em relação à atuação da protagonista. Dakota Fanning simplesmente não está à altura do seu parceiro de cena, tamanha inexpressividade incomoda, pois o contraste com a situação é imenso. Por outro lado, Guy Pearce prova mais uma vez o seu talento singular, deleitando-se nas possibilidades maquiavélicas do seu papel e dando ênfase ao seu comportamento e ações polêmicas.

Em última análise, “Brimstone” é uma obra profundamente melancólica – não à toa utiliza a fotografia azulada para reforçar essa ideia -, que acompanha a jornada de uma personagem e revela em doses homeopáticas, e fora de ordem cronológica, a sua vida amaldiçoada. No entanto, a força da sua existência se encontra na coragem demonstrada ao proteger o seu futuro, lutando contra um passado que teima em se repetir e se desprendendo a cada passo, alcançando a liberdade ao se isolar sob a proteção das águas que a dividem da ira dos homens.

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Fragmentado, 2017

Fragmentado (Split, EUA, 2017) Direção: M. Night Shyamalan

M. Night Shyamalan parece caminhar de forma diferente dos demais seres humanos, no que diz respeito aos trabalhos. Quando novo, realizou obras maravilhosas e, após a experiência, parece que se desencontrou  da sua melhor versão. Diferentemente do comum, a maturidade não fez bem ao diretor que soa constantemente forçar o tecnicismo, esquecendo drasticamente o lado audacioso de se entregar à arte sem medo de errar e, principalmente, sem querer ser aceito pela maioria. O processo criativo não visa, em um primeiro momento, o lucro e, se o faz, está completamente errado. A construção do roteiro demanda atenção unicamente à ideia, não a aplicação do conteúdo às grandes massas.

A história é sobre um rapaz chamado Kevin (James McAvoy) que possui vinte e três personalidades diferentes e que interagem entre si, servindo como um escudo para a sua consciência que, tendo presenciado situações complicadas quando criança, bloqueou a realidade através da multiplicação de facetas. Uma dessas personalidades, aparentemente a líder delas, sequestra três jovens. Elas precisam estudar o seu raptor de modo que suas ações entrem em comunhão com as suas fragilidades, o que não será nada fácil.

Anya Taylor-Joy interpreta uma das garotas, Casey. A personagem, quando analisada separadamente, é bem interessante. Dotada de uma inteligência e equilíbrio, infelizmente elementos que nunca estão lado a lado em personagens de filmes de terror, principalmente femininas, utiliza a sua postura como proteção diante à situação complicada que se encontra. Em um primeiro momento, chama a atenção e aproxima o espectador da identificação, algo muito importante para filmes que se utilizam do sequestro para causar o desespero.

Mas o principal objetivo do filme parece mesmo discutir psicologia. Utilizando a mente do Kevin como uma forma extrema de extrair a novidade e relacioná-la com o terror clichê. Nesse ponto, estamos falando de um filme medíocre, que simplesmente entrega uma série de dilemas de forma infantil e não se preocupa em sustentar isso de forma coerente, tampouco dá valor à uma personagem que poderia acrescentar nessa abordagem: a psicóloga. No primeiro diálogo dela com uma das personalidades de Kevin, ela se mostra totalmente preparada em relação à situação do seu paciente, chegando inclusive a mencionar o fato de que “conhecia as vinte três personalidades”reparando em nuances e sustentando uma postura intelectual. Em trinta minutos isso é derrubado pelo próprio roteiro, até chegar a uma conclusão infame, que não só ofusca o trabalho dos profissionais da mente como também nos faz perder qualquer senso de seriedade ao enfrentar a tortura chamada “Fragmentado”. É visível os momentos em que o roteiro perde forças, prejudicando inclusive as excelentes performances dos seus atores principais, principalmente o James McAvoy que compõe algumas das principais personalidades de forma eletrizante, chegando a assumir uma que, por motivos pessoais, quer se passar por outra, a transição é perfeitamente ilustrada através de expressões sutis e bom trabalho vocal. Esse ator é um talento, a sua entrega é tão absurda que, curiosamente, ultrapassa os limites do seu próprio texto.

Começamos com uma apresentação frágil, passamos por poucos bons momentos onde o sentimento de ansiedade se sobressai e as abordagens psicológicas soam como maravilhas para quem gosta do tema, de repente, no entanto, isso é descartado e o óbvio assume o comando. A psicóloga especialista e concentrada dá lugar a uma senhorinha insegura, desesperada e, pior, despreparada; os flashbacks, que prometem agregarem à história um valor dramático, demoram a se resolver e o espectador fica esperançoso por uma explicação e, quando a tem, é tão lamentável que seria melhor ser completamente ignorado; e, por fim, transições da consciência, ilustradas por uma performance arrebatadora, passam a ser físicas e uma obra que pretendia demonstrar as obscuridades da psicologia humana se rende ao clichê do monstrinho perseguindo uma mulher desprotegida que, aos poucos, vai perdendo pedaços da roupa. É isso, volte a ser jovem da próxima vez M. Night Shyamalan!

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Moonlight, 2017

Moonlight: Sob a Luz do Luar ( Moonlight, EUA, 2017 ) Direção: Barry Jenkins

Quando o cinema consegue explorar personagens que são “errados” ou mantêm uma relação íntima com o erro, é realmente impressionante. Esse erro pode ser motivado por uma busca interior, talvez como um preenchimento das ambições mas, aqui, é pelas circunstâncias, o que certamente acrescenta ainda mais no impacto por conta de uma vida simples, afetada por diversos fatores como o descobrimento da homossexualidade, falta de carinho e vício em crack. Uma vida prejudicada pelo meio e pelos adultos, nasce com uma maldição, como se estivesse, desde criança, predestinado a sentir o castigo da mãe e buscar ser forte em uma condição que sussurra constantemente em seus ouvidos que irá cair; uma vida heroica por aguentar um soco do amigo/amante no rosto, cair e levantar, encarando o perigo e sendo, por ele, acompanhado em uma trajetória desequilibrada.

Ritmada por um azul melancólico que emerge lamentações e uma trilha que suaviza a calamidade, acompanhamos Black em três fases da sua vida que, por consequência, refletem bem os três atos do filme. O garoto, jovem e adulto enfrentam as adversidades da vida e das suas escolhas, sempre acompanhado da tentativa voraz de fugir da criminalidade e do preconceito sobre a sua opção sexual – que jamais é trabalhada com afinco, pois o mundo assim exige.

Existe poesia no desenvolvimento lento dos personagens, principalmente do protagonista. Cada segundo é a prova de que a maior capacidade do jovem diretor Barry Jenkins é conduzir os movimentos sem fazer nenhum tipo de julgamento, seja qual for a ação dos seus heróis. Isso dá a possibilidade de trabalhar com total respeito temas como condição precária de vida, usos de drogas, homofobia etc. Outra possibilidade real e bem exercida aqui é a sugestão – diversos olhares e silêncios respondem todas as perguntas do espectador, não se faz necessário um grande depoimento ou desabafo, até porque, se acontecesse algo assim, contrariaria a própria personalidade calada do protagonista.

O personagem principal é dividido em três partes e os nomes fazem referência ao momento: Little, Chiron e Black. Os nomes determinam o estágio e aquilo que irá enfrentar, o mesmo personagem se fragmenta ao ponto de se transformar totalmente fisicamente – claro, três atores o interpretam mas, de forma maravilhosa, todos se expressam da mesma maneira, fazem uso de algumas características fortes como as mãos mexendo nos cabelos e o olhar sempre permanece tímido e sensível, mesmo que o terceiro ator (Trevante Rhodes) seja grande e forte fisicamente, externamente, sua alma continua igual à primeira fase da vida, o mesmo garotinho assustado, sendo auxiliado e respeitado por um desconhecido e, quando questionado, demonstra ter dificuldade com os sentimentos, soando monossílabo.

Complexo na ideia e simples na execução, a forma orgânica que acompanhamos essa jornada é especial, existe uma sincronia entre a fotografia e a mensagem, assim como a sensação de conforto e medo ao assistir os movimentos de um herói como diversos que existem por ai. A diferença crucial é a sua verdade, transmitida por atuações espetaculares que traçam com perfeição o caminho árduo de uma existência sem amparos, sendo obrigado a sobreviver e manter-se forte, mesmo em meio à desordem.

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