A arte e o amor contra a ambição de um dia melhor

Divinas ( Divines, França, 2016 ) Direção: Houda Benyamina

★★★★★

A palavra “divina” é muito comum, mas dificilmente encontramos, em meio à rotina, uma boa forma de aplicá-la em nossa vida. O motivo é simples: divino, em síntese, é aquilo que está acima da compreensão humana, é a aceitação do sobrenatural e reflexão sobre os limites da nossa intelectualidade.

A ironia se encontra justamente na grandiosidade do seu significado e banalização no seu uso, visto que o maior elo do ser com qualquer plano superior e místico é, sem dúvidas, o seu próprio processo de evolução. Nesse ponto podemos sempre citar os jovens que, no auge dos seus primeiros contatos com o desprendimento, se veem diante à uma floresta interminável e escura chamada “crescer”.

“Dividas”, primeiro longa-metragem da diretora Houda Benyamina, busca na palavra uma metáfora maravilhosa com o desabrochar. É o exemplo perfeito de uma obra que discute não só a ânsia de uma jovem perante um mundo de facilidades, como também a sua reação diante as infinitas vírgulas que a vida coloca em nossos caminhos – no caso do filme, a mais evidente é a arte, pois a protagonista se apaixona por um dançarino que a faz repensar sua vida no crime.

A história começa e fica visível a narrativa realista, o uso inteligente da câmera que, através dos seus movimentos, transmite um estilo que beira o documental, tornando a realidade uma essência para o desenvolvimento. Se não bastasse, elementos técnicos como a baixa profundidade de campo em momentos cruciais, isola a protagonista do mundo que vive, o que será trabalhado ao longo por conta da ambição da garota em crescer financeiramente e se diferenciar, nem que para isso precise roubar ou vender drogas.

A personagem principal, Dounia – interpretada brilhantemente pela promissora Oulaya Amamra que também fez o curta-metagem “Belle Gueule” – é dotada de carisma, força e espontaneidade, junto com a sua amiga Maimouna ( Déborah Lukumuena ) batalha inconscientemente para fugir do seu lugar, para criar um futuro diferente da decadente mãe e, por fim, para ter sucesso.

O gueto que ela mora apresenta dois ideais completamente distintos, – algo que será ainda mais trabalhado no segundo e terceiro ato – as crianças crescem entre a religião e o crime, a vida terrestre, aquela que deveria ser divina, é desmanchada e transformada em maldição, pois o sucesso só abraça os ricos.

O contraste de mundos é refletido nas músicas que tocam ao longo, transitando entre o clássico e o hip hop, a maneira abrupta que são cortadas sugere a intromissão, como se a própria arte entrasse na casa da sua outra versão sem bater na porta. Mas essa dicotomia fica evidente com um terceiro personagem: Djigui.

Djigui é dançarino, expressa constantemente os seus sentimentos e os vivência intensamente, ele luta para conseguir um papel em um espetáculo e têm, como talismã,  Dounia, que passa a assisti-lo e contemplar a beleza dos seus movimentos. A protagonista se vê encantada com o desprendimento mais visceral que existe, a arte, e começa a questionar as suas próprias decisões, o filme passa a investigar a pergunta “o que acontece quando o amor se torna o objetivo ao invés da ambição do crescimento?”.

O amor e a arte remete, muitas vezes, a estagnação, como um “agora” que não tem pressa, um momento bom que não quer ser esquecido e assim por diante. Dounia não vive o seu presente, pelo contrário, suas ambições, estão estritamente ligados ao dinheiro, estão relacionados com o futuro – uma cena que ilustra isso é quando ela simula estar dirigindo uma Ferrari – então a obra assume uma importância gigantesca em trabalhar a arte e o amor como uma maturidade concentrada no hoje, que afasta a protagonista por conta do medo desse sentimento.

Com diálogos incríveis, “Dividas” apresenta a diferença, tanto de expectativas quanto de escolhas e suas consequências, por isso as danças são filmadas em plongée – de cima para baixo – demonstrando que Dounia se sente superior aquela expressão artística, algo que será contestado no final, onde a própria garota está jogada no tapete, ensanguentada. Aliás, os cortes rápidos no final são bem próximos à cultura de rua, ainda é inteligente em entrecortar a dança de forma que pareça se tratar de uma coreografia de hip hop – a utilização do som nesse momento assume uma importância gigantesca.

Divino é a possibilidade de enfrentar obstáculos e entregar-se as pequenas chances que temos, algo que Dounia aprende nesse processo de pegar atalhos fáceis para se alcançar o fim. Vítima de sua condição e personalidade, Houda Benyamina coloca muita esperança em sua obra para, depois, fragmentar suas personagens, como um alerta, como um documentário que investiga fatos; a menina que tanto sonhou com futuro, aprende que o hoje é o melhor dia para ser vivido.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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American Honey, 2016

Docinho da América ( American Honey, Estados Unidos, 2016 ) Direção: Andrea Arnold

★★★★

Star – cujo nome é bem sugestivo – é uma garota que, após um convite, se sente tentada a sair viajando pelos Estados Unidos com um grupo de jovens em uma van, todos eles vendem revistas de casa em casa e, nas horas vagas, fazem sexo, bagunçam e usam drogas.

Esse é o típico filme que provoca o espectador desde o início, não se baseia em um formato comum, possui uma narrativa contemplativa e a longa duração é mais uma prova que a diretora Andrea Arnold não está afim de criar algo padronizado. Nem todos os minutos são bem utilizados, chega um momento que fica repetitivo, mas ainda assim é uma experiência singular acompanhar esse grupo de jovens, tão diferentes entre si mas que, dentro das suas esquisitices, se complementam ou se satisfazem.

Filmes como esse provam que a partir de um road movie é possível extrair uma extrema naturalidade, fazendo a sétima arte parecer simples e muito próxima. A cada olhar empolgado pelos vidros da van, um sorriso no rosto do espectador e indiferença ao mesmo tempo, abraçamos o entusiasmo e felicidade do grupo, no entanto algumas atitudes são tão subversivas e imaturas que somos obrigados a questionar. Mas essa com certeza era a intenção, provocar o senso de voyeurismo e fazer estar dentro do grupo e distante, em um vai e vem interminável, tentando encontrar a melhor forma de adaptação – assim como a protagonista que nunca parece se envolver totalmente com todos pois, como já era de se esperar, ela mora ao lado das estrelas, sua percepção é diferente dos demais.

A estreante Sasha Lane desempenha uma função primordial no desenvolvimento de sua personagem, atingindo expressões que beiram a doçura, indiferença e paixão; do outro lado temos o Shia LaBeouf que, desde que começou a levar sua carreira a sério, se entrega a todos os seus personagens, vivenciando cada diálogo como se fosse o último.

A diferença do grupo se torna pequena perto do que todos possuem em comum: a ânsia por serem enxergues, por isso cada diálogo soa como uma tentativa desesperada de ser essência para alguma piada ou observação. É provável que aja muitos preconceitos por jovens assim, afim de curtir a vida sem freios, mas não seria o próprio jovem um desequilíbrio ambulante? – essa questão pode ser exemplificada em uma cena que Jake ( Shia LaBeouf ) e Star entram na primeira casa para vender revistas e a filha da moça que os atendera, menor de idade, dança e tenta conquistar Jake. A vida padronizada americana se desestrutura nesse momento, pois a moça manda os jovens saírem da sua casa e recebe em troca a frase “acho que o demônio tomou conta da sua filha“, ou seja, a perversão está escondida nas artificialidades de cada família.

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Melhores filmes de 2016

2016 chegou ao fim e é realmente um motivo de orgulho termos conseguido manter o Cronologia do Acaso vivo e com conteúdo tão frequente, seja com críticas, artigos ou podcast. Já se passaram quatro anos desde o nosso início e cada vez mais o público e acessos crescem, mas a real relevância do nosso trabalho são as mensagens de carinho, essa aproximação que temos com os ouvintes e leitores.

Então, como de costume, deixo minha lista dos dez melhores filmes que assisti de 2016 ( veja os anos anteriores: aqui ). Forte abraço e feliz ano novo a todos!

Top 10 Melhores filmes de 2016:

1) Capitão Fantástico ( Captain Fantastic, Estados Unidos, 2016 ) Direção: Matt Ross
2) A Criada
( Ah-ga-ssi, Coréia do Sul, 2016 ) Direção: Chan-wook Park
3) Um Cadáver Para Sobreviver
( Swiss Army Man, Estados Unidos, 2016 ) Direção: Dan Kwan e Daniel Scheinert
4) A Bruxa
( The VVitch: A New-England Folktale, Estados Unidos, 2016 ) Direção: Robert Eggers
5) Wiener-Dog
( Wiener-Dog, Estados Unidos, 2016 ) Direção: Todd Solondz
6) Boi Neon
( Boi Neon, Brasil, 2016 ) Direção: Gabriel Mascaro
7) Demônio de Neon
( The Neon Demon, Estados Unidos, 2016 ) Direção: Nicolas Winding Refn
8) A Tartaruga Vermelha
( La tortue rouge, Holanda/Japão/Bélgica, 2016 ) Direção: Michael Dudok de Wit
9) Sing Street
( Sing Street, Irlanda/Estados Unidos, 2016 ) Direção: John Carney
10) A Qualquer Custo
( Hell or High Water, Estados Unidos, 2016 ) Direção: David Mackenzie

Outros títulos que recomendo são: O Nascimento de Uma Nação, Divinas, O Lamento, Big Jato, The Eyes of My Mother, Kimi no Na wa, Sob As Sombras, Aquarius, Amores Urbanos, Elle, Train to Busan, Mais Fortes que Bombas e À Sombra de Uma Mulher.

 

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A virgem caminha ao encontro do caos

Demônio de Neon ( The Neon Demon, Estados Unidos, 2016 ) Direção: Nicolas Winding Refn

★★★★

Nicolas Winding Refn representa muitas coisas para o cinema independente, principalmente quando relacionado com o cinema pouco explicativo e mais contemplativo e penetrante. Considero um erro fatal analisar o seu trabalho apenas com as realizações “pós-Drive”, isso porque existe diversos filmes anteriores que o colocam como um dos grandes nomes do cinema autoral, ao lado de Gaspar Noé e Harmony Korine – citando dois exemplo que, de uma forma ou de outra, se enquadram na ambição do NWR.

“Bronson”, de 2009, é um dos filmes magníficos, sendo lembrado até hoje por seu humor negro e, também, por ter lançado o ator Tom Hardy ao estrelato; a trilogia “Pusher” é a demonstração exata do seu ritmo desenfreado e abusivo; “Valhalla Rising” percorre o silêncio e provoca com tamanha contemplação. Enfim, o seu trabalho definitivamente se baseia em grandes nomes do passado como Dario Argento e David Lynch e, com o passar do tempo, atingiu uma tentativa desesperada de equiparar-se com o já citado Gaspar Noé no que diz respeito a postura flexível, violência e polêmica extrema afim de causar o choque, não à toa ambos diretores são amigos e devem passar as tardes de domingo se masturbando enquanto assistem “Love” ( 2015 ) – não é coincidência que o ator Karl Glusman, que trabalhou no último de Noé, esteja em “The Neon Demon”.

Depois de “Drive” a narrativa de NWR se tornou diferente, ousada e, porque não, pouco aceita. “Only God Forgives” ( 2013 ) foi muito criticado em sua estréia por conta de uma suposta pretensão. Nesse ano o diretor retorna com a mesma personalidade, compondo com atenção uma película repleta de brilho, transformando sua protagonista em uma musa de um universo proibido, sendo guiada pela estética à caminho do inferno.

A história de “The Neon Demon” é básica: Jesse, uma garota de 16 anos e interpretada pela graciosa Elle Fanning, chega em Los Angeles e adentra o universo da moda. Conhecendo algumas pessoas importantes do meio, como a maquiadora Ruby ( Jena Malone ), o fotógrafo Jack ( Desmond Harrington ) e as modelos Sarah e Gigi ( Abbey Lee e Bella Heathcote, respectivamente ), a jovem se vê em meio a falsidade, inveja e busca desesperada por sucesso.

A trama simples transforma-se em hipnotizante através de um visual excelente que preenche todas as lacunas possíveis do roteiro, mesmo que não o isente de uma certa infantilidade e preguiça. A direção de arte e fotografia é minuciosamente pensada, criando símbolos visuais e distrações, como uma forma de chamar a atenção, atraindo o interesse e, consecutivamente, chocando com as evoluções sutis das personagens.

As cores permanecem vibrantes o tempo todo, pendendo para o azul e vermelho, como a perfeita dicotomia existente na protagonista que começa angelical e vai se desfazendo, conforme confronta o infernal mundo estético. O diretor é daltônico, só enxerga contrastes, o que é curioso quando relacionamos com a sua obra e percebemos que a cor é a alma das transições, sustentando o ritmo lento e se tornando a personificação do próprio tema.

A onipresença e relevância da Elle Fanning, seja como figura, atuação e beleza, é tão extrema, que é impossível não utilizar a sua imagem e nome como uma metalinguagem à questão do mundo da exploração midiática. O diretor parece gozar de seu talento e visual, ao filmá-la de todos os ângulos possível, com diversos figurinos e maquiagens, como se fosse uma boneca, cujo criador modifica seu corpo conforme a sua necessidade artística. Esse é um ponto, inclusive, que pode soar como abuso de imagem, uma pretensão exacerbada e egocentrismo por parte do diretor, mas mesmo concordando em partes com esse pensamento, ainda é possível sentir a energia artística nessa manipulação. Elle Fanning interpreta de maneira detalhista, despertando a atenção de forma natural, com uma delicadeza incrível, inocência e, no entanto, os seus desdobramentos narcisistas são feitos de forma sutil – como o piscar dos olhos: ela começa piscando bastante, como um contraste para com as outras modelos, sempre com os olhares estáticos, aos poucos Jesse começa a ser igual, como se a sua própria imagem a violasse.

 A imagem é sempre ressaltada, fotograficamente o filme emprega constantemente o brilho à protagonista, destacando as maiores virtudes físicas da atriz principal, cuja aparência não é a mais linda em comparação com as outras atrizes, mas a naturalidade das suas expressões a transformam como a única capaz de provocar a empatia. A composição da personagem é importante para aceitação do reflexo como ideia de falsidade. Em diversos momentos o espelho é trabalhado como ferramenta primordial ao registrar a protagonista, o sentido de mundo paralelo e cópia é exaustivamente trabalhado, como uma forma de reforçar a própria ideia do cinema que, em suma, se utiliza de diversas vidas, modificam-nas para um mesmo fim e aguarda as respostas do público diante uma verdade manchada de sangue.

No início do filme há um ensaio fotográfico, Jesse está deitada em um sofá, com os braços para baixo e repletos de sangue. O painel que será o fundo da fotografia não é a realidade pois, logo atrás, há cores vibrantes, vermelhas, há sangue, amor e luxúria; principalmente, há mais espaço. A fotografia revela uma parte da verdade, direciona às lentes para uma só posição e credita aquele quadro como realidade absoluta e imutável. Essa é a fotografia que se baseia na exploração do físico, que cria o desejo, seja no consumo ou a inveja de uma estética perfeita. Evidentemente existem fotógrafos de moda que produzem arte, mas é sabido que a maioria nesse ramo está interessado na venda e, para isso, se utiliza de uma série de artifícios afim de iludir, alienando diversas jovens ao redor do mundo que ao se olharem no espelho não encontram uma pessoa que, ao entrar em uma sala repleta de pessoas, “são vistas e contempladas como a luz do sol”.

O perigo da moda é que, nesse ambiente, não existe nada que não venha da beleza. Assim como a maquiadora, o diretor se utiliza dessa mensagem – não inédita no cinema – para criar máscaras onde suas atrizes personificam o vazio existencial da imagem como produto, e essa mensagem pode ser contextualizada em qualquer arte que, por interesses maiores, se desvia do caminho natural e se torna produto.

“[…] eu não sou boa em dançar, cantar ou escrever, mas sou bonita, consigo ganhar dinheiro sendo bonita[…]”.

Existe redundância em cada atriz, como se os seus movimentos fossem de prisioneiras, mantendo-se fiel às palavras. Logo no início a maquiadora Ruby questiona Jesse se ela prefere sexo ou comida, como uma alusão ao batom que uma das modelos passava em um banheiro de uma balada. A protagonista não responde nesse momento mas, no final do filme, ela recusa o sexo com a maquiadora e é comida, ou seja, a resposta vêm após um espaço de tempo e movimento de conhecimento sobre o processo de exibir-se.

A redundância também está impregnada na artificialidade das outras modelos que se veem perfeitas por conta das plásticas, estas soam como almas vagando sem deus algum, visto que sua figura fora moldada por diversas pessoas e todas atribuem os seus gostos e necessidades: cirurgiões plásticos, maquiadora, fotógrafo, todos esses têm em comum o poder de modificar uma imagem, uma vida e um objetivo.

O problema se encontra justamente em reforçar essa redundância a cada segundo, fazendo parecer que existe a insegurança sobre a capacidade intelectual do espectador em encontrar as respostas sem o desespero em revelar as mesmas coisas cinco vezes – não acharia exagero creditar o número do quarto da protagonista como mais um exemplo dos significados sobre a redundância ao seu redor, visto que o número 212 ao contrário é a mesma coisa.

Mesmo com os deslizes – todos direcionados ao roteiro que justifica sua preguiça por conta da metalinguagem com o universo que aborda – a nova obra de Nicolas Winding Refn casa perfeitamente com a nova postura extremamente visual e exibicionista do diretor. O final é baseado definitivamente no choque e fica aquém de outros nomes com propostas parecidas como o próprio Gaspar Noé que consegue provocar de forma muito mais orgânica. No entanto, a alegoria referente aos olhos é bem oportuna, apesar de simplista, serve como uma síntese do que estava sendo criado até então. Em resumo, o filme consegue ser agradável aos olhos e hipnotiza os atentos e dispostos, concentrando todas as energias em criações de mensagens subliminares, mas o mais interessante é que todos giram em torno de uma só personagem que, brilhantemente interpretada, provoca a sensibilidade através da sua ternura e ingenuidade; é a perfeita jornada de uma virgem à caminho do suicídio, sua morte acontece enquanto ela se masturba com o caos e imagina uma vida feliz onde a naturalidade é tudo o que se pede; pobre menina, mal sabe ela que nesse mundo só sobrevive os que invejam e devoram.

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#02 – [ Três Quadros ] – The Eyes of My Mother ( 2016 )

Depois de um bom tempo, retorno com a coluna especial [Três Quadros] onde, basicamente, escolho três fotografias de um filme e tento entender qual a relevância desses quadros para o contexto do filme, sempre priorizando uma abordagem filosófica.

A coluna têm como intenção ressaltar o quanto uma imagem pode representar infinitas ideias e significados para um filme.

A obra escolhida dessa vez é o terror “The Eyes of My Mother”, de 2016, dirigido por Nicolas Pesce e cujo diretor de fotografia é o Zach Kuperstein. O longa é repleto de significados, principalmente na intenção de dialogar com a crueldade e apatia, teve a sua estréia em Sundance nesse ano e é, sem dúvida, um dos maiores representantes do bom terror de 2016.

Vamos então as escolhas:

1)

Essa primeira imagem é para usar como exemplo do excelente trabalho com a luz que existe no filme. Nesse momento, a luz cria a silhueta da filha e do seu pai, em uma imensidão de escuridão, reforçando inclusive a ideia de que eles são sombras, imagens borradas do que seria uma família feliz, sã e unida.

2)

Como o filme é dividido em três capítulos, nada mais justo que escolher fotografias que destaquem bem o que cada ato representa para o desenvolvimento da história. A segunda foto escolhida traz um momento de perseguição e o mais interessante nela é que por acompanharmos o movimento das personagens através da janela, é como se ela representasse a barreira entre o espectador e a vida da família, ou até mesmo a família e o mundo exterior.

Outro detalhe interessante, adentrando no espaço dos símbolos, é que a divisão da janela forma uma cruz invertida e os retângulos superiores dividem o “abusado” do “abusador” – se é que podemos classificar alguém nessa obra.

A cruz invertida traz consigo diversos significados. De imediato, é possível remeter ao satanismo que têm como estrutura de pensamento o avesso ou negação dos dogmas cristãos. Portanto, dado o contexto do filme, é de se notar que existe a pretensão de ressaltar a subversidade da vida da protagonista, bem como a sua crueldade.

3) 

Esse plano aberto acontece no último capítulo intitulado “família”. Ironicamente, a imagem demonstra a solidão e pequenice da protagonista, tornando-a invisível diante aos olhos da sociedade mas, nem por isso, menos perigosa. O perigo encontra-se justamente no seu desprendimento.

As árvores como destaque representam a natureza que, claramente, consome a protagonista. A natureza traz consigo a sensação de normalidade, enquanto a estrada, na parte inferior, simboliza o caminho que será palco de mais uma crueldade e abuso.

Enfim, esses foram os três quadros escolhidos. Em suma, o filme é maravilhoso sob a perspectiva fotográfica, preocupando-se com composições pouco comuns, de forma a demonstrar o psicológico de suas personagens.

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Olhos de mamãe ensinam a crueldade e apatia

The Eyes of My Mother ( The Eyes of My Mother, Estados Unidos, 2016 ) Direção: Nicolas Pesce

★★★★★

É impressionante a sensação mágica que acontece – principalmente para os amantes do cinema obscuro – quando uma obra audiovisual consegue adentrar o espaço do incômodo, mas do que isso, estabelece toda a sua estrutura na invasão de privacidade e mostra, através de uma ótica quase imperceptível, os erros, segredos e psicológico doentio que existe em diversas famílias ao redor do mundo.

Ora, seria terrível terminar um filme como “The Eyes of My Mother” acreditando que os eventos registrados, por mais agressivos e insanos que possam parecer, dialogam com diversos casos reais de abuso psicológico por parte dos pais, abusos físicos e atitudes monstruosas relacionadas diretamente com a vingança.

Em dado momento, um homem que acabara de invadir uma casa e matar um ser humano, confessa para uma menina que o fez pois o assassinato provoca uma sensação brilhante. Ironicamente o filme começa com uma mãe explicando detalhes referentes aos olhos de uma vaca para sua filha, a cabeça do animal permanece sobre uma mesa enquanto há o diálogo trivial – mas não sem propósito – e tal abuso de poder não significa absolutamente nada para ambas.

Dirigido pelo estreante Nicolas Pesce com uma segurança exemplar, “The Eyes of My Mother” acompanha a história de uma família que mora em uma fazenda no interior de Portugal e suas reações nada previsíveis e sãs, após o assassinato da mãe/esposa.

A fotografia é brilhante, usa o preto e branco como uma forma de demonstração da alma dos personagens que, propositalmente, são desenvolvidos de forma flexível; é evidente a despreocupação em analisar toda a história dos personagens, essa é uma decisão que possibilita ao espectador preencher as lacunas com possíveis explicações para psicológicos tão corrompidos. Assim como os eventos partem de uma naturalidade que, por conta do contexto, se tornam horrorosos, o roteiro transmite a sensação de perdidão, como se estivéssemos sendo cúmplices do erro ou até mesmo as próximas vítimas, simplesmente por sabermos a verdade.

Por se tratar de um filme de curta duração – 76 minutos – o longa é inteligente em utilizar alguns artifícios técnicos para transmitir a ideia de forma direta, otimizando o tempo e direcionando o olhar para os pontos que realmente demonstram evoluções na narrativa: no primeiro ato a câmera na mão define que os eventos terríveis que acontecem desencadearão uma sequência de atitudes absurdas relacionadas à vingança; no segundo e terceiro ato a fotografia ressalta o isolamento da protagonista Francisca – interpretada maravilhosamente bem pela Kika Magalhaes – como, por exemplo, no momento que existe um plano aberto que preocupa-se nitidamente em reforçar a grandiosidade de uma floresta, em comparação com a personagem que, consumida pelo local, é invisível aos olhos da sociedade.

Kika Magalhaes dá a sua personagem uma carga emocional grande, mesmo que saia por vezes da atmosfera criada pela obra por conta de alguns exageros, volta sempre com muita elegância e se adapta rapidamente por conta da intensidade do seu olhar, sempre fixo e distante, mesmo nos possíveis momentos de afeto.

Ainda sobre a fotografia – que poderia ser dissecada por horas – é válido ressaltar os diversos trabalhos com a luz que, por diversas vezes, criam silhuetas, reforçando a ideia de que os personagens são sombras da normalidade, ocultando segredos e se mantendo à margem da sociedade. Outros momentos a janela é utilizada, em primeiro plano, como uma forma de barreira para com o mundo exterior – não coincidentemente suas divisões formam uma cruz invertida, símbolo que remete, dentre tantas coisas, à maldade.

O longa percorre a crueldade e incomoda com diversas cenas que, por serem tratadas de forma crua, outras vezes com cortes abruptos, instigam à imaginação e, principalmente, provocam o choque com tamanha realidade. Em uma cena, Francisca ainda criança após um ato de violência extrema que impedirá o assassino de sua mãe de falar, retorna aos braços do seu alienado pai e fala: “ele não vai mais falar… Te amo papai”, enquanto ouve como resposta o silêncio. Ou seja, o seu pai também não fala, como se todas as terríveis atitudes mostradas ao longo, remetessem não só as vítimas como aos abusadores, a família sofre da maldição da solidão, sem ternura, sem propósito, os olhos da mamãe ensinam apenas a crueldade e apatia.

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Shelley, 2016

Shelley 2016

★★★★

Shelley tem tudo para provocar o espectador, cria um clima soturno desde a primeira cena, a tensão se estende para os olhares, pequenos movimentos, enfim, o clima adentra o espaço da dúvida e a trilha ajuda a alimentar esse contexto sombrio.

Há muita comparação desse filme com o clássico “O Bebê de Rosemary”, de 1968, a influência é óbvia, no entanto nunca se desenvolve da mesma maneira. Aliás, é importante que aja filmes que estão dispostos a seguir o caminho dos clássicos psicológicos, é preciso abordagens diferentes, visto que o cinema de terror é inundado de clichê e sustos gratuitos.

“Shelley” é um filme dinamarquês, dirigido pelo estreante em longas Ali Abbasi – maravilha esses novos diretores do gênero que vêm surgindo ultimamente, todos extremamente corajosos e dispostos a quebrar as regras – e tem como história principal um casal, Louise e Kasper, que desejam ter um filho mas, mesmo com várias tentativas, não conseguem. Eles vivem em uma mansão isolada, aparentemente normal, e com a chegada de uma nova empregada chamada Elena, eles começam a ter uma relação de extrema confiança por conta da sua bondade e sinceridade, passando a vê-la como uma oportunidade de carregar o filho que eles tanto desejam.

O ritmo lento e contemplativo, unido com a trilha ameaçadora, lembra muito o outro ótimo filme lançado esse ano chamado “A Bruxa”; além do mais, outros dois pontos se assemelham bastante: a famosa divergências de opiniões daqueles que assistem e, por se tratar de uma obra diferente, creditam isso à uma pretensão por parte do realizador; E o papel de extrema importância da mulher. É evidente que o mistério se desenrola através da gravidez, algo extremamente sensível e de uma conexão extrema, e por isso é possível observar uma atenção especial para as personagens Louise ( Ellen Dorrit Petersen ) e Elena ( Cosmina Stratan ).

Ellen Dorrit Petersen, com sua presença eletrizante, dá a sua personagem uma frieza impressionante, com a expressão sempre serene, distante, parece se importar pouco com a sua empregada – que aqui mais parece um veículo – e o motivo constantemente parece nebuloso. Petersen já havia demonstrado os seus talentos no ótimo “Blind” que, no final de 2014, o coloquei na minha lista dos melhores do ano.

Quanto a Cosmina Stratan, com sua beleza angelical e a progressiva transformação, representa o espectador com todas as dúvidas sobre os acontecimentos, é assustadoramente impactante a transição da doçura, no começo do longa, e a raiva/obsessão do final.

“Shelley” promete e cumpre. É difícil se destacar em um cinema repleto de julgamentos, por isso é louvável a atitude do diretor em desenvolver uma obra que abraça alguns elementos já conhecidos, mas subverte com o silêncio e a incomunicabilidade, chocando pela diferença da narrativa, ambientação e performance das atrizes principais.

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A jovem dorme e o homem observa a sua calma

Enquanto Elas Dormem ( Onna ga Nemuru Toki, Japão, 2016 ) Direção: Wayne Wang

Esse é famoso exemplo de filme que promete desde o começo uma reflexão absurda sobre algum tema e, durante o processo, se perde em meio à tramas que surgem sem motivos.

Dirigido com uma certa preocupação em provocar o sono por Wayne Wang – diretor japonês que têm carreira nos Estados Unidos – a história, em teoria, é sobre um escritor que, hospedado em um hotel, se vê muito interessado em um senhor que tem uma relação com uma jovem. Esse senhor filma todas as noites a suas namorada dormindo.

Essa é, na verdade, como a obra se apresenta, pois esse fato nunca chega a ser trabalhado com propriedade, servindo apenas como um elemento curioso, que desencadeia algumas boas observações mas que resulta em perplexidade por tamanho descompromisso.

Hidetoshi Nishijima – ator japonês bastante conhecido – faz o protagonista, Kenji Shimizu, sua atuação é boa mas prejudicada pelo roteiro, que por vezes transforma o seu personagem em patético e sem propósito.

O ponto positivo do filme se encontra justamente na questão que, depois dos vinte minutos iniciais, passa a ser ignorado: o senhor Sahara – interpretado pelo sempre sensacional Takeshi Kitano – que filma sua jovem “namorada” enquanto ela dorme, imortalizando as transformações do seu corpo e antecipando um evento que será desenvolvido ao longo.

Essa ideia, não inédita, é insuficiente para sustentar um filme de uma hora e quarenta que mais parecem trinta dias. Apesar de algumas decisões inteligentes e visual bonito e acolhedor, o longa têm muitos problemas e descarta uma excelente proposta, perdendo-se na intenção de surpreender.

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A crônica do crescimento em “Amores Urbanos”

Amores Urbanos ( Amores Urbanos, Brasil, 2016 ) Direção: Vera Egito

Amores Urbanos

★★★★★

Viver seria algo absolutamente simples, senão fosse o homem adulto e as suas infinitas regras. A sociedade impõe uma vida padronizada, cujo futuro precisa remeter à clássica felicidade, onde a família, planejamento, sonhos e responsabilidade são, juntos, o cerne da existência e do crescimento.

“Amores Urbanos”, dirigido pela Vera Egito, discute esse tema com perfeição, através de três adultos-jovens na faixa dos trinta anos que, morando no mesmo prédio, dividem momentos de risos e preocupações; no fundo os três procuram um lugar no mundo e a aceitação das pessoas.

Júlia ( Maria Laura Nogueira), Micaela ( Renata Gaspar ) e Diego ( Thiago Pethit ) têm problemas individuais, seja familiar, profissional ou amoroso, o fato é que eles representam a alma perdida, sem propósito, senão, viver e enfrentar as consequências. Essa forma de vida, por sinal, deveria ser muito comum, mas é banida por conta dos julgamentos, no final a sociedade precisa mentir que existe um plano por trás de cada escolha ou movimento.

O filme começa com Júlia descobrindo que o seu namorado é noivo de uma outra mulher, de forma bem interessante e natural, passamos a conhecer as angústias profundas da personagem e, mais do isso, a dinâmica alegre e despretensiosa que existe entre ela e os seus amigos Micaela e Diego, ambos e homossexuais.

O fato é que Julia se isola do mundo e dos amigos. Durante todo o filme fica evidente a sua incapacidade de dizer o que sente e pedir ajuda. Isso é mostrado através de alguns artifícios técnicos como a fotografia que, por diversas vezes, registra a personagem de forma diferente dos demais, seja por causa da iluminação ou posicionamento da tela – é perceptível que diversas vezes a diretora opta por separá-la dos demais personagens com uma parede ou um algum móvel, isso acontece bastante no seu emprego e durante um jantar, com os seus pais. Outro ponto que demonstra a separação da protagonista é bem simples: Diego e Micaela moram no mesmo apartamento; já a Julia, apesar de ser vizinha e estar sempre na casa dos amigos, mora sozinha. Mas por quê? Simples, ela tenta provar constantemente que está com a sua vida perfeita, que o resultado até aquele momento é a perfeita personificação do que sempre planejou, quase como uma resposta direta as expectativas dos seus pais.

O figurino das personagens são joviais, calça rasgada, jaqueta, enfim, traz um contraste àqueles adultos. Violando as normas, também, com as próprias posturas em frente aos problemas, desde os mais simples até os mais complexos.

Diego é um personagem que acaba chamando bastante a atenção justamente pelo contraste citado acima. Ele faz piadas, ri, bebe e se diverte constantemente, porém a sua desconstrução serve como direção à todos os outros, as suas atitudes irreverentes são reflexos de alguém que não tem forças para contar como chegou até aquele ponto. O cantor/ator Thiago Pethit, nesse sentido, se destaca. Lidando com expressões frias até certo ponto, transita por entre a rebeldia e doçura, ambas com a mesma dedicação e talento.

“Amores Urbano” trabalha com personagens que nasceram na década de 80, essa geração cresceu de forma bem diferente da anterior ( escrevi sobre isso em um texto sobre Kurt Cobain ) e o filme faz jus a uma série de consequências dessa diferença. Mesmo que seja sincero em não generalizar, os realizadores parecem não terem medo de trabalhar com personagens que erram, muito pelo contrário, fazem refletir justamente com esse fato.

Júlia, no seu trabalho, é cobrada constantemente. A sua chefe pede que ela coloque mais cores em um anúncio e, apesar de soar fácil, ela não consegue captar a ideia até ser demitida. Irônico e inteligente – na mesma proporção – é observar que, minutos depois, a protagonista está em uma festa com os seus dois amigos e atrás, podemos ver bandeiras coloridas, como uma forma de grito, de alívio e desespero: ela não se adapta ao padrão imposto em um cenário formal, no entanto esse mesmo padrão se transforma em alegria enquanto junto dos amigos. Aliás, não somos todos assim? Esse é o dilema de crescer e ser aborrecido com uma infinidade de regras idealizadas pelos adultos rabugentos.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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CdA #69 – A Tartaruga Vermelha

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Nesse episódio, Emerson Teixeira e Sandro Macena se reúnem novamente para discutir sobre o filme “A Tartaruga Vermelha”, a nova animação feita em parceria com o Studio Ghibli. Você ouvirá reflexões sobre a distância, catarse provocado pela solidão, simbologia da tartaruga, a má relação do homem moderno com o presente e muito mais.

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