Heartstone (2016)

Heartstone (Hjartasteinn, Islândia, 2016) Direção: Guðmundur Arnar Guðmundsson

O cinema produzido na Islândia é brilhante. O pouco acesso que temos para assistir as obras do país não nos impede de perceber a regularidade das produções, principalmente em relação à sensibilidade. Se Friðrik Þór Friðriksson desenvolve temas relacionadas ao tempo em seus trabalhos, Benedikt Erlingsson recentemente nos presenteou com uma obra contempladora que une o ser humano e os cavalos, explorando o místico provocado pela natureza e verdade.

[Você pode ler outras críticas que escrevi sobre filmes da Islândia clicando aqui]

“Heartstone” (2016), dirigido pelo Guðmundur Arnar Guðmundsson – conhecido principalmente por um curta-metragem chamado “Hvalfjörður” (2013) – se assemelha bastante aos dois diretores citados. Por coincidência ou não, a juventude aqui é trabalhada com tamanho respeito que a associação com Friðrik Þór Friðriksson é imediata. Quem já assistiu “Bíódagar” (1994) sabe perfeitamente disso. Nessa obra,  Friðrik acompanha a vida de um garoto apaixonado por cinema que precisa se afastar e morar em uma casa no campo. Esse deslocamento causa um incomodo grande no garoto e as consequências desse fato são observados da forma mais visceral e sincera possível.

“Heartstone” (2016) possui a mesma habilidade em se utilizar do jovem para discutir temas importantes que abrangem a desestabilização familiar e descoberta da sexualidade. Dois garotos, Þór e Kristján, possuem uma forte amizade e entre a rotina de brincadeiras e passeios ambos parecem fugir da desestruturação familiar enquanto o sentimento de amizade é confundido com interesse amoroso. Eles passam a se ajudar e veem um no outro uma forma de fugir dos pesadelos da indiferença, ódio e preconceito.

A beleza do pequeno vilarejo da Islândia abriga amigos que se deliciam em meio à pureza mágica do ambiente. O azul do céu e da água envolve os garotos que, na primeira cena do filme, aguardam em silêncio enquanto pescam. A ação de um adulto, a pesca se trata de uma das atividades que mais necessitam de paciência o que, em um primeiro momento, todos os meninos têm. Mas o silêncio para uma criança é a própria morte, e logo a calma é quebrada pelo protagonista que permanece em primeiro plano enquanto um de seus amigos mexe (imagina?) nos pelos de sua axila e peito. Eles pegaram os peixes e, a partir desse momento, podem voltar correndo e contar a novidade para os pais.

O contra-plongée mostra uma visão de dentro da água para fora o que demonstra claramente uma intenção de duplicar a imagem dos personagens. Esse simbolismo se repetirá de outras formas ao longo, e a intenção sempre é a mesma: expor o fato de que Þór e Kristján dividem suas vidas entre a liberdade total, quando estão juntos, e a limitação e desconforto quando inseridos nos seus respectivos lares. Desse modo, é possível notar que diversas vezes a imagem deles, refletidas em algo, é borrada.

Þór volta para sua casa e deixa os peixes que pescou fora. Representando suas próprias emoções – cabe destacar que seu melhor amigo, Kristján, conseguiu apenas pegar um “peixe pedra” e é zombado pelos colegas por isso. No banheiro, através da imagem refletida no espelho vemos o protagonista brincando com o seu corpo, isso inclui a masturbação. Sua nudez é o refúgio de liberdade o que, rapidamente, se dissipa com as brincadeiras das suas irmãs adolescentes referentes ao seu corpo despido.

Outra simbologia visualmente importante no filme é o contraste existente nos enquadramentos dos personagens e como mudam quando externos ou internos. Quando os amigos estão passeando, nadando, acampando, enfim, vivendo, os planos são abertos e, além disso, não há objetos ou móveis “poluindo” o enquadramento. O que não acontece quando eles estão dentro das casas ou sendo vistos por alguém inserido no lar. Geralmente os personagens tem campos de espaços reduzidos, e pequenos ou grandes objetos são perceptíveis como forma de opressão visual.

O filme possui o clima convidativo de grandes filmes dos anos oitenta, mas com a profundidade do bom cinema contemplativo. A fotografia acerta em cheio nos tons azulados, exalando melancolia mesmo em meio à paisagem magnífica que envolve todos e, por muitos, é ignorada.

A amizade aqui representa a condição de amparo e necessidade. É agradável assistir uma obra que não precisa explicar muito o que é óbvio, a importância das relações são nítidas e incomunicáveis, senão, pelas performances. Nesse sentido, Baldur Einarsson é verdadeiramente um achado, extremamente talentoso, dá densidade ao seu papel, fazendo com que Þór receba todas as atenções, transitando entre o carinho, insegurança e raiva de maneira singular.

Com a sensibilidade apurada, Guðmundur Arnar Guðmundsson transforma uma história comum em algo extraordinário. É triste saber que em muitas histórias de infância há o abandono como elemento principal, dificultando o processo de adolescer e experimentar. O jovem que respira diferente, necessita de cuidado e atenção, da repetição das palavras de conforto, pois crescer é se sentir um monstro. No final, o peixe pedra precisa voltar para o mar e partir em busca de uma nova chance.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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O Túnel, 2016

O Túnel (Teo-neol, Coréia do Sul, 2016) Direção: Kim Sung Hoon

Jung-su sai do trabalho e dirige até a sua casa. No caminho um túnel despenca, deixando-o preso entre os escombros. Em um ambiente apertado e destruído, uma das suas ferramentas de comunicação com o mundo exterior é justamente um celular e, a partir dele, toma consciência da sua situação perturbadora e é aconselhado a economizar água afim de aguentar os sete dias para a concretização do resgate.

O primeiro ato é trabalhado com dedicação pelo diretor Kim Sung Hoon, de forma que o protagonista e sua história seja desenvolvida através da catástrofe. Mas no decorrer, o que se percebe é a incapacidade de relacionar o espaço limitado em que o personagem se encontra com a sua vida, visto que não há propostas dramáticas além da própria situação traumática, limitando o roteiro e, principalmente, afastando o espectador da identificação.

Existem cenas realmente impactantes e tensas, mas a claustrofobia é deixada de lado no momento em que esse espaço, do nada, aumenta. A intenção é muito clara: um roteiro fragilizado chega a um ponto que se perde completamente, para contornar essa situação, é preciso colocar mais personagens e situações-conflito para o protagonista resolver.

Se o roteiro se perde em meio aos dilemas individuais de um homem só, lutando pela sobrevivência e limitando-se a esperar o impossível, isso chega a um estágio enorme quando quando analisamos a obra politicamente. É curioso notar que a operação de resgate é inacreditavelmente grande, resultado de enormes investimentos e ainda por cima é acompanhado pela mídia, mas tudo isso é para salvar a vida de apenas um homem. Agora, pensando friamente, em que mundo utópico algo assim aconteceria? O potencial filosófico é desperdiçado. O resultado é um filme clichê que se salva por pequenos momentos, mas que entrega apenas o aceitável. Recusando, portanto, qualquer dilema moral ou social, se atendo apenas ao óbvio.

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Creepy, 2016

Creepy (Kurîpî: Itsuwari no rinjin, Japão, 2016) Direção: Kiyoshi Kurosawa

O cinema japonês é sempre lembrado quando falamos sobre bons filmes de suspense. Comumente lidando com personagens dimensionais, com valores ambíguos e passado sombrio. Podemos agregar ainda mais camadas quando citado o trabalho do diretor Kiyoshi Kurosawa que, trazendo todas as características típicas mencionadas acima, ainda se preocupa em trabalhar com elementos contemporâneos nos seus mistérios, algo que pode ser visto em “Kairo” (2001) – o qual explora a internet e o sentimento de novidade em relação à nova ferramenta para dar sustentação à sensação de medo.

É de se lamentar, portanto, que o último filme do diretor, “Creepy” (2016), seja um filme ruim. A novidade, outrora primordial nos filmes do realizador, dá lugar ao comum aqui, o que temos é um filme de mistério que percorre absurdamente os mesmos caminhos de muitos outros e, no que tenta se diferenciar, acaba caindo em uma armadilha, pois as decisões provocam somente um leve cansaço e constrangimento.

A história gira em torno de um jovem policial que se aposenta por causa de um grave acidente e vira professor de psicologia criminal. Ele e sua esposa vão morar em um bairro tranquilo no subúrbio mas, por desconfiança sobre algumas atitudes de um suspeito vizinho e com o convite de um amigo da policia, o protagonista ajuda a policia em mais uma investigação.

O primeiro e começo do segundo ato entregam a promessa de bons eventos e descobertas, personagens complexos vão aparecendo timidamente, momentos em sala de aula onde o protagonista fala sobre serial killers e os classifica de três formas “organizados, desorganizados e mistos” dão a sensação – e deveriam – de que assumiriam uma importância no desenvolvimento, mas isso é plenamente descartado ao longo dos minutos.

Os vizinhos do casal são estranhos, não aceitam os presentes e contrastam com a simpatia dos novos moradores. No entanto essa relação de pouca comunicação também se estende para o próprio casal principal, cuja interação é nula e alguns acontecimentos poderiam ser facilmente superados se houvessem diálogos entre os dois.

A conclusão caminha para o óbvio, o roteiro deixa claro quais serão os desdobramentos mas ainda se vê preocupado em acrescentar, no final, uma série de cenas grotescas e que se perdem em seu sentido dramático. No entanto, há de se destacar a atuação do grande Teruyuki Kagawa que emprega características assustadoras ao seu antagonista e o posicionamento de câmeras dentro das casas de todos os personagens, pois geralmente deixam o objeto na diagonal, representando brilhantemente a confusão e insegurança, sentimentos pelos quais eles estão passando.

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Meu Nome é Ray, 2015

Meu Nome é Ray (About Ray, EUA, 2015) Direção: Gaby Dellal

Apesar de algumas boas intenções do cinema em falar sobre a transexualidade – sempre apoiarei a discussão e, consecutivamente, a existência de inúmeros filmes que apresentem o tema, diretamente ou não – é de ser levado em conta que, em alguns casos, a discussão pertinente é deixada de lado para uma sequência de interesses.

A transexualidade é um tema delicado, a sociedade ainda tem sérias dificuldades em entender a diferença entre gênero e opção sexual, e enquanto pessoas que nem estão inseridas na vivência do dilema discutem e apontam o dedo para julgar os indivíduos, crianças do mundo inteiro se olham no espelho e não conseguem assimilar a imagem com a mente, com os sentimentos. Por conta disso, há de mencionado a importância da arte como elemento de difusão, auxiliando crianças e jovens de todos os lugares a, quem sabe, se identificarem, ajudando-os a encontrar o melhor caminho para uma longa jornada.

“Meu Nome é Ray” conta a história de Ray, um garoto transexual, que precisa viver entre a ansiosidade para o começo dos tratamentos com hormônios e os dramas da sua família, seja para compreendê-lo da melhor forma, ou demônios do passado. Dado a sinopse, é preciso salientar, a partir de então, que o principal problema do filme é justamente possuir um protagonista transexual, enfrentando dilemas emocionais enormes, mas nunca dar atenção dedicada a essa problematização. Enfatizando a família constantemente. O curioso é que a família é pessimamente desenvolvida, nem mesmo a vovó Dolly – vivida pela excelente Susan Sarandon – cuja personalidade poderia ser bem aproveitada, visto que sua atitude parte da espontaneidade e, nos momentos mais tensos, o seu bom humor se destacada, recebe atenção aqui. É uma mescla de conflitos, escritos de uma forma incoerente, tentando desesperadamente se tornarem melhores através dos talentos da já citada Sarandon, da Naomi Watts – que faz a mãe de Ray – e a Elle Fanning, que vem provando ser mais talentosa que a irmã, Dakota Fanning, há anos.

Mesmo que Elle Fanning prove a sua força dramática mais uma vez, há sérios problemas no que diz respeito a estruturação dramática que envolve o seu personagem. A começar pelos vídeos que Ray grava com o seu celular e edita no computador, como um registro da sua metamorfose, a ideia é interessante, apesar de não ser nada inédita, mas o que frusta realmente é que sua função na trama é descartada no segundo ato, se não bastasse isso, a qualidade visual e de edição dos seus vídeos se trata de algo profissional, o que tira drasticamente a visceralidade da proposta. Como pode um vídeo caseiro e despretensioso feito com um Iphone, de repente, se parecer com uma mega produção profissional, inclusive com ângulos precisos e impossível para um garoto fazer sozinho?

Com uma premissa poderosa, mas execução falha, o que percebemos é que se trata de uma sequência de cenas padronizadas que ganham forças esporádicas, se tratando de uma obra que apela para o seu conteúdo e é, por ele, traído. E empurra a responsabilidade de provocar a empatia para as suas atrizes. Uma decisão pouco corajosa da Gaby Dellal que, apesar das boas intenções, se deixa levar pelo caminho fácil do processo criativo.

Obs: Algo que sempre mencionarei é: dado a importância do tema e a indiferença de muitos, principalmente por se tratar de um problema de minorias, que bom seria se todo papel de transexual fosse vivido por um transexual, assim sentiríamos precisamente os seus conflitos, bem como abriria um espaço seja na grande industria ou veículo independente para os transgêneros. Por isso, recomendo fortemente o maravilhoso e recente “Tangerina”, dirigido pelo Sean Baker.

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Espaço Além – Marina Abramović e o Brasil, 2016

Espaço Além – Marina Abramović e o Brasil ( The Space In Between, Brasil, 2016 ) Direção: Marco Aurélio del Fiol

Marina Abramović adentra uma caverna encantada, repleta de incertezas incomunicáveis. Ela resiste à fraqueza da carne, sua mente transcende a dor, redimensionando a sua existência e, através do seu corpo, um veículo, explora a arte simples do cotidiano e motiva o público a fazer o mesmo.

Ela cria uma ponte entre o ser e o mundo espiritual e eterno, eternizando sua arte através de tatuagens feitas por todos aqueles que passaram por sua vida. Seria injusto separá-la da coragem; seria ingenuo não usar a sua imagem como uma forma segura de afirmação de que a arte é único caminho válido para se encontrar Deus.

O que nos liga é o sentimento de descoberta, descobrir-se como entregue, disposto à enfrentar os mistérios da crença, respeitando a diferença, lugar e história. Marina Abramović pratica a empatia e se suicida a cada segundo, desprendendo-se constantemente da vida e exaltando seus movimentos como uma forma divina de contemplação sobre o absurdo do acordar.

Assistir esse documentário proporciona uma experiência tão esmagadora e maravilhosa como a que Marina vivência com o chá de ayahuasca; uma verdadeira catarse, evacuação dos medos, uma jornada à cegueira total.

Há diversas cenas onde a espiritualidade atinge a imagética, o objeto se torna uma corrente que aprisiona o convencional. Acompanhamos os passos de um ser em busca de compreensão, de forma simples percebemos o quão grandioso é a liberdade total da consciência, a fé absoluta em coisas inimagináveis e perigosas – como uma imagem onde uma baiana “levita” ou o tratamento espiritual nada convencional onde é colocado uma faca nos olhos daqueles que creem, um momento altamente grotesco, se analisado exclusivamente com a razão.

A arte é entregar-se as emoções mais profundas, confiando na natureza como fonte primária de inspiração e reflexão. Marina Abramović deixa claro a sua posição sobre a  diferença entre instituição religiosa e espiritualidade, é importante para a compreensão dessa jornada onde a “andarilha moderna” encontra a si em cada personagem que sente, em cada passo lento à caminho da ciência, em cada arte e em cada cebola e alho que devora.

Na última vez que estive no Brasil, visitei uma xamã chamada Denise. Ela trabalhou com pedras de meteorito para determinar as minhas origens. Ela disse: “Sabe, você nunca se sente em casa em lugar nenhum.” Isso é verdade. “Você nunca se sente em casa em lugar nenhum. Porque você não é deste planeta. Seu DNA é galáctico, você vem de estrelas distantes. E você veio ao planeta Terra com um propósito”. Eu perguntei a ela: “Qual é o meu propósito?” “Seu propósito é ensinar os humanos a transcender a dor.”

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Desajustados, 2016

virgin mountain

Os trabalhos do Dagur Kári são sempre impressionantes. Lembro-me de tê-lo conhecido através do filme “O Bom Coração”, imediatamente me encantei com a narrativa orgânica, com os silêncios e reflexões – sempre muito oportunos – e com as atuações, principalmente do Brian Cox e Paul Dano, o segundo apresentando uma das suas melhores performances.

O diretor costuma ter uma abordagem visceral sobre o lado mais íntimo dos seus homens, lidando com a solidão como forma de motivá-los ou destruí-los. Se em “O Bom Coração” havia uma metáfora linda com o coração e confiança, no seu mais recente filme, há a mesma sutileza na abordagem de um tema complicadíssimo, e envolto de muito preconceito, chamado depressão.

A depressão pode, facilmente, ser alvo de desconfiança, isso porque se confunde com uma infinidade de sentimentos facilmente controláveis. Só quem já encarou essa doença sabe o quanto ela se apoia no desequilíbrio e no abandono. O diretor realiza, então, um dos seus trabalhos mais corajosos, baseando-se nesse isolamento e construindo uma série de mensagens através de um silêncio terrível, que machuca, mas sempre tentando desertar a reflexão no espectador e, principalmente, empatia.

A história é sobre um homem de meia-idade chamado Fúsi. Ele vive com a sua mãe, têm adoração por brinquedos colecionáveis e vive solitariamente, seja no trabalho ou em casa. Parece que não tem malícias, se comporta com constante naturalidade, mesmo que sempre demonstre, através de expressões, completa timidez do mundo. Fúsi tem depressão, mesmo que essa palavra, no início, não seja pronunciada. Mas quem assiste sabe desde o começo que ele não está bem. Contudo, com a possibilidade de fazer aulas de dança, acaba conhecendo uma mulher que o guiará através de um caminho de esperança e felicidade, mesmo que esse trajeto seja incompreensível para o protagonista.

A palavra depressão é dita apenas uma vez, por um personagem secundário que afirma que “a depressão é uma mistura de auto-piedade com preguiça”, parece-me ousado a postura do diretor em se utilizar de uma série de artifícios para refutar essa ideia egoísta. A fotografia e o posicionamento de câmera, por exemplo, sugerem o distanciamento do protagonista para com o mundo que o cerca, os objetos de cena sempre estão em primeiro plano, como se Fúsi estivesse oprimido constantemente, mesmo que pelas paredes.

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Aos poucos, no entanto, essa opressão vai se afastando e o personagem, apesar de jamais apresentar indícios de mudanças de personalidade – ora, esse nunca foi o problema – se vê próximo da sociedade como um todo, mesmo que as pessoas teimem em ser desrespeitosas com as suas decisões. Ele é extremamente frágil e inocente, mas no mesmo momento é tomado por uma segurança sem tamanho, extremamente cauteloso e ciente da maldade ao seu redor. Quando questionado pelo seu chefe, por exemplo, sobre as provocações que recebe dos colegas de profissão, ele diz que “não é nada demais, pois relacionamento entre homens são assim”, demonstrando mais uma vez a sua aversão as atitudes consideradas “naturais” pelo senso comum.

Com o desenvolvimento, o personagem vai se libertando das opressões.

Com o desenvolvimento, o personagem vai se libertando das opressões.

A atenção que o protagonista dá aos seus brinquedos são sempre ressaltados com planos detalhes, onde os seus olhos seguem com extrema atenção cada detalhe dos soldados, carros, enfim, todos os objetos pertencentes à sua coleção. Ainda mais, o personagem simula uma batalha da segunda mundial, em uma maquete, a referência e clara e faz jus a ideia popular de que “cada dia da nossa vida é uma batalha a ser vivida”. Visivelmente Fúsi não têm interesse nenhum em participar dessa batalha destinada aos adultos e decide permanecer criança, até por isso faz amizade com uma menina, sua vizinha. O filme ainda sugere uma possível desconfiança por parte dos vizinhos sobre a sexualidade do protagonista, tamanho envolvimento inocente com as crianças. É a representação de um mundo sujo, onde não se pode confiar em ninguém.

Mais uma vez, “Desajustados” é muito poderoso, desde o roteiro, passando pelos diálogos sempre viscerais e a postura do ator Gunnar Jónsson. Por ser fisicamente grande e explorar o comportamento desajustado, o espectador passa a se incomodar/identificar com diversas situações onde ele se sente um ‘peixe fora  d’ água”, as expressões do ator são sempre muito cuidadosas, parece realmente que abraçou o personagem e o desenvolveu com muito amor. Unido a isso temos as transições das cores, como a nova casa do personagem, no final do filme, que é azul claro, remetendo-nos a serenidade e tranquilidade.

Com a condição de ser único na sua proposta, essa obra da Islândia é uma verdadeira preciosidade, apresentando um personagem multifacetado, que nem ao menos sabe o que é endorfina, pois qualquer coisa relacionada com a felicidade é algo muito estranho para ele. Mas com a coragem de trocar heavy metal pela Dolly Parton, somente para agradar um amor, Fúsi continua espalhando a sua graça sem graça, o sorriso no último segundo de filme entra para a galeria dos melhores do cinema e, sem dúvida, se traduz em um alívio para o espectador.

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Tanna, 2015

Tanna ( Idem, Austrália, 2016 ) Direção: Bentley Dean e Martin Butler

“Tanna” é uma encenação de algumas pessoas da tribo Yakel, situada em uma remota ilha do Pacífico, sobre um caso real de amor proibido onde uma jovem apaixonou-se pelo filho do chefe da tribo – consecutivamente, seu sucessor – mas fora oferecida como esposa ao clã inimigo, como uma forma de anunciar a paz, portanto, a moça se vê presa entre os seus próprios interesses e o bem estar da sua comunidade.

Dirigido por Bentley Dean e Martin Butler – ambos possuem experiências com jornalismo e documentários – fica claro desde os primeiros minutos a intenção de mesclar a realidade com ficção de uma forma pura, sustentando-se na paisagem devastadora da ilha que traz, de brinde, um vulcão que protagoniza as mais belas cenas do filme.

É uma experiência catártica quando a opção pela construção narrativa passa pela utilização de não-atores, aqui acontece isso e é realmente surpreendente pensar que nenhum dos “atores” sabiam nem ao menos o que era uma câmera e, mesmo assim, aceitaram participar do projeto. É preciso uma cumplicidade e entendimento sobre o mecanismo, algo que partiu, sem dúvidas, de uma relação íntima que durou meses ou anos, entre os realizadores e o povo. Tudo está estreitamente sincronizado no que diz respeito as performances, inclusive não parece haver espaços para improvisos, o que certamente causa impacto negativo em algumas cenas.

O trabalho visceral se mostra competente em um primeiro momento. É motivo de emoção tamanha sutileza, crianças atuando de forma desprendida, senhores pronunciando curtas, mas sabias palavras, etc, mas a sensação com o passar dos minutos é de pura enganação, até porque a realidade é uma ponte fácil para a empatia imediata.

Antes de mais nada, o fato de usar não-atores é comum em cinemas que priorizam a mescla entre documentário e ficção, recomendo o cinema iraniano para ilustrar como tal opção pode ser brilhantemente utilizada quando uma direção segura e inteligente se faz presente, algo que definitivamente não acontece em “Tanna”.

Primeiramente, o roteiro parte de uma premissa clichê na história mundial. A história do amor proibido, hoje, precisa ser trabalhado de formas diferentes, sendo sustentado de outras formas para, na conclusão, a mensagem não ser óbvia. A direção pouco abusa nesse sentido, o limite que separa documentário da ficção não é trabalhada de forma a causar o impacto, a simplicidade se torna uma interrogação bem grande no centro da tela e os personagens não são bem desenvolvidos. A angústia pela qual deveríamos enfrentar junto com a protagonista ou a relação de afeto e proteção extrema que ela possui com a irmã, em momento nenhum é explorado, reforçando uma abordagem preguiçosa que se apoia exclusivamente na suposta realidade. Oras, não seria melhor fazer um documentário?

A fotografia, sem dúvida nenhuma, chama a atenção, principalmente pela utilização inteligente do vulcão que motiva os personagens a uma passagem espiritual, seja de união ou desprendimento.

É uma obra necessária aos amantes de obras orgânicas, que se baseiam nas paisagens para compor a naturalidade e identificação. No entanto, a sensação que fica é que uma ideia brilhante é desperdiçada com um desenvolvimento pouco corajoso, há uma dedicação em organizar as atuações de modo que fiquem aceitáveis, a filmagem acompanha de modo feliz o movimento dos personagens, mas, em resumo, a essência é esquecida, exibindo um roteiro fraco que é afetado por uma direção que tenta ser grandiosa demais, caminhando em direção oposta à proposta inicial.

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La La Land, 2016

La La Land ( Idem, EUA, 2016 ) Direção: Damien Chazelle

★★

Em 2011 foi lançado nos cinemas o sucesso “O Artista“, dirigido pelo Michel Hazanavicius, o filme foi a aposta certa ao Oscar do ano seguinte por conta de uma exaltação sobre a sua proposta de homenagear os anos maravilhosos do cinema mudo. O entusiasmo parecia se encontrar em cada canto, críticas maravilhosas faziam alusão ao filme como sendo uma ousadia narrativa, super bem interpretado e dirigido, algo que entraria para a história. O resultado é que estamos em 2017 e, justamente, poucas pessoas mencionam “O Artista“, senão, pelo fato de ter conquistado o Oscar de 2012.

“La La Land”, apesar de possuir algumas características especiais, especialmente na direção de arte e fotografia, parece caminhar na mesma direção da obra citada acima, se fortalecendo como uma homenagem pura, levando-nos a embarcar na história agridoce do casal Sebastian (Ryan Gosling) e Mia (Emma Stone). Ambos possuem o sonho de viver da arte mas precisam acostumar-se a recorrer um ao outro para manter as forças até a realização desse objetivo.

O filme se apresenta destacando a força da cidade de Los Angeles para a trama, bem como as cores vibrantes para ressaltar a magia que envolverá o casal. O fato é que ambos se veem mergulhados na obstinação e o impulso e amor à arte que possuem é colocado em prova a partir do momento que presenciam a indiferença por parte das pessoas. As cores azul, vermelho, amarelo e roxo estão muito presentes; os dois primeiros como contraste entre tristeza e energia, paixão; o visual contextualiza o psicológico das personagens além de transportá-los para um universo onírico, que dá total liberdade ao diretor Damien Chazelle trabalhar ângulos e movimentos de câmeras, inclusive nas cenas de coreografias.

A aproximação dos personagens acontece de forma orgânica, mas o desenvolvimento é frágil pois vai de desencontro com a apresentação. Como musical “La La Land” é mediano; como filme de romance é lamentável. As coreografias e canções são esquecíveis – há apenas uma canção maravilhosa e que, infelizmente, é repetida na trama diversas vezes para pontuar o encontro ou despedida – e o romance é estruturado em uma série de clichês.

A diversão é garantida, principalmente pela harmonia entre a Emma Stone e Ryan Gosling. Os dois constroem personagens adoráveis, conversam entre si com uma naturalidade imprescindível o que, por consequência, cria uma atmosfera graciosamente hipnotizante. Mas ainda é uma experiência razoável, as referências são bem interessantes mas, sozinhas, não sustentam a fragilidade do roteiro; o sentimento que fica é que seria bem melhor revisitar as obras referenciadas.

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O Que Está Por Vir, 2016

O Que Está Por Vir ( L’avenir, França, 2016 ) Direção: Mia Hansen-Løve

★★★

2016 certamente foi um ano precioso na carreira da excelente Isabelle Huppert – pessoalmente considero a melhor atriz ainda em atividade no cinema mundial – pois, pegando como exemplo dois dos seus filmes lançados no Brasil, além de um deles, “Elle”, ter uma interpretação considerada forte o suficiente para ser indicada ao Oscar – e, se a premiação for justa, sairá vencedora – tanto no já citado filme do Paul Verhoeven quanto em “O Que Está Por Vir” ela têm a oportunidade de trabalhar com personagens femininas de imagem e postura fortes, lidando com os sentimentos mais profundos com muita classe, ocultando a fraqueza com as expressões fortes e equilibradas.

Dirigido pela Mia Hansen-Løve de forma intimista, suavizando os movimentos de câmera e dando importância gigantesca ao cenário e como as personagens ocuparão o espaço, todos os elementos básicos parecem favorecer a sua protagonista, é como se a diretora percebesse o potencial reflexivo da sua trajetória e, da forma mais simplista possível, construísse um monumento ao seu redor como iniciativa de contemplação do cotidiano abalado por uma decisão egoísta que, em nenhum momento, é julgada. Essa sincronia entre a direção e o roteiro acontece pois Mia Hansen-Løve assina ambos; outro motivo claro é que a história é uma homenagem a sua mãe, uma professora de filosofia.

O filme acompanha a professora de filosofia Nathalie (Huppert) que possui como obrigação, enquanto educadora, permitir que seus alunos pensem por si, motivando reflexões sobre questões profundas, acontecimentos atuais e política sem a necessidade de uma implementação de ideias prontas – algo que fica evidente nas primeiras cenas, onde a professora se recusa a realizar um debate em sala onde os alunos, consecutivamente, esperavam ouvir a sua posição política. Sua vida, aparentemente, dialoga com a completude, inclusive financeiramente, mas a sua mãe cobra atenção por conta da avançada idade e a relação com o marido, que dura vinte e cinco anos – pode estar em processo de transformação por conta de uma possível traição.

O título e a tradução sugerem a posterioridade. O longa é inteligente ao oferecer, em seu prólogo, mensagens rápidas e profundas sobre o “depois”. Como as ondas do mar, Nathalie se depara com o percurso de entender-se só, aceitando a sua condição de caminhante em meio à diferentes princípios – ela possui um passado ativo politicamente e, no auge da idade, se sente conservadora.

Se não bastasse, a obra representa um dilema presente na vida de muitas mulheres que, influenciadas pelas ideias abomináveis da sociedade e da mídia, se veem invalidadas ao chegar na terceira idade, como se a “idade avançada” representasse somente a espera da morte, um ponto final nesse grande texto chamado vida. A morte certamente está por vir, mas nem por isso escraviza uma existência.

O movimento das ondas vão e vêm, mas durante esse movimento infinito existem diversas situações, diversos momentos a serem investigados com entrega e ousadia. A protagonista, após a separação, passa a se estudar, reinventando-se para, na posterioridade, descobrir-se sobre outra perspectiva – algo que será transmitido em planos que a diretora dá uma importância grande, no quadro, para a paisagem, como se o meio estivesse ofuscando o brilho da protagonista.

É de se notar a sensibilidade na singela construção narrativa como no final que a protagonista é filmada entre as paredes do seu quarto, da mesma forma que o marido no começo, provocando a sensação de que toda relação é positiva pois transforma, independente do tempo que se mantenha. O Que Está Por Vir é simples na composição, mas profundo na abordagem, pois não há maneiras de ignorar o quão especial é a jornada de evolução: com a mãe, um aluno e o ex-marido Nathalie interage com o passado; com os filhos e a nova gata, Pandora, ela sente o presente e assim vai se preparando para o próximo dia, onde o natal é comemorado sem um integrante importante da família, mas nem por isso perde a sua luz.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Wiener-Dog, 2016

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Todd Solondz é um dos meus diretores favoritos. Lembro-me de ter assistido “Felicidade” e isso me incentivou a pesquisar cada vez mais o cinema independente norte-americano. Basicamente Todd Solondz me ensinou, assim como diversos outros diretores, que o cinema vai muito além quando atinge a raiz dos problemas sociais e filosóficos.

Por isso tenho um carinho muito grande com o seu trabalho extremamente realista e doloroso. Ele alcançou o auge da sua carreira ainda nos anos 90, junto com outros nomes que despontavam no circuito independente. Filmes como o já citado “Felicidade”, de 1998 e “Bem-Vindo à Casa de Bonecas”, 1995, são sempre lembrados ao discutir sobre a carreira do diretor. No entanto, é natural apontar os seus recentes trabalhos como o auge da sua maturidade, mesmo que a fama tenha diminuído drasticamente – prova disso é que a diferença de tempo do seu, até então, último filme “Dark Horse” ( 2011 ) com o recente “Wiener-Dog” ( 2016 ), grande se comparado com outros diretores – mas ainda é possível perceber que ele ainda desperta paixão por parte de alguns seguidores.

O diretor sempre teve essa necessidade de dialogar com a verdade através de um humor áspero e natural, organizando os seus personagens como uma sinfonia desastrosa, mostrando a realidade da forma mais impactante, direta e poética quanto a grosseria permite. Apesar dessa postura, é possível enxergar muito carinho por parte do realizador, como se estivesse construindo um belo castelo com pequenos blocos, cada um é um filme que, inevitavelmente, pertence a um mesmo universo.

“Felicidade”, “Histórias Proibidas”, “Palíndromos” e  “A Vida durante a Guerra”, todos eles têm em comum a narrativa que investiga uma série de personagens, através de histórias paralelas que, de algum modo, estão relacionadas. Em seu mais recente, “Wiener-Dog”, ele continua com a mesma ideia e as histórias dos personagens são exibidas através da jornada de um cachorro, no entanto uma diferença crucial é os atores que estão no projeto, grandes nomes como: Danny DeVito – que casa perfeitamente com o universo do diretor -, Ellen Burstyn, Julie Delpy, Greta Gerwig etc.

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O mundo de Solondz é todo corrompido, na verdade ele subverte o normal e apresenta um lado oposto do costumeiro, então podemos ressaltar que essa corrupção parte, na verdade, de uma ignorância. O diretor grita constantemente em seus roteiros para que nós olhemos para um outro lado, outrora não nos espantaríamos com a sua proposta, no entanto a nossa arrogância e individualidade nos tira essa possibilidade de conforto, transformando Solondz em um contestador, brinca com o choque como função principal da narrativa, sem ser pedinte e se preocupando em agredir bem devagar, preparando-nos, acolhendo-nos.

As cores vibrantes do começo atingem um azul melancólico conforme a história se desenvolve, principalmente no primeiro segmento que acompanhamos através do cachorrinho. Essa história é realmente a mais densa, por simplesmente trazer uma série de indagações através de um garoto curioso que se questiona sobre tudo, desde o livre arbítrio, passando pela domesticação e castração até culminar em reflexões sobre o papel de Deus na sociedade. O garoto sempre pergunta à sua mãe, interpretada pela maravilhosa Julie Delpy, e recebe respostas vazias, como se a mãe quisesse ausentar o seu filho da ciência. Tratando-o como idiota e privatizando-o do crescimento. Ora, não fazemos isso ao abandonar as nossas crianças nas redes sociais?

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“Cães não são humanos e não têm sentimentos”

Se na primeira história a relação com o “Wiener-Dog” é de dúvida, na segunda, quando a Greta Gerwig aparece, é de acompanhamento. E assim continua até o final, a sua função na trama é acompanhar a linha do tempo do ser humano, a sua ânsia por conhecimento, o seu carinho, busca por amor/companheirismo, a sua depressão, o medo da morte e solidão.

É impressionante a capacidade do diretor em resgatar esses temas de forma insana, repetindo músicas, diálogos, no mínimo, doidos, um verdadeiro mundaréu de significados. É válido mencionar que a última história, com a Ellen Burstyn, o  “Wiener-Dog” ganha o nome de Câncer, isolando-o de qualquer esperança ou amor, é quando a idade atrapalha por conta da desesperança. Poucas vezes, na história do cinema, a morte foi retratada de forma tão inteligente como aqui. A sequência final é maravilhosa, quando uma só personagem se depara com todas as possibilidades que poderia ter seguido, como uma forma, novamente, do diretor gritar para o mundo a sua visão pessimista, mas acima de tudo realista sobre a vida e quem o segue. Obrigado, Todd, mais uma vez, por me salvar.

Em uma faculdade de cinema, está acontecendo uma palestra com um ex-estudante que conseguiu sucesso na indústria. Alguém pergunta: “Como a faculdade de cinema te ajudou na carreira?”. Ele responde: em nada. Querem uma dica? caiam fora daqui e façam filme. Não se aprende nada na aula.

Obs: Ouçam o podcast que gravei no Masmorracast sobre a carreira do diretor Todd Solondz: http://cinemasmorra.com.br/2013/08/13/masmorra-cast-45-filmografias-todd-solondz/

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