The Piper, 2015

O Flautista (The Piper, Coréia do Sul, 2015) Direção: Kim Kwang-tae

Um flautista chega à cidade de Hamelin e presencia o desespero dos habitantes por conta de uma infestação de ratos. Ele prontamente se dispõe a ajudá-los em troca de um bom pagamento. Tocando a sua flauta, o homem misterioso hipnotiza os ratos e todos seguem diretamente ao rio, onde morrem afogados. Quando o flautista retorna para receber, os poderosos da cidade se recusam a pagá-lo, alegando que ele não tinha trazido provas das mortes dos ratos. Dias depois o mesmo flautista retorna para hipnotizar as crianças da cidade e direcioná-las ao encontro da morte.

Essa história é impactante e sombria, principalmente porque se trata de uma manifestação contextual moldada diante à Peste Negra que assolava as cidades na Idade Média. Há uma mescla de ignorância e aproveitamento, bem como uma evidente intenção de vingança, o que, por sinal, são temas que combinam bastante com o cinema sul-coreano. O Flautista (2015) é realizado em base a esse conto, no entanto os eventos acontecem em outro contexto, o roteiro se preocupa em dar uma ênfase no homem e o motivo de sua ira, embora exista diferenças, as semelhanças foram escolhidas com perfeição, e ainda por cima também existe o conflito histórico como plano de fundo, pois aqui um povoado se vê preso e isolado por conta de uma guerra, o que os proíbem de se moverem, restando-os compartilharem a fixa moradia com uma enorme quantidade de ratos.

Nas primeiras cenas é possível perceber que se trata de uma jornada entre pai e filho, e como ambos se ajudarão no processo. O objetivo é ir até Seoul, pois o filho tem problemas respiratórios e um médico de tal lugar prometera uma recuperação perfeita. O caminho fica estruturado o suficiente e visualmente o filme ressalta constantemente a união do pai com seu filho e como a estrada para a sua recuperação será difícil – algo que pode ser facilmente compreendido através de uma fotografia que posiciona os personagens em estradas estreitas, engolidos por uma paisagem exuberante, pureza essa que será contrastada no final do filme, onde a fotografia fica escura e sombria, acompanhando a densidade do roteiro.

Ainda sobre a posição dos personagens em meio à natureza, essa alegoria da repetição possui uma importância enorme quando há uma tentativa de definir os exatos momentos do roteiro que a obra ganha contornos soturnos. Se o primeiro ato pai e filho estão sempre pertos e a fotografia é clara o suficiente para dizer que, apesar da doença, a união dos dois simplesmente os fazem felizes, no terceiro ato a solidão é devastadora e, com o auxílio da escuridão, a obra gira 360° graus e atinge perfeitamente elementos clássicos do gênero terror, isso sem abandonar a proposta fabulesca.

O flautista não procura a vingança; a vingança o encontra no momento que se isola da esperança. A mesma natureza que o envolvia e emanava luz, passa a escondê-lo no escuro.

 Apesar de bons momentos, a infinidade de curvas narrativas tiram a atenção do foco principal. Às vezes as viradas bruscas que vão do drama ao terror em questão de minutos, atingem o exagero e a experiência se torna cansativa. A sensação que fica é que seria melhor ter escolhido entre um caminho ou outro, assim como os próprios personagens centrais do filme. Todavia, esse é um problema que assola o primeiro e segundo ato, pois o terceiro há uma fixação dos reais interesses metafóricos de todo o trabalho desenvolvido até então, principalmente em relação ao roteiro que mais parece uma fábula com pitadas do bom cinema de vingança sul-coreano. E é surpreendente o resultado, pois a perversidade se alinha com a infantilidade, provocando o desconforto imediato.

A atuação do Seung-ryong Ryu demonstra exatamente as nuances da sua personagem que vai se quebrando aos poucos, um senhor de respeito passa a ser um predador, manipulador de pragas e vingativo. O sorriso das crianças e o seu próprio, ao ouvir as canções da flauta, não passam de ilusões que anteveem a catástrofe. A reinterpretação da história do flautista de Hamelin, é tão obscura quanto o conto original, que guarda em suas linhas um mistério sobre o desaparecimento de crianças e o sofrimento causado por doenças; ainda que o real motivo da vingança, nos dois contos, seja o homem isolado e sofrendo as consequências por confiar.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Flores Amarelas na Grama Verde, 2015

Flores Amarelas na Grama Verde ( Tôi thay hoa vàng trên co xanh, Vietnã, 2015 ) Direção: Victor Vu

A história se situa na zona rual do Vietnã, na década de 1980, onde dois irmãos aproveitam a sua infância e partilham amor, erros e brincadeiras. São flores amarelas esperando o momento certo de desabrochar, um rito de passagem entre infância e responsabilidades.

A sutileza da sinopse é consequência da singela trama que se desenvolve da forma mais carinhosa possível. O primeiro ato é repleto de momentos engraçados, trilha sonora suave e delicada, uma verdadeira carta de apresentação da pequena vila que, mesmo com toda a simplicidade, está localizada em um verdadeiro paraíso natural – o palco das brincadeiras e relações entre as crianças. A natureza que dá liberdade às crianças é a mesma que aprisiona os adultos, portanto, as flores amarelas do título referenciam essa oportunidade de desprendimento antes da consciência da enorme responsabilidade que os aguardam.

Thieu ( Thinh Vinh ) é o irmão mais velho e o que mais se aproxima dessa transformação, portanto, é o protagonista e veículo entre as paisagens e situação com o público. As suas decisões erradas, apesar de atingirem a grosseria em dados momentos, nunca são motivos de antipatia, pelo simples fato de se tratar de alguém que está em busca da sua melhor condição – a cena em que ele confunde cobre com ouro representa justamente essa inocência, bem como o livro com poemas de amor que recebe da garota que é apaixonado e, cego por ciúme do irmão, não percebe que é a prova da reciprocidade dos sentimentos da garota.

A sutileza também se encontra na transformação fotográfica: no começo a luz é presente, as cores são fortes, trazendo vivacidade ao local, tornando-o ainda mais bonito. No terceiro ato, como contraste, o lugar se torna mais cinza, melancólico, ainda que timidamente.

É uma obra-prima grandiosa de um cinema pouco conhecido, Vietnã surpreende nesse conto realista que se aproxima de uma fábula, começa como um conto infantil e vai se desprendendo aos poucos, culminando em um perfeito ensaio sobre a vida e crescimento. Flores amarelas são as crianças que anseiam pelo amanhã, a doçura do irmão mais novo Tuong (  Khang Trong ) e as fragilidades e acertos das relações.

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Meu Nome é Ray, 2015

Meu Nome é Ray (About Ray, EUA, 2015) Direção: Gaby Dellal

Apesar de algumas boas intenções do cinema em falar sobre a transexualidade – sempre apoiarei a discussão e, consecutivamente, a existência de inúmeros filmes que apresentem o tema, diretamente ou não – é de ser levado em conta que, em alguns casos, a discussão pertinente é deixada de lado para uma sequência de interesses.

A transexualidade é um tema delicado, a sociedade ainda tem sérias dificuldades em entender a diferença entre gênero e opção sexual, e enquanto pessoas que nem estão inseridas na vivência do dilema discutem e apontam o dedo para julgar os indivíduos, crianças do mundo inteiro se olham no espelho e não conseguem assimilar a imagem com a mente, com os sentimentos. Por conta disso, há de mencionado a importância da arte como elemento de difusão, auxiliando crianças e jovens de todos os lugares a, quem sabe, se identificarem, ajudando-os a encontrar o melhor caminho para uma longa jornada.

“Meu Nome é Ray” conta a história de Ray, um garoto transexual, que precisa viver entre a ansiosidade para o começo dos tratamentos com hormônios e os dramas da sua família, seja para compreendê-lo da melhor forma, ou demônios do passado. Dado a sinopse, é preciso salientar, a partir de então, que o principal problema do filme é justamente possuir um protagonista transexual, enfrentando dilemas emocionais enormes, mas nunca dar atenção dedicada a essa problematização. Enfatizando a família constantemente. O curioso é que a família é pessimamente desenvolvida, nem mesmo a vovó Dolly – vivida pela excelente Susan Sarandon – cuja personalidade poderia ser bem aproveitada, visto que sua atitude parte da espontaneidade e, nos momentos mais tensos, o seu bom humor se destacada, recebe atenção aqui. É uma mescla de conflitos, escritos de uma forma incoerente, tentando desesperadamente se tornarem melhores através dos talentos da já citada Sarandon, da Naomi Watts – que faz a mãe de Ray – e a Elle Fanning, que vem provando ser mais talentosa que a irmã, Dakota Fanning, há anos.

Mesmo que Elle Fanning prove a sua força dramática mais uma vez, há sérios problemas no que diz respeito a estruturação dramática que envolve o seu personagem. A começar pelos vídeos que Ray grava com o seu celular e edita no computador, como um registro da sua metamorfose, a ideia é interessante, apesar de não ser nada inédita, mas o que frusta realmente é que sua função na trama é descartada no segundo ato, se não bastasse isso, a qualidade visual e de edição dos seus vídeos se trata de algo profissional, o que tira drasticamente a visceralidade da proposta. Como pode um vídeo caseiro e despretensioso feito com um Iphone, de repente, se parecer com uma mega produção profissional, inclusive com ângulos precisos e impossível para um garoto fazer sozinho?

Com uma premissa poderosa, mas execução falha, o que percebemos é que se trata de uma sequência de cenas padronizadas que ganham forças esporádicas, se tratando de uma obra que apela para o seu conteúdo e é, por ele, traído. E empurra a responsabilidade de provocar a empatia para as suas atrizes. Uma decisão pouco corajosa da Gaby Dellal que, apesar das boas intenções, se deixa levar pelo caminho fácil do processo criativo.

Obs: Algo que sempre mencionarei é: dado a importância do tema e a indiferença de muitos, principalmente por se tratar de um problema de minorias, que bom seria se todo papel de transexual fosse vivido por um transexual, assim sentiríamos precisamente os seus conflitos, bem como abriria um espaço seja na grande industria ou veículo independente para os transgêneros. Por isso, recomendo fortemente o maravilhoso e recente “Tangerina”, dirigido pelo Sean Baker.

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Vivendo com a Minha Mãe, 2015

Vivendo com a Minha Mãe Haha to kuraseba, Japão, 2015 ) Direção: Yôji Yamada

A história gira em torno de uma mulher, Nobuko, que perdeu a sua família na guerra. Após a Segunda Guerra Mundial, ela parte em rumo a uma nova vida e, inesperadamente, recebe o fantasma do seu filho, morto na explosão da bomba atômica em Nagasaki.

Trazendo algumas reflexões interessantes sobre a guerra e os impactos causados por ela – mas nunca sendo completamente eficaz nessa proposta – esse filme é mais uma prova da grande sensibilidade do diretor Yôji Yamada. Sustentando sua história na excelente atuação da Sayuri Yoshinaga, acompanhamos a dor da mãe de forma leve e visceral, até por que a própria personagem nunca demonstra tristeza, se revelando extremamente forte, mesmo que esteja solitária no mundo.

A aparição do espírito do filho acontece de forma abrupta, mas jamais cai na artificialidade, soando como um conforto para a mãe, como se estivesse sendo guiada para o conforto – algo que, na conclusão, será provado de forma bonita e suave.

O filho, que falecerá ainda jovem, cheio de sonhos e vivendo um grande amor, precisa aceitar a sua condição e desprender-se do mundo, enquanto a mãe funciona como uma intercessora dessa necessidade.

O filme tem uma narrativa delicada que, infelizmente, se perde na metade, caindo em um ritmo lento e desnecessário, além das repetições de ideias. Porém a montagem que contém inserções do passado e pensamentos da uma fluidez ao roteiro que, em geral, não apresenta uma história nova mas encanta com a sua simplicidade.

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Coro, 2015

Coro ( Chorus, Canadá, 2015 ) Direção: François Delisle

O luto é um processo demorado, talvez represente a maior injustiça de todas e é um claro aviso do universo sobre a nossa finitude. Essa espera pelo depois, bem como a consciência da morte torna a existência mais bela, mais intensa, – ou deveria – mas ainda assim é complicado essa frase quando ela é inserida em um evento particular.

A família simboliza a segurança existencial, um abrigo diante às inúmeras oportunidades de cair; uma mãe doa tanto de si ao filho que, no fundo, esquece das suas próprias limitações e sonhos, tornando-se mestre de um universo inteiro a ser pintado, mas que, por consequência do tempo, desvincula-se da sua essência e experimenta o mundo dentre suas próprias convicções.

Cores vibrantes dão lugar ao preto e branco em “Coro”, dirigido pelo François Delisle. Acompanhamos Irene (Fanny Mallette) que, após dez anos da morte do seu filho, é obrigada a reviver as conturbações do evento, para isso precisa do apoio do seu ex-marido Christophe (Sébastien Ricard) que, juntos, se sustentam e conversam em silêncio suas dores, culpas e vazio existencial; ambos possuem um espaço em branco que jamais será preenchido.

O luto caminha como uma sombra junto com os dois personagens centrais, modificando suas posturas e escolhas diante à vida e, por consequência, também aflige aqueles que estão envolvidos. É uma dor sendo trabalhada em forma de estudo de personagem, principalmente Irene, e esse sentimento é tão forte que não há formas de escapar, portanto, o espectador sente a presença de uma aflição que não têm esperanças de partir, humanizando a sensibilidade e a transformando na maior realidade possível.

A obra se baseia no silêncio e pequenos movimentos para representar um estado psicológico – geralmente Christophe e Irene estão lado a lado, representando justamente o sufoco por não conseguir compartilhar suas depressões, senão, entre eles mesmos; quando os dois finalmente veem os ossos desenterrados do filho, Irene surta e Christophe vai para o canto da tela, simbolizando a sua consciência de culpa sobre o ocorrido, principalmente em relação às consequências emocionais para a vida da sua ex-mulher que, detalhe, ele ainda ama mas não consegue olhar diretamente nos olhos.

Ainda há uma simetria em cada quadro, vale ressaltar que os personagens geralmente são filmados entre objetos, móveis ou paredes, reforçando a ideia de claustrofobia que envolve a todos. A condição da existência oprime o pai e a mãe, eles passam a ser escravizados pelo próprio espaço.

Irene canta em um coral na igreja, algo que exige muita concentração, organização e, principalmente, mútua cumplicidade e aceitação entre os envolvidos, algo que certamente precisará aplicar em sua vida.

Ao longo do desenvolvimento, há preocupações em estabelecer um elo da situação com pequenas reflexões da protagonista, em um plano detalhe, por exemplo, ela toca a cicatriz da cesária; assim como existe algumas alegorias da repetição, a mais profunda é quando Christophe admira o desenho do filho e passa o dedo justamente em um espiral – a câmera move devagar até vermos a totalidade e percebemos que se trata de um caracol – que representa não só os contornos da situação, como também o seu estado emocional, visto que não têm certeza se continua com sua ex-esposa ou volta para o México; e, depois, Irene passa os dedos em uma camisinha usada, repleta de espermas, como se fizesse carinho em um futuro utópico, onde a criação desse uma segunda chance para o amor e vice-versa.

O filme é uma alegoria sobre o abandono, seja literal ou psicológico, em suma, algumas dores não podem ser compreendidas ou mensuradas, senão, por aqueles que as vivem. “Coro” começa sua jornada com essa certeza, envolvendo muita coragem e respeito de modo a contemplar perfeitamente um fato horroroso. A poesia se encontra na simetria visual e no silêncio provocativo, criando uma verdadeira análise sobre o luto e o recomeço.

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Ma Ma, 2015

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★★★

“Ma Ma” é o novo filme do diretor Julio Medem, cujo último trabalho de grande destaque havia sido o maravilhoso “Um Quarto em Roma”, e tem uma presença muito marcante e entregue da atriz Penélope Cruz que também assina a produção.

O filme conta a história de uma mulher, Magda, que descobre ter câncer de mama e, através do seu sorriso e simpatia, acompanhamos a sua luta e, principalmente, preocupação em manter uma relação estável com o seu filho.

Até a primeira metade é de se destacar a mensagem feminista que toma cada segundo de projeção, pautando-se na força de sua personagem, bem como no carisma da Penélope Cruz, Magda se revela incrivelmente forte e independente, despertando a atenção por onde passa e, como reflexo da sua irreverência, todos a tratam incrivelmente bem e, principalmente, sem interesses.

A fotografia tende a ser bem clara, principalmente quando o assunto “câncer” entra em voga, o branco é importante para a compreensão da trama – em dado momento, a protagonista entrega um envelope e traça um paralelo com a cor ( branca ) que é a mesma do time do coração de um outro personagem, no caso, o Real Madrid. No final do filme, após uma cena deveras emocionante, também há a inserção de uma imagem bem iluminada, como se despertasse àquilo que marca a personagem no mundo, representando a sua bondade, força e inocência.

Outro ponto importante é a narrativa flexível, diálogos diretos e inserções minimalistas como o coração – vale ressaltar uma cena em que Magda faz amor e em nenhum momento é mostrado o ato sexual, corajosamente somos “transportados” para dentro do corpo dela, onde, guiados pelo ritmo, vemos um coração pulsando, movido pelo prazer, essa cena representa a simplicidade do longa, no mesmo tempo que traça uma diferença gritante com os demais trabalhos do diretor Julio Medem, que sempre tiveram, em sua essência, o sexo como principal elemento de união. A narração, por vezes, lembra “O Fabuloso Destino de Amelie Poulain”, mas não é a toa, nas suas devidas proporções, ambos têm como hino mulheres sonhadoras, a diferença é que uma se deixa levar para outro universo, enquanto a outra tem um filho.

O problema de “Ma Ma” se encontra no segundo ato, pois perde a direção e investe em personagens secundários que não estão à altura dos poucos que foram apresentados até então e a simpatia que a protagonista despertava nas pessoas, passa a ser quase um super poder que transforma qualquer um em “super protetor da Magda”, abdicando as suas vidas para cuidar dela. Então a força e independência, elementos cruciais para a identificação imediata, vão sendo diminuídas.

No final, apela para um desfecho poético e surpreende, mesmo com o deslize, é fácil navegar feliz por essa história. A atuação da Penélope Cruz dá um charme crucial, como sempre, e sustenta essa obra que, caso contrário, seria apenas mais uma.

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The Ardennes, 2015

The Ardennes

★★★★

Assistir “The Ardennes” – filme indicado pela Bélgica para ser o representante no Oscar 2017 – é um processo interessante, uma viagem através de dilemas sobre liberdade, família, impulsão e natureza.

O diretor Robin Pront, que também assina o roteiro ao lado de Jeroen Perceval, um dos atores principais – conduz a sua narrativa de forma inteligente, sempre apostando na fotografia e som como forma de exaltar a densidade que acompanha o desenvolvimento.

A história é sobre dois irmãos, Dave e Kenneth, que percorrem um mundo criminoso até um deles, Kenneth, ser preso. Após alguns anos na cadeia, ele sai e se depara com um mundo muito diferente, começando pelo seu irmão que, com muita disciplina, abandona o mundo do crime, a bebida e tenta restabelecer uma ordem em sua vida. Entra em cena uma terceira personagem, Sylvie, ex-namorada de Kenneth e que está grávida, isso desestabiliza a relação dos irmãos e os direciona para o caos.

The Ardennes

Dividindo-se, claramente, em duas partes, a obra de Robin Pront parece indicar ao espectador, desde os primeiros momentos, que algo catastrófico virá em seguida. A trilha sonora constante, eletrônica, algo parecido com o excelente “Drive”, eleva o grau de atenção, envolvendo não só o espectador como a grandiosidade dos pequenos movimentos do protagonista que é tomado por uma impulsividade enorme. Essa impulsividade é o ponto forte do filme, pois sugere a incoerência, é o espaço onde a imprevisibilidade assume o poder na narrativa.

Se Kenneth, interpretado brilhantemente por Kevin Janssens, atrai os olhares, o mesmo pode-se dizer Dave ( Jeroen Perceval ) e Sylvie – vivida com maestria pela excelente Veerle Baetens, que vêm mostrando ser uma das melhores atrizes da atualidade depois de “Alabama Monroe” – os três formam um triangulo amoroso silencioso, cercados pelo perigo e domados pela insegurança. Pertencentes a um mundo desequilibrado onde tudo é melancólico e destruído, prova disso é a fotografia: Com os seus tons de azul, remete a ideia de frieza e, principalmente, distancia.

O tema mais surpreendente e melhor trabalhado aqui é, sem sombra de dúvidas, a liberdade. Existe uma “corda invisível que aprisiona todos os personagens”, e ela facilmente poderia ser denominada como culpa. O protagonista se vê livre quando sai da prisão, mas acorrentado nesse mundo exterior sujo. Não a toa, por diversos momentos, o personagem está refletindo em uma janela do carro e é possível perceber claramente que a imagem sempre está borrada, ora é uma sujeira no vidro, ora sombras ou até mesmo a chuva. Sempre nas cenas em quê os personagens estão diante de um vidro ou janela que dá a impressão de mundo “interno” e “externo”, a imagem sempre está nebulosa, ressaltando mais uma vez o quanto essa suposta liberdade é ilusória.

The Ardennes The Ardennes

O filme ganha ainda mais destaque com o seu desenvolvimento realizado, oportunamente , de forma cautelosa, atingindo proporções surpreendentes quando passa a ser um thriller incrivelmente tenso, obrigando-nos a aceitar uma mudança repentina, porém, muito bem justificada, onde a violência e ações passam a ser extremamente viscerais.

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À Beira Mar, 2015

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★★

Brad Pitt e Angelina Jolie são, hoje, o casal mais famoso da indústria do cinema. Quem assiste “Sr. e Sra. Smith”, de 2005, percebe que os dois são quase entidades de tão lindos e, ainda mais, juntos ficam perfeitos. Desde então saem muitas notícias sobre separação e diversas especulações sobre eles, claro, afinal são dois dos maiores nomes de Hollywood. O que é possível perceber é o carinho que Brad Pitt tem pela Angelina e os seus filhos; juntos eles formam, também, uma família muito querida.

Angelina Jolie dirige “À Beira Mar”, de maneira bem alternativa, deixando de lado a narrativa convencional e dedicando-se exclusivamente à contemplação. Ela contracena ao lado do marido Brad Pitt e, no meio de tantos trabalhos populares e bem aceitos pelas pessoas, essa pequena obra soa como um desabafo, onde os dois atores podem ser naturais e viscerais.

A história acompanha o casal Roland e Vanessa, escritor fracassado e ex-bailarina, respectivamente, em uma viagem para uma pequena cidade da França. Roland, afim de buscar inspiração para escrever um livro, anda por entre a cidade para conhecer as pessoas e beber, enquanto a sua esposa mergulha em depressão e álcool dentro do apartamento. Os dois vivem um momento muito conturbado no casamento, onde a distância e o silêncio estão muito presentes.

Vale ressaltar que do lado do apartamento está um outro casal, em lua de mel, chamado François e Lea, eles vivem a efervescência do início de uma relação e servem como contraste ao casal protagonista. No mesmo tempo essa dicotomia ajuda-os a repensar suas atitudes e o quanto o tempo mudou a relação entre eles.

Eu não citei “Sr. e Sra. Smith” por acaso, desde 2005 Angelina e Brad não trabalhavam juntos e, aqui, eles estão bem diferentes daquela época. Não acredito que seja autobiográfico, mas é sabido o fato que a Angelina Jolie não anda muito bem ultimamente – ela está assustadoramente magra nesse filme em questão – e Brad Pitt, apesar de continuar muito bonito, agora é um senhor. Então se “À Beira Mar” fala sobre o tempo, os atores se mostram verdadeiramente e ajudam, através das suas próprias histórias, a compor essa reflexão. É impossível assistir esse filme e não se questionar sobre todas essas coisas, até porque as cenas contemplativas, com longos planos, nos permitem pensar bastante.

Apesar da Angelina Jolie tentar chamar bastante a atenção para si, com grandes enquadramentos e aproveitando bastante a paisagem da sua varanda, quem se destaca mesmo é Brad Pitt. Ele faz qualquer atuação ser fácil e aqui a sua naturalidade surpreende. Ainda mais, a obra não é construída em base à cenas memoráveis, mas uma em específico vale todas as atenções: Roland/Brad Pitt olha a sua mulher e, se emocionando, diz “você está sorrindo“.

Contudo, apesar das intenções serem as melhores, Angelina peca na direção por repetir algumas ideias, principalmente no que diz respeito ao visual, como ângulos e movimentos que sugerem ou dialogam constantemente com a melancolia. O roteiro também se torna bastante repetitivo. Ainda existe uma singela preocupação em deixar as metáforas bem claras, como por exemplo o buraco na parede que representa a fuga para um outro tempo, uma outra intensidade. Apesar dessa ideia ser interessante, o desenvolvimento exaustivo dessa metáfora cansa e, na terceira vez, chega a ser engraçado.

Com fortes inspirações em “Quem Tem Medo de Virginia Woolf?“, o filme ainda peca por não desenvolver bem os jovens que moram ao lado. A sensação é de lamentação, pois o o casal é vivido pelos excelentes Melvil Poupaud e Mélanie Laurent e, infelizmente, a diretora trabalha ambos com indiferença, contrariando a sua intenção e prejudicando o resultado final.

“À Beira Mar” mais decepciona do que acerta, pertence ao grupo de filmes com ideias fantásticas, mas que fracassam na execução. Contudo, a atuação do Brad Pitt e a fotografia são os dois elementos que merecem atenção.

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Juventude, 2015

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★★★★★

Paolo Sorrentino é, impressionantemente, um jovem de 45 anos. Utilizo essa expressão pois sua capacidade de estudar o tempo e a velhice é sublime e envolta de muita sensibilidade/maturidade. No seu mais recente trabalho, “Youth“, o diretor brinca com uma linguagem desprendida, repleta de referências e informações – imediatamente lembrei-me do “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain“, pois ao assistir o filme francês o sorriso no canto da boca também permanece constantemente – e mistura alguns elementos melancólicos que podem ser vistos em dois trabalhos específicos da diretora polonesa chamada Dorota Kedzierzawska: “Koniec Swiata” (1988) e “Pora umierac” (2007). Ambos exemplos refletem sobre a passagem do tempo, perda e aceitação.

O cinema é uma ponte para catarse. Existem poucos filmes hoje em dia que se destacam por serem tão carinhosos. Essa ponte nos leva para vários lugares, várias idades e encontros, mas muitas vezes nos proíbe de imaginar o futuro. O cinema popular cria exaustivamente um mundo futurístico, com pessoas imortais ou dotadas de muitas facilidades. Mas seria mesmo o fim a insipidez da existência? Talvez a monotonia se forma e ganha forças através da nossa indiferença com o idoso e com os ganhos que o tempo nos dá.

Focalizamos o arrependimento e esquecemos que o fim não representa, necessariamente, o encerramento do espetáculo. O fim não é, nunca foi e nunca acontecerá de forma súbita. O fim é um processo, uma estrada, e cabe ao ser, de forma individual, escolher entre isolar-se ou doar-se.

Juventude” conta a história de um maestro aposentado chamado Fred – interpretado maravilhosamente bem por Michael Caine – e o seu amigo cineasta Mick ( Harvey Keitel ), eles estão passando as férias em um hotel luxuoso enquanto refletem sobre o passado, futuro, amores, enfim, a vida. Mick tem o desejo de realizar um último filme, que teima em classificá-lo como o seu testamento.

Mick, explicando a sua ideia para a realização do novo filme – vale ressaltar que ele teve uma carreira brilhante no passado, porém com o tempo a qualidade dos seus filmes foi diminuindo – diz que se chamará “O Último Dia da Vida”. O que escrevi sobre o “fim” acima, é a representação dessa obra que ele sonha realizar. Além de que esse filme é uma metalinguagem, pois se trata do próprio “Juventude” que, por sua vez, é repleto de referências – como comprovação, na última cena do filme, temos Mick fazendo um enquadramento para o próprio espectador, sugerindo também uma inversão de papeis, ora, por segundos o espectador se torna o “capturado” e, assim, parte do testamento.

As referências não param por ai – e seria impossível dissertar sobre todas – vejam por exemplo o personagem do querido Paul Dano, Jimmy Tree. Ele é um ator frustado pois mesmo fazendo diversos filmes alternativos só é lembrado por um filme popular de robôs. Paul Dano, por outro lado, se destaca também por filmes alternativos, apesar de serem conhecidos sempre exigem do ator uma mudança, mesmo que sutil.

A relação entre os dois amigos é tão natural e delicada, que é incrivelmente fácil adentrar naquele universo. Vivenciamos aquela paisagem maravilhosa, a trilha sempre oportuna, a fotografia que demonstra com perfeição a psicologia dos personagens, entregues aquela vida equilibrada, com poucas aventuras ou responsabilidades. A aventura, de fato, são os diálogos. Sempre pontuais, interessantes e, por vezes, engraçados.

A filha de Fred, Lena – interpretada pela lindíssima e talentosa Rachel Weisz – está presente no filme como um contraponto a tranquilidade já citada. Ela está em meio a uma separação e possui diversos ressentimentos em relação ao pai. E é através da sua visão que vamos conhecendo as falhas do maestro, afinal, pouco sabemos sobre sua história.

Tanto o cinema, como a música – que aqui representam a arte como um todo – aproximam e distanciam Fred e Mick do mundo. Lena diz em certo momento que o seu pai trabalhava constantemente e as palavras que mais dizia para ela era “silêncio Lena“. Não é contraditório um musico almejar silêncio? Seria o verdadeiro artista o maestro que se distancia de todos para trabalhar ou o homem simples que aprecia ouvir a família, o outro?

A resposta para essas perguntas, no filme, assumem a forma de uma jovem massagista ( Luna Mijovic ). Em dado momento ela afirma que “é possível entender tudo com o toque“. Ou seja, algo que o protagonista nunca teve com sua filha, porém, “Juventude” é uma obra prima e transforma o testamento em redenção, por isso, Fred acaricia de leve o rosto de Lena a noite, ela acordada sente, mas finge estar dormindo. Mas, no fim, “os pais sabem quando os filhos estão fingindo dormir”.

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Regressão, 2015

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★★★

O diretor Alejandro Amenábar se sai absurdamente bem na realização de filmes tensos. Mesmo que tenha feito bons dramas, parece saber construir o mistério de forma especial, envolvendo o espectador de forma natural e, ainda por cima, apresentando de forma sutil alguns signos que dão indícios para compreender a história. O espectador consegue adentrar no universo e brincar de investigador, junto com as personagens.

O seu mais recente trabalho, “Regression“, consegue ser extremamente maduro no desenvolvimento, prezando pela realidade, mesmo que mescle por vezes com o sobrenatural. Ainda por cima, o faz de forma psicológica, jogando a quem assiste a responsabilidade de desmistificar o que está sendo mostrado.

Diferentemente de “Lugares Escuros” – outro filme de 2015 e que, por sinal, é muito parecido com o do Amenábar – é um primor visual e, inclusive, a fotografia casa perfeitamente com os acontecimentos.

O filme se passa em Minnesota no ano de 1980 e acompanha um homem que é prezo e acusado de ter estuprado a sua própria filha. O que se entende, parcialmente, é que se trata de um ritual satânico, pois o pai não lembra dos acontecimentos, o que sugere que outras pessoas estão envolvidas. Então um investigador – interpretado de forma excelente pelo maravilhoso Ethan Hawke – e um psicólogo partem em busca de respostas sobre o caso, inclusive utilizando o método da regressão.

Logo no início do filme estamos dentro do carro do pai da menina, que está sendo julgado. Temos um destaque ao crucifixo que está no retrovisor e logo seguimos os seus passos até a delegacia. Entrando nela, rapidamente, a câmera se torna subjetiva – algo que será feito identicamente no meio do filme com o personagem do Ethan Hawke. O jogo psicológico que existe é imenso. Isso porque não há lembranças, portanto cabe ao investigador uma confiança no instinto, o que acaba corroborando com a sua fragilidade e medo ao longo. O equilíbrio acontece através do personagem do psicólogo, interpretado com uma sobriedade inacreditável por David Thewlis.

As cenas onde acontece a regressão são excepcionais, pois tem uma distorção, a fotografia muda, o onírico se faz presente e, com isso, aumenta o clima de tensão e estranhamento, até porque no primeiro ato nada fica muito claro. Aliás, a única forma que o passado é mostrado é nas regressões, o que funciona como uma isca para os mais atentos.

Algo contraditório é a personagem da Ângela Gray. Isso porque, positivamente, Emma Watson a interpreta de forma contida, diferente de todos os seus papeis anteriores – sabemos todos que a atriz é alvo de muitas atenções por causa das suas longas participações como Hermione em “Harry Potter” – ela consegue transitar por entre a tristeza e o conhecimento sobre a seita satânica que à persegue. No entanto, a partir disso temos o lado negativo do filme: A partir do segundo ato, tanto a interpretação da Emma quanto a personagem Ângela dão indícios sobre a conclusão da história para o espectador. Então fica fácil antever o final e o processo não se torna mais tão denso ou divertido.

Ainda assim é um bom filme para assistir, aborda alguns temas interessantes e, como brinde, nos faz pensar sobre algumas injustiças/erros, tanto familiares como da própria investigação da polícia.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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