Little Forest: Summer/Autumn (2014) de Junichi Mori

Little Forest: Summer/Autumn (Ritoru Foresuto Natsu Hen-Aki Hen, Japão, 2014) Direção: Junichi Mori

Algumas pessoas conseguem manter o hábito de levantar pela manhã e caminhar escutando uma boa música. Talvez ainda consigam andar por entre um lugar bonito, repleto de árvores, ou na calçada beirando o mar. Essa é a sensação que tive ao assistir “Little Forest: Summer/Autumn” (2014), uma profunda paz ao acompanhar a Ichiko (Ai Hashimoto) que volta ao campo para viver da simplicidade, fazendo experiências culinárias, principalmente com alimentos que ela própria planta.

Baseado em um mangá de Daisuke Igarashi, esse filme é no mínimo curioso e pode afastar algumas pessoas por não ter uma história bem definida e normal, basicamente acompanhamos a protagonista através das receitas que ela faz. É um passo a passo culinário com uma abordagem e fotografia delicada, onde os pratos e as realizações se confundem com o passado da personagem e as próprias estações do ano.

No dia 31/12/2016 me tornei vegetariano, uma ideia que há tempos refletia e que cuja decisão fora feita de forma brusca e irreversível. A partir do momento que pensei sobre o porquê, não existiu dificuldade na readaptação alimentar, o que só me trouxe benefícios. Meu “espírito” ficou mais leve, mas cito o carinho por cozinhar como uma das coisas que mais ficaram evidentes na minha vida. Descobrir receitas, misturar as cores da salada, enfim, apesar da personagem do filme não ser vegetariana, o seu carinho com o alimento é extremamente envolvente e encantador.

“Cozinhar é um espelho que reflete sua mente”

“Little Forest: Summer/Autumn” (2014) é uma obra acolhedora, que proporciona uma experiência romântica pela culinária natural. Como história, deixa a desejar, ainda que seja possível estabelecer uma evidente ligação entre a postura da protagonista e o seu passado com a mãe, mas essa não é a preocupação aqui. A atmosfera e cumplicidade do ser humano com o meio ambiente são energias transmitidas através da simplicidade, seja visual ou do texto.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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When Marnie Was There (2014)

Studio Ghibli é sinônimo de pureza, dedicação e sensibilidade. Eu poderia criar uma lista interminável de adjetivos, mas seria inútil, pois me sinto um ignorante em relação à grandiosidade desse estúdio. Nunca fui um especialista em animações japonesas ou animes, mas certamente sou um grande curioso, pois a cultura do Japão vê no desenho – seja animes, filmes ou manga – a sua alma. Studio Ghibli representa algo extremamente poderoso, uma entrega quase que absoluta à arte, é impossível não se emocionar, pois as histórias estão diretamente relacionadas com o nosso lado criança, desbravando um mundo mágico. E, nesse mundo mágico, acontecem coisas que se aproximam do exagero, porém é exatamente isso que torna os filmes cativantes e únicos. Poderia afirmar que a Pixar, há alguns anos atrás, era fruto dessa magia, uma pena que agora anda errando bastante, mas é basicamente a mesma coisa, se sustenta em grandes criadores e, principalmente, humanos extraordinários que têm muito amor e simplicidade em seus respectivos corações. Se a Pixar tem John Lasseter, o Studio Ghibli tem Hayao Miyazaki e Isao Takahata dois gênios que ensinaram os mais jovens a fazer filmes como, por exemplo, Hiromasa Yonebayashi que assina a direção desse último filme do estúdio chamado “When Marnie Was There”.

Hiromasa Yonebayashi fez “O Mundo dos Pequeninos” que, igualmente ao mais recente, nos brinda com um mundo fantástico e mistérios, levados as últimas consequências nesse último, aliás, ouso dizer que temos ai um grande nome para suceder o grande Hayao Miyazaki, poderia estar cometendo uma injustiça, mas vejo nesse jovem diretor de 40 anos um potencial enorme.

When Marnie Was There ao contrário de “O Mundo dos Pequeninos” é inteiramente adulto, não só pelos temas que descreverei a seguir, como também pela profundidade. Não lembro de um filme sequer desse estúdio querido, que não possua temas interessantes, mas são desenvolvidos sobre um olhar infantil, quase doce, não que isso não aconteça aqui, mas há uma dose de confusão, quase um misticismo envolto de lembranças, algo que comove muito mais os adultos. Conta-nos a história de Anna, uma garota solitária e tristonha, que por motivos de saúde vai passar um tempo no campo, para se manter bem tanto fisicamente quanto emocionalmente, ela se vê diante de uma vida monótona, até que encontra uma mansão misteriosa. Essa mansão traz algum tipo de lembrança para a menina, mesmo que a própria e nós, espectadores, não saibamos. Há boatos na pequena cidade de que não mora ninguém na mansão, mas surpreendentemente Anna enxerga sempre uma menina loira através da janela, isso a intriga ao ponto de transformar esse mistério em obsessão. Conhecendo um pouco mais dessa menina, além de fazer uma belíssima amizade com a mesma, Anna descobre que ela está cercada de mistérios.

O filme começa e Anna está sentada em uma praça, qualquer atividade é atrapalhada por aflições da personagem sobre a sua pessoa, ela visivelmente passa por problemas de auto-estima, sempre meio deslocada, a própria começa afirmando com propriedade: “[…] nesse mundo há um círculo mágico invisível[…]”, ela olha para outras garotas e continua “[…]ou você está dentro ou fora dele.”, curiosamente no mesmo tempo que ela sintetiza o filme, ainda coloca sua figura, o que representa, fora desse círculo mágico, que podemos traduzir como a vida. Ela não faz parte de nada, pelo menos o sentimento é esse, isso só se agrava ainda mais por ela ser adotada, distanciando-a, psicologicamente, da normalidade, por mais que sua mãe teime em dizer que está tudo normal. O coração de Anna sente que algo está errado e, mais além, sente que precisa passar por algo para compreender sua real situação, aquele famoso soco no estômago da vida, para aceitação da sua própria imagem, tão deturpada por si própria.

Ela segue rumo à cidadezinha, no interior, onde a natureza se faz ainda mais presente e influenciável, soando como o paraíso das crianças. Ela, pelo contrário, fica no quarto, escreve cartas, enfim, com seu jeito tímido e delicado, quase que constante.  Quando a solidão não é mais cabível e a iniciativa para fazer amizade é nula, surge a possibilidade de enfrentar o desconhecido – representado brilhantemente pelo barco, do qual ela deve remar -, com a mansão e seus mistérios, que acabam impulsionando uma nova e rápida amizade. Tão veloz que soa artificial, no mesmo tempo que é estável, quase que natural, o mistério está jogado ao espectador, soluções clichês começam a aparecer, mas o filme em nenhum momento se torna fraco por isso, pelo contrário, esse enigma é surpreendente, talvez não inédito, mas envolto de, igualmente, muita magia e emoção.

Essa amizade/história pode ser tudo amigo imaginário, fantasma, ela mesma, enfim, tudo que é possível caber nesse mundo invisível, citado no começo do filme, pode ter uma dose de religião, como uma reencarnação, o que me parece uma grande viagem, mas é esse o real legado, pensar e solucionar algo que está muito claro, ela simplesmente precisa se sentir parte de algo, bem como transformar esse algo no seu templo, afim de seguir à diante.

Esse amor que nasce é tão poderoso, que não se explica em nenhum momento, nem dá espaço para entendermos, é um tanto romântico às vezes, no mesmo tempo confuso, pois os fatos são conflitantes, mas acima de tudo são de extrema sinceridade. A explicação começa a dar lugar às lágrimas, não por saber, mas simplesmente por estar acontecendo.

Adaptado de um livro com o mesmo nome – o qual eu fiquei curioso para ler – “When Marnie Was There” faz jus ao anterior do estúdio “Princesa Kaguya” e nos transporta para um mundo incrivelmente maravilhoso, deixando de lado nossas interpretações para, tão somente, sentir.

“Eu te amo mais do que qualquer outra garota que já conheci.”

Obs: Crítica originalmente publicada no dia 4 de abril de 2015.

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Hill of Freedom, 2014

Hill of Freedom (Jayuui Eondeok, Coréia do Sul, 2014) Direção: Hong Sang-soo

Hong Sang-soo, a cada trabalho, imprime suas características de forma orgânica e elegante, como um maestro, sempre priorizando as relações humanas afim de questionar como o indivíduo enfrenta as mais diversas situações do dia a dia. Na sua essência, lembra o Éric Rohmer, mas o desenvolvimento têm semelhanças com o Woody Allen. Isso sem nunca soar artificial ou cópia. O diretor parece conquistar facilmente o seu espaço e respeito através de honestas crônicas onde temas como as relações, verdade e tempo serão trabalhados de uma forma agridoce.

Em Hill of Freedom ele conta a história de um japonês chamado Mori (Ryo Kase) que viaja à Coréia do Sul para reencontrar uma amiga. Com uma simplicidade enorme, assim como a sinopse sugere, acompanhamos essa trajetória e os seus inúmeros desencontros através de lembranças. É uma jornada de pequenos e importantes diálogos, onde o protagonista, em meio a uma busca, se depara com o inesperado e, nesse processo, compreende a si e seu silêncio.

A maior força da obra é mesmo o seu equilíbrio entre a técnica e o natural. A filmagem, algumas vezes, nos aproxima do objeto em um zoom e cria planos visuais limpos, acolhedores – em perfeita harmonia, inclusive, com a clara fotografia. A sensação que transparece é a de tranquilidade, se trata mesmo de um filme de viagem onde os problemas pessoais e conflitos do protagonista são esquecidos justamente pela sua maturidade diante à vida. Ele se sente um pouco desconfortável nas conversas, mas ainda assim é muito simpático, despertando atenção daqueles que estão ao redor.

A atuação do grande ator japonês Ryo Kase, que vem nos presenteando com grandes performances desde o maravilhoso e popular “Ninguém pode Saber” (2004), é primorosa nesse sentido e colabora diretamente na empatia provocada pela sua imagem doce e misteriosa. Existe muito coração nesse personagem. Suas opiniões são sempre respeitosas e a comunicação acontece de forma delicada, aliás, existe uma importância grande no que diz respeito a linguagem, não à toa o filme é quase todo falado em inglês, visto que o personagem principal não sabe falar coreano. Essa decisão, sem dúvida, ausenta os personagens de domínio um sobre o outro, visto que todos estão falando uma segunda língua, todos estão, portanto, completamente despidos.

A câmera estática representa a segurança que é adquirida conforme os dias se passam, inclusive o tempo é relativo aqui, visto que a narrativa acontece por meio de uma leitura de cartas onde todas estão fora de ordem, portanto, a alma da obra é justamente as lembranças vividas por alguém, cuja interpretação e olhar modificou os lugares e as pessoas que conheceu.

O percurso de encontrar alguém, traz consigo uma infinidade de vírgulas, uma garçonete que se interessa pelo protagonista, após ele salvar o seu cachorro, é a mais evidente. E esse pequeno relacionamento é envolto de doçura, mútuo respeito e empatia. Inclusive, é interessante notar que, à medida que há mais confiança na relação, a câmera se aproxima. Essa barreira criada para representar o turista e os limites do diálogo é excelente pois representa o sentimento universal de estar só, mesmo que rodeado de histórias, vidas e diferenças. Em meio ao trajeto de ir e vir, existe uma quantidade imensa de conhecimentos que se adquire e sente e é essa a única obrigatoriedade da existência: entregar-se.

O final do filme é a conclusão de uma simples jornada, como todas são. A grandiosidade dos movimentos está na visão daqueles que assistem ou descobrem. Dois personagens seguem em rumo a um outro país, os passos seguem uma direção, enquanto o coração teima em enfrentar todas. A delicadeza do simples é investigada por Hong Sang-soo e o resultado se dá em uma obra incrivelmente transparente.

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Voltando para Casa, 2014

Voltando para Casa ( Gui Lai, China, 2014 ) Direção: Zhang Yimou

Zhang Yimou é um artista completo. O uso das cores sempre muito inteligentes, unido com uma sensibilidade enorme, fazem dele o maior nome do cinema chinês. Depois de assistir, por acaso, “O Caminho para Casa” (1999) me encantei ainda mais com a profundidade e importância do professor na sociedade, principalmente quando relacionamos com a individualidade. Através de uma mensagem carinhosa do diretor, passei a ter certeza da profissão que seguiria a seguir.

Mas não é em apenas um filme que Zhang Yimou aborda a relação entre professor e aluno, seja representado por dois ou mais indivíduos ou algo pessoal, é constante a aprendizagem como objetivo principal dos seus roteiros. Em “Voltando para Casa” (2014) ele retorna à uma abordagem delicada, repleta de emoções e lida novamente com a aprendizagem, dessa vez ela acontece de uma forma forçada pois um personagem – curiosamente, um professor – precisa se reeducar afim de encontrar maneiras de se aproximar da sua esposa, após ser preso por oposição ao governo chinês em plena revolução cultural, se não bastasse, ele descobre, ao retornar, que ela perdera a memória no tempo em que esteve ausente.

A trama principal pode parecer comum mas é desenvolvida com muito esmero. A começar pela parte visual que, tencionando representar uma história de distância e esquecimentos, além da própria readaptação, se baseia em uma paleta de cores frias; os figurinos também seguem a ideia e, ainda por cima, são perfeitamente alinhados, fechados até onde é possível e em diversas vezes apresenta inúmeras camadas: blusa, cachecol, enfim, transparecendo insegurança diante das transformações sociais e evidenciando um amor fragilizado. Se o figurino e fotografia estão em harmonia, é interessante ressaltar que a palidez só é quebrada quando a filha do casal, uma bailarina, veste cores vermelhas, fortes, de modo a representar os seus sonhos artísticos que, por motivos políticos, precisam ser podados. O sangue das suas lágrimas – jamais exploradas com artifícios fáceis – também são vermelhos. A cor está presente em todos os trabalhos de Zhang Yimou e, aqui, parece ser uma prisioneira, personificando ideais artísticos, opondo-se à opressões criativas e sociais.

As primeiras cenas apresentam os tempos nebulosos que as personagens se encontram, a ausência do marido é sentida em cada expressão da talentosíssima Gong Li – parceira fiel do diretor – e os detalhes vão sendo entregues em doses homeopáticas. Como, por exemplo, o ensaio que a filha do casal principal está fazendo, cujo talento não basta para a escolha do papel principal, visto que o protagonismo passa por uma análise política, que inclui também os seus pais e antepassados. Irônico, também, é perceber que em diversos movimentos da coreografia, as bailarinas se utilizam de uma arma como composição essencial.

O filme parece ganhar proporções maiores quando a mãe tenta reviver o seu amor e se posiciona entre o marido e a filha. A força da mulher, bem como suas escolhas, ficam evidentes e, sem demonstrar muito, entendemos o seu passado e a mensagem poderosa da sua difícil decisão. A tentativa do reencontro com o seu marido, após anos preso, falha e uma passagem brusca de tempo acontece – uma das fragilidades do roteiro, inclusive. A partir desse momento a obra deposita suas atenções na liberdade e retorno de Lu Yanshi e a sua coragem em enfrentar o tempo.

Aceitar a finitude da vida é fácil, perto da visualização e presença diante da morte causada pelo esquecimento. Ir embora ainda perto; morrer existindo. Toda história se perde e a presença fica. Esse tema demonstra vazios da existência que jamais serão superados. A compreensão da finitude é um motivador para a intensidade da vida dentro da rotina; a perca da memória é somente um aviso da natureza sobre a nossa pequenice.

Nesse ponto, o ator Chen Daoming brilha ao compor, em seus olhos e movimentos, exatamente essa aflição. O querer abraçar e não poder, simplesmente porque tudo aquilo que acredita nunca existiu, senão, na sua própria cabeça. Por outro lado, Feng Wanyu ainda se lembra do jovem marido, que prometera há anos que retornará. Com frequência ela o espera e cabe ao Lu Yanshi, simplesmente, estar ao lado; esperando a si mesmo, enfrentando suas memórias e ignorando o presente.

A poesia visual vai de lágrimas caindo em uma antiga fotografia, como símbolo da transição do tempo, passando por luzes em meio a um abraço e grades separando dois amores. É mais uma obra-prima de Zhang Yimou, estruturada principalmente na força dos seus atores principais como veículo para uma perfeita alegoria sobre a distância.

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Mais Sombrio Que a Meia-Noite, 2014

Mais Sombrio Que a Meia-Noite ( Più buio di mezzanotte, Itália, 2014 ) Direção: Sebastiano Riso

★★★

Davide é um personagem complexo, solitário ao extremo e, por consequência, observador. Ele não se sente homem e em meio a esse sentimento de confusão se vê protegido pela mãe e maltratado pelo pai. O garoto, em um protesto imediato pela sua condição oprimida e cercada de julgamentos, foge de casa e vai pedir ajuda para a rua, abrigando-se na Villa Bellini, um parque na Catânia, que está repleta de homossexuais e transexuais, funcionando como uma nova chance para o protagonista, bem como um caminho para a compreensão do seu próprio gênero e opção sexual.

O tema certamente é comum no cinema, mas poucas vezes podemos seguir um personagem que não fora construído para servir como bandeira de algum lado. Em Mais Sombrio Que a Meia-Noite a jornada é silenciosa, muito física e cada segundo de Davide nas ruas transmite, ao mesmo tempo, as sensações de liberdade e dor. O desprendimento não é, de nenhuma forma, exaltado como a única esperança, a própria obra é inteligente em estabelecer, como regra principal do roteiro, a imparcialidade.

Com um roteiro que flui tanto quanto o seu protagonista, percorrendo o subúrbio e sendo por ele possuído, é fácil a assimilação dos locais e personagens, no entanto a direção se perde na tentativa de criar relações fortes e passamos a assistir uma série de personagens com possibilidades reais de serem trabalhadas com mais cuidado mas que, por ingenuidade, são ignoradas. O filme dá indícios que trabalhará a pluralidade mas, em resumo, se atém apenas ao simples, como se o silêncio fosse suficiente e, nesse caso, não é.

Há aspectos positivos dessa jornada de autoavaliação, principalmente por causa da excelente atuação de Davide Capone – o nome do personagem e ator são irmãos, uma decisão que provoca uma ideia pertinente, assim como a possibilidade dos jovens se rebelarem com a vida padronizada e conservadora – que interage com um mundo libertário, mas se vê igualmente preso diante a tentativa de sobrevivência, por esse fato Davide se prostitui e caça alimentos no lixo. Há ainda intercessões de flashbacks, mostrando a vida do protagonista na sua casa, no conforto e na condição que aprendera a odiar – cabe ressaltar que nos momentos onde vemos as lembranças, o som é definitivamente mais baixo, os personagens quase sussurram, demonstrando assim o medo por parte dos controlados e manipulação por parte do agressor ( pai ).

Mesmo que a direção de Sebastiano Riso soe infantil por diversos momentos e ofusque o preenchimento da trajetória principal, a história de Davide Capone chama a atenção e consegue imprimir bons momentos, principalmente pela importância do tema a ser tratado: o jovem desesperado em meio ao suposto conforto, é direcionado à repreensão e julgamento; a partir do momento que liberta-se, torna-se fugitivo do passado e preso à experiência, com todas as suas consequências. O grito em frente ao espelho, no final do longa, projeta a ideia de que o passado sempre encontrará o protagonista, mas não se trata de perder-se e, sim, de enfrentar… mesmo que seja para fugir.

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It Can Pass Through the Wall, 2014

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★★★

Esse é um curta-metragem romeno, simples, que acompanha alguns minutos da vida de um avô e sua neta. Ele joga gamão com um amigo enquanto conversa sobre um moço no seu apartamento que se suicidou há pouco tempo, enquanto isso tenta colocar a sua neta para dormir mas a garotinha, escutando o assunto dos adultos, fica com muito medo e não consegue ficar sozinha no quarto.

É um filme gracioso, usa a comédia de forma bem direta o que, por sinal, se relaciona bem com a narrativa simplista. A história é básica, porém brilhantemente sustentada pelo carisma da atriz mirim que se encontra com medo das histórias do seu avô – algo extremamente natural, afinal, a despreocupação dos diálogos dos adultos sobre a paranormalidade perto da criança é muito grande.

A câmera é, na maioria das vezes, estática, acompanha o quarto escuro que a menina está e, em off, ouvimos o assunto dos adultos, então existe os dois lados, sendo que um é “protegido” e o outro não – isso reflete na própria iluminação.

Apesar de ter apenas dezessete minutos, é trabalhado de forma divertida o medo, posicionando-nos, indiretamente, na imaginação de uma criança.

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O Espelho, 2014

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★★★★

Você pode ler as outras críticas sobre os filmes do diretor Mike Flanagan clicando aqui.

Depois de experimentar três trabalhos do diretor, era a hora de reassistir o seu mais conhecido, “O Espelho”, de 2014. No ano do seu lançamento, lembro-me desse filme figurar em muitas listas dos melhores do gênero terror, o que me espantou, pois acreditava se tratar de apenas mais um genérico, com todos os clichês incluindo crianças, cachorro e casa assombrada; mas o fato de haver um “espelho” me chamou a atenção, por se tratar de algo indefinido e repleto de simbolismo, desde muito tempo e em muitas culturas diferentes. 

Como já era de se esperar, o diretor Mike Flanagan sempre se preocupa em trabalhar com elementos incomuns para acrescentar no clima estranho de suas obras, aqui ele aborda dois irmãos que presenciam, na infância, a morte de seus pais, de forma extremamente perturbadora. Eles relacionam os eventos terríveis à um espelho amaldiçoado, e prometem um para o outro que, quando crescerem, destruirão o objeto misterioso para ninguém se machucar novamente e, também, como uma forma de vingança.

A sinopse já revela um ponto interessante da obra: ambos irmãos já têm conhecimento da paranormalidade, restando ao espectador juntar as peças do quebra-cabeça ao longo do primeiro ato para compreender o porquê eles possuem tanto interesse em um espelho velho. É um pequeno detalhe, mas para filmes assim funcionar é preciso algumas alterações, como é o caso dessa inversão. Geralmente temos uma apresentação conjunta, tanto o espectador quanto os personagens vão entendendo e acreditando nos eventos paranormais, aqui ele já está muito bem estabelecido, é como se largasse na frente de forma inteligente e direta.

Quando Tim sai do hospital psiquiátrico – que o força, durante anos, a acreditar que os eventos do passado não têm nenhuma ligação com o sobrenatural – e encontra a sua irmã Kaylie, ela já possui uma série de ferramentas para usar contra o suposto perigo, embora possa cair por vezes na imaturidade de apresentá-los quase como um filme de ação – ela, por vezes, parece ser uma espécie de espiã – o interessante é que essas ferramentas são, na sua maioria, tecnológicas, é como se existisse nela o interesse desenfreado de registrar o oculto através de equipamentos mundanos e suscetível ao erro.

O núcleo é apoiado na relação entre os dois irmãos, como se eles fossem os únicos a compreender as verdades do mundo e incapazes de provarem a sua sanidade e no registro através de filmadoras, quase como um experimento amador. No entanto, o desenrolar só ganha proporções maiores com o trabalho dedicado do diretor em mesclar os eventos do presente com fragmentos do passado, parece que o próprio passado é o demônio que transtorna os irmãos, e a relação que se estabelece entre Tim e  Kaylie ainda crianças e Tim e Kaylie adultos, é extremamente eficaz. Em diversas vezes essa opção confunde, propositalmente, essas duas linhas do tempo acabam se tornando uma só. Aliás, essa mesma estratégia foi usada posteriormente, pelo Mike Flanagan, em Sono da Morte, só que nesse caso era o mundo dos sonhos, que por sinal também tinha relação com o passado.

Quanto aos atores, destaco a Annalise Basso que chama tanto a atenção com a sua qualidade, que a Kaylie Russell criança se torna até mais impactante do que adulta, se mostrando sempre forte e preparada, apesar de transmitir muito medo. A atriz Annalise Basso já havia demonstrado um certo talento em um filme bem divertido chamado “Ilha da Aventura” e, além de fazer parceria com o Mike Flanagan, anda fazendo alguns trabalhos alternativos. Outro destaque é a atriz Katee Sackhoff que faz uma mãe que desmorona após perceber as mudanças psicológicas do marido, sua expressão sempre perdida e apreensiva chama a responsabilidade e até ofusca o Rory Cochrane que, sem dúvida, é o único que não faz jus ao seu papel.

“O Espelho” é mais uma prova que o cinema de terror pode inovar, apesar de ser extremamente complicado, basta pequenas novas ideias e talento, algo que já podemos esperar do jovem Mike Flanagan, sempre nos entregando obras, no mínimo, interessantes.

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CdA #59 – Desconstruindo o gênero romance

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No episódio #59 do podcast [Cronologia do Acaso] Emerson Teixeira convidou Tiago Messias e Tiago Lira para conversar sobre o gênero romance e, principalmente, citar alguns filmes que trabalham com o tema “amor” de forma interessante.
Como bônus ainda temos uma rápida participação do André Albertim, indicando três filmes via Whattsapp.

Obs: Por conta de um erro de captação, em alguns momentos o áudio trava, mas nada que compromete o conteúdo do episódio.

Site do Tiago Messias: https://altverso.wordpress.com/

Site do Tiago Lira: http://umtigrenocinema.com/

Alguns filmes citados durante o podcast:

  •  Edward Mãos de Tesoura, 1990
  • Antes do Amanhecer, 1995
  • Antes do Pôr-do-Sol, 2004
  • Antes da Meia-noite, 2013
  • Brokeback Mountain, 2005
  • As Amizades Particulares, 1964
  • Sim ou Não, 2010
  • Chasing Amy, 1997
  • Bridegroom, 2013
  • Apenas uma Vez, 2006
  • Mundo Cão, 2014
  • O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, 2001
  • Jules e Jim, 1962
  • Sonhando Acordado, 2007
  • 500 dias com ela, 2009
  • Ruby Sparks, 2012
  • Amour, 2012
  • Farrapo Humano, 1945
  • Encontros e Desencontros, 2003
  • Wall-E, 2008
  • Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças, 2004
  • Garota Ideal, 2007
  • Juno, 2007
  • Meia Noite em Paris, 2011
  • Bonequinha de Luxo, 1961
  • Se o Meu Apartamento Falasse, 1960
  • Espuma dos Dias, 2013
  • Ensina-me a Viver, 1971
  • Copenhagen, 2014
  • Helpless, 2012
  • Manhattan, 1979
  • Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, 1979
  • I’m a Cyborg, But That’s Ok, 2006
  • O Profissional
  • Bonnie and Clyde, 1967
  • Sabrina, 1995
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Flower and Snake: Zero – Entre o sexo e a tortura

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Queridos leitores, apreciadores ou curiosos do cinema alternativo, faz algum tempo que queria voltar a escrever sobre filmes eróticos – para quem não sabe, quando o Cronologia do Acaso ainda estava no blogspot, eu escrevi diversos textos sobre sexploitation e Pinku Eiga, bem como algumas obras eróticas da Rússia e Brasil. Esses textos não tinham como principal objetivo analisar o filme, portanto, não se tratava de uma crítica cinematográfica, apenas uma resenha onde o interesse é realmente fazer piada sobre o mau gosto.

Alguns exemplos: A Menina do Lado ( clássico e polêmico filme nacional onde o Reginaldo Faria contracena com a Flávia Monteiro que, na época, tinha apenas 14 anos ): http://cronologiadoacaso.blogspot.com.br/2014/05/a-menina-do-lado-1987.html

Russian Lolita ( Versão tosca e erótica do clássico livro “Lolita”. O filme é tão ruim que é até ridículo falar que se trata de uma adaptação de um dos melhores livros da história, porém, é assim que ele foi divulgado ): http://cronologiadoacaso.blogspot.com.br/2014/12/russian-lolita-2007-18.html

A eterna musa do Sexploitation ( nesse texto eu escrevi sobre a carreira e indiquei três filmes da musa Christina Lindberg, atriz que ficou conhecida por seu papel em “Eles a Chamam de Caolha”: http://cronologiadoacaso.blogspot.com.br/2013/08/a-eterna-musa-do-sexploitation.html

Siren X: ( Filme japonês, nesse texto falo um pouco sobre o “Pinku Eiga” que é basicamente os filmes eróticos do Japão ): http://cronologiadoacaso.blogspot.com.br/2015/02/siren-x-2008.html

Seguindo em frente, hoje vou analisar o filme “Flower and Snake: Zero” ou “Hana To Hebi: Zero” de 2014. Antes de mais nada, é válido ressaltar que essa obra também é um representante do sub-gênero Pinku Eiga e, ainda mais, é derivado de uma série antiga – de mesmo nome – que começou nos anos 70.

Hana to hebi

Esse é a capa do “Hana to hebi” original, de 1974, dirigido pelo Masaru Konuma

O diretor ficou muito conhecido em 74 por conta desse filme que, inserido em um contexto conservador, quebrou várias barreiras por se tratar de uma obra que aborda o universo do S&M – vulgo, sadomasoquismo -, algo muito importante para destacar é, sem dúvida, a forma como a mulher é mostrada nesses filmes: sempre submissa ao homem, como se fosse uma boneca sexual. Essa objetificação passa por inúmeros fragmentos da sociedade japonesa, que vê nas mulheres uma fragilidade sem tamanho.

Embora seja um clássico, pessoalmente esse tratamento me incomoda bastante, se a proposta do filme erótico é provocar a excitação – principalmente dos homens – em mim o resultado não é muito eficaz. Mas ainda assim recomendo pelas decisões toscas e algumas cenas que, certamente, atrairão os amantes do cinema B.

Outro ponto a se destacar é que o diretor Masaru Konuma, em dado momento da carreira, quis pegar a carona do sucesso com Nagisa Ōshima e a sua obra-prima: “O Império dos Sentidos”, em 1976. Esse filme é a prova que o sexo e sadomasoquismo pode ser usado como ferramenta para se analisar elementos como a obsessão e o limite da intimidade.

Para quem quiser pesquisar sobre o Japão e o sadomasoquismo, eu indico um artista chamado Namio Harukawa que, com os seus traços obscuros, subverte o papel da mulher e a coloca como dominadora de uma relação, no mínimo, selvagem.

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É evidente que, nas suas obras, a mulher é fisicamente forte e suas expressões demonstram uma indiferença em relação ao homem. Ela manipula a situação e inferioriza o sexo oposto, fazendo questão de afirmar a sua grandiosidade com a vagina. No mesmo tempo que manipula com suas partes íntimas, ela entende exatamente o limite e usa isso ao favor do seu próprio prazer.

Além do mais, na segunda obra acima, temos a personagem olhando uma revista cuja imagem demonstra exatamente a mesma coisa. Ou seja, é realmente um ensaio criticando essa posição do japonês de classificar as mulheres como frágeis e que precisam ser domadas.

Voltando ao filme…

Depois de uma série de remakes e continuações, chegamos, em 2014, na mais recente obra representante do universo “Flower & Snake”. Dessa vez, misturando alguns elementos do gore e de filmes policiais.

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A história gira em torno da policial Misaki Amemiya que se vê diante uma rede ilegal de pornografia na internet. Diversas pessoas do país acessam o conteúdo – onde existe mulheres sendo violentadas – e cria-se, a partir disso, uma sociedade secreta. Algo parecido com os boatos que correm na Deep Web.

Uma das primeiras cenas é um pessoal da sociedade secreta “Vabyron.com”, fazendo um vídeo. Depois chegam alguns policiais – tendo a Misaki Amemiya como uma das líderes – e acabam com a festa. No entanto, após esse embate épico e muito bem elaborado tecnicamente ( ironia ) Amemiya acaba descobrindo que sua irmã está envolvida com esse submundo perigoso e deixa ela partir para longe, acreditando na sua recuperação.

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Exemplo 1

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Exemplo 2

O diretor faz de tudo para explicar para o espectador a dualidade de comportamento e aparente desconfiança da irmã. Ele tenta reforçar de tantas maneiras, que acaba soando até infantil. Como por exemplo o destaque no lado “boa moça” da irmã da protagonista no exemplo 1 e o lado “vida loka” no exemplo 2: Sim! Se trata da mesma pessoa.

Depois que Misaki deixa a irmã fugir, o mentor ou responsável por essa sociedade de viciados em pornografia violenta, começa a chantagear a moça. Então a heroína e protagonista, dá lugar apenas mais um papel feminino que se submete aos abusos – claro, no seu caso ela faz porque precisa, no entanto fica claro que em certo momento passa a sentir tesão com o exibicionismo.

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Engraçado que aparece, logo na primeira cena, uma terceira personagem chamada Ruri que representa a pessoa comum que, por acaso, entrou o site ilegal e se corrompeu. Pois a menina passa de uma conservadora para uma caçadora de homens, ainda mais, fica se amarrando e, o mais inacreditável, chega ao cúmulo de ficar lambendo o notebook enquanto vê outra mulher sendo castigada.

Na boa, existe essa necessidade de lamber o notebook mesmo e eu estou por fora ou é apenas bobo mesmo?

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Aliás, é interessante como a tecnologia é misturada com a trama principal. A internet está muito presente e até é um pouco mostrado os perigos de se jogar joguinhos online. Para você, pai e mãe, pode ser um grande estudo de caso assistir esse filme. É tão poderoso em sua mensagem que poderia servir como panfleto de conscientização ( chega de apontar as ironias agora ).

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O desespero sendo representado por uma grande atuação ( NOT ) de um marido que vê sua mulher pelada, amarrada por cordas e sendo chicoteada.

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Mas o filme vai atingindo um outro patamar quando vamos adentrando nesse mundo pervertido e conhecemos o vilão e mente por traz dessa grande organização. Ele está sempre com um capuz e fica 24 horas por dia na frente da TV, é um verdadeiro punheteiro.

Se prepare, pois ele não é o pior:

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Dizem que todo filme precisa ter um excelente vilão: Flower and Snake: Zero é, talvez, a maior prova disso na história do cinema. Esse senhor acima provoca os maiores medos e angústias que seria possível nessa existência. Como prova da sua insanidade e imponência, ele está sempre regendo uma ópera que não se vê nem se escuta, criando uma dimensão paranormal e reforçando a sua loucura.

No mesmo tempo que clichê, o diretor consegue imprimir nesse simples personagem todo o mau gosto da obra, ele é o representante fiel do trash.

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A fotografia sem sombra de dúvida é o único ponto positivo do filme, com decisões acertadas e contundentes. Deveria estar no Oscar. Brincadeira, mas eu curti mesmo.

A irmã da protagonista é a personagem mais interessante e linda do filme, tem em sua aparência a representação da dupla personalidade e traz em seu corpo uma série de tatuagens belíssimas. Uma pena que ela seja muito mal aproveitada, a não ser, claro, na cena da sua morte, que é um banho de sangue e sofrimento. Importante destacar que no momento da violência, o “perfil do mal” no seu rosto aparece e, no sofrimento da protagonista ao ver o seu corpo no chão, percebemos que o “lado da bondade” dá as caras. Imaginei o diretor sussurrando feliz no meu ouvido: “entendeu!?, entendeu!?, fui bem não é?”

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Se durante todo o filme o espectador permanece diante uma montanha russa de emoções e excitações – cof, cof – no terceiro até choramos de emoção, pois acaba se tornando ainda mais trash e faz, de alguma forma, referência ao clássico “Sex and Fury” onde tem uma cena épica que a personagem principal sai da banheira, nua, para matar capangas do mal. Aqui, por outro lado, depois de ser extremamente violentada – mas ter lapsos de prazer, como um orgasmo estratosférico – a protagonista/heroína se desprende das amarras com uma super faquinha – alguém depois me explica porque ela não fez isso antes(?) – e toca o terror no ambiente.

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Ainda existe uma lacuna para uma surpresa muito grande no final, pode ser comparado com a dimensão do “Oldboy” – anos luz de distância na qualidade, claro – mas o que interessa mesmo é mulheres nuas e sangue e isso tem de sobra.

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A protagonista caminha em direção ao seu destino e para logo adiante, em um carrossel – ou seja, não vai muito longe mesmo – e no final do filme ainda vida evidente a pretensão de fazer uma continuação. Os filmes da série “Flower and Snake” continuarão, querido leitor, para a alegria de muitos e infelicidade do resto. Boa diversão/decepção!

Aqui no Cronologia do Acaso é assim, filosofia e sacanagem andam lado a lado ;D

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Garota Sombria Caminha Pela Noite, 2014

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★★★★

Anunciado como “O primeiro Western de vampiros iraniano” esse filme, no mínimo, diferente da diretora Ana Lily Amirpour só ressalta o quanto a figura do vampiro vem sendo transformada ao longo do tempo. A modernização dessa criatura histórica difere bastante do clássico “Drácula”, utilizando-se dos principais conceitos e traduzindo, através de uma metáfora, conflitos da nossa própria época.

Em mais um representante dessa liberdade criativa, a diretora parece transcrever fervorosamente a mediocridade da existência na figura do monstro, no mesmo tempo que, evidentemente, ele é poderoso e faz desse poder sua única fuga. Além disso, ela consegue complementar essa questão utilizando, também, um humano que se destaca em meio a um redor destroçado.

Acompanhamos, inicialmente, uma cidade iraniana chamada “Bad City” – mais risível que isso impossível, aliás, a comicidade exagerada está presente constantemente – que é repleta de violência, sexo, drogas, enfim, monstruosidades. Abriga também, como podemos interpretar, a representação de tudo isso: uma vampira.

Interpretada com toda graciosidade – mas entendo que essa afirmação pode soar estranho – pela Sheila Vand, somos apresentados a vampira em um momento particular, pré-caça, onde ela está dançando. Esse ser vaga pelas ruas perseguindo pessoas para, enfim, beber seus sangues e, com isso, sugar para si todos os seus males.

A cidade é iraniana, mas o filme foi filmado na Califórnia. Isso dá uma liberdade sem tamanho, inclusive bem diferente da que existe no Irã. Talvez um retrato das consequências do “ser livre”. Parte daí o melhor elemento técnico de Garota Sombria Caminha Pela Noite: a fotografia.

Todos personagens estão enclausurados, isso é demonstrado esteticamente, uma fotografia que, assim como sua protagonista, “suga” toda a felicidade, no mesmo tempo que enquanto arte é impossível não se impressionar, em absolutamente toda cena há algo que chame atenção.

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Há um romance entre a vampira e Arash – inclusive esse último tem um pai viciado em heroína, ou seja, sua vida é repleta de solidão e desesperança – os dois começam a se entender subitamente, ressaltando que a vampira é a representação de um sentimento. Ironicamente, as duas primeiras cenas de “encontros” dos personagens são sublimes: a primeira eles se olham através de uma grade, caracterizando, de imediato, a distância existente com o natural. E a segunda é um momento em que Arash está vestido de Drácula.

 Ressalto o relacionamento que é criado, para, principalmente, estruturar o pensamento e exprimir o quão surrealista algumas cenas se tornam. O mundo está doente, não há esperanças e os personagens todos, por sua vez, parecem ter saído de um hospital psiquiátrico. No meio de uma paisagem absurda, visto que a fotografia transforma pequenas ações em verdadeiros milagres – e, não, não estou sendo exagerado apesar de o ser boa parte do tempo – e, diante a essa desconexão, existe uma mulher que caminha pelas ruas a noite. A noite pode ser a representação, nesse caso, das barbáries, então temos um ser que funciona como um reflexo. Suas presas são, antes de mais nada, pessoas sem objetivo, sem necessidade e sem futuro. Em alguns momentos ela só os observa, outros aguarda até o último momento para saciar a sua sede… ou chega ao extremo de intimidar um pequeno garoto, obrigando-o a prometer que será um “bom menino”. Algo parecido acontece em “Clube da Luta”, onde Tyler Durden ameaça e, com o medo, pretende transformar uma vida.

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Infelizmente o ponto negativo do filme se encontra justamente no ritmo. Misturado com a superficialidade, intencional, dos personagens, bem como algumas ausências de explicações, se torna um pouco cansativo acompanhar. No mesmo tempo que a alma alternativa transforma A Girl Walks Home Alone at Night em um bom representante para um novo cult.

Usando o humor sempre com inteligência e transformando a vampira em uma figura intimidadora, muito por conta do visual, afinal, não é todo dia que vemos um vampiro de burca o que, para nós, que desconhecemos essa realidade, já causa uma estranheza. O filme é uma experiência interessante que merece ser usado e revisitado, um verdadeiro colírios para os olhos, mas não se engane, “Garota Sombria Caminha Pela Noite” apesar de ser meio hipster é extremamente complicado e não agradará a todos.

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