Amantes Eternos (2013)

Amantes Eternos (Only Lovers Left Alive, Inglaterra/França/Grécia/Alemanha, 2013) Direção: Jim Jarmusch

Não consigo mais desassociar os profundos dilemas da imortalidade do livro da Simone de Beauvoir “Todos os Homens são Mortais“, parece que estou fadado a vagar pelas reflexões sobre a eternidade assim como o personagem Fosca. Como todo homem precisa lidar com a sua benção/maldição do conhecimento, sigo interpretando a arte e mensurando as personagens que me são apresentadas e que, direta ou indiretamente, estão relacionados com a praga da infinitude.

Uma obra importante, no que tange a imensidão de possibilidades a serem trabalhados a partir do tema, é Amantes Eternos (2013) dirigido pelo maravilhoso e visionário Jim Jarmusch. Nesse filme em específico, a imortalidade traz consigo dores e cansaço, mas o vampirismo aqui acrescenta ainda mais camadas filosóficas no que diz respeito à natureza perversa do ser humano, bem como a sua busca por conhecimento e cultura.

O tempo que se estende é inconstante e indecifrável, ora o infinito parece uma maravilha da natureza, por vezes essa ideia utópica – mas estreitamente relacionada com diversas crenças – assume a verdade de que se trata, na verdade, de um carma. Afinal, quanto tempo dura a perfeição? O tempo talvez seja o único elemento capaz de transformar o farto em monótono, perfeição em ruína. Com isso, é questão de tempo associar a transformação do indivíduo em vampiro como um acontecimento sublime, contudo esquecemos que existe uma enorme maldição em se distanciar para sempre da pureza, sobretudo aquela que se esconde sob as asas da ignorância.

Os vampiros são seres mitológicos de grande representatividade na cultura popular, por diversas vezes atrelados à elementos sociais e emocionais como poder, desejo, solidão, entre outros, a figura do monstro assumiu e assume diversas máscaras, passando por imagens ameaçadoras ou até mesmo as mais belas aparências. Amantes Eternos (2013) desconstrói da sua maneira isso ao apresentar um protagonista isento de ambição, egocentricidade ou vaidade, sua monstruosidade, há tempos benéfica em relação, principalmente, à intelectualidade, agora o assombra como uma entidade diabólica que teima em lhe mostrar o mundo e sua transformação cultural, a qual definitivamente não aceita gerações de séculos passados.

A história se concentra em dois vampiros hipsters, Adam (Tom Hiddleston) e Eve (Tilda Swinton) que permanecem conectados mesmo após séculos juntos, contudo nos tempos atuais a relação de ambos se mantém a distância – com a utilização da internet. Os dois estão visivelmente cansados da sociedade que estão inseridos, o que acaba se agravando quando Adam tem uma crise depressiva. Eve vai até o encontro do amante para confortá-lo, como se sua presença fosse a única coisa capaz de estabelecer o equilíbrio, contudo eles encontram o infortúnio com a chegada da irmã mais nova de Eve chamada Ava (Mia Wasikowska), uma menina agitada e que não consegue controlar a sua sede.

A linguagem é diferente de todos os filmes famosos de vampiro, isso porque a condição não é necessariamente o protagonista do roteiro e sim as consequências dela. Sem dúvida o ponto alto do argumento é ser sincero no questionamento do que aconteceria se pessoas existissem no mundo há tanto tempo e, por ventura, fossem enraizados com as artes através da história. Tanto Adam e Eve presenciaram as transformações artísticas, conheceram grandes nomes durante a Idade Média ou as Grandes Guerras, então qual o sentido e percepção que eles têm a partir do momento em que a existência se tornou fútil e acomodada? A geração que se conforma com o conforto não está pelo mundo, despido, fazendo a diferença, então qual o impacto de algo tão massante para alguém que viu todas as revoltas?

A temática é desenvolvida aos poucos, a técnica está a favor do roteiro e o complementa com perfeição, desde a mise en scène que traz a casa do protagonista desarrumada porém existe uma ordem perfeitamente aceitável e coerente com a sua fragilidade emocional, a sala é repleta de álbuns, há arte em cada cômodo, passando pela trilha sonora que se utiliza de músicas sensacionais, até movimentos de câmeras e ângulos – a apresentação das personagens centrais se dá através de um plongée, evidentemente demonstrando de imediato ao espectador a pequenice delas em relação às suas próprias casas, quiça o mundo. O conflito existencial está presente em todas as cenas, brilhantemente orquestradas e fotografadas, com paletas de cores frias, portanto, melancólicas. A monstruosidade é, de fato, do mundo que se acostumou em não gritar por liberdade, os vampiros se sentem compelidos à participarem da suposta ordem em nome dos bons modos, eles sabem, no fundo, que tudo não passa de meras formalidades ilusórias, por dentro tudo está em plena devastação.

Os diálogos são diretos e a obra nunca se deixa cair no comum, quando começamos a assimilar sua proposta, aparece a personagem da Ava que traz consigo toda a jovialidade e personalidade leviana, ela é medíocre intelectualmente, um verdadeiro contraste profundo com aqueles que consomem e existem por causa do conhecimento. Mia Wasikowska consegue exprimir toda essa desestruturação através de simples movimentos e expressões, inclusive esse trabalho se diferencia dos demais da atriz, que costuma interpretar personagens passivos. Mas o destaque mesmo é da maravilhosa Tilda Swinton e Tom Hiddleston, os dois são singulares na demonstração de perdidão, sentimentos que se mesclam e dialogam com a auto-afirmação de segurança, medo, raiva, culminando em uma postura mórbida e suicida. O único fio que os conecta com a existência é justamente a relação amorosa que, incrivelmente, perdura mesmo através do mútuo sufocamento causado pelo acordar.

Amantes Eternos (2013) é uma obra-prima que nos obriga a refletir sobre a mesmice das nossas caminhadas e silêncio. A existência vã que se alimenta de vidas alheias. Beber sangue é como se drogar, uma forma de se ausentar do real, do possível e abraçar o onírico, o paraíso da finitude e da lembrança. Viver pode se tornar um pesadelo quando estamos destinados a sermos os últimos sobreviventes para contar a história.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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[ Republicação ] – Oshin, 2013

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Há! Como é grande o meu amor pelo cinema. Como é grande o meu amor pela vida, por histórias, como sou feliz por encontrar obras de artes perdidas como “Oshin”, filme japonês – olha, quem diria que iria voltar ao país tão cedo – de 2013, dirigido pelo Shin Togashi e que tem, em seu elenco, uma das atrizes mais bonitas, ao meu ver, Ueto Aya fazendo a mãe da personagem título, interpretada pela adorável e talentosa… pausa, peguem o caderno… pausa… Kokone Hamada! Você caro amigo(a), anote esse nome, estamos falando da menininha que se tornará, em breve, uma das maiores atrizes do Japão. Por que o que ela faz nesse filme é uma das coisas mais profundas que eu já vi, no que diz respeito a atuação de crianças, olha que, como pesquisador do tema que eu sou, já vi muitas atrizes boas, principalmente vindo da Suécia, mas essa menina é de deixar boquiaberto, mesmo com certos exageros costumeiros do cinema Japonês ela realiza algo inacreditável, eu ouso creditar como classificar como a maior performance mirim que eu já vi na história do cinema.

Na postagem anterior, sobre “Paixão Juvenil” eu falei um pouco sobre a visão que a mulher tinha no Japão, bem, claro que o filme que comento hoje é recente, porém ele se passa em um período muito conturbado onde, consecutivamente, a mulher era alvo de muito sofrimento. Em pleno período Meiji, repleto de mudanças políticas, econômicas, assim como o próprio trabalho, o povo buscava encontrar uma forma de viver, em meio as mudanças e, sim, era comum o trabalho de criança, desde muito novos. Até chegar nas mulheres, que serviam a casa de todas formas possíveis. Tá, até ai não tem muita novidade, o fato é que teremos todas essas questões sendo tratada de forma extremamente sutil através de uma garotinha de 7/8 anos. O que, diante a inúmeros eventos catastróficos, digo, tristes, ela vai amadurecendo, até chegar ao ponto de ver sua mãe se prostituindo e, com as sábias palavras da sua patroa, busca o equilíbrio com a verdade de que, a mulher, está fadada a nunca trabalhar para si própria, mas para os filhos, maridos etc. Por fim, em um diálogo esplêndido, a senhora ainda fala para a menina “ame-a – sua mãe – com todas as suas forças” pois ela sofre por estar fazendo o que faz, assim como a menina sofre com a vida que lhe fora imposta.

Um filme extremamente triste, sim, real, é impossível não chorar, mas mesmo com os recorrentes exageros, em nenhum momento senti a obra pedinte, os acontecimentos vão desabrochando naturalmente, de forma que a emoção também seja muito natural, mesmo que quase durante todo o filme. A menina é um poço de coragem e atitude, servindo como exemplo, eu diria, para essa nova geração que tem tudo nas mãos, sim, eu também estou me incluindo. Poxa, ela começa a trabalhar aos sete anos, não conseguimos mais imaginar algo assim, ainda mais surgindo com tamanha naturalidade para a família essa questão, o pai soa como um explorador, mas não deixa de ser igualmente explorado, então estamos limitados a fazer um contexto mesmo, em prol a entrega, sem ficar com tanta raiva das injustiças, o que é bem difícil. Importante a reflexão/experiência adquirida ao assistir “Oshin”, tem como protagonista uma personagem muito madura e fofinha, cujo nome significa confiança, a qual, aliás, aprenderá a adquirir, por mais que seu direito de opinião seja praticamente inexistente, mas, no fundo, ela consegue ler e, sendo assim, é diferente, há muita esperança em seu sorriso simpático.

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O amor entre um jovem e um idoso

gerontofilia

Gerontophilia ( Gerontophilia, Canadá, 2013. ) Direção: Bruce La Bruce

Gerontofilia é uma parafilia onde uma pessoa sente atração por pessoas idosas. O fato de um filme abordar um tabu exige muito mais do seu roteiro e direção do que outros. Isso porque a obra passa a andar na corda bamba, pois o tema pode facilmente tirar o foco principal que, na maioria das vezes, é discutir os sentimentos individuais de uma pessoa, de forma imparcial, com a obrigatoriedade de registrar as diversas formas de desejo, amores ou doenças.

Gerontophilia, filme dirigido com muita fragilidade pelo Xavier D… digo Bruce La Bruce, prepara uma série de temas, seduz o espectador e, por fim, entrega apenas um relacionamento infantil entre um jovem e um idoso, como se apenas a diferença fosse provocar a identificação e curiosidade. Em resumo, a obra oferece a mesma coisa de diversos filmes de relacionamentos, inclusive deixando-se levar por contradições, por exemplo: insere uma personagem chamada Desiree ( namorada do protagonista ) que aprecia personagens feministas – inclusive a sua lista pessoal de influências é bem pobre –  e o diretor acaba não explicando o porquê da sua presença e personalidade na trama; apresenta o idoso em um hospital, extremamente fragilizado, rabugento e, logo em seguida, ele está seminu com o protagonista em sua cama; sem contar a artificialidade desse senhor de 82 anos que, quando sai do hospital, parece conquistar os mesmos dotes do Don Juan DeMarco e começa a atrair todos os jovens ao seu redor.

Existe a pretensão óbvia de discutir a transgressão de imagem, é sabido que os idosos se sentem pouco atraentes e ultrapassados, a sociedade impõe esse pensamento excluindo a terceira idade do padrão de beleza, no entanto, quando o filme começa a discutir esse tema é decepcionante.

O tema de um filme, por mais insano e polêmico que seja, não salva a obra apenas com a sua presença, é preciso consciência, coerência e boas performances para transmitir ideias diferentes, caso contrário, infelizmente, acaba prejudicando o assunto que, em outra oportunidade, poderia ter sido bem trabalhada.

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Sr. Kaplan, 2013

Sr. Kaplan 2013

★★★★

A fotografia clara, limpa e delicada, confunde-se com um senhor, vestido de azul. A cor reflete a sua suposta serenidade, transmitindo tranquilidade e paz. Por fora Jacobo é um senhor, por dentro é um jovem à procura de aventuras. O azul de sua roupa, logo nas cenas iniciais, é a mesma da piscina, sua mulher corre para salvá-lo e, coincidentemente ou não, ela também está vestida de azul. Em uma festa elegante, eles são um ponto fora da curva.

Jacobo prestes a pular na piscina é a simbolização de um homem prestes a se reinventar. E, assim, com tamanha sutileza, o filme começa a se desenvolver. Não que seja brilhante e inesquecível, mas sem dúvida “Sr. Kaplan” representa muito para os diversos idosos ao redor do mundo, que refletem constantemente sobre o processo de aceitar a passagem do tempo. Obrigando à todos, principalmente aqueles que viveram muito, compreender que as coisas mudam, as pessoas mudam e que o azul e claridade, tanto da fotografia como do figurino, pode muito bem ser mera ilusão e que, na verdade, Jacobo é um senhor que está morrendo.

Sim, morrendo por não encontrar em si um motivo, mas basta uma “missão” para a vida o reposicionar de frente à vontade de viver.

Dirigido pelo Álvaro Brechner, “Sr. Kaplan” é um filme Uruguaio que fala sobre a idade; através dos olhos de um senhor, judeu, rabugento e insatisfeito, que se recusa a se imaginar como velho. Ele está cansado da sua vida e amigos, mas acaba mudando de vida quando passa a acreditar que um homem, dono de restaurante, é um nazista fugitivo. Com o propósito de observá-lo e sequestrá-lo, o senhor encontra um motivo para seguir vivendo, de forma humorística, essa intenção representa até mesmo uma “vingança” em nome de um povo, mas até que ponto a vingança alivia?

O filme apresenta uma dúvida: “O mundo é melhor por minha causa?”. E a resposta durante o filme é que não. O mundo não é melhor pela existência de ninguém, mas certamente é diferente e isso deveria bastar. Em um determinado momento, ainda na festa, Jacobo e sua mulher chegam atrasados e sentam em uma mesa, repleta de pessoas diferentes, além de permanecerem em um lugar desconhecido, como se eles fossem os intrusos, ainda existe o sarcasmo por conta da cadeira que eles sentam, que é definitivamente menor do que a dos demais.

Há algumas outras relações com o questionamento, é citado Abraão, por exemplo – que, sabemos, representa a liderança – e depois o próprio protagonista conversa com Deus. Mesmo com algumas cenas profundas e impactantes, é de se destacar o poder cômico do filme que se desenvolve de maneira pontual mas, no mesmo tempo, diz todas as palavras exageradas através de um humor tímido, sempre aparecendo de forma natural.

O maior motivo dessa qualidade despretensiosa é, sem dúvida, a dinâmica dos atores Héctor Noguera e Néstor Guzzini. Algo como o aprendiz e o sábio, mesmo que por diversas vezes essa classificação seja infantil, ainda assim existe muito drama nesses dois personagens criados para fazer sorrir.

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CdA #59 – Desconstruindo o gênero romance

romance

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No episódio #59 do podcast [Cronologia do Acaso] Emerson Teixeira convidou Tiago Messias e Tiago Lira para conversar sobre o gênero romance e, principalmente, citar alguns filmes que trabalham com o tema “amor” de forma interessante.
Como bônus ainda temos uma rápida participação do André Albertim, indicando três filmes via Whattsapp.

Obs: Por conta de um erro de captação, em alguns momentos o áudio trava, mas nada que compromete o conteúdo do episódio.

Site do Tiago Messias: https://altverso.wordpress.com/

Site do Tiago Lira: http://umtigrenocinema.com/

Alguns filmes citados durante o podcast:

  •  Edward Mãos de Tesoura, 1990
  • Antes do Amanhecer, 1995
  • Antes do Pôr-do-Sol, 2004
  • Antes da Meia-noite, 2013
  • Brokeback Mountain, 2005
  • As Amizades Particulares, 1964
  • Sim ou Não, 2010
  • Chasing Amy, 1997
  • Bridegroom, 2013
  • Apenas uma Vez, 2006
  • Mundo Cão, 2014
  • O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, 2001
  • Jules e Jim, 1962
  • Sonhando Acordado, 2007
  • 500 dias com ela, 2009
  • Ruby Sparks, 2012
  • Amour, 2012
  • Farrapo Humano, 1945
  • Encontros e Desencontros, 2003
  • Wall-E, 2008
  • Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças, 2004
  • Garota Ideal, 2007
  • Juno, 2007
  • Meia Noite em Paris, 2011
  • Bonequinha de Luxo, 1961
  • Se o Meu Apartamento Falasse, 1960
  • Espuma dos Dias, 2013
  • Ensina-me a Viver, 1971
  • Copenhagen, 2014
  • Helpless, 2012
  • Manhattan, 1979
  • Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, 1979
  • I’m a Cyborg, But That’s Ok, 2006
  • O Profissional
  • Bonnie and Clyde, 1967
  • Sabrina, 1995
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Bez doteku, 2013

★★

Bez doteku ou Touchless é um filme Tcheco de 2013 que conta a história da jovem Jolana que é assediada pelo próprio padastro dentro de casa. A menina se mostra o tempo todo distante, como se permanecesse em estado de transe. Não há uma fuga, pois até sua mãe a trata de forma indiferente, como se, inconscientemente, tivesse interesse em tornar a filha cada vez mais objeto.

A apresentação das duas personagens femininas do longa – filha e mãe – se dá logo no início, uma sutil cena de 30 segundos onde o padastro mostra a fotografia da menina para um rapaz e ele ressalta a beleza da sua “filha”, o padastro visivelmente desconfortável responde que ela é sua enteada e, como forma subliminar de comparação, mostra a foto da sua mulher, como se quisesse perguntar desesperadamente “ela também é bonita, não é?“.

Essa cena ilustra, com perfeição, a feliz ideia do filme de mostrar a realidade de muitas mulheres que são tratadas como gado. Sujeitas a exibição para comparação, como se o fato de ter uma mulher bonita em casa fizesse os homens mais felizes, mais afortunados. Como se fosse possível criar um padrão de beleza universal. Diminuindo a mulher a uma coisa, o ponto positivo de “Bez doteku”, até a primeira metade, é fazer com que o espectador sinta esse vazio da protagonista, mesmo que minimalista, os olhares do padastro para ela é tão assustador e frio que é impossível não se sentir desconfortável com a ausência de bem estar naquela família.

Bez doteku ( Cronologia do Acaso )

Essa sensação é transmitida através, principalmente, da fotografia e enquadramentos. É possível perceber uma tendência ao azul, criando uma recorrente melancolia e, se não bastasse, em todos os planos os estreantes diretores Matej Chlupacek e Michal Samir fazem questão de criar uma barreira entre a Jolana e os personagens masculinos. Há uma utilização fantasmagórica da figura masculina, como se estivesse observando com atenção o seu alvo de desejo – como por exemplo a primeira tentativa de aproximação física onde, em um plano detalhe, o padastro tenta tocar a perna da garota enquanto dirige – e isso sufoca a protagonista de tal modo que o seu aspecto desconfortável e apreensivo é evidente durante todo o filme.

Touchless consegue passar a sua mensagem até a metade, depois começa a entrar em um clichê absurdo e, ao contrário do silêncio que existia até então, passa a tentar encontrar explicação e acaba fracassando em todos os sentidos. A falta de explicação é, justamente, o ponto forte da primeira metade, onde o abuso físico – apesar de ser mostrado – fica muito ocultado, causando dúvidas do tempo que a menina está sendo submetida a esse tipo de humilhação.

O desenvolvimento direciona a protagonista para a venda do corpo e através dessa experiência invadiremos a particularidade dessa pessoa tão quieta e cheia de traumas. Não à toa existe algumas alucinações, na qual a figura do “sábio” é representado pelo padastro, como se a personagem, de fato, fosse fantoche de um passado de abuso.

“eu realmente queria, alguém para me entender, para saber quem eu sou”  – Essa é a primeira vez que a personagem desabafa, em um momento oportuno – belíssimo, por sinal – onde temos um diálogo profundo entre ela e o padastro. Em uma das alucinações, pois na realidade não há verdades ou momentos de liberdade.

Apesar das metáforas, da sensação de aprisionamento – como a menina em um banheiro apertado, colocando as mãos na parede, como um animal na jaula – o filme sofre pela falta de consistência, talvez fruto da imaturidade dos diretores, estreantes em longas, Michal Samir e Matej Chlupacek, ou simplesmente uma ótima ideia com uma conclusão precipitada.

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Filmes alternativos sobre a relação pai e filho

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Enfim, os dias dos pais. Pessoalmente eu invejo muito aqueles que fazem um belo almoço, dão presentes, abraçam e beijam os seus pais nesse dia ou em qualquer dia do ano. Essa presença tão importante permanece, há bastante tempo, inexistente na minha vida.

Mas essa postagem não é para lamentações, até porque não fico triste, pois, a vida nos recompensa de diversas formas, pai não é aquele que nos colocou no mundo, não é somente homem. Existem mães que batalham dia a dia para dar o melhor aos filhos, existem amigos que protegem em qualquer circunstância, existem pessoas que nem sabemos o nome, mas que estão aqui ou lá, presentes nos nossos corações.

Não existe um dia específico, uma data do ano é muito pouco para tamanha importância. Mas beije, abrace, diga um lindo e feliz “eu te amo” ao seu pai. Se você está lendo isso, dê uma pausa, procure se entregar mais, não hoje, nem amanhã, mas sempre.

Se o seu caso é como o meu, não se lamente, comente o quanto a vida é legal por deixar você enxergar o outro lado. Ame, independente de classificações.

Bem, vamos lá: essa postagem é para recomendar alguns filmes que possuam alguma relação com esse tema ou simplesmente tenham um personagem pai que por algum motivo chamou a minha atenção.

A Música Nunca Parou, 2011 

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Me emociona só de lembrar. Existe uma relação, inicialmente, do filho com a música o que acaba, por consequência, criando um conflito com o pai. É uma metáfora interessante, pois um gosta de Rock, aquele que mesclava – impulsionava – o movimento hippie e o outro aprecia um bom clássico.

Quando o filho começa a lidar com o esquecimento, a única coisa que liga os dois é exatamente a música, o pai faz da arte a sua respiração, o seu recomeço.

A Lula e a Baleia, 2005

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Como a ideia é tentar resgatar da memória vários caminhos do mesmo tema, nesse longa dirigido pelo Noah Baumbach, temos o exemplo claro de um personagem ( pai ) fragilizado diante ao processo de mudança, no caso, da separação com a esposa. Interpretado maravilhosamente pelo Jeff Daniels, há ainda uma relação curiosa com o filho, que o segue e, inclusive, o imita. De forma a estabelecer algumas dicas em relação a psicologia daquele convívio familiar, onde o pai impõe os seus gostos e a sua cultura.

Sempre Estarei Contigo, 2012

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Temos aqui um pai, do tipo herói, já idoso ele pode se orgulhar de ter todos os filhos criados e, ainda mais, ter ajudado os netos a terem suas próprias terras. Um ser humano com a vida completa(?). Resta a esse senhor, perceber que precisa, finalmente, de mais tempo com a sua esposa, mas a sua vontade de sempre estar construindo algo o leva cada vez mais a pensar em outras possibilidades.

Tangerines, 2013

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Representante da Estônia no Oscar de melhor filme estrangeiro, acabou perdendo para “Ida”. Aqui temos a figura paterna da proteção, seja dos personagens que estão em guerra que aparece e o cuidado que existe ali ou a proteção de uma lembrança.

Crítica do filme: http://cronologiadoacaso.blogspot.com.br/2015/01/tangerines-2013.html

A Busca, 2013

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Esse filme mexeu tanto comigo que escrevi sobre ele chorando. Uma perfeita simbologia ao ato de buscar aquilo que se perdeu, seja diante as próprias atitudes ou pelo tempo. As pessoas crescem, buscam liberdade, constroem suas próprias famílias, se vão, a busca se torna, consecutivamente, ir em frente.

Cítica do filme: http://cronologiadoacaso.blogspot.com.br/2014/07/a-busca.html

É Tudo Tão Calmo, 2013

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Esse filme da Holanda, silencioso e contemplativo ao nível máximo, é bem particular. Bem como é restrito, é complicado digerir perfeitamente, é preciso calma, assim como a própria tradução sugere. Aqui temos o exemplo do “cuidado”, um filho cuidando do seu pai e lidando com a verdade de que a morte se aproxima, no mesmo tempo que ele é triste por isso, existe ainda o cansaço.

Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada, 2007

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Esse é talvez o filme mais conhecido da lista. Ele mora no meu coração pois me encantou em diversos pontos, desde ser uma comédia romântica perfeita, passando pelas atuações gostosas do querido Steve Carell e a diva Juliette Binoche até chegar a profundidade.

Temos um viúvo, que tem problemas para reconstruir a sua vida, até por ser um pai muito dedicado. E, em uma confraternização em família, ele se apaixona pela namorada do irmão, mas, mais do que isso, aprende a valorizar os seus próprios interesses e percebe com perfeição que, para ser um bom pai, é preciso, também, estar completo e, para isso, precisa ter uma vida.

A Outra Família, 2011

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Esse filme mexicano me agradou bastante. Uma criança foi abandonada por uma usuária de crack e foi adotada temporariamente por um casal gay. Existe uma polêmica presa somente nessa sinopse, mas o filme não é um melodrama, pelo contrário, muito consciente e respeitoso. O que é, de fato, uma família?

Alamar, 2010

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Outro representante do México, esse beira um documentário. Uma criança é dividida entre dois mundo após a separação dos seus pais. A mãe é uma Italiana, vive no mundo da cidade grande, prédios e modernidade, enquanto o seu pai é de origem Maia, leva uma vida que beira a primitividade, cercado pela natureza, vive de pesca, mergulhos, liberdade.

Acompanhamos o filho na natureza, a admiração está o rodeando o tempo todo, mesmo que nenhuma palavra seja dita. O filho admira o seu pai, por esse saber conviver com naturalidade tamanha com a sua própria simplicidade.

A Criança, 2005

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O que mais me agrada na filmografia dos irmãos Dardenne é a capacidade que eles tem em retratar essa relação de pais e filhos de uma forma inexplicavelmente incomunicável. Existe uma parede entre o espectador e a realidade apresentada, uma distância cruel, um desejo de tentar compreender os personagens, por vezes, vazios.

 “A Criança” tem como protagonistas dois jovens delinquentes, que acabaram de ter um bebê. Eles não sabem o que vão fazer da vida e a criança sofre com essa imaturidade ou falta de objetivo. Uma existência sem significado, uma nova vida fadada ao abandono.

Jérémie Renier e Déborah François estão surpreendentes.

Tudo que Quiseres, 2010

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Filme Espanhol, que navega por entre uma relação de pai e filha, onde ambos acabam de perder a mãe/esposa. O pai então, para acalmar o coração da menina, começa a se vestir como a mulher.

Crítica do filme: http://cronologiadoacaso.blogspot.com.br/2014/03/todo-lo-que-tu-quieras-2010.html

Caos Calmo, 2008

Está confirmado! Se eu tenho um pai no cinema, ele se chama: Nanni Moretti. Esse ator/diretor, esse filme, foi muito impactante para mim, em um momento que estava muito carente. Aliás, um outro filme do Moretti – que ele atua e dirige – chamado “O Quarto do Filho” de 2001 também poderia estar facilmente nessa lista.

A mãe/mulher também morre e o pai, vendo que sua filha está diferente, resolve sentar em uma praça, de frente a escola, todos os dias. Ou seja, ele leva a sua filha na escola e, depois, ao invés de ir trabalhar/viver, fica lá sentado até a menina sair.

É de um amor, é de uma sensibilidade que só assistindo. Para morrer de chorar e se encantar com tamanha beleza.

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Ela Vai, 2013 ( Elle s’en va )

07

★★★★

Emmanuelle Bercot vem se destacando bastante em festivais mundo afora, principalmente em Cannes, esse ano ( 2015 ) o seu filme “La tête haute” foi escolhido para abrir o festival, o que causou uma certa discussão, pois geralmente a abertura é feita com um filme mais popular. Se não bastasse, ela está envolvida diretamente com outra super diretora chamada Maïwenn, juntas escreveram o roteiro de “Polissia” que inclusive ganhou o prêmio do Juri, Bercot ainda particia como atriz desse excelente filme. Elas voltaram a trabalhar juntas com “Mon roi” que também esteve em Cannes 2015. Coloco essa informação pois acho relevante prestar atenção nessas novas diretoras francesas, que vêm se destacando a cada novo trabalho.

“Ela Vai” é um road movie que acompanha a vida da Bettie, interpretada pela eterna musa Catherine Deneuve, que após saber que seu amante está lhe traindo desiste do seu dia de trabalho e parte para uma viagem sem rumo. Durante a viagem ela recebe uma ligação da sua filha, pedindo para pegar o seu neto e cuidar dele por uns dias, até o avô paterno do menino vir buscá-lo.

Existe alguns filmes de road movie da terceira idade, como “Confissões de Schmidt” e “Nebraska”, aqui temos uma nova abordagem, porém não foge do óbvio. O que acaba não tirando os méritos, pois é divertido acompanhar a indiferença da personagem principal que, tempos atrás, foi miss bretanha e poderia ter sido Miss França se não fosse um acidente de carro. Ou seja, ela sofreu perdas que interromperam o seu sonho de modelo, assim supomos, fica evidente que a sua imagem, fisicamente falando, é deveras importante para a narrativa,  não a toa a escolha da atriz, Catherine Deneuve é símbolo de beleza nas décadas de 60 e 70, mesmo que hoje em dia mantenha uma cara invejável, as rugas e a barriguinha apareceram, ou seja, o tempo chega para todo mundo. A personagem principal tem problema com o tempo, não que ela tente ser jovem, só há uma certa dificuldade em aceitar que o que não foi, não será. Ela não conseguiu seguir sua carreira de modelo, vemos ela trabalhando em um restaurante, em contraponto com sua casa onde se vê obrigada a cuidar da mãe debilitada, há muito movimento e correria, ela é uma espécie de chefe geral, tem que pensar várias coisas ao mesmo tempo, inclusive a própria administração.

Quando ela descobre que está sendo traída é como se, finalmente, tivesse chegado um momento de se dar ao luxo de ir indo, não fica muito claro, pois é de se imaginar que ela já teve diversos casos, mas não precisa ter, pois parte de uma impulsão natural de um ser humano cansado das amarras da rotina. Ela pega o seu carro, cigarro, e percorre as estradas aparentemente sem rumo e ouso dizer que nos vinte minutos iniciais não existe um objetivo mesmo, o que pode incomodar alguns. Mas depois se estabelece o vínculo familiar e o interesse se normaliza. Vale ressaltar que, no momento que personagem tem um surto e sai do nada no meio do trabalho e parte então para a sua aventura solitária, está tocando a música “This Love Affair” do Rufus Wainwright que faz jus a confusão da personagem, em trechos como: “Não sei o que estou fazendo, não sei o que estou dizendo”, “Não posso dizer que estou à caça, não que eu não goste” ou “Não posso dizer que esteja dançando valsa, não que eu não goste. Preferiria dançar valsa com você”, enfim, pessoalmente não acredito que essa atitude parta em base a outro alguém, então o “você” que a música fala poderia muito bem ser ela mesma, que está inteiramente acostumada a pensar nos problemas e não pensa nela, até mesmo sua relação complicada com a filha entra em jogo, pois acaba se afastando do que realmente a faria feliz.

Os minutos iniciais, como disse acima, são justamente a parte mais fraca do filme, que se sustenta em simbolismos fracos relacionados, acreditem, com o cigarro, em um momento ela pede cigarro para um velhinho, este o convida para sua casa e enquanto ele prepara um cigarro para ela afirma diante duas mãos trêmulas que com o tempo os dedos não são a mesma coisa. Na cena seguinte, em um bar, um jovem tenta conquistá-la e acaba a levando para cama. O divertido é que ela por ter seus sessenta anos a cada cantada que recebe morre de dar risada, mas acaba cedendo, por estar bêbada. Outra curiosidade é que no dia seguinte ele visivelmente “apaixonado” por ela fala “você deveria ser linda quando jovem”, não tem como segurar a risada, no mesmo tempo que é profundo.

O relacionamento dela com o neto é um tanto irritante, mas aos poucos vai ficando mais agradável, mesmo que as melhores cenas não o envolvam diretamente como, por exemplo, ela tirando foto com suas amigas de outras épocas, todas bonitas e elegantes, dos tempos de Miss, a fotografia está sendo tirada da mesma posição que uma feita há anos, ou seja, temos ainda essa brincadeira com a lembrança, a personagem acaba desmaiando, simbolizando a sua fraqueza diante o passado.

“Ela Vai” não apresenta nada novo, mas certamente se torna interessante por conta da Catherine Deneuve que desenvolve sua personagem com uma classe irreparável, mesmo diante a um declínio emocional. A sua falta de delicadeza é preenchida com um carisma natural da atriz que tanto aprendemos a amar enquanto moça e, hoje, é uma senhora extremamente linda, afinal, algumas coisas não mudam.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Feuchtgebiete, 2013

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★★★

Baseado no livro homônimo de Charlotte Roche, “Feuchtgebiete” seria apenas mais um filme que retrata uma crise existencial na adolescência, se não fosse pela audácia em mesclar isso com a impulsão quase que inconsequente da personagem principal em levar o seu corpo ao limite da exploração, causando um nojo extremo em quem assiste.

Como assim? A jovem já começa afirmando que, quando criança, a mãe sempre lhe alertara sobre o quanto a vagina é sensível a bactérias. Somos então apresentados a pequena Helen, em um flashback – algo que acontecerá bastante – limpando freneticamente o banheiro para, enfim, poder usá-lo sem que sua pequena e inocente vagina esteja em perigo.

Cabe mencionar os vários ensinamentos da mãe, como por exemplo quando a menina está em cima de um muro, a mãe abre os braços como quem diz “vem, pula aqui!”, a menina pula e a mãe desvia. Depois chega e fala: “Melhor ralar o joelho agora do que ter um coração quebrado no futuro. Não confie em ninguém, nem mesmo em mim”. Já é de se notar, que a pobre menina não teve em seu berço a famosa “segurança”, tão importante para a formação de um caráter. Isso de imediato, soa como uma tentativa desesperada dela, no futuro, em se auto-desafiar, através do cu, da vagina suja, estilo bem largado, etc.

Pessoalmente não me incomodou tanto, como muitos por ai, pois realmente fiquei bem interessado em entender a cabeça da garota. Porém, se tivesse prestado um pouquinho mais de atenção na parte visual e grotesca desse filme, certamente ficaria com enjoo. Entre elas há uma cena em que vários homens, que trabalham em um restaurante, ejaculam em uma pizza que será vendida em seguida. Enfim, essa cena é belíssima, no fundo está tocando um clássico e, em outras oportunidades, certamente viraria um momento icônico no cinema. Porém, as cenas que realmente causam impacto são prejudicadas por um desenvolvimento muito fraco.

A protagonista, Helen, interpretada brilhantemente pela graciosa – mas, aqui, nojenta – Carla Juri se machuca ao se depilar, visto que a menina tem hemorroida. Primeiro ela vai para escola com uma mini-saia, escorrendo sangue pela perna, mas depois se sujeita, finalmente, ao hospital. Lá ela se torna uma figura carimbada e, por muitas vezes, odiada, devido a sua personalidade esquisita. Ela fica se masturbando sempre, conversa sobre sexo com o enfermeiro e surge ai o interesse romântico.

Há de ser interpretado, de forma mais genuína, como um verdadeiro hino a liberdade da mulher, pois a sociedade impõe a aparência, comportamento e higiene ideais, assim como podemos estender para uma analise imparcial sobre o jovem moderno, que utiliza-se de problemas familiares como pretexto para as mais diversas imbecilidades, porém, ainda me pego frustado em estar diante de uma ideia interessante mas desenvolvida com preguiça.

Destaque para a trilha, sempre muito bem utilizada, e a fotografia, sempre muito colorido, utiliza-se a quase todo momento as cores azul e rosa – reparem por exemplo as unhas dela, são pintados três de azul e duas rosas, ao contrário na outra mão, sua calcinha também é rosa, o banheiro sujo do início é azul etc – remetendo-nos imediatamente ao contraste com a personalidade da Helen, afinal, de menininha doce ela não tem nada.

No fim parece que a manipulação da sensação de nojo foi muito mais eficaz que o controle sobre os personagens, de qualquer modo, é válido para o entretenimento, mesmo que seja bom não ter comido nada antes de assistir.

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Cavalos e Homens, 2013

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★★★★

A julgar pelo pôster percebemos que “Cavalos e Homens” não é um filme normal. E foi justamente esse motivo que me despertou a curiosidade, dois cavalos cruzando e, inesperadamente, um homem em cima da égua. Olhando a imagem, simplesmente, passaram diversas coisas pela minha cabeça, diversas interpretações e cheguei a conclusão de que se o filme assumisse metade da ousadia do pôster, com todos os seus simbolismos, já valeria a pena assistir. Além do mais, é de imaginar que a cena da imagem em questão seja tão boa quanto.

Me parece curioso começar escrevendo sobre um filme pelo seu pôster, uma ferramenta muito útil para chamar a atenção. A primeira coisa que reparei é que o homem está em cima da égua, justamente a qual será penetrada. A vulnerabilidade dele, portanto, é ser, com o seu animal, a atração. Não estou aqui devaneando – aliás, esse texto será apenas uma série de reflexões, por vezes, desconectada – e colocando o macho como o manipulador, bem, pelo menos não literalmente, mas o homem está no meio do cruzamento, ele faz parte disso.

Explicando resumidamente a história, mas não fazendo disso uma necessidade, até porque a obra se preocupa muito pouco com explicações, iremos acompanhar a vida de um grupo de pessoas em um campo da Islândia através dos olhos dos cavalos que ali habitam. Na verdade essa questão não é explícita, há uma troca de valores, somente os cavalos aparecem como triunfais e belos, enquanto o ser humano é um ser vazio. Enfim, não esperem um filme normal, pois essa é uma palavra com uma relevância nula, em um projeto que evidentemente usa um simbólico animal como forma de crítica aos animais que teimam em se propagar donos do mundo.

Apesar de não cavalgar e não ter cavalo, esse belo animal, em especial, sempre me despertou muita paixão, desde criança. Poderia colocar aqui também que minha peça favorita no xadrez é justamente o cavalo. Eu até tentaria explicar com minhas próprias palavras o motivo de tanto fascínio, mas ai me pego ouvindo o disco “Cavalo” do Rodrigo Amarante e entendo tudo. Amarante, explicando o porquê do nome do disco, estrutura o pensamento de que para se ter uma cavalgada perfeita, é preciso existir uma harmonia, quase uma simbiose, entre o cavalo e o cavalheiro. No mesmo tempo que tem essa ideia da nobreza, o cavalo é um prisioneiro, aliás, no xadrez ele faz parte das peças nobres. É aquele que dá o movimento, que defronta e se supera, pula as outras peças.

Se voltarmos ao questionamento sobre o pôster, veremos que entre dois cavalos, um preto e outro branco, existe um homem. Possesso de raiva por não ter o controle, por não domar. Mas será que ali existe uma conexão, compaixão e, acima de tudo, respeito? Os admiradores de cavalos possivelmente concordariam comigo que, em uma perfeita cavalgada, não existe manipulação, é mais uma questão de acompanhamento.

Dito isso, “Cavalos e Homens”, filme da Islândia dirigido pelo Benedikt Erlingsson que é mais conhecido pelos seus trabalhos como ator, é o melhor filme de cavalos que eu já vi e fatalmente estou incluindo a animação “Spirit: O Corcel Indomável” nessa seleta lista. O fato é que os realizadores conseguiram, com propriedade, inverter os papeis, o filme é tão estranho que o clima sugere a pergunta: “e se os cavalos trocassem de lugar com os humanos?”, o irracional que toma conta de todas as cenas, parte do ser humano, pois os cavalos soam sempre como observadores, vítimas de uma ignorância sem fim e/ou interesses. Ilustrando essa proposta relativamente ambiciosa, temos uma fotografia graciosa – porém muito beneficiada pela paisagem da Islândia, que é sublime – e um bom uso dos sons. Parece que estamos adentrando em um novo ser distante, nos tornando…cavalos(?) É uma ironia tão grande que desde o início me fez pensar o quanto estava certo em enxergar a figura do cavalo, pessoalmente, como algo que beira o místico.

Logo na cena inicial temos um detalhe de uma égua, branca, elegante ao extremo, através do seus olhos enxergamos o seu domador, ou o cavalheiro. Já fica claro o que virá a seguir, afinal, a próxima cena é justamente a tão aguardada por aqueles que, como eu, foram fisgados pelo pôster. O cavalheiro – aqui o chamarei assim – anda com a sua égua enquanto desperta curiosidade por onde passa, as pessoas até utilizam seus binóculos para acompanhar de perto o seu trajeto, claro, por causa do belíssimo animal branco. Em dado momento ele vai sair com ela e um cavalo, preto, igualmente formidável, que estava preso se solta e vai atrás da égua para cruzar. O cavalheiro permanece em cima, como se fosse ele que estivesse sendo penetrado, inclusive o simbolismo fica claro, pois o tempo todo temos a ideia de que tanto os animais quanto os homens são a mesma coisa. Os três estão ali, um triângulo amoroso, onde a graça da natureza se sobressai entre a tentativa desenfreada de manipulação e exibição.

Mantendo a tradição de em nenhum momento ser óbvio, destaco a cena em que um velhinho parte com seus dois cavalos e um arame acaba arrebentando e batendo nos seus olhos, restando-lhe ser guiado pelos cavalos, em um ato de devoção máxima, apesar da personagem jamais esboçar alguma reação.

A cavalgada perfeita é quando você encontra no animal o seu oposto, o seu. O homem tem mania de se considerar o centro de tudo, de fato o é, mas não com exclusividade. Aqui temos uma profunda reflexão filosófica e psicológica, pois não é nada fácil aceitar que o humano é um simples coadjuvante da vida, pelo menos os mais egocêntricos poderão se incomodar um pouco. O filme peca pelo mesmo motivo que é bom, o desenvolvimento. Se por um lado é ousado em nunca se explicar, em não ter uma linha cronológica e enredo aceitável, esse é o real motivo de cair, em muitos momentos, na monotonia. A mensagem consegue ser passada nos vinte minutos iniciais, depois é preenchido com espaços superficiais que repetem a mesma analogia. No entanto, a cena mais impactante se encontra no final, quando um personagem está sozinho no meio da neve com o seu cavalo e, para se aquecer, corta a barriga do animal e se abriga lá dentro, voltando à barriga de sua mãe ou até mesmo renunciando a obrigação de ser homem e se refugiando no seu espelho, no seu ídolo. O animal racional se torna irracional e, por vezes, o contrário.

Cabe ressaltar que antes dos créditos finais temos um aviso que nenhum animal foi ferido durante a gravação e que toda a produção são – assim como é de se imaginar – adoradores de cavalos. Só existe carinho nessa obra imperdível, claro, com pitadas sublimes de humor negro.

emersontlima

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