Imagens fragmentadas como atalho para a ilusória perfeição

Cisne Negro ( Black Swan, Estados Unidos, 2010 ) Direção: Darren Aronofsky

★★★★★

Parte 1 – Versões contraditórias de uma mesma face

A arte é o desprendimento do ser em troca de diálogos com outras versões dele mesmo. É impossível pensar na expressão como uma manipulação terrena, a produção e entrega artística está vinculada inteiramente com o místico, outros planos e universos onde o humano torna-se deus e, por consequência, se desmistifica a cada olhar e movimento. O olhar parte de uma necessidade impulsiva de se perder em infinitas possibilidades, reinventando as escolhas e reiniciando a existência.

O movimento do corpo exige coragem de todas as formas possíveis, inclusive as mais fortes e que mais consomem são as que se distanciam, por ironia, da exibição: evidentemente, ficar em frente à uma plateia que espera sempre um espetáculo é uma experiência aterradora, mas nada se compara com a busca por compreender cada detalhe e mesclá-lo com os segundos, como se o ato performático transformasse o ator em um pescador de tempo, técnica e liberdade.

Nesse ponto, a problemática maior da atuação é a naturalidade e, como sabemos, o ser humano é dotado de falhas e erros, seja nas palavras, comportamento e escolhas, portanto, a arte perfeita é aquela que é toda errada e suja, despreocupada. Oras bolas, de que adianta entender todas as regras gramaticais e não ter absolutamente nenhuma inspiração para escrever? na mesma altura, do que adianta ser uma exímia bailarina e não saber amar a si?

Antonin Artaud relaciona o teatro com o caos, como um processo de loucura conjunta, de liberdade extrema e subversidade; Pina Bausch, quando dança, leva consigo toda a sua história, todos os seus passos, as ruas, pessoas e momentos. O suor nesse caso soa como sangue, pois o cansaço é de uma vida inteira, não somente as horas de um espetáculo; os movimentos são como pássaros, como árvores, como terra; e a mentira, por sua vez, se torna verdade.

Parte 2 – Os espelhos

Dado a introdução, é questão de tempo para relacionarmos a performance com a coragem de se alcançar mundos distintos – às vezes a transição acontece em questão de segundos – portanto a apresentação consome psicologicamente o artista para, depois, fazê-lo gozar. É uma relação íntima, que gira em torno da dicotomia entre o prazer e a dor do sacrifício.

Assim somos apresentados à Nina, uma personagem inocente que enfrentará o dilema de multiplicar-se. Na cena inicial ela dança suavemente e interpreta, depois desperta do sonho e se prepara para mais um dia.

É questão de tempo para percebermos a importância dos espelhos para Cisne Negro, como um objeto que representa a ideia básica de universos paralelos, como se Nina desfragmentasse sua imagem em cada cena em que se olha ou, em uma visão otimista, o espelho funciona como um caminho de incentivo ao espectador na busca por uma nova perspectiva sobre o óbvio.

A imagem acima revela dois caminhos distintos: a imagem que transparece a suposta realidade determina a posição de Nina e sua mãe, Erica. No entanto, ao olharmos o espelho, percebemos que as duas trocam de posição e, se não bastasse, o reflexo da mãe está de costa para a filha, como se não estivesse conversando com alguém ( ou seria o contrário? ).

Na dança é imprescindível o uso do espelho como uma forma de registrar os movimentos com facilidade, o próprio dançarino enxerga, repensa e repete os movimentos de forma a criar uma conexão e corrigir os erros. Agora imagine um espelho bem grande do nosso lado todos os dias da nossa vida, no ônibus, nas aulas, nos corredores, nos hospitais, nos caixões, enfim, o espelho em Cisne Negro é mostrado literalmente mas sua importância é metafórica, sugerindo uma etapa transcendental da consciência, onde a menina, mesmo que tardiamente, se desprende e caminha em rumo à sua liberdade.

Parte 3 – Há muitas cores entre o preto e branco, mas só há um cisne

Nina ultrapassa barreiras muito rápido em base ao seu talento, mas sua inocência a cega completamente em relação as reais necessidades para conseguir fazer o seu papel. Ela não precisa provar a técnica, mas sim a interpretação. Desde o começo a mensagem fica clara, mas ela ignora, atendo-se exclusivamente aos movimentos e não à entrega.

Isso é uma mensagem para a vida: quantas vezes nos pegamos centrados em algo ou alguém, enquanto o melhor encontrava-se ao lado? lembrando que “melhor”, nesse caso, diz repeito exclusivamente ao momento.

Nina precisa ser violada pela rebeldia e criar o caos dentro de si para subverter, ameaçar a si própria, dominando assim as outras versões dela mesma: a mãe, Lilly e Beth – dançarina “ultrapassada” e protagonista do Lago dos Cisnes durante muitos anos, sendo sucedida pela própria Nina.

Esse ritual de transição acontece através do sexo. Desde o momento que ela abandona sua mãe ( ela mesma ) para ir à balada com a Lilly ( aquilo que gostaria e precisa ser ) até o momento que volta para sua casa, é o desdobramento e coragem para tentar encontrar uma resposta sobre quem ela é, como enxerga e como será. As três imagens acima ilustram essa ideia de forma preciosa: percebam que, na primeira imagem, o círculo de espelhos ( vida ) traz consigo diversas versões da Nina, mas nenhuma delas ganha tanto destaque quanto a do centro. A segunda e terceira imagem são mostradas antes do embate com a mãe, a separação entre Lilly e Nina é evidente, no mesmo tempo que parece se tratar da mesma pessoa.

O sexo entre as duas, a seguir, representa o momento exato da fusão entre a técnica artística e personalidade central, com as variações da personagem que está sendo interpretada para o espetáculo – no caso o lado negro, obscuro, insano e obsceno. Nessa perspectiva, o filme Cisne Negro além de ser uma ótima obra sobre o processo de criação artística, ainda percorre caminhos obscuros da psicologia humana, opressão à mulher e, ainda mais, funciona como uma adaptação da própria peça “Lago do Cisne”. É uma obra-prima do cinema moderno, ápice de um diretor que se acostumou em provocar através da loucura e que, aqui, encontra um oásis na performance brilhante da Natalie Portman.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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CdA #59 – Desconstruindo o gênero romance

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No episódio #59 do podcast [Cronologia do Acaso] Emerson Teixeira convidou Tiago Messias e Tiago Lira para conversar sobre o gênero romance e, principalmente, citar alguns filmes que trabalham com o tema “amor” de forma interessante.
Como bônus ainda temos uma rápida participação do André Albertim, indicando três filmes via Whattsapp.

Obs: Por conta de um erro de captação, em alguns momentos o áudio trava, mas nada que compromete o conteúdo do episódio.

Site do Tiago Messias: https://altverso.wordpress.com/

Site do Tiago Lira: http://umtigrenocinema.com/

Alguns filmes citados durante o podcast:

  •  Edward Mãos de Tesoura, 1990
  • Antes do Amanhecer, 1995
  • Antes do Pôr-do-Sol, 2004
  • Antes da Meia-noite, 2013
  • Brokeback Mountain, 2005
  • As Amizades Particulares, 1964
  • Sim ou Não, 2010
  • Chasing Amy, 1997
  • Bridegroom, 2013
  • Apenas uma Vez, 2006
  • Mundo Cão, 2014
  • O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, 2001
  • Jules e Jim, 1962
  • Sonhando Acordado, 2007
  • 500 dias com ela, 2009
  • Ruby Sparks, 2012
  • Amour, 2012
  • Farrapo Humano, 1945
  • Encontros e Desencontros, 2003
  • Wall-E, 2008
  • Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças, 2004
  • Garota Ideal, 2007
  • Juno, 2007
  • Meia Noite em Paris, 2011
  • Bonequinha de Luxo, 1961
  • Se o Meu Apartamento Falasse, 1960
  • Espuma dos Dias, 2013
  • Ensina-me a Viver, 1971
  • Copenhagen, 2014
  • Helpless, 2012
  • Manhattan, 1979
  • Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, 1979
  • I’m a Cyborg, But That’s Ok, 2006
  • O Profissional
  • Bonnie and Clyde, 1967
  • Sabrina, 1995
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CdA #41 – Drama, 2010

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“Onde os outros propõe obras, eu não pretendo mais do que mostrar a minha alma”– Antonin Artaud

É com essa frase, no mínimo, curiosa, que a obra metalinguística de Matias Lira abre as cortinas. A metalinguagem está no próprio título: “Drama”. O tema explorado é o teatro, na sua versão mais verdadeira, portanto, essa palavra nos transporta ao princípio, a tragédia, a Grécia.

No episódio 41 do podcast [Cronologia do Acaso] Emerson Teixeira e o novo integrante da equipe André Albertim  (http://www.assoprandocartuchos.com.br/) falam sobre o filme Chileno chamado “Drama” de 2010. Conheça um pouco mais sobre o teatro da crueldade, investigue conosco o que é ser um ator e muito mais.

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Filmes alternativos sobre a relação pai e filho

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Enfim, os dias dos pais. Pessoalmente eu invejo muito aqueles que fazem um belo almoço, dão presentes, abraçam e beijam os seus pais nesse dia ou em qualquer dia do ano. Essa presença tão importante permanece, há bastante tempo, inexistente na minha vida.

Mas essa postagem não é para lamentações, até porque não fico triste, pois, a vida nos recompensa de diversas formas, pai não é aquele que nos colocou no mundo, não é somente homem. Existem mães que batalham dia a dia para dar o melhor aos filhos, existem amigos que protegem em qualquer circunstância, existem pessoas que nem sabemos o nome, mas que estão aqui ou lá, presentes nos nossos corações.

Não existe um dia específico, uma data do ano é muito pouco para tamanha importância. Mas beije, abrace, diga um lindo e feliz “eu te amo” ao seu pai. Se você está lendo isso, dê uma pausa, procure se entregar mais, não hoje, nem amanhã, mas sempre.

Se o seu caso é como o meu, não se lamente, comente o quanto a vida é legal por deixar você enxergar o outro lado. Ame, independente de classificações.

Bem, vamos lá: essa postagem é para recomendar alguns filmes que possuam alguma relação com esse tema ou simplesmente tenham um personagem pai que por algum motivo chamou a minha atenção.

A Música Nunca Parou, 2011 

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Me emociona só de lembrar. Existe uma relação, inicialmente, do filho com a música o que acaba, por consequência, criando um conflito com o pai. É uma metáfora interessante, pois um gosta de Rock, aquele que mesclava – impulsionava – o movimento hippie e o outro aprecia um bom clássico.

Quando o filho começa a lidar com o esquecimento, a única coisa que liga os dois é exatamente a música, o pai faz da arte a sua respiração, o seu recomeço.

A Lula e a Baleia, 2005

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Como a ideia é tentar resgatar da memória vários caminhos do mesmo tema, nesse longa dirigido pelo Noah Baumbach, temos o exemplo claro de um personagem ( pai ) fragilizado diante ao processo de mudança, no caso, da separação com a esposa. Interpretado maravilhosamente pelo Jeff Daniels, há ainda uma relação curiosa com o filho, que o segue e, inclusive, o imita. De forma a estabelecer algumas dicas em relação a psicologia daquele convívio familiar, onde o pai impõe os seus gostos e a sua cultura.

Sempre Estarei Contigo, 2012

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Temos aqui um pai, do tipo herói, já idoso ele pode se orgulhar de ter todos os filhos criados e, ainda mais, ter ajudado os netos a terem suas próprias terras. Um ser humano com a vida completa(?). Resta a esse senhor, perceber que precisa, finalmente, de mais tempo com a sua esposa, mas a sua vontade de sempre estar construindo algo o leva cada vez mais a pensar em outras possibilidades.

Tangerines, 2013

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Representante da Estônia no Oscar de melhor filme estrangeiro, acabou perdendo para “Ida”. Aqui temos a figura paterna da proteção, seja dos personagens que estão em guerra que aparece e o cuidado que existe ali ou a proteção de uma lembrança.

Crítica do filme: http://cronologiadoacaso.blogspot.com.br/2015/01/tangerines-2013.html

A Busca, 2013

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Esse filme mexeu tanto comigo que escrevi sobre ele chorando. Uma perfeita simbologia ao ato de buscar aquilo que se perdeu, seja diante as próprias atitudes ou pelo tempo. As pessoas crescem, buscam liberdade, constroem suas próprias famílias, se vão, a busca se torna, consecutivamente, ir em frente.

Cítica do filme: http://cronologiadoacaso.blogspot.com.br/2014/07/a-busca.html

É Tudo Tão Calmo, 2013

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Esse filme da Holanda, silencioso e contemplativo ao nível máximo, é bem particular. Bem como é restrito, é complicado digerir perfeitamente, é preciso calma, assim como a própria tradução sugere. Aqui temos o exemplo do “cuidado”, um filho cuidando do seu pai e lidando com a verdade de que a morte se aproxima, no mesmo tempo que ele é triste por isso, existe ainda o cansaço.

Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada, 2007

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Esse é talvez o filme mais conhecido da lista. Ele mora no meu coração pois me encantou em diversos pontos, desde ser uma comédia romântica perfeita, passando pelas atuações gostosas do querido Steve Carell e a diva Juliette Binoche até chegar a profundidade.

Temos um viúvo, que tem problemas para reconstruir a sua vida, até por ser um pai muito dedicado. E, em uma confraternização em família, ele se apaixona pela namorada do irmão, mas, mais do que isso, aprende a valorizar os seus próprios interesses e percebe com perfeição que, para ser um bom pai, é preciso, também, estar completo e, para isso, precisa ter uma vida.

A Outra Família, 2011

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Esse filme mexicano me agradou bastante. Uma criança foi abandonada por uma usuária de crack e foi adotada temporariamente por um casal gay. Existe uma polêmica presa somente nessa sinopse, mas o filme não é um melodrama, pelo contrário, muito consciente e respeitoso. O que é, de fato, uma família?

Alamar, 2010

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Outro representante do México, esse beira um documentário. Uma criança é dividida entre dois mundo após a separação dos seus pais. A mãe é uma Italiana, vive no mundo da cidade grande, prédios e modernidade, enquanto o seu pai é de origem Maia, leva uma vida que beira a primitividade, cercado pela natureza, vive de pesca, mergulhos, liberdade.

Acompanhamos o filho na natureza, a admiração está o rodeando o tempo todo, mesmo que nenhuma palavra seja dita. O filho admira o seu pai, por esse saber conviver com naturalidade tamanha com a sua própria simplicidade.

A Criança, 2005

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O que mais me agrada na filmografia dos irmãos Dardenne é a capacidade que eles tem em retratar essa relação de pais e filhos de uma forma inexplicavelmente incomunicável. Existe uma parede entre o espectador e a realidade apresentada, uma distância cruel, um desejo de tentar compreender os personagens, por vezes, vazios.

 “A Criança” tem como protagonistas dois jovens delinquentes, que acabaram de ter um bebê. Eles não sabem o que vão fazer da vida e a criança sofre com essa imaturidade ou falta de objetivo. Uma existência sem significado, uma nova vida fadada ao abandono.

Jérémie Renier e Déborah François estão surpreendentes.

Tudo que Quiseres, 2010

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Filme Espanhol, que navega por entre uma relação de pai e filha, onde ambos acabam de perder a mãe/esposa. O pai então, para acalmar o coração da menina, começa a se vestir como a mulher.

Crítica do filme: http://cronologiadoacaso.blogspot.com.br/2014/03/todo-lo-que-tu-quieras-2010.html

Caos Calmo, 2008

Está confirmado! Se eu tenho um pai no cinema, ele se chama: Nanni Moretti. Esse ator/diretor, esse filme, foi muito impactante para mim, em um momento que estava muito carente. Aliás, um outro filme do Moretti – que ele atua e dirige – chamado “O Quarto do Filho” de 2001 também poderia estar facilmente nessa lista.

A mãe/mulher também morre e o pai, vendo que sua filha está diferente, resolve sentar em uma praça, de frente a escola, todos os dias. Ou seja, ele leva a sua filha na escola e, depois, ao invés de ir trabalhar/viver, fica lá sentado até a menina sair.

É de um amor, é de uma sensibilidade que só assistindo. Para morrer de chorar e se encantar com tamanha beleza.

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Chico & Rita, 2010

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★★★★

Vencedor do prêmio de melhor animação no Goya de 2011, “Chico e Rita” poderia ser simplesmente – e somente – mais uma história de amor. Mas como já é costumeiro nas animações espanholas, existem centenas de elementos cruciais e referências para os mais atentos. No filme em questão, há uma relação incontestável com a música cubana. Visto que ambos protagonistas são músicos de alto nível: Chico é um pianista e Rita uma cantora, dona de uma voz potente.

Não sou um conhecedor dos cantores de Cuba, o máximo que já ouvi foi o excelente Miguelito Valdés mas, por influência dessa exímia homenagem, me dei a oportunidade de pesquisar mais sobre, por sinal estou descobrindo coisas fantásticas. Não tem como ignorar a felicidade dos realizadores Fernando Trueba, Javier Mariscal e Tono Errando na contemplação da música. Afinal, o filme – personagens- viaja para Paris, Las Vegas, New York, destaque para esse último, onde teremos uma profunda reflexão sobre os preconceitos existentes no Estados Unidos, visto que o filme começa no final da década de 40. Ainda mais, é um verdadeiro passeio pela história do blues/jazz, diretamente afetada por essa separação da população.

Temos aparições ou citações ilustres, como é o caso do Charlie Parker. Um ícone para a música, mas também imortalizado pela forma de vida, o vício sempre esteve muito presente. Aliás, essa querida animação tem como maior característica o desprendimento daquela famosa ideia de que “se é animação, foi feito para crianças”, aqui temos um conteúdo inteiramente adulto, inclusive com uma cena de nu frontal.

A vida boêmia se faz presente, bem como o relacionamento conturbado. Chico não faz o romântico perfeito, muito menos Rita segue o perfil delicado. A personagem se desenvolve em base a uma ousadia incrível, felizmente o roteiro é sublime em fazê-la ser a frente do seu tempo, diferente – incrivelmente sexy – sem ser vulgar.

Entre encontros e desencontros, os dois, já na velhice, compreendem que viveram intensamente e, pelo mesmo motivo, se perderam um do outro. Complementando a introdução desse texto, “Chico e Rita” não é uma história de amor entre duas pessoas, mas sim de duas para com a música, com todas oportunidades, desastres e perdas que ela traz.

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