CdA #72 – Novela (1992) e Giselle (1980)

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Nesse episódio Emerson Teixeira recebe o grande Malforea, vocalista da banda Distintivo Blues para, juntos, indicarem dois filmes. Voltamos ao formato de recomendações em grande estilo, com duas obras nacionais: o polêmico Giselle (1980) e o curta-metragem Novela (1992). Ambos filmes completamente diferentes, o papo envolveu assuntos interessantes como as novelas do nosso país e a comodidade de muitos em relação à cultura.

Filmes citados:

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Édes Emma, drága Böbe, 1992

Édes Emma, drága Böbe (Queridas Amigas, Hungria, 1992) Direção: István Szabó

István Szabó é um dos diretores mais conhecidos do cinema Húngaro, isso se deve ao fato de ter sido vencedor do Oscar de filme estrangeiro com o maravilhoso “Mephisto” (1981), onde acompanha a história de um ator que se filia ao partido nazista com a intenção de crescer profissionalmente, porém a ideologia que prega traz uma série de dilemas para a sua vida. O personagem é preso entre o fascínio pelo sucesso conquistado e a tristeza pelo trajeto percorrido até chegar a tal ponto.

Dez anos depois o diretor realiza uma pequena obra chamada “Édes Emma, drága Böbe” que, em poucos minutos, exibe uma protagonista que divide sua vida entre dar aula em uma escola e conversar com sua amiga, a qual divide um quarto de hotel. A história é simples, existe profundidade nas questões abordadas – principalmente aqueles que se referem ao ensino – mas o desenvolvimento se perde em meio às críticas sociais e a amizade como representação da liberdade.

O filme começa com uma imagem aterrorizadora, o corpo de uma mulher, nua, escorrega em uma montanha de areias, sua vida segue em desordem a caminho da morte. A fotografia azulada, bem escura, traz uma sensação estranha, de fraqueza. Emma acorda assustada, no seu quarto, percebe que tudo foi um sonho. O espectador passa, a partir de então, a assistir esse mesmo corpo caindo, sem equilíbrio, objetivo ou autonomia.

Algo está constantemente em desordem, a protagonista levanta, se arruma brevemente para trabalhar e tenta acordar sua amiga, Böbe. Inclusive a filmagem é inteligente ao se distanciar do objeto, deixando em primeiro plano as paredes externas do pequeno quarto. Se não bastasse, o cômodo é extremamente bagunçado. Essa desorganização, visualmente bem trabalhada, transmite a ideia de que as amigas não seguem as regras, muito menos se preocupam em transparecer maturidade, mesmo que uma delas enfrente uma profissão que exija isso; mas também aproxima quem assiste, cria uma ponte para a identificação e, ainda por cima, exala a ideia de liberdade. O resto do mundo é uma montanha, prestes a engolir os corpos, mas o quarto é a superfície, segura e extremamente aconchegante.

O relacionamento de Emma e Böbe é curioso: no mesmo tempo que se entendem, é perceptível uma série de diferenças entre elas. Inclusive diferenças significativas que, em outro momento, afastariam uma da outra. Em uma cena Böbe reflete que “você se define pelo que têm” e se mostra, desde o começo, esperançosa para obter status em base a um relacionamento, por outro lado Emma é romântica, busca amar antes de qualquer questão financeira. Uma é inocente, sonhadora; a outra é realista e amargurada. Mas é válido ressaltar que as características das duas são entregues de forma sensata, há muito espeço para interpretarmos as suas atitudes ou opiniões.

Como forma de auxílio para o desenrolar da história, temos algumas inserções de letreiros no meio da obra, quase sempre as frases são irônicas, mas é visível a preocupação em parecer, por vezes, que se trata de um conto de fadas social.

Se a ideia principal é inteligente, a execução deixa a desejar. A começar pelo ritmo, quando um filme de uma hora e vinte entedia, é realmente preocupante. O terceiro ato fica aquém da construção inicial, principalmente por não finalizar os temas principais que vinham sendo discutidos, mesmo que timidamente, até então. Os caminhos não são bem definidos.

Outro ponto que incomoda é a atriz principal: Johanna Ter Steege é talentosa, muito lembrada por ter feito a obra-prima “O Silêncio do Lago (1990), mas ela é holandesa. Portanto, os seus diálogos tiveram que ser dublados em Húngaro, fato que, mesmo que tenha um propósito narrativo – ideia que teimo em recusar, inclusive – incomoda demais, tira a concentração e, por vezes, a seriedade dá lugar a um leve sorriso, tamanho trabalho mal feito.

Se trata de uma obra regular, que apresenta algumas reflexões válidas. Por exemplo, em dado momento um grupo de amigas, incluindo as duas principais, ficam sabendo de uma seleção para a figuração em um filme. Elas vão fazer o teste, mesmo que a cena em questão seja em um banheiro, e elas precisem ficar nuas. Diversas mulheres aparecem despidas para o teste, mas as protagonistas não. É uma metalinguagem bem interessante, apesar de que a sua função no roteiro seja extremamente oculta, ainda assim é divertido.

A força principal fica mesmo por conta da sutil amizade, pois mesmo com as diferenças elas conseguem compreender suas dores, através da ausência de amor. Elas compartilham suas decepções amorosas e são apoiadas uma pela outra, através da consciência e mútuo respeito. A palavra “vácuo” é citada no final da obra, ainda é mencionado que essa palavra é a mesma em inglês e russo e o filme fala sobre isso: gestos, decisões e simplicidade que podem ser assimiladas em qualquer lugar, ultrapassando línguas e história. Mulheres tentando se encontrar.

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O velho que carregava o seu tempo nos ombros

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Filhos da Natureza Börn náttúrunnar, Islândia, 1991. ) Direção: Friðrik Þór Friðriksson

★★★★

A Islândia é, hoje, um palco importante para o cinema. Seja com as suas produções – geralmente são exibidos em festivais alternativos pelo mundo – mas também pelo fato do custo de produção ser reduzido, portanto muitos filmes norte-americanos são rodados por lá, aproveitando-se da paisagem maravilhosa unido com a facilidade de filmagem.

O filme mais conhecido do país é, sem dúvida, um chamado “Hrafninn Flýgur” (1985 ), que aborda os Vikings. Mas o mundo cinematográfico só conheceu a Islândia  em 1992, isso por causa de uma indicação ao Oscar para o pequeno, mais profundo e importante, “Filhos da Natureza”.

O filme é dirigido pelo grande Friðrik Þór Friðriksson – um dos diretores mais cultuados no país e que ainda continua trabalhando – e lida com a velhice de forma singular, com o auxílio de excelentes atuações, paisagem devastadora e silêncio perturbador.

Um senhor chamado Thorgeir deixa a sua casa no campo e vai visitar a sua família na cidade. Ele se sente sufocado com a artificialidade, bem como percebe que a sua presença incomoda a todos. Ele se muda para um asilo e, mesmo com a companhia de alguns novos amigos, vive insatisfeito com a sua condição e foge com uma senhora chamada Stella a caminho de um lugar nenhum, redescobrindo silenciosamente o sentido da vida.

Interpretado por Gísli Halldórsson com uma carga emocional muito grande, a sensação de aprisionamento do protagonista é transmitida através dos passos lentos, envoltos de uma paisagem assustadoramente linda que, praticamente, esconde o personagem.

No início do filme temos planos médios, para ressaltar essa jornada solitária, o uso da trilha também se faz presente e dá um tom de grandiosidade para um movimento bem simples.

Chegando no apartamento dos filhos, percebemos que Gísli Halldórsson carrega uma série de objetos que o identificam de alguma forma, mas nenhuma delas é tão evidente quanto um relógio de parede enorme, como se representasse sua vida ou maldição, que carrega constantemente, como uma prova da sua humanidade.

O senhor se sente desconectado da realidade, perde-se em meio a sua família descaracterizada, – para reforçar isso, todos os personagens da casa são filmados de forma diferente do protagonista, como se não tivessem rostos ou relevância em tela – inclusive, ao ouvir um som alto, o protagonista corre até o rádio desligar, como se não aceitasse a modernidade ou estilo de vida da família e sua alienação.

Sempre senti essa aflição sobre o envelhecimento só, e a solidão, nesse caso, é mais uma prova da angústia de ver o tempo passar, as transformações sociais acontecerem, o jovem mudar e, na cabeça do idoso, ainda existir outros mundos do passado, então como adaptar as lembranças do ontem com a estranheza do hoje?

Essa ideia é refletida através do silêncio de Gísli Halldórsson. O seu caminhar lento e desajeitado, suas expressões cansadas e, mesmo assim, doces, suas atitudes simples como sentar em um balanço, no parque, e admirar ( ou temer ) os prédios e a cidade. O conceito de lar é desconstruído, pois o idoso parece não pertencer à lugar nenhum, não ser filho de ninguém, senão, da natureza.

Quando a idade chega, parece que o homem se desamarra da sua inerência ao corpo e fica livre, como um filho abastado de conhecimento, ser ambulante da vida e observador dos erros; parece que se transforma em obra de arte do universo.

Lugar central não é onde a pessoa está?”

O parceiro de quarto do protagonista o recebe com a frase feliz e esperançosa: “saudações ao eterno jovem”, enquanto percebemos um quarto sem vida, escuro, que se resume, infelizmente, em um depósito de velho. Esse abandono é quebrado, outra vez, com as flores que esse senhor recebe da sua “família”, ele pede para o protagonista cheira-las e os dois vivenciam esse momento, essa esperança, juntos.

E assim todos os significados vão sendo passados através da sutileza, como o processo de envelhecer mesmo, existe uma sincronia entre o início do filme e o desenvolvimento, os passos lentos representam a própria experiência do espectador; a paisagem, muito bem utilizada, poderia ser a beleza de uma história não contada.

“Filhos da Natureza” é uma obra-prima esquecida pelo tempo, aclamada por alguns e feliz na sua abordagem realista sobre o processo inquietante do passar das horas. Através do road movie, temos a oportunidade de relembrar o quanto a existência é complexa e que, em determinados momentos, entra em comunhão com o vento, transformando-nos em parte do todo, guiando-nos à todos os lugares, para que possamos sentir todas as histórias e amar todos os amores.

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