Confiança (1990)

Poderia escrever páginas e mais páginas sobre o querido diretor Hal Hartley, mas me contento, por agora, em resumir tudo com um “procure o trabalho dele!”. A sua história está vinculada com o cinema independente, mais precisamente, com o cinema independente norte americano dos anos 90. Eu escrevo muito aqui no Cronologia do Acaso sobre o cinema de outros países, mas jamais escondi o meu apreço pelo cinema americano, principalmente da safra que trouxe a revolução. Se analisarmos a década de 90, encontraremos grandes nomes que surgiram, a partir desse impulso pelo autoral, na lata me vêm nomes como: Paul Thomas Anderson, Wes Anderson, Todd Solodz, Tarantino e Hal Hartley. Todos resgatam elementos perdidos, por entre um fazer cinema acostumado. Roteiros impecáveis, estética transgressora, sociedade sendo vista de perto, próxima ao máximo da realidade.

Bem, comento aqui o filme “Confiança”, de 1990. E que tarefa complicada! Me sinto as vezes muito pequeno perto de uma obra deveras provocativa. Provocação que parte da identificação, misturado com uma careta do tipo que pensa “o que tá acontecendo nesse filme?”. Tamanha estranheza, tamanha naturalidade, tamanha é a nossa sensação de estar diante de algo que acontece, mesmo quando o diretor tente ocultar a mensagem em diálogos, por oras, desconexos. Confiança é a captura de um fragmento chamado confiar. Essa palavrinha, essa ação, essa misteriosidade chamada depositar suas esperanças em alguém, quão complicado é, quão verdadeiro pode ser.

Acompanhamos a história da Maria, interpretada pela belíssima e talentosa Adrienne Shelly, que é uma jovem rebelde, do tipo meio burrinha, que provoca um ataque fulminante no seu pai após contar que está grávida. Sua mãe a manda embora de casa, e é ai que ela encontra um cara estranho chamado Matthew, interpretado pelo grande Martin Donovan, se percebe que ele é um rapaz um tanto descontrolado, anda com uma granada no bolso, por exemplo, muito inteligente e observador, tem problemas com o pai, um ser humano sem carinho algum, que tenta fazer de todo custo o filho engrenar na vida. Como dá para perceber, os dois tem ausências muito grande de carinho, no mesmo tempo que precisam sentir a vida e, juntos, embarcam em diálogos que, bem ou mal, os levará a outro entendimento sobre quem eles são, o que desejam. Mas isso é teoria, no fim eles não tentam encontrar respostas para nada, nem para o sentimento que surge, eles se ajudam. Por quê? Porque alguém precisava os ajudar e, por acaso, eles se encontraram.

Tem tantos detalhes, já digo logo que é impossível interpretar todos nesse singelo texto, começo, então, observando que Matthew tem, literalmente, bomba nos bolsos. Problemas. E é isso que veremos em todo o filme, problemas/bombas, em dado momento Maria, já está nas ruas, encontra uma senhora sentada com o olhar vazio, começa a contar sobre a sua vida e, no mesmo momento, a senhora começa a falar da sua. Fica nessa confusão de histórias, ao mesmo tempo, como se nenhuma das duas quisesse, realmente, prestar atenção em outra coisa senão seu próprio sofrimento. Personagens bombas, encontram-se em momentos de turbulência para, enfim, enfrentar juntos. Mas de maneira alguma acabar, pois o estar junto não significa mais força, apenas companhia. Posso estar sendo meio pessimista, mas o filme me mostrou que não precisamos de sentimentos profundos para planejar algo com alguém, basta ter respeito e admiração com uma pitada de desespero, o diretor é tão visceral nas suas palavras, que em poucas ele representa os casamentos que temos hoje. As pessoas estão se casando por nenhum motivo profundo, apenas união, estão usando a família para acreditar que estão em rumo ao final feliz, enquanto esperam ansiosos pelo começo do fim, mesmo que ainda não saibam. Espera ai, o que é mais loucura, dois jovens largarem suas famílias para viverem um momento bom, ou mulheres casadas por 20 anos, sofrendo por não amar e por estar perdendo suas vidas? Você pode assistir ao filme, não entender nada, classificar os protagonistas como insanos. Mas eu vejo que a única insana era a mãe. Ou melhor, o que o filme critica. A falta da atitude. Imaginem tudo isso, que nem consigo explicar direito, envolto de um sarcasmo, umas piadas maravilhosas que, em nenhum momento, se tornam comédia, por tamanha obscuridade.
Hal Hartley explora o ser humano, nossas escolhas, a própria Maria registra em um bloco de notas: “eu tenho vergonha de ser jovem“. Pois ela é, no começo do filme, muito inocente, vai aos poucos se tornando um pouco Matthew, tanto que assume o mandato e coloca a granada dentro de uma gaveta. Guardando os problemas, tanto do Matthew quanto dela mesma, do tipo que diz “esqueça isso tudo, pensaremos em ir caminhando ao próximo dia e só isso basta”.
“Família é como uma arma. Se apontar na direção errada pode matar alguém”
Esse filme tem uma das cenas mais lindas da história do cinema, um dos diálogos mais lindos que eu já vi, que se constrói em uma busca por definições, mas ao contrário. Primeiro há uma definição, para depois ignorar o significado. O quão fácil é dizer “eu te amo”, o quanto é complicado explicar o porquê. Maria vai fazer o aborto, em uma cena muito cômica percebemos que Matthew está bem mais nervoso que ela. Há um desentendimento, não dá certo. Os dois saem e encostam em um muro. Minutos antes ele a pediu em casamento. Ela então, ainda encostada na parede, pergunta se era verdade aquela pergunta:
– falava sério sobre casar comigo?
– Sim.
– Por quê?
– Por que eu quero.
– Não porque me ama ou algo parecido né?
– Eu te admiro e respeito.
– Isso não é amor?
– Não.
– É respeito e admiração. Acho que é melhor do que amor.
– Como?
– Quando as pessoas amam, elas fazem loucuras… ter ciúme, mentir, trair, matam a si mesmos e matam uns aos outros.
– Você vai ser pai de uma criança que não é sua.
– Crianças são crianças.
 
Depois desse diálogo, temos um sobre confiança. Que coisa linda. É válido ressaltar, que essas palavras saem da boca de um rapaz com problemas com o pai, mais para frente, quando o seu pai vai procurá-lo para voltar pra casa, ele pede que o pai admita que sente sua falta, isso acontece nessa cena citada acima. A menina pede que ele admita que respeito e admiração é amor, mas o mesmo se recusa, durante todo o filme ele propaga não amar ninguém, como assim um cara durão pode amar uma desconhecida? Não sei, mas ele a admira e respeita. Outra coisa, um filho maltratado, sem carinho do pai, sem a mãe, morta quando ele nasceu, afirma que “crianças são crianças” uma frase que pode soar fria, mas é a interpretação de um sentimento de bondade e afeto tamanho, ao ponto de estar pronto para assumir um filho que não é seu, mesmo que não tenha cem por cento de certeza que é realmente capaz.
Fica claro que a menina muda drasticamente durante o filme. Assim como a importância do fator trabalho. Matthew não consegue ficar em nenhum, pois o comum é pouco para ele. Receber ordens, repetição, nada faz muito sentido, ele é um perdido. Uma pessoa com muito para dar ao mundo, que ainda não percebeu e tenta desesperadamente se encontrar. Ou pode ser simplesmente um vagabundo desajeitado, irá depender do seu ponto de vista.
– Eu gosto do jeito que ele é
– Como ele é?
– Perigoso. Mas sincero.
– Sincero e perigoso?
– Não. Perigoso porque é sincero
 
Nessa história de absurdos reais, só a verdade. Talvez uma das relações mais verdadeiras da história do cinema. Não se sabe um motivo, nem existe um objetivo. Só uma atração inexplicável. Em nenhum momento ele tenta conquistar a garota com mentiras, pelo contrário, ele é ele. Esquisito, meio existencialista, um tanto perigoso, mas tudo isso só porque ele é sincero. Poderia se apresentar como um cara perfeito e ela ir, aos poucos, descobrindo a verdade. Mas não, de tudo o melhor: Tudo parte da sinceridade dele. Então, sendo assim, ele pode ser o que for mas é confiável. E ela, simplesmente, confia.
Obs: Texto originalmente publicado em 19 de fevereiro de 2015

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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O suicídio de deus e o nascimento da angústia

Begotten, 1990

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Um trabalho visivelmente experimental. É essa a descrição óbvia de “Begotten” – uma obra que transcende o aceitável e caminha corajosamente pelo incerto, pelo errôneo. Há uma necessidade de se estabelecer paralelos, a arte tem como proposta principal a dúvida, esse questionamento parte de uma ânsia e de uma série de experiências daquele que sente determinada obra.

Encontrar respostas é morrer; morrer é lembrar-se da verdade; e a verdade é que não há nenhum deus. Aqui explico:

“Begotten”, com sua fotografia assustadoramente andarilha entre preto e branco, começa apresentando uma cabana. Deus está sentado em uma cadeira, no canto de uma sala. Sua figura é grotesca, agredida, violada, deforme e bizarra. Seria deus um demônio? Seriam, os dois, um só?

Deus ou o monstro, pega uma navalha e se fura, começa a sangrar e morrer. A mãe natureza brota da terra, transvestida de mulher e começa a masturbar o cadáver celestial. Do seu gozo ( sua semente ) nasce o homem que, encontrando-se sozinho e desesperado, teima em ser a morte.

O filme é uma agressão.

O filme é uma maldição.

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O filme só pode falar sobre o fim do mundo – pensei – quando deus se decepciona com as escolhas da sua criação e se suicida. Abandonando-nos. Ledo engano, Begotten é o registro, subversivo, da gênesis.

Então a verdade da obra é que deus criou os seres humanos a sua imagem, porém a melancolia o invadiu. O homem é um erro, um amontoado de merda. O criador se mata, castigando-se e, por consequência, o espectador parte para uma viagem onírica por um mundo tomado pela angústia.

E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas.

A terra sem forma é o cinema. O cinema extremo têm como objetivo o choque que, por sua vez, causa uma catarse. O diretor E. Elias Merhige dedicou muitos anos da sua vida trabalhando na pós-produção, re-fotografando e filtrando fotograma por fotograma.

A sensação de estranheza começa com a fotografia, afinal, é a primeira coisa que percebemos. Passa pela trilha que, por diversas vezes, se baseia em um sussurro, distorções, culminando em dois momentos onde parece que um homem se engasga; a sensação provocada pelo som é estarrecedora.

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Se não bastasse, somos provocados constantemente. O cérebro cria definições com as imagens borradas, as mortes são evidentes, porém, na sua sugestão. O espectador se confunde, nada fica muito explícito. É uma viagem ao inferno.

A primeira camada é, sem dúvida, o experimentalismo. Existe uma intenção real de captar a reação das pessoas ao assistir. Mas a mensagem – segunda camada – também é muito interessante. Repleto de referências religiosas, desde o cristianismo, passando por religiões pagãs, somos transportados para um desastre, onde a maior tortura é estar diante ao sofrimento, como se o causador de todos os males fosse mostrado em um espelho. Após assistir, nos sentimos sujos.

Essa é uma viagem que pode, facilmente, cair no desdém. É comum confundir a arte com uma loucura desnecessária. Confundir a mensagem com vazio “pseudo-intelectual”. Mas, como amante do cinema, tento compreender as camadas, aceitar a mensagem e evoluir. Ninguém é obrigado a assistir Begotten, no entanto ao enfrentar a experiência, é preciso atenção e dedicação. Afinal, se trata de uma obra complexa e que, por conta da repetição, se torna cansativa.

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CdA #59 – Desconstruindo o gênero romance

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No episódio #59 do podcast [Cronologia do Acaso] Emerson Teixeira convidou Tiago Messias e Tiago Lira para conversar sobre o gênero romance e, principalmente, citar alguns filmes que trabalham com o tema “amor” de forma interessante.
Como bônus ainda temos uma rápida participação do André Albertim, indicando três filmes via Whattsapp.

Obs: Por conta de um erro de captação, em alguns momentos o áudio trava, mas nada que compromete o conteúdo do episódio.

Site do Tiago Messias: https://altverso.wordpress.com/

Site do Tiago Lira: http://umtigrenocinema.com/

Alguns filmes citados durante o podcast:

  •  Edward Mãos de Tesoura, 1990
  • Antes do Amanhecer, 1995
  • Antes do Pôr-do-Sol, 2004
  • Antes da Meia-noite, 2013
  • Brokeback Mountain, 2005
  • As Amizades Particulares, 1964
  • Sim ou Não, 2010
  • Chasing Amy, 1997
  • Bridegroom, 2013
  • Apenas uma Vez, 2006
  • Mundo Cão, 2014
  • O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, 2001
  • Jules e Jim, 1962
  • Sonhando Acordado, 2007
  • 500 dias com ela, 2009
  • Ruby Sparks, 2012
  • Amour, 2012
  • Farrapo Humano, 1945
  • Encontros e Desencontros, 2003
  • Wall-E, 2008
  • Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças, 2004
  • Garota Ideal, 2007
  • Juno, 2007
  • Meia Noite em Paris, 2011
  • Bonequinha de Luxo, 1961
  • Se o Meu Apartamento Falasse, 1960
  • Espuma dos Dias, 2013
  • Ensina-me a Viver, 1971
  • Copenhagen, 2014
  • Helpless, 2012
  • Manhattan, 1979
  • Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, 1979
  • I’m a Cyborg, But That’s Ok, 2006
  • O Profissional
  • Bonnie and Clyde, 1967
  • Sabrina, 1995
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