CdA #65 – Os Inocentes – Por entre a proteção e o desejo

Os Inocentes

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Em mais um episódio [Moscas]Emerson Teixeira e Tiago Messias analisam o filme clássico “Os Inocentes”. Criam significados e interpretam as diversas mensagens ocultas dessa obra imortalizada como uma das melhores obras do terror, perfeito exemplo da mudança que acontecia no gênero em plena década de 60!

Edição feita pelo Tiago Messias

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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#01 – [ Três Quadros ] – Os Inocentes ( 1961 )

menina na carruagem

Hoje estréia aqui no [Cronologia do Acaso] uma nova coluna, que será chamada de [Três Quadros]. Basicamente eu vou pegar um filme e escolher três cenas/fotografias e explicar o porquê elas chamaram a minha atenção e o motivo da relevância para a história do filme.

O primeiro filme que selecionei é o clássico de 1961, “Os Inocentes”. Dirigido pelo Jack Clayton e adaptado do livro “The Turn of the Screw”. Eu já escrevi sobre esse filme, você pode ler clicando aqui, é interessante a leitura pois contextualizará melhor as fotografias.

Escolhi “Os Inocentes” pois, ao meu ver, se trata de uma das melhores fotografias na história do cinema. Ela consegue transmitir com perfeição todos os dramas das crianças e a tensão da protagonista, no caso a governanta.

A direção de fotografia do filme foi assinado pelo Freddie Francis, conhecido também por trabalhar ao lado de David Lynch em filmes como “O Homem Elefante”, “Duna” e “História Real”.

Vamos então as escolhas:

1)

divisão entre protagonista e empregada novamente

Essa foto foi escolhida para representar diversas outras ao longo do filme que destacam a separação entre a governanta e a empregada. As duas representam posturas diferentes e dialogam com a mansão de forma distinta. As grades no centro e do lado direito transmite a ideia de que a protagonista é prisioneira da mansão e dos seus desejos.

Por outro lado, a empregada está posicionada de forma bem sugestiva, sua cabeça está em encontro com um quadro que, suponho, seja da família. Algo que sentimos sobre a personagem: sua imparcialidade por conta do compromisso em cuidar da casa e das crianças.

divisão entre protagonista e empregada novamente - Explicação

2)

Tres elementos principais - crianças, cuidadora e empregada

Além da representação do oposto por parte da governanta e empregada através de grades ou objetos em cena que as separara, por algum motivo, as crianças também assumem uma importância e representatividade. A fotografia acima acontece logo após a segunda aparição de um fantasma e estabelece a ordem e características desses três elementos.

As crianças estão em primeiro plano, de costas, olhando o “embate” ou a contradição. A governanta está no meio e, pelo fato de suas vestes serem escuras, ela acaba se misturando com as sombras – vai perdendo a sua identidade e assumindo outra função -, no mesmo tempo que a empregada, lá em baixo, está envolta de muita luz, como se representasse o equilíbrio da casa. Equilíbrio esse que também guarda segredos, repare na sombra atrás dela.

Tres elementos principais - crianças, cuidadora e empregada - explicação

3)

Reflexo da empregada no rosto da protagonista-vert

Sim, são duas imagens mas a primeira imagem é a qual escolhi. No entanto é curioso a segunda, que é a sua sequência. Esse momento é quando a governanta sente, do lado de fora da janela, a presença de um homem, esse homem inclusive já está morto. Ela sai da casa e olha pela janela, para dentro, da mesma forma que a aparição fantasmagórica fez. Se não bastasse a ironia, ainda vemos o reflexo da empregada se aproximando, como se existisse uma rápida simbiose entre as duas.

Logo depois elas se separam e, novamente, temos a impressão de que ambas estão distantes por causa das grades da porta.

Reflexo da empregada no rosto da protagonista-vert 2

Essas foram as três fotografias escolhidas. Esse filme é muito interessante sob a perspectiva fotográfica pois, sem dúvida, a fotografia só existe para complementar, não para clamar por atenção, são sutis e muito bem aceita pelo diretor que, com toda a sua capacidade, cria uma obra perfeitamente sincronizada.

Se vocês tiverem sugestões de filmes, por favor, deixe nos comentários, será uma honra analisar e aprender com vocês!

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Os Inocentes – A obra-prima máxima do terror

Os Inocentes

Encontrar críticas ou artigos relacionados com o universo dos filmes de terror é muito fácil aqui no Cronologia do Acaso. Já expliquei centenas de vezes o porquê tenho um fascínio por esse gênero, então no começo desse artigo, deixo a recomendação de outros textos. Segue os links:

Possessão demoníaca: http://cronologiadoacaso.com.br/2016/02/04/possessao-demoniaca-no-cinema/

Madre Joana dos Anjos: http://cronologiadoacaso.com.br/2015/11/02/madre-joana-dos-anjos-1961/

Atividade Paranormal – Quando uma boa ideia se transforma em fracasso: http://cronologiadoacaso.com.br/2016/07/19/atividade-paranormal-quando-uma-boa-ideia-se-transforma-em-fracasso/

Com esses três textos, vocês poderão entender um pouco sobre a minha perspectiva sobre o cinema de terror e, sem dúvida, será interessante para compreender esse artigo sobre “Os Inocentes”, principalmente no que diz ao subtítulo escolhido: “A obra prima máxima do terror”.

É claro que o gênero terror teve uma base muito sólida, tendo sido modificado por inúmeros artistas que, direta ou indiretamente, deixaram muito de si na linguagem desse gênero que se utiliza do terror para analisar lados obscuros e desconhecidos do ser humano. Mas podemos resumir isso com um filme chamado “Os Inocentes”, de 1961, dirigido brilhantemente por Jack Clayton e estrelado pela Deborah Kerr – a ruiva mais linda da história do cinema.

Os Inocentes

O filme conta a história da senhora Giddens ( Deborah Kerr ) que é contratada para cuidar de duas crianças chamadas Flora ( Pamela Franklin ) e Miles ( Martin Stephens ), eles são órfãos e vivem em uma casa gigantesca, sustentados pelo tio e criados por funcionários. Não existe afeto por parte das crianças, no que diz respeito à família, elas vivem com muito luxo mas são abandonadas. A nova governanta passa então a construir um carinho e senso de proteção muito grande, no mesmo tempo que percebe que a mansão guarda segredos envolvendo a paranormalidade.

O filme é um clássico intocável, infelizmente não tão conhecido como merecia, mas além de apresentar alguns conceitos até então inéditos, o diretor e os demais envolvidos sabem como unir todos os artifícios técnicos em função da história. Esse artigo tem como finalidade destacar alguns desses artifícios.

Reflexo da Flora, antes do seu primeiro encontro com a governanta

Reflexo da Flora, antes do seu primeiro encontro com a governanta

O filme começa antes mesmo dos créditos aparecerem. Em uma tela preta, ouvimos uma canção maravilhosa e tétrica chamada “O Willow Waly“, sua letra traz frases como: “Nos deitamos, meu amor e eu[…]”, “[…] Mas agora deito apenas eu […]”, “[…] E choro ao lado da árvore […]”. Essa música será importante durante todo o filme e é engraçado a sua aparição acontecer antes de qualquer outra coisa, inclusive os projecionistas, nas salas de cinema, acharam que era um erro e cortaram, para que o filme começasse com a logo da 20th Century Fox.

As primeiras cenas são para apresentar a protagonista, no começo ela reluta contra a ideia de se tornar governanta e, cabe ao espectador imaginar que é porque se trata de uma profissão que exige uma enorme responsabilidade, é dito que ela não tem experiência o que acaba, também, ressaltando o quanto o tio das crianças não está muito preocupado com o bem estar delas, mas sim em preencher o vazio deixado na mansão após a governanta anterior morrer.

Aceito o trabalho, a senhora Giddens parte para a mansão e a primeira coisa estranha que acontece é que ela ouve uma mulher chamando a Flora, mas é perceptível que a voz emite uma harmonia, como se fosse parte de uma canção.

O primeiro contato visual que a protagonista tem com uma das crianças é com Flora, percebe-se que a imagem da menina aparece, primeiramente, através de um reflexo no riacho, isso é algo que, inclusive, será trabalhado durante toda a obra, assim como as luzes e sombras.

Flora aparecer primeiramente como um reflexo significa que a governanta começa a se confundir entre a realidade e mentira, de um lado está aquilo que ela molda e do outro a realidade sombria – em muitos momentos as crianças parecem ter mais consciência do quanto são abandonadas do que ela.

Os-Inocentes-1961-3

O filme, nesse início, se divide em dois: exterior da mansão e dentro. Isso porque a diferença é gritante, fotograficamente o filme assume uma outra postura, como se estivesse adentrando uma outra dimensão. Se nos minutos iniciais fica evidente uma singela organização dos movimentos das personagens, dentro da mansão ela chega ao limite.

Na mansão só estão os empregados – porém a única que conhecemos é a senhora Grose ( Megs Jenkins ) – Flora e a recém-chegada governanta. O garoto, Miles, está na escola. O momento em que a nova governanta põe os pés na casa é para se acostumar com o seu ritmo, lembrando que por vezes parece pertencer à um universo diferente, e o diretor deixa claro isso impondo um outro tipo de movimento de câmera e transição dos atores. Remetendo-nos diretamente ao teatro, é impressionante a sincronia estabelecida para as posições e a troca de posições das personagens; além do mais, durante todas as cenas internas os objetos são extremamente relevantes, compõem a história e trazem uma beleza estética incrível.

Seria impossível falar sobre esse filme e não citar a sua perfeita mise-en-scène . É tão bem pensado, que só nos cabe imaginar que cada cena demorou muito tempo para ser planejada. É quando o terror começa a ganhar uma outra forma, além de abraçar a sugestividade, clima obscuro, trilha tensa, ainda existe a expressão fotográfica, figurinos e, claro, atuação, todos esses elementos dialogando entre si e construindo algo extremamente grandioso.

Algo que pode ser visto em alguns momentos cruciais é a transição de cenas que teima dar indícios da próxima, além do mais, a sutilidade e transparência cria diversos significados. Observa as imagens abaixo:

Aparicão do Miles no meio das duas - parte 1 Aparicão do Miles no meio das duas - parte 2

Como escrevi acima, o início do filme se divide entre exterior e dentro da mansão – como se estivéssemos, juntos com a protagonista, invadindo um segredo – mas, com o passar dos minutos, ainda no primeiro ato, existe uma série de camadas surgindo de forma completamente orquestrada, uma delas são os personagens. Podemos dividir os quatro principais e, veremos, que cada um representa um aspecto da vida nessa casa:

Governanta: É aquela moça que chegou com receio, mas aos poucos se rendeu ao papel de “mãe” e “protetora” das crianças. No mesmo tempo que desconhece a mansão.

Empregada Grose: Ela representa o “olho que tudo vê”, ou a clássica “sábia”. Percebam que durante quase todo o tempo ela é extremamente imparcial e não se conecta emocionalmente com o abandono das crianças, apenas cumpre uma função.

Flora e Miles: Eles são os abandonados e, por isso, utilizam-se disso como pretexto para se isolarem do mundo e guardar segredos. É como se o “universo da mansão” fosse a razão de suas existências.

Na imagem acima, a primeira, a governanta recebeu um comunicado da escola de Miles sobre o seu mal comportamento e começa a questionar a postura do menino. Ela é o oposto da empregada que, por sua vez, o inocenta e parece querer ocultar tudo da moça. A primeira fotografia traz uma estátua separando-as – o que acontecerá constantemente – e, mais do que isso, imediatamente depois dessa pequena discussão, tem uma transição onde temos o pequeno Miles chegando de trem. Ele está no meio de ambas, como se elas representassem algo como peças de xadrez nesse universo, simplificando-as à simples figurantes nesse conto de fadas.

Tres elementos principais - crianças, cuidadora e empregada

Essa cena representa a divisão dos personagens. As crianças estão no nível de cima, governanta no meio e a empregada abaixo deles.

A mansão é grande e espaçosa, no mesmo tempo que os já citados objetos parecem diminuir a protagonista a todo instante, como se ela guardasse sentimentos proibidos, o próprio carinho e senso de proteção desenfreado poderia ser considerado proibido, visto que se trata de um trabalho, mas que, infelizmente, ela nunca terá o poder de mudar as condições das crianças.

Por mais que a senhora Giddens tente, a mansão a separa dos demais que aceitam as suas condições. Em um momento, no final, ela mesma confessa que o seu pai a ensinou a ajudar as pessoas. Podemos concluir, então, que a senhora Giddens representa o exterior da casa e as crianças e empregada o interior. É impressionante quando ligamos essa metáfora à uma cena em que as crianças perguntam para a sua governanta se a sua casa era pequena, Miles então fala algo como “pequena demais para guardar segredos“.

Aparição do fantasma na janela

Até então escrevi bastante sobre as metáforas e pouco sobre o terror. Isso porque de forma bem provocante e intensa, é possível afirmar que o terror mora no significado oculto dessa obra. Existem aparições, a primeira é sensacional, inclusive,  a governanta vê uma silhueta em cima do telhado e, na segunda aparição, já podemos notar que esse mesmo homem aparece no quintal da mansão, em frente a uma estátua – aliás, lembrem-se que a primeira vez que Miles aparece ele também está posicionado no quadro exatamente onde está uma estátua.

Além do mais, existe medo escondido em todos os momentos. Desde as cenas iniciais é citado a sensação de medo por parte da protagonista, talvez oriunda da própria insegurança. Destaque para a atuação da maravilhosa da Deborah Kerr que já disse inúmeras vezes se tratar da melhor atuação da sua vida, e é realmente complicado discordar, mesmo que ela tenha uma carreira tão sólida.

A sua expressão delicada vai dando lugar à uma instabilidade, o olhar começa a ficar explosivo e a performance passa a se misturar com as sombras. As sombras foram tão importantes que o fotógrafo Freddie Francis usou grandes refletores e geradores de luz para criar os efeitos.

Não poderia deixar de citar o Martin Stephens – excelente ator mirim que, infelizmente, deixou a carreira de lado após sucessos como “A Aldeia dos Amaldiçoados” e o próprio “Os Inocentes” – e a atriz japonesa Pamela Franklin. As crianças chamam muito a atenção, irritam, alegram e intimidam na mesma proporção, algo extremamente complexo e raro de se ver.

Fotografia entre grades

O filme evolui de forma impecável e atinge outros significados no final. Em uma cena absolutamente agressiva e polêmica, o espectador sente que a governanta é que fora corrompida durante todo o tempo. Há muitos espaços para dúvidas e seria até possível imaginar um amor platônico por parte da moça pelo garoto Miles, mas tudo é tratado com sutileza e se encaixa na perfeita simetria visual.

A imagem acima coloca a personagem no centro, do lado de colunas e isso acontece em diversos momentos, além de ser sufocada pelos objetos ela também é prisioneira dos seus próprios desejos. Percebemos ainda uma mudança de figurino drástica, observa as imagens:

Roupa da personagem no meio

Ela começa a se vestir com cores claras quando se habitua à mansão e as crianças logo nas cenas iniciais.

Roupa da personagem final - parte 1

Depois começa a mesclar cores mais escuras, com pequenos detalhes mais claros. Simultaneamente ela desconfia que as crianças estão vendo os mesmos “fantasmas” que ela – incluindo uma mulher de preto.

Roupa da personagem final - parte 2

E no final do filme ela sempre está vestida de preto e se torna aquilo que outrora temia.

A ironia mora no fato de quê, nesse filme, o medo da protagonista se esvai e ela se transforma nele. A mulher de preto que fica observando a Flora na beira do rio, é uma das aparições mais perturbadoras do longa, no mesmo tempo que a própria protagonista se “a mulher de preto”, aos poucos. Essa transformação acontece de forma simbólica, através do seu figurino, não espere uma explicação literal porque em “Os Inocentes” não existe o óbvio.

Justificando então o subtítulo “A obra prima máxima do terror”: “Os Inocentes” pertence à um grupo seleto de filmes que contribuíram muito para o terror e o seu desenvolvimento. Pergunte para qualquer realizador do gênero quais os seus filmes favoritos, certamente esse sempre será lembrado, tamanho é a sua importância para o cinema em geral. Maduro ao extremo e fiel a sua proposta até o ultimo segundo, é a reunião de diversos elementos brilhantes sendo transmitidos através da sincronia de movimentos perfeita, direção magnífica e fotografia intocável.

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CdA #59 – Desconstruindo o gênero romance

romance

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No episódio #59 do podcast [Cronologia do Acaso] Emerson Teixeira convidou Tiago Messias e Tiago Lira para conversar sobre o gênero romance e, principalmente, citar alguns filmes que trabalham com o tema “amor” de forma interessante.
Como bônus ainda temos uma rápida participação do André Albertim, indicando três filmes via Whattsapp.

Obs: Por conta de um erro de captação, em alguns momentos o áudio trava, mas nada que compromete o conteúdo do episódio.

Site do Tiago Messias: https://altverso.wordpress.com/

Site do Tiago Lira: http://umtigrenocinema.com/

Alguns filmes citados durante o podcast:

  •  Edward Mãos de Tesoura, 1990
  • Antes do Amanhecer, 1995
  • Antes do Pôr-do-Sol, 2004
  • Antes da Meia-noite, 2013
  • Brokeback Mountain, 2005
  • As Amizades Particulares, 1964
  • Sim ou Não, 2010
  • Chasing Amy, 1997
  • Bridegroom, 2013
  • Apenas uma Vez, 2006
  • Mundo Cão, 2014
  • O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, 2001
  • Jules e Jim, 1962
  • Sonhando Acordado, 2007
  • 500 dias com ela, 2009
  • Ruby Sparks, 2012
  • Amour, 2012
  • Farrapo Humano, 1945
  • Encontros e Desencontros, 2003
  • Wall-E, 2008
  • Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças, 2004
  • Garota Ideal, 2007
  • Juno, 2007
  • Meia Noite em Paris, 2011
  • Bonequinha de Luxo, 1961
  • Se o Meu Apartamento Falasse, 1960
  • Espuma dos Dias, 2013
  • Ensina-me a Viver, 1971
  • Copenhagen, 2014
  • Helpless, 2012
  • Manhattan, 1979
  • Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, 1979
  • I’m a Cyborg, But That’s Ok, 2006
  • O Profissional
  • Bonnie and Clyde, 1967
  • Sabrina, 1995
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Madre Joana dos Anjos, 1961

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★★★★★

Quem conhece o filme “The Devils” de 1971, dirigido pelo ousado Ken Russell, já está familiarizado com a história das freiras que foram possuídas por demônios em pleno século XVII, despertando o interesse de pesquisadores anos depois, quando começaram a utilizar esse caso como forma de ilustrar os males da inquisição e como a religião oprimiu toda uma geração de pessoas.

“The Devils” é baseado no livro de não ficção “Os Demônios de Loudun”, filosófico/histórico, o autor se propõe em relatar alguns eventos desse período, que aconteceram em Loudun, uma pequena cidade da França. O filme é, portanto, extremamente impactante enquanto reflexão sobre as atitudes um tanto quanto manipuladoras da igreja, por outro lado, a possessão é abordado de forma completamente diferente do que conhecemos hoje. As freiras nuas, blasfemando contra imagens sagradas, a insanidade demonstrada é aterrorizante e serviu, sem sombra de dúvidas, como inspiração para, dois anos depois, ser realizado o grande clássico “O Exorcista”. A partir de então surgiu o sub-gênero “exorcismo“, que é trabalhado até a exaustão atualmente.

O que poucos sabem é que, na verdade, dez anos antes do “The Devils” existiu um outro filme ambientado, igualmente, no século XVII e que, consecutivamente, também utiliza o caso real como base para refletir sobre a maldade: Madre Joana dos Anjos, de 1961.

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Esse é tido como o primeiro filme, na história do cinema, a retratar uma possessão demoníaca. Aliás, uma não, várias, afinal, algumas freiras em um convento são possuídas por inúmeros demônios diferentes.

Acompanhamos um padre que chega na pequena cidade para auxiliar nas séries de exorcismos que estão acontecendo no convento. A cidade é mostrada de forma que se extraia o maior isolamento possível, envolto de uma fotografia preto e branco, tudo é extremamente bem encaixado, cada plano, cada detalhe constrói a mesma ideia geral: o demônio está presente.

Vale ressaltar, antes de mais nada, que o demônio é tratado, muito além do que a própria igreja acredita, como uma energia. É incrível constatar que o primeiro filme que aborda a possessão demoníaca na história do cinema use esse elemento como pano de fundo para uma discussão filosófica sobre o que seria, de fato, a maldade. A narrativa é muito próxima aos filmes do Bergman, a mesma angústia se encontra aqui.

O trabalho do diretor Jerzy Kawalerowicz é sublime, fazendo um dos melhores filmes poloneses de todos os tempos, não à toa ganhou o prêmio do juri no festival de Cannes de 1961, mas é importante lembrar que essa ideia não seria tão bem desenvolvida se os atores não estivessem em perfeita sincronia com a inteligência em compor as cenas. Destaque para a atriz Lucyna Winnicka que faz a madre Joana. Uma perfeição de atuação, entregue e ousada. Ela demonstra uma possessão demoníaca apenas com as expressões e físico, não há maquiagem, e é tão ameaçador como em qualquer filme de terror.

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O filme começa com o padre que chega na cidade e percorreremos, à partir de então, um caminho perverso, profundo e filosófico. Um pequeno bar, no qual o protagonista se prepará até seguir rumo ao convento, já deixa claro o que acontecerá em seguida: existe medo no olhar dos moradores. Não necessariamente há uma explicação para tamanha comunhão de desespero. Mas todos estão visivelmente incomodados, pensativos, como se estivessem tentando descobrir o que é o demônio e por qual motivo ele está ali.

No mesmo tempo que constantemente, nos excelentes diálogos, o espectador é direcionado para o entendimento do demônio como algo identificável, algo que mora em todos nós. Algo que mora na própria religião. Afinal, fica claro uma singela – na narrativa, pois o impacto é monstruoso – crítica a opressão sobre as mulheres, de todas formas, inclusive, sexual.

Um momento que reforça o questionamento sobre o demônio, é quando é dito que ele é o pai da mentira, traz ou lida com perfeição com a falsidade. Uma personagem rapidamente se indaga: O que é falsidade? O que é verdade?

Dado o contexto, é perfeitamente claro que o demônio não é propagado como algo abominável. Se ele é pai da maldade, não importa, o que importa é, antes, entender o que é, de fato, a falsidade. Só é possível afirmar quando se entende, por isso o filme representa em seus diversos devaneios uma cumplicidade com o conhecimento, ainda mais, o desprendimento da própria ignorância que mora na fé.

O padre caminhando até o convento, metaforicamente, demonstra um homem tentando encontrar o seu sepulcro. Reparem que em um momento, em uma conversa com um sujeito, podemos ver ao fundo duas crianças brincando com um adulto, algo como um gorila, um animal irracional, que, por vezes, beira a total racionalidade. Poderia ser mais um simples elemento, mas não é. Assim como em diversas cenas o diretor faz questão de reforçar a sua principal intenção, desmistificando as sensações até, de fato, sermos apresentado ao palco do horror: convento.

Quando o padre entra no convento, ultrapassando o portão que é aberto por uma freira, é um rito de passagem. Inacreditável, novamente, a consciência técnica do diretor ao apresentar esse processo com uma câmera subjetiva: Se a pequena cidade está repleta de olhos amedrontados pelo desconhecido; Se acompanhamos o padre… nessa exata cena temos a oportunidade de ser o padre. Ser o visitante, ser a busca por respostas, ser o primeiro a adentrar naquela prisão de valores.

As freiras são prisioneiras. Claro que não estou generalizando. Mas, lembrando, o filme se passa no século XVII, um momento onde a religião exercia um papel muito mais autoritário – quer dizer, abertamente. Pois o autoritarismo sempre existirá -, ou seja, essas mulheres estão acomodadas com as suas respectivas posições de prisioneiras, o que veremos a seguir é apenas mais uma manifestação de aprisionamento: onde o “demônio” aprisionará as freiras em seus próprios corpos. Mas, agora te pergunto leitor: a religião não faz exatamente a mesma coisa? Oprimindo a mulher, proibindo o sexo? Enfim, evidentemente eles estão seguindo a palavra e, como possíveis “mensageiros de Deus na terra” precisam fazer certos sacrifícios, mas, em uma condição unicamente mundana/humana, eles são vítimas de suas próprias escolhas, precisam usar vossas existências para um único objetivo, transformando o corpo em um veículo e, com isso, em comparação com os outros, se transformando em prisioneiro do próprio corpo/existência.

MadreJoana.Kawalerowicz.1961.CD1.avi_snapshot_44.08_[2015.11.02_14.20.02]

No primeiro encontro entre o padre e a Madre Joana, há um diálogo muito interessante:

– Estávamos esperando pela sua ajuda.
– Nossas preces conjuntas nos ajudarão.
– Por meses somos atormentadas por grandes misérias. Os padres que estão conosco, não tem poder sobre eles.
– Eu tentarei libertar você do seu demônio.
– Oito deles: Behemoth, Balaam, Isacaaron, Gresil, Aman, Asmodeus, Leviathan e Cauda do Cão.

Os nomes e todo o ritual de exorcismo, claro, partem da crença cristã. Influências bíblicas etc. O fato de uma pessoa acreditar em Deus, consiste automaticamente que ela acredite, também, no Diabo. É preciso haver esses opostos.

Então a leitura filosófica é movida por aqueles que conseguirem, durante o filme, ser imparciais quanto ao ritual. Não se trata de uma obra de terror, isso fica claro desde o início – apesar de que a ambientação e a construção técnica seja mais eficiente em causar a tensão do que muitas coisas de terror que temos atualmente no cinema – e o Diabo é a força do incalculável, bem como o ritual é o desprendimento.

No diálogo acima, a madre deixa claro que os padres que já estavam fazendo o ritual não exerciam poder sobre os demônios, ou seja, sobre as freiras. A religião fora abalada, antes de mais nada, e os demônios são o caos. Esse caos é disfarçado e ocultado com a própria crença. O padre ainda complementa, em uma sábia e oportuna resposta – para contextualizar o desenvolvimento filosófico – que “tentará libertar a madre do seu demônio”. Tentará enclausurar freira dentro da sua própria necessidade insana em sentir o novo.

O demônio atinge o ápice do seu significado ao percorrer a história do homem, e se estabelecer como o desejo inalcançável, diante as circunstâncias. É o viver, o transformar, o ser. O medo não é construído em base aquela figura mística com chifres, mas sim ao processo de mudança.

– O diabo está lá e aqui também. O mundo é assim.
– O que você sabe sobre o mundo?

O padre não é herói, muito menos sabe o que vai acontecer. Ele é cheio de falhas e também teme o antagonista, em seus ombros carrega uma cruz constantemente, se mostrando sempre atônito. A atuação do excelente Mieczyslaw Voit é magnífico, transmite com uma precisão intocável todos esses conflitos. Destaque para uma cena, extremamente significativa, onde ele está “conversando” com o Diabo, prevendo o embate que virá a seguir e, curiosamente, ele está em frente ao seu próprio reflexo no espelho. Como se o embate fosse contra ele próprio.

– E se o Diabo entrar em mim?
– Ele não se importa com gente como nós.

Se hoje em dia estão cada vez mais produzindo filmes sobre exorcismos e demônios, poderiam, ao menos, buscar referências nesses filmes que trazem consigo uma profundidade enorme.

“Madre Joana dos Anjos” é a prova que para criar o terror é preciso se ater aos detalhes. E, para discutir algo tão profundo que, em algum momento, envolve-se com a religião, é preciso ter coragem e seriedade. Desde a fotografia, direção, trilha, atuação, tudo está possuído pelo mal. A sensação é que o Diabo está possuindo o espectador ao assistir essa obra-prima. E isso é crucial, pois para acreditar que ele possa existir, é preciso senti-lo e, independente da crença de quem assiste, o filme nos prova que o mal é muito mais do que algo que possamos definir ou simplificar, sendo assim, o demônio ainda permanece uma incógnita e, enquanto existir o homem, ele será sempre algo a ser compreendido.

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