Tara Maldita, 1956

Tara Maldita (The Bad Seed, EUA, 1956) Direção: Mervyn LeRoy

“Tara Maldita” era uma história conhecida e aclamada do teatro quando migrou para o cinema. Isso é interessante, levando em conta que se trata de uma obra clássica de terror que, em nenhum momento deixa se levar por sustos ao invés de questionamentos e conflitos psicológicos. Certamente o sucesso prévio do roteiro no teatro gerou atenções, complicando ainda mais a vida do diretor e atores que, mesmo conhecendo a essência da obra, ainda se viam diante de um novo formato e público.

Felizmente a adaptação liderada pelo Mervyn LeRoy faz jus a grandiosidade filosófica da história que, por sua vez, traz uma garotinha de nove anos chamada Rhoda (Patty McCormack) que comete assassinatos, mente, elabora planos diabólicos, tudo isso sem levantar suspeitas, afinal, se trata de uma criança e, como tal, inocente aos olhos da sociedade. Em uma estrutura teatral, o conflito começa quando sua mãe Christine Penmark (Nancy Kelly) suspeita da própria filha, após a menina não demonstrar sentimento algum com o falecimento de um colega próximo da sua sala de aula.

O inimigo de todo o arco dramático é improvável, o conflito e questionamento sobre os limites da psicopatia, principalmente relacionado à idade, se tornam o triunfo de uma obra que é definitivamente muito maior do que “mais um filme de terror”. A força narrativa se encontra na naturalidade do desenvolvimento que, se baseando fortemente no desespero de sua protagonista – a mãe, cujas decisões são suspendidas diante a agonia provocada pela dicotomia entre o certo e a proteção materna – acontece de maneira despreocupada, como se o espectador fosse obrigado a, também, desacreditar que a angelical Rhoda tenha forças para agir de maneira tão monstruosa.

Ledo engano, o roteiro é inteligente em brincar com a relação entre a dúvida, moral e realidade quando os indícios se tornam claros, à medida que as ações da menina vão se tornando mais extremos. O texto é sustentado por uma direção maravilhosa, com ótimas decisões de enquadramentos – utilizações de espelhos são comuns e deveras importante – e atuações sensacionais. Destaque para a Eileen Heckart que aparece em cenas curtas como a mãe do falecido Claude, amigo da escola de Rhoda. A força da sua performance dá um brilhantismo para as consequências dos atos do pequeno anjo malvado, é quando as emoções das vítimas nos faz relembrar que por trás da imagem inocente existe um ser diabólico que, apesar do tamanho, tem o poder de causar sérios traumas nas vidas que estão ao redor. Eileen Heckart, inclusive, chegou a ser indicada ao Oscar.

A profundidade do tema é tão grande que essa clássica obra inspirou diversos filmes que, posteriormente, também se utilizariam de crianças como os vilões. Mas não é só pela novidade que é lembrado, mas também a boa utilização dos espaços da casa, isso é importante pois praticamente toda a história se desenvolve nela, com certeza alguns movimentos vêm das apresentações teatrais, visto que a mise en scène é sublime e existe uma sincronia que dá leveza e flexibilidade visual.

É sem dúvida um grande clássico do cinema e que, de brinde, nos apresentou a talentosa Patty McCormack, com um trabalho primoroso, pois sua personagem exige uma consciência madura escondida atrás de uma artificialidade infantil, o que na prática resulta em expressões e diálogos repletos de camadas. Simplesmente inesquecível.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Os senhores que se confundem com a sujeira das ruas

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On The BoweryOn The Bowery, Estados Unidos, 1956. ) Direção: Lionel Rogosin

★★★★★

Esse filme é, provavelmente, um dos mais avassaladores da década de 50. Muito à frente do seu tempo, lidou com um tema pesadíssimo de uma forma extremamente visceral, com a ajuda de uma fotografia inesquecível e direção impecável.

A influência que “On The Bowery” exerceu na história do cinema é gigantesca, a começar pelos próprios documentaristas da época que se apropriaram da mesma linguagem para construir os seus registros. John Cassavetes, um dos maiores nomes do circuito independente norte-americano, disse uma vez que Rogosin era “provavelmente o maior documentarista que existia”.

Outro influenciado pela obra é Paul Thomas Anderson, principalmente para a composição do filme “The Master“. O diretor pediu para Joaquin Phoenix assistir esse documentário e o ator, por sua vez, mencionou o filme como a essência do personagem Freddie Quell. Peguem a obscuridade abordada na obra de PTA, a bebida como forma de degradação humana e perca da razão, o ser sem lugar no mundo e, enfim, teremos a alma de respectivos filmes, tanto “On The Bowery” como “The Master” repercutem a mesma ideia, de formas diferentes e tão importantes quanto, a principal diferença é que o primeiro foi esquecido pelo tempo, sendo restaurado recentemente.

“On The Bowery” se passa em três dias, acompanha os senhores da rua Bowery. A ótica do diretor permanece sobre as suas vidas movida pela desesperança, frutos da crise, e moradores de lugar nenhum. Os personagens registrados deitam nas ruas, confundem-se com a sua sujeira e os únicos sentidos que encontram são a bebida e os bares, cercados de cigarros e sorrisos, no mesmo tempo que o álcool cria um elo com a felicidade, aprisiona-os na ilusão.

O documentário é uma mistura de ficção e realidade, mentira e verdade se relacionam da forma mais impactante que existe. A história inicia-se com a chegada de Ray Salyer na cidade, depois percorre à sua tristeza e existencialismo regrado a álcool e cigarro. A câmera estática é uma intrusa nas conversas, muitas delas referentes à possíveis empregos invisíveis, os senhores dialogam na esperança de esquecer que, à noite, terão que dormir no chão.

As cenas são maravilhosamente bem fotografadas por Dick Bagley, tanto que começamos o longa com imagens de senhores dormindo em papelões espalhados pelo chão, homens “presos” em valas, bêbados caminhando como se o mundo fosse um palco onde o maior espetáculo é a solidão. A fotografia pressiona o espectador, provoca sentimentos, o preto e branco transmite melancolia em cada segundo, há diversos momentos que os personagens são filmados entre grades, sugerindo o aprisionamento daqueles seres sem alma, sem dignidade.

A cena mais impactante é quando o protagonista(?) – Ray Salyer, em teoria, é o protagonista, mas a rua e as vidas o consome constantemente e o protagonismo se perde – entra em um abrigo para pegar comida e dormir, enquanto ouve as regras que dizem que na primeira noite, o cidadão deve dormir no chão. O prazo para ficar nesse local é de uma semana, no intuito de que nesse período os homens possam conseguir um emprego, mas é evidente que não existe emprego, não existe dinheiro, não existe existência. Os senhores, todos cordiais e unidos, se arrastam juntos à caminho do vício e da enganação.

Um velho afirma que não se pode vencer todo dia, essa é a síntese do documentário, vemos três dias de derrota. Alguns buscam conforto em deus, no mesmo tempo que, em off, ouvimos um homem dizendo em seu depoimento que perdeu a fé há 24 anos.

A mensagem final é para destruir, no mesmo tempo que cria a expectativa de fuga, há uma frase de um personagem que sugere “a volta”. Como um círculo, pessoas trabalhando os seus próprios conceitos de solidão, vítimas da sociedade, do poder e do vício. Uma hora de duração; uma hora de realidade em forma de arte.

Ray Salyer, o personagem principal, recebeu um convite para trabalhar em Hollywood após fazer o documentário. Mas ele recusou, continuou vivendo em Bowery, na sua maldição e benção. A fuga espera pela volta ansiosamente e o homem se embriaga para esquecer a sua própria fraqueza.

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Entrevista: José Eugenio Guimarães

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Há bastante tempo eu queria entrevistar criadores de conteúdo voltados para o cinema, existem muitos blogs excelentes, que, inclusive, são inspirações para o Cronologia do Acaso continuar por três anos falando sobre cinema alternativo.

Procurando por blogs, dentre tantos, encontrei um que me chamou a atenção “Eugenio em Filmes” ( http://cineugenio.blogspot.com.br/ ) cujo escritor se chama José Eugenio Guimarães. O conteúdo é voltado para o cinema clássico, com resenhas altamente aprofundadas e prazerosas de ler, do tipo que se aprende algo, o que, por sinal, está em falta hoje em dia.

Eu entrei em contato com o grande José Eugenio Guimarães, primeiramente, para desabafar o quanto estava encantado, depois para solicitar uma entrevista. Felizmente a resposta foi positiva e o resultado vocês conferem abaixo.

1 – Para os leitores do Cronologia do Acaso, por favor, se apresente. Quem é José Eugenio?

Um Engenheiro Agrônomo diversificado em Zootecnia. Também sou Cientista Social com maior concentração em Ciência Política e Sociologia. Tenho 59 anos. Sou capixaba, de Colatina. Morei a maior parte de minha vida em Viçosa/MG. Profissionalmente, atuo como professor, pesquisador e consultor.

2 – Como e quando começou o seu amor por cinema?

Em 1958 eu estava com dois anos. Minha mãe, cinéfila, queria ir ao cinema e não tinha com quem me deixar. Levou-me junto. O filme era “Marcelino Pão e Vinho” (“Marcelino pan y vino”, 1955), de Ladislao Vajda. Segundo ela, vi o filme com a maior atenção, o tempo todo sem tirar o olho da tela. O problema é que a partir daí comecei a fazer birra para voltar ao cinema. Então, posso dizer que tenho 57 anos de cinefilia. A coisa começou a ficar mais séria em 1964, quando estava com oito anos. Como meus pais eram cinéfilos e anotavam os filmes que viam, comecei a fazer o mesmo. Como foi na companhia deles que vi todos os filmes até então, foi fácil saber quantos filmes havia visto e completar a minha lista. Ate hoje a tenho. Até o momento, vi 6496 filmes. Tenho todos os títulos anotados com suas respectivas fichas. Desse montante, cerca de quatro mil estão comentados. Com esses comentários, escritos em épocas as mais diversas, alimento o blog.

3- Cite obras e/ou diretores que mudaram a sua vida

Obra alguma mudou a minha vida. Ajudaram, no máximo a ter uma compreensão melhor do mundo, como alguns livros também o fizeram. Meus diretores preferidos são John Ford, Howard Hawks, Jules Dassin, Anthony Mann, Stanley Kubrick, Orson Welles, King Vidor, Alfred Hitchcock, Woody Allen, Michael Powell, Billy Wilder, Ernst Lubitsch, Nelson Pereira dos Santos, Glauber Rocha, Humberto Mauro, François Truffaut, Luchino Visconti, Federico Fellini, Roberto Rossellini, Jacques Feder, Yasujiro Ozu, Kenji Mizoguchi, Akira Kurosawa, Sergio Leone, Sergei Eisenstein, Ingmar Bergman, Satyajit Ray e outros tantos.

Alguns filmes que me marcaram são:

Jejum de amor (His girl Friday, 1940), de Howard Hawks; A sombra de uma dúvida (Shadow of a doubt, 1943), de Alfred Hitchcock; O encouraçado Potemkin (Bronenosets Potemkin, 1925), de Sergei M. Eisenstein; Crepúsculo dos deuses (Sunset boulevard, 1950), de Billy Wilder; 8 1/2 (8 1/2, 1963), de Federico Fellini; Era uma vez no Oeste (C’era una volta il West, 1968), de Sergio Leone; O homem que matou o facínora (The man who shot Liberty Valance, 1962), de John Ford; Vidas secas (1963), de Nelson Pereira dos Santos; Pistoleiros do entardecer (Ride the high country, 1962), de Sam Peckinpah; Rastros de ódio (The searchers, 1956), de John Ford; Terra em transe (1967), de Glauber Rocha; Os incompreendidos (Les quatre cents coups, 1959), de François Truffaut; O leopardo (Il gattopardo, 1963), de Luchino Vistonti. Mas há mais, muito mais.

4 – Por que decidiu criar o blog?

Resolvi criar o blog para dar vazão pública às apreciações de filmes que escrevi ao longo da vida e continuo a escrever. Alguma coisa havia sido publicada em revistas acadêmicas. Mas a maior parte dos meus escritos permanece inédita.

5 – Você vai ao cinema? Qual as diferenças mais gritantes entre aqueles cinemas de bairros que tínhamos e os de hoje? Me parece que o cinema se tornou apenas mais uma loja dos Shoppings, você concorda?

Costumo ir ao cinema. Se bem que reduzi muito a minha frequência nos dias que correm. O cinema, atualmente, não é mais o templo ao qual fui habituado. Hoje são mais pardieiros elegantes de gente inquieta. Os tempos mudaram, não necessariamente para melhor. Mas continuo indo aos cinemas. Em Niterói, onde moro, sou vizinho de um excelente cinema: o Cine Arte UFF. No Rio há o Grupo Estação e seus derivados. Também há a Cinemateca do MAM e as mostras do CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil. Fui muito ao cinema, quase todos os dias, quando morei em BH, nos anos 80. Em Viçosa/MG, onde passei a minha infância e parte da juventude, tive acesso facilitado aos três cinemas da cidade, atualmente fechados, época em que via cerca de três filmes por semana.

6- Em relação aos filmes que andam saindo ( tanto para o grande público como no circuito alternativo ) qual sua opinião sobre? O melhor ficou no passado ou existe coisas boas ainda? Caso queira, cite filmes e diretores novos que considera bom.

Ainda sai muita coisa boa, que me convida ao cinema. Cinematografias estranhas e interessantes estão dando as caras e me atraem: Irã, Coreia, China.. O Japão continua sendo um foco de atração. Os italianos, parece, estão experimentando um renascimento. Mas sinto falta de uma certa efervescência marcada por debates acirrados. Sinto falta dos movimentos como Free Cinema Inglês, Nouvelle Vague, seja a francesa ou tcheca, da inquietação de um Glauber etc. Claro que esse tempo não voltará. Hoje, o que sinto falta é do debate que as obras produziam. Estamos meio que largados, atualmente, a uma infantilização excessiva do cinema, por causa do que se tornou o majoritário cinema americano. Veja bem: não reclamo de filmes infantis. Este tem que existir, sempre. Mas falo de uma onda crescente que vem considerando o público como entidade dotada de idade mental inferior. Há muito imbecilidade no cinema de hoje. Super heróis em excesso. Gosto de super heróis também. Mas fico injuriado com cada lançamento da Marvel, por exemplo, se transformando em evento que dura o ano todo e bloqueia quase todos os canais. Outro coisa que também estranho é o excesso de filmes dublados. Não gosto.

7- Qual sua opinião sobre a crítica de cinema?

A crítica está morta. Pelo menos a crítica que eu lia nos anos 60 e 70, nos jornais e revistas. O crítico tinha espaço para tecer seu comentário com profundidade. Dava prazer ler, mesmo que não se concordasse com o crítico. Eram textos fundamentados. Hoje é crítica é como jujuba. Algo que desce rápido mas sem o menor sabor. Sem esquecer que há muito crítico que não tem a menor noção sobre história do cinema e seus grandes momentos. A crítica de hoje não mais me motiva. A não ser algumas ilhas de excelência cada vez mais restritas a determinados blogs e sites perdidos na selva da Internet.

8- Para mim, o verdadeiro ( bom ) conteúdo de cinema, hoje, nós temos nos blogs. Existem diversos por ai que se sobressaem de forma incrível, como o seu, por exemplo, o que você acha disso? Tem indicações de blogs bacanas de cinema? O que é preciso para escrever bem sobre cinema?

Para escrever bem sobre cinema não basta gostar de cinema. Tem que ter um conhecimento diversificado sobre muita coisa. É preciso ter leitura. Afinal, o cinema dialoga com várias áreas do saber. Não é só o filme que interessa. Eu sou neófito em blogs. Ainda estou formando uma base de conhecimento sobre eles. Ainda estranho muito essa área e, para ser franco, nem sei muito bem o que estou fazendo. Mas vou insistindo. Sei que há muitos blogs bons. Temerário fazer uma listagem dos melhores. O meu é simples. Não tem firulas. É mais textual mesmo. Nem sabia como fazer quando comecei. Simplesmente pedi a uma amiga que o “desenhasse”, da forma a mais simples e didática possível, sem cores carregadas, pois desde cedo tomei a decisão de que o texto predominaria em relação aos demais aspectos.

9- Qual gênero de filme você prefere?

Afetivamente, por causa de minha idade e das sensações que trago da infância, tenho forte relação com o western. Quando era garoto, os filmes da hora eram os westerns. Não para menos tenho John Ford, Howard Hawks e Anthony Mann entre os mais cineastas preferidos.

10- Qual sua opinião sobre o download de filmes, pois, temos uma dificuldade imensa para assistir filmes alternativos nos grandes cinemas, cópias somente dubladas, enfim, o download não seria uma forma interessante de buscar essa cultura?

Francamente, não sei responder. Como sou analfabeto em computadores e web, pouco faço downloads. Quem cuida desse setor em minha casa é minha filha. Já pedi a ela para baixar algumas coisas que queria rever e não estava à disposição em DVD etc.

11- No Cronologia do Acaso, abordamos, quase que exclusivamente, o cinema alternativo, qual sua relação com esse cinema?

Sem o cinema alternativo não há renovação. É este tipo de cinema que permite a mudança. Aliás, são cinematografias chamadas de alternativas bem como filmes ditos alternativos que me atraem ao cinema, hoje.

12 – Além de cinema, gosta de livros, músicas etc? Cite exemplos, ainda mais, essas outras artes acrescentam a sua visão cinematográfica, de que modo?

Estou sempre lendo, de tudo. Minha profissão me obriga à continuada leitura. Não somente livros de ciências sociais. Minha maior frustração é saber que vou morrer sem dar conta de todos os livros que tenho. A música sempre fez parte de minha vida, dos mais diversos gêneros. A casa dos meus pais era musical. Ao gosto deles somou-se o meu.Foi por causa de minha afinidade com livros que tive a atenção voltada para a escrita e, principalmente, para a vontade de escrever.

13- O cinema tem o poder de mudar uma vida?

Ah! Não sei! Gostaria de saber. O certo é que amplia a nossa visão de mundo. Gosto de filmes que instalam a dúvida diante de uma realidade atolada na certeza e no senso comum. Mas nem sempre isso é possível.

14- Para finalizarmos, deixe uma frase ou uma mensagem para aqueles que gostam do seu trabalho na internet e, evidentemente, para aqueles que passarão a te conhecer melhor depois dessa entrevista.

A quem me lê – se é que alguém lê o que escrevo – só peço para não estranhar o cinema. Deve-se estar aberto à diversidade de possibilidades que o cinema permite. Foi algo que aprendi com o meu pai. Se num dia víamos um western, no outro estávamos vendo algo do Mizoguchi ou da Nouvelle Vague ou do Cinema Novo. No cinema não cabe a estreiteza da visão afunilada. Há que se olhar para todos os lados.

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Qivitoq, 1956

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★★★

Há diversos pontos interessantes para comentar sobre esse filme, como o fato de ter sido indicado ao Oscar de filme estrangeiro – o primeiro dinamarquês a conseguir tal feito – e selecionado para Cannes. É de se surpreender, na verdade, quando percebemos que “Qivitoq” funciona como uma espécie de cartão postal da ilha Groenlândia, a maior que existe. A sua paisagem, cercada por gelo, traz a ideia de isolamento do povo, uma cidade paralela, um mundo diferente, onde a personagem principal, junto com quem assiste, será convidada a conhecer.

Conta a história da Eva Nygaard, uma moça dinamarquesa que vai até Groenlândia afim de encontrar o seu noivo, um doutor que está prestando trabalhos na ilha. Mas ela é surpreendida pelo fato do mesmo ter uma outra mulher, inclusive é uma enfermeira. Eva fica desolada e é amparada por alguns moradores da Groenlândia. Esperando até que o próximo barco venha e, assim, voltar para a casa, Eva decide esperar em uma pequena vila de pescadores, muito simples e aconchegante, ela ficará hospedada na casa do solitário Jens, um homem que funciona como uma espécie de prefeito/trabalhador da vila, visto que ele dá ordens, ajuda os outros, enfim, é extremamente atarefado e importante.

Jens é uma pessoa que aprendeu a viver por outras pessoas, no mesmo tempo está acostumado a viver só, tendo companhia apenas da sua empregada, a qual ele sempre maltrata. Com a chegada da Eva, inicialmente, ele age de uma maneira rude, o que cria diversos desentendimentos, porém esse tratamento indelicado parece funcionar para a personagem, que acabou de perder o noivo e está inteiramente magoada, a visão realista e fria de Jens a ajuda a superar a tristeza. Os dois vão, aos poucos, abrandando os corações, se conectando. Eva tem que decidir se assume essa vida simples ou se volta para a antiga vida.

A solução para desenvolver esses pequenos conflitos é usar elementos da própria paisagem, como citei acima, o gelo representa a postura do personagem que, até então, permanecia frio diante as várias sensações que deixou para, enfim, se juntar a vila. Além do mais, Groenlândia é de uma beleza única, impossível não ficar com vontade de visitar, parece um paraíso perdido, rodeado por águas e, assim, unindo as pessoas de uma maneira extraordinária, o que resulta em diversas estranhezas a personagem principal, que veio de uma cidade grande, um mundo completamente diferente.

A vida de pescador, simples, de trabalho quase que infinito, ilustra a importante situação econômica da ilha, tendo como Jens uma grande chave para lidar com os problemas. Diante a diversas pessoas inocentes, ele se mostra apto a resolver qualquer problema, sendo uma espécie de sistema para aquele local e também um porto seguro, um amigo. A figura selvagem vai se desconstruindo aos poucos, de forma a exibir um coração muito bonito e dedicado. A figura do ator Poul Reichhardt só exalta uma beleza natural, desenvolvendo com propriedade o seu papel, vale dizer o mesmo da Astrid Villaume que, mesmo sem ter uma cena extremamente impactante, é talentosa, apesar de alguns pequenos exageros.

Qivitoq, o nome do filme, faz referencia a um fantasma que o povo acredita existir entre as geleiras, existe essa lenda entre eles, o qual funciona para uma metáfora interessante para os dois personagens em questão, em uma das descrições da criatura sobrenatural é dito que “ele aparece à noite como um fantasma, provavelmente só quer comida. Há superstições demais”, Eva então pergunta curiosa:

O que é um Qivitoq?

Jens responde – Significa o andarilho da montanha. Quando um groelândes está encarando uma grande tristeza ou é desonrado, ele pode sair pelas montanhas para sempre.

Eva conclui, devaneando em voz alta “é uma forma de suicídio”. Esse filme em questão não é uma obra máxima da profundidade, inclusive ele se torna bem falho em diversos detalhes, mas em suma é uma oportunidade interessante para conhecer uma cultura bem diferente, a qual eu nem sabia que existia, e ainda se deparar com singelas reflexões sobre os efeitos que a solidão causa no homem, assim como a desilusão de um fim de relacionamento te deixa frágil e, no mesmo tempo, apto a novas experiências. Sem dúvida, um clássico perdido que merece mais atenção.

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