Quando o primordial do cinema são os espaços

Hong Sang-soo, um diretor moderno que trabalha os espaços de forma singular.

Quantos trabalham internamente e se dedicam em compreender o que há entre um espaço e outro? quantas vezes o silêncio e o vazio foram confundidos com a despreocupação ou incompetência? o momento exato que o homem atinge a sua completude artística é justamente quando compreende que os espaços são elementos fundamentais para a observação, seja qual for a matéria prima.

Com o imediatismo cada vez mais ascendente, principalmente com o apoio das mais diversas mídias, as palavras “parar” e “lento” ganharam fama de empecilhos mortais para a vida adulta. Tudo o que há de existir, precisa condizer com o ritmo acelerado da sociedade, caso contrário, se trata de um obstáculo para as coisas que realmente importam: status e visibilidade. Quantos sites de cinema existem e que possuem a urgência dos fatos, se veem como criadores, assim são chamados, mas a sua produção em alta escala se baseia apenas na repetição, não no argumento. O que vale mais, nesse exemplo, é a quantidade ou conteúdo? sem desmerecer os que enriquecem – espiritualmente e financeiramente – com essa proposta, mas essa interrogação é sensível ao ponto de demonstrar o interesse sincero no coração do escritor e não apenas na sua produção desenfreada. O tempo é uma ilusão criada para temermos o acordar, contudo, no campo artístico, seja na sua produção ou análise, temos a oportunidade de esquecer que essa palavra existe e, quando perdemos o interesse na classificação, estamos livres para pensar e agir como quisermos.

A inspiração desse devaneio parte do naturalismo e espaçamento visto no trabalho do Giotto di Bondone. Um artista que precedeu o Renascimento e que quebrou a convencionalidade artística ao dar espaço aos personagens de sua pintura, sendo assim, a partir do momento que se quebra o limite – ainda que isso só seja possível em doses homeopáticas – temos uma arte que explora o visceral, aproxima aqueles que observam com a sua própria realidade. É possível estender essa discussão para o cinema, onde temos filmes que trabalham com a ausência de diálogos como forma de simular o dia a dia, afinal, a existência não se sustenta apenas na comunicação verbal, mas sim infinitas expressões e movimentos, os quais são silenciosos e, por isso, facilmente confundidos com “lento”, “parado” e “irrelevante”.

Se retornarmos ao teatro como forma de ilustrar uma questão importante, percebemos que o roteiro é escrito em base ao exagero, nesse local sagrado tudo pode, todos sons são estridentes, a visão ampla é por si só a imersão que o público necessita para a provocação da visceralidade, a partir disso só temos a exibição. No cinema é o contrário, a gramática cinematográfica existe para transformar parte do todo em uma verdadeira composição metafórica, o quadro explora não só o significado real do ambiente como também utiliza parte dela para provocar uma ideia, a linguagem acontece não só pelo texto – com isso expressões, interação com o cenário, sons etc – como também a posição da câmera e o modo que ela é utilizada, ou seja, a percepção inicial do espectador fora modificada pelo artista, de modo que o quadro fale antes mesmo do diálogo. Por isso o cinema conta verdades através da mentira, pois o que sentimos como realidade representa tão somente o interno das personagens, não a totalidade.

Por conta disso, a sétima arte dialoga muito com os novos tempo, com o dinamismo citado anteriormente, ao passo que isso traduz com perfeição a postura do espectador enquanto sentado na sala de cinema ou no sofá da sua sala. A impaciência parece cria do “ritmo lento”, isso acontece porque fomos treinados desde pequenos com a linguagem norte-americana, a qual impõe que toda evolução da narrativa passa pela linguagem verbal e que a mise en scène funciona como uma agente em prol unicamente dos personagens e não o contrário.

Existem diversos filmes que desenvolvem suas personagens de forma indiferente, transformando-as em alienígenas em meio ao vislumbre do cenário e os diversos sentimentos provocados pelas decisões fotográficas ou auditivas. Com isso, a preocupação primordial do espectador passaria a ser no trajeto, nas consequências, nos intervalos e no silêncio. A câmera estagnada e um personagem caminhando de um lado do quadro para o outro, ou mesmo personagens falando em off como acontece em diversos filmes do Hong Sang-soo, essas são formas de traduzir o mundo tal como ele é: brando.

Em última estância, é primordial o estudo da nossa impaciência com os mais diversos ritmos cinematográficos que existem, é muito comum julgamentos sobre o fato de determinada obra “não dizer nada”, ledo engano, são nas ausências que se acontecem as mais maravilhosas observações sobre o homem, prova disso são nomes como o Terrence Malick, Nicolas Winding Refn ou mais extremo Lav Diaz. Que a nossa intolerância ao menos nos deixe em paz quando relacionamos com o campo artístico, pois o indivíduo que não compreende a magia do espaço, não consegue respeitar a si e muito menos a intenção daquilo que não compactua.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Arte – a religião de voltar-se a si

Existe um coração universal que pulsa em cada ser humano; existe uma trajetória que os afasta do seu âmago; e existe o olhar que absorve o mundo e é, por ele, absorvido. Enquanto indivíduo, somos frágeis e delicados. Em civilização somos máscaras. O que torna o homem capaz de violar, de ser rude e ganancioso?

A existência tem como sobremesa a sobrevivência. O homem em seu estado uniforme grita aos quatro cantos o seu status, sua formação é em base à sociedade, seu comportamento e vestimenta. Mas o homem fragmentado, bem, esse representa a mágica realidade da existência pueril. Não existiu e nunca existirá na história uma única revolução que não tenha partido do caos e da revolta, e, convenhamos, o mundo precisa de grandes rebeliões para conhecer o amanhã. Portanto, é necessário que o homem se despedace afim de encontrar o começo de sua jornada. E entre um caco de vidro e outro, eis que surge o dilema da função religiosa da arte.

A arte possui uma definição subjetiva, é claro, que ganha proporções diferentes conforme o contexto histórico ou social. Contudo, é de se notar que essa entidade nunca esteve separada do ser humano. A arte não é uma ferramenta que traz ao homem uma facilitação no seu processo de imortalidade através das suas expressões artísticasa arte é o homem no seu estado inicial. A arte é o coração universal, o big bang, é a expansão e criação do homem, que fora passado para traz conforme a civilização foi se tornando sólida. A arte enquanto sociedade é apenas registro; a arte enquanto indivíduo é uma deidade.

A religião mais intensa e verdadeira que existe é a arte, pois ela traz consigo a noção de outro estado. A terra motiva o homem a superar adversários, estruturar pensamentos e atribuir significados à todas as coisas; a convivência social obriga os indivíduos a se encaixarem em uma classificação previamente planejada por um burguês – desse modo, é válido reforçar que a classificação é o alimento preferido dos ignorantes; e o tempo, por sua vez, impulsiona o ser acovardado a criar raízes. Enquanto isso, a arte e o seu “outro estado” caminha despida por entre um paraíso imaginativo, que se adapta às necessidades de cada um. A arte é a mágica do homem, é a verdade irrevogável, é a única maneira de voltar-se a si.

No campo terreno estamos envolta de conservadorismo e limitações, mas nas expressões não existem regras, não existe ditadura, não existe preconceitos. Por isso é tão difícil unir sociedade e cultura, sociedade e educação, pois desde pequenos somos treinados a definir o redor, como se fossemos dotados dessa capacidade maçante. É preciso sentir os intervalos de um diálogo e outro, de uma atitude e outra. Perceber a beleza da maldade e a leviandade do controle. Na terra dos homens existem as leis, no estado artístico a única lei é ser. Mulheres são homens e vice-versa, o amor é um só, a mensagem não é clara e nem por isso ininteligível, a palavra não é reprimida e o manifesto é consequência e milagre social.

Adoradores da arte, fundemos uma nova percepção espiritual, a sociedade do estado artístico. Um plano astral onde podemos retornar ao primórdio. Aniquilar as classificações e jogar-nos fisicamente e emocionalmente ao desconhecido prazer de sentir. A dimensão da criatividade extrema impede a corrupção de mostrar os dentes. Enquanto isso, o ignorante permanece sentado na sala de jantar, classificando o inclassificável, rejeitando o manifesto pacífico da poesia e proibindo aquilo que nunca fez e nunca fará.

Você está convidado a fazer parte dessa sociedade. Reinvente-se!

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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